quinta-feira, julho 28, 2016

O 7º Festival Folclórico do Amazonas (1963)



Os governadores petebistas Gilberto Mestrinho e Plínio Coelho

Ao longo dos anos, o jornalista Bianor Garcia desenvolvera uma amizade com o governador Gilberto Mestrinho que beirava à camaradagem entre colegiais secundaristas, mas não gozava desse mesmo grau de intimidade com o novo governador Plinio Coelho. O relacionamento entre os dois era extremamente formal.

Por causa disso, o jornalista recebeu com surpresa a criação de uma denominada Comissão Amazonense de Folclore (CAF), feita meio no afogadilho pelo governador, e que, de certa forma, passaria a dar as cartas no festival. Era o preço que Bianor Garcia teria de pagar por ser diretor-executivo de uma festa popular promovida pela iniciativa privada, mas custeada com verbas públicas. O jornalista ficou na dele.

Em linhas gerais, a Comissão Amazonense de Folclore era um feudo da família Monteiro (Mário Ypiranga Monteiro, Marita Socorro Monteiro, Maurílio Galha Monteiro e Azemilton Trajano Monteiro), secundado por três intelectuais de alto coturno: Padre Raimundo Nonato Pinheiro Filho, Pedro Amorim e André Vidal de Araújo.


O professor, historiador e folclorista Mário Ypiranga Monteiro

Defensor intransigente da pureza do folclore de raiz indígena e “cagarregrense” por convicção e natureza, com certidão registrada em cartório, Mário Ypiranga Monteiro abominava o formato do festival (com premiação em dinheiro para os vencedores de cada categoria) e tinha um ódio quase homicida das “famigeradas quadrilhas caipiras”, que ele considerava “grotescas”, “de mau gosto” e “a maior deturpação do folclore” na medida em que tais “caipiradas” nada mais eram do que “uma sórdida crítica ao homem rural”.

– Todos os anos surgem novos bois, novos cordões de bichos, novas quadrilhas, regulando-se essas novidades pela promessa de excelentes prêmios – reclamava o historiador. – A competição abre o apetite das massas, daí a criação de novos conjuntos de vida efêmera. Isto só pode degenerar em depauperamento das tradições, em anarquia, que indivíduos “intelectualizados” não enxergam, na preocupação de realizar seus próprios desideratos, conseguir votos nas eleições, abiscoitar uns cobres extras...

Apesar da objeção da minoria qualificada (Padre Nonato, Pedro Amorim e André Vidal de Araújo), a Comissão Amazonense de Folclore, pela maioria de seus membros (4 a 3), decidiu que não haveria mais premiação em dinheiro para os vencedores: o governador daria uma ajuda de custo antes e depois do festival para todos os grupos inscritos e um diploma de participação. Como não haveria disputa, também não haveria a necessidade de dar troféus aos  grupos participantes já que seria apenas um “festival de exibição”.

A CAF também criou novas categorias e subcategorias para os grupos inscritos, incluindo as “competições lúdicas” (nome pomposo para as antigas brincadeiras de crianças em colégios, durante o período junino) e aboliu definitivamente as danças internacionais, que considerava desvinculadas de nossa realidade. Por último, também foi reduzido o número de bancos de madeira no entorno do tablado, supostamente para dar maior visibilidade ao público.

O “cagarregrense-mor” da CAF acreditava que, com essas simpáticas medidas, o festival ficaria mais dinâmico e atrativo. O número de grupos inscritos, pouco mais que a metade do ano anterior, provaria exatamente o contrário.

Naquele ano, o auxílio financeiro dado pelo governo ficou assim distribuído. Bumbás: Cr$ 80 mil (em valores de hoje, R$ 12 mil). Garrotes, Tribos e Quadrilhas adultas: Cr$ 60 mil. Quadrilhas mirins: Cr$ 20 mil. Danças Regionais e Pássaros: Cr$ 30 mil. Após as apresentações no festival, os grupos receberiam um segundo aporte de mesmo valor.

Defensor perpétuo do multiculturalismo, o jornalista Bianor Garcia convenceu a direção da Empresa Archer Pinto a incluir algumas danças internacionais, como atração extra do festival, o que lhe valeria o ódio eterno do “purista” Mário Ypiranga Monteiro.


