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segunda-feira, setembro 04, 2017

Sobre essa coisa de escrever


Por Joaquim Ferreira dos Santos

A estudante perguntou como era essa coisa de escrever. Eu fiz o gênero fofo. Moleza, disse. Primeiro, evite estes coloquialismos de “fofo” e “moleza”, passe longe das gírias ainda não dicionarizadas e de tudo mais que soe mais falado do que escrito. Isto aqui não é rádio FM.

De vez em quando, para não acharem que você mora trancado com o Domingos Paschoal Cegalla ou outro gramático de chicote, aplique uma gíria como se fosse um piparote de leve no cangote do texto, mas, em geral, evite. Fuja dessas rimas bobinhas, desses motes sonoros. O leitor pode se achar diante de um rapper frustrado e dar cambalhotas. Mas, atenção, se soar muito escrito, reescreva.

Quando quiser aplicar um “mas”, tome fôlego, ligue para o 0800 do Instituto Fernando Pessoa, peça autorização ao bispo de plantão e, por favor, volte atrás. É um cacoete facilitador.

Dele deve ter vindo a expressão “cheio de mas-mas”, ou seja, uma pessoa cheia de “não é bem assim”, uma chata que usa o truque de afirmar e depois, como se fosse estilo, obtemperar.

Não tergiverse, não diga palavras complicadas, não escreva nas entrelinhas. Seja acima de tudo afirmativo, reto no assunto. Nada de passar páginas descrevendo o clima da estação, esse aborrecimento suportável apenas quando vemos as curvas da Garota do Tempo recortadas contra o chroma-key do “Jornal Nacional”.

Abaixo o prólogo com a lente aberta, nada daquelas observações sensíveis sobre a paisagem e, a não ser que você seja o Dashiell Hammett ou o Raymond Chandler, esqueça o queixo quadrado do bandido ou a descrição pormenorizada dos personagens. Corte o que for possível. Depois dê uma de Raymond Carver e, nem aí para os pruridos da vaidade, mande o resto para o editor acabar de cortar.

Sempre cabe uma linha a menos no texto, é o efeito Rexona aplicado na axila gramatical. Evite essas metáforas complicadas, passe por cima de expressões como “em geral”, como está no primeiro parágrafo, pois elas têm a mesma função-paralelepípedo dos parênteses, dos travessões. Chute para fora da página tudo mais que faça as pessoas tropeçarem na leitura ou darem aquela ré em busca do verdadeiro sentido da frase que passou.

Deixe tudo em pratos limpos, sem tamanho lugar-comum. Ouça a voz do flanelinha semântico gritando a chave para o bom texto. “Deixa solto, doutor.”

É mais ou menos por aí, eu disse para a menina que me perguntou como é essa coisa de escrever.

Para sinalizar o trânsito das ideias, use apenas o ponto e a vírgula, nunca juntos. Faça com que o primeiro chegue logo, e a outra apareça o mínimo possível. Vista Hemingway, só frases curtas. Ouça João Cabral, nada de perfumar a rosa com adjetivos.

Mergulhe Rubem Braga, palavras, de preferência com até três sílabas. “Pormenorizada”, vista acima, é palavrão absoluto. Dispense, sem pormenores.

O texto deve correr sem obstáculos, interjeições, dois pontos, reticências e sinais que só confundem o passageiro que quer chegar logo ao ponto final. Cuidado com o “que quer” da frase anterior, pois da plateia um gaiato pode ecoar um “quequerequé” e estará coberto de razão. A propósito, eu disse para a menina, perca a razão quando lhe aparecer um clichê desses pela frente.

Você já se livrou do “mas”, agora vai cuidar do “que” e em breve ficará livre da tentação de sofisticar o texto com uma expressão estrangeira. É out. Escreva em português. Aproveite e diga ao diagramador para colocar o título da matéria na horizontal e não de cabeça para baixo, como está na moda, como se estivesse num jornal japonês.

Pode-se escrever baixinho, como faz o Verissimo, que ouviu muito Mario Reis para chegar àquela perfeição de texto de câmara. Outra opção é desabafar pelos cinco mil alto-falantes o que lhe vai na pena da alma, como faz o Xico Sá, que aprendeu a escrever com o Waldick Soriano.

Escreva com a sonoridade que lhe aprouver, nunca com cacófatos assim ou verbos que façam o leitor perguntar para o vizinho do lado que maluquice é essa de “aprouver”. Fuja da voz passiva, da forma negativa, do gerundismo e principalmente da voz dos outros. Se falo fino, se falo grosso, ninguém tem nada com isso. O orgulho do próprio “falo”, e fazê-lo firme e com charme, é uma das chaves do ofício.

De vez em quando, abra um parágrafo para o leitor respirar. Alguns deles têm a mania de pegar o bonde no meio do caminho e, com mais parágrafos abertos, mais possibilidades de ele embarcar na viagem que o texto oferece. Escrever é dar carona.

Eu disse isso e outro tanto do mesmo para a menina. Jamais afirmei, jamais expliquei, jamais contei ou usei qualquer outro verbo de carregação da frase que não fosse o dizer. Evitei também qualquer advérbio em seguida, como “enfaticamente”, “seriamente” ou “bemhumoradamente”.

Antes do ponto final, eu disse para a menina que tantas regras, e outras a serem ditas num próximo encontro, serviam apenas de lençol. Elas forram o texto, deixam tudo limpo e dão conforto. Escrever é desarrumar a cama.

Duas palavrinhas para o Serge


Por Rafael Galvão

O Serge postou um comentário sobre o lamentável histórico deste blog e em vez de comentar o comentário achei que ele merecia uma resposta mais elaborada. Obviamente, como qualquer post neste blog de um preguiçoso, isso fez com que ela demorasse muito mais para ser escrita do que devia. São os percalços da vida.

O comentário do Serge me lembrou de outros tempos, um período que era o auge não apenas deste blog, mas de toda a blogoseira. Os diarinhos, mais ou menos nos moldes de boa parte do Facebook de hoje, estavam dando lugar a abordagens mais complexas. 

Aos blogs do Hermenauta, do Alex, do Marcus, do Doni, do Idelber, do Milton, do Bia, do Ina, condomínios como o Verbeat, o Interney e O Pensador Solitário  um bocado de gente que tinha o que dizer e tentava fazê-lo de forma razoavelmente elaborada. 

Acho que ali se criou ao menos o embrião de uma comunidade heterogênea e eventualmente conflituosa, mas empolgante. Li muita gente boa ao longo daqueles anos; gente criativa, talentosa, engraçada e séria. Fiz alguns amigos para sempre. Mas, principalmente, ri muito.

Com o tempo, a maioria de nós cansou de escrever potoca e foi arranjar coisa melhor para fazer na vida. Virtualmente todos os blogs que compartilhavam o mesmo ecossistema deste desapareceram. A profissionalização da plataforma também fez com que a maior parte dos blogs se tornasse cada vez mais redundante.

O fato é que há um bocado de gente falando de coisas com mais propriedade do que eu  menos Beatles, claro, mas tem gente boa o suficiente para me fazer pensar duas vezes antes de escrever qualquer coisa sobre o assunto (o melhor blog do mundo sobre os Fab Four, a propósito, é este aqui: A Moral to This Song). Mas acho que esses tempos passaram, mesmo, porque as tecnologias mudaram. Twitter e Facebook suplantaram os blogs.

Isso não é uma confissão de ludismo; porque reclamar disso é como o dono de cinema que reclama da Netflix, e porque embora use hoje muito pouco, já houve um tempo em que eu estava quase viciado naquela miséria. Mas não dá para negar que o Facebook tornou os blogs obsoletos. Blogs como este aqui  essencialmente ensaísticos, sem escopo definido, basicamente conversa jogada fora, uma espécie de bar virtual  foram perdendo o sentido, até porque Facebook e Twitter são muito mais eficientes nesse aspecto.

É por isso que a maior parte daquelas pessoas que escreviam blogs pode ser encontrada hoje no Facebook; mas num fenômeno curioso, poucas, pouquíssimas escrevendo algo remotamente bom quanto seus blogs d’antanho.

Acho que funciona assim: o sujeito pensa em algo sobre o que gostaria de escrever. Nos tempos do blog ele escreveria um texto mais longo e mais pensado. Hoje ele simplesmente joga imediatamente no Facebook ou no Twitter uma ideia concisa, excessivamente simplificada do que gostaria de dizer. E daí não há mais motivo para escrever.

