terça-feira, julho 26, 2016

O 3º Festival Folclórico do Amazonas (1959)


O Tira Prosa conquistou o 1º lugar e impediu o tricampeonato do Corre Campo

Fã ardoroso do festival desde a primeira edição do evento, Gilberto Mestrinho, recém-eleito governador do estado em 1958, assumiu a despesa com a premiação dos vencedores de cada categoria e convenceu o prefeito de Manaus, Lauro Cordovil, a fornecer uma pequena ajuda de custo para todos os grupos folclóricos da cidade que se inscrevessem na competição.

O dinheiro da PMM era repassado mediante apresentação do recibo de inscrição fornecido pela Empresa Archer Pinto.

Os primeiros colocados de cada categoria dividiriam um prêmio em dinheiro no valor de Cr$ 140 mil (R$ 140 mil, em valores de hoje). Somente a vencedora do concurso “Rainha do Folclore” (que substituiu a antiga denominação “Imperatriz do Folclore”) embolsaria Cr$ 20 mil e uma passagem aérea, com direito a acompanhante, no trecho Manaus-Rio de Janeiro-Manaus.

O rateio da premiação levou em conta a importância dos conjuntos folclóricos, cabendo aos bumbás a maior parte do dinheiro (Cr$ 30 mil para o primeiro colocado, Cr$ 15 mil para o segundo e Cr$ 5 mil para o terceiro), seguidos pelas quadrilhas (Cr$ 15 mil para a primeira colocada, Cr$ 10 mil para a segunda e Cr$ 5 mil para a terceira).

Das demais categorias, seriam premiadas com dinheiro apenas o primeiro colocado de cada uma delas: danças regionais (Cr$ 15 mil), tribos (Cr$ 10 mil), cordões de pássaros (Cr$ 10 mil) e brigues (Cr$ 5 mil).

Em virtude das precárias condições econômicas da cidade, era uma premiação considerável, o que despertou o interesse de muitos brincantes e resultou em um número recorde de grupos inscritos. Cada grupo teria 20 minutos para fazer sua apresentação oficial no tablado.

Para efetivar sua inscrição e receber a ajuda de custo concedida pela Prefeitura, no valor de Cr$ 5 mil, cada grupo folclórico precisava apresentar uma relação completa com o nome e a idade de cada brincante, endereço do local de ensaios, nome oficial da agremiação e de seus responsáveis, nome da candidata a Rainha do Folclore (que não era obrigatório) e uma licença para apresentação pública, fornecida gratuitamente pela Polícia Civil e Vara da Família.

Dessa vez, 54 grupos folclóricos se inscreveram para a competição, entre eles o recém-fundado Pássaro Rouxinol, de Edmilson Pereira da Silva, que tinha seu “bosque” na Rua Ana Nogueira, 209, em Educandos.

Como no ano anterior, todos os grupos deveriam se reunir na Praça de São Sebastião, a partir das 15 horas, e se dirigir em passeata para o Estádio General Osório.


A ordem de apresentação do III Festival Folclórico ficou assim definida, mediante sorteio realizado com a presença de todos os dirigentes dos grupos e publicada no matutino O Jornal e no vespertino Diário da Tarde uma semana antes do início do evento:

Dia 21 (domingo) – Às 15 horas. Concentração obrigatória de todos os grupos na Praça São Sebastião, de onde partirão para o desfile no Estádio General Osório, em homenagem ao povo e autoridades, abrindo, assim, solenemente, a maior festa junina do Brasil. Às 17 horas. Início das competições, com a apresentação das quadrilhas mirins Baypendi, da Vila Baypendi, na Rua 24 de Maio, e Infantil José Paranaguá, do Grupo Escolar José Paranaguá. Desfile das candidatas a Rainha do Folclore. Às 20h30. Soçaite no Careiro, Pássaro Japiim, Flor do Plano e Bumbá Ás de Ouro.

Dia 22 (segunda) – Juca Gringo de Alencar, Pai João, Tribo dos Guaranis, Brotinhos Tropicais, Bumbá Pingo de Ouro e Pássaro Gavião Real.

Dia 23 (terça) – Soçaite na Roça, Caboclos do Amazonas, Caboclos do Andirobal, Bumbá Tira Prosa, Pássaro Rouxinol e Coronel Fiúza.

Dia 24 (quarta) – À tarde. Bumbá Pai do Campo, Quadrilha Mirim da Escola Técnica de Manaus, Caboclinhos do Tabocal e Brigue Independência. À noite. Caipirada Normalista, Quadrilha Jovem da Escola Técnica de Manaus, Bumbá Canarinho, Quadrilha dos Tabajaras e Quadrilha Sertaneja.

