quinta-feira, abril 14, 2016

Teodora: prostituta, atriz, imperatriz e santa pela Igreja Ortodoxa Oriental


Uma igreja em Ravenna, no nordeste da Itália, exibe um mosaico vibrante de uma mulher vestida de roxo. Ela tinha seus próprios cortesãos e o seu mosaico ocupava um enorme espaço ao lado de um mosaico de Cristo. A mulher era a imperatriz Teodora e a sua história ainda desperta curiosidade devido aos muitos extremos que ela frequentou.

Teodora viveu em uma época de grandes mudanças na igreja, linguagem e Estado. O que tinha sido Roma estava prestes a se tornar o Império Bizantino e as regiões do leste, incluindo o Egito, estavam pedindo para usar suas próprias línguas, insinuando autodeterminação. O profeta Maomé nasceu apenas 20 anos depois da morte de Teodora.

Apesar da grande quantidade de história escrita sobre aquele período, Teodora foi praticamente ignorada. No livro História Secreta, de Procópio, que foi escrito pouco tempo depois da morte de Teodora, em 548, ela é descrita como uma espécie de Senhora Maquiavel. Procópio a chama de prostituta, se refere a ela como “Teodora do bordel” e conta os detalhes das suas apresentações no palco onde ela permitia que os gansos bicassem grãos de sua parte intima enquanto dançava nua.

Procópio também conta que Teodora lamentava que deus tivesse lhe dado apenas três orifícios para o prazer. Mas quando Procópio descreve o marido de Teodora, o imperador Justiniano, como um demônio sem cabeça, podemos supor que nem tudo que ele escreveu é verdade e que muitas histórias sobre Teodora podem ter sido exageradas com a intenção de caluniar a imperatriz e seu marido, talvez por ser inimigo da dinastia Justiniana ou das leis que Teodora apoiou como imperatriz.

O ponto de vista de Procópio sobre Teodora, que não foi publicado até o século 17, influenciou outros escritores mais tarde, mas Teodora permaneceu um enigma. O que sabemos sobre ela nos remete à ideia de uma mulher moderna, feminista e, quase sempre, controversa. A vida e a história de Teodora chegam muito perto de se parecer com uma história de ficção.

Ela nasceu em Constantinopla por volta de 500 DC. Seu pai, domador de ursos no hipódromo, morreu quando ela tinha cinco anos e sua mãe se casou com um outro domador que não conseguiu o antigo trabalho de seu marido morto.

Foi então que a ex-viúva ensaiou movimentos de súplica com suas três filhas, vestiu as meninas formosamente e as levou para o hipódromo, um vasto complexo com capacidade para trinta mil pessoas, para solicitar formalmente um trabalho para seu novo padrasto. 

O desejo foi concedido e Teodora, que atuou muito bem executando os movimentos de súplica, se tornou atriz, dançarina, mímica e comediante.

Com 15 anos de idade, ela já era a estrela do hipódromo, atuando em espetáculos que, pela narração de Procópio, não estavam muito longe do burlesco moderno. Assim como a maioria das atrizes daquela época, Teodora também era uma prostituta da pá virada.

Quando tinha 14 anos, Teodora teve o seu primeiro filho e, por volta dessa época, ela e sua irmã mais velhas eram acompanhantes de luxo de muitos homens velhos e ricos. É provável que as três tenham feito muitos abortos. 

Aos 18 anos, Teodora se afastou de sua carreira surpreendentemente bem sucedida, para se tornar amante de Hecebolus, o governador do que hoje é conhecido como a Líbia.

Quando eles se separaram, não muito tempo depois, ela ingressou em uma comunidade ascética no deserto perto de Alexandria, onde aconteceu a sua conversão religiosa para um ramo do cristianismo primitivo, o monofisismo, que estava sob ataque por parte do estado romano. 

O problema religioso era entre aqueles que acreditavam, como a maioria dos romanos, que Cristo era ao mesmo tempo humano e divino, e aqueles que, como Teodora, acreditavam que a divindade de Cristo era a sua força principal.

Depois de sua conversão, ela viajou para Antioquia onde ganhou fama por ter trabalhado com Macedônia, uma mulher um pouco mais velha do que ela, que era prostituta, dançarina, e espiã. 

Antioquia era uma grande cidade da Síria, uma das muitas províncias que estavam começando a questionar a supremacia de Constantinopla. Os dois lados contavam com serviços de espionagem.

Aos 21 anos, Teodora voltou para a capital e conheceu Justiniano. Eles eram um casal muito improvável, Justiniano era filho de um agricultor da atual Sérvia que foi para Constantinopla com 11 anos de idade para trabalhar para o seu tio, o imperador Justiniano I.

Justiniano tinha uma mente brilhante e sua codificação do direito romano, que ainda hoje faz parte da formação jurídica de nossos advogados, embutiu uma lei criada exclusivamente para elevar o status de Teodora e outra lei criada para permitir que ela se casasse, algo que as atrizes e ex-atrizes não podiam fazer legalmente.

Eles se casaram contra a vontade da tia de Justiniano, a imperatriz Eufêmia, ela mesma uma ex-escrava e concubina, que viu suas próprias origens em Teodora.

Quando Justiniano I morreu e seu sobrinho Justiniano tornou-se imperador em 527, também como Justiniano I, a “Teodora do bordel” recebeu o título de imperatriz de Roma.

Quando os senadores se encontravam com Justiniano e Teodora, eles se ajoelhavam no chão, em sinal de respeito, e a relação entre Justiniano e Teodora com o povo foi descrita como uma relação entre senhores e escravos.

Teodora exercia muita influência sobre Justiniano, que, por seu turno, foi responsável por várias realizações célebres durante o período em que exerceu o poder.

Eles reformaram a cidade de Constantinopla, construíram dezenas de aquedutos, pontes e mais de 20 igrejas, entre elas a Catedral de Santa Sofia.

Como imperatriz, Teodora trabalhou para impedir os cafetões de receberem dinheiro de prostitutas.

Ciente da impossibilidade do casamento e de uma vida segura para essas mulheres, a imperatriz montou uma casa onde elas poderiam viver em paz.

Teodora, por meio do marido, batalhou pelo casamento legal dessas mulheres, pela legislação anti-estupro e ajudou muitas jovens que eram vendidas como escravas sexuais pelo preço de um par de sandálias.

Suas leis baniram os cafetões de Constantinopla e de todas as principais cidades do império.

Tudo isso faz de Teodora uma das primeiras feministas do planeta, mas sua história é ainda mais complicada.

Existem indícios de que ela estava envolvida em envenenamentos, torturas e casamentos forçados, e mesmo tendo feito muito para ajudar mulheres e meninas em dificuldade, ela não se esforçou para ajudar as mulheres de posição mais elevada, atacando qualquer uma que ameaçasse a sua posição, incluindo a imperatriz Eufêmia.

Teodora morreu em 28 de junho de 548. Relatos da época dizem que Justiniano chorou durante todo o funeral e nunca a esqueceu.

A imperatriz foi sepultada na Igreja dos Santos Apóstolos, em Constantinopla, e declarada santa pela Igreja Ortodoxa Oriental. Sua festa litúrgica acontece todos os anos em 14 de novembro.

É claro que ainda existem muitas perguntas sem respostas na história de Teodora. Ela era uma espiã ou uma santa, uma vagabunda ou uma atriz genial? O que realmente acontecia com os gansos no palco do hipódromo? Eles se afogavam na gruta molhada? Macedônia era sua amiga ou sua amante? Cartas para a redação.

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