A impressão que tenho é que o que se escreve no Facebook são essencialmente comentários que buscam o simplismo, links para alguma coisa, autopromoção descarada, essas coisas. Parece haver uma busca pela frase definitiva, o aforismo “lacrador” que vai ser compartilhado mais vezes, o que por si só condiciona qualquer debate a pouco mais que uma batalha de slogans. 

Posts  hoje chamados “textões”, o que já indica a má vontade com que são vistos  nem são raros, mas sofrem de um mal inevitável: estão soterrados em uma imensidão de outros textões e textinhos. Não têm a dignidade que sua posição de destaque em um blog lhe dava. Mais que isso, o grande problema é que ao mesmo tempo outras 10, 20 pessoas estão escrevendo essencialmente a mesma coisa, com maior ou menor grau de raiva.

Eu não tenho muitas dúvidas de que o Facebook é um dos responsáveis pelo estado psicológico atual do mundo, pelo aumento da ansiedade, da irritação, da intolerância: para o bem ou para o mal, uma certa hierarquia de vozes se perdeu, e o resultado, ao menos por enquanto, é um mal-estar generalizado, um recrudescimento de confrontos que eram apenas latentes ou estavam disfarçados.

Mas o pior, mesmo, é que ele acabou com os blogs.

Este blog mesmo “acabou” em 2010, e não pode culpar as redes sociais; tinha virado uma obrigação que passava a me incomodar, porque já não fazia tanto sentido. O fato de saber que há leitores exerce uma influência que pode ser positiva ou deletéria, porque por mais que a gente negue isso lhe obriga a escrever, de certa forma, e é positiva quando você está com vontade e deletéria quando o saco está cheio. 

Além disso, depois de quase dois mil posts é meio difícil achar algo que lhe interesse e que você não tenha escrito. Os comentários razoavelmente despretensiosos sobre quaisquer bobagens que eu fazia aqui no começo começaram a parecer insuficientes, à medida que gente que se levava mais a sério, com mais gana, começou a escrever o que eu teria escrito.

Finalmente, a “facebookização” do debate, o crescimento do processo de “guetização” impulsionado pela ascensão desses movimentos identitários de todos os tipos, quase invariavelmente infantilizados, ajuda.

Dia desses teve uma passeata da mulher negra. Uma moça disse que, se você não fosse negra, que ficasse em casa. Tem discussão possível nesse caso? Eu não tenho tempo nem estômago para esse tipo de debate. Na verdade, não tenho mais para quase nenhum, nem os bons. Os tempos em que eu me divertia com as pseudo-feministas passaram.

Mas a verdade é que, depois de tantos anos, ele tinha passado a ser parte da minha vida; por isso voltei, mas sem a obrigação que eu mesmo me impunha. E ele vai ficar por aqui para sempre, acho (ou pelo menos até eu morrer, se é que vou morrer um dia, e deixar de reservar o domínio); às vezes com um texto, às vezes não.

Não acho que precise de mais que isso. Ele já está vivendo em um tempo emprestado, mas que bom; a este blog, que me deu alegrias, raivas e amigos, basta apenas continuar existindo. Não porque é ou deixa de ser lido: mas porque é parte indissociável de minha história.

A Amazônia não merece isso, Temer!


Por Fernando Gabeira

Tenho discretas razões para supor que Temer compreenderá o equívoco de abrir para a mineração, na Amazônia, uma área do tamanho da Dinamarca. No passado, ele se tornou dono de terras em Alto Paraíso, e a comunidade que trabalhava há anos ali foi a Brasília pedir ajuda. Terras em Goiás foram distribuídas a políticos do PMDB. Temer nem sabia exatamente como eram e o que produziam. Pressionado pelos agricultores alternativos que trabalhavam ali, Temer resolveu abrir mão de suas terras e as doou à cidade de Alto Paraíso.

Agora, não se trata apenas de alguns, mas de 47 mil hectares. As terras não são de Temer, mas do Brasil e, de uma forma indireta, de toda a Humanidade. Quando os militares criaram a reserva, a ideia era pesquisar e explorar os recursos de uma forma estratégica. Não creio que pensaram nisso como um momentâneo desafogo a uma crise econômica provocada pela incompetência e corrupção.

Não quero raciocinar em termos de estatal ou privado, ou mesmo de nacional ou estrangeiro. Depois que os militares criaram a reserva, muita água passou por baixo da ponte, ou mesmo por cima, com os eventos climáticos extremos.

No fim da década dos 1980, o Brasil ainda era um vilão internacional porque desmatava a Amazônia. Lembro-me de uma reunião de cúpula na Holanda em que Sarney não foi porque tinha medo de uma reação negativa. Na época, além das queimadas e de outros fatores, houve ainda o episódio de negarem passaporte a Juruna.

Com a realização da Rio-92, o maior encontro de estadistas no pós-guerra, o papel do Brasil começou a se alterar. De vilão ambiental, tornou-se um interlocutor importante e passou a ser visto como ator decisivo nos acordos sobre o aquecimento global.

A Amazônia tornou-se para o mundo um espaço a ser preservado, respeitada a autonomia nacional sobre suas terras. Países como a Noruega acharam que se a Amazônia era importante para a sobrevivência de todos, deveriam investir nela em projetos sustentáveis. E fizeram isso.

Você mesmo esteve na Noruega, embora a tenha confundido com a Suécia.

A grande crise iniciada em 2008 e fatos posteriores, como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, enfraqueceram mas não destruíram a disposição planetária de contribuir com a Amazônia.

Sua decisão coloca em risco grande parte do trabalho feito por todos nós para recolocar o Brasil no âmbito dos países comprometidos com a preservação do planeta. E de uma certa maneira, despreza os potenciais investimentos em projetos sustentáveis em nome de uma saída que me parece anacrônica e predatória.

Tudo bem, Temer, você dirá que serão respeitadas as regras ambientais para a mineração. Mas quem percorre Minas Gerais e outros pontos do país constata rapidamente que elas não são respeitadas no Sudeste onde, teoricamente, concentra-se o grosso da fiscalização.

No segundo decreto, você criou um comitê ligado à chefia da Casa Civil para monitorar as atividades de mineração nessa faixa que engloba parte do Amapá e do Pará. Não consigo me convencer disso. O chefe da Civil, Eliseu Padilha, é investigado por crimes ambientais no Mato Grosso e no Rio Grande do Sul. E as acusações são amplas, vão de desmatamento a construção de pistas de pouso clandestinas. Pouca gente sabe disso. Mas está disponível na internet e no próprio Supremo.

Além de arruinar o trabalho de construção da imagem nacional, o governo nos propõe uma fórmula de controle na qual a raposa toma conta do galinheiro. O namoro do PMDB com as riquezas naturais da Amazônia vem de longe. Romero Jucá é o mais destacado parlamentar buscando fórmulas para regulamentar a mineração nas terras indígenas.

Nesse momento, Temer, você está cedendo às piores influências no manejo da Amazônia. Se fosse simplesmente um opositor, talvez pudesse me alegrar com essa decisão. Antes de ser opositor, sou brasileiro e lamento ver o Brasil caindo de novo naquele desprezo internacional que sentimos em Haia, no fim da década de 1980. É uma ilusão você pensar que tudo dará certo. Até mesmo Padilha e Jucá, que devem estar comemorando, não percebem que estão atraindo um furacão contra eles. Deveriam ser mais discretos, mas a aposta é de levar tudo porque aqui não se pune ninguém.

No momento em que publico este artigo, estou tentando entrar na reserva, que não tem acesso fácil. O argumento de que garimpeiros clandestinos estão por lá não justifica esta abertura às grandes empresas. Aliás, Temer, existe uma possibilidade de você estar se deixando execrar inutilmente. As empresas que você quer atrair também estão no mundo e devem sofrer pesadas campanhas em seus países de origem.

Não me importa que você confunda Noruega com Suécia, Paraguai com Portugal, ou mesmo reviva a União Soviética. O essencial é não confundir a Amazônia com Goiás, onde tantas terras foram passadas a líderes do PMDB. É um lugar tão complexo, capaz de sepultar não apenas os sonhos pioneiros como o de Henry Ford, mas também as grandes trapaças.

domingo, agosto 27, 2017

Vitória de Amazonino


Por Paulo Figueiredo

Leonel de Moura Brizola cultivava uma visão prática dos fatos, certamente em razão de sua história de vida, com origem nos estamentos mais humildes da população brasileira. Sobre eleições dizia que tudo era muito simples e que a vitória ou a derrota ocorria em função do candidato a ser enfrentado.

