quinta-feira, julho 07, 2016

Do Bumba-meu-boi ao Boi-Bumbá


Alguns historiadores associam o surgimento da brincadeira do Bumba-meu-boi à expansão, no Nordeste, do chamado “Ciclo do Gado” – quando, a partir do século 17, o animal ganhou grande importância nas fazendas da região. Apesar de o Bumba-meu-boi ser uma manifestação típica do folclore brasileiro, ele lembra um pouco os autos medievais – encenações simples, com linguagem popular e, em geral, falando da luta do bem contra o mal.

“O boi é um dos folguedos mais representativos da cultura brasileira, pois reúne traços de três grandes ramos da formação do nosso povo: europeu, indígena e afro-negro”, afirma Américo Pellegrini Filho, folclorista da Universidade de São Paulo (USP). A apresentação, que ocorre principalmente em festas juninas, mostra as relações desiguais entre senhores de engenho, escravos e indígenas, numa sutil crítica social.

Contado e recontado através dos tempos, na tradição oral nordestina, e depois espalhada pelo Brasil, a lenda adquire contornos de sátira, comédia, tragédia e drama, conforme o lugar em que se inscreve, mas sempre levando em consideração a estória de um homem e um boi, ou seja, o contraste entre, por um lado, a fragilidade do homem e a força bruta do boi e, por outro lado, a inteligência do homem e a estupidez do animal.

Do ponto de vista teatral, o folguedo deriva da tradição espanhola e da portuguesa, tanto no que diz respeito ao desfile como à representação propriamente dita, tradição de se encenarem peças religiosas de inspiração erudita, mas destinadas ao povo para comemorar festas católicas nascidas na luta da Igreja contra o paganismo. Esse costume foi retomado no Brasil pelos jesuítas em sua obra de evangelização dos indígenas, negros e dos próprios portugueses aventureiros e conquistadores, por meio da encenação de pequenas peças.


No seu livro “Folclore do Brasil”, Luís da Câmara Cascudo joga um pouco mais de luz sobre o surgimento da brincadeira:

“Bumba-meu-boi, Boi Kalemba, Boi de Reis, Folguedo do Boi, Boi-Bumbá no Maranhão, Pará, Amazonas, Três Pedaços em Alagoas (Porto da Rua, Porto de Pedras), Boi de Mamão em Santa Catarina e Paraná, é um dos mais tradicionais autos, conservados pelo povo do norte e nordeste do Brasil. Está decadente, mas continua ambientado pela assistência mais humilde, competente nos aplausos, seguindo o grupo para contemplar o espetáculo secular. Irradiou-se das zonas açucareiras e pastoris para o extremo norte, onde a pastorícia ausente pareceria incompreendê-lo na primária e sugestiva movimentação temática. 

Em 1859 Avé-Lallemant encontrava-o em Manaus, “enorme e leve arcabouço de um boi, com chifres verdadeiros”. Baila, seguido de fantasias indígenas, guiado por um pajé. Morre ao estrondar do batuque e vão enterrá-lo para que volte a viver e repetir a farsa noutra parte, “morrendo cinco ou seis vezes na mesma noite”, anota o alemão. 

Aparece num breve, leve, singelo e grotesco bailado, como começou o boi guaque ou boi huaco, em Nicarágua.

A mais antiga menção encontro num mal-humorado registro do padre Miguel do Sacramento Lopes Gama, no Carapuceiro, janeiro de 1840, no Recife: 

“De quantos recreios, folganças e desenfados populares há neste nosso Pernambuco, eu não conheço um tão tolo, tão estúpido e destituído de graça, como o aliás bem conhecido bumba-meu-boi. Em tal brinco não se encontra um enredo, nem verossimilhança, nem ligação: é um agregado de disparates. Um negro metido debaixo de uma baeta é o Boi; um capadócio, enfiado pelo fundo dum panacu velho, chama-se o Cavalo-Marinho; outro, alapardado, sob lençóis, denomina-se Burrinha; um menino com duas saias, uma da cintura para baixo, e outra da cintura para cima, terminando para a cabeça com uma urupema, é o que se chama a Caipora; há além disto um outro capadócio que se chama Pai Mateus. O sujeito do Cavalo-Marinho é o senhor do Boi, da Burrinha, da Caipora e do Mateus.

