Pesquisar este blog

segunda-feira, maio 22, 2017

Manaus: como eu a vi ou sonhei (1)


Por Jefferson Peres

Em meados dos anos 40, do século passado, Manaus era um modesto aglomerado urbano, de pouco mais de 100 mil habitantes, com todas as características de uma típica capital de província. A vida fluía sem pressa e sem sobressaltos, num ritmo ditado pelas condições físicas, econômicas e culturais de uma comunidade pequena, com três décadas de estagnação e obediente a valores tradicionais.

As dimensões da cidade não eram pequenas apenas em termos demográficos, mas também espaciais, alcançando a leste os bairros de Educandos e Cachoerinha, ao norte a Vila Municipal (hoje Adrianópolis), e ao oeste São Raimundo. Mas esses eram subúrbios relativamente distantes. A rigor, a área urbana compreendia o espaço delimitado por esses bairros, nervo e coração da cidade, onde se concentravam o comércio, as repartições públicas, os centros culturais e mundanos, e onde residia maciçamente a classe média. Quando se fala da classe média, compreendendo todos os seus segmentos, fala-se da classe que, pela sua presença em todos os setores de atividade, imprimia à cidade sua marca característica.

Manaus era uma cidade de pequenos-burgueses. Praticamente inexistia uma alta burguesia dominante, uma vez que ainda não havia surgido um empresariado industrial, e os grandes proprietários rurais, empobrecidos e decadentes, não tinham maior expressão social, apenas exercendo relativa influencia política graças ao controle de uns poucos currais eleitorais no interior.

O que se pode poderia chamar de burguesia era constituída por algumas dezenas de comerciantes, agrupados na Associação Comercial, que estavam longe de constituir uma plutocracia opulenta e não se distinguiam da classe média nem sequer pelo estilo de vida que adotavam.

Quando ao proletariado, era um conjunto amorfo, disperso em pequenas fábricas e oficinas ou subempregados em mil e uma atividades, sem consciência de classe e sem organização sindical, desprovido das mínimas condições para se fazer ouvir como grupo reivindicante.

Toda a vida política, administrativa, mundana, intelectual e boêmia era tocada por integrantes dos vários estratos da classe média, constituída basicamente por funcionários públicos, profissionais liberais e comerciantes. Eles eram governadores, secretários do Estado, senadores e deputados; dirigiam os órgãos de imprensa, as entidades literárias e os clubes importantes; enfim, ocupavam todos os postos de expressão social na comunidade.


Cabe aqui o lugar-comum de que a comunidade era uma grande família. Todos se conheciam. Mesmo que as pessoas não pertencessem ao mesmo círculo de relações, sabiam quem era fulano ou beltrano. Quando não sabiam, conheciam-se de vista, de tanto de cruzarem nas ruas. Caminhar da porta de casa até o local de destino, por curta que fosse a distância, podia levar um bom par de horas, tantas as paradas que se faziam para os abraços dos amigos, os papos nas rodas que se formavam e os inevitáveis convites para o cafezinho.

As famílias se visitavam frequentemente. As mulheres, à tarde, sozinhas ou em companhia dos filhos, sem prévio aviso, e os casais à noite, as visitas marcadas com antecipação, para dar tempo de preparar os refrescos, licores e doces caseiros com que se obsequiavam os visitantes. Frequentes também eram os convites para almoçar aos domingos, quando se melhorava o cardápio e servia-se um mini-banquete variado e farto. Se não vinham os pais, vinham os filhos, passar o dia, principalmente em casa de tios e padrinhos.

Entre vizinhos, então, a amizade se tornava íntima, franca, sem cerimônia. Para estes a casa era aberta e podiam entrar sem pedir licença. Não havia nenhuma inibição em mandar buscar, na hora do almoço, café, sal ou açúcar que estivesse faltando. Como é natural, esse convívio se acentuava e se traduzia em forte manifestação de solidariedade nos momentos de festa ou de dor. Em véspera de aniversário ou preparando pratos e ajeitando a noiva.

As doenças eram acompanhadas com visitas diárias, e em caso de morte estabelecia-se uma presença constante, através de revezamento, que começava na hora da agonia e terminava na beira da sepultura. Nas noites mais quentes, à falta de televisão e ar-refrigerado, a confraternização se fazia nas calçadas, onde as cadeiras eram postas em círculos, para um papo animado, que se prolongava até muito tarde. Em torno, as meninas brincavam de roda, e os meninos de manja, em correrias sem risco, nas ruas tão tranquilas que a presença de um carro despertava sempre curiosidade.

Mesmo durante o dia o trânsito era diminuto, pois o automóvel ainda era artigo de luxo, acessível a muito poucos. A frota, que se contava por algumas dezenas, incluindo os chapas brancas e de aluguel, era constituída principalmente de modelos americanos, Fords, Chevrolets, Buicks, Packards, Cadilacs e Studebakers, grandes e caros. Só no final dos anos 40 começaram a ser importados os pequenos Austins e Standards ingleses, ao alcance de parte da classe média.


Os carros de praça ainda não usavam taxímetro; o preço das corridas era acertado previamente. Também não existiam motoristas autônomos. Todos se vinculavam às firmas que exploravam o ramo e eram chamadas de garagens. As duas mais importantes, a Avenida e a Esportiva, ficavam na Eduardo Ribeiro, ao lado da Leitaria Amazonas, hoje desaparecida. Em frente aos escritórios, sentados em cadeiras na calçada, os motoristas aguardavam a clientela.

Os carros estacionavam em diagonal, no meio da pista. Alguns desses motoristas, então, chamados de choferes, eram conhecidos em toda a cidade e tinham a preferência de muitas famílias, às quais se ligavam afetivamente. Meus pais, por exemplo, só contratavam os serviços de João Avelino e do sêo Antonico, homens de meia-idade, sérios, educados, a quem dava um tratamento cordial.

Mas esses profissionais só eram requisitados excepcionalmente, para enterros, batizados, casamentos e piqueniques. No cotidiano andava-se a pé ou de bonde. Este, único coletivo existente, era utilizado por todas as classes sociais e cobria o centro e todos os bairros, à exceção de Educandos e S. Raimundo. Uma das linhas, a de Flores, ultrapassava os limites da cidade. Seu terminal se localizava nas imediações da bifurcação da Recife com a Constantino Nery, à época, muito além do perímetro urbano.

Como já foi lembrado por tantos cronistas, o bonde servia par ao trabalho e para o lazer. Nos dias úteis, à noite, e aos domingos, o dia inteiro, as famílias saíam para passear nas linhas preferidas, a Saudades, até a praça do mesmo nome, e a Circular, que obedecia ao percurso: 7 de Setembro, Carvalho Leal, Belém, Boulevard Amazonas, Silva Ramos, Ferreira Pena, 10 de Julho, Eduardo Ribeiro e praça Oswaldo Cruz, onde ficava a estação central. Nesta, os passageiros aguardavam os bondes em dois abrigos situados no canteiro em que se erguia um pedestal com o busto de Sant’Anna Nery.

Um desses abrigos ficava na calçada fronteira ao edifício da Manaos Tramways, empresa inglesa concessionária de energia elétrica, e o outro, que o povo chamava de Tabuleiro da Baiana, no lado oposto do canteiro. Nesses abrigos funcionavam pequenos bares e cafés.


Na esquina da Rua Tamandaré ficava A Mimosa, um botequim que sucedera a antiga Bolsa Universal. Um pouco adiante, no canteiro em frente ao Banco do Brasil, sombreado por imensas mangueiras, o velho Pavilhão Universal, mais tarde transportado par ao lugar onde se encontra atualmente, na Praça Tenreiro Aranha.

Esse ajustamento de bares e cafés, aliado à condição de terminal do sistema viário, transformou a Oswaldo Cruz num dos principais pontos de encontro da cidade, com movimento que entrava pela madrugada.

Dali partiam todos os bondes. Sem portas nem janelas, inteiramente abertos de ambos os lados, com sanefas de lona corrediças, baixadas apenas como proteção contra o sol e a chuva, eram carros ecológicos, claros, ventilados, próprios para o nosso clima, além de vantagem óbvia de não causarem poluição.

Servidos por um motorneiro, um cobrador e um fiscal, devidamente uniformizados, deslocando-se com rapidez num trânsito que não conhecia congestionamento, esses veículos ofereciam desconforto somente quando superlotados, nas horas de rush. Mas quando semivazios, a viagem era realmente um prazer. Eu quase sempre viajava de pé, no estribo, seguro no balaústre lateral, hábito adquirido em criança, que tinha entre suas brincadeiras prediletas a de morcegar, tapeando o cobrador ou fugindo à sua implacável perseguição.

O bonde foi, assim, um veículo que conseguiu obter a adesão unânime da população, sem distinção de classe, sexo ou idade. Pobres, remediados e ricos; homens e mulheres; velhos, adultos, jovens e crianças, todos os utilizavam. E acredito que não apenas por falta de opção, porque mesmo os poucos privilegiados que possuíam caro particular, vez por outra deixavam seus automóveis na garagem para dar uma volta no Circular ou no Saudade.

No final dos 40, os serviços da Manaos Tramways passaram a se deteriorar. Com a encampação da velha concessionária inglesa, essa deterioração de acelerou e os bondes começaram a ser desativados. 

