quinta-feira, dezembro 17, 2015

A vida secreta de Walt Whitman (31/MAI/1819 - 26/MAR/1892)

Atualmente Walt Whitman é uma figura querida, um “tiozão”, o “bom poeta grisalho” com a esvoaçante barba branca, mas na sua época ele era um tremendo iconoclasta. Um crítico o chamou de “a mais imunda fera do seu tempo”. O jornal Boston Intelligencer, numa resenha da sua obra máxima, Folhas de Relva, atacou-o ferozmente em termos altamente pessoais: “A bestialidade do autor é demonstrada em sua própria descrição de si mesmo, e não podemos conceber nenhum prêmio melhor que a censura por tal violação da decência. O autor deveria ser expulso de toda a sociedade decente, ficando abaixo do nível dos mais brutos. Ele deve ser algum lunático em fuga, delirando em deplorável desvario”.
A questão, claro, era o sexo. Whitman celebrou o sexo em sua poesia com uma franqueza jamais vista antes nos Estados Unidos. Sua defesa da “fraternidade” masculina, as eróticas descrições do corpo humano e as repetidas referências às virtudes da auto-satistação sexual fizeram dele o objeto da ira dos censores quase desde o primeiro instante em que ele soou o seu “alarido bárbaro” em 1855.
Whitman era também um populista norte-americano descarado. Seu louvor patriótico, em poemas como I hear America singing (“Eu ouço a América cantando”), pavimentou o caminho para centenas de melosos comerciais de automóveis, sem mencionar a campanha para reeleição de Ronald Reagan, denominada de Morning in America. Sempre que se ouve Woody Guthrie ou Bob Dylan catalogando as virtudes e os pecados dos Estados Unidos da América, eles estão seguindo o exemplo de Whitman.
Whitman gostava de dizer que ele e seu trabalho eram apenas um, que Folhas de Relva era a história da sua vida. Isso era verdade até certo ponto, mas ele também teve uma vida longe da poesia. Tinha oito irmãos, dois dos quais sofriam de uma grave doença mental. Whitman era saudável como um touro, de mente e de corpo, e se sentia enclausurado apenas quando era forçado a trabalhar em ambientes fechados, em atulhadas redações de jornais ou como professor em Long Island. Finalmente encontrou em válvula de escape para sua energia criativa em 1849, quando iniciou a primeira edição de Folhas de Relva, a expandida coleção poética que ele iria revisar e reeditar no decorrer de toda sua vida.

Seis anos depois, a publicação da coleção foi banhada de elogios pelos grandes luminares da comunidade literária norte-americana, mesmo quando provocava a indignação da imprensa. “Eu o congratulo pelo início de uma grande carreira”, Ralph Waldo Emerson escreveu a Whitman em uma carta, que não muito humilde poeta incluiu numa edição subsequente do seu livro. Whitman agora tinha seguidores, mas também se tornou um alvo.
Em 1865 o secretário do interior James Harlan o demitiu do seu emprego no Bureau of Indian Affairs como parte de uma campanha para melhorar o “caráter moral” do departamento. Ele havia encontrado uma cópia da última edição de Folhas de Relva quando estava “xeretando” na mesa de Whitman. O incidente riria instigar H. L. Mencken a comentar, muitos anos depois, que “um dia em 1865 colocou junto o maior poeta que os Estados Unidos já produziram e também o maior idiota do mundo”.
Whitman passou a maior parte dos anos da Guerra Civil como enfermeiro voluntário em Washington, cuidando dos soldados doentes e feridos. Também encontrou tempo para internar seu irmão Jesse num asilo de lunáticos. Em 1863, outro irmão, Andrew, morreu de tuberculose aos 36 anos, deixando dois filhos e uma esposa grávida e alcoólatra, que mais tarde de tornou prostituta. Não é de admirar que Whitman preferisse a companhia dos mutilados.
Depois da guerra, ele continuou revisando e reeditando Folhas de Relva. Frequentava jogos de beisebol, escrevia ensaios sobre a democracia e nutria o que, aparentemente, foi o seu único relacionamento duradouro, uma liaison com um condutor de bondes descendente de irlandeses chamado Peter Doyle.