Todo o divertimento cifra-se em o dono de toda esta súcia fazer dançar, ao som das violas, pandeiros e de uma infernal berraria, o tal bêbado Mateus, a Burrinha, a Caipora e o Boi, que com efeito é o animal muito ligeirinho, trêfego e bailarino. Além disso o Boi morre sempre, sem quê nem para quê, e ressuscita por virtude de um clister, que o pespega Mateus, coisa muito agradável e divertida para os iudiciosos espectadores.

Até aqui não passa o tal divertimento de um brinco popular e grandemente desengraçado, mas de certos anos para cá não há bumba-meu-boi, que preste, se nele não aparece um sujeito vestido de clérigo, e algumas vezes de roquete e estola, para servir de bobo da função. Quem faz ordinariamente o papel de sacerdote bufo é um brejeirote despejado e escolhido para desempenhar a tarefa até o mais nojento ridículo; e para complemento do escárnio, esse padre ouve de confissão ao Mateus, o qual negro cativo faz cair de pernas ao ar o seu confessor, e acaba, como é natural, dando muita chicotada no sacerdote!”

Começaria nos engenhos, entre negros, mamelucos, mestiços, na forma inicial boi canastra, armação de vime, coberta de pano pintado, cabeçorra bovina, ampla cornadura, unicamente destinado a dispersar e afugentar os curiosos atrapalhantes de uma função representada ao ar livre. Era assim na Espanha e Portugal, o falso boi chifrando diante dos cortejos mascarados e mesmo fazendo rir ao monarca. Havia touradas cômicas com esses touros de junco, as tourinhas. 

É o que se observa nos velhos autos que Sílvio Romero coligiu, como o Reisado da Borboleta, do Maracujá e do Pica-Pau. É o boi que Max Schmidt vê em Rosário, Mato Grosso, no derradeiro ano do século XVIII. Que Alceu Maynard Araújo encontra em 1951 afastando os foliões de São Luís de Paraitinga, São Paulo, resguardando a gravidade hirta da gigantesca Miota. Foi a forma primária que tivemos da Península Ibérica, o boi amedrontador dos meninos inquietos. É uma tradição também sertaneja e viva no vocabulário dos cantadores de desafio: “Esse véio Serradô / De apelido João Festino / Quando se vê agastado / E fica no seu destino / Faz mais medo a cantado / Do que boi faz a menino”


Mesmo na segunda metade do século XIX muitos outros autos concorriam na popularidade da assistência. O Cavalo-Marinho, que vemos na informação de Lopes Gama, sendo o dono do folguedo, denominava a função, e Sílvio Romero ainda diz o mais apreciado de Pernambuco. Ora, o bumba-meu-boi, já em janeiro de 1840, aliás bem conhecido, na catilinária d’O Carapuceiro recifense, dominava o Maranhão, como registou Celso de Magalhães. Derrotara o Cavalo-Marinho. Fora aglutinando as personagens mais favoritas dos autos vulgares, criando assunto, determinando episódios. Como o "rancho" da burrinha era o predileto na Bahia. Em janeiro de 1840 estava autônomo e o Cavalo-Marinho, embora dono, não batizava o auto que era o bumba-meu-boi. Seguiu atraindo outros elementos, ampliando a área de função, seduzindo as atenções populares, alistando-se como uma homenagem à festa da Natividade, habeas corpus do pagode verbal.

No Dicionário do Folclore Brasileiro, verbete bumba-meu-boi, está uma exposição que julgo suficiente de como o auto se formou e veio vivendo, pela assimilação incessante de temas vitais de outros autos mais permeáveis, incorporando damas e galantes que bailavam nas procissões do Corpo de Deus em Portugal, fazendo surgir os vaqueiros negros, Birico ou Fidélis, e Mateus, centros de comicidade plebéia, ficando horas em cena, improvisando diálogos calorosos, monologando, dizendo disparates, sacudindo o riso do auditório, inesgotáveis da verve que o povo ama e festeja. Depois, à volta de 1910, apareceu a negra Catirina, faladeira, destabocada, respondona.

