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segunda-feira, junho 19, 2017

Festival Folclórico do Amazonas ocorrerá na Ponta Negra de julho a agosto


Os grupos folclóricos da Categoria Bronze, Prata e os Bumbás A – Ouro, se apresentarão durante duas semanas no 61º Festival Folclórico do Amazonas que, pela primeira vez, será realizado no Anfiteatro do Complexo Turístico da Praia da Ponta Negra, na zona Oeste, e contará com a participação das Cirandas de Manacapuru (a 98 quilômetros da capital). As apresentações deverão ocorrer do dia 21 de julho a 2 de agosto.

A iniciativa da Prefeitura de Manaus, por meio da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult), tem por objetivo promover o evento como um produto turístico dentro da Região Norte e Nordeste.

“A Prefeitura de Manaus vem trabalhando para fortalecer o folclore, que é uma das manifestações populares responsáveis pela identidade cultural da cidade. Tivemos a sanção do SISCULT no início do ano, que destina 10% do orçamento da Manauscult para a realização de editais para o fomento ao Folclore e agora temos o fortalecimento do segmento como um produto turístico, realizado em um dos mais significativos cartões-postais da cidade”, afirmou o diretor-presidente da Manauscult, Bernardo Monteiro de Paula.

O diretor-presidente ressaltou ainda a parceria inédita com a Secretaria Municipal de Turismo de Manacapuru, município que integra a Região Metropolitana de Manaus, que participará do 61º Festival Folclórico do Amazonas com a apresentação das cirandas típicas do município, Tradicional, Flor Matizada e Guerreiros Mura, no dias 26 e 29 de julho, e 2 de agosto, respectivamente.

O Festival Folclórico do Amazonas tem apoio financeiro aos grupos por meio do Edital de Chamamento Público nº 006/2017, que encontra-se em andamento na Fundação. No total, 84 grupos folclóricos da categoria Bronze, Prata e mais os Bumbás A – Ouro estão aptos a concorrerem ao edital para receberem o apoio financeiro.

Inscrições

As Organizações da Sociedade Civil (OSCs) aptas a concorrerem têm até a próxima segunda-feira (26) para se inscrever no edital. Os interessados deverão preencher formulário disponível no site vivamanaus.com, banner Editais, com documentação exigida e em envelope lacrado, com identificação da instituição proponente e meios de contato, com a inscrição “Proposta – Edital de Chamamento Público nº 06/2017 - MANAUSCULT”, a serem entregues no Protocolo da Manauscult , na Av. André Araújo, 2767 - Aleixo, das 8h às 17h. A proposta de convênio deve conter histórico, documentação da associação e projeto técnico. O edital está disponível em vivamanaus.com/editais.

Sorteio
Nesta terça-feira, 20/6, às 18h, no Les Artistes Café Teatro, ocorrerá o sorteio da ordem de apresentação dos grupos da Categoria Bronze, Prata e Bumbás A – Ouro. Além da diretoria da Manauscult estarão presentes representantes dos grupos folclóricos que deverão participar do 61º Festival Folclórico do Amazonas.

Barracas Gastronômicas

A Manauscult lançou também o edital para selecionar empresa especializada em feiras gastronômicas que irá gerir as 30 barracas de comidas e bebidas durante o 61º Festival Folclórico do Amazonas. O Edital de Chamamento Público nº 07/2017 foi publicado na edição 4146, do Diário Oficial do Município do último dia 14. Os interessados deverão protocolizar proposta até o dia 23 de junho.


(fonte: jornal A Crítica)

Documentário “Utopia e barbárie” revê as revoluções da geração de 68


Por Neusa Barbosa

Um dos documentaristas mais respeitados do país e dos que mais se dedicam à política – caso de “Os anos JK” (1980) e “Jango” (1984), dois sucessos inclusive de bilheteria –, Sílvio Tendler lançou-se, durante 19 anos, num ambicioso balanço dos sonhos e decepções de sua geração – aquela que nasceu logo depois da Segunda Guerra Mundial.

O resultado está em “Utopia e barbárie”, documentário lançado no dia 2 de novembro de 2009, que já foi exibido com sucesso em mais de 20 países e está disponível no YouTube.

O filme fala da geração que viveu as revoluções de esquerda e da contracultura, as guerras de independência na África e na Ásia, a guerra do Vietnã, as ditaduras latino-americanas, a queda do muro de Berlim e a disseminação da globalização e do neoliberalismo, funcionando como um “pensamento único”.

“Utopia” e “barbárie” são, para o diretor, dois movimentos complementares, sucedendo-se um ao outro pela história – assim como ao sonho igualitário da Revolução Russa de 1917 seguiu-se o pesadelo do genocídio estalinista, ao projeto do Brasil Novo de Juscelino Kubitscheck e João Goulart, a ditadura militar de 1964.

O filme de Tendler é, assumidamente de esquerda, embora tente ouvir posições contrárias. Abre espaço para que ex-integrantes da luta armada, como Franklin Martins (ex-porta-voz do governo Lula) e Dilma Roussef (ex-ministra da Casa Civil e ex-presidente pelo PT), façam a autocrítica e a justificação de seu rumo extremo no passado.

Ao mesmo tempo, ouve o poeta Ferreira Gullar, um dos mais notórios críticos da gestão petista e, nos anos 70, opositor da opção pela resistência armada ao regime militar.

Viajando nestes anos por 15 países, Tendler acumula entrevistas históricas – como a do lendário general Giap, 94 anos, o estrategista vietnamita que derrotou sucessivamente os colonizadores franceses, em 1954, e os invasores norte-americanos, nos anos 70.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de uma das bíblias para o entendimento do continente, “As veias abertas da América Latina”, além do poeta Amir Haddad, do dramaturgo Augusto Boal, e os cineastas Denys Arcand, Gillo Pontecorvo e Amos Gitai, vêm somar suas posições.

Todos reveem os erros e acertos desta geração que tentou mudar o mundo pelas ideias e pelas armas, e hoje repensa não só os motivos de seus fracassos como tenta entender o contexto atual.

Juntando biografia pessoal com História, Tendler revisita suas raízes judaicas, mesclando a sua análise das utopias o sonho igualitário dos kibbutz de Israel.

Esta digressão para o Oriente Médio, no entanto, ajusta-se mal aos demais assuntos tratados, talvez porque não se tenha feito uma amarração mais consistente.

Repleto de assuntos e personagens, “Utopia e barbárie” é um instrumento eficaz para olhar o presente sem tirar os olhos do passado.

Outro mérito está em mostrar materiais de arquivo eloquentes por si – caso do áudio da gravação da tristemente célebre reunião que aprovou o AI-5, em 1968.

Quem quiser conferir, basta clicar no link abaixo:

terça-feira, junho 13, 2017

Guerra entre forró e sertanejo é mais que modismo versus tradição


Por Maria Carolina Maia

Parece ter chegado ao ápice uma disputa que vem se desenrolando há alguns anos, todo mês de junho, no Nordeste. Mais do que em qualquer outra região do país, a época é de festa em Estados como Sergipe, Pernambuco e Paraíba – os dois últimos concorrem pelo título de maior São João do Brasil, se o de Campina Grande (PB) ou o de Caruaru (PE).

Neste ano, a briga entre as duas cidades ficou pálida diante da guerra que se escancarou entre sertanejos, grupo que vem tomando os palcos nordestinos neste período, e os forrozeiros, representantes de um gênero que há décadas domina os festejos juninos.

O debate, incendiado por uma campanha na internet em que adeptos de um São João de raiz pedem o fim da invasão bárbara de sertanejos, vai além da oposição entre o que é tradição e o que é novidade – velho conhecido do mercado fonográfico, em que reina pelo menos desde o início da década, quando deixou para trás a axé music, o pop e a música romântica, o sertanejo neste contexto representa o novo, já que o São João sempre foi reduto do forró.

Para os que endossam a campanha, substituir o ritmo que guiou por anos o arrasta-pé nordestino seria descaracterizar a festa. Elba Ramalho, que pensa dessa forma, aproveitou sua presença na Avenida Paulista, em São Paulo, onde fez show no último domingo, para defender que haja um “equilíbrio” na programação dos eventos, que hoje tendem a ter mais cantores country. “Não é festa do peão”, disse.

Para Marília Mendonça, que respondeu do palco do “São João da Capitá”, festival da Grande Recife, a curadoria deveria ser do público, que hoje consome mais o sertanejo.

É aí que a discussão se desdobra em outros aspectos. O sertanejo, como já dito, de fato domina o mercado. O público, portanto, pode querer as atrações do momento nas festas juninas a que pretende comparecer.

As prefeituras das cidades que realizarão essas festas, organizando os shows e pagando os cachês, também: ter um evento cheio de gente não significa apenas estar apto ao título de maior São João de uma determinada área, mas de ter ganhos com turismo, gastronomia e outros segmentos alimentados pelo fluxo de visitantes. Interesses econômicos compartilhados por donos de restaurantes, lojas e hospedarias.

Há também uma boa dose de bairrismo na discussão, um orgulho pela própria terra e por seus frutos que, como se sabe, é tão forte no Nordeste quando no extremo Sul do Brasil. Elba, paraibana, está também defendendo o que é dela, por assim dizer: a permanência de um ritmo nordestino contra a chegada de um gênero que se originou no Centro-Oeste, ali junto ao Paraguai, e no interior de Estados como São Paulo e Paraná, e foi se alastrando por todo o país.

