quarta-feira, dezembro 09, 2015

Demônios da Tasmânia não tocam mais aqui..


Sei que foi em janeiro de 2000. Não lembro o dia, mas era uma quinta-feira. Os ensaios da BICA começariam naquela noite. Eu me abanquei em uma mesa que o Chicão Cruz dividia com o Alberto Simonetti e cantei a pedra:

– Falei ontem de manhã cedo com o Mestre Pereirinha da 14 e ele me disse que a banda Metal Soldado não vem pra cá hoje. Aconteceu alguma merda?...

Chicão, que já havia detonado meia garrafa de uísque Logan, minimizou o fato:

– Não. É que o Neguinho da BICA contratou uma banda nova de músicos da PM e eles vão vir aqui mostrar o repertório. Se a gente não gostar, chamamos a Metal Soldado de novo!

Por volta das 20h, os músicos começaram a chegar. O Neguinho da Bica, vulgo Jomar Fernandes, foi lá pra nossa mesa para acompanhar a reação dos jurados (eu, Chicão e Simonetti).

Chicão já foi metendo o malho:

– Porra, Neguinho, você tem certeza que esses caras são da PM?! Aquele vocalista, além de meio manco, parece um refugiado de guerra de tão magro... A nossa briosa PM está passando fome?!

Aí, se virando pra mim:

– Diz aí, poeta, mas esse vocalista não lembra a foto da capa daquele disco ao vivo de um concerto que o George Harrison fez pra arrumar comida pros refugiados daquele paisinho de merda ali perto da Índia, como é mesmo o nome?...

– Biafra! – respondi, de sacanagem.

– É, ele parece mesmo com um refugiado de Biafra, mas aquilo nem sequer é um paisinho de merda e fica na África Ocidental... Biafra era um estado secessionista no sudeste da Nigéria, que depois de três anos de guerra civil voltou pra Nigéria pedindo pra cagar porque a população estava morrendo de fome... Estou falando daquele outro que fica na Ásia, entre a Índia e Mianmar, e é campeão mundial de lepra... – insistiu ele.

– Bangladesh, porra, Bangladesh! – respondi, já morrendo de rir.

– É, mas o nome Bangladesh é muito chique... Esse filho da puta deve ser mesmo de Biafra... É, poeta, você tem razão... Ele é o nosso Biafra...

Pronto. Chicão Cruz havia acabado de nomear o vocalista da banda (e até hoje não sei o nome verdadeiro dele, juro!).

Durante uma hora, eles tocaram cerca de 20 marchinhas e foram muito aplaudidas pelo público. Nervosíssimo, Jomar Fernandes esperava nosso veredicto final. Chicão não estava satisfeito.

– É, eles tocam bem, mas os meninos da Metal Soldado trazem junto aquelas mulatas gostosas, bundudas, de mamonas assassinas... Essa banda aí só tem gente feia... Porra, Neguinho, já não vem mulher nesse boteco imundo e com essa banda cheia de bichos feios aí é que não vem mesmo...

Jomar Fernandes não se deu por vencido e pediu minha ajuda:

– Seja sincero, meu poeta. Os caras são feios, mas tocam pra caralho, né não?... Tocam pra caralho! Em termos de marchinhas de carnaval, eles são uns demônios...

– Só se forem os demônios da Tasmânia, Jomar, porque os caras são mesmo feios de dar dó... – ironizei.

Pronto. Eu e Chicão, na putaria, havíamos acabado de criar a banda de sopros mais badalada de Manaus: Biafra e os Demônios da Tasmânia.

Eles foram contratados pelo Jomar Fernandes e se transformaram no símbolo musical da BICA por conta das lambanças que a gente publicava nos jornais elogiando os sacanas.

A primeira vez que eles foram citados em um jornal foi por meio de um artigo que publiquei no Amazonas em Tempo no dia 20 de fevereiro de 2000. É só conferir no livro “Amor de BICA”, lançado em 2005.

Pois bem. Na quinta-feira da semana passada, por meio da lovely Ana Cláudia Soeiro, soube que eles agora se acham os reis da cocada preta.

– Aqueles escrotos dos Demônios da Tasmânia nunca mais tocam aqui na BICA! – vociferou ela, visivelmente irritada.


Nem me interessei em saber o motivo de tanta irritação, mas alguma coisa a turma do Biafra andou aprontando. Pode isso, Arnaldo?

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