Dia 25 (quinta) – Caboclinhos do Soçaite, Princesinha do Sertão, Quadrilha do Céu, Pássaro Corrupião, Bumbá Flor do Campo e Quadrilha do Major Veloso.

Dia 26 (sexta) – Nhô João Tropeiro, Capitão Virgulino, Barbudos do Coronel Fulgêncio, Quadrilha Carpinteiro Peres, Desbravadores de Brasília e Bumbá Corre Campo.

Dia 27 (sábado) – À tarde. Caboclos do Coronel Duca, Brotinhos da Floresta, Clube das Mães e Riachuera. À noite. Juventude na Roça, Quadrilha Arautiana, Primo do Cangaceiro, Caiçaras e Bumbá Mina de Ouro.

Dia 28 (domingo) – Somente à noite. Dança Regional do CEA, Quadrilha do Morro da Liberdade, Quadrilha Adulta da Escola Técnica de Manaus, Bumbá Rica Prenda, Quadrilha Primavera e Botafogo na Roça.

O Clube dos Lambretistas, com mais de 40 participantes pilotando suas Vespas e Lambrettas, acompanharam o desfile dos grupos folclóricos até o General Osório e depois deram uma força na organização dos trabalhos no interior do estádio.

A Rádio Difusora do Amazonas, de Josué Cláudio de Souza, e a Rádio Baré, de Epaminondas Baraúna, instaladas no tablado do III Festival, transmitiram a solenidade de abertura do evento.

Uma pequena notinha publicada no matutino O Jornal chamava a atenção do leitor:

Como aconteceu no ano passado, organizaremos, nas áreas do Estádio General Osório, durante os nove dias do espetáculo, os vendedores ambulantes, também fantasiados tipicamente. Avisamos, porém, que nesse III Festival quem não possuir uma autorização de O Jornal e Diário da Tarde não poderá exercer a vendagem de guloseimas próprias da época em qualquer parte do estádio, de acordo com os entendimentos mantidos por nossos diários com o prefeito Loris Cordovil e o Comando do 27º Batalhão de Caçadores. Os interessados, portanto, sobretudo as mulheres, que pretendem usufruir desse direito, vendendo suas iguarias ao povo, no General Osório, fantasiadas de Baianas ou de outro tipo folclórico, devem obter essa autorização, em nossa redação, no expediente das 9 às 12 horas, todos os dias.

No frigir dos ovos, o concurso para a escolha da Rainha do Folclore, como era de se esperar, acabou se transformando em um grande duelo entre as beldades da cidade por causa dos valiosos prêmios em disputa: duas passagens de avião para a capital da República e uma considerável soma em dinheiro.

Entre as candidatas que participaram do concurso estavam Wilce Barros (Quadrilha Coronel Fiuza), Maria Martins (Quadrilha Riachuera), Zuleide Magalhães (Barbudos do Coronel Fulgêncio), Maria das Dores (Quadrilha do Sertão), Maria Auxiliadora (Quadrilha do Coronel Virgulino), Wandete Silva (Quadrilha do Juca Gringo de Alencar), Tereza Bessa (Quadrilha Primavera), Renilda Ponciano (Quadrilha Tabajaras), Nilcéa Ribeiro (Quadrilha Flor do Plano), Cremilda Nazaré Magalhães (Quadrilha Arautiana), Fátima Rodrigues Alves (Quadrilha Soçaite na Roça), Maria da Glória Monteiro Ribeiro (Quadrilha Brotinhos da Floresta), Renilda Pontes da Penha (Quadrilha Desbravadores de Brasília), Zuleide Lopes da Silva (Quadrilha Carpinteiro Peres), Íria Monassa (Quadrilha Caipirada Normalista) e Evan Neves (Danças Regionais do Colégio Estadual).

No dia 29, segunda feira, Dia de São Pedro, o festival foi encerrado, após um novo desfile coletivo dos 54 grupos folclóricos, da Praça São Sebastião ao Estádio General Osório, com a Comissão Julgadora anunciando os vencedores e o prefeito Lauro Cordovil fazendo a entrega dos prêmios em dinheiro. Cerca de 30 mil pessoas prestigiaram o evento.


Conforme as notas atribuídas pela Comissão Julgadora, os campeões daquele ano foram:

Bumbás: Tira Prosa (1º lugar), Corre Campo (2º lugar) e Mina de Ouro (3º lugar).

Quadrilhas: Tabajara (1º lugar), Primo do Cangaceiro (2º lugar) e Soçaite na Roça (3º lugar).

Tribo: Guaranis.

Cordão de Pássaros: Japiim.

Dança Regional: Colégio Estadual do Amazonas (CEA).

Brigue: Independência.

Rainhas: Maria da Conceição Rocha da Silva (Quadrilha Caiçaras) e Evan Neves (Danças Regionais do CEA).