Comparava a disputa politica a um campeonato de natação para observar que ganhava quem nadasse melhor. Parece óbvio, mas nem tanto, uma vez que haverá sempre quem queira encontrar explicações estranhas para os resultados eleitorais, com objetivos ou interesses nem sempre muito claros.

Agora mesmo, nestas eleições suplementares no Amazonas, com o processo ainda em curso, mas com a vitória de Amazonino Mendes já assegurada, há quem diga que foi o candidato quem menos concorreu para o excelente resultado de sua candidatura.

Percentuais foram estabelecidos, não se sabe sequer com que critérios, e neles coube ao candidato o menor índice – 10%, como responsável pelo sucesso da campanha.

Sem a menor cerimônia, os 90% restantes seriam devidos a apoios recebidos de lideranças políticas e do marketing, numa proporção de 60 a 30%, respectivamente, como viabilizadores do projeto político e da conquista do governo.

Lembro da eleição de Omar Aziz governador em 2010. Na ocasião, houve quem sustentasse igual raciocínio, a tal ponto que Aziz fazia questão de destacar que seus apoiadores é que tinham ganho a eleição, em tom de indisfarçável ironia, pois sabia que os louros da vitória lhe pertenciam.

Ora, ora, como é elementar, quem ganha e quem perde é o candidato e seu adversário, um em função da performance do outro, como observava Brizola.

No entanto, como resulta evidente, jamais se poderá diminuir a importância das alianças políticas, do apoio de lideranças fortes e da ação de estrategistas e marqueteiros na edificação do conjunto da obra.

Ainda assim, embora respeitando quem pensa o contrário, inconcebível a inversão de valores de forma tão radical, superestimando-se determinadas participações com menosprezo à atuação do candidato.

No caso da eleição em tela, não custa notar, num e noutro sentido, o peso significativo no concurso eleitoral dos candidatos presentes no segundo turno, ambos com denso currículo político.

Foram governadores, prefeitos de Manaus e senadores da República, com alentada experiência de décadas em várias eleições.

Portanto, nada mais verdadeiro do que afirmar que os dois tiveram peso de extrema relevância no processo, na esteira da vitória ou da derrota, sendo certo que agora colhem o que realmente plantaram ao longo dos anos.

Amazonino Mendes, maduro e tolerante, racional, senhor de sua própria idade, fez uma campanha serena e impecável. Conseguiu inclusive a adesão entusiástica da juventude, tal e qual Bernie Sanders nas eleições primárias estadunidenses, constatação que merece destaque, porquanto demonstra que idade não é documento, pelo lado positivo ou negativo.

Mendes transmitiu segurança e experiência, num momento de graves incertezas em relação aos destinos do Amazonas e da Nação. Em nenhum momento caiu na armadilha de promessas vãs, irrealizáveis, nas quais ninguém mais acredita. Dispôs-se, com base em discurso espontâneo, apenas a arrumar a casa e a reconstruir o Estado, tarefas hercúleas.

Na outra ponta, Eduardo Braga fez o inverso, com linguagem típica de sua personalidade, insolente e autoritária. Nem o enviesado pedido de perdão de público no programa eleitoral no rádio e na tevê, a quem possa ter tratado com rispidez ou grosseria, providenciado sob encomenda e a destempo, foi capaz de convencer potenciais destinatários.

Apresentou realizações imaginárias, com números fictícios, para dizer o mínimo, e montou a campanha estruturada num rosário de promessas não factíveis, em tão curto espaço de tempo, reservado ao mandato-tampão.

De mais a mais, ao contrário de Amazonino, bem-sucedido ao optar pelo nome de Bosco Saraiva, Braga elegeu mal e pagou caro ao trazer Marcelo Ramos para companheiro de chapa, um fiasco sob todos os aspectos, um enorme desastre político e eleitoral.

Ao comparar as escolhas que deverá fazer na hora do voto, a propósito, usando bordão da campanha de Braga, o povo, quando informado com a verdade sobre os candidatos e seus projetos, acerta sempre. Somente erra, quando não recebe dados corretos e reais, em cima dos quais fará suas opções na urna.

Reconhecendo que toda e qualquer adesão é indispensável, diante do brocardo de que em política cisca-se pra dentro, que fique de uma vez assentado que quem perdeu foi Braga e quem venceu foi Amazonino, com escusas pelo truísmo que salta aos olhos.

sábado, agosto 26, 2017

ABC do Fausto Wolff (Parte 79)


WEST, Mae (1892 ou 1893-1980) – Mulher incrível, totalmente sem preconceitos, foi perseguida por mais de quarenta anos pela liga da moral americana, por insistir em mostrar no palco e na tela o que as moralistas mostravam entre quatro paredes.
Entra neste meu ABC porque – segundo as suas palavras – foi a mulher mais fudida do mundo.

Explico: em sua autobiografia ela declarou que um homem chamado Ted fez amor com ela durante quinze horas sem parar nem para tomar um cafezinho.
Como só publicou o livro aos setenta anos, a esta altura o Ted, que tinha quinze mais do que ela quando a sessão fodal ocorreu, já não dava nem mais para o cafezinho.
Se Mae foi comida por mais tempo, sua coleguinha Clara Bow foi comida por mais gente ao mesmo tempo: teria dado num dia para todo o time de futebol da Universidade da Califórnia, reservas incluídos.

Ao todo, quarenta armanhos em doze horas.


WHITMAN, Walt (1819-1892) – O maior poeta americano do século XIX, se considerarmos Pound um poeta do século XX. Era enrustidão, mas o seu livro mais conhecido, Leaves of Grass (que começou com uma edição de noventa páginas e acabou com mais de quatrocentas nas edições subsequentes), não deixa dúvidas sobre suas preferências.
Observem este pedaço de poema: “E quando eu pensei que meu querido amigo, meu amante, estava a caminho (o texto original é o seguinte: “And when I thought, how my dear friend, my lover was on his way comming...”, que alguns mais sacanas podem interpretar como “E quando eu senti que meu querido amigo, meu amante, estava para gozar...), Ó, então eu fui feliz! Pois aquele que eu mais amo dormia ao meu lado sob a mesma coberta na noite fria. No silêncio do outono, a sua face se inclinava em minha direção e o seu braço descansava suavemente sobre o meu peito – e naquela noite eu fui feliz”.
Era muita viadagem dele querer esconder a viadagem. Mas ele não era exatamente uma bichona louca, dessas que não podem ver uma fita no meio da calçada sem botar no cabelo.

Ao contrário, quando John Symmons, poeta menor e baitolo maior, tentou fazê-lo confessar o coleguismo, Whitman, que era forte pacas, lhe deu um cacete pouco poético e ainda berrou: “Como é que este sacana tem coragem de me chamar de bicha? Logo eu que fiz mais de seis filhos ilegítimos?”
Grande poeta ou não, forte ou não, pai ou não, a verdade é que Whitman, se não enfornou muitos robalos, pelo menos um ele meteu no forno. O robalo de Peter Doyle, um cocheiro de bonde a cavalo.
Uma noite, em 1867, Doyle estava conduzindo o seu bonde quando notou um único e silencioso passageiro.

Como Doyle também estava se sentindo entediado, decidiu levar um papinho com o passageiro solitário que – vocês já devem ter percebido – era o poeta. Foi amor à primeira vista.
Doyle botou a mão nos joelhos de Whitman, que decidiu não desembarcar no fim da linha.

Desembarcaram juntos muito felizes horas depois e felizes viveram juntos durante vinte e quatro anos (é isto mesmo!) até a morte de Whitman.
Aliás, depois da sua morte, vieram à tona as suas cartas, nas quais o poeta chama o cocheiro de “meu menino querido” e se despede sempre com muitos beijos.

Quando perguntaram a Doyle sobre as mulheres na vida de Whitman, ele não gostou e limitou a comentar: “Walt não era chegado”.


WIG CLUB – Rico, quando não está sacaneando pobres, tem muito pouco para fazer e morre de tédio. Uns aristocratas vagabundos de Londres, por falta de coisa melhor, decidiram fundar em 1767 o Wig Club, ou seja, Clube da Peruca.
O nome do clube onde os sacanas comiam suas amantes se deve ao fato de seu símbolo ser uma cabeleira feita dos pentelhos das amantes de Charles II, rei da Inglaterra e tremendo garanhão.

