sexta-feira, maio 06, 2016

O que quer dizer “Laissez-Faire”?


O rei Leopold II adorava colocar os negrinhos no pastoreio

Por Fran Pacheco

Laissez-Faire é um termo filosófico cunhado pelos Fisiocratas do séc. XVIII, que significa “deixa rolar”. Tornou-se lema do Capitalismo Liberal ao propor o fim de qualquer intervenção do Estado nos negócios das empresas privadas. Baseia-se na duvidosa premissa de que um patrão é menos filho da puta que um burocrata.

A idéia foi implementada em 1885, no Estado Livre do Congo, tornado uma empresa de propriedade particular do monarca Leopold II, da Bélgica. A sede da Companhia ficava em Leopoldville – atual Kinshasa.

O desemprego foi erradicado, pois os congoleses tornaram-se não mais cidadãos, mas funcionários arregimentados da seguinte forma: o setor de RH da Companhia enviava mercenários (headhunters, na moderna terminologia de Wall Street) que sequestravam as mulheres e crianças das aldeias.

Os homens tinham que trabalhar no mínimo 7 dias por semana, embrenhados na selva, extraindo látex, óleo de copal e marfim, se não quisessem ver a família morta. O pagamento pecuniário (salário) tornava-se, por este, digamos, contrato de trabalho, desnecessário.

A baixa produtividade rendia ao funcionário uma mão ou um pé amputados, como advertência. A demissão era protocolizada com a execução sumária do ex-funcionário. Melhor não entrar em detalhes sobre o que acontecia com grevistas e anarco-sindicalistas.

Misteriosamente, apesar dos fabulosos lucros do negócio, a quantidade de trabalhadores existentes no Congo sofreu um forte “viés de baixa” durante a boca-livre da Companhia.

Com a mão-de-obra dizimada e pressionado pela grita mundial, o velho Leopold, já sem ter onde enfiar tanto marfim, abandonou sua empreitada em 1908 e “vendeu” a carniça de volta para o Estado Belga por 45 milhões de francos. E ainda embolsou mais 5 milhões, a título de “agradecimento pelos seus grandes sacrifícios em prol do Congo”.

O Congo é hoje isso que aí está. A memória de Leopold é venerada pelos belgas, que depois (felizmente) só conseguiram produzir os Smurfs. Os liberais (se é que existem verdadeiros liberais) não gostam de tocar no assunto.


(Extraído de “Azancoth – História Universal dos F.D.P.”, Editora Uqbar)

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