terça-feira, dezembro 22, 2015

A vida secreta de Leon Tolstói (09/SET/1828 - 20/NOV/1910)

Até experimentar uma conversão espiritual na meia-idade, Leon Tolstói, nascido no dia 9 de setembro de 1828, teve a vida de um nobre russo comum, embora tenha sido um nobre que também produziu dois dos mais duradouros clássicos da literatura mundial. Em seu diário, ele narrou suas atividades do dia-a-dia:
“Eu mandava homens para a morte na guerra, lutava em duetos para assassinar outros, perdia em jogos de cartas; desperdicei meus recursos extraídos do suor dos camponeses, castiguei-os cruelmente, desregrei-me com mulheres perdidas e enganei os homens. Mentira, roubo, adultério de todos os tipos, embriaguez, violência, assassinato... Não há um único crime que eu não tenha cometido”.
Certamente isso soa como uma existência plena, rica e recompensadora, mas para Tolstói era um peso esmagador na consciência. El buscava algo além de apenas torturar os servos até a morte e obrigar suas viúvas a fazer sexo com ele. E levou quase metade da vida para encontrar.
Nascido em uma família rica (seu primo em segundo grau era Alexander Pushkin, o grande poeta russo), Tolstói era um aluno indiferente, a quem os professores consideravam “incapaz e sem vontade de aprender”. Passou a maior parte da vida jogando e contraindo doenças venéreas, embora bem cedo fosse atingindo pela ânsia de escrever. Ainda na faixa dos vinte anos ele publicou várias grandes obras e catalogou seus  defeitos no volumoso diário, que considerava uma autobiografia confessional em progresso.
Seus cadernos revelam um homem obcecado com a morte. Veterano do sangrento Sítio de Sebastopol, durante a Guerra da Criméia, Tolstói forneceu relatos detalhados das atrocidades e execuções nos campos de batalhas. Ele tinha tanto medo da “grande ceifadora” que às vezes começava a transpirar, em pânico, convencido de que a morte iria de esgueirar por trás dele e dar-lhe um tapinha no ombro. O falecimento do seu irmão Nicholas, em 1860, serviu como mais um lembrete da sua própria mortalidade.
Embora ainda estivesse na faixa dos trinta anos, Tolstói se convenceu de que já era velho e feio demais para se acomodar e desfrutar de uma vida familiar normal. Ficou chocado quando a graciosa Sofia Andreyevna Behrs (“Sonya”), a filha de um médico, concordou em se casar com ele, em 1862. Seguiu-se, então, um período de relativa calma e estabilidade, durante o qual Tolstói gerou treze filhos e escreveu as suas duas obras-primas, Guerra e Paz e Anna Karenina.
Apesar de esses romances terem lhe dado fama e uma riqueza adicional, eles também aprofundaram a sua crença de que a vida que tinha não era virtuosa, o que o levou a mergulhar em uma enfermidade espiritual que só fez agravar seus problemas de saúde. Dizia-se que Tolstói tinha “músculos de aço e nervos de uma dama fragilizada”. Ele sofria de reumatismo, enterite, dores de dente, ataques de desmaio, malária e febre tifóide. Também sofreu uma série de pequenos derrames.
Claramente, este era um homem pronto para uma crise de meia-idade, a qual, para ele, representou uma transformação espiritual radical. Tolstói renunciou ao sexo, à bebida, ao tabaco e à carne, e passou a se dedicar a uma vida de “anarquismo cristão”. Ele comprometeu-se a viver sob os ensinamentos de Jesus, mas sem reconhecer a autoridade da Igreja Ortodoxa Russa.
Como seria de se esperar, conquistou poucos amigos no quartel-general da Igreja, sendo excomungado em 1901. Contudo, ganhou alguns admiradores entre seus servos, a quem libertou e passou a doar sua imensa fortuna, apesar de a “patroa” não ter ficado muito contente com esse altruísmo recém-descoberto.
Na verdade, apesar de todos os seus problemas, Tolstói acreditava que sabia qual era a verdadeira causa do seu sofrimento mundano. “Minha enfermidade é Sonya”, ele certa vez declarou, referindo-se à esposa. Embora ela tivesse dado à luz e criado um pequeno exército de filhos e copiado Guerra e Paz à mão sete vezes, provou ser uma irritação constante ao seu cada vez mais preocupado e espiritualizado marido. Devotada ao cenário das festas em Moscou, Sonya foi trocada pelo intenso espiritualismo do marido, ao qual se referia como “doença”. O desfile constante de peregrinos na propriedade que tinham no campo só fez piorar a situação.
Ela também ficou perturbada com a decisão de Tolstói de renunciar a todos os direitos de propriedade, até mesmo à renda obtida com a venda dos livros e com a herança da família, o que é compreensível. Quando ele começou a doar seu dinheiro prodigamente, ela subiu pelas paredes. E quando um ardiloso parasita chamado Chertkov convenceu o titubeante Tolstói a lhe doar toda a sua riqueza, foi a gota d’água.
Farta daquilo, Sonya passou a exercer mais controle sobre o marido. Ela o seguia por toda parte, espionando-o com um par de binóculos de ópera. Quando ele sugeriu que se separassem, ela o ameaçou com o suicídio. Finalmente, Tolstói descobriu que ela andara lendo seu diário às escondidas – e aparentemente aquilo foi demais.
Ele saiu de casa no meio da noite, deixando um bilhete na qual agradecia pelos 48 anos de casamento. “Estou fazendo o que as pessoas da minha idade costumam fazer”, escreveu a lenda literária de 82 anos. “Estou desistindo do mundo, a fim de passar meus últimos dias sozinho e em silêncio”.
Infelizmente para Tolstói, seus últimos momentos foram passados em uma estação de trem gélido, onde ele teve um colapso, acometido de febre e tremores. Delirante, com a longa barba branca congelada pela neve, ele morreu no chão do escritório do chefe da estação no dia 20 de novembro de 1910.