Foi quando surgiram os primeiros ônibus na cidade. Eram carros improvisados, toscos, com carrocerias de madeira, construídas aqui mesmo, e eram tão raros que chegavam a ser individualizados por nomes próprios, como Pirata da Perna-de-Pau e Periquito da Madame, marchinhas carnavalescas em voga. Depois, surgiu um de melhor acabamento, o Zepelin, em forma de dirigível, que fez enorme sucesso pela sua aparência exótica.


Extinto o serviço de bondes, ainda houve uma tentativa de restauração, no governo Plínio Coelho, em 1955, quando o governador, cumprindo promessa eleitoral, restabeleceu uma linha e guiou ele mesmo o elétrico. Mas foi inútil. Meses depois era retirado de circulação, encerrando definitivamente a era dos bondes em Manaus. 

É fácil entender as circunstâncias que levaram a esse desfecho; mas difícil é aceitar que não se tenha feito nenhum esforço para conservar pelo menos uma linha, por curta que fosse (digamos a da Fábrica de Cerveja), a fim de preservar algo inesperável da memória da cidade. Longe disso, os veículos foram sucateados e os trilhos sepultados em camadas de asfalto. As novas gerações, para conhecê-los, terão de se deslocar para o Rio de Janeiro ou São Francisco da Califórnia. Porque aqui, só em fotografia ou na lembrança dos mais velhos.

Embora a zona urbana chegasse à Vila Municipal e a linha de bonde se estendesse até Flores, a área efetivamente urbanizada, com pavimentação e meio-fio, era diminuta. Apenas as avenidas e ruas principais, como Eduardo Ribeiro, 7 de Setembro, Marechal Deodoro e poucas mais tinham calçamento de paralelepípedos.

A grande maioria era calçada de pedra jacaré muitas outras, mesmo no centro, não possuíam calçamento algum. Até uma importante, como a Getúlio Vargas, só era calçada no pequeno trecho entre a 7 de Setembro e a Lauro Cavalcante. Daí para cima era terra batida e matagal, com algumas casas isoladas. Apenas do lado esquerdo, entre a Henrique Martins e Saldanha Marinho, uma fileira de casas, muitas das quais ainda se encontram. Do lado direito, estâncias e terrenos baldios. Um pouco adiante, na esquina da atual Huascar de Figueiredo, um enorme covão, também utilizado como depósito de lixo.


Igualmente intransitáveis muitas das ruas transversais. A Ramos Ferreira, interrompida logo após a Joaquim Nabuco pelo famoso Buraco do Pinto; a Leonardo Malcher, no cruzamento da Tapajós, por outro imenso buraco, que muitos pedestres não ousavam desafiar; e ate mesmo a Floriano Peixoto, que não passava de um vasto campo de pelada.

A maioria das ruas tinha em comum a arborização, constituída de fícus benjamins, oitizeiros e mangueiras, estas últimas, em alguns trechos, formando túneis ensombrados e acolhedores. Assim era na 7 de Setembro, entre Eduardo Ribeiro e Marechal Deodoro, na Saldanha Marinho, entre Eduardo Ribeiro e Getúlio Vargas, e na 10 de Julho, entre Epaminondas e Eduardo Ribeiro, assim como na Constantino Nery em toda sua extensão. Oitis e benjamins havia em quase todas. Instalação, Lobo D’Almada, Joaquim Sarmento, Dr. Moreira, Floriano Peixoto e Joaquim Nabuco eram ruas pontilhadas de benjamins que, na Eduardo Ribeiro, formavam dosséis verdes e davam ao pedestre privilégio de percorrê-la, da 7 de Setembro até a Praça do Congresso, na sombra, mesmo com sol pino.

As praças eram igualmente arborizadas e dividias em canteiros de grama cuidada, nas quais a prefeitura afixava tabuletas com o apelo ingênuo: Povo: zelai por este jardim, pois é vosso. Menos, talvez, pela eficácia do apelo do que pela presença dos jardineiros e guardas municipais, o certo é que essas praças, impecavelmente limpas e verdes, eram refúgios onde gente de todas as idades espairecia nos mornos e tranquilos fins da tarde.

Mas de todas, nenhuma tinha o charme da minha querida Praça da Saudade, circundada por extensos caramanchões cobertos de buganvílias vermelhas – que o povo chamava de riso do prado – sob os quais se abraçavam casais de namorados em cenas de cartão-postal. A destruição dessas pérgulas foi um dos muitos crimes que se cometeram contra a nossa paisagem urbana.

Além de arborizadas e calmas, as ruas eram, também, seguras, fosse pelo baixo índice de criminalidade, fosse pelo policiamento eficiente. Os chamados crimes contra propriedade eram praticados geralmente sem violência contra as pessoas. E quando isso acontecia, de tão raro, causava abalo na população e rendia manchetes nos jornais durante semanas. Não é verdade que todos dormissem de janelas abertas, porque sempre havia o risco da ação dos ventanistas, assim chamados os assaltantes oportunistas que rondavam à procura de janelas escancaradas por onde penetrassem nas residências.


Contava Manuel Barbuda, meu professor de Direito Penal e um dos bons criminalistas da cidade, que um dos seus clientes, ladrão incorrigível, conhecido no submundo pelo apelido de Capitão Blood, preparava auxiliares, aos quais ministrava aulas de Ventanismo. Ao fim do treinamento, submetia os pupilos a um teste, que consistia em penetrar numa casa, previamente estudada, para retirar, sem despertar a vitima, a carteira porta-cédulas guardada sob o travesseiro. 

Cumprida a missão com êxito, o aluno estava aprovado. Caso contrário, se ainda quisesse ter chance com o chefe, teria de empreender a fuga sem praticar violência, porque isto era contra os princípios de Capitão Blood. Claro que nem todos os marginais chegassem a esse requinte, mas é certo que a grande maioria evitava molestar fisicamente as suas vítimas.

Mas a ação dos ladrões era também muito dificultada pela presença da policia. Durante o dia tínhamos os guardas-civis, fardados de amarelo e armados de cassetetes, espalhados às dúzias pela cidade, que se ocupavam de moleques e desordeiros, porque ladrões mesmo, à luz do sol, nem por exceção. 

À noite, apareciam os guardas-noturnos, de farda cinza, que circulavam em torno dos quarteirões e se controlavam uns aos outros uns trilando espaçadamente seus apitos. Nessas tarefas eram apoiados pela cavalaria da polícia militar que, em duplas, cobria boa parte da cidade, até determinada hora. Mas os guardas-noturnos permaneciam em seus postos até o amanhecer.

Recordo, ainda hoje, o alivio que sentia quando, no regresso à casa, tarde da noite, sozinho na rua completamente deserta, avistava a figura de guarda plantado na esquina. E cério que todos se recordarão, igualmente, da tranquilidade que sentíamos quando o silêncio da madrugada era quebrado pelo som do apito, seguido de outro mais longe e de um terceiro mais longe ainda. Tinha o efeito de acalanto.

Nos subúrbios não havia ruas calçadas, mesmo por exceção. Até as principais, como Boulevard Amazonas, Carvalho Leal e Avenida Constantinópolis (hoje Leopoldo Péres), lembravam cidades do interior, com suas pistas esburacadas, margens tomadas pelo capim, ao longo das quais se alinhavam casas de madeira, e umas poucas de alvenaria, cobertas de telha de zinco.


No Centro, com exceção da massa imponente do Teatro Amazonas, nenhum edifício se destacava na paisagem, dominada pelo casario baixo que raramente ultrapassava dois pavimentos. Ainda não tínhamos ingressado na era do apartamento e a classe media habitava as casas de estilo tradicional, erguidas em sua maioria no início do século e das quais ainda restam muitas, embora estejam desaparecendo com grande rapidez.

Quase todas obedeciam basicamente ao mesmo padrão. Erguidas ao alinhamento das calçadas, paredes a meia, fachada com duas janelas e uma porta, dividiam-se inteiramente em sala de visitas, alcova e sala de jantar, nessa ordem, com um corredor lateral ligando a sala de jantar à porta da rua. Atrás, uma puxada, com extenso corredor enjanelado, ao longo do qual se situavam os quartos, a cozinha, a copa e o banheiro, com uma porta nos fundos que se abrindo para o quintal.

Nunca entendi por que se colocava o quarto principal, ou seja, a alcova, entre duas salas e muito distante do banheiro, obrigando seus ocupantes, principalmente quando doentes, ao uso anti-higiênico e inestético de urinóis e escarradeiras. Igualmente difícil de entender a localização da cozinha, longe da sala de jantar. É verdade que as refeições diárias se faziam na copa; mas, quando se recebia convidados – o que ocorria com frequência – para almoço e jantar, este era servido na sala, exigindo dos empregados longas caminhado entre dois cômodos.

Outra característica para a qual também não encontro explicação, é a falta de jardim como traço comum, mesmo naquelas que possuíam amplo terreno de fundo, permitindo um bom recuo na frente, sem prejuízo do quinta. Somente as casas maiores, chamadas palacetes, possuíam jardins e, embora apresentassem a mesma divisão, distinguiam-se, ainda por uma entrada aberta, com escadaria e balaústre, além de porão habitável e sótão, às vezes um cômodo encarapitado sobre sala de jantar.