As figuras do bumba-meu-boi variam de província para província e, nas próprias regiões da exibição, sofrem modificações, desaparecimentos, substituições, acréscimos, novidades, experiências que duram ou não resistem ao desgaste do contato popular, eliminando-se por insuficientes. Damas e galantes dizem loas, versos sérios, declamados monótona e dignamente, sempre na intenção religiosa, indo e vindo numa marcha mecânica e superior aos companheiros burlões. Mateus e Birico são sempre funcionalmente divertidos, arremedadores, caricaturando a solenidade das damas e galantes, espavorindo os monstros que aparecem, enfrentando a longa série humana e zoológica realizadora do programa do bumba-meu-boi. Nos velhos alagoanos havia Rei e Rainha.

Auto do Natal (exceto no Pará onde o boi-bumbá é pelo São João) preenche para o povo as horas longas de espera da Missa do Galo, à meia-noite. Dispunha do tempo, não apreciável para o povo. Os papéis eram estudados, ouvidos ou explicados, mas a dupla negra, ou pintada de negro, era surpreendente de vivacidade, prontidão nas respostas à participação anônima do auditório, na graça picante e clara da vulgaridade legítima. Todos ou quase todos os acontecimentos reapareciam nos diálogos dos dois vaqueiros, Pasquino e Marfório, nos limites da tolerância policial, fazendo rir sem rancor e mágoa.

Há bois dançantes por todas as regiões pastoris do mundo, África, Ásia, América Austral, Central e do Norte, pela Europa inteira. O bumba-meu-boi, na espécie, auto-formação, intenção, força defensiva e valorizadora popular, anti-demagógica pela ausência do plano político imediato e útil a uma facção, existe sozinho; lirismo, sinceridade, arrojo, no mais pobre, simples e natural dos autos brasileiros. No Maranhão o folguedo tem uma indumentária de alto gosto. É o único made in Brazil em quase todas as suas peças e no próprio dinamismo lúdico. 

Só a figura do boi é que viajou de Portugal, mas no Brasil pastoril desdobrou-se, infinitamente longe da limitada habilidade de espalhar os curiosos às cornadas, como começara sua existência no folclore nacional, meados do século XVIII, segundo deduzo. Inútil, para mim, expor o boi como expressão religiosa, mítica, cultos da força fecundadora, acordando os colegas egípcios, o Boef Gras francês, o boi processional dos vanianecas do sul de Angola, o boi bento de São Marcos, o boi estudado por Gubernatis. Outros desígnios e destinos diversos na intenção popular, modeladora de suas preferências no plano da função divertida.

Quando reaparece o Cavalo-Marinho, espécie de centauro, cavalo da cintura para baixo, tratado por Capitão! e dando ordens, já se sabe que é o velho auto pernambucano ainda autônomo mas agregado ao bumba-meu-boi.

Ao lado das figuras permanentes passam as novas e morrem as velhas, Capitão de Campo, o Padre-Vigário, a Caipora, o Arlequim, o Bate-Queixo, o Corpo-Morto, Zé do Abismo, o Cobrador de Imposto, o Doutor-Médico, antigos ajustes de contas, anônimos e ferozes. Até certo ponto o bumba-meu-boi, boi kalemba, funciona como as antigas revistas de costumes, sacudindo o teatro nas gargalhadas comunicantes. Ninguém se revia na exposição maliciosa. Nenhum outro auto popular possui essa vocação satirizante, incontida, lógica, realizada no meio da mais pobre das assistências compreensivas. Até há poucos anos, Birico e Mateus eram profissionalmente analfabetos. Daí a originalidade das imagens, conclusões psicológicas, o inesperado depoimento coletivo nas vozes autênticas dos dois vaqueiros, engraçados e rústicos. 

Curioso é que o boi kalemba tratado, vestido e limpo, organizado, com um conjunto musical audível, ensaiado, recomendado, é de uma banalidade automática e roncante. E quando arrastam o elenco aos microfones, todo o humor esfuziante daqueles atores que representam descalços e pisando na areia, ao ar livre, pintados, rasgados e sujos, desaparece, e se tornam gagos e tristes, como malandros iniciantes depondo na polícia. 

