sexta-feira, dezembro 11, 2015

Faroeste Caboclo ou Não falem dessa mulher perto de mim...


Conheci a Marie Jolie em novembro de 2012. Ela havia completado 19 anos no dia 21 de agosto, mesmo dia de fundação do glorioso Vasco da Gama. Foi amor à primeira vista por que ela era vascaína e eu, idem. A química bateu e começamos a namorar no mesmo dia. Lavoisier explica isso, na segunda ou terceira lei.

Marie Jolie (“Maria Bonita”, na versão cangaceira do grego Demis Roussos) me contou que estava no segundo semestre de Biblioteconomia na Universidade Federal do Amazonas, mas que gostava mesmo era de Ciências Exatas. Ficou surpresa quando soube que eu era Engenheiro Eletrônico, mas gostava mesmo era de Ciências Humanas e sobrevivia como redator publicitário. Choses.

Quando nos despedimos, eu a presentei com um de meus livros (“Alô, Doçura! - Os Protocolos Secretos da AMOAL”). Ela ficou radiante. Eu era o primeiro escritor que ela conhecia pessoalmente e, ainda por cima, estava recebendo um livro autografado. Devia acreditar que escritores são seres de outra galáxia. Meninas de 19 anos acreditam em duendes.

Na época, Marie Jolie era rainha de um time que estava disputando o Peladão e havia começado a disputar a série de eliminatórias para rainha da competição enfrentando outras 450 candidatas. Falei que iria torcer por ela.


Duas semanas depois, ela foi classificada para ficar entre as rainhas finalistas do Peladão e convidada a se mudar para o barco do jornal A Crítica, na 1ª edição do “Peladão a Bordo”. Nervosa, veio me contar a presepada. Falei que iria continuar torcendo por ela.

Marie Jolie riu muito por que achou que eu iria ter alguma crise de ciúmes. Fui realista: “Menina, se um dia você resolver me colocar uma galha não sou eu que vai evitar. Isso é uma decisão exclusivamente sua e decididamente pessoal. So sorry, mas não tenho como impedir o desastre.”

Eram 12 candidatas participando de provas ridículas em uma espécie de “reality show” mambembe, que iam sendo eliminadas ao sabor das circunstâncias.


A Marie Jolie passou duas semanas no barco e saiu da disputa após uma sessão de fotos, quando só restavam seis candidatas.

Os jurados acharam que ela era pouco fotogênica. Confiram aí:





Em dezembro, ela me contou que ia disputar o título de rainha de bateria do GRES Reino Unido. Não fiz nenhuma objeção. Pelo contrário.

Acabei indo lá, em companhia do fotógrafo e pesquisador da MPB, José Roberto Pinheiro, o “Mestre Pinheiro”, e de mais meia dúzia de amigos recrutados no Bar do Manuel pra dar uma força pra “nossa” candidata.


A Marie Jolie era, disparada, a mais bonita e gostosa de todas as seis candidatas, mas ficou em último lugar, em uma manipulação de notas tão grotescas que nunca mais coloquei os pés na escola.

A nossa candidata ficou arrasada. Negociei com ela: “Esquece essa porra de carnaval e faz vestibular para Ciências Exatas, que eu pago teu curso e te ajudo no que for possível”.

Ela fez e passou para o curso de Engenharia de Tecnologia em Petróleo e Gás, na Fametro.

Quase no final do ano, fui com ela e Mestre Pinheiro para o lançamento da marchinha da Banda do Boulevard, pra ver se ela esquecia a roubada do GRES Reino Unido.

No evento, contei ao produtor cultural Mota do Samba o que havia acontecido na escola de samba dos “meninos do Morro”.

Rindo muito da presepada, ele pediu pra Marie Jolie ir a um ensaio do GRES Vitória Régia. 


Ela foi e saiu de lá como musa da bateria. Ficou feliz pra caralho.

Em janeiro de 2013, Marie Jolie me disse que ia fazer um teste para ser a musa da vinheta da Rede Tiradentes de Televisão, que transmitia o desfile das escolas de samba. Não fiz nenhuma objeção. Pelo contrário.