Felizmente, a fúria demolitória ainda poupou alguns destes exemplares, como o castelinho art nouveau da Rua São Luiz, em Adrianópolis, construído por Adolfo Lisboa, que bem poderia ser um dos cartões-postais da cidade; ou o sobrado da esquina da 24 de Maio com a Barroso, com seu exótico telhado de ardósia, onde funcionava o consulado português e que hoje abriga uma agência turística; ou, ainda, o esplêndido edifício da extinta firma J.S. Amorim, comercial no térreo e residencial nos altos, hoje agência de banco, em azulejos portugueses cuidadosamente conservados.
Além desses, resta um punhado de outros, ainda não tombados graças à nossa proverbial incúria. E aqui repito o que já disse em outras ocasiões. Parece-me irrelevante discutir se essas construções constituem um subproduto do colonialismo, geradas por uma sociedade economicamente dependente e culturalmente alienada. Importa que têm um valor em si, do ponto de vista estético e como testemunhos de uma época. Como tais, devem ser preservadas.


Manaus: como eu a vi ou sonhei (2)


Por Jefferson Péres

Ponto dos mais importantes da cidade era o cais do porto, o velho “Roadway”, como todos lhe chamávamos. Exibíamos com orgulho aos visitantes no início do século, pois era único no gênero em nosso país. Assentado sobre dezenas de bóias de ferro, que acompanhavam o fluxo das águas, permitia à cidade receber navios de grande calado durante todo o ano.

Ainda continua assim, mas sofreu consideráveis modificações em sua forma original, mas somente a da esquerda era ligada à terra. A outra, chamada de “torre”, ficava ilhada ao largo, sendo a carga transportada por um teleférico com vários guindastes, conhecidos popularmente por “macacos”, porque de longe apresentavam um curioso perfil simiesco.

Lá atracavam os navios estrangeiros da Booth Line e da Lamport, como o “Hillary”, aos quais só tínhamos acesso através de catraias e com autorização especial da Manaos Harbour, concessionária do porto. Era a única porta da cidade, então insulada do resto do país por via terrestre e, até 1945, desprovida de aeroporto.

Pelo “roadway” embarcava e desembarcava a toda o fluxo de cargas e passageiros transportados por navios e hidroaviões. Era lá, portanto, que apresentávamos boas-vindas e despedidas a parentes e amigos, em momentos de intensa emoção. A rapidez atual do transporte aéreo transformou as viagens em acontecimentos corriqueiros, banais.


Naquele tempo eram ocorrências poucos frequentes, que exigiam meses de preparação, porque implicavam sempre numa longa ausência. Os navios de Lloyd que faziam a linha Manaus-Rio de Janeiro eram conhecidos da população e seus nomes soavam familiares a todos nós: Baependi, Almirante Alexandrino, Almirante Jaceguay e tantos outros, que se ligavam às pessoas, associados a viagens inesquecíveis.

Nos dias de partida, uma pequena multidão invadia o barco e era aquela efusão de choros e abraços quando o grumete passava a badalar uma sineta dourada anunciando a hora de partir. Pesarosos, desciam todos para o cais e de lá ficavam acenando até o navio desaparecer.

Quando entre os viajantes se incluíam uma alta autoridade civil ou militar, comparecia a banda da polícia ou do exército. Então, entre marchas, dobrados e apitos do navio, o cais virava uma verdadeira festa.

A movimentação não ocorria apenas nesses dias. Com ou sem navio, aos domingos, o “roadway” virava local de “footing” das famílias que, a partir das 17 horas, se encaminhavam para lá, onde permaneciam até o anoitecer.

Eram centenas de pessoas, principalmente da classe média, jovens e adultos, a desfilar tranquilamente admirando o movimento das embarcações e a evolução dos botos na superfície das águas.


De vez em quando, éramos brindados com um pôr-do-sol apoteótico e ficávamos todos deliciados na contemplação muda do espetáculo.

Esses passeios domingueiros tinham o sentido de uma busca nostálgica da visão perdida do rio. Paradoxalmente, numa região onde “o rio comanda a vida”, como disse Leandro Tocantins, Manaus voltou-lhe as costas.

No centro da cidade, em vez de uma avenida litorânea, temos uma barreira descontínua de edificações que só nos permite divisar o rio a breves espaços e a distância.

A construção do porto e do mercado, assim como as casas da Rua dos Barés emparedaram a área central, impedindo a abertura de uma avenida, que nos daria uma bela visão panorâmica do rio Negro.

Quem sabe, a nossa frustração não explicaria essas visitas dominicais como uma espécie de comunhão ritualística com as águas.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (3)


Por Jefferson Peres

Se a classe média residia, quase toda, no centro, não o fazia, porém, com exclusividade. Uma parte da população pobre também habitava dentro do perímetro central, alojada em cortiços, chamados popularmente de “estâncias”. Nesta acepção, aliás, um regionalismo, porque fora daqui nunca o vi empregado nesse sentido.

Eram encontradas às dezenas em toda a cidade, dentro de amplos terrenos, com as casas de madeira, de dois ou três cômodos, contíguas, às vezes formando ruas internas. Ocupadas por famílias de seis ou mais pessoas vivendo em promiscuidade, com banheiros coletivos e separadas por tabiques que não permitiam a menor privacidade.

Alugadas por proprietários, geralmente portugueses ou espanhóis, não faziam quaisquer melhoramento nas casas, mas davam a seus ocupantes, no entanto, a vantagem de não depender de transporte para trabalhar.

Os homens eram operários de oficinas, serventes ou contínuos de repartições públicas, balconistas de lojas ou, ainda, vendedores ambulantes. As mulheres, quase sempre lavadeiras, atendiam à vasta clientela das redondezas.

Numa época em que não existia uma lavanderia sequer na cidade, nem eram conhecidas as máquinas de lavar, as famílias de classe média dependiam quase inteiramente do serviço dessas mulheres.

Às segundas-feiras, elas ou seus filhos vinham receber a roupa suja, que era amontoada em grandes trouxas, formadas por lençóis amarrados pelas pontas. Aos sábados, era trazida de volta, lavada e passada, cuidadosamente arrumada em tabuleiros.

Outras, ainda, completavam a renda familiar costurando para fora, especialmente roupas de crianças e camisa masculinas.


As crianças, além de ajudar as mães, frequentavam o grupo escolar mais próximo, juntamente com os filhos das famílias de classe mais elevada, com os quais partilhavam as mesmas brincadeiras.

As turmas de rua eram heterogêneas e até a adolescência não havia discriminação social. A meninada toda se confundia numa grande festa democrática.

Apesar de a sociedade ser preconceituosa, a proximidade física e o espírito de vizinhança tornavam quase impossível a separação.

A sociedade adotava padrões de comportamento rigidamente vitorianos. Na mente de todos havia clara noção do bem e do mal, do certo e do errado. Os valores estabelecidos nunca eram desafiados abertamente. Quando violados, as aparências deviam ser mantidas a todo custo, sob pena de sanções sociais, às vezes ostensivas, às vezes dissimuladas, mas sempre eficientes.

A família era do tipo patriarcal, centrada na figura do pai, cuja autoridade não merecia contestação. A mãe era respeitada, ouvida, mas as decisões cabiam ao marido, ao qual manifestava inteira submissão.

Tratava-se de um problema de ordem cultural, para o qual concorria grandemente a dependência econômica da mulher, que geralmente não possuía fonte de renda. Contavam-se nos dedos as mulheres casadas que trabalhavam fora de casa, e muitas que tinham emprego quando solteiras, pediam demissão depois de casadas, por imposição dos maridos.


Para uma senhora da classe média, trabalhar implicava em perda de status, além de atrapalhar as suas funções principais, que consistiam em administrar o lar e cuidar do marido e dos filhos.

Algumas recebiam mesada para suas despesas pessoais; e outras tinham de recorrer aos maridos a cada vez que precisavam atender às necessidades mais corriqueiras, como pegar o bonde ou tomar um sorvete. Sair, só com autorização e acompanhadas, nem que fosse com uma empregada.

E havia aquelas, vítimas de maridos ciumentos, que viviam reclusas e raramente eram vistas, a não ser em companhia dos próprios. Alguns eram tão rigorosamente possessivos e autoritários que até escolhiam os vestidos das mulheres.

A sociedade conjugal era indissolúvel, de direito e de fato. Mesmo quando já não existia vida em comum, o casal continuava coabitando.

Conheci um desses casos levado ao extremo. Um cidadão português, comerciante, foi flagrado pela esposa na cama com a empregada, dentro de casa. Desde esse dia romperam relações, mas não se separaram. Comunicavam-se através dos filhos, durante anos, e morreram sem se falar.

Outros possuíam amantes teúdas e manteúdas, mas continuavam oficialmente com a esposa, única com a qual se apresentavam em público. A separação só ocorria por motivo muito grave, quando a vítima era o marido. 

Então a esposa discretamente saía de cena, quase sempre mudando-se para outra cidade, porque se tornava insuportável, em seu meio, a condição de mulher largada.

E quando o marido ultrajado reconstituía o lar com uma outra, esta, por mais digna que fosse, se abstinha de vida social, para não causar constrangimentos. Porque só eram aceitas sem restrições as esposas legítimas. As uniões de fato eram apenas toleradas.


Ouvi falar vagamente de manifestações de hostilidade aberta, mas nunca as presenciei, nem soube de fatos concretos. Ao que parece, havia, sim, gestos sutis ou mal dissimulados, que deixavam clara a desaprovação.

Por outro lado, a educação conservadora que haviam tido gerava nessas senhoras um forte sentimento de culpa por haver desafiado tabus religiosos e sociais. Daí o modo de vida que se impunham, discreto, recolhido, limitando-se as relações ao convívio de um número reduzido de parentes e amigos, sem dar pretexto à mais leve censura.