Pode soar resistente, para não dizer preconceituoso, com o que vem de fora. Se nem Ariano Suassuna, em sua genialidade particular, escapou da acusação de tentar congelar o folclore, difícil que o tópico não atinja os músicos.

Mas, por outro lado, pode haver de fato uma demanda por forró nas festas, demanda que o modismo – as atrações da vez são as cantoras sertanejas como Marília e Naiara Azevedo – encobre. Daí, a eventual necessidade de se valorizar a cultura regional, soterrada pelo que toca nas rádios.

A resposta, longe de ser simples, parece depender de experimentos: de haver festas com programações diversificadas e a partir delas se verificar se há espaço para todos. O ideal, de um ponto de vista agregador, é que haja. É provável que, nessa experimentação, também se detecte alguma mudança.

Inerente à dinâmica do mundo, o imperativo da transformação foi percebido pelos gregos antigos há milhares de anos, e não se pode driblá-lo. O forró tem composições lindíssimas e fez grande sucesso no Brasil nos anos 1950, sobretudo com Luiz Gonzaga, o chamado rei do baião, que cantava não sem certa densidade as mazelas e a beleza do sertão.

Agora, feliz ou infelizmente, talvez seja a vez do forró. Pode-se detestar o ritmo sertanejo, mas não se pode paralisar o tempo.

Outros carnavais


Por Ivan Lessa

E outra coisa boa de estar há anos fora de casa é que a memória vira seletiva. Quer dizer: a gente – eu vou lá e pego a parte que me interessa. Permitam-me utilizar símile carnavalesco para ilustrar o fenômeno.

Imaginemos que a vida de cada um de nós é um pedaço de serpentina. Tem uma tira de tantos metros, cor-de-rosa, que corresponde aos nossos sete primeiros anos. Outra de alguns centímetros, amarela, que corresponde aos últimos quatro anos. E outra de tal tamanho e outra de tal cor e assim por diante. Tudo espalhado no meio do chão, do salão. Rolo por rolo da serpentina, um após o outro, embrulhadinho e ainda dentro da embalagem, esse é nossa vida completa, esse é aquele que aparece – e apenas aos outros – quando morremos e acabamos.

Mas enquanto se participa dos folguedos de viver, como um grande baile carnavalesco, com todos os seus altos e baixos, a gente – eu de novo – dou uma espiada, vejo jogado no chão o pedaço de serpentina de minha preferência, apanho, examino, guardo um pouco, ou jogo de volta para o meio da confusão.

Então aí, no Brasil, os pandeiros já foram esquentados, as pastoras encaminham-se para a Avenida, os bilhetes se esgotaram, as fantasias prontas, o zunzum no ar, talvez até mesmo um folião nostálgico, feito eu, antigão, tenha conseguido um lança-perfume ilegal e, infelizmente, em vez de jogar nas pernas das morenas, taca no lenço, cheira e cai pra trás.

Como vêem, como ouvem, mal eu comecei a me preparar para empregar minha “memória seletiva”, catar o pedaço de serpentina que me despertou a atenção, e já me vejo a meio caminho andado, subido, das escadas do Municipal, diante da patuléia delirante ante minha fantasia de Catedral – de Winchester? – Submersa.

Olha a primeira serpentina.

Eu de legionário – aquele azul e branco, e não o cáqui – na Praça do Lido, em Copacabana, louco para entrar na parte do salão reservada aos marmanjos e não à petizada. Marmanjo era aquele cara com 16 anos.

Eu ainda de legionário, mesmas cores, no baile – sempre de tarde – do Botafogo, pulando com uma linda havaiana que me deu seu nome e endereço: Gilda, Rua Voluntários da Pátria, aos domingos ia sempre ao cine Star. Nunca mais a vi. Até hoje não posso ouvir aquele samba da porta-bandeira: “O meu lugar foi a Gilda que ocupou.”

Eu de pirata estilizado entrando no meu primeiro baile à noite. Ex-Cassino Atlântico. ABBR em 1950, mas sempre o Baile do Cassino Atlântico. Carreguei no buço para aparentar mais idade. Do contrário não entrava. Se não me engano, reforcei as olheiras. Sei lá por que, achei que olheira era coisa de gente de mais de 18 anos. Pirata estilizado era assim: calça de smoking emprestada do pai, camisa de cetim feita pela mãe de meu melhor amigo, um único brinco na orelha, lenço de cetim vermelho – ou não? – na testa.

Os piratas se separavam no salão e ia cada um para um lado tentar ver que havaiana, baiana, pescadora, ou cigana lhe caía do alto de alguma popa no colo – ou, para ser mais preciso, lhe caía nas costas. O que a gente queria mesmo era uma garota sentada com os coxões em torno de nosso pescoço, o casal com os braços erguidos, suor, risos e fotografia no Cruzeiro da semana seguinte.

Eu me lembro de beber meia cerveja pelo gargalo, derramar o resto em minha própria cabeça, peruar aqui e ali, o tempo todo fazendo cara de quem está exausto e não aguenta mais, ficar bem perto da orquestra pra sentir nas vísceras as vibrações enlouquecedoras e depois voltar para onde estava o amigo – ou amigos –, e então mentir que “foi um lourão que deu umas puladinhas com a gente – comigo! – e depois desapareceu na multidão!”.

E depois... e depois... e depois...

Depois tanta coisa que eu, como então, me digo exausto de abaixar e catar serpentina feito um gari. Me abaixo para apanhar o jornal do dia. Lá está: eleições suplementares em Greenwich, vitória de quem?, dívida externa, moratória parcial. Um carnaval. E eu nem mais preciso reforçar o buço ou fazer olheiras.

Nesse ponto, folião de raça, continuo pirata estilizado. Só que não mais da areia de Copacabana, mas dos tijolinhos vermelhos de Londres.

Homem Santa Efigênia


Por Xico Sá

O macho Santa Efigênia, homo sapiens moderno que anda com toda aquela parafernália da rua paulistana homônima a tiracolo para dizer que é o tal, acaba de ganhar uma calça, by Levi Strauss, com sete bolsos, capaz de caber caneta-gravador, celular, palmtops, planilhas a laser, cartões que compram a vida eterna, cartões de ponto antidemissão, cartuchos antiterrorismo, sprays contra a barbárie, o caralho de asa...

Mas, peraí, homem que é homem não carrega nada além da sua tecnologia natural, chip de berço, orgulho, auto-estima, tenha lá os 14 cm da média nacional ou a jumentice que Deus – se o divino está morto, tudo é permitido – lhe presenteou.

“As novidades tecnológicas da calça ajudam. Os dois bolsos da frente são fundos para aproveitar o vão livre das pernas e vêm revestidos de um tecido especial, que faz o objeto deslizar e não deixa à mostra um grande volume”, anotou cronista da briosa Época.

Vôte!

Peraí, que vão livre é esse? Conosco não tem dessa licença Tomie Othake não. E por que não, desde que a criatura seja ajumentada pela própria natureza, exibir seus auto-relevos mais pudendos? Foro íntimo, senhorita.

Mas o errado nessa pendenga toda não é nem a coitada da calça – que, a exemplo da canção do Rei, assistia tudo e não dizia nada – nem muito menos cronista do tal volume.

O ridículo é a mania dessa gente que carrega dependurado todos os badulaques novidadeiros que aparecem nas vitrines e colunas da Wired, espécie de revistinha da Avon do homus modernus.

Homem que é homem tem apenas duas mãos e uma chave que sempre acerta, apesar da bebedeira, o buraco do seu lar, onde fica guardado o seu desejo-mor, camiseta e calcinha, quentinha, para dormir de conchinha.

O ódio a bordo


Por Míriam Leitão

Sofri um ataque de violência verbal por parte de delegados do PT dentro de um voo. Foram duas horas de gritos, xingamentos, palavras de ordem contra mim e contra a TV Globo. Não eram jovens militantes, eram homens e mulheres representantes partidários. Alguns já em seus cinquenta anos. Fui ameaçada, tive meu nome achincalhado e fui acusada de ter defendido posições que não defendo.

Sábado, 3 de junho, o voo 6237 da Avianca, das19h05, de Brasília para o Santos Dumont, estava no horário. O Congresso do PT em Brasília havia acabado naquela tarde e por isso eles estavam ainda vestidos com camisetas do encontro. Eu tinha ido a Brasília gravar o programa da Globonews.

Antes de chegar ao portão, fui comprar água e ouvi gritos do outro lado. Olhei instintivamente e vi que um grupo me dirigia ofensas. O barulho parou em seguida, e achei que embarcariam em outro voo.

Fui uma das primeiras a entrar no avião e me sentei na 15C. Logo depois eles entraram e começaram as hostilidades antes mesmo de sentarem. Por coincidência, estavam todos, talvez uns 20, em cadeiras próximas de mim. Alguns à minha frente, outros do lado, outros atrás. Alguns mais silenciosos me dirigiram olhares de ódio ou risos debochados, outros lançavam ofensas.

— Terrorista, terrorista — gritaram alguns.

Pensei na ironia. Foi “terrorista” a palavra com que fui recebida em um quartel do Exército, aos 19 anos, durante minha prisão na ditadura. Tantas décadas depois, em plena democracia, a mesma palavra era lançada contra mim.

Uma comissária, a única mulher na tripulação, veio, abaixou-se e falou:

— O comandante te convida a sentar na frente.

— Diga ao comandante que eu comprei a 15C e é aqui que eu vou ficar — respondi.