Assim que soube, telefonei para o Ronaldo Tiradentes, dono da emissora, e cantei a pedra: “Meu irmão, minha gata está indo aí fazer um teste pra essa tua lambança de musa do carnaval. Se ela não ganhar a vaga, termina o namoro comigo. Vê aí o que você pode fazer para não me abandonar em pleno tiroteio, canalha!...”

Marie Jolie foi fazer o teste e conquistou a vaga. (Só de curiosidade, passei na emissora uma semana depois para ver o desempenho das outras oito candidatas. A Marie Jolie dava de dez a zero em cada uma delas, com a mão nas costas. Papo sério!)


No carnaval de 2013, a Marie Jolie roubou a atenção dos fotógrafos. Não era pra menos. Além do corpo escultural, do rosto quase infantil e de sambar feito uma louca, ela ostentava uma fantasia belíssima, riquíssima e caríssima.

Sei disso porque paguei a fantasia do meu próprio bolso.

É que faltando uma semana para o desfile no Sambódromo, os dirigentes do GRES Vitória Régia avisaram pra ela que não tinham mais verba para pagar o estilista responsável pela confecção do esplendor.

Marie Jolie quase pirou o cabeção. Ela havia ensaiado de segunda a segunda, durante dois meses, seria uma sacanagem não desfilar no dia.

A fantasia já estava pronta, mas o estilista só liberava vendo a cor da grana. Aquela presepada extemporânea iria desfalcar meu orçamento, mas, foda-se, a Marie Jolie iria ficar feliz.

Acabei sendo o Cristo crucificado e me limitei a assistir ao desfile pela televisão.


Fiz um post sobre o desfile dela, usando como fundo musical um conhecido hit do Reginaldo Rossi, que os tarados de plantão podem conferir clicando aqui.

Depois do carnaval, durante uma conversa que tivemos no mocó, Marie Jolie me falou que nunca tinha saído de Manaus nem para conhecer Iranduba. Que seu grande sonho desde menina era viajar,  bater pernas, conhecer outros lugares.

Em março, levei ela e sua mãe para conhecer Itacoatiara. Foi a primeira vez que as duas se aventuraram a tomar banho de rio (e logo no Rio Urubu, que quase não tem piraíba, pirarara e piranha preta... Os mais céticos podem conferir aqui.)

Acho que Marie Jolie tomou gosto pela coisa. Em junho, ela e um grupo de amigas foram conhecer o Festival de Parintins. Perguntou se eu queria ir junto. Não, não dava, eu tinha muito trabalho pra fazer na agência. Primeiro as coisas primeiras.

Em setembro, ela e outro grupo de amigas foram passar duas semanas no Rio de Janeiro. 

Dessa vez, ela foi sem me avisar. Fiquei furioso, mas não esquentei a moringa. Eu sabia (sei) que ela nunca foi piriguete. Não havia o menor perigo de ela me trair.


Os desacertos começaram a surgir de uma maneira banal. Eu vivia exigindo ver seus boletins na faculdade para ver se valia a pena continuar investindo no seu futuro profissional. Para minha surpresa, ela estava indo bem.

Ela tinha dificuldade em descobrir coisas triviais na Web. Às vezes, eu lhe ajudava nas pesquisas, outras vezes não. Ela subia nas tamancas. Pô, mas o curso era dela, não meu...

O certo é que de tanto eu questionar como estava o seu (dela) progresso na faculdade, ela começou a reclamar que eu pegava muito no seu pé. E a gente acabava brigando por causa disso.

Passamos o ano-novo juntos, mas eu sabia que alguma coisa estava para acontecer.


Pô! De repente, a Maria Jolie queria se dedicar a ser apenas mais um rostinho bonitinho na multidão e mandar às favas o curso universitário?! 

Ela que escolhesse esse caminho, só que eu não ia mover uma palha nesse sentido.

Não ia atrapalhar, mas também não ia ajudar.

Em 2014, ela desfilou de novo pelo GRES Vitória Régia, apesar dos meus protestos. Me limitei a comprar algumas camisas customizadas com sua estampa para ajudar no pagamento da fantasia. Dessa vez, sequer assisti ao desfile.