Filho de Khan
O homem que alertou o mundo sobre os perigos do “Gêngis Khan com um telefone” sabia exatamente sobre o que estava falando. Tolstói era descendente direto do guerreiro mongol.
Prêmio bobo

Tolstói jamais recebeu um Prêmio Nobel de Literatura. Embora fosse considerado forte concorrente quando essa primeira honra foi agraciada em 1901, ele foi preterido em favor de obscuro (e com um nome estranho) poeta francês Sully Prudhomme.

Nenhuma razão oficial foi oferecida, mas talvez as idéias políticas de Tolstói não combinassem com o comitê culturalmente conservador do Prêmio Nobel. Um dois juízes citou a sua “tacanha hostilidade a todas as formas de civilização”, o que quer isso signifique.

Pelo menos Tolstói ficou em boa companhia. Henrik Ibsen e Émile Zola também foram excluídos por motivos semelhantes.

Abertura total

Na noite de núpcias, Tolstói, então com trinta e quatro anos, obrigou a sua esposa de dezoito anos a ler os relatos dos seus diários que detalhavam suas aventuras sexuais com outras mulheres, incluindo as criadas.

Aparentemente, esta foi a sua idéia de demonstrar abertura e sinceridade, mas, no que se referia a Sonya, foi um desastre total. No dia seguinte, ela escreveu em seu diário sobre o asco que sentiu ao ser submetida a tal “imundície”.

Diga nyet

Em sua conversão religiosa, Tolstói não deixava nada pela metade. Acreditando que eliminar a carne da sua dieta seria a chave para dominar as paixões, ele se tornou estrito vegetariano, subsistindo á base de mingau de aveia, pão e sopa de legumes. Ele também desistiu das bebidas alcoólicas e do tabaco, e tentou convencer os camponeses da sua propriedade a seguir seu exemplo.

Em seu ensaio Por que os homens se entorpecem?, Tolstói faz uma execração dessas substâncias como drogas que as pessoas usam para anestesiar a sua consciência inquieta. “A confusão e, acima de tudo, a imbecilidade da nossa vida”, ele proclamou, “manifestam-se principalmente devido ao estado de intoxicação no qual vive a maioria das pessoas”.