Aos pentelhos das amantes do rei, os nobres juntaram os pentelhos das suas amantes.
Aliás, nego só podia entrar para o clube se junto com os pentelhos da amante trouxesse também uma declaração dela mais ou menos do seguinte teor: “Venho através desta confirmar que os pentelhos trazidos para o Wig Club pelo lorde Moray foram raspados da minha vagina”. Seguia-se a data e a assinatura.
O clube acabou quando este mesmo lorde Moray pediu demissão e levou consigo a longuíssima peruca.


WOLSEY Thomas (1475-1530) – Cardeal e estadista que dominou o reinado de Henrique VIII. Era um bom filho da puta e subiu à custa de intrigas. 

Além de ladrão, ainda se dava ao luxo de ter filhos ilegítimos. Os nobres não gostavam dele porque era filho de um açougueiro. 

Tinha grande influência sobre o rei, que preferia fuder e deixar os negócios da corte a cargo do cardeal, entre 1515 e 1529.
Oficialmente, ele foi julgado e condenado, por não ter conseguido fazer com que o papa permitisse que Henrique VIII se divorciasse de Catarina de Aragão para se casar com Ana Bolena (que devia ter uma chave na xota, pois além de feia, tinha seis dedos numa mão).
Extra-oficialmente, o rei teria ficado puto dentro das calças ao descobrir que a sífilis que tinha lhe fora transmitida pelo cardeal.

É que a fim de botar no popô dos seus inimigos, o cardeal passou quase quatorze anos cochichando no ouvido do monarca. Sua saliva teria transmitido a sífilis.
Sifilítico ou não, a verdade é que o rei casou com Ana Bolena, mãe da futura rainha Elizabeth, e depois mandou decapitá-la.

Reinou ainda dezoito anos depois da morte do cardeal que ele ia mandar matar de qualquer maneira, caso ele não houvesse morrido de cagaço ao ser chamado pelo rei para ouvir a sentença de morte.


WOOLF, Virgínia (1882-1941) – Maluquete, mas trabalhava bem as pretinhas (as teclas da máquina de escrever) e foi, juntamente com Proust, Kafka e Joyce, uma das pioneiras da literatura moderna.

Fora de brincadeira, quem não leu a obra dos quatro não pode nem começar a pensar em discutir literatura do Século XX.
Proust entregava o anel e escrevia muito, Kafka provavelmente morreu virgem e Joyce era taradão: andava com as calcinhas usadas da mulher pelas ruas de Dublin.

Virginia aparentemente não gostava do esporte, mas se tivesse que ir para a cama com alguém preferia que fosse uma mulher.
Seu desinteresse pelo sexo oposto devia-se a seus dois meio-irmãos, também meio-babacas, Gerald e George Duckworth.

O primeiro tinha mais de vinte anos quando começou a boliná-la e olhem que ela só tinha seis aninhos.
Até os vinte e dois anos ela aguentou as visitas de George à sua cama.

Discretíssima, não dizia nada, mas no íntimo a raiva contra mastruços e mastrucinhos crescia como urtiga.
Juntamente com os irmãos fez parte de um clube de intelectuais de Cambridge, o Bloomsberry, cujo hobby era sacanear as pessoas sérias.
Uma vez, disfarçados de árabes, fizeram uma visita “oficial” a um vaso de guerra britânico e receberam as honrarias estabelecidas pelo cerimonial.

Comeram, beberam, se divertiram e depois deram no pé.
Não posso, realmente, lhes assegurar se ela era bonita, mas classuda ela era.

Embora meio nariguda, tinha o olhar misterioso da nossa poeta maior, Cecília Meirelles.
Aos vinte anos se apaixonou por Violet Dickenson, que tinha trinta e sete. Escrevia-lhe cartas na base de “meu amor”, “minha mulher”, “beijo-te as mãos, os lábios e...”
Embora este “e” pareça muito loquaz, quem conheceu a dupla garante que elas não foram para a cama.
Fazia parte do Bloomsberry Club um viado chamado Lytton Stachey, conhecido como arquisodomita.

Ele propôs casamento a Virginia em 1909 e ela chegou a ficar assanhada com a ideia, pois a bicha tinha fama de ser uma intelectual brilhante.
No dia seguinte, porém, o “ele-ela” disse para o “ela-ele”: “Não vai dar, meu bem. Não suporto mulher me beijando”.
Entretanto, foi Lytton que sugeriu ao escritor e ativista político Leonard Woolf que namorasse Virginia.

Ele namorou, noivou, casou (foi assim que ela virou Virginia Woolf, pois antes era Virginia Stephen) e até trepou com ela.

Ela gostou do namoro, do noivado, do casamento, mas detestou a trepada.
Apesar disso – ao modo deles –, eles se amavam. Infelizmente, ao fim de cada romance – escrevia, pelo menos, um por ano –, ela tinha acessos de loucura, sofria de melancolia e era internada em sanatórios.
Sua grande paixão em termos sexuais (foram para a cama umas vinte vezes, realizando lutas aranhais extremamente bem-comportadas) foi uma lésbica, igualmente casada, chamada Vita Sackville-West, que outro dia estive lendo e que escrevia direitinho.
Vita, além de despertar tesão em Virginia também despertava inspiração. Ela foi a musa do seu romance mais conhecido, Orlando, uma biografia de Vita, vista como um adolescente, em forma de ficção.
O marido de Vita, Harold Nicolson, disse que Orlando foi a carta de amor mais longa e charmosa da história da literatura ocidental.
O marido de Virginia também não se importou, pois afinal de contas “Vita é bonita, inteligente e no meio das pernas tem um clitóris”.
Embora deixasse escrito para o marido que “nunca houve no mundo duas pessoas mais felizes do que nós”, um dia, depois de uma crise de angústia, Virginia encheu os bolsos de pedras, entrou no rio Ouse e morreu discreta e elegantemente.

ABC do Fausto Wolff (Parte 80)


XANTIPA (Fim do Século V a.C.) – Mulher do filósofo Sócrates. Era feia, chata e forte. Vivia cobrindo o Só (para os íntimos) de porradas. Apesar disso, ele conseguiu ter três filhos com ela.

Há quem diga que Xantipa o aporrinhava porque, em vez de ficar em casa, ele vivia batendo papo e coxas com os rapazes nas saunas de Atenas, papos sobre Ética, Estética, Verdade, Virtude, conforme Platão anotou tão bem em seus Diálogos.

De lá para cá, se excetuarmos Leibniz, Kierkegaard, Marx e alguns poucos outros, nada mais se fez em matéria de filosofia.

Se o Sócrates era chegado a uma mandioca entre uma aula e outra? Era.

Aliás, foi condenado por corromper a juventude.

Deram-lhe amplas possibilidades de fugir, mas ele preferiu beber veneno (cicuta) a voltar para Xantipa, que jamais imaginou que mais de 2 mil anos depois iria aparecer neste ABC só por sacanear o marido.


XANTORRÉIA – Perdão, leitores, menti. No verbete anterior eu disse que Xantipa só apareceu neste meu livrinho porque sacaneava o bom Sócrates.

Em verdade ela só faz parte desta seleção de vocábulos, acontecimentos e personalidades porque seu nome começa com “X”.

Se um sacanólogo fosse depender da letra “X” para viver, não daria pra média, pão e margarina.

É que essa letrinha, além de dar nome ao cromossomo feminino XX, só é chegada à química e aos povos incas, astecas e maias, que os espanhóis do século XVI gostavam de chacinar em nome de Deus, porra!

Depois da Xantipa e antes de encontrar a xantorréia, eu só conseguia lembrar de um carteiro chamado Xavierzinho, que gostava de pegar nos pauzinhos da gurizada da avenida Farrapos em Porto Alegre, durante os anos 40.

Nunca me aproximei do Xavierzinho, mas os meninos de oito a dez anos contavam que a coisa era nesta base: “Quer uma balinha? Então deixa eu segurar o pintinho”.

Quase tão sacana quanto o Xavierzinho, que hoje já deve estar morto ou, pelo menos, aposentado de suas funções de correio da manhã viadal, é a xantorréia, também conhecida como xantorreia australis.