O relacionamento no seio da família era respeitoso. Os filhos, mesmo na idade adulta, davam aos pais o tratamento de Senhor e Senhora. Antes de deitar, as crianças, obrigatoriamente, iam pedir a bênção ao pai, à mãe e aos avós. Hábito que continuava a ser cultivado pelos filhos casados, que passavam diariamente na casa dos pais, também para tomar a benção.

A obediência era absoluta. Dificilmente um filho menor ousava a ser malcriado. As repreensões eram ouvidas em silêncio, do contrário o castigo viria na forma de cinturão, chinelo ou palmatória. Ou ainda, com a privação de divertimentos, como a proibição do cinema aos domingos.

Fumar na presença dos pais era impensável. Neste particular, nem os mais liberais, como meu pai, por exemplo, costumavam transigir.


Certa ocasião, um dos meus irmãos mais velhos, com dezesseis ou dezessete anos, por inadvertência ou para testar o velho, puxou o cigarro e o acendeu. Meu pai, sem alterar a voz, fulminou: “Apague isso. Da próxima vez você vai engolir o cigarro”.

A ordem foi obedecida imediatamente, com um pedido de desculpas, e não houve próxima vez, porque meu irmão jamais repetiu a dose. E havia os mais intolerantes, que não admitiam que os filhos fumassem em qualquer idade.

Lembro-me do Augusto Careca, um dos frequentadores do Café do Pina, com mais de trinta anos e uma calvície acentuada, que lhe dava um ar de quarentão. Muito tímido, mesmo nessa idade, tremia em presença do pai autoritário e repressor. Era uma gozação geral quando o velho, um português alto e sisudo, assomava à distância de 100 metros, e o Augusto, mais do que depressa, se livrava do corpo de delito, mal disfarçando o temor e o embaraço de que ficava tomado.

Palavrão era coisa proibida para mulheres e crianças, ou em suas presenças. Era permitido apenas aos homens adultos em rodas masculinas. Os menores do sexo masculino também o empregavam comumente, mas nunca na frente de adultos, sob pena de castigo. As mulheres de qualquer idade não o usavam em circunstância alguma.

Não me lembro de ter ouvido nomes feios ditos por minha mãe, minhas tias, minhas irmãs, minhas primas, amigas e namoradas. Era algo que nivelava as mulheres a prostitutas. Tão indecoroso, que um palavrão, proferido em presença de moças e senhoras, provocava violentas reações de pais, maridos e namorados ofendidos que não vacilavam, muitas vezes, em agredir fisicamente o ofensor.

E não era raro encontrar homens que, mesmo longe de mulheres, jamais usavam palavras chulas.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (4)


Por Jefferson Peres

Os filhos menores tinham hora marcada para chegar em casa, geralmente dez ou onze horas da noite. Dificilmente a hora limite era ultrapassada, pois se o fizessem teriam de bater na porta, aberta por um rosto severo que exigia do transgressor plenas e cabais explicações para o atraso.

Isto quanto aos filhos homens, porque as moças não podiam sequer sonhar em sair à noite desacompanhas. Sobre elas o controle exercido era dos mais rigorosos. Só namoravam na sala ou no portão, à vista dos mais velhos. Passeios, festas, cinemas, apenas em companhia de alguém, nem que fosse de um irmão mais novo. Sozinha, nunca, porque ficava falada. E moça falada tinha reduzida a quase a zero suas chances de casamento.

A virgindade era um tabu dos mais respeitados. Quando ocorria um desvirginamento, mobilizavam-se as famílias do autor e da vítima para que o caso fosse abafado e o casamento realizado sem demora. Ainda assim, se a noiva casava grávida, o nascimento da criança, sete ou oito meses depois do casamento, provocava comentários maliciosos e desculpas da família de que se tratava de um parto prematuro.

Se uma garota ganhava fama de não ser mais moça, e aparecia um corajoso capaz de aceitá-la, o infeliz era ridicularizado e chamado depreciativamente de pedreiro. Porque, homem que se prezasse, não casaria jamais com mulher desvirginada. E, se casasse enganado, podia reagir de forma radical. Conheci mais de um caso de marido que foi devolver a mulher aos pais, no dia seguinte ao casamento, ao constatar que havia sido ludibriado.

Compreende-se, assim, a preocupação das moças com a própria reputação, e o cuidado especial dos pais em relação às filhas. Principalmente, se levarmos em conta que o casamento era o grande objetivo de toda mulher, educada desde pequena para isso.

A instrução formal se limitava ao primário, ao ginasial e ao pedagógico. As poucas que chegavam a fazer curso superior, geralmente Direito, visavam obter o título como ornamento, jamais com propósito de exercer a profissão.

O importante era que a moça estivesse apta a dirigir o lar e frequentar os salões. Para tanto, era necessário adquirir boas maneiras, saber tocar um instrumento, de preferência piano, e conhecer prendas domésticas, como arte culinária, flores e corte de costura.


Feito isso, a garota se concentrava, com total apoio da sua mãe, na busca de um bom partido, que devia ser médico, engenheiro, advogado ou oficial de uma das três armas. Se fosse também bonito e de boa família, representava, então a encarnação do próprio príncipe encantado com quem sonhavam todas as moças casadoiras. Era a total e plena realização do seu ideal de vida.

Não é difícil entender, portanto, por que o casamento se tornava, para toda jovem, uma obsessão, e por que o medo e a amargura, à medida que o tempo passava. Ao atingir os 20 anos sem casar, diziam que ela havia dado o primeiro tiro da macaca; aos 25 anos, dava o segundo tiro e sua ansiedade aumentava; aos 30 anos, ao dar o terceiro tiro, entrava em pânico, porque, a partir daí, encontrar o marido, só por milagre.

Com o fim da juventude, a moça estava condenada ao humilhante caritó e aos poucos ia aceitando o papel de titia, compensando sua enorme frustração com um total desvelo pelos sobrinhos.

Claro que as solteironas existem ainda hoje, mas não tem o caráter patético que assumiam no passado, especialmente quando se quedavam desamparadas e solitárias, sem nada a que se pudessem apegar.

Entre tantas que conheci, lembro-me em particular das irmãs Coelho. Eram quatro velhinhas, amigas de minhas tias, frequentadoras habituais da casa da minha avó materna. Filhas de um comerciante português, dono de uma grande casa de ferragens, que abriu falência e morreu deixando apenas dívidas.

Educadas à antiga, ricas de prendas domésticas, mas inteiramente despreparadas para a vida, nunca perderam a esperança de casar. Paupérrimas, vivendo de pensão deixada por um irmão, sempre arranjavam meios de se vestir decentemente, pintadas e arrumadas, procurando disfarçar a idade que nunca revelavam.

Era comovente ouvi-las falar com mal dissimulada satisfação sobre casamentos fracassados, acrescentando, insinceramente, pela milésima vez, que davam graças a Deus por não haver casado. Mas se traíam, ao voltar dos passeios, que frequentemente faziam, falando de imaginários flertes com rapazes muitos mais jovens que lhes teriam dirigido olhares de interesse.

Foram morrendo uma a uma, virgens e sempre apegadas a essa ilusão. A última, chamada Hilda, morreu na Fundação Dr. Thomas e, tenho certeza de que, mesmo na hora da agonia, deve ter acreditado que no último instante surgiria o noivo pelo qual esperou a vida inteira.


Noivado era compromisso muito sério, quase irretratável. Tanto que havia até um ritual. Marcado com antecedência, logo a notícia se espalhava na cidade: “fulana vai ser pedida no X”.

Havia um “frisson” entre as jovens casadoiras e as respectivas mães, num misto de admiração e inveja, tanto maiores quando mais importantes e cobiçados fossem os nubentes. No dia designado a vizinhança ficava na expectativa do acontecimento.

Casa iluminada, janelas abertas, os pais da moça, solene, recebiam o emissário, que podia ser o pai do moço ou uma pessoa ilustre da sociedade, sem a presença dos dois maiores interessados. Após uma breve troca de amenidades, o visitante revelava o motivo da visita e o pai da jovem, com fingida surpresa, dava o seu consentimento.

Em seguida, servia-se uma taça de champanhe. Estava selado o compromisso, que não se rompia com facilidade. Quando isso acontecia, alcançava dimensões de escândalo.

A ex-noiva sentia-se profundamente humilhada, algumas tinham crises de choro e havia as que eram mandadas para longas viagens de cura e esquecimento.

Quanto ao rapaz, ficava malvisto como se fora um vilão, por haver “empatado” a moça tanto tempo. Os noivados podiam ser longos, estendendo-se por muitos anos. Mas o recordista, sem dúvida, foi Adriano Jorge, noivo durante 25 anos de D. Laura Tapajós, com quem afinal casou já na maturidade.

E havia até noivos eternos, que não se casavam nunca. Lembro de Mário Castro, irmão do médico Flávio de Castro. Durou mais de 10 anos seu noivado com D. Brunhilde Coutinho, de apelido Bubu. Dizem que, por algum tempo, namorou simultaneamente outra moça chamada Lindalva Bastos. Quando Lindalva morreu, ele continuou noivo de D. Bubu. Fui testemunha ocular, já que ela morava quase em frente à minha casa, na Av. Getúlio Vargas.


Diariamente eu o via chegar, por volta de 7 horas da noite. Já um homem de meia-idade, baixo, atarracado, sempre de paletó e guarda-chuva, sentava-se em cadeira de balanço na calçada e ficava conversando com a noiva até muito tarde. A rotina não se interrompeu mesmo quando D. Bubu se prostrou, vítima de doença incurável.