Eu queria que ela se dedicasse aos estudos. Ela queria ser feliz e preferiu trancar a faculdade no início do ano pra correr atrás do seu sonho. Fiquei puto.

Depois do carnaval, ele fez pequenos trabalhos como modelo e aguentou estoicamente minhas imprecações pelo fato de não estar mais estudando.


Eu não tinha nada contra os trabalhos em si, mas contra a miséria que pagavam. Ela sofria durante dois, três dias para receber uma merreca que sequer pagava sua condução para a faculdade...

Porra, ela que abandonasse aquela merda e se dedicasse integralmente aos estudos que eu bancaria (como bancava) sua condução. Simples, assim.

O diabo é que ela ficava constrangida em ser economicamente dependente de mim. “Quando você se formar e arrumar um emprego, menina, você me manda pra puta que pariu”, eu explicava. “Por enquanto, vai levando como der, já que não pego no teu pé nem te proíbo de fazer porra nenhuma...”

Ela ria, mas continuava intransigente. “Eu nunca dependi de homem nenhum, meu amor, nem do meu pai, e sei que você só quer me ajudar. Mas não é isso que quero da minha vida...”



Em abril, conversando no mocó, tentei convencê-la pela última vez. “Minha filha, você já fez dois períodos de um curso de tecnologia de apenas seis. Perdeu um período, tudo bem. Você retoma o curso no segundo semestre e se forma em 2016. Não é tanto tempo assim pra me aturar...”

Ela ria pra caralho e o riso dela iluminava o mundo. Durante a conversa, Marie Jolie reconheceu que só havia perdido tempo desfilando no carnaval e que já estava na hora de colocar a cabeça no lugar. Sim, em agosto ela retomaria o curso.

O foda é que as resoluções dela não duram uma semana, quanto mais três meses.

Em maio, Marie Jolie foi para Cancún, no México, com um grupo de amigos, supostamente para fazer um ensaio para uma revista de moda. Ela ia ganhar 500 dólares.


A merda é que ela viajou sem me avisar, três dias depois de eu lhe dar mil dólares para pagar o pedreiro que havia acabado de reformar seu apê. Fiquei puto e terminei o namoro sem sequer me dar ao trabalho de também avisa-la. Simplesmente passei a ignorar seus telefonemas e torpedos.

Já falei sobre o assunto aqui.

A Marie Jolie não entendeu nada por que nunca havia me traído. Ficou brava, mandou uns torpedos escrotos, querendo se justificar, telefonou quase todo dia durante duas semanas. Não dei a mínima;

Soube em julho que ela conquistara o título de Rainha Caipira do Amazonas, defendendo as cores da quadrilha Juventude da Roça, da Cachoeirinha, e que ia disputar o título nacional em Boa Vista (RR).


Marie Jolie disputou com 40 representantes de outras agremiações folclóricas e me mandou um convite, via torpedo, para a festa da vitória, na sede da Juventude na Roça. Não dei nem confiança.

Em outubro, o Áureo Petita me contou que ela havia viajado para o Paraná, onde morava sua mãe, supostamente para dar um novo norte à sua vida agitada.


Achei que ela ia morar de vez por lá, mas ela voltou em novembro. Continuei evitando falar com ela pessoalmente. Uma vez ou outra, trocávamos torpedos pelo celular, aquelas bobagens do tipo “O que você está fazendo?”, “Estou com saudade”, “Quando vamos nos ver de novo”, essas babaquices que não levam a nada.

Em janeiro desse ano, ela descobriu que estava com diabetes do Tipo 1 e me avisou via torpedo. Tinha perdido 20 quilos. Estava muito deprimida.

Soube também pelo Áureo Petita que sua mãe havia chegado a Manaus para ajuda-la a controlar a doença. Não dei a mínima.

Só voltei a vê-la pessoalmente, em julho, mais de um ano depois de termos terminado nosso caótico namoro, quando ela novamente foi escolhida para ser rainha da quadrilha Juventude na Roça. Foi durante um ensaio na quadra do GRES Andanças de Ciganos.


