sábado, setembro 10, 2016

Retrato 3X4 de um sujeito 100 por cento


Conheço o Marcelo Ramos há mais de 10 anos, desde a época em que ele era Subsecretário Municipal de Esportes do prefeito Serafim Corrêa.

Nascido e criado em Manaus, Marcelo sempre foi presença constante nos meus lançamentos literários por que tem uma qualidade rara em nossos homens públicos: o carinho e o respeito pelos artistas locais.

Nossa amizade se estreitou há dois anos, quando ele foi candidato a governador pelo PSB e, pelas páginas do valoroso Maskate, do queridíssimo Miguel Mourão, demos a “little help” para divulgar sua candidatura.

Ele terminou a eleição em terceiro lugar, com quase 180 mil votos (99% dos votos – 175 mil – obtidos aqui em Manaus). Uma façanha e tanto!

O Marcelo Ramos é um exemplo acabado do tipo que dispensa apresentação por dois motivos absolutamente triviais: 1) ele é gente como a gente. 2) repetindo o poeta e escritor Tenório Telles, “quem conhece o Marcelo, vota no Marcelo, sempre. Pra qualquer coisa.”

Vou falar sobre ele o que todo mundo já sabe por que com essa desculpa – a de que todo mundo já sabe – levantam-se toneladas de poeira para empanar o brilho e soterrar a memória das pessoas, prática usual neste país que cultiva deliberadamente o esquecimento.


Homem forjado na luta pela sobrevivência desde a pré-adolescência, Marcelo Ramos é um grande e corajoso personagem da nossa história política recente e verdadeiramente inatingível por referências miúdas.

Filho do advogado Umberto Lobato Rodrigues e da professora Graça Maria, Marcelo Ramos nasceu em Manaus, no dia 29 de agosto de 1973, e passou sua infância no Conjunto Dom Pedro I. Entre as travessuras de moleque, tomou banho na Cachoeira do Tarumã, fez mergulhos na Ponta da Bolívia e empinou papagaio com linha de cerol pelos céus da Alvorada.

No dia 13 de outubro de 1985, domingo, uma tragédia particular fez seu mundo virar de ponta-cabeça. Naquele domingo, seus pais haviam levado ele e seus irmãos mais novos (Umberto, 9, Glenda, 7, e Rodrigo, 3) para um balneário na Rodovia Manaus-Itacoatiara, onde costumavam participar dos Encontros de Casais com Cristo.

Uma das diversões do balneário era o famoso “rachão” de futebol entre os homens presentes, quase todos incluídos na categoria de “atletas-de-fim-semana”. Seu Umberto era um deles.

Quando a partida terminou, por volta do meio-dia, seu Umberto chamou o filho mais velho e avisou: “Chama a tua mãe, que estou passando mal...”

Foi a última vez que os dois se falaram. Seu Umberto faleceu a caminho do hospital, vitimado por um infarto do miocárdio. Marcelo Ramos havia ficado órfão de pai aos 12 anos de idade.

Dona Graça ficou com a incumbência de sustentar os filhos trabalhando em regime integral, de manhã e de tarde. Involuntariamente transformado no “homem da casa”, Marcelo Ramos ficou com a responsabilidade pela criação dos irmãos mais novos.

Era ele que levava os irmãos pela mão e trazia de volta da escola, fiscalizava os boletins de notas e auxiliava a destrinchar as tarefas de casa de cada um deles. Simultaneamente, também tinha de se preocupar com o próprio estudo.

Traumatizada com a morte prematura do marido, Dona Graça resolveu alugar a casa própria que possuía no Conjunto Dom Pedro I e se mudou com as crianças para a casa da sua mãe, no bairro da Aparecida.

Algum tempo depois, se mudou novamente, dessa vez para a Rua Dez de Julho, e deu início à sua peregrinação cigana pelos bairros da cidade. Marcelo Ramos calcula que, em dez anos, eles moraram em pelo menos dez endereços diferentes.


Aos 22 anos, Marcelo se formou em Direito, na Ufam, começou a trabalhar como estagiário em um escritório de advocacia e ensinou o caminho das pedras para seus irmãos, todos eles formados em Direito: Umberto é delegado da Polícia Federal, Glenda é funcionária concursada do TCE e Rodrigo trabalha em um escritório de advocacia.

Uma de suas grandes conquistas como advogado trabalhista foi garantir o adicional de 30% de risco de vida e periculosidade para a categoria dos vigilantes de Manaus.

Marcelo Ramos iniciou sua vida política ocupando a presidência do grêmio estudantil do seu colégio secundarista e, posteriormente, foi presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Direito.

Em 2004, foi candidato a vereador de Manaus, alcançando a primeira suplência.

