sexta-feira, maio 06, 2016

Música de elevador para consultório de dentista


Por Cezário Camelo

Estiquei as férias por tanto tempo, que resolvi voltar sacaneando. Não peguei nenhum ataque terrorista do Estado Islâmico, mas, em compensação, visitei tantos sebos de vinil na Europa que estou de pick-up duro. No bom sentido, de fora pra dentro. Pessoas sensíveis, go home. Pessoas brutalizadas, fuck off. Pessoas mais ou menos, go ahead. Vou falar sobre as bolachas que ouvi, curti e afanei espiritualmente, e gostaria que os cachorros, gatos e periquitos fossem postos pra fora da sala. Eles não vão entender o espírito da coisa. E de espiritismo, entendemos nós.

Nos Estados Unidos, ela é chamada de mood music, música ambiente. Na Inglaterra, de light music, música ligeira. No Brasil, grosseiramente, de música de elevador. Grosseira e injustamente porque, hoje em dia, só os melhores elevadores continuam oferecendo música a seus usuários. Mas, para quem despreza o que se escuta neles, considerando-o o epítome da caretice, ainda veremos o dia em que os elevadores tocarão The Who, Pink Floyd ou Skank - embora, quando isso acontecer, eu pretenda estar absolutamente morto e enterrado (desculpem o pleonasmo... machuquei alguém?). Cedo ou tarde, o destino de toda espécie de música é o elevador, o consultório do dentista e o toque do celular. Tom Jobim já está em todos eles, assim como Ary Barroso, Cole Porter, Paul McCartney e Beethoven, e isso não os tornou menores.

Que espécie de música é essa – quase toda produzida nos anos 60 – que une os jazzistas, roqueiros e eruditos num desprezo comum? O que a define? Digamos que ela seja uma diluição suavizada de certas formas musicais que, em sua versão original, seriam muito barulhentas ou complicadas para se ouvir quando se quer apenas relaxar. Imagine subir 30 andares ouvindo Air Mail Special, de Lionel Hampton, com a orquestra do próprio a todo pano, ou fazer um tratamento de canal ao som da Cavalgada das Valquírias, de Wagner, regida por Stokowsky. O suicídio não seria uma má idéia. Mas, se for uma Air Mail Special adocicada por Jonah Jones ou uma Cavalgada domada por Mantovani, tanto os vácuos e solavancos do elevador quanto a broca do dentista serão quase imperceptíveis. Se a música serve para tudo, por que não pode servir também para zerar angústias? E por que a música explicitamente agradável se tornou tabu?

Nos últimos tempos, nos Estados Unidos e na Inglaterra, o conceito se expandiu e esse tipo de música passou a ser agrupado nas lojas sob uma nova categoria, chamada easy listening. Significa toda espécie de música popular que não seja jazz, rock ou um corpo estranho chamado world music. Bem, considero também ofensiva essa marota classificação de easy listening – porque dá a entender que, se ela é fácil de escutar, foi também fácil de fazer. O que não é verdade – ao contrário de 50% do jazz e de 100% do rock disponíveis na praça, fáceis de fazer e duríssimos de escutar. Além disso, easy listening sugere um tipo de música que, se por acaso estiver ao alcance das suas orelhas, tanto faz que você esteja ou não prestando atenção, porque ela não irrita nem acrescenta.

Pois eis aí outra definição preconceituosa. Qualquer tipo de música pode ser escutado com um ouvido só e, nesse caso, não nos acrescentará nada – seja Villa-Lobos ou Abílio Farias, para ficar nos extremos. Mas suponha agora que exista uma grande quantidade de mood music que mereça ser escutada com atenção. A prova está numa série de extraordinários lançamentos importados, trazendo de volta orquestras e conjuntos que, com todo o apelo comercial, produziam música de espantosa qualidade e beleza.

Uma dessas orquestras, por exemplo, tinha como arranjador e regente nada menos que o compositor clássico e maestro Morton Gould. Seu disco, Blues in the Night, gravado em 1957 na RCA Victor, dá um caráter tão majestoso a temas como Birth of the Blues e Mood Indigo que, hoje, é difícil acreditar que possa ter sido gravado para servir de fundo musical a ouvintes distraídos. O mesmo se aplica a Easy Jazz, com a orquestra de Paul Weston (enriquecida por solistas como o trompetista Ziggy Elman, o pianista Paul Smith e o guitarrista George Van Eps), num repertório que inclui Body and Soul, Georgia on my Mind e My Funny Valentine. Weston morreu há cinco anos, aos 84 anos, respeitado como um dos maiores arranjadores do século por sua delicadeza para combinar cordas e metais.

