sexta-feira, julho 08, 2016

Do Casamento na Roça ao Duelo entre Cowboys


Em Manaus, há centenas de quadrilhas caipiras que obedecem ao formato tradicional, mas novas variantes da brincadeira foram se incorporando ao nosso folclore como as quadrilhas cômicas (em que os homens se vestem de mulheres e as mulheres, de homens), as quadrilhas de duelo (em que há simulação de duelo entre cowboys do Velho Oeste) e as quadrilhas alternativas (com maior ênfase na dança de rua, incorporando passos do funk, break, popping e locking). Em compensação, uma das variantes mais populares da brincadeira nos anos 60 e 70, a Desfeiteira, praticamente deixou de existir.

A Desfeiteira também é uma dança de pares enlaçados que circulam livremente pelo salão. A única obrigatoriedade é de os pares desfilarem em forma de fila indiana diante do conjunto musical que anima a brincadeira. Repentinamente, os músicos param de tocar e os pares também ficam parados, onde estiverem.

Aquele casal que coincidir de estar na frente do grupo musical passará por uma prova: o músico-chefe do grupo ou o marcador da brincadeira escolhe a dama ou o cavalheiro para declamar um verso sobre um tema específico (amor, amizade, beleza, saudade, viagem, etc). Quem não conseguir realizar a proeza é vaiado pelos outros brincantes e pelo público, e, por esta desfeita, paga uma prenda ou recebe um “castigo”, ficando assim desfeiteado.

Tal como ocorreu com os bumbás de Parintins, as quadrilhas caipiras de Manaus também abandonaram o seu enfoque tradicional (o casamento na roça) e passaram a desenvolver novos enredos específicos, abordando histórias extraídas da literatura de cordel e da literatura infantil, homenagens a cidades históricas, como Olinda, Recife e São Luís, biografias de figuras ilustres (Luiz Gonzaga, Patativa de Assaré, Monteiro Lobato), lendas regionais urbanas, o mundo mágico do circo, e assim por diante, abusando de alegorias e cenários majestosos. O modernismo é pop e não poupa ninguém.


Fundada no dia 10 de maio de 1975, a Quadrilha Caipira na Roça, localizada na Rua 03, nº 113, Alvorada I, é a mais longeva quadrilha caipira da cidade. Seus fundadores, Rosana e Erlano Tananta, no início, conceberam a brincadeira com os homens usando camisa xadrez e calças com retalhos, e as mulheres com vestidos de chita e detalhes de renda, caracterizando assim o povo da roça. A dança mantinha o ritmo, a coreografia e a beleza do formato tradicional.

A partir de 1992, entretanto, eles resolveram criar um estilo próprio, com coreografias, comandos e figuras mais inovadoras. O resultado foi a criação do estilo “matuto maluco”, com ênfase em uma expressão corporal mais vigorosa, caracterizada pelo andar saltitante dos brincantes e pelo abuso no molejo dos braços e das pernas.

Nos anos seguintes, esse novo estilo se tornou uma febre entre as outras quadrilhas e se transformou em motivo de orgulho para os criadores.


A doce Marie Jolie, rainha da Juventude na Roça

Fundada no dia 1º de junho de 1977, a Quadrilha Juventude na Roça, localizada na Av. Castelo Branco, nº 1957, nasceu no mesmo local onde, 15 anos antes, havia sido fundada a Dança Nordestina Cabras do Lampião.

A fundadora, D. Terezinha Peixoto da Silva, natural de Coari, achava esquisito “o pessoal da cidade querer representar uma festa no interior com as pessoas usando roupas remendadas, quando, na verdade, os interioranos usam sua melhor roupa para irem à uma festa”.

Disposta a romper com aquele paradigma, ela concebeu a brincadeira de uma forma mais chique, com os homens usando terno de tergal azul marinho sobre camisas quadriculadas de manga comprida, e as mulheres com vestidos longos de renda e estampa florida, em ambos os casos sem a utilização dos remendos tradicionais.

