quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Batuque é privilégio...


O jornalista Samuel Wainer conferindo as rotativas do Última Hora

Por Lan

A Samuel Wainer, devo a oportunidade de ter ficado no Brasil, a partir de 1952. E não é para esnobar não, mas integrei sua equipe ao lado de companheiros como Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Otto Lara Rezende, Nélson e Augustinho Rodrigues, Joel e Paulo Silveira, Justino Martins, Hélio Peregrino, Nassara e tantos outros monstros sagrados da imprensa brasileira.

Seu jornal, Última Hora, e mais tarde Flan, o excelente semanário que também fundou, nasceram na Praça Onze. Infelizmente, não a antiga, aquela sentenciada no imortal samba de Herivelto Martins e Grande Otelo: “Vão acabar com a Praça Onze/ Não vai haver mais escolas de samba, não vai...”, e sim a outra, a do samba de Waldemar Ressurreição e Evaldo Rui: “Tu fostes antigamente a Praça Onze/ Teu bonde de tostão era ideal...”.

Praça pranteada antes e depois da avenida Presidente Vargas pedir passagem. Mas que continua existindo na encruzilhada de todos os caminhos da velha boemia carioca, que levam à Lapa, Cinelândia, Praça Tiradentes, Praça Mauá, Estácio (pra não falar em Mangue), e ao lado da Central do Brasil, de onde partem os trens para os pagodes suburbanos, à sombra da tradicional Favela.


Foi nela, na querida Praça Onze, onde, modéstia a parte, começou meu aprendizado carioca, detrás do primeiro bloco de sujos que passou ouriçando o Carnaval de 53.

Nesse ano, as escolas de samba ainda desfilavam numa passarela montada na avenida Presidente Vargas entre Rio Branco e Uruguaiana. Ganhou a Portela. Mas eu não vi. O carnaval tinha me engolido na véspera.

Tive que me conformar em assistir à segunda colocada, Império Serrano, desfilando na quarta-feira de cinzas em Niterói.

Desse primeiro contato com uma escola, guardo na memória a imponente beleza de Olegária, destaque pioneiro da Serrinha, a leveza de seus passistas, o ritmo alucinante de sua bateria, e a roda de samba que alguns integrantes da escola improvisaram alegremente na barca da Cantareira de volta ao Rio de Janeiro.


Entre eles, nomes que mais tarde conheci e que respeito até hoje, como o de Silas de Oliveira – a meu ver, o maior compositor de samba-enredo de todos os tempos – Fuleiro, Mano Décio, Aniceto, Ivone Lara.

O refrão na boca de todos: “A baiana me pega, me joga na lama, eu não sou camarão, camarão me chamam...ai, baiana!...”.

Negras, mulatas, cabrochas e morenas maravilhosas rindo, provocando, incentivando os partideiros. Bocas carnudas, confortáveis. Olhos rasgados de malícia e sensualidade. Trejeitos de Lundu.

Foi amor à primeira vista.


Amor mais forte e colorido talvez, do que aqueles que em outras etapas da minha vida, fizeram de mim um gaúcho no interior do Uruguai e da Argentina, ao som, das quenas, guitarras, charangos e bombos legueros.

Ou milonguero portenho nos lamentos do bandoneón de Anibal Troilo (Pichuco) em Buenos Aires.

A esse amor, porém, fiquei devendo meu primeiro livro, que é este.

Ainda nesse ano, e pela mão de Édson Carneiro, fui conhecendo o terreiro da Unidos do Salgueiro, seu lendário Casemiro Calça Larga, e um porre mais lendário ainda, de conhaque de Alcatrão.

Mangueira do Buraco Quente e do angu da Ifigênia.


Portela, sua jaqueira e seus admiráveis anfitriões: Caninha Verde, Manoel Bam Bam Bam, Rufino, João da Gente, João Calça Curta, Armando Santos e tantos outros bambas que me deram régua e compasso para esta crônica gráfica das escolas de samba.

Tenho acompanhado a vida de quase todas elas, a partir de 53, e a fantástica trajetória por elas percorrida.

Principalmente no desfile deslumbrante que apresentam no domingo de Carnaval.

Hoje em dia, sem exagero, o maior espetáculo popular do mundo.

Muitas coisas mudaram, algumas para melhor, se considerarmos a riqueza, o luxo, o requinte, a sofisticação com que desfilam a maioria delas, elementos positivos de julgamento.

Outras, infelizmente, aquelas que detalhavam a criatividade do sambista, nos seus aspectos mais subjetivos, nas suas expressões mais autênticas, se não se perderam, diluíram-se no gigantismo das escolas.

Que foram invadidas a partir dos anos 60, por uma verdadeira multidão de entusiastas “ciscadores”, que preferem brincar no carnaval das escolas, a ficar olhando o carnaval das escolas.


E isso, porque o carioca é antes de mais nada um folião nato, que gosta, quer e tem que participar do carnaval.

Não me cabe, neste livro, polemizar sobre este particular, e sim aplaudir, sem pieguismo, mais esta vitória do negro brasileiro que, com seu talento criador, contagiou a cidade inteira e, generosamente, como dizia meu irmão Candeia: “Damos do nosso coração/ alegria e amor/ a todos sem distinção de cor...” e a oportunidade de participar dessa festa.

O gigantismo das escolas, porém, determinou a necessidade inevitável de maior espaço.

Na medida em que elas foram crescendo, o local do desfile cresceu também.