E, até que enfim, os discos de Jackie Gleason renascem em CD. Gleason, mais conhecido no Brasil como ator (era o gordo que perseguia Burt Reynolds nos filmes da série Agarra-me Se Puderes), foi uma potência da música americana nos anos 50 – sem tocar qualquer instrumento e sem ler uma nota de música. Os discos de sua orquestra vendiam-se aos milhões: eram ótimos para dançar, ouvir ou criar climas para coisa mais séria entre um homem e uma mulher. E como Gleason conseguia isso? Com sua tremenda musicalidade intuitiva, orientando seus arranjadores para o tipo de som e de andamento que queria – o que ele fazia cantarolando e regendo naipes imaginários com um cigarro como batuta. Se você quiser ouvir para crer, a pedida é Velvet Brass - How Sweet It Is, na verdade muito mais swing que sweet.

O humorista americano Ambrose Bierce, autor do Dicionário do Diabo, chamou o acordeon de “um instrumento com os sentimentos de um assassino”. Mas isso é porque ele nunca ouviu seu compatriota, o acordeonista Art Van Damme, nascido em 1920. Van Damme praticamente introduziu o acordeon no jazz e, por volta de 1950, influenciou adivinhe quem no Brasil: João Donato. Depois de décadas esquecido, alguns de seus discos antigos estão saindo no Japão e na Alemanha – alguns deles, Martini Time e State of Art. Os quase surdos os rotularão de música para coquetel, pelo pecado de serem de audição agradabilíssima. Mas vá tentar fazer o que ele faz.

Art Van Damme está para o acordeon como um xará seu para o piano: Art Tatum. E um de seus mais deliciosos contemporâneos também foi redescoberto: o pianista Page Cavanaugh. Entre outras coisas, o trio de Cavanaugh foi a principal influência do conjunto vocal carioca Garotos da Lua, cujo crooner em 1951 chamava-se João Gilberto. Depois, como pianista, ele seria o acompanhante ideal de Doris Day e Frank Sinatra. Pois Cavanaugh foi posto para gravar de novo e o resultado, até agora, são dois lindos discos chamados The Digital Page (Page One e Page Two).

A grande sensação, no entanto, é a série de 12 CDs individuais da Capitol intitulada Ultra-Lounge, contendo o máximo do repertório de mod music desta gravadora nos anos 50 e 60. É a absoluta volta a um tempo em que o homem se vestia inteiro para levar uma mulher a uma boate ou para recebê-la em seu apartamento. E essa mulher, naturalmente, exorbitava em seus decotes, sedas e no vermelho do batom.

Homens e mulheres equipavam-se para seduzir e a música era parte importante nesse jogo. Cantores e orquestras eram movidos a hormônios na tentativa de estabelecer uma atmosfera densa e sensual. A música podia ser americana, latina, francesa ou com toques negros - mas era sempre dançante, sensual e envolvente, ideal para preliminares elegantes. Ir para a cama com alguém devia ser uma batalha naquele tempo, mas, até chegar lá, as mulheres não se queixavam de falta de romantismo.

É esse o clima passado pelos CDs desta série, como Bachelor Pad Royale, Rhapsodesia, Cocktail Capers, The Crime Scene, A Bachelor in Paris, Cha-Cha de Amor e os outros. Cada um deles tem 18 faixas, estreladas por grandes nomes como Nelson Riddle, Bobby Darin, Billy May, Jonah Jones, Ray Anthony, Dean Martin, Leroy Holmes, Peggy Lee, Perez Prado, Julie London, Cy Coleman, Sam Butera, Les Baxter, etc etc.

Grandes sons – arranjos fabulosos, que induzem um casal a sair dançando lentamente em direção ao leito ou que, no caso dos mais tímidos, também permitem grandes momentos de mãos dadas no sofá da sala. Se este for o seu caso, não se torture: esta é uma música que também pode perfeitamente ser apenas escutada. Eu, por exemplo, quero ouvir com a Hedôzinha colocando a boca no meu trombone de vara. Se é que me entendem.

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