quarta-feira, dezembro 23, 2015

A vida secreta de Oscar Wilde (16/OUT/1854 - 30/NOV/1900)


“Cultivar o prazer é o objetivo do homem”, Oscar Wilde afirmou certa vez. E se dispôs a provar o que dizia, mal completando um dia sequer de trabalho em toda a sua vida. Com exceção de um breve período de privação de dois anos como editor da revista The Woman’s, o lendário dramaturgo e criador de frases espirituosas jamais manteve um emprego fixo, o que lhe dava bastante tempo para compor as mordazes citações pelas quais ficou famoso.

Não é de surpreender que muitos desses ditos espirituosos se concentrassem no tema da preguiça. “Estive trabalhando nas provas de um de meus poemas a manhã inteira, e retirei uma vírgula”, ele declarou em uma ocasião. “À tarde eu a coloquei de volta”.

Certa vez, um mendigo lhe disse que não tinha trabalha para fazer nem pão para comer, e ele repreendeu: “Trabalho!” Wilde exclamou. “Por que você iria querer trabalhar? E pão! Por que você deveria comer pão?” (Para ser justo, a verdade é que Wilde deu alguns trocados ao pobre homem, ao final dessa “tirada”.)

Ninguém parecia se incomodar com a indolência de Wilde, contanto que ele continuasse sendo um dos mais interessantes acompanhantes para o jantar que já se viu. Ele chegou a essa excentricidade honestamente, como filho de uma poeta irlandesa nacionalista ligeiramente maluca e seu marido William, um habilidoso cirurgião especialista em ouvidos e olhos – tão habilidoso, na verdade, que um tipo de incisão cirúrgica que recebeu o nome dele é praticada até hoje.

No entanto, fora da sala de cirurgia o sobrenome Wilde era perseguido pelas controvérsias. Uma das pacientes do “papai” o processou, acusando-o de tê-la estuprado enquanto ela estava sob o efeito da anestesia. Ele perdeu a causa – um mau presságio para as futuras expectativas do jovem Oscar no tribunal.

Na escola, Wilde sempre foi um pouco, digamos, diferente. Ele se esquiava de todos os esportes “másculos” e, em vez disso, desenvolveu o gosto por decoração de interiores, adornando os espaços da sua faculdade com penas de pavão, lírios (sua flor favorita) e porcelana azul. Talvez ele tenha sido uma das primeiras vítimas notáveis do que atualmente chamamos de assédio contra os gays.

Diz a lenda que seus colegas estudantes destruíram seu dormitório e o atiraram no rio Cherwell para castigá-lo pelo comportamento “estranho”, que talvez incluísse alguma atividade homossexual. Seja como for, até hoje não está claro como, naquela época, ele percebeu a sua identidade homossexual.

Em 1884, casou-se com Constance Lloyd, mas, antes do “grande dia”, passou uma quantidade absurda de tempo trabalhando nos desenhos de modelos para o vestido de noiva – um prenúncio de que aquele casamento não seria muito convencional. Pouco tempo depois de conhecer o seu amante mais duradouro, Robert “Robbie” Ross, em 1886, Wilde informou Constance que não poderia mais ter relações sexuais com ela por medo de lhe transmitir sífilis.

Certamente, na época em que começou a produzir as peças teatrais que estabeleceram a sua reputação, na década de 1890, Wilde já havia assumido sua homossexualidade tanto quanto possível pelos padrões vigentes. Por diversão, ele gostava de se relacionar com “garotos de aluguel” das classes trabalhadoras, em encontros que ele comparava com “banquetear com as panteras”, mas também teve vários relacionamentos estáveis. Destes, o mais conturbado foi com Lord Alfred Doglas, filho do Marquês de Queensbury, famoso pela sua intransigência.

Um rancoroso homofóbico (antes mesmo que essa palavra existisse), Queensbury teve um ataque de fúria quando soube do caso de Wilde com o seu filho de vinte e dois anos. Ele ameaçou bombardear Wilde com nabos podres na noite de estréia da peça A importância de ser prudente e deixou um cartão com um recado grosseiro, identificando o dramaturgo como “sodomita”.

Instigado por Lord Alfred, Wilde entrou com um processo por difamação contra Queensbury. Ele perdeu, e as coisas pioraram a partir daí. Queensbury contra-atacou e o professor também, acusando Wilde de torpe indecência. Um detetive particular descobriu evidências do comportamento homossexual de Wilde, e as obras e cartas pessoais do autor foram usadas como provas contra eles, que foi considerado culpado e sentenciado a dois anos de trabalhos forçados na Prisão Reading. (Parado sob a chuva, enquanto esperava o transporte para o xadrez, ele ironizou: “Se é esta a maneira como a Rainha Vitória trata seus prisioneiros, ela não merece ter nenhum”.)