O avião já estava atrasado àquela altura. Os gritos, slogans, cantorias continuavam, diante de uma tripulação inerte, que nada fazia para restabelecer a ordem a bordo em respeito aos passageiros. Os petistas pareciam estar numa manifestação. Minutos depois, a aeromoça voltou:

— A Polícia Federal está mandando você ir para frente. Disse que se a senhora não for o avião não sai.

— Diga à Polícia Federal que enfrentei a ditadura. Não tenho medo. De nada.

Não vi ninguém da Polícia Federal. Se esteve lá, ficou na porta do avião e não andou pelo corredor, não chegou até a minha cadeira.

Durante todo o voo, os delegados do PT me ofenderam, mostrando uma visão totalmente distorcida do meu trabalho. Certamente não o acompanham. Não sou inimiga do partido, não torci pela crise, alertei que ela ocorreria pelos erros que estavam sendo cometidos. Quando os governos do PT acertaram, fiz avaliações positivas e há vários registros disso.

Durante o voo foram muitas as ofensas, e, nos momentos de maior tensão, alguns levantavam o celular esperando a reação que eu não tive. Houve um gesto de tão baixo nível que prefiro nem relatar aqui. Calculavam que eu perderia o autocontrole. Não filmei porque isso seria visto como provocação. Permaneci em silêncio. Alguns, ao andarem no corredor, empurravam minha cadeira, entre outras grosserias. Ameaçaram atacar fisicamente a emissora, mostrando desconhecimento histórico mínimo: “quando eles mataram Getúlio o povo foi lá e quebrou a Globo”, berrou um deles. Ela foi fundada onze anos depois do suicídio de Vargas.

O piloto nada disse ou fez para restabelecer a paz a bordo. Nem mesmo um pedido de silêncio pelo serviço de som. Ele é a autoridade dentro do avião, mas não a exerceu. A viagem transcorreu em clima de comício, e, em meio a refrões, pousamos no Santos Dumont. A Avianca não me deu — nem aos demais passageiros — qualquer explicação sobre sua inusitada leniência e flagrante desrespeito às regras de segurança em voo. Alguns dos delegados do PT estavam bem exaltados. Quando me levantei, um deles, no corredor, me apontou o dedo xingando em altos brados. Passei entre eles no saguão do aeroporto debaixo do coro ofensivo.

Não acho que o PT é isso, mas repito que os protagonistas desse ataque de ódio eram profissionais do partido. Lula citou, mais de uma vez, meu nome em comícios ou reuniões partidárias. Como fez nesse último fim de semana. É um erro. Não devo ser alvo do partido, nem do seu líder. Sou apenas uma jornalista e continuarei fazendo meu trabalho.

Novas curiosidades curiosas sobre sexo


Por Gilberto Almeida

UM PRESENTE ANTES – A mulher argentina, como as gêmeas Danitta e Nadinne Bruna, quer mais sexo, mas só se for com super-homens. A afirmação é da escritora Viviana Gorbato, que acaba de concluir um estudo sobre sexualidade que analisou 200 questionários respondidos por homens daquele país. Por outro lado, revela também que a maioria das argentinas mostra-se puritanas. “Elas querem sexo, mas só depois de muitas provas de amor, ou seja, presentes e jantares. Quanto mais se gastar, mais arrebatador será o parceiro”. Num recente programa de TV, uma cafetina especialmente convidada para dar orientação sobre sexo anal reforçou o conceito: “Relaxe e respire fundo lentamente. Mas, antes, peça a ele um presentinho bem caro por essa brincadeira”.

POUCO TESÃO DA CHINA – Segundo estudos clínicos, 50 milhões de chineses tem problemas de impotência sexual e a décima parte de suas esposas nunca experimentou um orgasmo.

ITALIANOS TREPAM TARDE – A primeira relação sexual dos jovens italianos acontece aos 17 anos. Este resultado foi apontado num trabalho sobre comportamento sexual que reuniu 20 mil estudantes secundaristas. Essa média surpreendeu os autores da pesquisa, pois significa três anos a mais que o número apontado em 1993. O mesmo trabalho revelou que os anticoncepcionais mais usados são, pela ordem: a camisinha, coito interrompido e pílulas. E que os rapazes tem o sexo mais como referência de desempenho físico do que de prazer, o que vem frustrando as garotas. Ao mesmo tempo, coube às mulheres a demonstração de maior conhecimento a respeito da sexualidade.

ENGARRAFAMENTO POPULACIONAL – O homem adulto ejacula cerca de 16 litros de esperma durante a vida. Isso significa que mais de 1,5 trilhão de espermatozoides são produzidos pelos órgãos sexuais do homem durante a sua vida.

RECORDES PENIANOS – 95% dos homens têm pênis entre 13 e 17 centímetros. O recorde em miniatura pertence (segundo fontes não oficiais) a um nipônico que exibiu um pênis de 5 centímetros ereto! Já um africano ganhou um prêmio por ostentar um descomunal pênis de 35 cm de comprimento por 7,5 cm de diâmetro.

SEXO NESTE INSTANTE – Neste exato momento, cerca de 60 milhões de amantes mantêm relações sexuais, fora os que desfrutam solitariamente o próprio corpo.

TREPADAS DE ALTO RISCO – O cardiologista francês Jean Paul Broustat anunciou que 80% dos ataques do coração durante as relações sexuais atingem os casais não-casados. Essa incidência, segundo ele, se explica por um exemplo curioso e esclarecedor. “Para um homem de meia idade, o esforço na relação com a esposa equivale subir três andares de escada, enquanto com uma amante, subir um arranha-céu, correndo”.

PUNHETEIROS DE MARCA MAIOR – Na Espanha, uma pesquisa recente mostra que as quarentonas estão indo com muito mais frequência ao psicanalista. Motivo: andam deprimidas com a falta de atividade sexual. Os dados revelam ainda que a maioria dos espanhóis das cidades grandes é muito mais chegado a uma sessão de masturbação do que ao coito propriamente dito.

NADA MAIS QUE 24 HORAS – Os espermatozoides nadam aproximadamente 18 centímetros por hora. Desse modo, levariam 2.500 anos viajando duas vezes ida e volta de Belém ao Rio de Janeiro, em linha reta. Curiosamente, a duração da vida de um espermatozoide não passa de 24 horas.

EXIBICIONISMO FEMININO – O instituto H. Ellis pesquisou as possibilidades de obtenção de prazer erótico a partir da capacidade exibicionista das mulheres. Foram 105 entrevistadas, com idade média de 25 anos. Ao exibir os genitais, 48% confessaram sentir extremo prazer, enquanto 45% admitiram sentir o mesmo mostrando outras partes do corpo, como seios, bumbum e as coxas. O estudo aponta que elas se sentem excitadas com essa conduta, a qual significa auto-estímulo sexual para 33% delas. Já 66% da mostra admitiu praticar o exibicionismo para seus parceiros como forma de sedução. Em nível de impressões, elas entendem que 47% das pessoas que as veem sentem-se excitadas com a prática.

terça-feira, junho 06, 2017

Os exames médicos da Dona Jordana


Por Ismael Benigno

Dona Jordana gemeu aqui, entre os pratos do jantar e a privada do banheiro do corredor. Suada, às vezes tonta, mas sempre muito cansada. Se queixou da vida, mas com aquela humildade pobre de quem ainda assim agradece pela vida.

Dona Jordana faz faxina aqui em casa uma vez por semana. Tem 59 anos, o que a impede de ter o passe livre no ônibus. Tem 59 anos, mas vários netos, todos meio filhos, porque mãe de filhos ocupados demais. Me contava, na sexta passada, sobre os exames que precisa fazer. É diabética grave, do tipo que precisa medir glicose sempre, e perdeu metade da pouca graça da vida que tinha por causa da dieta rigorosa e das crises que a derrubam.

Já me peguei enciumado pelos exames da Dona Jordana. Por que justo no dia da minha faxina? Por que tantos exames? Eu sei, eu sou ruim.

E entendi, só muito depois, que as pessoas não escolhem o que sentem. Nem como vão rastejar à espera do fim. Elas simplesmente sobrevivem, enquanto eu me queixo de uma privada que eu podia limpar.

Não sei a quantas anda o governo. Já ouvi algumas coisas, boas e ruins, e não sei o que é real. Porque as classes médias são os irmãos do meio, meio esquecidos, meio ignorados, entre os mais velhos privilegiados cronologicamente e os mais novos favorecidos pela fragilidade. A gente fica meio alheio a tudo, ocupado demais com inveja dos ricos e o desprezo aos pobres.

Dona Jordana andou me contando umas coisas. Uma delas é a tal “fila do exame”. O governador interino, passageiro, tampão ou seja que nome tenha, teve a ideia de copiar outra ideia, do prefeito de SP, de zerar a fila de exames da rede pública estadual.

Não sei o que pensar, sinceramente. Porque me parece heterodoxo demais, pelo menos no caso paulistano, essa coisa de ir misturando empresas com governo até o ponto de não saber mais quem é paciente e quem é cliente.

Mas uma coisa eu aprendi. Dona Jordana, de 59 anos, está conseguindo fazer exames que não conseguia. Pior, ligam pra ela na minha casa, para confirmar datas e horas. E a informação é de que a coisa realmente está andando.

A gente, classe média, tem certos pesos que nos impedem de enxergar obviedades como o sofrimento alheio. Não sabemos se nos queixamos do irmão mais novo, paparicado, ou do mais velho, cheio de títulos herdados. Mas nos queixamos, até que Dona Jordana consiga fazer seus exames, não sem desconfiar de que tem algo errado acontecendo. Afinal, pobre não recebe ligação do governo em casa se não for cobrança.