Trata-se de um cacto típico das regiões desérticas da Austrália. O tronco é muito grosso e curto e termina num tufo floreáceo. Do meio deste tufo se levanta uma inflorescencia longa, reta e dura.

Dizem os aborigines (aquele pessoal que gosta de furar os lábios com ossos e que come lagartixa crua) que a xantorréia é a sua única atração turística.

Baitolos milionários do mundo inteiro aparecem por lá apenas para enfiar a inflorescência no rabo e morrer com o próprio cheio de espinhos, com um sorriso nos lábios. Deve ser simpatia.


XINGU O rio Xingu, como todo mundo que estudou geografia no primário já devia ter esquecido, passa pelo Mato Grosso e pelo Pará.

Juntamente com seus afluentes, acaba desembocando seus 1.980 quilômetros no Amazonas, ao sul da ilha Grande de Gurapá.

O Xingu foi explorado pela primeira vez pelo etnologista alemão Karl Von Steiner, por volta de 1884.

Dá o ar da sua graça neste ABC porque em 1959, fazendo uma reportagem para a revista Manchete (tinha esperanças de acabar na Academia, como o Arnaldo Niskier), deparei com alguns puteiros bem pobrezinhos às suas margens.

A periguete, fui ver as moças, que vinham de longe e cobravam caro para atender à clientela composta quase que exclusivamente de mineradores.

Quando disse à moça que estava na cama comigo que queria algo mais que papai-mamãe, ela me mandou à merda.

Disse: “Eu sou puta, mas tenho noivo e minha boca é só para ele”.

Devia tomar lições com algumas senhoras da sociedade carioca.

Ficamos no papai-mamãe e não peguei gonorréia.

Fazia-se chamar Tânia Verônica, mas em verdade se chamava Das Dores.

Era sarará e tinha um dente de ouro.


XOCHIQUETZAL – Deusa asteca da beleza, do amor sexual, das artes, associada também às flores e às plantas em geral.

Na mitologia, ela teria vindo de Tomoancham, o paraíso verde do oeste.

Originalmente, mulher de Tlaloc, o deus da chuva, como era boa demais, acabou sendo raptada por Tezcatlipoca, o nefando e sacaníssimo deus da noite.

Tezcatlipoca (bom nome de um jogador do Madureira para ser pronunciado por aquele cara que diz “dá-lhe garotinho!”), depois de trepadas divinas, acabou por coroá-la deusa do amor.

Em algumas regiões ela é confundida com Chalchithlicue, a deusa da água fresca. Já imaginaram esses dois fudendo: “Você é demais, Xochiquetzal!”. “Me chama de Chal-chithlicue!”. “Você é demais Chalchithlicue!”. “Bondade tua, Tezcatlipoca”.


YAB-YUM – A letra Y se amarra em clãs japoneses, arranjos florais e porcelana chinesa. Mas o Yab-Yum é do Tibete e em tibetano quer dizer pai-mãe.

Na Índia, no Nepal e no Tibete é representado como a divindade masculina abraçada à sua consorte feminina.

Ela é branca e está sentada sobre as pernas dele enquanto que ele, que é escurinho, vai fundo. 
Representa a união mística da força ativa ou método (upaia) masculino com a sabedoria (praina) feminina.

Trata-se da fusão necessária para sobrepor a falsa dualidade do mundo de aparências na luta por um plano espiritual mais alto.

O uso da união sexual como símbolo da união mística vem do tantra hindu e também está presente no hinduísmo, embora nunca tenha sido aceito pelos budistas da China e do Japão.

Ignoro a razão deste caretismo sino-nipônico.

ABC do Fausto Wolff (Parte 81)


YEVTUCHENKO, Yevgeni Aleksandrovich (1933- ) – Poeta, se tornou líder da juventude russa depois da morte de Stálin, ocasião em que caiu de pau no falecido ditador.

Viajou pela Europa Ocidental e Estados Unidos como garoto-propaganda de Kruschev.

Caiu em desgraça em 1963 quando publicou sua autobiografia. Alguém devia lhe ter dito que a autobiografia era precoce demais.

De qualquer modo, foi reabilitado em 1967, quando publicou seu ciclo de poemas Estação Bratska.

Nos anos 70 andou meio desaparecido e eu já estava pensando em escrever um conto chamado “Whatever happened with Geny Tuchenko?” quando ele pintou aqui no Rio de Janeiro em 1987.

Não é um grande poeta, mas passei a gostar mais da poesia dele depois que me disseram que, apesar dos insistentes pedidos dos poetinhas locais para discutir literatura, Yevtuchenko só queria saber de tomar cana.

Aparentemente, por onde passou, não sobrou puta pobre. Quem diz que só se faz poesia escrevendo?


YING-YANG – A cidade gaúcha de São Borja, onde nasceram Getúlio Vargas e João Goulart, é uma homenagem a um santo italiano chamado Bórgia que teve muitos filhos – alguns deles, papas – que, por sua vez, tiveram muitos filhos.

Apesar disso, apenas agora – e muito reticentemente – a Igreja admite que o ato sexual pode ser praticado por outros motivos que não os puramente reprodutivos. Motivos recreativos, digamos.

Dois mil e quinhentos anos antes de Cristo, os religiosos chineses já haviam descoberto este segredo de polichinelo. (Não, não se trata de um chinelo para usos múltiplos, mas sim o nome aportuguesado de Pulcinela, personagem da Commedia dell'Arte, cujos segredos eram de conhecimento público).

Ying-Yang é um símbolo chinês cuja origem se perde literalmente nas improváveis esquinas do tempo. Trata-se de um círculo dividido em duas partes iguais por uma linha curva e significa a união perfeita dos opostos, principalmente da mulher, Ying, e do homem, Yang.

Segundo os taoístas, e creio que poucos imbecis ousarão duvidar disto, quando Yang e Ying se amam, o orgasmo de ambos os transporta para outra dimensão, a dimensão de total harmonia com o universo.

Ou, como eu coloquei num romance chamado O Acrobata Pede Desculpas e Cai: “E é neste momento, da união mais profunda, que eu e a mulher sentimos a presença de Deus”. Pode ser pouco carola, mas sem dúvida é muito católico, no sentido universal do termo. Se Deus houvesse feito o sexo apenas para efeitos reprodutivos não faria do ato sexual a coisa mais gostosa do mundo.

Mas voltando ao Ying-Yang: os taoístas achavam que tudo que fosse humanamente possível devia ser tentado para que a trepada entre um homem e uma mulher fosse a mais harmônica e transcendental possível.

Eis o que diz o já citado neste ABC, TungHsuan Tzu, no século VII, em seu livro A Arte de Alcova: “Todos os homens têm obrigação de conhecer os diversos modos de se ter prazer com uma mulher. Ele deve saber os diversos modos de deitar (se de frente ou de lado, se sentado ou de pé) e escolher o momento exato de preferir a parte da frente ou a parte de trás: de penetrá-la violenta ou suavemente. Se souberem, viverão felizes. Caso contrário, perecerão miseravelmente”.

O Livro dos Ritos diz o seguinte: “Não basta ao homem saber fazer amor bem. Ele deve fazer amor com frequência. Até os cinquenta anos o homem deve entrar no pavilhão do prazer de suas mulheres pelo menos de três em três dias. Deve entrar no pavilhão de suas concubinas pelo menos de cinco em cinco dias. No pavilhão das outras mulheres da sua casa, quando lhe der na telha. A esposa principal deve permanecer na alcova enquanto o marido estiver fazendo amor com uma concubina de extração inferior. Depois do ato a esposa pode mandar a concubina embora e ficar no quarto com o marido pelo resto da noite. Sua posição merece honra e respeito”.

Se isto deixar as feministas menos irritadas, devo informar que Mao Tsé Tung não concordava com esta trepação toda e acabou com a alegria fodal da classe dominante chinesa.

É que para os pobres da China, desde sempre, durante dezenas de séculos, sexo era “papai-mamãe e vamos trabalhar que o dia tá raiando”.

Estou, porém, de acordo com o imperador Huang Ti que mais de 2 mil anos antes de Cristo, no primeiro livro de sacanagens jamais escrito, sentenciava: “Se queres conhecer o cérebro, investiga-o com o sexo”.

Que é que vocês acham? Ele estava se referindo ao pentelho luminoso ou à foda cerebral?


