quarta-feira, dezembro 23, 2015

A vida secreta de H. G. Wells (21/SET/1866 - 13/AGO/1946)


Quando a SS de Hitler estava preparando uma lista de cidadãos ingleses proeminentes que deveriam ser imediatamente executados após a ocupação alemã na Inglaterra, o nome de H. G. Wells estava bem perto do topo. Seu crime foi ser socialista, embora, se as autoridades nazistas tivessem olhado mais de perto, iriam descobrir que ele era também um anti-semita ferrenho. O autor, que ficou conhecido como “o homem que inventou o amanhã”, foi um exemplo de contradições e sua vida privada, quase tão bizarra quanto seu gosto pelos voos de ficção científica.

Filho de um jogador de críquete profissional, Well teve uma infância repleta de dificuldades financeiras, depois que um ferimento encerrou prematuramente a carreira de seu pai. Mais tarde, tendo fracassado nos empregos de assistente de tapeceiro, assistente de farmacêutico e assistente de professor, concluiu sabiamente que o título de “assistente” não lhe caía bem.

Em 1891 casou-se com sua prima Isabel Mary Wells, mas o casamento deu quase tão certo quanto os seus diversos empregos e, passados três anos, Wells se divorciou para se casar com Amy Catherine Robbins, uma de suas alunas, com quem teve três filhos. Ela se manteve firme ao lado dele, apesar dos seus muitos casos extraconjugais.

Iniciando com A máquina do tempo, em 1895, Wells criou dezenas de histórias e romances que ajudaram a definir as convenções do gênero de ficção científica. Dentre suas inovações encontram-se as descrições ficcionais da viagem no tempo, da guerra nuclear (foi ele quem cunhou o termo “bomba atômica”) e da manipulação genética.

Sua eterna fascinação pela eugenia representou o lado sombrio de sua visão futurística, sempre tingida por um pouco mais que uma simples mancha de ódio pelos judeus. Wells acreditava na relocação compulsória das minorias raciais e étnicas, na punição dos “desviados” e no domínio de uma elite científica e tecnocrata. Era também bastante hostil ao catolicismo romano.

Esses preconceitos raramente eram demonstrados de maneira aberta em suas obras, muitas das quais permanecem até hoje como clássicos do gênero especulativo. Embora desprezado por alguns críticos da sua época – um deles notoriamente chamou A guerra dos mundos de “pesadelo interminável” –, Wells conquistou os leitores em grande parte pela excepcional exatidão de suas previsões.

Ele previu corretamente o advento do ar-condicionado, da televisão comercial, das gravações em vídeo-tape, dos aviões a hélice e do uso da força aérea em combates. Também previu com sucesso a data do início da Segunda Guerra Mundial e a chegada da revolução sexual – embora esta última talvez tivesse sido apenas uma esperança; afinal, ele era bem conhecido por ser um conquistador inveterado.

Naturalmente, nem todos seus prognósticos tiveram bom resultados. Ele não anteviu a viabilização das aeronaves antes de 1950. Sustentava que “minha imaginação se recusa a ver qualquer tipo de submarino fazendo qualquer outra coisa a não ser sufocar a sua tripulação e resolver-se ao mar”. E a sua enigmática previsão durante um jantar festivo de que a raça humana iria se destruir, perecer como espécie e retornar ao estágio primordial num período de mil anos ainda está para ser aprovada. Mesmo assim, Wells parecia estar se preparando para a sua última vingança quando escolheu seu próprio epitáfio, que diz: “Fodam-se todos vocês, eu avisei”.


A máquina de sexo

“Nunca fui um grande galanteador”, Wells certa vez comentou. Pois diga isso às incontáveis mulheres que ele levou para a cama fora dos embaraços do casamento ou aos cinco filhos que, segundo relatos, ele gerou ilegitimamente. Sim, esse intelectual baixinho, gordo e meio careca, com mãos minúsculas e voz aguda era um “mulherengo” e tanto, para usar um termo que ainda não existia em sua época, ou o “Don Juan da Inteligentsia”, como ele gostava de se classificar.

Até mesmo os atuais biógrafos de Wells o descrevem como “uma máquina de fazer sexo” e um conquistador improvável com uma “atração fatal pelas mulheres erradas”. Sua lista de amantes famosas incluía a celebrada autora francesa Odette Keun, a escritora feminista Rebecca West, a defensora do controle da natalidade Margaret Sanger, a venerável Condessa Constance Coolidge, expatriada de Boston para Europa, e Martha Gelhorn, uma atrevida socialite e correspondente de guerra que, mais tarde, se casou com Ernest Hemingway.