O escândalo colocou um ponto final na carreira de escritor de Wilde e o transformou em persona non grata nos pretenciosos círculos sociais pelos quais ele antes circulava com tanto desembaraço. A experiência na prisão fez de Wilde um homem alquebrado, tanto física como espiritualmente. Sem um tostão, ele imigrou para a França, adotou a alcunha de Sebastian Melmoth e sobreviveu graças à generosidade dos amigos.

Ironicamente, sua devoção ao prazer talvez tenha desempenhado um papel importante na sua morte. Arrancado à força da sua cama na prisão em Reading e obrigado a comparecer ao serviço na capela, depois de ter implorado para que o deixassem ficar dormindo, Wilde levou um tombo e bateu a cabeça. Depois de ter sido liberado da prisão, passou por uma cirurgia para aliviar as dores de cabeça crônicas resultantes do ferimento.

O médico realizou uma mastoidectomia usando a famosa “incisão Wilde”, que havia sido criada pelo pai dele, mas alguma coisa não deu certo, e Wilde protagonizou um caso fatal de meningite cerebral. Depois de emitir uma última frase espirituosa a respeito do horroroso papel de parede do seu quarto de hotel – “Um de nós dois terá de sair daqui” –, ele morreu em Paris no dia 30 de novembro de 1900.


Vou envolvê-lo no manto do meu amor

O que Oscar Wilde e Ernest Hemingway tinham em comum? Pouca coisa, além do gosto que compartilhavam de vestir trajes femininos. Os dois passaram grande parte da infância usando roupas de menina sob o comando das suas mães. A mãe de Wilde, Lady Jane, era uma poetisa excêntrica que gostava de trajar-se com fantasias exóticas, cada uma delas coroada com um arranjo de cabeça repleto de pedrarias e plumas.

Aparentemente ansiando por uma companhia para esse tipo de diversão, ela sentia que falhara ao não ter dado à luz uma menina. Para compensar a frustração, simplesmente fingia que o pequeno Oscar era uma menina, escondendo-o sob uma variedade de babados e saiotes vitorianos.

Mas antes que você chegue a alguma conclusão apressada, não há nenhuma ligação entre tal comportamento e a homossexualidade – embora isso talvez pudesse explicar um pouco o comportamento extremamente machista de Hemingway. (Será que alguém falou em supercompensação?)

Noiva de Drácula

Wilde enfrentou uma série concorrência pela mão de Florence Balcombe, sua primeira noiva e linda filha de um tenente-coronel. Bram Stoker, o autor de Drácula, era hóspede constante dos pais de Wilde e presença permanente no salão literário de Lady Wilde. Em 1878 ele venceu Oscar na corrida pela mão de Florence. Ao que parece, ela decidiu que um casamento sem amor com um gay assumido seria menos interessante do que passar o resto da vida dormindo ao lado do primeiro especialista em vampiros do mundo.

Desdentado

Wilde pode ter sido um espirituoso lendário, mas não era o homem mais atraente do mundo. O que mais horrorizava em sua aparência eram os dentes, escuros e fétidos, resultado do tratamento com mercúrio a que foi submetido para aliviar os sintomas da sífilis, que ele contraiu no final da adolescência. Durante toda a sua vida adulta, quando mantinha uma conversa mais próxima, Wilde sempre cobria a boca com a mão, para evitar que os dentes apodrecidos causassem nojo ao seu interlocutor.

Oeste selvagem

Oscar Wilde e a imagem de um cowboy não parecem combinar muito bem, a não ser que você esteja escolhendo atores para uma nova versão do grupo Village People. Mas o bombástico irlandês deu-se notavelmente bem com isso durante a sua passagem de um ano pelo oeste dos Estados Unidos fazendo palestras, nos anos de 1881 e 1882.

Envolto num casaco de veludo e punhos de renda, ele apresentou-se diante de grandes e interessadas platéias em pequena cidades como Leadville, Colorado, onde declarou que os mineiros locais eram “educados e refinados, quando comparados com as pessoas que conheci em cidades maiores no Leste”. Também fez um gracejo, referindo-se a uma placa em um saloon onde ele estivera, que dizia: “Por favor, não atirem no pianista. Ele está fazendo o melhor que pode”. Wilde afirmou que isso representava “o único método racional de crítica de arte com o que já deparei”.

Indo para o buraco

Durante a sua turnê pelos Estados Unidos havia um homem, acima de todos os outros, a quem Wilde desejava conhecer. Não, não era Walt Whitman, embora os dois tivessem se conhecido e até trocado um beijo (veja página 82). Era Jefferson Davis, ex-presidente da Confederação.