YOUNG, Brigham (1180-1877) – Tremendo cara de pau, foi o segundo presidente da igreja mórmon e o responsável pela transferência dos fiéis de IIlinois para Utah, nos Estados Unidos.

Através de Smith, o primeiro presidente, Young descobriu no livro dos mórmons a necessidade de casamentos múltiplos. De todos os mórmons foi o que mais praticou o que pregava. Tinha cerca de setenta mulheres.

Conhecido como o “Leão do Senhor”, o pastor Young mandou construir uma casa enorme num quarteirão central de Salt Lake City e nela nunca dormiam menos de doze esposas ao mesmo tempo.

As demais tinham casas monogâmicas espalhadas pela cidade, onde esperavam a eventual visita do marido.

Quando Young decidia com que esposa ia passar a noite, marcava a porta do quarto dela com uma cruz de giz. Antes, porém, comia duas dúzias de ovos “para aumentar a minha virilidade”.

Não é à-toa que, apesar do manto religioso que envolve a cidade, ainda recentemente disseram que se alguém pusesse um teto sobre ela, Salt Lake City seria o maior bordel do mundo.


YPACARAI Lago ao sul do Paraguai, com 12 quilômetros de comprimento e 6,5 de largura. Tornou-se famoso no Paraguai, no Brasil e até mesmo nos Estados Unidos graças à uma guaraña na qual o compositor narra as sacanagens que fazia com uma índia chamada Cunãtaí.

A música diz, entre outras coisas: “En una noche tibia nos conocimos junto al lago azul de Ypacaraí. Tu cantabas triste por el camino, viejas melodias en guarany”. Sentiram a falta de vergonha?

Aliás, as sacanagens junto ao lago azul de Ypacaraí não vêm de hoje, uma vez que recentemente foram encontrados fósseis de homens e mulheres pre-históricos às suas margens.

Passei a simpatizar mais com o Stroessner, ditador do Paraguai, depois que ele mandou explodir o filho da puta do Somoza, que andava levantando a asa para a nora dele.

Ainda assim acho que, em vez de ficar comprando terras no Paraná (para onde pretende fugir quando quiserem pregar seus ovos num muro), deveria fazer uma campanha chamada “Venga amar en Ypacaraí”, uma vez que no Paraguai existem oito mulheres para cada homem.


YÜGEN – Este Yügen aí tem trema. Aviso porque editor brasileiro acha que trema é como fio dental em bunda de mulher: se tirar não faz a menor diferença.

Se o Yügen não tiver trema, vocês podem parar de ler por aqui, pois continuar dá azar. Se tiver trema podem prosseguir, pois todos os desejos de vocês serão atendidos.

Yügen é um termo japonês indefinível que se refere a uma qualidade especial de beleza ou de essência estética, cujo significado é misterioso e profundo como, aliás, tudo o que aconteceu no Japão depois da invasão dos jesuítas, dos transistores e do software que, como todos sabem, quer dizer vara borrachuda.

Se vocês quiserem maiores informações procurem se familiarizar com a obra do dramaturgo Zeame Motokiyo.

Yügen, quando não é marca de queijo, é palavra doce que traduz muito amargor; Yügen é como se fosse espinho cheirando a flor. Leu sem trema? Fudeu-se.

ABC do Fausto Wolff (Final)


ZALTYS – A letra Z é muito popular nos países balcânicos e está no sobrenome de uma porrada de poetas do século XIX que ninguém conhece. Tem pouco a ver com o esporte que, mal ou bem, explica a nossa existência.

Cheguei a pensar em apelar e botar o Zorro. Acontece que o Zorro, que dava pro índio Tonto, em verdade só era Zorro aqui no Brasil.

No resto do mundo o nome do marmanjo que usava uma máscara negra era Lone Ranger.

O Zorro que agia na Califórnia tinha um irmão gêmeo viado, segundo recente versão hollywoodiana, mas... Ah, deixa pra lá que o verbete é Zaltys.

Zaltys é uma cobra verde inofensiva, mas altamente respeitada nas antigas religiões bálticas.

Para assegurar saúde e fertilidade na família, cada casa, principalmente na Lituânia, tinha uma cobra verde dessas num canto da cozinha.

Volta e meia a família se reunia e adorava a cobra.

Se Freud fosse vivo, imaginem quantas ilações sacanas tiraria deste ingênuo culto primitivo! 

Às vezes a cobra era convidada a jantar  com a família. Se ela se recusasse, a desgraça era iminente: as plantas se recusavam a crescer, o leite talhava, o chefe da casa brochava e, naturalmente, não nasciam mais filhos.

Os russos botaram na poupança dos lituanos porque pegaram eles desprevenidos: as cobras verdes estavam em falta.


ZAPATA, Emiliano (1879-1919) – Vocês achavam que eu ia deixar  ele escapar? Líder revolucionário mexicano que começou como camponês guerrilheiro em Morelos, onde nasceu.

Ajudou Francisco Madero (“Poco trabajo, mucho dinero, pulque barato, viva Madero!” e vocês já viram que, com uma canção dessas, a revolução só podia dar no que deu) a derrubar o tirano Porfírio Dias em 1911. 

Zapata foi perguntar a Madero, acabada a revolução, quando ele pretendia distribuir a terra aos camponeses.

Madero respondeu como Sarney: “Tu estás levando esta tal de reforma agrária muito a sério”. 

Foi o bastante para Zapata recomeçar a revolução com o lema “Terra e Liberdade”.

Madero caiu em 1913 e foi substituído por outro ditador, Vicente Huera, que Zapata também botou pra correr com a ajuda de Pancho Villa.

Como todo cara pobre que luta contra o poder, foi traído e assassinado, em 1919.

Aliás, não só em 1919.

Segundo Elia Kazan em seu filme Viva Zapata!, na noite de sua lua-de-mel, em vez de mel teria pedido a sua noiva que o ensinasse a ler. Não fez o que as pessoas normais fazem com as noivas.

Por outro lado, o Elia Kazan também não é de confiança, haja visto que dedurou atores e diretores esquerdistas para o senador MacCarthy, mas isso é outra história.


ZEUS – Filho mais novo de Cronos (Tempo, daí cronômetro), que tinha mania de comer literalmente os seus filhos, como, aliás, o tempo faz com todo o mundo. O tempo é um grande mestre, mas mata seus alunos antes que eles aprendam a lição.

Cronos, que havia castrado o próprio pai (Urano), foi vencido por Zeus, já crescidinho, que tomou conta do Olimpo. Deu o inferno para seu irmão Hades e o mar para seu irmão Poseidon e aproveitou para casar com a irmã, Hera.

Ao contrário de religiões anteriores e posteriores, os gregos humanizaram ao máximo o seu deus supremo.

Zeus era um pai de família justo, mas passível de cometer erros motivados por paixão; era tremendamente galinha, mas acabava sempre perdoado pela irmã-mulher que, porém, era extremamente vingativa com as amantes eventuais do marido; tinha pavio curto mas sua ira podia ser apaziguada e, principalmente, tinha muito senso de humor.

Seu nome deriva provavelmente de uma raiz que significa “brilhante”, pois é o deus do céu e dos fenômenos atmosféricos.

Em algumas lendas ele aparece como marido de uma porrada de deusas, mas como os gregos eram monogâmicos, acabaram por amarrá-lo a Hera, o que não o impediu de comer quem quisesse.

Para conquistar mulheres e deusas, às vezes se disfarçava de cavalo, touro, chuvinha de prata.

Trepou com Metis, a deusa da sabedoria, com a qual, segundo Hesíodo, teve Atena. Outras lendas dizem que Atena já nasceu adulta e armada do cérebro de Zeus.

Com Demetér teve Perséfone; com Leto teve Apolo e Ártemis; com Hera teve Hebe, Ares e Eileitiia; com Maia, filha do gigante Atlas, teve Hermes.

Mulheres mortais comeu as que quis, na conversa, na marra ou no disfarce.

Com Semeie teve Dionisos, com Alcmene teve Héracles, com Leda (disfarçado de cisne, daí a expressão “afogar o ganso”, para os comuns mortais, pois Zeus afogava o cisne) teve Helena, Clitemnestra, Castor e Polideuces, com Io teve Êpafos, com Europa teve Minos e Radamantis, com Antíope teve Anfion e Zetos. Chega? É que tem muito mais.