Eu tinha ido lá fotografar o ensaio para o site do jornal Maskate. Fiz as fotos, conversei com alguns brincantes e fui embora. Ela me viu e achou estranho eu não ter ido falar com ela. O papo que trocamos depois, via torpedo, não foi muito agradável.

– Porra, moleca, você está só pele e osso... Esse teu namorado deve ser muito reimoso... Te deixou no bagaço! – ironizei.

Ela não entendeu a ironia e ficou tiririca:

– Estou assim por causa da minha doença, mano... Também estou sem namorado desde março... Se você não gosta mais de mim, tudo bem. Agora, por favor, não vem me humilhar desse jeito que já estou me lascando sozinha para controlar essa diabetes...

Pedi desculpas, claro. Ela adorava meu humor sarcástico. Se não estava gostando mais, alguma coisa de muito grave havia acontecido.

O certo é que voltamos a namorar na semana seguinte. Ela me adicionou de novo no seu FB, provavelmente pra me monitorar. Não me incomodei.


Em agosto, ela me contou o enredo do novo filme:

– Amor, desisti de vez da faculdade e vou fazer um curso técnico. Preciso me manter sozinha, ter uma profissão, um emprego decente, por que de repente você me deixa e eu fico fodida outra vez... Meu avozinho morreu atropelado no começo do ano, minha mãe voltou pro Paraná, não tenho mais ninguém pra segurar minha onda aqui em Manaus. Preciso ir à luta e quero que você me ajude! Agora é sério!

Não fiz nenhuma objeção. Ela começou a fazer um curso técnico de Radiologia, em uma escola particular. Voltei de novo a ser seu provedor.

Em setembro, Marie Jolie apareceu com outra novidade: havia sido escolhida para ser porta-bandeira do GRES Mocidade do Coroado, cuja quadra fica perto de sua residência.



Segundo ela, os ensaios puxados serviriam para ajudar no tratamento da sua diabetes descontrolada, que de vez em quando chegava a 400, 500, aumentando o risco de um coma por hiperglicemia.

Demonstrei minha preocupação. “Porra, moleca, você já está debilitada pra caralho. Vai agora segurar aquela fantasia de porta-bandeira que pesa mais de 30 quilos durante 55 minutos de um desfile? Você está querendo é morrer...”

Ela riu pra caralho. Aí, me contou, radiante, que já havia ganhado dez quilos de músculos, o que me pareceu um exagero. Mas estava bem mais bonita do que há seis meses. É, não sou reimoso...

Na semana passada, ela veio me contar que havia perdido um módulo do curso de Radiologia por conta de várias internações no hospital para cuidar da diabetes.

Falei pra ela não esquentar, já que poderia fazer o módulo perdido pela parte da manhã e o curso normal à tarde no próximo semestre.

Hoje, soube que a maluca pegou a estrada com um grupo de amigos pra ir de carro até o Paraná, para passar o Natal e o Ano Novo com a mãe e o resto da parentada.


Como sempre, não me avisou. Como sempre, me bloqueou no FB. Como sempre, achava que eu não ia descobrir. Como sempre, já deve ter mandado às favas o curso de Radiologia.

Deixou escrito no FB: “Se fosse pra ficar em um só lugar, teríamos raízes ao invés de pés. Então vou bem ali me aventurar...”

Sim, eu mereço. Fazer o que? Só não falem dessa mulher perto de mim. Pelo menos, enquanto a maluca não voltar...



PS: Agora, 4h40 da manhã, recebo esse torpedo da doida: “Tô aqui na casa da mamãe. Uns amigos tavam vindo de carro pra São Paulo e eu aproveitei a carona e vim pra cá, pra mamãe, mas dia 20 eu tô de volta, baby. Desculpa eu não ter te avisado, mas é que decidi um dia antes. Daqui a dez dias tô aí com vc amor. Beijão!”

Pra quem não acredita no imponderável, está de bom tamanho. Thanks a lot, meu pai Ogum! Êparrei!

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