Pois bem, Dona Jordana, 59 anos, diabética, cheia de filhos e netos para criar com as diárias que faz, agora anda falando do governo, sem saber – e sabendo só um pouco menos do que eu – quem mandou, quem autorizou, quem errou para que ela fosse atendida.

Não ligo mais, numa boa, para política. Muito menos a local. Porque não tinha acesso à vida da Dona Jordana, que faz faxina todos os dias, pega netos – a pé – na escola, come restos do almoço alheio e chora, copiosamente, pelos dramas de famílias que não são a sua. Dona Jordana já me emprestou dinheiro. Dona Jordana já cuidou do meu filho. Dona Jordana já passou mal na minha casa. Fez amizade comigo, com minha cadela, com a minha vida.

E eu nunca fiz nada para isso. Mas queria fazer o registro, seja lá sobre quem for, de que gostei de saber que o atendimento público às pessoas melhorou, sem câmera de vídeo, sem ensaio, sem cenografia e sem texto decorado. Dona Jordana não é figurante. É protagonista da vida de dezenas de pessoas, mesmo tão cansada, mesmo tão doente. É de carne, osso e diabetes.

E eu queria muito dizer que é muito, muito bom saber que pode haver governo sem demagogia, transição sem ócio, poder sem arrogância, atendimento sem festa. Pelo que soube, essa transição dura até início de agosto, quando as sumidades de sempre vão disputar os votos das pessoas que, de uma forma ou de outra, nessa entressafra de salvadores da pátria, estão sendo atendidas. Finalmente. Vai acabar, mas eu gostaria de registrar. Ou exatamente porque vai acabar, é importante registrar.

Dona Jordana está fazendo os exames. Espero que tenha a medicação, os sorrisos que merece, os remédios de que precisa. Espero que tenha forças para enfrentar o destino que lhe cabe, e que o poder público pelo menos a deixe sofrer pelo que ela precisa sofrer: filhos, netos, preocupações e pratos para lavar. Cabe ao governo de um estado tão injusto e historicamente ausente pelo menos o favor de não atrapalhar uma vida que já é suficientemente complicada.

Pois bem. O tal governo interino decidiu não atrapalhar e, fazendo não mais do que sua obrigação, passou a surpreender as Donas Jordanas prestando serviços essenciais que, agora, parecem ser fáceis de conseguir. Eu sei que não são e não sei como foram conseguidos. Mas, numa boa, para a dona Jordana isso não importa agora.

Ainda é cedo e talvez ao mesmo tempo já seja tarde, para discutir se vale mais um político profissional ou um gestor. Ou, nesse caso, se vale mais um suposto estadista eleito por unanimidade ou um tampão cujo nome metade do povo desconhece.

Aprendi mais essa. A Dona Jordana ainda não sabe a quem agradecer. E o fato é que ela não deve agradecer, todos sabemos.

Mas que ela quer agradecer, isso ela quer.
Porque veja só, suprema ironia, o povo queria apenas ser atendido.

O incrível negócio das bonecas sexuais hiper-realistas


Por Rita Abundancia

Os especialistas em robótica e inteligência artificial preveem que em 2050 os robôs sexuais já estarão disponíveis para invadir as nossas camas e, certamente, nos proporcionar orgasmos com duração e intensidade programadas.

É provável, também, que, no futuro, muitas pessoas optem por ter esse humanoides como parceiros e até mesmo decidam se casar com eles. Pode ocorrer, inclusive, de a legislação, que sempre vem a reboque das demandas sociais, comece aos poucos, nos diferentes países, a se abrir no sentido de autorizar esse tipo de união, o que será comemorado – tal como agora comemoramos a admissão do casamento entre pessoas do mesmo sexo –, depois de amplas campanhas de conscientização com slogans como “os androides também têm sentimento” ou “o amor não é apenas uma questão de pele”.

Atualmente, enquanto esse futuro – visto por alguns como alvissareiro e por outros como dantesco – não chega, muitas pessoas se satisfazem com as bonecas, manequins sexuais bem menos sofisticados do que os androides do futuro mas que vêm sendo cada vez mais aperfeiçoados. Seres de aparência quase real, com cílios e cabelos naturais, capazes de serem articulados para se acomodar à prática de uma considerável parcela das posições contidas no Kamasutra. Mulheres e homens que não envelhecem, com uma pele de tato muito similar ao da pele humana e com órgãos sexuais e corpos capazes de armazenar calor, para que a ausência de “calor humano” não se torne um problema na experiência e no desfrute desses sofisticados brinquedos sexuais. Produtos de luxo cujos preços oscilam entre 5.000 euros (25.000 reais), para os modelos mais simples, a 25.000 euros (105.000 reais).



Até mesmo as pessoas de mente mais aberta franziriam a testa diante da ideia de comprar uma boneca sexual, enquanto a grande maioria tende a ver os fãs desses objetos como seres pervertidos. No entanto, como diz Matt Krivicke, um escultor que abandonou o seu ofício de criador de máscaras de Halloween e agora integra a equipe da Sinthetics – empresa sediada em Los Angeles e que fabrica as bonecas sexuais mais perfeitas e realistas do mercado –, “as pessoas não fazem muitas objeções a um vibrador pelo fato de lhe ter sido amputado o corpo inteiro. Não tem rosto, não tem braços nem pernas, não precisa fazer abdominais, não tem barriguinha de chope. É apenas um pênis, e isso é a última coisa para a qual inventaríamos alguma desculpa”. As declarações de Krivicke, extraídas de uma entrevista publicada pelo The Independent, não são isentas de um certo senso comum.

O fato é que o mercado de bonecas sexuais hiper-realistas está em plena expansão, e já existem fóruns e comunidades sobre o tema na Internet, como o Thedollforum.com ou ourdollcommunity.com, em que pessoas que compraram uma delas postam fotografias e trocam experiências. Como no caso dos casais reais, depois de algum tempo o sexo começa a deixar de ser tão frequente, chegando até mesmo a deixar de existir. Mas as bonecas continuam a exigir cuidados. É preciso penteá-las, vesti-las, trocá-las de posição e escolher os acessórios que mais combinem com sua personalidade.

Em sua entrevista, Krivicke conta que a Sinthetics não produz à moda chinesa, muito ao contrário. Seus manequins – como eles preferem chamá-los – são produzidos apenas sob encomenda e de acordo com as preferências do consumidor, de forma que cada boneca tem a sua própria aparência e personalidade. O cliente, como sinaliza o site da empresa, pode escolher quase tudo: altura, compleição, cor do cabelo e da pele, tamanho dos seios, da vagina ou do pênis, cor dos olhos. As variáveis são infinitas e superam de longe as opções dos cardápios de restaurantes que fazem pizzas por encomenda.



Pode-se também encomendar uma boneca do ex-parceiro, ou parecida com ele, mas, para começar a construir esse avatar, a empresa exige a autorização da pessoa a ser reproduzida. Há quem sonhe, também, com manequins que sejam uma reprodução de alguma celebridade. Nesse caso, a empresa procura chegar a um ponto de equilíbrio entre a satisfação do cliente e a produção de um clone de Beyoncé, Kate Moss ou Brad Pitt, mudando algumas características para que a semelhança seja ao menos razoável.

Nem todos, porém, almejam a perfeição. O escultor lembra o caso de um cliente idoso que encomendou uma boneca com rugas e pés-de-galinha, para que se aproximasse mais e tivesse mais coisas em comum com ele. A empresa é flexível e se adapta às preferências dos consumidores, com exceção de um caso: os pedidos de manequins infantis. “Não aceitamos esse tipo de encomenda, tivemos, já, alguns incidentes com isso e ao final fomos obrigados a alertar as autoridades”, admite Krivicke na entrevista.

Mas qual é o perfil do homem ou da mulher que decide comprar uma boneca sexual e que dispõe para isso de 5.900 dólares (cerca de 23.000 reais), quantia mínima a ser desembolsada para obter a versão mais simples de uma dessas deusas de silicone? Segundo admite Krivicke, “a grande maioria dos nossos compradores são pessoas fascinadas pelo corpo humano e tão ‘saudáveis’ quanto qualquer pessoa com que você cruza nas ruas”. Os motivos que levam alguém a adquirir esses produtos e a realizar suas fantasias com eles não são de ordem apenas sexual.



Alguns procuram “uma boneca que lhes ajude emocionalmente depois da perda de um ente querido, já que, durante o luto, não se sentem em condições de assumir uma nova relação. As bonecas servem, então, como uma ‘ponte’ até que a autoconfiança retorne (...) Alguns casais veem nos manequins uma maneira segura de introduzir um terceiro no relacionamento, pois não existe nenhum sentimento envolvido. É uma outra forma de exploração sexual, mas sem traições. As bonecas podem também fazer o papel de substitutos sexuais quando um dos membros do casal não pode desfrutar do sexo, geralmente por problemas de saúde, mas não se pretende ter outra pessoa”.

A Sinthetics se volta também para outros grupos de pessoas, com diferentes orientações sexuais, especialmente os transexuais, oferecendo manequins trans ou hermafroditas. Só há uma coisa que essas máquinas sexuais de aparência angelical não deveriam fazer com muita frequência, sob pena de antecipar consideravelmente a sua data de validade. Já adivinhou o que é? Nada mais nada menos do que o sexo oral. Como esse “pequeno inconveniente” pode minar em algumas pessoas o impulso de brincar com esses objetos, a empresa já encontrou uma solução, e dá explicações sobre isso em seu site.

