quinta-feira, julho 14, 2016

Primo do Cangaceiro, Cabras do Lampião e Nordeste Sangrento


Em março de 1954, um grupo de congregados marianos da Igreja de Santa Rita, na Cachoeirinha, em comum acordo com diversas moças “filhas de Maria”, resolveu organizar uma quadrilha para se exibir durante a quermesse da própria igreja.

A iniciativa de Gentil Queiroz Bessa recebeu imediatamente o apoio do Frei Vareliano, o pároco da igreja.

Fugindo do “rame-rame” das quadrilhas caipiras tradicionais, Gentil Bessa resolveu criar uma quadrilha inspirada nos cangaceiros, que denominou de dança nordestina. Nascia a primeira quadrilha de “cabras da peste” da cidade, a famosa Primo do Cangaceiro.

No papel de marcador, Gentil Bessa era o próprio Lampião, enquanto Zacarias Teixeira, no papel de Capitão Galdino, era o “primo do cangaceiro”.

A história tinha o seguinte enredo: o Capitão Galdino e sua namorada, acompanhada de Lampião e seus cangaceiros, invadia um povoado e fazia uma festança para comemorar o casamento “na marra” de um casal de matutos.

A quadrilha passou a fazer seus ensaios na Rua Carvalho Leal, na casa do Aguinaldo, onde funcionava o diretório do PTB da Cachoeirinha, nas proximidades da Casa Amarela.

Entre os brincantes pioneiros estavam Humberto Severino (que depois criou a quadrilha “Os Seringueiros”), Ilsa, Líbia, Baixinho (que era o “noivo”), Domingos, João de Deus, Zé da Burra, Paulo Lourenço, Pedro Manchete, Zé Buchinho, Boca de Ouro e Cachoeirinha.

Encarnando o personagem Padre Cícero, João de Deus era tão convincente na sua caracterização que muitas vezes, ao pegar o ônibus, ouvia os passageiros falarem respeitosamente “pode sentar, padre!”, “pode passar, padre!”, “padre, não precisa pagar a sua passagem não, que eu já paguei!”, etc.

Além de criar a coreografia, as fantasias e marcar o ritmo e os passos, Gentil Bessa começava os ensaios dando um alerta geral:

– Atenção, pessoal! Aqui não tem esse negócio de “anarriê” nem “anavú”! Aqui é tudo na base da língua portuguesa falada no nordeste! Vamo prestá atenção no serviço, meu bichim! Arre égua, cabra da peste!

No 1º Festival Folclórico do Amazonas, em 1957, a quadrilha Primo do Cangaceiro tinha os seguintes brincantes: Gentil Bessa, Zacarias Teixeira, Iêda Costa, José Inácio Pereira, Marlene Costa, Antônio Ribeiro, Verônica Marques, Hamiltion Alves, Humbertina Queiroz, Humberto Rodrigues, Maria Pompéia Lacerda, Umbelino Paiva, Jurandira Firmino, Walter Tavares, Maria do Carmo, Carlos Belini, Olga Vieira, Estevão Lossa, Janeth Castro, Waldir Barbosa, Rosa Ramos,  Tereza Barreto, James Dantas,  José Oliveira, Fátima Guimarães,  José Ribeiro, Maria Dulce, Claudionor Silva, Elizabeth Miranda, Paulo Nóvoa, Francisca Alves, Romualdo Pereira, Darcy Pereira, Florismar Carneiro, Maria de Nazaré, Aquiles Barros, Maria Clarice, Artur Moreira, Carmem Guimarães, José Rodrigues, Nilse Cabral, Raimundo Lauriano, Maria Urbina, Raimundo Dantas, Itelvina Mesquita, Maria Sicléia, Armando Pereira, Raimundo Nonato, Lourdes Dantas, José Virgílio, Oswaldina Almeida, Walter Bahia, Terezinha Ferreira, Pedro Bentes e Terezinha de Jesus Souza.

Naquele ano, a quadrilha ficou em um decepcionante terceiro lugar. 


No ano seguinte, Gentil Bessa resolveu “causar”: no dia da sua apresentação, a quadrilha desfilou pelas ruas da Cachoeirinha com os cangaceiros montados em cavalos de verdade, comboiando as carroças de tração animal ornamentadas com fitas coloridas, aonde iam as belíssimas cangaceiras, e de lá se dirigiu até o local de apresentação no Estádio General Osório.

A novidade conquistou a multidão que se acotovelava no entorno do tablado. O belíssimo visual dos brincantes, a coreografia impecável e o trio sanfona-zabumba-triângulo tocando ao vivo baião, forró e xotes de tirar o fôlego proporcionaram uma magnífica apresentação e a quadrilha Primo do Cangaceiro conquistou o seu primeiro título, dando início a um festejadíssimo tricampeonato (1959, 1960 e 1961).