Apenas Mário trocou a calçada pelo quarto da enferma, com a qual certamente os diálogos mal podiam disfarçar a tristeza e a angústia ante a proximidade do fim. Mas não houve casamento “in extremis”. Pouco depois da morte de D. Bubu, ele se mudou de vez para o Rio de Janeiro, onde morreria solteiro.

Houve, porém um caso “sui generis” de casamento sem noivado e, a rigor, até mesmo sem namoro. Aconteceu com a minha estimadíssima Eldah Bitton, admirável figura que tinha o dom de render, pela simpatia e bom humor, todos que dela se aproximavam.

Eldah atravessara toda a sua juventude cuidando mais de estudos, especialmente de canto lírico, do que de namorados. Já balzaquiana (palavra tão antiga!), permanecia solteira e sem nenhuma preocupação com casamento, que não mais figurava em seu projeto de vida.

Mas, entre suas muitas amizades masculinas, incluía-se o seu tio Sabas Teles, meio-irmão de sua mãe. Médico radiologista de nomeada em Manaus, Sabas era, no entanto, um esquisitão, de poucas palavras e avesso a reuniões sociais. Vivia para o estudo e o trabalho, restringindo o lazer à música e, ocasionalmente, ao cinema.

Desde o seu regresso a Manaus, formado em medicina, tinha por hábito visitar a irmã e a sobrinha diariamente, para espantar um pouco a solidão, já que morava em casa de sua mãe e não frequentava bares, clubes ou recepções.

À semelhança de Mário Castro e, por coincidência, a poucos passos de distância, no mesmo quarteirão da Av. Getúlio Vargas, ele assinava o ponto todas as noites. Ocorre que Mário ia oficialmente para namorar, Sabas nem isso, pois jamais manifestou a Eldah e a mãe, interrompido por algumas raras intervenções de Sabas, que passava a maior parte do tempo de olhos nas estrelas, alheio à conversa das duas.


Um dia, trinta anos após o início dessas visitas, sem aviso prévio, Eldah recebeu a visita de um escrevente do Cartório de Registro Civil, com os papéis, para assinar, do seu casamento com Sabas. Atônita, sem acreditar no que ouvia, ela telefonou para o tio, que confirmou tudo com a maior tranquilidade, sem demonstrar nenhuma emoção. A cerimônia teve lugar dias depois, perante as testemunhas de lei, mas nenhum convidado. Foi assim que ser realizou esse estranho casamento, sem prévia declaração de amor.

A família e a sociedade em geral eram muito mais liberais com os varões. Salvo a limitação da hora da chegada, imposta aos menores, havia ampla liberdade de locomoção, de escolha de amigos e de ambiente.

Desnecessários maiores cuidados, numa época em que não existia o problema de tóxicos. De maconha, então chamada dirijo, só se ouvia falar raramente, nas páginas policiais, envolvendo pessoas das camadas mais pobres; cocaína, só conhecíamos de novelas policiais; bolinhas também não eram consumidas; enfim, entorpecentes, de qualquer espécie, eram inteiramente estranhos aos hábitos da nossa juventude, não havendo, assim, por que os pais se preocuparem com as andanças dos filhos.


A única preocupação real era quanto ao homossexualismo. Não tanto o feminino, pois, tanto quanto eu sabia, o lesbianismo era raríssimo. O problema dizia respeito aos homens. Estes podiam ser tudo, bêbados, vagabundos ou arruaceiros, mas homossexuais, nunca. Era o que pior podia acontecer a uma família.

Quando um garoto ou rapaz se revelava como tal, os pais e irmãos morriam de vergonha e desgosto. Alguns reagiam violentamente. Lembro-me de um, meu contemporâneo no Colégio D. Bosco, assumido, como hoje se diz, que levava surras homéricas do pai, um militar que se julgava desonrado pelo filho. Este acabou expulso de casa, indo abrigar-se na casa da avó.

Mas a hostilidade existia na escola, na rua, em toda parte. Aqueles de trejeitos mais acentuados eram perseguidos com assobios e piadas obscenas. E quando ousavam replicar, os provocadores reagiam com sonoras vaias e, não raro, com agressões físicas.

Os enrustidos, quando descobertos, eram sumariamente excluídos das turmas. Lembro-me, por exemplo, dos meus tempos de molecagem na rua Saldanha Marinho, hoje Huáscar de Figueiredo. Fazia parte do grupo um garoto chamado Celino, dos mais inteligentes e agradáveis.

Um dia, não sei como, correu a notícia de que o Celino era homossexual. Recebida com estupor e incredulidade, a nova levou algum tempo para ser assimilada. Quando não houve mais dúvida, ficou decidido que ele não mais frequentaria a roda.

Felizmente, a humilhação não se consumou. Nosso ex-colega, por iniciativa própria, não mais nos procurou, e pouco tempo depois tomava o rumo do Rio de Janeiro. Muitos outros fizeram o mesmo; alguns, talvez, para realizar o sonho da metrópole; a maioria, provavelmente, como ele, para fugir a uma atmosfera irrespirável.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (5)


Por Jefferson Peres

O conservadorismo da sociedade se revelava, também, na maneira de trajar, que tinha suas normas até dentro de casa. Um vizinho nosso, o velho Nogueira, respeitável tabelião, vestia paletó para receber as visitas. Outros, mais requintados, usavam robes de chambre.

Mesmo na ausência de estranhos, não se andava à vontade. Meu pai jamais sentou à mesa sem camisa, nem permitiu que os filhos o fizessem. E ele não era uma exceção; apenas seguia a norma geral. Da mesma forma, um homem adulto não aparecia à janela de peito nu. Para dormir, o traje usual, para os homens, era pijama, de calças e mangas compridas e, para as mulheres, camisão, até os calcanhares.

Fora de casa, a roupa dos homens adultos era uniformizada em paletó e gravata. Nas festas, na missa, em batizados, casamentos ou aniversários, no trabalho ou no cinema, sempre traje passeio completo.

Apenas em piqueniques e jogos esportivos muitos se permitiam mangas de camisa, mas sempre de calças compridas, por que um homem de respeito não mostrava as pernas, a não ser em roupa de banho.

As mulheres, moças ou senhoras, sempre de vestido, uma peça hoje em desuso, a combinação, e às vezes uma anágua, para que a transparência do vestido, contra a luz, não deixasse entrever a sombra da calcinha e do sutiã.

Calça comprida não era para mulheres. Quem se atrevia a usá-la era chamada de mulher-macho e ficava sob suspeita.

As senhoras casadas, mesmo no diário, usavam também meias de seda, presas por ligas no meio das coxas.

Um acessório indispensável, também, era o leque, que algumas sabiam abanar com graça e elegância. Aliás, usado igualmente por alguns homens. Lembro particularmente de dois, Adriano Queiroz e Moacir Rosas, que não se constrangiam nem um pouco em puxá-lo do bolso interno do paletó numa sala de cinema lotada.


O chapéu, chile ou de massa, ainda fazia parte da indumentária de alguns, embora já estivessem algo fora de moda.

Quanto aos tecidos, o brim predominava entre os pobres. Os mais abonados usavam casimira inglesa ou linho irlandês, de preferência acetinado, em ternos, ou fatos, como se dizia, feitos nas melhores alfaiatarias, como 100.000 Paletós, Demasi e Ramalho.

Durante algum tempo fez muito sucesso um tecido chamado tubarão, brilhante, flexível e que não amassava, novidade numa época em que ainda não haviam inventado o poliéster.

Nos balneários, os homens usavam calções não muito curtos, e as mulheres, maiôs inteiros. Só depois foi lançado o maiô de duas peças, que causou sensação, embora parecesse austero se comparando com o biquíni, que viria em seguida, e com as tangas de hoje.

Mas nem mesmo o maiô inteiro era admitido em piqueniques de colégios de freiras, nos quais as alunas eram obrigadas a mergulhar no igarapé de vestido. Também obrigatório, para as internas, no próprio banho diário de chuveiro.

Essa sociedade quase puritana demonstrava um temor reverencial pelos mortos e um respeitoso culto por sua memória. As crianças e muitos adultos tinham verdadeiro pavor de almas do outro mundo.

Desde muito pequenos ouvíamos falar de casos arrepiantes de visagens nas quais acreditávamos sem vacilações. Daí por que muitos tinham medo de dormir sozinhos num quarto escuro e outros se recusavam até a atravessar o corredor, à noite, para tomar um copo d’água.


Havia até mesmo casas consideradas mal-assombradas, onde à noite vagavam espíritos e se ouviam choros e ruídos de móveis arrastados. A tal ponto se dava crédito a essas histórias que as casas ficavam marcadas e seus proprietários tinham dificuldade em alugá-las.

Uma dessas casas ainda existe, na Rua Saldanha Marinho, com um portão encimado por dois bonitos leões de louça, e na qual seguramente seus atuais moradores dormem sem nenhuma perturbação.

Mas, além do medo, os mortos legavam aos vivos algo levado muito a sério, que era o luto. Como já mencionei antes, ocorrida a morte, as portas e janelas da casa eram cerradas e os parentes lá se fechavam, até a missa do 7º dia, saindo apenas para cuidar do indispensável.

A casa permanecia em silêncio e nem sequer o rádio era ligado. A partir da missa, os parentes mais próximos do morto, viúvos, filhos e pais, guardavam luto fechado por seis meses, durante os quais os adultos se vestiam rigorosamente de preto e se abstinham de comparecer a cinemas e a qualquer reunião festiva.