A criatividade da Sinthetics e seu ímpeto de cobrir um amplo espectro de fantasias sexuais a levaram a inventar o Vajankle, uma vagina encravada em um tornozelo, para os fetichistas dos pés ou para quem, não podendo arcar com os custos de um corpo completo, contente-se com o básico.



O mundo das bonecas sexuais conta com um mercado saudável, o que leva seus criadores a pensar e a conceber protótipos cada vez mais realistas. Matt McMullen é um desses cérebros. Ele trabalha para a Abyss Creations, uma empresa sediada em San Diego, e foi o criador da RealDoll. A edição norte-americana da revista Vanity Fair dedicou uma longa reportagem ao processo de criação de uma de suas ‘obras’.

Seu novo projeto leva o nome de Realbotix e consiste em dar vida e movimento às bonecas, fazendo com que falem, respondam a perguntas e se expressem com gestos faciais. Para isso, ele conta com uma equipe que inclui engenheiros que trabalharam na Hanson Robotics. Mc Mullen está convencido de que seus produtos são perfeitos para as pessoas que “decidiram conscientemente que não querem ter um relacionamento” de casal, mas que querem fazer sexo frequentemente.

Imaginar um mundo em que os vibradores avançaram dos genitais para o corpo inteiro, reproduzindo seres humanos perfeitos para o sexo, já começa a não ser algo que pertence ao gênero da ficção científica. Segundo a psicóloga e sexóloga Ana Sierra, que trabalha na Fundação Sauce, em Madri, “existe uma parafilia denominada androidismo, em que as pessoas só se excitam com androides, bonecos ou robôs. Antigamente, a masturbação e o sexo oral eram vistos como parafilias. Eu nunca receitei o uso de uma boneca inflável, mas isso me parece razoável se servir para cultivar o erotismo e experimentar coisas novas. O problema, como sempre, é quando essa prática se torna obsessiva e exclusiva. Ou seja, quando não dá espaço para outras práticas ou, no caso, se transforma em substituto das relações humanas. Precisamos do contato físico, trabalhar as habilidades sociais, compartilhar, e não me refiro apenas ao aspecto físico, mas também ao aspecto da energia, desse prazer psicológico gerado pelo sexo ou pelo fato de se sentir desejado por alguém”.

Hoje, quem pretende se iniciar na brincadeira com bonecos pode se contentar com uma opção de custo baixo, que, neste caso, responde pelo nome de Snugamate e consiste em um homem mole e recheado de flanela, que faz as vezes, também, de almofada. Se suas utilidades são bastante limitadas, são inúmeras, porém, as suas vantagens: não foge na hora de lavar a louça, não deixa o tubo da pasta de dente aberto, não urina fora da bacia... Enfim, uma preciosidade!

quarta-feira, maio 31, 2017

A falta de um manauara


Por Marcelo Barros (*)

Jefferson Péres era um humanista. O Brasil o conhece das suas posições políticas no Senado, seu rigor ético e seu senso implacável com desvios de conduta, sua palavra sintética e ao mesmo tempo direta, sua qualificada produção legislativa respeitada até mesmo por seus críticos, e seu compromisso com a atividade política e parlamentar; também denunciando as suas mazelas e seus cinismos. Mas nós, amazonenses, já conhecíamos seu trabalho e suas qualidades.

José Jefferson Carpinteiro Péres nasceu em Manaus, em 19 de março de 1932. Era de uma família tradicional de juristas e que, por sua atuação, acabou indo para a política. Seu tio, Leopoldo Péres, foi Deputado Federal Constituinte de 1946; seu irmão, também Leopoldo Péres, foi Senador da República entre 1987 e 1990.

Sua formação acadêmica em Direito e Administração o conduziu a um caminho diferente da maioria da tradição de sua família. Frustrado com a advocacia descobriu outra paixão, a sala de aula. Assim, tornou-se professor do curso de Economia da UFAM.

Seu ativismo politico começou lá nos anos 50, na campanha “O Petróleo é Nosso”. Veio a ditadura e Jefferson manteve-se atuante, mas sabia da vigilância dos militares e assim permaneceu na sala de aula combatendo o seu bom combate. Mesmo assim, nunca deixou de abrir as portas da sua casa para as mais diversas discussões políticas, sendo abrigo de muitos perseguidos pelo regime militar.

Quem o via de longe, tinha uma visão de que ele era uma pessoa “sisuda, sem graça”, mas tinha suas predileções. Homem muito fiel aos seus amigos, torcedor fanático do Botafogo, amante das artes como cinema, música, teatro, entre outras. Um leitor voraz e que tinha uma capacidade imensa de falar o que tinha de ser dito com poucas palavras.

Era um homem de Manaus, sua cidade e sua paixão. Um defensor ardoroso da revitalização do Centro Histórico e dos espaços urbanos de uma cidade que cresceu com ares de cidade europeia na “Belle Époque” do Ciclo da Borracha, mas que ao longo do tempo cresceu desordenadamente. Tinha prazer em sonhar com uma Manaus revitalizada em sua expressão natural. Seu livro “Evocação de Manaus – Como a Vi ou Sonhei”, publicado em 1994, é a síntese do seu amor por sua cidade.


Em 1988, aconselhado por seus amigos e alunos, decide ser candidato a vereador, se elegendo e participando daquela considerada por muitos a melhor legislatura da história da Câmara Municipal de Manaus, sendo reeleito em 1992.

Em 1994, mesmo sendo considerado “o azarão”, se elege Senador sendo o segundo amazonense e terceiro brasileiro a sair diretamente de uma Câmara de Vereadores para uma cadeira no Senado Federal. Sua atuação nas Comissões de Constituição e Justiça, Comissão de Assuntos Econômicos e Comissão de Relações Exteriores era elogiada pela sua qualidade. No ano de 2000, é o relator do processo de cassação do Senador Luiz Estêvão (DF), primeiro Senador cassado por quebra de decoro na história brasileira.

No ano de 1999, descontente com atitudes e alianças do governo FHC, deixa o PSDB e, por convite de Leonel Brizola, filia-se ao PDT e se torna presidente regional do Amazonas. Em 2001, numa campanha memorável, é indicado como candidato a Presidência do Senado Federal pelo Bloco de Oposição. Sua candidatura foi derrotada, mas isso o tornou ainda mais conhecido nacionalmente como exemplo de decência e moralidade. Na eleição de 2002, se reelege senador com a maior votação de Manaus e a segunda maior de todo o estado.

Foi líder da Bancada do PDT no Senado por várias ocasiões e em 2006 compôs a chapa do PDT nas eleições presidenciais como candidato a vice do Senador Cristóvam Buarque (DF). Após as eleições, fez um memorável discurso no Senado comunicando que ao final do seu mandato em 2010, deixaria a vida pública. Quis o destino que nos deixasse antes.


No dia 23 de maio de 2008, uma sexta-feira, por volta de 6h30min, Jefferson Péres sofre um violento ataque cardíaco em seu quarto, sendo encontrado morto por sua esposa Marlídice Péres. Todos nós fomos pegos de muita surpresa. Seu corpo foi velado no Palácio Rio Negro, sede do Governo do Estado. Millhares de manauaras e amazonenses foram se despedir do seu senador.

Jefferson Péres deixou um legado de defesa da moralidade, da ética, da Amazônia e do seu desenvolvimento sustentável. De compromisso com as causas do povo, de defesa do PDT e de um partido forte pra ser alternativa real de poder no Amazonas. São nove anos de saudade e lembranças, mas também de luta pela manutenção dos seus valores para as novas gerações.

Deixo uma frase do Senador, quando do seu discurso de apresentação da sua candidatura à presidência do Senado Federal, em 2001: “Quem caminha com o povo, nunca estará sozinho”


(*) Marcelo Barros é membro do Diretório Nacional do PDT. Secretário de Relações Institucionais da JSPDT Nacional. Ex-Presidente Estadual da JSPDT Amazonas. Ex-Assessor Parlamentar da Liderança do PDT no Senado Federal.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (32)


Por Jefferson Peres

Muitos jovens da minha geração foram leitores insaciáveis. Menos, talvez, por pendores naturais do que por fatores circunstanciais. Ainda não havíamos ingressado na era da televisão e do automóvel particular. Quando não tínhamos alguma opção de lazer, o jeito era buscar refúgio na leitura. Líamos de tudo, muitas vezes a qualquer hora e em qualquer lugar. Havia até os fanáticos, que nunca se separavam dos livros, conduzindo sempre algum, seguro pela mão ou debaixo do braço, para ser lido nas salas de espera dos cinemas, nas mesas dos bares ou nos bancos das praças.

Nunca dediquei à leitura menos de seis horas por dia. Quando nada tinha para ler em casa, marchava para a Biblioteca Pública, onde passei muitas tardes da minha juventude e de onde saía, às vezes, ao anoitecer. Foi um hábito que adquiri na infância, com os contos de fadas de Andersen e Perraul e com revistas como O Tico-Tico, na qual eu me deleitava com as aventuras de Reco-Reco, Bolão e Azeitona.