No dia 5 de junho, quarta feira, o matutino O Jornal publicava uma matéria intitulada “Festival chama o Brasil para conhecer o folclore”, mostrando que, aparentemente, Bianor Garcia continuava no comando da festa:

Faltam exatamente 11 dias para o início do VII Festival Folclórico do Amazonas. Cada hora que passa, maior a expectativa do povo, de todas as correntes sociais. A nossa redação é visitada, diariamente, por centenas de pessoas. Umas querem saber quando vão desfilar. Outros pedem permanentes. Estes pedem orientações. Aqueles procuram informações sobre a venda de guloseimas. É a azáfama de todo os anos. É a complementação de um trabalho que se inicia nos primeiros meses de abril ou logo após o carnaval, como aconteceu dessa vez.

E enquanto grupo de carpinteiros, pintores, eletricistas e operários limpam, enfeitam, levantam o tablado e armam o sistema de iluminação lá no Estádio General Osório, palco da amis bela festa típica do país, o governador Plínio Coelho dirige convite às autoridades federais, a governadores de outros Estados, ao mesmo tempo que recebemos a confirmação da vinda de folcloristas do Pará, do Rio de Janeiro, de São Paulo, etc. os dias se passam celeremente. As nossas energias dão tudo, esgotam-se, com o fito de promover um festival à altura da exigência do público e repetir os feitos anteriores, cujos reflexos são hoje o motivo da curiosidade e do interesse de homens de vulto nesse país.

Está praticamente concretizado o nosso trabalho. Os grupos folclóricos, que ascendem a mais de cinquenta, ensaiam, preparam-se, compram fantasias, pedem orientações, reúnem amigos para ajuda-los, recebem auxílio do Governo. A montagem da festa, em si, caminha sem atropelos maiores. E o povo, que a tudo observa, não pensa noutra coisa. Sabe ele que terá 15 dias de alegria, de folguedos sadios, de espetáculos maravilhosos, de exibições fantásticas. Falta pouco, evidentemente, para o VII Festival que terá o apoio do governador do Estado, das Indústrias I. B. Sabbá, do Prefeito, do GEF e de tantos outros.

ENSAIO GERAL DOS MANAÚ – A Tribo dos Manaú, na Av. Japurá, 1.059, na Praça 14, realizará o seu ensaio geral, com uma bonita festa, no próximo sábado, à noite, para a qual recebemos convites. Aquele grupo campeão do ano passado está se preparando para voltar ao trabalho do festival, com a pinta de campeão que é de fato e de direito. Os seus amigos, os seus simpatizantes e os curiosos podem comparecer, para emprestar o brilhantismo de sua presença e o seu apoio.

IBGE NO FESTIVAL – O Delegado Regional do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), como já divulgamos anteriormente, recebeu ordens de seus superiores da alta direção da aquela autarquia, para recolher de nosso festival folclórico tudo que for indispensável à elaboração de uma plaqueta exclusiva do folclore. O sr. José de Souza e Pontes, delegado regional do IBGE, entrou em entendimento com o jornalista Bianor Garcia, diretor-executivo do festival, que lhe fornecerá fotografias, enredos, letras e notas musicais das toadas, dos cânticos, etc, dos bumbás, garrotes, tribos, pássaros, danças, tudo enfim que se puder extrair das apresentações dos conjuntos participantes da maior e da mais linda festa típica do Brasil.

ATENÇÃO, DIRIGENTES DOS BUMBÁS! – Pedimos que providenciem, com urgência, o envio das toadas dos bumbás e garrotes, que serão apresentadas durante o festival. Os donos destes grupos devem manda-las ao jornalista Bianor Garcia, manuscritas ou à máquina, antes do dia 16, para serem arquivadas no IBGE e na Comissão Amazonense de Folclore.

PERMANENTES – Continuamos avisando aos nossos leitores e amigos que desta vez não será possível atender a todos que nos pedem permanente para sentarem nos bancos contíguos ao tablado. O preço da madeira subiu e em consequência foi reduzido o número de bancos. Esperamos que todos compreendam que não estamos negando os permanentes, pois não podemos atender a quanto a nós se dirigem, porque haverá número limitado e já praticamente esgotado. Terão prioridade as famílias de outros Estados, turistas, convidados de honra, militares, etc.

VENDA DE GULOSEIMAS – Somente a partir do dia 10 o jornalista Bianor Garcia distribuirá as permissões aos vendedores ambulantes, para que instalem suas bancas de guloseimas. Previne-se, também, que haverá algumas restrições quanto ao produto a ser exposto na quadra. Os interessados devem procurar a nossa redação, depois do dia 16, no horário das 10 às 12 horas, pessoalmente, evitando enviar encarregados ou meninos, para os entendimentos.