Após esse período, durante outros seis meses se usava luto aliviado, com as mulheres de vestido preto e branco, e os homens de braçadeira negra ou fumo na lapela ou no bolso da camisa. Nesse segundo semestre permitia-se a ida ao cinema, mas não a festas. Quem o fizesse, era reprovado como pessoa insensível e ganhava mesmo a inimizade de outros parentes.

Conheci um caso, pelo menos, de pessoa de grande projeção social, que, por ocasião da morte do pai, rompeu relações com o primo, ao saber que o mesmo não apenas não colocou luto pela morte do tio, como ainda ousou comparecer à missa de 7° dia usando uma reluzente gravata vermelha. Considerou-se afrontado, porque naquela época nem mesmo um estranho se permitia participar de um serviço fúnebre usando roupa ou acessório de cor berrante. Em se tratando de um primo, então, era simplesmente imperdoável.


A religião era um valor levado extremamente a sério. A população católica não o era apenas formalmente, por hábito ou tradição. Em sua grande maioria eram praticantes que frequentavam a igreja não para cumprir um dever social, mas por força de uma crença nas coisas sagradas que beirava a superstição.

Em quase todas as casas, nas alcovas, havia oratórios, cheios de imagens de santos, com genuflexórios que não tinham caráter meramente ornamental, pois eram usados diariamente para as orações noturnas e matinais.

A educação religiosa começava desde cedo, com as crianças aprendendo o Padre-Nosso (ainda não se dizia Pai-Nosso), a Ave-Maria e a Salve Rainha, que nunca deixavam de rezar antes de dormir. Tão logo aprendiam a ler, eram encaminhadas às aulas de catecismo e, após a 1ª comunhão, passavam a se confessar e comungar regularmente.

A frequência à missa, então, era obrigatória aos domingos, às vezes em horários bastantes impróprios. Lembro-me como ia dormir aborrecido nas noites de sábado, por saber que no dia seguinte seria despertado às 4:30 da madrugada, para estar na missa das 5 da Beneficente Portuguesa.

As procissões eram acontecimentos que levavam gigantescas multidões às ruas, principalmente nos grandes feriados religiosos como os do Senhor Morto, Corpus Christi e N. S. da Conceição.

Compareciam as mais altas autoridades, a começar pelo Governador, além de pessoa de grande expressão social, muitos integrantes de irmandades, os homens com os trajes vermelhos de Irmão do Santíssimo, e as mulheres com as fitas azuis das Filhas de Maria.

Um número considerável de populares, e até de pessoas conhecidas, compareciam para pagar promessas, vestida de Cristo, com cruzes aos ombros, andando de joelhos ou com pedras na cabeça. Como ainda hoje acontece, mas seguramente em quantidade muito menor.


Naquele tempo a massa era tão grande que a frente do cortejo já dobrava a Joaquim Nabuco, no Canto do Quintela, e ainda havia gente saindo da Catedral. Era realmente um impressionante movimento de massa.

Mas o fervor religioso do povo se manifestava mesmo na Semana Santa. A cidade parava e só se mantinham as atividades essenciais. Muitos não trabalhavam nem em casa, atemorizados pelas histórias que se contavam de desgraças acontecidas aos que cometiam esse sacrilégio.

A abstinência de carne era total, as rádios só tocavam músicas sacras ou clássicas e os cinemas só passavam o tradicional “Vida, Paixão e Morte do Nosso Senhor Jesus Cristo”, que levava boa parte da plateia às lágrimas. Era tão arraigado o respeito a essa data, que a maioria das prostitutas se recusava a receber a clientela.

O ardor da minoria protestante não era menos intenso, o que explica a miniguerra religiosa que então aconteceu.

Em 1950, chegou a Manaus um pastor batista chamado Martins, ardoroso orador sacro, que fazia pregações candentes nos templos e através de uma emissora de rádio. Nessas prédicas não se limitava a ensinar a sua doutrina, mas enveredava também por ataques à Igreja Católica, correndo a informação, não sei se verdadeira, de que se excedia, investindo contra alguns dos mais sagrados dogmas e sacramentos católicos, como a eucaristia e a santidade da Virgem Maria. O assunto era objeto de comentários irritados em toda a cidade. Irritação agravada pela circunstância de o pastor ser ex-padre convertido.


Um dia, os batistas cometeram a imprudência de convocar uma concentração para a Praça da Saudade, à noite, na qual falaria o controvertido pastor. Na hora designada, alguns padres salesianos reuniram um grupo numeroso de alunos no pátio do colégio, os quais, depois de ouvirem exaltados discursos, proferidos por sacerdotes e leigos, marcharam para a concentração armados de pedras e porretes.

Lá, dissolveram a manifestação violentamente, provocando ferimentos em varias pessoas, inclusive no pastor e político Antunes de Oliveira, com uma pedrada na cabeça. Dizem que Antunes guardou até o fim da vida a pedra que o atingiu. A confusão só terminou com a chegada da polícia. Felizmente, a guerra também terminou ali, sem deixar sequelas.

No dia seguinte, dirigentes evangélicos publicaram várias notas de protesto, uma das quais assinada, entre outros, pelo meu prezado João Chrysóstomo de Oliveira, então presbítero. Os católicos não responderam, o pivô dos acontecimentos abandonou a cidade e o inquérito policial instaurado foi arquivado meses depois na Justiça.

A partir daí houve como que um acordo tácito de silêncio em torno dos fatos, até que caíssem no esquecimento. Ainda estávamos longe do ecumenismo de João XXIII, as relações entre católicos e protestantes não eram propriamente cordiais, mas não se manifestavam em forma de hostilidade aberta.

Como os amazonenses não chegam a ser bem irlandeses, não seria mesmo de esperar que Manaus se transformasse numa Belfast tropical.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (6)


Por Jefferson Peres

Grande parte da minha infância foi marcada pela Segunda Guerra Mundial. Embora muito criança, fui contagiado pelo entusiasmo do meu pai, ardoroso partidário da causa aliada, que se mantinha informadíssimo através da leitura de revistas e jornais, e da escuta diária da BBC. Ainda me lembro de sua expressão fúnebre quando a França se rendeu e as tropas alemãs ocuparam Paris. Como não esqueço a sua vibração, certo dia, quando entrou em casa com o jornal em umas das mãos, gritando a manchete: A queda de Bardia foi sensacional! Tratava-se de uma pequena cidade da Líbia, tomada pelas tropas de Montgomery em perseguição ao Afrika Korps de Rommel.

Fiquei deliciado quando o velho me presenteou um grande mapa colorido da Europa, que preguei com tachas na parede da sala de visitas, através do qual acompanhava atentamente a marcha das operações. A menção a uma cidade ou a um acidente geográfico me levava imediatamente ao mapa, para conferir, e ficava muito desapontado quando não fazia a localização.

Criança ainda, eu acompanhava cuidadosamente as operações de guerra em todas as frentes: no Pacífico, no norte da África, na Itália, na França e na Rússia. Sofri com a derrota dos Aliados, na fase inicial, e vibrei com seus grandes triunfos a partir de 1943. De manhã cedo eu ficava ansioso à espera do jornaleiro com um matutino, e à tarde aguardava a chegada de meu pai com um vespertino. E então me lançava, sôfrego, à leitura do noticiário telegráfico da Reuters, da Associated Press e do International News Service.

Como disse, qualquer referência à ocupação de uma cidade, à travessia de um rio ou ao desembarque numa ilha, me fazia correr ao mapa para conferir. Frequentemente os jornais publicavam esboços das frentes de batalha, nos quais eram assinalados os avanços das tropas aliadas, e que eu recortava cuidadosamente. Às seis horas da tarde, junto com meu pai, sintonizava a BBC, em transmissões cheias de interferências, que, para minha irritação, às vezes se tornavam quase inaudíveis. Mas, no outro dia, lá estava eu a postos, para ouvir, emocionado, o locutor anunciar com sua voz bem impostada: “Estação de Londres da BBC”.

Leitura obrigatória era a de Seleções de Reader’s Digest que meu pai comprava religiosamente, todos os meses, mesmo com grande atraso. Eu me deliciava com as suas descrições de batalhas, suas histórias de espionagem e seus relatos de operações de guerrilhas e de comandos nas zonas ocupadas pelos alemães. Creio que todo esse meu interesse pelo assunto – inusitado num garoto ainda impúbere – se devia em grande parte à minha paixão pela geografia.


Era com enorme prazer, também, que recebia a revista “Em Guarda”, distribuída pelo consulado americano, fartamente ilustrada e com noticiário variado sobre a guerra. Assim como lia com avidez as revistas em quadrinhos, com histórias em que os heróis enfrentavam os sinistros espiões nazistas e japoneses.

Mas, emocionante mesmo era ouvir a sirene de O Jornal anunciando alguma notícia importante de última hora. Era o nosso Repórter Esso. Tão logo soava, uma pequena multidão se aglomerava para ler a notícia afixada a giz num quadro negro em frente à redação. Foi assim que tomamos conhecimento de todos os grandes lances. Pearl Harbour, El- Alamein, Stalingrado, o Desembarque Americano no Norte da África, o Dia D, o Fuzilamento de Mussolini, o Suicídio de Hitler, a Rendição da Alemanha, Hiroshima e, finalmente, a Capitulação Japonesa.