Logo vieram os jornais e as revistas em quadrinhos de origem americana. Não perdia um número do Mirim, do Gibi, do Globo Juvenil e do Suplemento Juvenil. Lia com avidez as histórias daqueles heróis, que encantavam pela variedade de tipos, temas e ambientes, oferecidos para todos os gostos, desde trogloditas e dinossauros, com Brucutu, até foguetes espaciais, com Buck Rogers, passando por castelos medievais e cavaleiros andantes, como o Príncipe Valente.

Podia escolher entre uma aventura na selva da Índia, com o Fantasma Voador, e outra nas areias do Saara, com Abdul, o Árabe, ou, ainda, uma terceira, nas ruas de Nova York, com o Tocha Humana; entre um herói caipira, como Lil Abner (por que terão aportuguesado seu nome para Ferdinando?) e um sofisticado detetive urbano, como Nick Holmes. E tantos outros, como Brick Bradford, Príncipe Submarino, Mandrake e o nunca esquecido Flash Gordon, que me atraía não somente pela história, como também pelo traço elegante do desenho de Alex Raymond.


Junto com as histórias em quadrinhos, íamos devorando os livros de aventura. Li quase todos os livros de Tarzan, e a Edgar Rice Burroughs devo alguns dos melhores instantes de encantamento que a leitura me proporcionou naquela fase. E mais ainda, talvez a Karl May, o alemão autor de No Deserto e nas Selvas, Winnetou e tantas outras fascinantes histórias passadas nos mais diferentes lugares do mundo. Só muito mais tarde vim a saber, com grande surpresa, que esse novelista nunca saiu da Alemanha e escreveu muitas das suas obras na prisão.

Escusado dizer que li quase tudo de Júlio Verne, e o Capitão Nemo, com o seu Nautilus, me deliciou desde muito cedo. O mesmo aconteceu com a obra de Alexandre Dumas, que me deu muitas alegrias com as proezas de D’Artagnan e seus companheiros, ao enfrentarem o poder do Cardeal, e de Edmond Dantés, ao se vingar dos seus diabólicos inimigos. Houve muito mais, como Ivanhoé, de sir Walter Scott, a Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, para não falar nos policiais, com personagens como Sherlock Holmes, Arséne Lupin, Perry Mason, Nero Wolf e tantos outros.

Depois, ainda na adolescência, vieram as obras mais sérias, preferentemente de ficção. Dos autores nacionais, antigos e modernos, escaparam poucos. Manuel Antônio de Almeida, que seria, provavelmente, o maior romancista brasileiro do século XIX, se não tivesse morrido tão cedo, deixando apenas uma pequena obra-prima, Memórias de um Sargento de Milícias; José de Alencar, do qual li quase tudo; o meu querido Machado de Assis, principalmente o da segunda fase, cujo estilo sempre me encantou. E mais Aluísio de Azevedo e Raul Pompéia, sem contar os poetas, em particular Castro Alves, com sua poesia social que empolgava todos nós e cujos versos eram citações quase obrigatórias em nossos discursos.

Dentre os contemporâneos, devorei quase todos do ciclo nordestino, com preferência por Jorge Amado e Graciliano Ramos. Li, com entusiasmo, romances como Cacau, Jubiabá, Capitães de Areia e Terras do Sem Fim, embora me decepcionasse mais tarde com o caráter sectário de Os Subterrâneos da Liberdade. De Graciliano, li a obra toda, pois o velho Graça e Machado são minhas paixões na literatura brasileira.


Dos estrangeiros, sempre tive predileção pelos autores franceses e russos. Balzac, Flaubert, Stendhal, Maupassant e Victor Hugo logo se tornaram familiares a mim. Somente Proust vim a ler mais recentemente. Dos russos, também ficaram de fora muitos poucos. Li Tolstói, Turguniev, Gogol, Puchkin e, naturalmente, Dostoievski. Naquela fase da minha vida, os dois livros, de ficção e não-ficção, que mais me impressionaram foram, respectivamente, Crime e Castigo e Recordações da Casa dos Mortos.

Fascinante, como estudo psicológico, a história do intelectual que, friamente, sem motivo, decide matar a anciã, apenas para provar que poderia fazê-lo sem remorso. Concordo com Franklin de Oliveira, para quem um dos mais belos momentos da literatura universal é aquele em que Raskolnikov se ajoelha ante a prostituta Sônia e beija-lhe os pés, em homenagem a toda a humanidade sofredora.

Nenhum outro autor me causou tanto impacto, dentre de tantos que li. E não exagero se disser que, ao atingir a idade adulta, tinha lido pelo menos um livro de cada um dos autores considerados clássicos. Faço a observação sem nenhum laivo de vaidade, mas apenas para demonstrar a massa de leitura absorvida por muitos jovens do meu tempo. Sim, porque eu não constituía, de forma alguma, exceção.

Não deve causar admiração, portanto, que tenham surgido, bem ou mal, tantas vocações literárias. E que se proliferassem tanto as associações culturais. Porque foi um grupo Colméia, do qual já falei, que deu origem ao PTB local. Constituído informalmente, incluía entre seus membros o historiador Mário Ypiranga Monteiro, o único do grupo, talvez, que não se deixou seduzir inteiramente pela política.

Em seguida, nasceu a Sociedade Castro Alves, na qual se agregaram jovens que tinham em comum, além das veleidades intelectuais, a proximidade geográfica, pois quase todos moravam nas ruas adjacentes à Praça da Saudade. Recordo-me de três dos seus integrantes, Almino Affonso, Aloísio Nobre de Freitas e Paulo Monteiro de Lima. Este último foi, talvez, o maior talento poético daqueles anos. Infelizmente, boêmio e romântico, desperdiçou-o em grande parte e morreu muito jovem, sem editar um único livro. Popular, seus poemas de circunstâncias, satíricos, corriam de mão em mão e deliciavam a cidade. Mas também os poemas sérios que escreveu faziam muito sucesso.


Aliás, a poesia gozava de popularidade. Quando Rogaciano Leite, poeta cearense, esteve em Manaus, deu um recital no Teatro Amazonas, com casa cheia, e foi aplaudido como um astro de canção popular. Até os comerciais eram versificados, com as emissoras de rádio lançando ao ar, a todo instante, o jingle: “Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal” ou então “Pílulas da vida do Dr, Ross, fazem bem ao fígado de todos nós”.

Nessa época apareceu também o Grêmio Álvares de Azevedo, fundado por Moacyr Vilela, Platão Araújo, Aluísio Sampaio, José Cidade e Roberto Jansen, e no qual ingressei mais tarde. Funcionava no prédio da Escola de Serviço Social, cedido por André Araújo. Ao ser admitido no grêmio, o novel associado era obrigado a ler um trabalho inédito de sua autoria.

Uma passagem cômica teve como personagem Danilo da Silva (Du Silvan), admitido no Grêmio por proposta minha. Por disposição estatutária, todo novo sócio estava obrigado a pronunciar um discurso escrito na sessão da posse. Mas Danilo, para exibir seus dotes de orador, pediu e obteve permissão para falar de improviso. Seu discurso foi bombástico, cheio de imagens grandiloquentes, marcado por gestos teatrais e pronunciado com voz embargada.

Súbito, a catadupa estancou. Durante um longo e interminável minuto, ante o desconforto dos presentes, o orador, emudecido, passeava os olhos inquietos, de um lado para o outro, em busca da palavra salvadora. Até que, constrangido, numa confissão pública, admitiu que havia decorado o discurso e fora traído pela memória. A sessão solene terminou em gargalhadas.


Um dia, uma briga interna no Álvares de Azevedo criou um grupo dissidente, formado por Alencar e Silva, José Cidade e Roberto Jansen, que saíram para fundar a Sociedade Amazonense de Estudos Literários – SAEL. Suas reuniões eram feitas numa sala do Instituto de Educação do Amazonas, e entre seus membros se incluía Astrid Cabral, que mais tarde se projetaria como poeta e contista, no sul do país.

SAEL e Álvares de Azevedo mantinham forte rivalidade e desenvolviam intensa atividade, através de promoções culturais a divulgação de trabalhos nos jornais locais. A desavença culminou com um charivari no Yara Bar, um botequim situado na Rua Marquês de Santa Cruz, entre a Alfândega e o Trapiche Teixeira, frequentado pelos trabalhadores do porto.

Uma noite, os membros do grêmio, já divididos em dois grupos, se desentenderam de vez e partiram para o desforço físico, numa pancadaria que terminou quando Moacyr Villela puxou o revólver e deu um tiro para o alto. Ninguém saiu ferido, a não ser o próprio Álvares de Azevedo que, cindido ao meio, nunca mais voltou a ser o que fora.

A dividir com a SAEL o prestígio da entidade jovem mais discreta, havia ainda o Grêmio Gonçalves Dias, integrado por Francisco Queiroz, Danilo da Silva e Othon Mendes, que se reunia na residência do último, na Avenida Joaquim Nabuco. Pouco a pouco esses grêmios se tornaram démodés e desapareceram.

Foram úteis, na medida em que se despertavam ou robusteciam o interesse de muitos jovens por assuntos culturais. Mas nada acrescentaram em termos de renovação. Na verdade, eram miniacademias, que reproduziam a Academia de Letras na forma e no espírito, e se diferenciavam muito pouco do modelo em que se haviam inspirado.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (33)


Por Jefferson Peres

No final dos anos 40 um grupo de adolescentes começou a se reunir no porão da residência de Anísio Mello, na Rua Dr. Moreira. Tinham entre si uma grande afinidade: eram todos poetas. Chamavam-se Carlos Farias de Carvalho, Jorge Tufic, Alencar e Silva, Luiz Bacellar, Antísthenes Pinto e Guimarães de Paula. Ainda seguiam as escolas romântica, parnasiana e simbolista, e eram cultores de Castro Alves, Bilac e Cruz e Sousa.