ÔNIBUS PARA O ESTÁDIO – Em que pese o programa deste ano vise terminar os espetáculos um pouco mais cedo do que no ano passado, mesmo assim entramos em ligações com o Delegado do Trânsito, para que sua senhoria estude uma maneira das companhias particulares de ônibus fazerem linhas especiais, à noite, depois das 22 horas, pelo Estádio General Osório, para atender ao povo, que ali se comprime às primeiras horas da noite.


No dia 7 de junho, sexta feira, uma matéria do matutino O Jornal, intitulada “45 Danças, 22 Autos Populares, as Rodas de Contraponto, Lúdicas e outras atrações”, já mostrava claramente quem estava dando as cartas no pedaço:

Faltam, hoje, somente nove dias para o VII Festival Folclórico do Amazonas. O dia 16 vem aí, anunciando festas, alegrias, explosões de entusiasmo, risos, danças, volteios, luzes, manjares. O povo delas participa, como dono autêntico, pois é em sua homenagem que se criou e se realiza a maior e a mais linda festa deste país.

Obedecendo à recomendação expressa e subsidiária da Comissão Amazonense de Folclore, o jornalista Bianor Garcia procedeu ontem à classificação geral de todos os grupos participantes, nas suas diversas categorias. Esse quadro poderá ser aumentado ou diminuído, dependendo da organização de alguns conjuntos e da situação de recursos financeiros que outros atravessam.  Até aqui, porém, é esta a classificação folclórica dos inscritos:

AUTOS POPULARES – Bumbá Corre Campo. Bumbá Tira Prosa. Bumbá Pai do Campo. Bumbá Caprichoso.

SUBCLASSIFICAÇÃO DE BUMBÁS – Garrote Teimosinho. Garrote Luz de Guerra. Garrote Treme Terra. Garrote Malhado. Garrote Tira Teima. Tribo dos Iurupixunas. Tribo dos Manaú. Tribo dos Andirás. Tribo dos Guaranis. Pássaro Corrupião. Pássaro Japiim. Dança do Congo. Dança Caninha Verde. Dança da Ciranda. Dança dos Africanos. Cordão das Lavadeiras. Caboclinhos do Surara. Brigue Independência.

DANÇAS – Quadrilha Adulta: Flor do Plano. Araruamas na Roça. Real Madrid na Roça. Caboclos do Tapauá. Mocidade na Roça. Caiçaras na Roça. Geraldinos no Roçado. Caboclinhos do Araçá. Cabras do Lampião. Primo do Cangaceiro. Quadrilha Mirim: Caboclinhos de Brasília. Filhos de Lampião. Firim Firim na Roça. Brotinhos de Amanhã. Americanos na Roça. Outros: Cacetinho. Arara. Desfeiteira. Tipiti. Imperiais. Camaleão. Tapuia e o Branco. Desafio dos Amos.

RODAS DE CONTRAPONTO – Flor do Lírio. Lundu do Gambá.

LÚDICAS – Jogo do Aro. Corrida do saco. Corrida com ovo na colher. Vestir roupa correndo. Corrida de dupla. Andar sem quebrar garrafa. Comer maçã. Engolir fio. Procurar dinheiro na serragem. Quebrar pote.

OUTRAS EXIBIÇÔES – Além dessas categorias já disciplinadas, teremos outras que serão complemento da festa. Dente elas, destacam-se o Balé Folclórico Japonês, Danças Madeirenses (da Ilha da Madeira, Portugal), Danças Mexicanas, escolas de acordeão Hélio Trigueiro e Santa Terezinha, os garotos do Educandário Gustavo Capanema, do Barão do Rio Branco, do José Paranaguá, do Princesa Isabel e as Musas do Ritmo. Não faltarão, por certo, as atrações artísticas. Uma delas, se tudo sair a contento, será a apresentação do Trio Fluminense, constituído de um grupo de mulatos componentes da Escola de Samba “Salgueiros”, do Rio de Janeiro, que estão em Manaus, exibições de judôs e tantos outros.

BAR-RESTAURANTE NA PISCINA – Soubemos que está sendo organizado um bar-restaurante na piscina do Estádio General Osório, para atender a todo o povo, independente de qualquer formalidade. É uma lacuna que se vai superar no festival folclórico. Nesse bar, o público encontrará cerveja, uísque, peixada regional (cozida, assada e frita), galinha cheia, pato no tucupi, cabritos assados, etc. Não haverá reserva de mesa. Qualquer pessoa, sozinho ou com sua família, poderá ocupar aquele bar-restaurante a partir do dia 15 vindouro, à noite.