No ano seguinte foi nomeado Subsecretário Municipal de Esportes de Manaus e, em 2006, ocupou o cargo de Chefe de Gabinete do Ministério do Esporte.

Em março de 2007, Marcelo assumiu, pela primeira vez, o mandato de vereador na Câmara Municipal de Manaus, tornando-se também presidente da Comissão de Constituição e Justiça.

Dois meses depois, tornou-se presidente do Instituto Municipal de Transportes Urbanos (IMTU) e fez uma coisa que até hoje nenhum prefeito teve coragem de fazer: enfrentou a máfia dos empresários de táxi, que controlam dezenas de placas em nomes de “laranjas” e alugam as mesmas para os verdadeiros profissionais.

Apesar de muito choro e ranger de dentes dos conhecidos “tubarões”, Marcelo licitou 127 placas de táxis, que saíram das mãos de empresários e passaram para as mãos de taxistas.

Ele também foi responsável pela implantação da “domingueira”, em que a passagem dos ônibus aos domingos custava apenas R$ 1, e da “integração temporal” em que o usuário pode trocar de ônibus, sem pagar uma nova passagem, fora de um terminal de integração, desde que se passe na catraca do ônibus seguinte dentro de um determinado período de tempo.


Em abril de 2008, reassume o cargo de vereador, sendo reeleito no mesmo ano. Foi um dos vereadores mais atuantes daquela legislatura: conseguiu aprovar a criação da data-base de professores e servidores da saúde, garantindo assim a reposição salarial anual dos mesmos, e a lei que garante 30 minutos de estacionamento grátis nos shoppings de Manaus.

Com ações na justiça, conseguiu derrubar a Taxa do Lixo, criada pelo prefeito Amazonino Mendes, evitando que o manauara pagasse mais esse tributo, e também a reintegração de 300 garis demitidos pelo prefeito em represália ao fim da taxa.

Em outubro de 2010, se elege deputado estadual com quase 19 mil votos. Na Assembleia Legislativa, atuou como presidente da Comissão de Transporte, Trânsito e Mobilidade Urbana.

Entre outras iniciativas, ele aprovou a lei que obriga todos os hospitais da cidade a realizarem o Teste do Coraçãozinho nos recém-nascidos e, com ações na justiça, a redução do ICMS da gasolina e do ICMS da internet.

Em 2014, Marcelo Ramos abriu mão de uma reeleição tranquila de deputado estadual para concorrer ao governo do Estado do Amazonas. Foi o terceiro candidato mais votado com 179.758 votos (90% deles em Manaus).

Atualmente exercendo o cargo de professor universitário de Direito Constitucional, Marcelo Ramos também é escritor já tendo publicado quatro livros: “Nossa Luta Diária”, “Velho Baú”, “Coragem” e “Conversas com Meu Pai”.


Ele é absolutamente sincero na motivação que o levou a ser candidato a Prefeito de Manaus.

“Estamos em 2016, mas ainda sendo governados por um prefeito de 1989, que tem a cabeça em 1896, na época da borracha. Ele não é uma pessoa desse tempo, é um gestor público de um tempo que já passou, um político do século passado. Tem suas qualidades, cumpriu um papel efetivo na história, mas isso tudo já passou. Precisamos de uma prefeitura moderna e é hora de uma nova geração assumir o protagonismo da política em Manaus. Eu e meu vice Josué Neto somos políticos desse novo tempo”, explica.

Casado com Juliana e pai de três filhos (Gabriel, Marcela e José Umberto), Marcelo Ramos é um exemplo bem acabado do cavaleiro de fina estampa quase em extinção nesse novo milênio: sempre bem humorado, divide com a esposa os afazeres domésticos, participa ativamente da criação dos filhos, lê apaixonadamente sobre diversos assuntos e, coisa rara em um político, não esconde suas emoções.

Ele é capaz de ir às lágrimas ouvindo o relato de uma mulher gestante que teve a bolsa estourada dentro de um ônibus quando se dirigia sozinha a uma maternidade e de ficar indignado com a queixa de um ancião que depois de ficar uma madrugada inteira ao relento para conseguir uma senha de atendimento numa UBS não foi atendido porque sua rua “estava fora da área de cobertura da unidade”. 

– Isso é uma palhaçada! – vociferou, ao ouvir o relato. “Quem fica fora de área de cobertura é telefone celular, não uma pessoa que está precisando de cuidados médicos!”

O descaso pelas pessoas mais humildes, o distanciamento do poder público em relação aos cidadãos de classe média, a escolha deliberada em dividir a cidade entre ricos e pobres – com a minoria rica recebendo as benesses da Prefeitura em detrimento da maioria pobre que vive na periferia – serviram de catalisador para que Marcelo Ramos se lançasse candidato a prefeito de Manaus.

Como deixar de votar num sujeito desse?!


No dia 2, vou de 22.

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