A inovação deu tão certo que a Juventude na Roça se tornou a maior campeã da história do Festival Folclórico do Amazonas, com 22 títulos conquistados. Ela também foi uma das primeiras quadrilhas a utilizar composições próprias nas suas apresentações.

Além das duas pioneiras, as outras principais quadrilhas caipiras de Manaus são as seguintes: Unidos na Roça, Matutos Honoré na Roça, Sete Quedas na Roça, JAQ na Roça, Gaviões na Roça, Vitória Régia, Revolução na Roça, Marupiaras do Amazonas, Caipiras na Roça da Betânia, Festança na Roça, Brotinhos de Petrópolis, Família Gald na Roça, Chamegando na Roça, Olinda na Roça, Faz Raiva na Roça, Meu Reino na Roça, Explosão na Folia, Unidos do Alvorada na Roça, Minha Deusa na Roça, Explosão de Alegria, Manto Azul, Rosas da Noite, Pimentinha na Roça, Rastapé na Roça, Originais do Zumbi, Brotinhos do Coroado, Estrela na Roça e Elétricos na Roça.


No dia 22 de fevereiro de 1987, no Bairro da Paz, os irmãos Francisca e Klingerlander Cascaes de Souza criaram uma quadrilha caipira tradicional chamada Os Matutos na Roça, que durou três anos. Foi quando os dois irmãos, em concordância com a maioria dos brincantes, resolveram mudar o nome da quadrilha para Os Pistoleiros na Roça e, em vez de encenar um casamento caipira, resolveram encenar um duelo entre mocinho e bandido, tal como acontecia nos filmes de faroeste. Estava criada a primeira quadrilha de duelo do país, já que, aparentemente, esse formato criativo só existe em Manaus.

Com coreografias ousadas que deixavam o público surpreso com tudo que estavam presenciando e um enredo em que bandidos e mocinhos estavam sempre lutando por terras, poder ou pelo amor de uma mulher, Os Pistoleiro na Roça recriavam o Velho Oeste no coração da floresta amazônica e injetavam adrenalina de verdade no nosso folclore baré.

Não demorou muito para que novos grupos se irmanassem na brincadeira: Os Justiceiros na Roça, Os Intocáveis na Roça, Os Anjos do Faroeste, Os Renegados na Roça, Os Reis do Faroeste, Os Mexicanos na Roça, Anjos Bandidos Show, Em Busca da Paz e Rápido no Gatilho.

Mas quem é rei nunca perde a majestade: depois de conquistar 15 títulos em diversos festivais da cidade, incluindo o Festival Folclórico do Amazonas, Os Pistoleiros na Roça participaram, em 2008, do Festival Folclorico da América Latina, na Venezuela, e se sagraram campeões sul-americanos.


No dia 24 de junho de 1996, na Rua Raquel, em Petrópolis, D. Socorro e suas irmãs, em parceria com Miranda, o presidente do time de “peladeiros” da área, resolveram criar uma quadrilha onde os homens se vestissem de mulher e vice-versa, para animar o arraial da rua. A ideia inicial era fazer uma única apresentação naquele dia, mas o sucesso foi tão grande que logo surgiram vários convites para que a quadrilha se apresentasse em outros arraiais.

Para isso, foi necessário criar uma coordenação técnica a fim de elaborar passos coreografados e roupa padronizada, capaz de dar uma identidade visual ao grupo. Nascia a primeira quadrilha cômica da cidade, batizada de Pedro e Pedrita por sugestão de um dos brincantes.

No primeiro ano em que se apresentou no Festival Folclórico do Amazonas conquistou o título de campeã e destaque do festival. De lá pra cá, obrigou os coordenadores do festival criarem uma nova categoria para a novidade, acumulou nove títulos e forneceu corda e caçamba para todas as outras quadrilhas cômicas, que surgiram na sua trilha.