Assim, da antiga passarela, as escolas do primeiro grupo, passaram a desfilar na avenida do Rio Branco, entre Almirante Barroso e Santa Luzia.

Daí, voltaram outra vez para a avenida Presidente Vargas, só que então, ao longo de quase um quilômetro, que é a distância entre a igreja da Candelária e a avenida Passos!

Este foi sem dúvida, o mais digno, o melhor dos cenários oferecidos às escolas, e à multidão de espectadores que se aglomeram anualmente para aplaudi-las.


Acredito ter sido o maior espaço, e a necessidade de se ocupar esse espaço, os grandes responsáveis pela série de inovações apresentadas pelas escolas visual, coreográfica e até estrutural do desfile, nos últimos anos.

Já na avenida Rio Branco, Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, tinham revolucionado totalmente o estilo tradicional das fantasias e alegorias do Acadêmico do Salgueiro, com “Quilombo dos Palmares”.

Deslumbraram a platéia com um desfile de “bom gosto” que deu margem a inúmeras polêmicas entre “puristas” e adeptos dessa verdadeira “bossa nova visual”.

Mas na verdade, o tão controvertido “bom gosto” desses dois admiráveis artistas, que fez do Salgueiro realmente uma escola diferente, foi, a meu ver, a maior demonstração de amor e respeito já oferecida por dois brancos à cultura africana e afro-brasileira dentro de uma escola.

E uma contribuição estética, que jamais pretendeu agredir a tão decantada autenticidade.

Pois autenticidade não é sinônimo de ignorância.

Devolvendo ao negro brasileiro o que o próprio negro criou, em forma de esculturas, máscaras, adereços, vestimentas etc., eles mostraram o que de mais nobre e belo herdamos dessa cultura.


Uma escola de samba, por outro lado, não tem compromisso folclórico cristalizado.

Ela participa de uma competição, e da maior ou menor criatividade que apresente em cada um dos quesitos julgados, depende seu sucesso.

Daí, toda inovação que não agrida suas origens é válida.

A beleza visual que Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, trouxeram na avenida, despertou tamanho apoio popular, que mesmo a revelia, as campeoníssimas Portela, Império Serrano e Mangueira, tiveram que modificar a tradicional ingenuidade de seus figurinos e alegorias, para concorrer com Acadêmicos do Salgueiro.

Sobreveio assim a necessidade de se contratarem profissionais do “metier”, cuja vivência de escola era pouca, ou quase nenhuma.

Os resultados logicamente nem sempre foram felizes.

A visão ocidental desses improvisados “carnavalescos” transformou o desfile muitas vezes em verdadeiros shows, dignos do Folies Bergère ou da Broadway.

Mas como se diz hoje em dia: tudo bem.


As escolas continuam num processo irreversível de faraônico deslumbramento, cujo extraordinário sucesso, torna obsoleto qualquer argumento em contrário.

Como bem disse Joãozinho Trinta: “Pobre gosta de luxo”.

E no meio do luxo, cabe acrescentar, de continuar descobrindo seus ídolos: Fuleiro, Wilma, Xangô, Neide, Benício, Paula, Delegado ou André, à frente da bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel.

Pois “batuque é privilégio” e, enquanto isso acontecer, haverá Escolas de Samba.

Esse livro nasceu em Paris, no ano de 1966.

Lembro uma carta oral que Vinícius de Moraes enviou a Tom, e que ouvi na casa de Francette de Rio Branco.

Nela, falava que a saudade do Brasil quando se vive no exterior, se sente mais em forma de samba tradicional, do que no estilo “bossa nova”.

Nada mais certo.

“Aquarela do Brasil” continua arrepiando a gente lá fora.

Quanto mais, ouvindo a bateria da Portela, gravada num disco que achei por acaso no apartamento de Samuel Wainer da Rue Davioud!


Foi lá que surgiu o primeiro desenho, ao compasso do surdo de marcação.

O desenho das baianas que ilustram este depoimento, e que vendi a meu inesquecível amigo Horacinho de Carvalho, para arredondar o preço da passagem de volta ao Rio de Janeiro.

Doze anos depois, graças a um portelense santista Toninho Nahas, o “Turco”, filho de árabes dos quais não herdou nenhum poço de petróleo, e sim, umas dez “refinarias de sensibilidade”, cumpro a promessa que fiz a mim mesmo, de dedicar meu primeiro livro às escolas de samba.

Livro sem lantejoulas nem paetês.

No estilo “desesperado de la ternura”, que é a caricatura, inspirada no convívio pele a pele com toda essa gente maravilhosa.


Nos terreiros, nas favelas, nos barracos dos morros, ou nas casas suburbanas.

Onde nunca falta um São Jorge na parede, um violão, uma cerveja geladinha, e principalmente, amor.

Simplicidade.

Filosofia de vida que nossos poetas populares esbanjam nos seus sambas, e que poucos aproveitam.

Infelizmente.

Pelo muito que me ensinaram, pelo muito que aprendi, gostaria de agradecer um por um.

Mas são tantos, que os reúno num nome só, onde cabem todos.

Candeia, obrigado.



IMPORTANTE:

Esse texto é o posfácio do livro As Escolas de Lan, com desenhos do cartunista Lan e texto de apoio de Haroldo Costa, atualmente fora de catálogo, que está sendo postado a conta gotas aqui no mocó.

Os posts anteriores (com exceção do texto do Moacyr Luz) também fazem parte da obra.

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