Em 1960, quando o governador Gilberto Mestrinho brigou com o ex-governador Plínio Coelho, sendo que ambos eram os principais caciques do PTB no Amazonas, Gentil Bessa reuniu os brincantes na casa do Aguinaldo e entregou definitivamente a quadrilha Primo do Cangaceiro para Zacarias Teixeira tomar conta. 

É que a maioria dos “padrinhos” da quadrilha (Artur Virgílio Filho, Justino Melo, Vivaldo Lima, etc.) era ligada a Gilberto Mestrinho.

Fiel a Plínio Coelho, Gentil Bessa preferiu sair do grupo que havia criado para que a brincadeira não fosse interrompida por conta de possíveis retaliações políticas, já que o governador Gilberto Mestrinho havia se transformado no principal incentivador do Festival Folclórico do Amazonas e era quem liberava pessoalmente a ajuda financeira para as agremiações folclóricas.


O sanfoneiro Elias, Zacarias Teixeira, Gentil Bessa e o prefeito Loris Cordovil 

Em 1961, Gentil Bessa fundaria a quadrilha Cabras do Lampião, na casa do tenente João Evangelista e de dona Nadir Carolina da Silva, pais do historiador Alvadir Assunção, localizada na Rua Waupés, entre a Codajás e a J. Carlos Antony. Dona Nadir se transformou em madrinha da nova quadrilha formada apenas por “plinistas históricos”.

Entre os fundadores da quadrilha Cabras do Lampião estavam Alvadir, Alvanir, Tibiriçá, Zé Nariz de Papagaio, Ofir Cabeça de Mapa, Boca de Ouro, Zé da Burra, Romualdo, Pedro Manchete, Lucindo, Louro, Zé Buchinho, Francisco Fotógrafo, Careca, Morcego, as irmãs Torres (Neuza e Neire, a “Galega”, que foi a “Maria Bonita”), Moça, Nair e as bonecas vivas de São Raimundo (Fátima, Raquel e Suely). Era um grupo interbairros, com brincantes de várias localidades da cidade, em um modelo pioneiro que depois seria adotado por diversos grupos.

Sob o comando de Gentil Bessa, a quadrilha Cabras do Lampião também conquistou vários títulos no Festival Folclórico do Amazonas, sendo que em 1964 foi considerada a “primeira campeã absoluta do festival” por ter obtido uma pontuação superior à de todos os demais grupos folclóricos campeões de suas respectivas categorias.


Gilberto Mestrinho e Bianor Garcia confabulando com Gentil Bessa

O surgimento de novas quadrilhas inspiradas na saga dos cangaceiros (Nordeste Sangrento, Bando do Antônio Silvino, Cangaceiros da Chapada, Cangaceiros de Lampião, Bando do Severo Julião, etc.) obrigou a comissão julgadora do festival a criar uma nova categoria chamada “danças nordestinas”, com os dois grupos da Cachoeirinha, Primo do Cangaceiro e Cabras do Lampião, praticamente se revezando, ano a ano, na conquista do título.

Com o início da especulação imobiliária, nos anos 80, que praticamente desfigurou o bairro da Cachoeirinha, a quadrilha Primo do Cangaceiro se mudou para Educando e, alguns anos depois, para São Raimundo.

Já a quadrilha Cabras do Lampião se mudou para São Francisco, depois para São José Operário, depois para o bairro da Raiz e hoje está na Comunidade da Sharp, no bairro Armando Mendes.

O atual coordenador do grupo, Pedro Vilhena, conta que o gosto pela dança já passou dele pros filhos, que se envolvem desde cedo no grupo – e até os netos pequenos já têm o ritmo do baião no pé. “Essa já é a quinta ou sexta geração que leva essa cultura nordestina pra frente, dando continuidade ao trabalho dos Cabras de Lampião”, conta Pedro.


Em 2015, com o tema “As Mulheres no Sertão dos Cabras de Lampião”, o grupo colocou cerca de 120 brincantes na arena do Centro Cultural Povos da Amazônia. 

“Nós resolvemos contar a história de três mulheres que foram as pioneiras do cangaço em Manaus como as Marias Bonitas dos festivais nas décadas de 70, 80 e 90: dona Bia, dona Leila Mara e dona Socorro Trindade. A partir delas, nós também falamos sobre a força da mulher nordestina”, explicou o coordenador do grupo.

Provando que a dança também é questão de família, o filho de Pedro, Rogério Vilhena, já assumiu a responsabilidade de criar os figurinos usados pelos Cabras de Lampião, confeccionados num ateliê improvisado em casa. 