PERMANENTES – Estamos no dever de prestar ao público e aos nossos amigos esta explicação: infelizmente, este ano, não poderemos atender a todos os que nos pedem permanentes para ocupar os bancos, no gramado. Isso, pelo seguinte: o tablado de exibições cresceu na altura e no comprimento, faltando, em consequência, madeirame para fazer-se o número de bancos que fizemos no festival passado. Ademais, com o tablado nessas condições, o povo terá uma visão ampla, limpa, sem atropelos e sem dificuldades, em qualquer área do estádio. Até as crianças conseguirão divisar amplamente tudo o que ocorrer no palco da festa. Além disso, corrigiremos a superlotação já havida.  São essas as razões que nos obrigam a esclarecer a quantos delas precisem, esperando o perdão e a compreensão de todos. A disponibilidade que teremos será reservada exclusivamente às autoridades constituídas, aos convidados de honra do Governo, da nossa empresa, dos membros das delegações de estudos folclóricos, representantes diplomáticos, etc.


Pela simples leitura dessa matéria jornalística já dava para perceber que o Festival Folclórico do Amazonas, a partir desse ano, começaria a enfrentar problemas com a burocracia estatal que fatalmente resultaria em perda de qualidade e diminuição gradativa de grupos inscritos. Seria apenas uma questão de tempo.

Comecemos pela justificativa mambembe de que faltou madeira para fazer o mesmo número de bancos do ano anterior. As serrarias sempre prestigiaram o festival, como pode ser visto pelos reiterados agradecimentos do jornalista Bianor Garcia desde os primeiros festivais, e nunca faltou madeira em Manaus.

Ocorre que, nos festivais anteriores, Gilberto Mestrinho, um eterno bonachão, gostava de se misturar com a população, para tirar um dedo de prosa com os anônimos transeuntes. Ele não tinha nenhum problema em dividir o mesmo banco de madeira com o zé povinho.

Circunspecto e quase sempre de cenho franzido, Plinio Coelho, ao contrário, sempre teve uma postura autoritária, aristocrática, como se estivesse acima do bem e do mal. A transformação dos bancos de madeira em espaço vip do governador e de seus convidados foi a maneira encontrada pela elite para distanciar-se do povaréu. Simples assim.

A “recategorização” dos grupos folclóricos feita pela Comissão Amazonense de Folclore também soou como uma piada de mau gosto. Não vamos entrar no mérito dessa maluquice de incluir “Cordões de Pássaros” e “Tribos Indígenas” (que possuem uma dinâmica própria e um desenvolvimento cênico específico) como meros apêndices dos bois-bumbás, mas o que dizer da bobajada chamada de “Rodas de Contraponto”, em que o próprio termo ou equivalente não existe em nenhum outro lugar do mundo? O grupo Flor do Lírio mostrava a dança do carimbó, enquanto o grupo Lundu de Gambá mostrava exatamente isso, a dança do lundu e a do gambá.

Será que foram categorizados desse jeito porque os brincantes desenvolviam a brincadeira se posicionando em forma de roda? E desde quando, em termos musicais, a cantoria do tipo pergunta-e-resposta, muito comum em grupos de origem africana, incluindo o lundu, o gambá, o carimbó e a capoeira, poderia ser chamada de “roda de contraponto”?

Para ficar em um exemplo bem vulgar, contraponto é aquilo que acontece no final da canção “Roda Viva”, com Chico Buarque e MPB-4 fazendo uma espécie de cacofonia musical, ou seja, duas músicas diferentes sendo cantadas ao mesmo tempo, mas ainda assim soando perfeitamente harmonizadas. Não existe nada parecido com aquilo nas cantorias do carimbó ou nas do lundu.


De qualquer forma, o festival daquele ano trazia algumas boas novidades. A ultra-hot-sexy Dança da Ciranda, do Colégio Estadual Sólon de Lucena, que depois daria início a uma verdadeira febre na cidade. A lindíssima Dança Caninha Verde, de Educandos, com todos os brincantes de bermudões ou saias verdes e blusas amarelas, representando as cores da folha e da flor da cana-de-açúcar. A Dança do Camaleão, com seus luxuosos trajes de época que nos remetiam ao período áureo da borracha. A Dança dos Africanos, em que homens usando máscaras pretas de lábios vermelhos dançavam em companhia do Curupira, Bicho Folharal e Onça Pé de Bola. A Dança dos Imperiais, que tinha como coreografia vários passos tradicionais de danças do II Império.