Como era (é?) imortal podia ter um filho com uma mulher e, posteriormente, cem anos depois, ter outro filho com a tetraneta desta mesma mulher, que assim seria irmã de sua própria trisavô.

Verdade é que suas  uniões com mulheres mortais correspondia ao desejo de certos reizinhos de serem descendentes dele.

Zeus era o dispensador do bem e do mal no destino das criaturas humanas, mas principalmente do bem.

Era o regulador do curso dos acontecimentos, conhecia o futuro que, eventualmente, revelava através de oráculos.

Era ele quem aplicava a justiça e punia a calúnia, além de ser o defensor da casa e da liberdade.

Seu poder só não é ilimitado porque é obrigado a obedecer aos caprichos do destino.

Pessoalmente, não me considero ateu, pois acredito em Zeus, que nunca botou cobra alguma em paraíso algum.


ZOLA, Emile (1840-1902) – Bem mais sacana que o falecido Zola, foi o vivíssimo Carlos Zéfiro. Autor de histórias em quadrinhos de sacanagem, seus desenhos não são grande coisa e seu texto não é melhor.

Em compensação, quebrou o galho de adolescentes desde 1950, quando seus livrinhos começaram a aparecer. 

Homem que nasceu entre 1940 e 1950 e não bateu uma punheta vendo as histórias do Zéfiro ou era cego ou doente do pau. 

Ninguém sabe a verdadeira identidade do Carlos Zéfiro que, por sinal, é mais misterioso que o B. Traven, o maior escritor norte-americano da primeira metade do século XX, autor de O Tesouro de Sierra Madre.

Mas voltando ao Zola, ele não era sacana e está aqui porque impediu uma grande sacanagem que queriam fazer com um tenente judeu chamado Alfred Dreyfus.

Há quem diga que Dreyfus quer dizer tripé. Mas ninguém sabe nada sobre o tamanho da rola do tenente, pois tripé era o seu nome mesmo.

Tripé no duro era o jogador de futebol que, apesar de se chamar Germano, era crioulo. Um dia a contessina Agusta foi ver um treino de futebol do Fiorentina (se não me engano) e teve a impressão de que o Germano tinha três pernas.

Se apaixonou pela perna do meio e se casou com ele, apesar da grita da família, uma das mais ricas da Itália. Quando encheu o saco do Germano, a contessina pediu o divórcio e o burro do Germano, que até teve uma filha com ela e podia ter pedido aos tubos do velho conde que, afinal, era ladrão, aceitou os termos impostos pela justiça italiana e voltou para o interior de Minas onde vive sem um tusta. Na Itália era conhecido como Germano Tre Gambe.

Mas voltando ao Dreyfus. Ele fora acusado de traição injustamente pelo governo francês. Zola escreveu o seu célebre J'Accuse (em alguns países a imprensa já servia para alguma coisa mesmo no século XIX) e o militar acabou sendo libertado da ilha do Diabo.

Zola era gordo, tinha mais de 110 quilos e menos de 1,60 m, além de ser desdentado. Não trepou muito e com este physique de rôle que só perde para o Adolph Bloch, não podia querer grande coisa.
Em compensação, suas descrições do ato sexual em Nana e Pat-Bouille foram tão realistas que influenciaram o curso da literatura ocidental.

Morreu aos sessenta e dois anos com uma mulher e uma amante com quem teve duas filhas.

Aos doze anos foi comido por um empregado turco chamado Mustapha, mas ao contrário de Lawrence, que também entregou o anel de couro para um turco, Zola não gostou.

Considerou a vida inteira uma sacanagem o que o Mustapha fez com ele.


ZOOFILIA – Como os mais inteligentezinhos sabem, não quer dizer amizade aos animais, mas “uma certa inclinação” para os animais.

Os zoófilos mais moderados limitam-se a ver os animais fuque-fuque, segundo o nobre estilo de O Dia.

É que, anos atrás, o redator-chefe, furioso, rasgou o título de uma matéria: “Tarado enrabou o porco”. Substituiu-o por “Tarado enrabou o suíno”.

Aliás, este cinéma-cochon ou cinéma-cheval é tão comum em todas as regiões rurais do mundo que só um cretino o classificaria de perversão.

Há ainda os zoófilos que não se limitam a olhar. A perigo, traçam suas vaquinhas, porcas, éguas, etc. Mas só a perigo.

Segundo o velho Kinsey, mais de 40% dos rapazes habitantes do campo tiveram algum contato sexual com animais na fase pré-adolescente e adolescente. É o chamado quebra-galho.

Perversão mesmo, no caso, é o bestialismo. Bestialismo, como vocês sabem, é o cara que só encara uma mulher quando não tem uma cabrinha à mão.

Embora na Idade Média o sujeito que fosse apanhado botando na olhota de um bicho qualquer corria o risco de acabar na fogueira, hoje em dia ninguém dá grande importância ao bestialismo, desde que praticado com discrição.

Pessoalmente, desaconselho os leitores a induzirem animais à prática do felacio. Uma mordida e AAAAIIII!

As lagostas e as polvas são mais ternas e compreensivas.

Eu poderia ainda falar dos zéfiros, uns ventos brincalhões que adoravam levantar as tules das ninfas dos bosques gregos ou dos zannis, personagens cômicos da Commedia dell'Arte; de Maria Zayas, escritora espanhola de novelas eróticas do século XVI ou das Ziegfield Girls, que mostravam as coxas nos palcos de New York nos anos 10 e 20.

Mas a luz apagou, meus fósforos acabaram e enchi o saco de procurar safadezas para satisfazer a curiosidade mórbida de um bando de relambórios safardanas. Acabou, chega, vão pra casa! Vocês são muito doidos!

Manual do Lenhador Sensível


Por Xico Sá

A fêmea é mesmo um jogo de adivinhação. Governar bem um desses seres colossais passa sobretudo pela nossa capacidade de correr à frente dos seus desejos. E realiza-los a contento.

Todas são naturalmente parecidas com aquela personagem de O piano – não falam e querem que a gente cumpra todas as funções, todos os trabalhos de Hércules. Precisamos adivinhar o momento certo de praticarmos sexo com alguma delicadeza. Um pouco antes disso, todavia, não podemos nos esquecer de correr à floresta, cortar lenha e pôr lenha à beira do fogão antes que venha a tempestade.

Homem sensível e lenhador ao mesmo tempo. Adivinhar onde quer ser tocada e também a hora da chuva. Isso é que querem as mulheres. O que implica o mais completo domínio de uma arte que junta conhecimento tântrico com a meteorologia. Preocupado com os meus párias, iniciei o esboço do Pequeno manual de adivinhação e encorajamento do macho diante do silêncio da fêmea e outros perturbadores, do qual subtraí os verbetes que seguem:

Fêmea sacudindo o vasto cabelo loiro – Esqueça esse tal de Marcel Proust, meu amigo, antes que ela confunda com outro personagem do mundo da velocidade e diga que preferia o Ayrton Senna. Corra em busca do tempo perdido e atraque no motel com cascata e teto para as estrelas mais próximo.

Fêmea sacudindo o cabelo castanho ou preto – Também quer sexo, mas adora falar antes sobre a personalidade de peixes-com-peixes, peixes-com-sagitário, peixes-com-virgem, numerologia, Caminho de Santiago, Paulo Coelho, búzios, cristais, a cura pelo vento...

Fêmea em mostra de filme francês – Diga à gazela, assim bem brega: “Se o Truffaut a tivesse conhecido, Bertrand, o Homem que Amava as Mulheres, teria final feliz – e seria com você.”

Fêmea silenciosa no café da manhã – Espere que ela consuma todo o líquido. Mire o fundo da xícara e arrisque uma leitura árabe da borra de café. Só assim será possível descobrir a demanda provocada ao longo do tempo pela sua incompetência.

Fêmea sentada na cama mirando a guarda-roupa – Ela vai experimentar um, dois, três vestidos: quatro, cinco saias: uma dúzia de blusas com calças tantas... Quando atingir o desespero, na tentativa do tubinho preto, pegue-a pelo braço, corra aso shopping mais próximo e realize o seu sonho de Uma Linda Mulher.

Fêmea no teste do biquíni – Ao perceber que ela ficou incomodada ao sentar pela primeira vez na areia daquele verão, não adianta nem mesmo a mais derramada e lírica das declarações de amor. Mesmo que você não saiba sequer a diferença entre estria e celulite, mesmo que prefira uma “botterinha”, não adianta convencê-la. Nada vai adiantar, nobilíssimo macho. Melhor presenteá-la com uma temporada de alcachofras num bucólico spa das redondezas.