De um desses bumba-meu-boi, maravilhoso e legítimo, fazendo as alegrias do auditório de todas as categorias, por mim levado a uma estação emissora, para programa anunciado com ampla "cobertura" entusiástica e ansiosa, assisti o mais completo desmoronamento das memórias, vivacidade e graça feiticeira nos remoques e perguntas. O estúdio retirou-lhes a faculdade de respirar normalmente. Prometi jamais reincidir.

O enredo desse legitimíssimo auto popular gira em torno de um boi, guardado pelos vaqueiros e por eles sacrificado, por variadas razões. Morto o animal, tendo antes dançado e espalhado a gente, aplicam remédios e fazem promessas e oferecimentos para restituir-lhe a vida. Algumas vezes ocorre esse episódio, voltando o boi a viver e bailar. Noutras regiões, fazem a partilha, original e cômica, das vísceras, peça por peça, em versos, destinando-as aos figurantes do auto ou pessoas estranhas mas conhecidas pelo auditório. 

Esse pormenor existe em autos e festas populares pela Europa e América Latina, sem nenhuma relação com o enredo do nosso folguedo. São, lá fora, cenas hilariantes, independentes de sequência temática, partilhas de asnos, galos, pássaros insignificantes, convergindo no Brasil para o boi kalemba, mas tendo vivido anteriormente em situação autônoma, como vemos no Reisado de Antônio Geraldo, que Sílvio Romero registou em Sergipe (Cantos populares do Brasil, I, 347, Rio de Janeiro, 1954). 

Naturalmente articulam a partilha do bumba-meu-boi com um repasto totêmico, divagação erudita dispensável para quem recorda o tantas vezes milenar costume da divisão convencional da peça de caça aos caçadores, conforme a maior ou menor intervenção no êxito cinegético. Creio, anotando o citado Reisado, ter exposto suficientemente o assunto. O mito etólio de Meleagro responde, numa antecipação milenar, a W. Robertson Smith.

Durante o decorrer do auto os compères, variando topograficamente, dialogam e recepcionam os incontáveis participantes que vão aparecendo, todos cantando e dançando. Vez por outra, comedidos e graves, vêm as damas e os galantes, entoando loas a lo divino, imperturbáveis às facécias, vestidos de branco. Birico e Mateus são os "permanentes". Mateus é mais nacional; do Pará a Santa Catarina e pelo interior de Pernambuco e Alagoas ambos os vaqueiros são Mateus. Catirina era velha figura na Bahia e recente no Nordeste. Em Alagoas denominava uma réstia de cebolas com que Mateus se armava.

O auto finda, como no século XVI, por uma dança geral, em que todos os personagens voltam ao público para a farândola terminal. Noutras paragens, acabam todos bailando em forma de carrossel, tear, moenda ou cantando desafios.”


Pelo texto do folclorista Luís Câmara Cascudo, chegamos à conclusão de que o Bumba-meu-boi, tal como o conhecemos hoje, era apenas uma parte menor do auto do Cavalo Marinho, mas que acabou evoluindo por conta própria e se transformou em uma brincadeira autônoma.

O certo é que, ao espalhar-se pelo país, o Bumba-meu-boi adquiriu nomes, ritmos, formas de apresentação, indumentárias, personagens, instrumentos, adereços e temas diferentes. Dessa forma enquanto no Maranhão, Rio Grande do Norte e Alagoas é chamado Bumba-meu-boi, no Pará e Amazonas é Boi-Bumbá ou Pavulagem, em Pernambuco é Boi Calemba ou Bumbá, no Ceará é Boi-de-Reis, Boi Surubim e Boi Zumbi, na Bahia é Boi Janeiro, Boi-Estrela-do-Mar, Dromedário e Mulinha-de-Ouro, no Paraná e em Santa Catarina é Boi-de-Mourão ou Boi-de-Mamão, em Minas Gerais e Rio de Janeiro é Bumba ou Folguedo do Boi, no Espírito Santo é Boi-de-Reis, no Rio Grande do Sul é Bumba, Boizinho, ou Boi-de-Mamão, e em São Paulo é Boi-de-Jacá ou Dança do Boi.

Figura mitológica nas mais diversas culturas, o boi era visto por escravos negros e indígenas como companheiro de trabalho, símbolo de força e resistência. É por isso que toda a encenação gira em torno dele. A pessoa que veste a fantasia do animal é chamada de “miolo” ou “tripa”.

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