Em 1951 o grupo se separou, quando Farias, Alencar, Tufic e Antísthenes empreenderam uma viagem ao sul, a fim de entrar em contato com os meios culturais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Na Paulicéia conheceram casualmente Ramayana de Chevalier, então assessor de Adalberto Vale, presidente da Prudência Capitalização, uma poderosa empresa do ramo de seguros. Graças a Ramayana, conseguiram o apoio financeiro de Adalberto e estenderam a viagem até Porto Alegre, de onde retornaram a Manaus. A viagem entusiasmou-os tanto que, dois anos depois faziam outra com destino ao eixo Rio-São Paulo.

Na segunda foram Alencar, Tufic e Guimarães, que já encontraram Antísthenes no Rio. Outra vez de volta a Manaus, chegaram definitivamente rompidos com os cânones acadêmicos e dispostos a empreender em nossa terra um movimento de renovação cultural. Faltava-lhes, porém, o instrumento adequado a ser utilizado na execução do projeto, pois eles continuavam a se reunir em bares e porões, para discursões muito proveitosas para eles mesmos, mas sem nenhuma repercussão no meio.

Em 1954 um outro grupo de jovens, com preocupações principalmente políticas, decidiu certa noite, num banco da praça da Polícia, fundar uma associação de estudos políticos, sociais e literários. Tomaram parte da reunião Saul Benchimol, Francisco Batista, Theodoro Botinelly, José Trindade, Luiz Bacellar, Farias de Carvalho, Fernando Collyer e João Bosco Araújo.

Por sugestão de Saul, a agremiação adotou o nome de Clube da Madrugada, tanto pelos hábitos notívagos dos seus fundadores, como pelo caráter simbólico da palavra, a prenunciar um novo dia no panorama cultural da terra. E, a partir daí, passaram a se reunir todos os sábados, sempre no mesmo lugar. Logo, porém, tiveram ingresso os outros poetas da Rua Dr. Moreira, Alencar, Tufic, Guimarães e, um pouco mais tarde, Antísthenes, Luiz Ruas, Elson Farias e Ernesto Penafort, enquanto alguns dos sócios fundadores iam-se afastando gradativamente.



O Clube perdeu seu caráter eclético, sugerido na proposta original, para se tornar mais homogêneo, adquirindo uma feição nitidamente artístico-literária. Foi esse grupo de poetas que lhe imprimiu a marca e lhe traçou o rumo. Não só poetas, mas também ficcionistas e ensaístas, muito deles, aos quais se juntaram outros, como Ernesto Pinto Filho, Arthur Engrácio, Francisco Vasconcellos e Aluísio Sampaio, além de artistas plásticos, como Moacyr Andrade e Afrânio Castro, e musicistas, como Nivaldo Santiago e Pedro Amorim.

Estava deflagrado o movimento que iria provocar importantes transformações na literatura e na arte e nosso Estado. O sopro vivificador, ao subverter os valores estéticos, renovou profundamente em termos de linguagem, temática e estilo. Essa renovação continuou, por três décadas, até meados dos anos oitenta, apenas sem o ímpeto e a iconoclastia da fase inicial. 

Talvez o segredo do Clube seja explicado pela sistemática recusa que seus membros sempre opuseram às tentativas de transformá-lo numa entidade convencional. Nunca foi possível confiná-lo entre as paredes de uma sede ou aprisioná-lo na camisa-de-força de um estatuto.

Quem sabe por isso, não se burocratizou nem estagnou, continuando a fluir com suas águas oxigenadas, livremente, como um rio. Alegro-me de haver tomado parte nesse movimento, desde o início, praticamente, pois nele ingressei dois anos depois de sua fundação. Durante algum tempo exerci militância firme, enquanto alimentei pretensões literárias. Ocorre que essas ambições se exauriram com os sonetos da juventude.

Quando adquiri autocrítica suficiente para reconhecer que meus poemas eram definitivamente medíocres, decidi parar, livrando a arte poética de novos ultrajes. E, aos poucos, fui deixando de frequentar o Clube. Mas nunca formalizei meu desligamento. Nem poderia fazê-lo. Identificado com suas origens, ligado afetivamente à maioria dos seus membros, sinto-me preso ao Clube por amarras que nem o tempo nem o distanciamento físico poderão jamais dissolver.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (Final)


Por Jefferson Peres

Em 1950 tinha início uma nova década e, também, a construção de um barzinho, sem nada de especial, mas que iria marcá-la profundamente. O local era um canteiro triangular, em frente ao Guarany, onde havia um antigo chafariz desativado e dois postes de sustentação da tela na qual se projetavam filmes ao ar livre.

Ao se erguerem os tapumes, correu o boato de que seria construído um posto de gasolina. A novidade não agradou os ginasianos, que ensaiaram um movimento de protesto e ameaçaram depredar a construção. Pressionado, o então prefeito Chaves Ribeiro aconselhou o proprietário a acelerar as obras, a fim de criar o fato consumado. Diante disso, foi abandonado o projeto original, de forma circular, por outro mais feio, retangular, que pôde ser construído em tempo recorde.

O êxito do bar foi imediato e se deveu a uma conjugação de fatores. Em primeiro lugar, sua localização, nas vizinhanças de dois cinemas, três colégios, um quartel, e mais, da então concorridíssima Praça da Polícia; segundo, a excelência do seu café, talvez o melhor da cidade; e, finalmente, a simpatia do proprietário, o português José de Brito Pina, extrovertido e conversador, que em pouco tempo chamava cada um dos frequentadores pelo nome.

Batizado oficialmente de Pavilhão S. Jorge, o barzinho era conhecido popularmente por Café do Pina e, mais tarde, República Livre do Pina, por constituir um microcosmo onde se reunia o que havia de mais representativo na cidade, para discutir livremente a respeito de tudo. Eram intelectuais, políticos, jornalistas, boêmios e estudantes que faziam dali o seu ponto de encontro diário. Muitos, como eu, compareciam duas vezes, ao fim da tarde e à noite. Mas havia quem desse três expedientes, como Sebastião Norões.


O Pina era a nossa cachaça ou entorpecentes. Se não tomássemos a dose diária, ficávamos inquietos e com uma sensação de vazio. Era lá que nos supríamos de informações, pois a toda hora estava chegando alguém com as últimas. As rodas se formavam em função dos assuntos predominantes. Havia a dos intelectuais, que conversavam principalmente sobre literatura e arte; a dos interessados em política, que a discutiam em nível local, nacional e internacional; a dos desportistas, cuja conversa se limitava praticamente a futebol; e dos versáteis, que falavam a respeito de tudo.

Mas nenhuma era estanque. Todos se conheciam e as pessoas ficavam circulando de um grupo a outro. Além dos habitués, que eram dezenas, muitos outros costumavam passar por lá de vez em quando. Se alguém desejava saber o que estava ocorrendo na cidade, no Brasil e no mundo, bastava dar um pulo até a República, para ficar perfeitamente atualizado. Curioso é que esse encontro diário de tantas pessoas, com pontos de vista diferentes e até antagônicos, gerasse discussões calorosas, mas sem nenhuma animosidade. Esse clima cordial e ameno jamais foi quebrado.

Mas houve um incidente entre dois poetas que merece ser contado. Um dos “habitués” do Pina se chamava Alberto Amorim, ou melhor, Alberto Urubatão Israel Barbosa de Amorim, mais conhecido por “ Boi Morto”, um apelido de origem desconhecida, talvez ignorada pelo próprio Alberto. Era uma figura estimadíssima, de permanente bom humor, que não se abalava nem quando lhe chamavam o apelido nem quando gozavam o seu discutível talento poético, manifestado na forma de superados sonetos parnasianos estampados na imprensa local.

Sem emprego fixo, militou na imprensa como repórter em quase todos os jornais da cidade. Vivia “liso”, a filar cigarros e cafezinhos dos amigos. Sua principal vítima era Moacyr Villela, amigo inseparável que o socorria nos momentos de maior aperto. Fisicamente, chamava logo a atenção. Estrábico, com óculos de grossas lentes, barrigudo, pé de papagaio, andar desengonçado, tornava-se ainda mais cômico quando soltava risadas sacudindo o corpo todo e pondo à mostra a dentadura bastante desfalcada. Nem por isso perdia a mania de galã. Vivia assediando as mulheres bonitas da cidade, solteiras, casadas e viúvas, através de longas conversas telefônicas.


Às vezes, as mulheres cediam às cantadas e marcavam encontros que terminavam sempre de maneira frustrante, quando elas, ao verem a figura pela primeira vez, mal disfarçavam a decepção e nunca mais voltavam a procura-lo. Mas ele não se dava por achado e insistia em alardear para os amigos histórias de conquistas imaginárias que ninguém levava a sério. Incapaz de atos violentos, algumas vezes, no entanto, se atritou com pessoas atingidas por sua língua solta e seus gestos irrefletidos.

O mais rumoroso desses incidentes envolveu o poeta Luiz Bacellar. Este obtivera, pouco antes, o primeiro lugar num concurso nacional de poesia promovido pela revista A Cigarra, com o “Soneto a Charles Chaplin”, uma pequena obra-prima digna de figurar em qualquer antologia. Boi Morto, então, comentou numa roda que Bacellar teria cometido plágio, sem revelar quem teria disso o poeta plagiado. Nem poderia, porque a acusação era injusta e descabida.