O Cordão das Lavadeiras e os Caboclinhos do Surara, a exemplo do Brigue Independência, já eram conhecidos do público amazonense por se tratarem de simples blocos carnavalescos. Iguais a eles (alguns até mais bem organizados e bonitos, como As Melindrosas, de São Francisco) havia uma centena em Manaus.

Questionado a respeito da inclusão de tais grupos no festival, o folclorista Mário Ypiranga Monteiro, o “chairman” da CAF, deu a seguinte explicação:

– Marrelógico que o Cordão das Lavadeiras é folclore. Ele possui uma tradição interrompida faz bem uma trintena ou mais de anos. É um auto popular porque descansa num processo de dramatização. Se fosse dança seria caracterizado pela coreografia especial. Como outros cordões ou ranchos, muitos já desaparecidos, a exemplo dos Linguarudos, Criadores, Regadores, Palhaços, Jardineiras, Caboclos Surara, Caboclinhos, Caboclolindos, etc, o cordão movimenta-se dentro de um enredo simples com referência a técnicas de lavar e engomar roupas. Asseverar o contrário é ignorar completamente a classificação técnica da ciência folclórica.


No dia 15 de junho, sábado, véspera da abertura do festival, o senador amazonense Antóvila Rodrigues Mourão Vieira faleceu em sua residência, na Guanabara, vítima de um fulminante infarto do miocárdio. Tão logo soube da notícia, o governador Plinio Coelho decretou luto oficial por três dias e a abertura do festival foi transferida para o dia 19, quarta feira. Foi a primeira e única vez na história que o festival teve sua festa de abertura no meio da semana.

Como nos anos anteriores, uma multidão estimada em 80 mil pessoas lotou o estádio. Entre os presentes na festa de inauguração estavam o governador Plino Coelho, o prefeito Josué Cláudio de Souza, o senador Artur Virgílio Filho, o deputado federal Paiva Muniz, o general Paulo Torres, comandante do GEF e da GFM, o deputado estadual Anfremon Monteiro, presidente do Legislativo, o desembargador João Correa, presidente do Judiciário, a empresária Maria de Lourdes Archer Pinto, diretora da Empresa Archer Pinto Ltda., chefes de repartições federais, industriais e comerciantes, que tomaram assento na tribuna de honra do evento.

A mudança das datas de apresentação criou uma nova dor de cabeça para a Comissão Organizadora. Devido ao baixo número de grupos inscritos, as apresentações estavam previstas para ocorrerem durante apenas seis dias (de segunda a sábado). Com o festival começando no meio da semana, os organizadores teriam de encontrar atrações suficientes para preencher os onze dias de festa, de forma que pudessem encerrar o festival tradicionalmente em um domingo, com o já tradicional desfile coletivo.

O jeito foi apelar novamente para o velho jeitinho brasileiro da enquete: a população deveria telefonar para a redação dos dois jornais e votar em qual grupo gostaria de ver fazendo uma segunda apresentação. Deu certo. Para atender os inúmeros pedidos, as exibições foram mescladas entre grupos que estavam se apresentando pela primeira vez e grupos que estavam se apresentando a pedidos. Como sempre, a população aprovou a novidade.

No sábado, 29, por exemplo, Dia de São Pedro e último dia de apresentação dos grupos concorrentes, a ordem de apresentação foi a seguinte. À tarde. Quadrilha Mirim Brotinhos de Amanhã, Escola de Acordeão Santa Terezinha e Quadrilha Mirim Firim Firim na Roça. À noite. Quadrilha do Rio Preto da Eva (convidada), Quadrilha Mocidade na Roça, Garrote Malhado, Quadrilha Geraldinos no Roçado, Balé Folclórico Japonês, Bumbá Caprichoso (a pedido), Tribos dos Iurupixunas (a pedido), Dança da Ciranda (a pedido), Bumbá Corre Campo (a pedido), Bumbá Tira Prosa (a pedido), Caboclinhos Surara (a pedido), Danças Mexicanas (a pedido), Dança do Congo (a pedido), Garrote Teimosinho (a pedido), Quadrilha Araruama na Roça (a pedido), Dança do Cacetinho (a pedido), Dança dos Africanos (a pedido) e Bumbá Pai do Campo (a pedido).