Whitman sofreu um derrame em 1873, que deixou todo o seu lado esquerdo paralisado, indo morar na casa de um dos seus irmãos em Camden, Nova Jersey, de onde nunca mais se mudou. Passava a maior parte do tempo na banheira, espalhando água por todos os lados e cantando o Hino Nacional norte-americano, o When Johnny comes marching home e diversas árias italianas. Seus últimos anos testemunham um desfile de dignatários – incluindo Oscar Wilde – que passavam para uma “visitinha” e para beber na fonte de sabedoria do velho poeta. Debilitado por um segundo derrame em 1888, Whitman morreu quatro anos depois, com a então considerada madura e avançada idade de 72 anos.
O bom poeta gay
A orientação sexual de Whitman não era exatamente um segredo, mesmo em seu tempo de vida. Qualquer pessoa era capaz de perceber, assim que o conhecia. E, se não percebesse, uma única olhada no Song of myself – com suas descrições francamente eróticas do corpo masculino – irá convencê-la rapidamente. Este era um sujeito que gostava de homens – especialmente os do tipo da classe trabalhadora, iletrados e prontos para a ação.
Os cadernos de anotações de Whitman estão repletos de descrições de condutores de ônibus, trabalhadores braçais e outros homens “rudes e analfabetos” que ele conheceu – ou que “pegou”, para ser mais exato – nas ruas de Manhattan. No crepúsculo da sua vida, Whitman registrou os nomes, atributos e endereços desses amantes em seu livrinho preto:
George Fitch – garoto ianque – condutor... Bonito, alto, cabelo crespos, olhos escuros.
Dan’I Spencer... um tanto afeminado – dormiu comigo 3 setembro.
Wm Culver, rapaz no banho, 18 anos.
Mais tarde em sua vida, Whitman reduziu as conquistas de rua e se acomodou em um relacionamento duradouro com Peter Doyle, um condutor de bondes que conheceu em 1865, em Washington, D.C.
Doyle sem dúvida era o tipo preferido de Whitman. “Um trabalhador grande, robusto, ardoroso, divinamente generoso todos os dias”, foi como o poeta o descreveu. “Ficamos íntimos imediatamente”. Doyle falou sobre a noite em que se conheceram. “Eu pousei a mão no joelho dele. Nós nos compreendemos. Ele não desceu no final da viagem – na verdade, ele me acompanhou por toda a volta... Desde então somos os melhores amigos um do outro”. Eles permaneceriam amigos e, ao que tudo indica, amantes, até a morte de Whitman, em 1892.
Ainda assim o relacionamento homossexual, por mais discreto que fosse, era considerado suficientemente escandaloso para que Whitman se esforçasse ao máximo para ocultá-lo. Ele chegou ao ponto de trocar os pronomes em muitos dos seus poemas mais eróticos de “ele” para “ela”, suprindo passagens e até mesmo retirando seleções inteiras das últimas edições de Folhas de Relva.
Quando escrevia sobre Pete Doyle em seus cadernos de notas, ele o identificava como “16.4” (pelas iniciais “P”, a décima-sexta letra, e “D”, a quarta letra do alfabeto). Em outros lugares, referia-se a Doyle como “ela”. Quando indagado por um entrevistador se o seu ideal de amizade masculina envolvia a união homossexual, um Whitman em pânico afirmou que era pai de seis filhos ilegítimos com uma amante. É desnecessário dizer que o paradeiro dessa suposta amante jamais foi descoberto.
Eu me toco
Muitas dissertações acadêmicas foram escritas sobre o suposto amor de Whitman pela masturbação. De fato, é difícil ler seus poemas, com suas constantes referências ao toque (sem mencionar versos como Extraindo do úbere do meu coração o contido gotejar), sem se chegar à conclusão de que o maior poeta da América era também o seu mais dedicado praticante da “auto-satisfação”.