Apenas uma curiosidade: quatro dias antes do desfile de abertura do festival, a Quadrilha Brotinhos de Aparecida, que tinha sido uma das sensações do ano anterior, desistiu de se apresentar no tablado e compareceu à redação de O Jornal, onde devolveu a ajuda de custo que havia recebido do prefeito Loris Cordovil. Dá pra imaginar algo desse tipo acontecendo nos dias de hoje?...

No dia 30 de junho, o matutino O Jornal publicou uma pequena matéria intitulada “Vitória do Tira Prosa redundou no espancamento do peixeiro”:

Mais um espancamento foi registrado á noite de ontem, desta vez no bairro da Cachoeirinha, rua Carvalho Leal, próximo ao Sanatório Adriano Jorge, quando o cidadão Manuel Pereira de Araújo, amazonense, casado, peixeiro, com 35 anos de idade, filho de Francisco Pereira e de Adalgisa Pereira de Araújo, residente na rua Panair, nº 37, vendia seus peixes naquela artéria e foi abordado por vários indíviduos não identificados, os quais perguntaram-lhe se o bumbá Tira Prosa era campeão.

Recebendo uma resposta positiva, os desconhecidos passaram a lhe agredir barbaramente a socos e pontapés, deixando o mesmo desmaiado, quase sem vida. O aludido peixeiro foi socorrido por diversos populares, que o levaram para o SSU, onde foi medicado, apresentando ferimentos lacero-contuso na região frontal, com perda de substância do couro cabeludo e contusões e escoriações pelo corpo. 

A vítima, após ser socorrida, esteve na Delegacia de Segurança Pessoal, onde notificou o fato às autoridades daquela especializada, tendo o delegado Antonio Lopes registrado a ocorrência e determinado as providências devidas.

Uma semana depois, o vespertino Diário da Tarde publicou uma pequena matéria intitulada “Brincantes do Corre Campo ameaçam boi adversário”:

Na manhã de hoje, vários moradores do bairro de Santa Luzia estiveram no casarão da Marechal Deodoro, quando solicitaram ao dr. Klinger Costa, Chefe de Polícia, providências contra diversos brincantes do bumbá Corre Campo, que vêm aterrorizando aquele bairro.

Segundo relataram, por diversas vezes elementos daquele bumbá tentaram formar conflitos, tendo à noite de ontem penetrado no curral do boi Tira Prosa e ameaçaram queimar o mesmo, pois estavam bem municiados de querosene e armas de fogo. Por pouco não houve derramamento de sangue.

Falando à nossa reportagem, o titular do DESP disse que, caso os brincantes dos dois bumbás voltem a formar conflitos, serão proibidos de sair na via pública, a fim de evitar brigas. Hoje mesmo mandará diligências policiais para os referidos “currais”.

No dia seguinte, o Diário da Tarde voltaria ao assunto com a matéria intitulada “Corre Campo jamais procurou brigas com o rival”:

A propósito de uma matéria veiculada no Diário da Tarde, de que os brincantes do bumbá Corre Campo estariam procurando desavenças com os brincantes do bumbá Tira Prosa, compareceram à nossa redação dirigentes do referido boi, os quais foram unânimes em afirmar que a mesma era infundada, pois são todos homens de responsabilidade e jamais pensariam em tal coisa.

Disseram-nos ainda que as suas relações de amizade com os outros é a melhor possível e se alguma coisa havia acontecido fugia-lhe à responsabilidade, pois era praticada única e exclusivamente por torcedores exaltados de ambas as partes, querendo afirmar que o objetivo era abrilhantar cada vez mais as promoções dos nossos diários na época junina.

No dia 19 de julho, visando encerrar de vez as hostilidades entre vencedores e perdedores, o prefeito Lauro Cordovil promoveu a “Festa da Cordialidade”, no Balneário Parque Dez de Novembro, para todos os brincantes de bumbás, pássaros, brigues, quadrilhas e tribos que participaram do festival daquele ano, com farta distribuição de bebidas e comidas juninas, em regime de boca livre total.
Mais de 3 mil brincantes participaram do panavueiro. Não houve registro de brigas ou discussões.

Um comentário:

M.BECKHMAN disse...

PARABÉNS pela pesquisa e pelo resgate da História da Cultura Popular de Manaus e do Amazonas. Fui brincante do Garrote Malhado da Praça 14 de Janeiro que atualmente beira aos seus 80 anos de existência. Ainda se apresenta desconfigurado, ou seja, "reconfigurado" aos moldes da Parintinização pelos arredores do Japiim. Emocionante, espero que você nos presentei com um livro para que as presentes e futuras gerações tenham conhecimento da rica História Cultural de Manaus e do Amazonas. Saudações Amazônicas e Amazonenses!