Tirando a pioneira, as quadrilhas cômicas mais divertidas de Manaus são as seguintes: As Poderosas na Roça, Fiapos na Roça, Bofe na Roça, Folia e Fuleragem, Vai Na Marra, Quem São Eles na Roça, As Virgens na Roça, Garotas da Noite, João e Maria, Vai Ki Cola, Bofe Me Arrocha, Sansão e Dalila, Penetrando na Roça, Biba’s Boys, Victor e Victoria, Bagaceira na Roça e Nem Ki a Vaca Tussa.


Quando se fala em quadrilhas alternativas, a trepidante Funk Na Roça, fundada em 10 de abril de 1995, por Maicon Costa, em Educandos, pode ser considerada a pioneira do ramo ao fazer o crossover de música junina, forró eletrônico, funk e hip hop.

Ao relembrar a fundação da quadrilha, Maicon revela que a sua meta era montar um grupo de danças para agregar as pessoas do bairro em torno de atividades consideradas sadias. “Com o passar dos anos fomos crescendo e hoje, graças a essa nossa grande família, promovemos várias ações de apoio à comunidade e evitamos que as nossas crianças entrem no caminho do vício”, argumenta.

 Segundo ele, além de promover a dança, a sua equipe também trabalha nas escolas da comunidade, com grupos de dança e de qualificação. “Nós desenvolvemos várias atividades e ensinamos, por exemplo, os segredos da arte da costura, da profissão de cabeleireiro e do artesanato”, diz ele.

Mas se o pioneirismo cabe à Funk na Roça, coube à Dança de Rua na Roça, fundada em 1º de outubro de 1997, no Japiim, contribuir decisivamente para a consolidação das quadrilhas alternativas no folclore local e, simultaneamente, se transformar na cereja do bolo desse novo estilo.

Formada pelos irmãos Dean, Dhey, Dhonny (músico da banda Kawane) e Redjone, a ideia inicial era fazer uma quadrilha moderna e diferente, com movimentos mais acelerados e aeróbicos, capaz de fazer uma transição de quadrilha tradicional para a dança de rua sem desconcertar o público.

O combo inicial começou a engrossar a couraça com a chegada de dançarinos tradicionais de break, os B-Boys da Bola da Suframa, e da professora e dançarina Jeane Dutra, coordenadora da Faculdade de Dança da UEA. O resultado final foi um espetáculo visual incrível, apresentado pela primeira vez no Festival de 1999.

Na primeira parte, os brincantes executavam os passos de uma quadrilha junina tradicional, todos vestidos de caipiras, apesar de a trilha sonora ser um forró eletrônico vitaminda pelo baticum acelerado de house music. O jogo de luzes também era fantástico.

De repente, as luzes se apagavam, deixando o tablado na mais completa escuridão. Vários rapazes deslizando de patins com archotes acesos na mão começavam a fazer uma série de desenhos geométricos entre os brincantes, que se aproveitavam da escuridão reinante para trocar de roupa.

Quando as luzes voltavam a se acender, o tablado havia se transformado em uma pista de dança. Os brincantes, agora fantasiados de b-boys, começavam a dançar break, locking, reggae e street jazz sob a trilha sonora de uma das músicas mais grudentas do planeta: “Gonna Make You Sweat (Everybody Dance Now)”, do C+C Factory.

A trilha sonora continuava emendando um funk atrás do outro (Donna Summer, Barry White, Michael Jackson, etc) e os bailarinos também continuavam mostrando uma coreografia tecnicamente impecável. O público presente foi ao delírio. De lá pra cá, a Quadrilha Alternativa Dança de Rua na Roça já conquistou 10 vezes o título de campeã do festival.

Outras quadrilhas alternativas que merecem ser vistas e aplaudidas: União Hit Dance, Frank de Rua, Geração 2000, Guardiões das Estrelas, Exército Negro na Roça, Furacão e Black Style.

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