Foram dias de expectativa dramática e, sem nenhuma retórica, podemos dizer que tínhamos consciência – no meu caso, intuitivamente – de que eram momentos decisivos para os destinos da humanidade. Por isso, até hoje sou fascinado por tudo que se relaciona com a Segunda Guerra.

Em 1942, o conflito, que até então parecera tão distante, finalmente chegou até nós. O alargamento da guerra submarina alemã no Atlântico e a fulminante ofensiva japonesa no Sudeste Asiático provocaram ondas de choque que vieram agitar as águas remansosas em que nos embalávamos.

Um dia fomos abalados pela notícia do afundamento do Baependi, um navio que há muitos anos fazia a cabotagem Rio-Manaus. Entre os mortos, um punhado de amazonenses bastante conhecidos na comunidade. Divulgada a lista, logo surgiram ajuntamentos espontâneos que rapidamente se transformaram em comícios. Oradores exaltados verberavam não apenas a ação dos submarinos nazistas, mas também os próprios alemães e, por extensão, os italianos e japoneses. Daí para os atos de violência foi um passo. Em poucas horas a cidade foi tomada por um bando de desordeiros que se entregou livremente à depredação a ao saque, como há muitos anos não se via.

Como ainda não havia japoneses, concentrados que estavam no baixo Amazonas, a fúria popular se abateu sobre os bens de italianos, alemães e pessoas de qualquer nacionalidade conhecidas como germanófilas. O primeiro alvo foi o consulado da Alemanha situado na Joaquim Nabuco, nos altos do prédio de dois pavimentos, que ainda hoje existe, próximo à Avenida 7 de Setembro, onde vi muitas vezes desfraldas a bandeira alemã com a suástica.

Fui testemunha ocular do saque ao consulado, que é das mais remotas lembranças da minha infância. Morava bem perto, em casa dos meus avós maternos, a três quarteirões de distância, na atual Rua Huascar de Figueiredo. Ao tomar conhecimento do que acontecia, corri para o local, em companhia de outros garotos, a tempo de ver homens e mulheres apressados conduzindo baixelas de prata, bacias, panelas, cadeiras e outros objetos, enquanto os móveis pesados, como cristaleiras e guarda-roupas, atirados pelas janelas, vinham estatelar-se na calçada. Quando finalmente chegou uma patrulha do exército, quase nada restava para ser salvo.


Na mesma hora, outro bando saqueava o escritório de representação da Bayer, na Quintino Bocaiúva, entre as ruas Marechal Deodoro e Guilherme Moreira. O depósito foi inteiramente pilhado, com os saqueadores levando medicamentos em tal quantidade que supriram farmácias domésticas por meses ou anos. Afinal, o que era Bayer era bom, como dizia o comercial. Quanto ao representante, que era o próprio cônsul alemão, chamado Fluger, refugiou-se no porão, sendo removido mais tarde para a Penitenciária, à guisa de proteção.

Um outro grupo tentou invadir a Semper, Fáber, uma firma de aviamento situada na Marechal  Deodoro, ao lado de J.G. Araújo. Foram enfrentados por dois alemães, Fáber e Kremer, que saíram levemente feridos do entrevero, mas conseguiram contê-los até a chegada dos soldados do exército.

Frustrados nessa tentativa, dirigiram-se para a firma Bhering, de exportação, instalada um pouco adiante, num edifício de três pavimentos, com frentes para a Marechal Deodoro e a Eduardo Ribeiro, ao lado do antigo telégrafo. Depois de arrasar os escritórios, subiram para o último pavimento, onde residia o gerente, o alemão Lindenberg, destruindo tudo que puderam. Praticamente nada sobrou. Os donos da casa, refugiados no quarto do casal, foram salvos pelo exército no último minuto, quando a porta do cômodo já tinha sido arrombada.

Ao mesmo tempo, ocorria a tentativa de invasão da Joalheria Pelosi, a maior da cidade, localizada na 7 de Setembro, ao lado da loja 4.400, atual Marisa; foi repelida por uma tropa do exército, que feriu alguns manifestantes a coronhadas. Mas a residência do proprietário, Giulio Roberti, não escapou. Foi literalmente pilhada e os móveis incendiados no meio da rua.

Roberti, em companhia do seu irmão Giusepe Vulcani, vice cônsul da Itália, buscou refúgio no convento dos frades capuchinhos, na Praça de S. Sebastião, de onde saíram para a casa do professor Agnello Bittencourt, na qual ficaram homiziados por três dias. Ironicamente –segundo nos conta o professor Agnello –, Giulio Roberti fora vice-cônsul do seu país, posto ao qual resignara por discordar do regime fascista.

Um pouco adiante a turba conseguiu invadir a casa do alemão Schultz, genro do cônsul, situada na Praça da Saudade, onde ainda se encontra, quase na esquina da Avenida Epaminondas. A poucos passos do quartel do 27º. BC, os soldados ainda conseguiram salvar alguma coisa, mas não um belo piano de meia cauda, completamente destruído.


Também não foram poupados, como já disse, os simpatizantes do Eixo, independentemente da nacionalidade. Eram chamados, com muita propriedade, de germanófilos, porque sua posição decorria menos de uma adesão ideológica ao nazismo do que uma exaltada admiração pela Alemanha. Uma atitude emocional, como a de um torcedor de clube. Pelo menos, foi a impressão que me ficou de tantas discussões que presenciei. Inclusive em família, entre meu pai, intransigente anglófilo, e um de meus tios, seu concunhado, germanófilo doente, o primeiro exaltando as qualidades britânicas e o segundo louvando as virtudes do povo alemão. Antes destes acontecimentos, ninguém fazia segredo de suas convicções, de sorte que os partidários de um e de outro lado eram notórios, o que facilitou a caça às bruxas.

Uma das primeiras vítimas foi o advogado Levon Rumian, de origem armênia e perfeitamente integrado à sociedade local, que teve inteiramente saqueada a sua residência, nos altos de um prédio de dois pavimentos, na Praça Heliodoro Balbi, quase esquina da Rua Dr. Moreira.

Nesta mesma rua, no ferro de engomar que a separa da Floriano Peixoto, quebraram o botequim de um espanhol, que escapou do linchamento refugiando-se no telhado, de onde atirava pedaços de telhas sobre os seus perseguidores. Outro espanhol, o velho Gil, já falecido, foi salvo pela intervenção providencial de uma patrulha militar. Já o português Alhadas, que tinha uma loja de redes, perto do Mercado Central, teve seu estabelecimento totalmente arrasado.

Dentre os brasileiros, a maior vítima foi o jornalista Aristóphano Antony, diretor e proprietário do jornal A Tarde, que por pouco não teve sua redação invadida e empastelada. Em compensação, foi ele mesmo preso e recolhido ao quartel da Polícia Militar, de onde foi solto seis meses depois, sem julgamento, após um inquérito que apurou a improcedência da denúncia que o levara à prisão. Afinal, estávamos em pleno Estado Novo.


Vale registrar um fato, pouco conhecido, mas importante, porque bastante esclarecedor. Na véspera do quebra-quebra, D. Márcia Coelho, proprietária da Foto Alemã, um dos principais estúdios da cidade, foi procurada por um professor do Ginásio, seu amigo, que a alertou para o que iria acontecer. Imediatamente, antes mesmo de proceder legalmente à mudança da razão comercial, mandou trocar o nome, pintado na placa da fachada, para Foto Artístico. Graças a essa providência, não foi molestada no dia seguinte.

Esse furacão durou apenas algumas horas. Antes de findar o dia e a ordem fora restabelecida e nunca mais as violências se repetiram. Mas italianos, alemães e germanófilos continuaram a sofrer por algum tempo a hostilidade de uma parte da população. Manifestava-se na forma do insulto aberto, da negativa de cumprimento, ou de denúncias anônimas e nunca provadas, sobre atividades de quinta-colunismo com mensagens enviadas através de transmissores clandestinos.

Contou-me o meu amigo Stefano Gennaro Novellino que seu pai, italiano imigrado há alguns anos, com excelente relacionamento com brasileiros, foi procurado por um respeitável cidadão que, algo envergonhado, comunicou-lhe sua decisão de fingir não conhecê-lo até o fim da guerra. Ao que o bom italiano replicou, tranquilamente, que lhe agradeceria se assim o fizesse pelo resto da vida.

Outros trataram de se defender do jeito que fosse possível, como o proprietário da Vila Itália, conjunto de casas situado na rua 24 de Maio, quase esquina com a Costa Azevedo, que logo mudou o nome para Vila Baependi, afixado na forma de um letreiro de ferro ainda existente.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (7)


Por Jefferson Peres

Depois, os torpedeamentos, ao virarem rotina, deixaram causar emoção. Mas passaram a incomodar a todos, na medida em que a interrupção do suprimento regular privava a população, com frequência, de gêneros essenciais. Toda vez que era afundado um navio com grande carregamento de determinado produto, o mesmo escasseava ou desaparecia totalmente durante semanas. Estabelecia-se o racionamento, com a distribuição de cupons, e formavam-se filas imensas para a aquisição da mercadoria. Ou então apelava-se para o mercado negro, pagando preço muito mais elevado.

Às vezes o desaparecimento era total e tínhamos de recorrer aos sucedâneos. Perdi a conta das ocasiões em que, à falta de café, tomamos chá-mate ou preto; em lugar de pão, comemos batata-doce, cará ou macaxeira; e não raro, adoçamos o café ou o chá com sacarina, pela absoluta impossibilidade de encontrar açúcar. Suplício maior era o dos fumantes, privados durante meses dos cigarros da Souza Cruz, como o Elmo, o Astória, o Continental e o Hollywood, substituídos pelo mata-ratos de fabricação local, especialmente o Princesa e o Duquesa, que nada tinham de aristocráticos, com o seu tabaco escuro e de gosto intragável.

