quinta-feira, março 31, 2016

De Zéfiro à banda larga lá se vai uma eternidade


Xico Sá

Uma vez que o ato sexual, mesmo com a maior e acertada das regularidades, jamais eliminou a linguagem da masturbação – o velho gesto do ora pro nobis, ato igualmente católico e engrandecedor! – tratemos de um novo aspecto do vício solitário: a bronha nos tempos da tela do computador. Como velho discípulo dos catecismos de Carlos Zéfiro, passando por toda uma sorte de Status, Ele & Ela e Playboy, sinto-me a cavaleiro para adentrar o misterioso tema.

De Zéfiro à banda larga lá se vai uma eternidade. Aos treze, um alumbramento na banca da praça Padre Cícero, em Juazeiro: Marina Montini, apresentada por Di Cavalcanti, “estátua de bronze”, como balbuciou o pintor do ramo. O ensaio de Status é de junho de 1976. Nossa Senhora! Viva a imaginação de papel.

Depois chegaria o glorioso pornô nacional popular, com Helena Ramos e grande elenco. Sessões para guardar e despejar, dias e dias, no banho antes da equação de segundo grau. Banco de imagens acumulado no juízo, qual o queijo dos gozos mais guardados e envelhecidos.

Tempos mais tarde, o vaivém do vídeo, Linda Love, Love, Lovelace e a sua garganta profunda. Os sinos bimbalham, amém. Daí por diante, a imaginação de papel dos tempos do PhotoShop, infelizmente sem as mais desejáveis das gordinhas e ditas imperfeições da nova estética publicitária. Arrivistas. Escaneia, mulata, escaneia.

Aí é chagada a hora daquela memória Ram 16, 32... Conexão na lona. Mão no mouse, outra sustentando o juízo, Chats, madrugada chegou, o sereno tá caindo... Fotos por cartas ou no lombo de burro, download dá um tempo. Pura malandragem. Nem santo baixa. Já não havia o lençol engomado de tanta gala e safadezas bem-dormidas.

Que fazer? Forrar o colo com uma toalha, um lençol, papel higiênico? Num baldinho entre as pernas, como num peep-show? Soltar o mouse, aprender a manusear o teclado? Ctrl tudo que não presta nesse mundo. Bate-papo ou imagens? Prosa ou ficção? Direto para a webcam e mostrar as partes pelo todo? Ou esquecer tais metonímias da nova era, nobilíssimo amigo Guimarães?

Claro que às vezes basta um ponto e vírgula bem posto num e-mail, garrafa atirada do farol do Netscape. Como nos tempos das cartas sujas dos amantes transatlânticos. É. Viva a tecnologia. Viva a velocidade, desgostoso e querido Paul Virilo. Mas nunca esqueça, caro viciado solitário, da mais antiga das invenções, o lírico e abençoado cuspe.

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