Torre de Babel

Além de praticar a abstinência, o vegetarianismo e o anarquismo cristão, Tolstói era também um grande defensor do esperanto, o idioma internacional artificialmente criado para promover a paz mundial pela facilidade na comunicação. Ele afirmava que aprendera o idioma em três ou quatro horas.

Como tudo aquilo que Tolstói adotava, isso também se tornou quase uma causa santa. “Para aquele que sabe qual é o objetivo do esperanto, é imoral não promovê-lo”, ele escreveu.

Primeiro o programa, depois o irmão

Para um sujeito tão espiritual, Tolstói podia ser positivamente frio. Ele deixou o próprio irmão Dimitri definhar no leito de morte, recusando-se até mesmo a ir visitá-lo, porque ele renunciara a Deus por uma vida de libertinagem. “Acredito sinceramente que o que mais me incomodou sobre a morte dele”, Tolstói escreveu mais tarde, “foi o fato de ter me impedido de comparecer a um espetáculo na corte, para o qual eu havia sido convidado”. Uau.

Armas ao alvorecer!

Outro “amigo” que aguentou o impacto da frieza e indiferença de Tolstói foi o escritor russo Ivan Turgenev. Os dois foram grandes camaradas por um longo tempo, mas se distanciaram graças, em parte, ao crescente comportamento antagônico de Tolstói. Quando Turgenev se queixou da sua bronquite, um insensível Tolstói não lhe deu atenção, chamando a doença dele de “imaginária”. “Estamos a polos de distância um do outro”, o autor de Pais e Filhos mais tarde observou. “Se eu gosto da sopa, tenho certeza de que Tolstói irá detestá-la, e vice-versa.”

O golpe final ocorreu durante um jantar na propriedade de um amigo. A conversa transcorria muito bem até que Tolstói começou a criticar Turgenev pela maneira como ele estava criando a filha (uma que nascera fora do casamento, de um caso de Turgenev com uma de suas criadas). “Se fosse sua filha legítima, você a educaria de maneira diferente”, Tolstói declarou. Um furioso Turgenev levantou-se da cadeira e gritou: “Se você continuar falando assim eu o esbofetearei!”.

O jantar terminou, mas a rixa prosseguiu. Numa subsequente troca de bilhetes enfurecidos, Tolstói desafiou Turgenev para um duelo: até mesmo enviou as pistolas. Embora os dois gigantes literários não tenham realmente se enfrentado, eles decidiram nunca mais falar um com o outro. “Temos de viver como se existíssemos em planetas diferentes”, Turgenev concluiu.

E assim fizeram, apesar da proximidade das suas casas, reconciliando-se apenas quando Tolstói descobriu a religião e começou a fazer as pazes com todos aqueles a quem havia ofendido (uma longa lista, ao que parece). Turgenev aceitou o seu pedido de desculpas, mas os dois permaneceram distanciados.

Um livro sobre nada?

Desculpem-me, fãs do Seinfeld, mas o título original de Guerra e Paz não era Guerra: para que isso serve? como informou Elaine Benes ao romancista russo Yuri Testikov num clássico episódio da série dos anos 90. O verdadeiro título em questão era a frase de Shakespeare Tudo está bem quando acaba bem.

Fã-clube

Tolstói foi um dos primeiros escritores a atrair seguidores, dizem até que ele gerou um culto. Perto do fim da sua vida, cerca de cem fãs acamparam em volta da sua propriedade no campo, esperando uma chance de tocar no manto do grande escritor.

A última palavra

Tolstói continuou sendo um iconoclasta comprometido até o fim. Em seus instantes finais de vida, os amigos o aconselharam a se reconciliar com a Igreja Ortodoxa Russa. Tolstói se recusou. “Mesmo no vale das sombras da morte”, insistiu, “dois mais dois não são seis”.

Essa declaração é frequente, e erroneamente atribuída como sendo as suas últimas palavras. Na verdade as últimas palavras de Tolstói foram bem mais enigmáticas, embora menos profundas: “Mas os camponeses... Como morrem os camponeses?”.

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