Fêmea louca para repaginar o lar – Não tem jeito. Ela quer mudar o fogão, a cama, a mesa, os livros, os discos, os jarros... Não se aperreia, sob pena de ter lugar trocado também – sai o respeitável marido entra o nobre amante. A receita é entrar no embalo da nega, ajuda-la na missão. Esqueça a cara feia, mude pelo menos uma planta, um lírio de lugar.

Fêmea em pleno desejo de um rebento – Faça você mesmo, antes que ela torre o seu cartão de crédito em um banco de espermas qualquer, para dizer o mínimo.

sexta-feira, agosto 25, 2017

ABC do Fausto Wolff (Parte 76)


VERLAINE, Paul (1844-1896) – Ele era filho de militar e um excelente poeta lírico, provavelmente o melhor da sua época. Ela chamava-se Mathilde Mauté, da classe média francesa, bonita e apaixonada.

Quando se conheceram e casaram, ele tinha vinte e cinco anos, era gentil, boa-pinta e famoso. Ela era uma menina de dezessete anos que queria ser feliz.
Algumas semanas após o casamento ela notou que o seu Paul estava sempre cansado na hora do fuder e quando o fazia, fazia mal.

Às vezes passava dois, três dias sem aparecer em casa e se ela ousasse reclamar, ele a cobria de porradas.
Ela ficou grávida, mas continuou apanhando e quando o filho do casal – George – nasceu, ele quase o matou quando o nenê o acordou com o seu choro.
Como ela era uma menina muito asseada, ele passou a não tomar banho, provavelmente para fazer com que ela se afastasse dele.
Pobre Mathilde, devia pensar: “O que será que o Paul quer?”
Fora eu vivo e conhecesse o casal naquela época diria: “Mathilde, o Paulinho quer sentar em cima de um trolho”.
Mathilde acabou descobrindo de que coceira sofria o seu marido quando um dia – eles já estavam casados há três anos – ele apareceu em casa com um garoto de dezessete anos e disse: “Mathilde, te apresento o meu amigo Arthur Rimbaud. Ele vai morar conosco”.
Rimbaud, embora garoto, era um bom filho da puta e um melhor poeta, melhor que Verlaine, inclusive.
Uma noite, Mathilde acordou e encontrou Verlaine dormindo com Rimbaud.
A partir desta noite os dois perderam a vergonha. Se comiam na frente de Mathilde que, dura, não teve coragem de se mandar.
Em 1872, vendo que Mathilde não se mandava, Verlaine e Rimbaud saíram de casa para não mais voltar. Rimbaud, aliás, aproveitou para afanar uma flauta de marfim de Mathilde.
Se Verlaine se apaixonou, aparentemente, o mesmo não aconteceu com Rimbaud, que trepava com todos os viados de Paris quando não estava escrevendo ou enchendo a moringa de absinto, bebida muito em moda na época.
Paulette não aguentou e deu um tiro nele. Ele não morreu, mas Verlaine passou dois anos na cadeia.
Rimbaud aproveitou para abandonar a poesia e a viadagern. Viajou para a Etiópia, onde comeu muitas nativas enquanto contrabandeava armas.
Em 1891, voltou para a França a fim de se casar, mas morreu no mesmo ano em Marselha, graças a uma perna gangrenada.
Mathilde, assim que passou a lei do divórcio, entrou com uma ação e se casou de novo aos trinta e três anos. Teve dois filhos com um mestre de obras.
George, seu filho com Verlaine, nunca passou de chefe de estação do metrô de Paris e toda vez que ouvia falar no nome do pai, tomava um porre. Morreu de porre em 1926.
Verlaine continuou escrevendo poesia – nada que pudesse se comparar com a produção dos primeiros anos – e morreu na casa de uma velha prostituta – Eugénie Krantz –, todo fudido, aos cinquenta e dois anos.
Apesar dessa história sórdida, em menos de cinco anos Paul Verlaine e Arthur Rimbaud produziram a melhor poesia francesa da última metade do século XIX.
Hoje dão nome a dois edifícios contíguos, de luxo, em Ipanema, no Rio de Janeiro, cujos moradores só lêem Vinícius de Moraes, com exceção do inquilino do 701 do Verlaine, que é vidrado em Baudelaire, que também era francês, também era bom poeta, mas não sentava em objetos estranhos.

VENÉREA, Doença – Não, não é isso que a senhora está pensando. A doença não se chama venérea porque Vênus um dia pegou uma gonorréia de Marte, com o qual corneava seu marido, Vulcano.

Aliás, Vênus era uma deusinha muito mixuruca de origem desconhecida, associada à jardinagem. Mais tarde é que os romanos decidiram associá-la a Afrodite, a deusa grega do amor.

Como não há setor da história da humanidade que não esconda alguma sacanagem política, Vênus não fugiu à regra.
Júlio César clamava ser descendente de Enéas, o fundador do Lazio, filho de Afrodite. Isso lhe dava origem divina e o direito de ser proclamado deus, bem como os seus descendentes.

Quem sabe um pouco de História sabe também o mal que esta pretensão fez à saúde de Júlio César.
Mas voltamos à doença venérea. Como a gonorréia, a sífilis, o cancroide, o galo, a linfogranulama, são transmissíveis por microorganismos muito sacanas como os espiroquetas, os gonococos, os bacilos e os vírus, através da relação sexual, receberam o nome de doença do amor.
Até Alexander Flemming descobrir a penicilina na primeira metade deste século, milhões e milhões de homens e mulheres morreram de doenças do amor.
Todas essas doenças, entretanto, não passam de frescuras se comparadas com a AIDS, que também se transmite através do ato sexual.
Para que esses vírus todos não entrem dentro do organismo é que se inventou a camisa-de-vénus, ou seja, a camisa do amor para combater a doença do amor.
Hoje em dia é difícil encontrar uma mocinha dadeira que não ande com uma coleção de camisas-de-vênus na bolsa.
As mais sofisticadas chamam as camisas de blusas de Afrodite.
Outra versão apócrifa diz que deuses astronautas trouxeram as camisas do planeta Vênus para o México no século II d.C. e informaram aos astecas: “Um dia virão homens pelo grande rio, montados em animais de quatro patas. Eles virão para fuder o povo de vocês. Para evitar isso, dêem-lhe essas camisas que trouxemos do nosso planeta”.
Com camisa ou sem camisa, a verdade é que os espanhóis fuderam os astecas, cujos descendentes, hoje em dia, continuam sendo fudidos pelos americanos.

VERMILYE JR., Claudius (1929- ) – Todos achavam que ele era um bom pastor episcopal, assim como o Jimmy Swagart, que até pouco tempo atrás aparecia na televisão brasileira e, em voz dublada com acento americano, dizia aos mortos de fome do meu país que se eles parassem de bater punheta e de pensar em sacanagem, iriam para o céu.
Mas, como eu ia dizendo, todos achavam que o Claudius Vermilye era gente fina porque havia fundado uma instituição de caridade para garotos desamparados, chamada “A Fazenda dos Meninos”, perto de Winchester, no Estado do Tennessee.
Gostavam dele principalmente porque não vivia enchendo o saco da vizinhança pedindo donativos.
Um dia, porém, uns sete anos atrás, umas velhinhas, como acontece no cinema, resolveram fazer uma visita ao bom pastor.
Encontraram o bom pastor enrabando um menino de onze anos e sendo enrabado por um de quinze.
Como ele arranjava dinheiro para manter a fazenda? É simples: convidava viados e bocas de fogo riquíssimos para orgias com os garotos. 
Filmava o troço todo e depois revendia as cópias pelo mundo afora. 
Tinha clientes até na Arábia Saudita, o encuflechado!
As velhinhas foram à polícia e a garotada botou a boca no trombone.
Hoje o filho da puta está na cadeia cumprindo uma pena de quarenta e cinco anos.
Na mesma cadeia, aliás, deviam botar o Jimmy Swagart, que pregava a fidelidade ou a total abstenção sexual mas pagava prostitutas para desfilar peladas na frente dele. Troço nojento. 
Não ele pagar as putas pra desfilar, mas o fato de ser ele o pagador: o tartufo que sabia que na prática a teoria é outra. Roubava do povão pra dar pras putas.