“Trabalho já nessa área há doze anos. Quem me ensinou foi justamente a dona Bia, uma das homenageadas, quando fazíamos isso no quintal dela. Depois, eu assumi e, agora, a cada ano procuramos evoluir e introduzir coisas novas, sempre se superando”, afirma.

A evolução e introdução de coisas novas nas tradicionais brincadeiras de cangaço nem sempre traz o resultado esperado pelos criativos donos dos folguedos. 


Uma das histórias que já entrou para o folclore dos cangaceiros manauaras aconteceu em 1994, na quadrilha Cabras do Capitão Labareda, que tinha seu local de ensaio na Rua Ceará, em Santa Luzia.

Comandada por Ulisses Paiva, os cangaceiros iriam encerrar a apresentação daquele ano no Festival Folclórico do Amazonas promovendo o justiçamento de um fazendeiro ganancioso (o brincante Gato) e começaram a ensaiar exaustivamente a cena final: Gato subia num tamborete, com as mãos amarradas para trás, tinha seu pescoço amarrado por uma corda, que depois passava por um galho de árvore (simulando o dormente de uma forca), dava várias voltas no tronco da árvore e finalmente era amarrada com um nó falso.

Quando o Capitão Labareda (Ulisses Paiva) chutasse o tamborete, Gato ficaria pendurado pelo pescoço durante alguns segundos até o nó falso desatar do tronco da árvore, a corda se desenrolar e ele cair no chão. A cena toda não durava dez segundos. O truque foi ensaiado exaustivamente e funcionava com precisão.

No dia do ensaio geral, entretanto, o cangaceiro Cravo Roxo (Paulo Sérgio), que era o verdugo oficial e responsável pela amarração do nó falso, não apareceu na brincadeira e foi substituído às pressas pelo cangaceiro Lagartixa (Luiz Mário).

O novo verdugo, aparentemente, não foi informado de que o truque da brincadeira estava no nó falso e não contou conversa: amarrou a corda no tronco da árvore com um nó de marinheiro.

Quando o Capitão Labareda chutou o tamborete, Gato ficou pendurado pelo pescoço e nada de o resto da corda se desenrolar do tronco da árvore. Uns vinte segundos depois, vendo que Gato estava estrebuchando de verdade, o cangaceiro Juriti (Francisco Souza) pegou rapidamente um terçado e decepou a corda.

Gato já caiu no chão desmaiado. Foi um corre-corre da moléstia porque dessa vez quase que o brincante era mesmo enforcado de verdade. O Capitão Labareda acabou com a presepada do “justiçamento” no mesmo dia.


Com o falecimento de Zacarias Teixeira, os brincantes da campeoníssima dança nordestina Primo do Cangaceiro resolveram encerrar a brincadeira. “Não fazia sentido continuar a quadrilha sem o nosso principal destaque, que era a própria alma da brincadeira”, resume o aposentado Luiz Jorge, que brincou no grupo durante 40 anos.

Das três pioneiras danças nordestinas de Manaus quem também continua na ativa até hoje é a Nordeste Sangrento, batizada com esse nome por conta de uma das músicas do cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga.

Com mais de 40 anos de existência, o grupo foi fundado em abril de 1964 no bairro da Raiz, e hoje está sediado no bairro do São José, também na zona Leste.

Seu Edil Lira, coordenador do grupo, já é “figurinha” conhecida nos festivais de Manaus, por cantar e soltar um vozeirão comparado ao próprio Luiz Gonzaga.

“Temos nossas próprias letras também, nosso hino, nossas músicas, e, claro, muito Gonzagão. Já tive até muita música lançada e copiada por outros grupos. Fazemos uma dança nordestina legítima, que representa a região com o som e o ritmo de lá”, ressalta Edil Lira.

No festival de 2015, o grupo apresentou como tema a seca nordestina.

Entre os outros grupos de danças nordestinas que continuam mostrando a saga dos cangaceiros e a cultura sertaneja de raiz, destacamos os seguintes: Bando de Lampião, Descendentes de Lampião, Guerreiros de Lampião, Lampião Rei do Sertão, Justiceiros do Sertão, Cangaceiros Independentes, Cangaceiros do Vale Perdido, Cangaceiros de Lampião, Cabras do Capitão Corisco, Cabras do Capitão Cabeleira, Vingadores do Sertão, Cabras do Capitão Rufino, Cabras do Capitão Galdino, Cangaceiros de Saturnino, Filhos de Lampião, Cangaceiros de Asa Branca, Vingadores de Virgulino, Cangaceiros de Aparício, Cabras do Capitão Silvino, Filhos de Maria Bonita, Cangaceiros do Cariri, Cangaceiros de Thianguá, Pisada do Sertão e Cangaceiros do Juazeiro.

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