Como todos os conjuntos receberiam apenas um diploma de participação, a Comissão Julgadora se limitou a eleger oficialmente os seguintes destaques:

Rainha do Festival: Cleize de Souza (Tribo dos Iurupixunas).

Rainha de Beleza: Maria Helena (“Maria Bonita” da Quadrilha Primo do Cangaceiro).

Rainha Mirim: Nina Sotero (Quadrilha Brotinhos do Amanhã)

Melhor Sanfoneiro: Fátima Fernandes (Dança da Ciranda).

No dia 26 de junho, no salão nobre do Palácio Rio Negro, o Chefe da Casa Militar, coronel Neper Alencar, em nome do governador Plinio Coelho, entregou os ofícios que davam direito à segunda parcela do auxílio financeiro prometido aos grupos que participaram do festival.

O jornalista Bianor Garcia, presente à solenidade, agradeceu em nome dos presentes:

– Se não fosse a ajuda e o apoio do Governador do Estado, talvez não estivéssemos aqui ouvindo as palavras de seu representante. Os elogios que fizeram à festa, à organização, à qualidade dos grupos, pertencem a todos vocês. E aqueles que assim não concordam, por esse ou por aquele motivo, para nós nada valem. Basta o estímulo, a  confiança e a solidariedade do Governo e de vocês, brincantes e dirigentes, para nos colocarmos novamente à frente da realização do festival folclórico. Enquanto tivermos energia, saúde e disposição para a luta, continuaremos fazendo a festa, como uma prova de amor de amor à esta terra que nos serviu de berço. Agradeço a todos vocês, em nome da Empresa Archer Pinto Ltda., e os convido para o oitavo festival, que já está em franca preparação.


No dia 2 de julho, terça-feira, o Diário da Tarde publicava uma matéria intitulada “Pranto de angústia e de dor na Amazônia brasileira”:

Depois da alegria, do entusiasmo, do delírio e do empolgamento do nosso povo, veio a dor, a tristeza e a saudade. O VII Festival Folclórico foi marcado e enlutado por duas vezes: a morte de Mourão Vieira, na véspera da inauguração, e a de Bruno Menezes hoje, exatamente quando temos dois dias do encerramento. Tanto um como o outro mereciam e ainda merecem as homenagens do nosso povo. Bruno de Menezes, porém, velho educador, homem culto e simples, inteligente e amigo, foi desta vez uma das peças importantes do Festival. Há muito que desejávamos trazê-lo a Manaus, nesta época, por considerarmos o saudoso amigo e colaborador talvez o mais erudito e estudioso em folclore da região amazônica.

A sua vinda foi sacrificada: ora por falta de avião, ora por doença. Mas veio. Chegou aqui entusiasmado. Conheceu todos os grupos, palestrou com os brincantes, fez conferências e recitais no Sesc-Senac, divertia-se com os membros do Clube da Madrugada e conversava com os intelectuais amazonenses, que muito o queriam bem e estimavam. Ontem foi à “Paraense Transportes Áereos” e confirmou seu regresso, que se daria quinta-feira. A morte, porém, implacável, colheu-o inesperadamente, hoje pela manhã, dentro do seu apartamento, no Lord Hotel, onde se hospedara às expensas de O Jornal e Diário da Tarde.

Contam-nos que Bruno de Menezes acordou alegre e sorridente como era de costume. Leu os jornais da manhã e vestira-se para ir à rua. Deveria ser homenageado hoje com um almoço que o nosso companheiro Bianor Garcia lhe preparara, do qual participaria, também, o folclorista da Guanabara sr. Nóbrega Fontes. Chegou a palestrar com os rapazes da portaria do hotel e, ao voltar ao seu apartamento para dedicar um livro do sr. Nóbrega Fontes, caiu fulminado por um infarto do miocárdio. Conduzido ao Pronto Socorro, ali chegou, porém, morto.

Perderam o folclore paraense e as letras da terra vizinha, um nome conhecido e projetado em todos os círculos intelectuais do país. Perdemos nós, também, um amigo e um colaborador. Um homem despido de vaidades, de orgulho, embora fosse realmente um cultor da poesia, da oratória e do folclore. Conhecia, e não se julgava o único, todas as motivações folclóricas do Amazonas, do Pará e do Maranhão.


PESAR DO GOVERNADOR DO ESTADO – A notícia do falecimento de Bruno de Menezes chegou ao conhecimento do governador Plinio Coelho, através de um representante dos nossos Diários. Sua Excia. Mandou o coronel Neper Alencar, Chefe da Casa Militar, apresentar votos de pesar e promover o embalsamento do corpo do saudoso folclorista. O sr. Bruno de Menezes, a propósito, tinha admiração especial pelo Chefe de Estado e foi por esse convidado a  assistir ao Festival Folclórico.