Ao desconforto da falta de gêneros somava-se o temor fantasioso de possíveis ataques aéreos alemães. Foi levado tão a sério por alguns, que se organizou uma Liga de Defesa Passiva Anti-aérea, com voluntários de capacetes e braçadeiras, que instruíam a população sobre o que fazer em caso de bombardeio. Distribuíam-se os folhetos recomendados abrigar-se em porões ou atirar-se ao chão, se surpreendidos na rua e ensinando a prática dos primeiros socorros.

Realizaram-se também exercícios de blackouts, com a cidade completamente às escuras, porque nos cômodos em que as luzes permaneciam acesas as janelas eram veladas por grossos panos improvisados de cortinas. Ainda hoje me pergunto, ao recordar esses fatos, como alguém poderia acreditar que os Heinkels e Junkers da Luftwaffe, com sua pequena autonomia de voo, um dia atravessariam o Atlântico para despejar bombas sobre Manaus.

De parte das autoridades talvez visasse ao efeito psicológico, a fim de manter mobilizada a população. Que, aliás, sempre demonstrou um grande fervor patriótico, como ocorreu na campanha do ferro-velho, à qual se engajaram milhares de crianças, jovens e adultos, em resposta ao apelo para que se ajudasse o esforço de guerra dos Aliados.


Andávamos aos bandos, vasculhando quintais, terrenos baldios e covões, em busca de pedaços de ferro usados. Reuniram-se quantidades imensas, acumuladas em diferentes lugares, como a rampa de acesso à Catedral e a Rua Barcelos, ao lado do Cine Popular, depois removidos não sei para onde. Até hoje ignoro se toda aquela sucata foi parar realmente nas siderúrgicas de Pittsburgh ou se foi atirada em algum depósito, inútil, até que a ferrugem a consumisse.

Nesse mesmo ano ocorreu a ruidosa invasão ianque. Com a ocupação dos seringais da Malásia e da Indonésia pelos japoneses, os Aliados se viram privados de suas principais fontes de borracha natural. Embora a produção de borracha sintética já fosse expressiva, o produto vegetal ainda era indispensável para a produção de artigos como pneumáticos de aviões. Tornava-se imperiosa, assim, a reabertura dos seringais da Amazônia.

Veio em seguida a assinatura dos famosos Acordos de Washington, que davam à borracha e outras matérias-primas garantia de preço fixo e compra de toda a produção pelo governo americano que se comprometia, ainda, a dispensar amplo apoio técnico e financeiro para aumentar a oferta desses produtos.

Em consequência, foi mobilizado um enorme aparato de agências americanas e brasileiras, que logo se instalaram em Manaus e Belém. Entre elas, o Banco da Borracha (atual BASA), o Serviço Especial de Saúde Pública e a Rubber Reserve (depois, Rubber Development Corporation). O primeiro, obviamente, para assegurar o indispensável suprimento de crédito; o segundo, para promover o saneamento da região; e a última, como dizem os economistas, para emprestar apoio logístico aos seringais.

Com isso, a economia do Estado venceu a inércia, ganhando novo impulso, e quebrou-se a rotina da cidade. Estava iniciada a Batalha da Borracha, que não pretendo, aqui, avaliar, porque tal avaliação fugiria inteiramente aos propósitos deste livro.


A primeira novidade foi a presença dos Catalinas, os primeiros aviões anfíbios que conhecíamos, ideais para as condições da região. Os cargueiros aquatizavam na ilha de Monte Cristo, onde a RDC instalou um grande terminal de carga. Lá, eram guinchados para a terra, recebiam o carregamento de borracha, depois manobravam para a água, de onde decolavam rumo a Miami.

Os aviões de passageiros e militares utilizavam o aeroporto de Ponta Pelada, pioneiro no Estado, construído em semanas pelos americanos, com sua costumeira eficiência. Dotado de uma estação de passageiros de madeira, modesta, mas confortável, passou a ser visitado como uma curiosidade pela população, habituada, até então, aos velhos hidroaviões da Panair, que atracavam no cais de cimento baixo, à esquerda do roadway.

Depois da guerra, a Panair incorporou os Catalinas, que serviram à região durante muitos anos, em suas linhas comerciais. Tal como aconteceria com a pequena frota de navios flutuantes trazida igualmente pelos americanos. Lembro-me bem de três grandes, o Cambridge, o Vírginia Lee e o State of Delaware, e outro de menor porte, o Cel. James Moss, empregados no transporte de cargas e passageiros, também incorporados, no pós-guerra, com outros nomes, ao acervo da SNAAPP. Foi um reforço à navegação regional, servida em grande parte por uma frota envelhecida de vaticanos, gaiolas e chatas.

Com eles vieram, também, transportadas por navio, creio, as pesadas máquinas de construção rodoviária, usadas inicialmente na abertura da pista do aeroporto e, mais tarde, cedidas à prefeitura para obras de terraplanagem em vários pontos da cidade, como a Avenida Getúlio Vargas, que teve finalmente aterrado o covão usado como lixeira. Ficávamos durante horas contemplando as evoluções de tratores e bulldozers que, manejados habilmente pelos tratoristas, movimentavam enormes volumes de terra e avançavam como monstros rugidores em direção ao abismo, onde nunca despencavam.

Mais curiosidade, porém, despertavam os próprios americanos. Acompanhávamos fascinados aqueles grupos de gringos altos, brancos, corados, de olhos azuis, falando uma língua completamente desconhecida para nós, meninos, e para quase toda a população. Porque só a partir daí começou entre nós a mania de falar inglês. Quando nada, aprendíamos logo a dizer give me a cigarrete, na esperança de ganharmos um Lucky Strike, um Camel, um Chesterfield ou um Philip Morris, disputadíssimos pelo seu gosto suave e cheiro agradável e que se tornavam especialmente preciosos nos períodos de falta de produto nacional.


Os amazonenses que trabalhavam na RDC chegavam a dominar tão bem o inglês que alguns, por esnobação, passavam a falar o português com sotaque. Dizem mesmo que certo cidadão bastante conhecido na cidade, vestindo roupa cáqui, capacete de explorador na cabeça, à semelhança de muitos americanos, pegou um bonde e dirigiu-se ao motorneiro, perguntando: Ó seo condutor, o senhorr sabe me dizerr onde ficarr avenida Joaquim Nabuco? Ao que o motorneiro, medindo a figura de alto a baixo, fuzilou: Ora, fulano, vai à merda!

Mas conquanto nem todos os manifestassem esse fanatismo, pode-se dizer que os americanos foram acolhidos com simpatia pela população. Geralmente bem-humorados e extrovertidos, chocavam apenas os mais velhos pela sua irreverência, como, por exemplo, ao se refestelarem nas cadeiras dos bares com os pés apoiados sobre as mesas. Em compensação, graças ao seu alto nível de renda, podiam dar-se o luxo da generosidade. Não apenas os garotos os cercavam na busca de cigarros e barras de chocolate. Também os garçons disputavam o privilégio de atendê-los, de olho nas elevadas gorjetas, que davam espontaneamente, num tempo em que ainda não se instituíra a obrigatoriedade dos 10%.

Outras que se encarniçavam para serem contratadas pelos gringos eram empregadas domésticas, atraídas por ofertas de salários irresistíveis, especialmente se considerarmos que a grande maioria não recebia salário algum nas casas em que trabalhavam. Da mesma forma, as lavadeiras tiveram seus serviços muito valorizados. Assim como os proprietários de imóveis se lançaram numa corrida para alugá-los aos ianques por preços duas a três vezes superior aos praticados no mercado local. Felizmente para a classe média, o número de americanos era relativamente pequeno, e sua permanência não ultrapassou três anos. Do contrário, a mini-inflação que provocaram teria desestabilizado seriamente seus limitados orçamentos.


Sucesso também causaram algumas de suas mulheres. Pois nem todas eram coroas vermelhonas e sardentas, campeãs de deselegância com seus vestidos de cores berrantes e seus sapatões de solas de borracha. Havia umas poucas que entusiasmavam não apenas pela beleza, mas também pela indiferença com que exibiam seus encantos. Nas ruas andavam apenas com o vestido sobre o corpo nu, em casa ficavam inteiramente peladas, sem ter sequer a preocupação de fechar as janelas.

Lembro que um grupo delas, residente numa casa de sótão, ainda hoje existente, na Rua 10 de Julho, entre a Epaminondas e a Ferreira Pena, desfilava tranquilamente sua nudez, no alto do mirante. E quando rapaziadas, ansiosa, se atropelava nos telhados vizinhos, para observá-las, ainda ganhavam das ladies godivas adeusinhos de gozação.

Segundo versões correntes, que não pude confirmar, essas moças figuravam nas folhas de pagamento da RDV como secretárias, mas seriam na verdade profissionais do sexo, contratadas para amenizar a vida dos executivos e técnicos, em seu exílio numa distante região tropical. Faria parte de uma política destinada a reduzir, quando o possível, o envolvimento com as nativas, evitando problemas com a comunidade.


A partir de 1945, ao término da guerra, a RDC foi desativando seus serviços paulatinamente e a presença dos americanos se fez cada vez menos ostensivas, até cessar completamente.