Então qual era o segredo de Walls? Entre outras coisas, ele não tinha consciência. “Eu fiz o que bem queria de modo que cada mínimo impulso sexual que havia dentro de mim pôde se expressar”, ele escreveu em sua autobiografia. Um defensor ferrenho do “amor livre”, Wells traiu suas duas esposas e afirmou, em determinado momento, que tinha o “direito” de agir assim com impunidade. (Não fica claro se ele achava que esse “direito” também se aplicava às esposas.) Essa descarada distribuição de “chifres” não parecia assustar muito das amantes dele. Wells permaneceu sendo um autêntico imã de garotas até perto dos seus setenta anos. Uma das amantes atribuiu suas habilidades eróticas ao fato de que o corpo dele exalava um irresistível aroma semelhante a mel.

Preso em âmbar

Um dos casos amorosos mais sórdidos de Wells foi com Amber Reeeves, uma jovem livre-pensadora de uma das famílias mais proeminentes de Londres. Os pais dela eram amigos de Wells e, como ele, defensores ferozes da liberação sexual. Depois de passar um fim de semana hospedada na casa de Wells e da sua esposa Amy, a voluptuosa Amber começou a “dar em cima” do escritor de meia-idade. Os rumores sobre o caso começaram a circular, e Wells nada fez para ocultá-los de Amy. Em pouco tempo os dois amantes passaram a aparecer junto em público e fazia planos de fugirem para a França. (Ainda não se sabe o que Wells planejava fazer com a esposa.) Em suas memórias, Wells tece elogios à “imaginatividade sexual” da sua jovem parceira, insinuando que a preferência dela por excentricidades era uma vergonha à sua esposa.

Porém, o botão transformou-se rapidamente em rosa, quando Amber engravidou e os amigos de Wells o alertaram para o fato de que ele não conseguiria sobreviver ao escândalo de um segundo divórcio em circunstância tão comprometedoras. Além disso, Amber passou a demonstrar sinais de volatilidade emocional – sem dúvida, exacerbada pela exigência de Wells de que ela o servisse e obedecesse, como se já fosse a sua esposa. Nem mesmo o melhor sexo poderia salvar esse relacionamento fadado ao fracasso.

Um abatido Wells convenceu Amber a se casar com um jovem advogado que ambos conheciam, esperando que, depois que o escândalo se arrefecesse, eles pudessem continuar se encontrando. Durante algum tempo, com a aceitação tácita da esposa de Wells, foi o que fizeram. Para acrescentar o insulto à injúria, Wells escreveu um relato do seu caso de amor, apenas levemente velado, sob a forma do romance Ann Veronica que, recusado pelo editor de Wells pela imoralidade, só foi publicado tempos depois. No dia 31 de dezembro de 1909 Amber Reeves deu a luz Anna-Jane, filha de Wells, que somente em 1928 ficou conhecendo a verdadeira identidade do pai.

O espião que o amava

Uma das amantes que Wells teve em seus últimos anos de vida teria sido realmente uma espiã soviética? Alguns historiadores chamam Moura Budberg, a baronesa nascida na Ucrânia com quem Wells teve um caso no início dos anos 1930, de “Mata Hari da Rússia”. Afirmam que ela trabalhou como agente secreta para os bolcheviques usando seus dotes na cama como meio de abrir caminho para eles nas várias capitais da Europa.

Sob o disfarce de um tórrido caso de amor, a jovem de vinte e sete anos usou desavergonhadamente um Wells já sessentão para obter acesso aos amigos dele com boas conexões políticas. Ela até mesmo arranjou um encontro de Wells com o ditador soviético Josef Stalin, depois do qual Wells descreveu o “tio Joe” como homem mais “justo, cândido e honesto” que ele já conhecera.

Com o passar do tempo Wells acabou despertando para a realidade de que estava sendo usado, embora sua paixão pela altiva nobre o tenha deixado incapaz de romper o caso. Ela engravidou dele e foi convencida a fazer um aborto – uma reviravolta irônica, dada a firme crença de Wells no controle de natalidade.

Wells encontra Welles

Seus nomes estarão ligados para sempre – e não apenas porque são parecidos. A dramatização que Orson Welles fez pelo rádio de A guerra dos mundos, em 1938, espalhou o pânico em nível nacional e colocou em cena o então obscuro diretor teatral. Segundo relatos, H. G. Wells não ficou muito contente com a adaptação nem com a controvérsia resultante, porém abrandou-se consideravelmente quando conheceu Orson, dois anos depois, numa visita que fez a San Antonio, Texas.

Quando estava a caminho da cidade, parou o carro para pedir indicações a ninguém mais que o próprio Orson Welles. Os dois passaram o dia juntos e, mas tarde, discutiram a transmissão de A guerra dos mundos em uma entrevista em conjunto pela rádio KTSA. A dupla improvável pareceu dar-se muito bem, e se Orson ficou ofendido com a referência humilhante que H. G. Wells fez a ele quando o chamou de “meu pequeno homônimo”, não chegou a demonstrar.