“PARAENSE” FARÁ O TRANSPORTE DO CORPO – A “Paraense Transportes Aéreos”, renovando o seu gesto generoso a tudo que diz respeito à Amazônia, fará depois de amanhã, quinta-feira, às 6 horas, o transporte do corpo do saudoso Bruno de Menezes, devendo acompanha-lo a irmã Gertrudes Menezes, do Preciosíssimo Sangue, filha do emérito educador paraense. O embalsamento está sendo providenciado pelo dr. Agostinho Barbosa, Assessor de Saúde do Governador do Estado e deverá ficar, logo mais, exposto à visitação pública, na sede da Academia Amazonense de Letras.

ÚLTIMA HOMENAGEM DO VII FESTIVAL – Como última homenagem a Bruno de Menezes, convidamos todos os brincantes do VII Festival a comparecerem à sede da Academia Amazonense de Letras, na Rua Ramos Ferreira, esquina com a Tapajós. Bruno era um admirador do Festival, e como tal merece, agora, a nossa sentida homenagem. Convidamos por igual a colônia paraense  fazer o mesmo, pois como se sabe, Bruno de Menezes era um dos filhos mais ilustres da terra marajoara.


No dia 16 de julho, o governador Plinio Coelho firmou um convênio com o folclorista Mário Ypiranga Monteiro, secretário da Comissão Amazonense de Folclore, que tinha como objetivo a proteção e o desenvolvimento do folclore no Amazonas.

Entre outras baboseiras, aqui pinçadas aleatoriamente, o convênio, de viés autoritário e centralizador, rezava o seguinte:

1. O Governo do Estado do Amazonas encaminhará à Comissão Amazonense de Folclore (CAF) os pedidos de publicação de obras que versarem assuntos folclóricos ou correlatos e cujo financiamento deva ocorrer por conta dos cofres estaduais, a fim de proteger-se a autenticidade dos fatos folclóricos e evitar-se explorações absurdas por parte das pessoas não categorizadas, que se conhece geralmente pela denominação de “fakeloristas”, fazedores de folclore;

2. Todo e qualquer conjunto folclórico, festival de natureza folclórica ou que tenha pelo menos essa denominação ou organização com esse nome ou congênere, que pretenda exibir-se na capital ou fora do Estado, só poderá fazê-lo mediante a fiscalização direta da Comissão Amazonense de Folclore (CAF). Quando se tratar de concessão de auxílio financeiro, este será dado através da secretaria da Comissão Amazonense de Folclore (CAF), que para isso fornecerá ao Governo do Estado relação pormenorizada dos grupos genuinamente folclóricos que estiverem habilitados a apresentações públicas. Tratando-se de entidades de caráter comercial que visem a exploração do folclore sob a legenda de turismo, dentro ou fora do Estado, só será concedida licença para fazê-lo mediante o pagamento da taxa de cinco mil cruzeiros (Cr$ 5.000,00), cuja metade reverterá em benefício de uma casa de caridade. A licença para o funcionamento do conjunto ou conjuntos folclóricos só será expedida depois de comprovada a autenticidade dos motivos folclóricos. A outra metade da taxa se incorporará ao patrimônio da Comissão Amazonense de Folclore para consolidar um fundo de propaganda e expansão do folclore local.

3. O Governo do Estado do Amazonas aprovará em tempo oportuno a realização de Congressos, Semanas de Folclore ou Festivais Folclóricos, na capital ou nos municípios do Estado, conferindo à Comissão Amazonense de Folclore (CAF) plenos poderes para organiza-los, dirigi-los e oferecer-lhes assistência técnica, material e moral.

4. A Comissão Amazonense de Folclore (CAF) se obriga por este convênio mútuo a cooperar permanentemente com o Governo do estado do Amazonas no estudo e soluções de problemas atinentes ao artesanato em geral, quer como iniciativa privada, quer como processo didático, a fim de que a classe operária mantenha viva a tradição recebida dos ancestrais, tal como ocorre vulgarmente, mas cuja permanência é fácil de prever desapareça. Artefatos de todos os gêneros, “figurinhas” de guaraná, leques de plumas, remos ornamentais, redes, cerâmica popular utilitária ou adornativas, tudo isso constitui hoje fonte de renda ativa que é preciso saber explorar e estimular, a fim de que famílias tradicionais adquiram independência econômica, furtando-se à dependência dos cofres do Estado.

