quarta-feira, julho 13, 2016

Da Ciranda de Tefé à Ciranda de Manaus


José Silvestre sendo homenageado pela ciranda Flor Matizada, de Manacapuru, no Parque do Ingá

Conheci o professor José Silvestre do Nascimento e Souza, um dos filhos do professor Isidoro Souza, em 1998, por meio de uma de suas filhas, a advogada Débora Souza, a “Debinha”, que era assídua frequentadora da Casa do Veraneio, da empresária Gracionei Alger, ali na Estrada da Ponta Negra, onde eu também era um dos habitués nos canaviais de sábado e domingo.

Em uma de nossas muitas conversas sobre o folclore amazonense, Silvestre me passou o texto abaixo, escrito de próprio punho, que transcrevo abaixo como forma de homenagear esse querido e saudoso amigo, que atravessou o espelho em 2001:

No Colégio Comercial Sólon de Lucena, no início do ano letivo de 1963, fui chamado à Diretoria pelo então diretor Bartolomeu Dias de Vasconcelos. Naquela época, por determinação legal, eu lecionava Português para turmas do 1º grau, cumprindo no referido colégio um estágio obrigatório, capacitando-me a lecionar História e o idioma pátrio, em face de haver sido aprovado no curso de Licenciatura Plena a que me havia submetido.

Imediatamente compareci à Diretoria, onde o diretor perguntou-me:

– Silvestre, conheces algum cordão folclórico desses que se apresentam ao público por ocasião da quadra junina?

Sem hesitar, respondi-lhe:

– Sim, inclusive alguns que ainda não se apresentaram aos manauaras, tais como a Ciranda, o Cacetinho, o Barqueiro e a Pomba.

Radiante, ele insistiu:

– Queres colaborar com o nosso colégio montando um desses cordões que conheces?

– Quero, desde que possa contar com seu apoio total e sua irrestrita colaboração – respondi.

– Está certo! – garantiu o diretor. – Podes contar comigo e com os demais professores do colégio. Ensaia a Pomba para se apresentar ainda este ano!

A esta altura, estávamos no final do mês de abril do aludido ano letivo. Pois bem, aceitando o desafio que eu mesmo provocara, de imediato, comecei relacionando nas salas de aula aqueles alunos que estavam dispostos a brincar no cordão que ia montar.

Consegui músicos e, a seguir, em maio, realizei o primeiro ensaio, bastante animado e bem aplaudido pelo diretor, pelos professores e por um grande número de alunos presentes.

Realizado o segundo ensaio, com bastante aproveitamento, eis que, numa segunda-feira, quando eu lecionava para jovens da 1ª série, fui procurado pelo Inspetor de Alunos, dizendo que o diretor desejava falar-me.

Compareci imediatamente à Diretoria e lá me deparei com uma senhora de classe média bastante aborrecida e quase discutindo com o diretor. À minha chegada, ele me apresentou: “Este é o professor Silvestre!”

Sem perda de tempo, ela disse:

– Foi ele que faltou com o respeito para com a minha filha!

Apanhado de surpresa, não titubeei e indaguei-lhe:

– Como se chama sua filha?...

De acordo com sua resposta, acrescentei:

– De maneira nenhuma, diretor. A menina a que ela se refere deve ter de 10 a 11 anos. É a Loura da classe a quem considero como uma filha. Mande chama-la imediatamente!

Apesar dos protestos em contrário, o diretor arrematou:

– Minha senhora, pela primeira vez na vida o professor Silvestre é chamado na Diretoria, daí a necessidade de uma explicação convincente no tocante à acusação que a senhora acaba de lançar contra ele!


Devo esclarecer, abrindo um parêntese, que o Inspetor havia me chamado no exato momento em que eu lecionava na classe da Loura, a qual, por gostar muito de mim, sentava-se na primeira fila de cadeiras bem próxima da minha mesa.

Ao sair da classe, lembro-me de ter dito aos alunos: “Pela primeira vez sou chamado à Diretoria, peçam a Deus por mim para que nada me aconteça”.

Obedecendo ao chamado, a Lourinha, como eu a tratava, entrou espantada na Diretoria, não entendendo qual o motivo de sua mãe ali se encontrar. E, num gesto próprio de uma menina pura e educada, abraçou-me, segurando minha mão, colocando-se à disposição do diretor, após haver beijado sua genitora.

Sem delongas, indaguei:

– Minha filha, eu faltei com o respeito a você em algum momento?

Na mesma hora, ela respondeu:

– Não, professor, foi a mamãe que não entendeu. Nos estávamos almoçando em família, eu, papai, mamãe e meus irmãos. Ao término do almoço, eu me dirigi à mamãe, pedindo-lhe: “Mamãe, a senhora permite que eu dance na Pomba do professor Silvestre?”

Aguentando uma gargalhada quase inevitável, solicitei à minha aluna que voltasse à sala de aula, olhei para a senhora e disse:

– A sua filha estava com razão ao fazer-lhe o estranho pedido, pois a Pomba é um cordão folclórico que estou ensaiando no colégio a pedido do diretor. Se a senhora quiser, pode aguardar alguns minutos, até a hora do recreio, quando realizarei o ensaio que estava programado para a próxima sexta-feira.

Ainda contrariada e sem entender muito bem o que eu acabara de dizer, ela acrescentou:

– Por que o senhor não muda o nome do seu cordão para Pombo?... Dançar na Pomba, sei lá, mas soa assim meio pornográfico...

Como resposta, olhando fixamente para ela, acrescentei:

– Vou pensar seriamente na sua proposta!

Daí, despedi-me dela e regressei à sala de aula, ficando ela e o diretor conversando a respeito da ocorrência.

A partir daquele dia, após a realização do terceiro ensaio, e a pedido do diretor, troquei a Pomba pela Ciranda e, sem saber, contando com a colaboração de dois conterrâneos tefeenses, Ambrósio Ramos Correa e Gaudêncio Gil, organizava em Manaus um dos mais belos e aplaudidos cordões folclóricos de todos os tempos.

Assim surgiu em Manaus, no Colégio Sólon de Lucena, no ano de 1963, a Ciranda de Tefé, esse belo cordão folclórico trazido da minha querida cidade natal para a capital do Amazonas, que estreou no 7º Festival Folclórico realizado na segunda quinzena de junho do mencionado ano, no tablado improvisado no campo do antigo Estádio General Osório, hoje Colégio Militar do Amazonas, sagrando-se campeã da Categoria Especial.

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