Nem tão bon vivant assim

Wells era famoso por ser um conversador animado, embora seja algo difícil de acreditar quando se sabe de alguns “casos” relatados pelos seus companheiros de festas. O romancista inglês C. P. Snow contou que os dois estavam bebendo e conversando no bar de um hotel e, em certo momento, o assunto se encerrou. De repente, ropendo o silêncio, Wells disparou a pergunta capaz de acabar de uma vez com qualquer animação: “Você já pensou em suicídio, Snow?”. Snow refletiu por um momento e respondeu: “Sim, já pensei”. “Eu também”, Wells retrucou, “mas só depois que passei dos setenta”. (Ele tinha setenta anos na época.)

Em outra ocasião, Wells quase fez o tempo parar quando anunciou, a propósito de nada: “Meu pai era um jogador de críquete profissional”, numa tentativa de “quebrar o gelo” com o escritor P. G. Wodehouse, autor de “Jeeves and Wooster”. “Se havia uma boa resposta para isso, você me diga”, comentou Wodehouse mais tarde. “Pensei em dizer que o meu tinha um bigode branco, mas finalmente me contentei em assentir com a cabeça e ele passou a falar sobre outras coisas.”

Passe o chapéu

Quando não estava deixando as pessoas boquiabertas com a sua conversa, Wells estava literalmente roubando as peças de vestuário delas. Uma noite, depois de mais uma festa em Cambridge, Wells voltou para casa com o chapéu de outro homem. Ele havia gostado tanto do chapéu que decidiu levá-lo consigo e, depois, escrever ao seu proprietário (cujo endereço estava anotado no interior da aba): “Eu roubei o seu chapéu. Eu gosto do seu chapéu. Vou ficar com o seu chapéu. E sempre que olhar dentro dele irei pensar em você... Eu tiro o seu chapéu pra você!”.

Vamos brincar?

Para um pacifista, Wells certamente adorava uma guerra – de brincadeira, é claro. Por toda a sua vida ele gostou de brincar com soldadinhos. Até escreveu dois livros sobre o assunto, Floor games (1911) e Little wars (1913). Publicado no limiar da Primeira Guerra Mundial, Little wars é considerado o guia de regras definitivo para o primeiro jogo de guerra recreativo do mundo; o primeiro sistema de jogo que permite que os jogadores utilizem soldados de brinquedo comercialmente disponível como peças. Por essas contribuições, Wells é reconhecido como o “pai dos jogos de guerra em miniatura”.

Mas, então, como Wells conciliava seu pacifismo convicto com sua paixão por brincar de guerra? Ele afirmava que isso o tornava ainda mais pacifista porque, quando comparado com generais de verdade, os achava bufões incompetentes. Estava bem claro que Wells temia muito pelo futuro da Grã-Bretanha se o país tivesse de comandar exércitos em batalhas reais. A primeira Guerra Mundial, na qual a Grã-Bretanha perdeu mais de 900 mil homens, muito em breve provaria que ele estava certo.

Roube este livro

Em 1925 Wells viu-se emaranhado em um processo de plágio. Uma obscura escritora canadense chamada Florence Deeks afirmava que ele roubara o material de um dos seus manuscritos não publicados. O problema começou em 1920, quando Deeks leu a resenha do romance de Wells intitulado História universal.

A obra em dois volumes continha uma estranha semelhança com a história do mundo que a própria Deeks escrevera, The web of the world’s romance, que estivera juntado poeira por mais de um ano na pilha de baboseiras da editora norte-americana MacMillan & Company, que publicava os livros de Wells – por uma impressionante coincidência, durante o mesmo período em que Wells estava escrevendo o livro dele.

Uma análise mais apurada do manuscrito rejeitado revelou que este havia sido bastante manuseado e que havia semelhanças organizacionais suficientes para levar Deeks a entrar com o processo imediatamente. Ainda assim, ela relutou. Mas quando outros editores começaram a rejeitar o manuscrito dela porque era semelhante demais ao dele, Deeks, revoltada, levou Wells ao tribunal acusando-o de “piratas literária”. A solteirona de Toronto, porém, tinha poucas chances de prevalecer ao autor de fama mundial e acabou perdendo, mas sua incansável busca por justiça fez dela uma inspiração para as escritoras do mundo inteiro que se sentiam lesadas.

Você só precisa de Wells

A crença de Wells no amor livre e na liberação feminina transformou-o em algo como o santo padroeiro da geração “paz e amor”. Os Beatles até o honraram com um lugar na capa do álbum Sgt. Pepper. Ele está na segunda fileira do alto, o terceiro no lado direito, entre Karl Marx e o iogue indiano Sri Paramahansa Yogananda.

Tudo em família

Bisneto de Wells, o cineasta Simon Wells dirigiu a refilmagem feita em 2002 de A máquina do tempo, baseada no romance do bisavô.

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