Wilde finalmente teve a sua chance no dia 27 de junho de 1882, quando passou rapidamente pela cidade de Beauvoir, Mississippi, a caminho de Montgomery, Alabama, onde faria uma palestra sobre arte decorativa no teatro de ópera local. A dupla, aparentemente incompatível, acabou tendo muita coisa em comum. Wilde comentou sobre as similaridades existentes entre o sul-americano e a Irlanda, a sua terra natal: ambos haviam lutado para conquistar a auto-suficiência e ambos haviam perdido. Foi mais além e declarou que “os princípios pelos quais Jefferson Davis e o sul entraram em guerra não podem ser derrotados”.

Quando à palestra, provou ser algo como um desapontamento. “Uma grande multidão de curiosos mórbidos irá recebê-lo”, declarou o Selma Times em um artigo que fazia uma prévia do evento. O Montgomery Advertiser também estava ansioso para ouvir o que o espirituoso dramaturgo teria a dizer. “Nenhuma dama que tenha ouvido falar sobre o sr. Wilde não se mostra ansiosa para vê-lo e ouvi-lo; e, diz-se, ele ‘adora o belo sexo’.” Mas as observações do irlandês sobre estética e arte, fornecidas com um sotaque tão estranho e exótico, foram desperdiçadas com aquela platéia sulista. “A palestra foi de tal natureza peculiar que deveria ter sido ouvida para ser bem apreciada”, o Advertiser resumiu em sua edição seguinte, “e uma sinopse do evento, ou mesmo um breve esboço, não poderá ser tentada”.

Dorian fica grisalho

Muitos acadêmicos consideram O retrato de Dorian Gray, o romance de Wilde sobre um nobre devasso que se utiliza de meios sobrenaturais para desafiar o processo de envelhecimento, como uma semi-autobiografia. Wilde, certamente, chegava a extremos para disfarçar os cabelos grisalhos. Na verdade, as tinturas que ele usava para colorir os cachos esvoaçantes desencadearam uma grave doença de pele, que lhe provocou coceiras enlouquecedoras no rosto, braços, peito e costa durante toda a última década de sua vida.

A Inglaterra está atrás de mim

Durante os primeiros estágios do seu julgamento por indecência, Wilde ainda se sentia confiante de que venceria. Certo dia, no Piccadilly Circus, ele encontrou um velho amigo que pareceu hesitante em tocar no assunto. Wilde o encorajou: “Você já soube do meu caso?”, ele perguntou. “Não se preocupe. Tudo está bem. As classes trabalhadoras estão do meu lado... como um rapaz”.

Um homem reabilitado

Depois que saiu da prisão, Wilde tentou, uma última vez, provar a sua “decência” ao público britânico. Ele o amigo Ernest Dowson, um poeta, visitaram um bordel na França. Somando os recursos de ambos, tinham dinheiro suficiente para que apenas um deles tivesse uma amostra dos “serviços”. Dowson encorajou Wilde a fazer uma tentativa, insistindo que a reputação dele poderia ser salva se ele adquirisse um gosto mais “convencional”, ou seja, heterossexual. 

A notícia sobre a visita se espalhou e logo havia uma pequena multidão reunida em volta da casa de má fama. Quando Wilde saiu do bordel, relatou a Dowson: “Foi a primeira vez nesses dez anos e será a última. Foi como comer carne fria”. Depois, dirigindo-se à multidão: “Mas falem sobre isso na Inglaterra, pois deverá restaurar completamente o meu caráter!”.

Apenas para membros

A abominação pública em relação à suposta “perversão” de Wilde perdurou muito depois de sua morte. Em 1912, um memorial retratando-o como uma esfinge voadora foi erguido no local da sua sepultura, no famoso cemitério Pére Lachaise em Paris. Mas o enorme falo da escultura aparentemente escandalizou um anônimo visitante do cemitério que, armado de um martelo, arrancou-o com uma pancada. (Mais tarde, os funcionários do cemitério recolheram o “piu-piu” quebrado e usaram-no como peso de papel.)  A esfinge permaneceu assexuada até o ano 2000, quando o artista multimídia Leon Johnson patrocinou uma prótese peniana de prata e a fixou na destruída virilha de Wilde durante uma cerimônia de quarenta minutos, apropriadamente intitulada de Re-membrado Wilde.

No quarto com Depp

No início de sua carreira o ator Johnny Depp passou uma noite no mesmo quarto de hotel em Paris onde Wilde havia morrido. “Eu não vi Oscar”, relatou o galã de Hollywood, embora admitisse que “fiquei um pouco paranoico com a idéia às 4 da madrugada”. A essa observação, o fantasma de Wilde sem dúvida teria respondido: “Uma pena, porque você simplesmente não faz o meu tipo”.

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