Não é de causar espanto que, nos tempos de Whitman, isso normalmente fosse chamado de “auto-abuso”. A masturbação, ou a sua designação clínica, “onanismo”, era considerado a porta de entrada para o homossexualismo. Foi descrita como “a pior forma de indulgência venérea” por alguém não menos eminente do que Sylvester Graham, o famoso reformista dietético do século XIX e criador dos graham crackers.
Abe, o Baby
Whitman cultivava uma série “paixonite” por Abraham Lincoln, a quem louvou em seu poema O captain! My captain!. Quando trabalhava como enfermeiro em Washington, D. C., durante a Guerra Civil, Whitman frequentemente via o presidente passar pelas ruas com sua guarda de cavalaria. Sua descrição por escrito desses encontros não deixa dúvida de que ele considerava o desengonçado lenhador um verdadeiro “gato”:
“Vejo muito claramente o rosto moreno escuro de Abraham Lincoln, com as linhas fundas, os olhos sempre voltados para mim com uma profunda e latente tristeza na expressão.
...Provavelmente o leitor tenha visto fisionomias (geralmente de velhos fazendeiros, capitães do mar e outros tais) que, por trás da sua simplicidade, possuem características tão sutis, e no entanto são palpáveis, tornando seus rostos quase impossível de se descrever, como um perfume silvestre ou o sabor de uma fruta, ou o tom apaixonado de uma voz – e assim era o rosto de Lincoln, a cor peculiar, as suas linhas, os olhos, boca, expressão. De beleza técnica nada havia – mas aos olhos de um grande artista fornecia um raro estudo, um banquete e fascinação.”
Companheiro Wilde
Se dois grandes autores estavam destinados a se conhecer, só poderiam ser Walt Whitman e Oscar Wilde. Os dois ícones gays se encontraram pela primeira vez em janeiro de 1882, quando Wilde visitou Whitman em sua casa em Camden, Nova Jersey. O escritor irlandês confessou ao poeta norte-americano o quanto amava Folhas de Relva, que sua mãe costumava ler para ele quando criança. Whitman respondeu beijando Wilde direto da boca.
Eles beberam vinho de sabugueiro e chocolate quente e conversaram sobre poesia. Algum tempo depois Wilde enviou ao velho poeta um retrato de si mesmo, como lembrança. Avaliando o encontro, depois do fato, os dois de mostraram encantados. Whitman descreveu Wilde como “um jovem grande, belo, atraente”, enquanto Wilde gabava-se aos amigos que “o beijo de Whitman permanece em meus lábios”.
Cabeça inchada
Whitman viveu na época de ouro da frenologia, o estudo das características físicas do crânio para determinar as características mentais do cérebro. Embora a teoria seja hoje descartada como ura bobagem, os frenólogos do século XIX conquistaram a adesão de muitas celebridades, incluindo Whitman.
O poeta frequentou salões de frenologia e assinou jornais frenológicos durante toda a década de 1840. Em 1849 até mesmo submeteu seu próprio crânio à leitura de um praticante de frenologia. Descobriu-se que a “cachola” de Whitman tinha um tamanho acima da média, era “maravilhosamente desenvolvida” e indicativa de elevados níveis de amizade, solidariedade e auto-estima. Ele recebeu notas baixas por “indolência, tendência ao prazer da volúpia... uma certa tendência imprudente para o impulso de desejo animal... (e) superabundância de pura humanidade”. Não é de admirar que ele tenha se tornado um dos principais defensores dessa pseudociência. Ela o descrevia perfeitamente.
Perdendo a cabeça
O século XIX foi o auge dos assistentes de laboratório de “mão-furada”. Esperando contribuir para o avanço da ciência, Whitman doou seu cérebro para a Sociedade Antropométrica Americana. Mas um técnico descuidado derrubou a matéria cinzenta do “bom poeta grisalho”, e depois falhou em juntar todos os remanescentes que se espatifaram. A “meleca” foi para o lixo. Quando a notícia se espalhou, seguiu-se uma corrida ao banco de cérebros. O inventário de miolos das celebridades da Sociedade encolheu de duzentos para dezoito em menos de uma semana.

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