5. A Comissão Amazonense de Folclore (CAF) manterá um “Jornal do Folclore”, de proporções modestas, tipo boletim, que constituirá o seu órgão oficial e terá a mais ampla penetração no território nacional e países com que a CAF mantém correspondência efetiva e permuta de publicação. Esse jornal será mantido com parte das verbas destinadas à Comissão ou com subsídios outros.

Em outras palavras, os “cagarregrenses” pretendiam, por meio desse convênio, aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado, transformado em lei ordinária e publicada no Diário Oficial, tornarem-se fiscais absolutos e tutores de qualquer grupo folclórico, de Manaus ou do interior, que quisesse se apresentar publicamente, dentro ou fora do Amazonas, dando a última palavra sobre o que podia e o que não podia ser exibido com essa designação (“folclórico”)! Além disso, ainda pretendia dar “pitaco” no trabalho dos próprios artesãos amazonenses...


No dia 20 de julho, sábado, saía o primeiro número do Jornal do Folclore, um boletim semanal de duas páginas, no formato meio A4, que era encartado no jornal A Gazeta, de propriedade do governador Plinio Coelho. O editor do boletim era o próprio Mário Ypiranga Monteiro.

Na primeira página do boletim, o editorial, intitulado “Paleio no Copiar”, mostrava os objetivos da publicação:

Jornal do Folclore era uma necessidade, quando muita confusão está ocorrendo nas esferas mais altas do pensamento brasileiro. Somente o desejo de contribuir para o esclarecimento e ilustração do povo nos move e esse objetivo. Repetimos à guisa de refrão: ainda não possuímos uma consciência capaz de avaliar os processos de tramitação da cultura nem quanto ela possui de valores integrativos e desintegrativos. Aspiramos algum dia a construir uma ponte que ligasse o povo e a cultura. Experimentaremos por esta, que o jornal é o melhor veículo de penetração. O povo – elemento dinamizador da cultura popular, do folclore, portanto – pode trazer para este recanto de páginas seus problemas afeitos ao folclore. Não estamos fazendo uma página exclusiva nem boicotando a cultura. Pretendemos transmitir ao povo conhecimentos e receber dele igual parcela de conhecimentos.

O campo do folclore amazônico é vasto e ninguém com suficiente imaginação e dotes de avaliação poderá conceber que um só individuo possa apropriar-se do conhecimento geral do folclore de duas ou mais regiões brasileiras. Era preciso que tivesse o dom da ubiquidade, e por mais Pico de la Miurandola que seja, não conseguirá jamais fazê-lo no curto prazo da vida individual. A existência do homem é insuficiente para que ele exercite a sua capacidade aquisitiva em determinado campo de atividades. De sorte que nós não temos nem preocupação nem o propósito de nos consideramos donos do assunto. Apenas fazemos o melhor apara explorá-lo, e isto já é fazer muito.

Mas sem a cooperação do povo é que nada se faz. Este jorna, portanto, agasalhará informações de quantos queiram dar a honra de participar conosco dessa festa de congraçamento espiritual cujo único objetivo é tornar amis conhecido o nosso próprio folclore e talvez o folclore estranho. Só nos reservamos um direito: dar curso a material exclusivamente folclórico ou quando muito de antropologia cultural ou social.

No Jornal do Folclore nº 4, publicado no dia 24 de agosto, sábado, uma matéria publicada na seção “Noticiário” desnudava os reais interesses da CAF e mostrava que entre os ditos populares cultuados pelo editorialista do boletim destacava-se o famoso “comida pouco, meu pirão primeiro”:

Já foi entregue aos editores Sergio Cardoso e Cia. o original do primeiro tomo de Roteiro do Folclore Amazônico, obra fundamental, de autoria do professor Mário Ypiranga Monteiro. A obra completa está reunida em três tomos, que constituem o primeiro volume da coleção Etnografia Amazônica planejada para vinte volumes, dos quais são prontos oito. O governador do estado, Dr. Plinio Ramos Coelho, num gesto que bem define a sua posição de intelectual, autorizou o pagamento de Cr$ 1.360.000,00 (*) através do Departamento de Turismo, Imprensa e Propaganda, valor do custo de composição, impressão e encadernação dos três tomos, incluindo o serviço de clicheria, pois a obra está fartamente ilustrada.


(*) Em valores de hoje, R$ 182 mi.

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