Quando Bacellar soube, ficou uma fera, como era natural. Mas, impossibilitado de aplicar um corretivo no outro, dada a desproporção física entre ambos, partiu para outro tipo de vingança. No dia seguinte publicou em O Jornal um soneto intitulado “Boi Morto” que iniciava com o seguinte quarteto: “É morto o boi, o mais cornudo boi / De toda a vacaria, e tal mau cheiro / Se evola da carcaça que o terreiro / Se empesta tanto que o fedor já dói.”

Grande foi a repercussão do poema, mas o alvo nesse dia não foi encontrado, para as chacotas inevitáveis. Enfurnado em casa, de lá mesmo telefonou para Bacellar marcando um encontro na Praça da Polícia à meia-noite. Temeroso, mas cheio de brio, o poeta, que sempre foi um notívago inveterado, aceitou o convite e, à hora combinada, plantou-se no local, à espera do antagonista.

Logo depois apareceu Alberto, que foi direto ao assunto. Com um recorte de jornal na mão, dirigiu-se a Bacellar, dizendo: “Está aqui o seu poema. Agora você vai engolir”. Ao que o poeta replicou: “Não engulo coisa nenhuma”. Ante a negativa, Alberto sacou de um revólver e apontou-o para o rosto de Bacellar, a um palmo de distância, gritando: “Você vai engolir, sim”. O confronto era desigual, pois o poeta, além de desarmado, tinha compleição franzina e nunca se envolvera numa luta física em toda a sua vida. Mas aconteceu o inesperado. Sob o impulso do medo, num reflexo de que ninguém o julgaria capaz, Bacellar, num gesto felino, arrebatou a arma da mão do adversário e atirou-a ao tanque próximo.


A seguir, preparou-se para enfrentar a arremetida do outro. Mas, para sua grande surpresa, Alberto, em vez de reagir com fúria, levou as mãos à cabeça e exclamou: “Não faça isso, que o revólver é emprestado!”. A seguir, pulou para dentro do tanque, onde ficou à procura da arma, em plena madrugada, com água pelos joelhos. Não voltaram a se hostilizar, mas também nunca mais se falaram. Alberto morreu, muitos anos depois, em Curitiba, certamente sem guardar, em seu espírito generoso, rancor algum de Bacellar.

Impossível enumerar todos os seus frequentadores, sem o risco de graves omissões. Mas, para homenagear a todos num só, devo ressaltar a figura do poeta Sebastião Norões. Começou a frequentá-lo desde a sua inauguração e assim continuou durante cerca de vinte anos, até morrer. E foi lá praticamente que se despediu da vida.

Promotor público e professor, morou sempre bem próximo ao Pina. Primeiro na casa de sua mãe, na Avenida Sete de Setembro. Depois, num pequeno apartamento, na Rua Rui Barbosa. Celibatário, sua vida era uma rotina diária entre o Tribunal de Justiça, o Ginásio, o Pina e o Guarany. Saía de um e entrava no outro, com paradas mais frequentes na República, para o bate-papo e o cafezinho, que consumia às dezenas, fumante inveterado que era. Sempre muito tranquilo, avesso a discussões, andava de roda em roda, mais ouvindo do que falando. Como já disse, de manhã, de tarde e de noite.

Certo dia, ele tomava o seu habitual cafezinho, no balcão, quando se sentiu mal. Socorrido, foi levado de carro para o Pronto-Socorro, onde morreu horas depois. Por uma coincidência feliz, as últimas imagens deste mundo que gravou na retina foram exatamente os três pedaços de chão que mais amou: o Pina, o Ginásio e o Guarany.

O destino poupou a Norões o desgosto de assistir à decadência e ao melancólico fim da República. Anos mais tarde, sacrificado ao Moloch do trânsito, o Pavilhão São Jorge foi demolido. Algum tempo depois foi reconstruído. Mas quando isso aconteceu, já vivia das glórias passadas, com esmaecidos lampejos do brilho de outrora.
A República Livre do Pina desapareceu e o Clube da Madrugada, com a dispersão da velha-guarda, se modificou. Mas para mim ambos permanecem intactos, como símbolos do esforço de todos aqueles que persistem na busca onírica de um ideal de justiça e beleza, a ser perseguido sempre, como única maneira de se emprestar sentido à trajetória humana sobre a Terra.

terça-feira, maio 30, 2017

Não há heróis nessa farsa de horror


Por José Nêumanne

Desarmado, inerme e calado diante do tumulto, o cidadão comum, que se esforça, sua e sofre, gostaria de saber por que Joesley Batista, de uma família de modestos açougueiros de Anápolis, no Goiás de Íris & Íris Rezende, Carlinhos Cachoeira, Demóstenes Torres e dos Caiados, tiraram a sorte grande desde o começo. De marchantes dos ermos a reis do mundo da carne verde ou seca, trilharam um caminho que deu na Quinta Avenida, com direito a missa de domingo na Catedral de São Patrício. Enquanto isso, o tal cidadão, que pagou a conta, está desempregado ou, se ainda não perdeu o emprego, morre de medo de se juntar a quem mendiga seguro-desemprego ou, no mínimo, trabalha o dobro para ganhar um terço do salário que um dia já recebeu e, pelo visto, nunca mais será o mesmo.

Seria natural que ele tivesse um herói a quem se agarrar, não para suplicar um lugar ao sol de Manhattan, mas para pelo menos viver com um mínimo de dignidade, que agora lhe é negado. Qual o quê? Apenas lhe resta ser exemplo para si mesmo, pois nem aos próprios filhos pode vender seu modelo de honestidade, que esse tipo de virtude no Brasil de hoje só pode dar uma camiseta regata toda esburacada. No filme que vê diariamente nos telejornais do dia a dia só atuam vilões da pior espécie, dos quais não dá nem para comprar uma bicicleta usada e enferrujada recém-saída do ferro-velho, quanto mais votar e pôr, de novo, nas mãos da gangue de sempre toda a poupança nacional vilipendiada.

De claro mesmo só a evidência de que os irmãos Batista e seus executivos, sócios e empregados se saíram muito bem em sua trajetória de sanguessugas do esforço coletivo. Na hora de delatar só pensaram no prêmio que iam ganhar, com direito a ex-miss no tálamo e dupla sertaneja nas festas de papai e mamãe. O patrocinador dessa farra toda é padim Lula de Caetés, que os afilhados não hesitaram em delatar para desfrutar o bem-bom na Big Apple e o convívio com os filhotes, matriculados em boas escolas e com o futuro garantido por muitas gerações. Não precisaram, pelo menos até agora, nem contar a verdadeira história do acúmulo daquilo que o velho Marx, o barbudo a quem sempre recorrem os acólitos sabidos do ex-sindicalista, batizou de mais-valia. Até agora ninguém ficou sabendo como isso de fato aconteceu e esse é um relato para ser reproduzido na história do crime no capitalismo selvagem.

Os Batistas não caíram na armadilha de Marcelo Odebrecht, que demorou muito para delatar e terminou pegando cana dura e brava. Nem repetiram o garoto esperto Eike Batista, que resolveu dar uma de migué e entregar uns caraminguás sem contar com a astúcia de Chapolim Colorado dos agentes policiais, que não entraram em sua cantiguinha de cego. Resolveram contar tudo, sem esconder nada, antes de algemas e tornozeleiras.

Para isso, sabiam que podiam contar com um agente da lei disposto a usar a própria expertise em malandragem para se dar bem. E, assim, assim contrataram para ajudar a preparar sua proposta de delação premiada justamente Marcelo Miller, o procurador que era tido como o braço direito do procurador-geral Janot. O ex-procurador saiu do Ministério Público Federal em março para trabalhar no escritório Trench, Rossi & Watanabe, do Rio de Janeiro, que, “por sorte”, não menos do que “por acaso”, presta serviços advocatícios ao grupo delator. Quanta coincidência!

Os irmãos Esley Safadões delataram outro procurador, que funcionava como um X 9 de dez dedos, Angelo Goulart Vilella, pela nada módica quantia de R$ 50 mil por mês. Mas, para a J&F, holding da JBS em que resultou o antigo açougue de Zé Mineiro, pai dos alcaguetes mais finórios do país da malandragem, Miller nunca teve nada que ver com a permanência dos milhões nos saldos bancários dos marchantes bilionários.

Acredite quem quiser. Mas o espetáculo precisa continuar. Sem faltarem oportunistas nesse conto de carochinha de horror. O Ministério Público Federal (MPF) foi tão camarada dos próprios colaboradores que nem se deu ao trabalho de periciar a gravação que o generoso informante lhes deu com a prova dos crimes do chefão do governo federal. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, endereçou ao relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Edson Fachin, o pedido de investigação do presidente Michel Temer, sem titubear. E Fachin pôs seu jamegão no papel, pois, afinal, o juiz, advertiu, só verifica a legalidade da delação, sem discutir o prêmio a ser dado ao delator.

No meio da confusão, Jorge Bastos Moreno registrou no “Cantinho do Moreno”, do Globo, que o relator passeou pelo Senado na companhia de Ricardo Saud, um dos delatores da JBS, para conquistar a simpatia dos “varões de Plutarco” amigos dos barões da proteína. Jura que não sabia que a empresa era dada à delinquência. Talvez em 2015 só ele não soubesse, tão inocente, diria o Compadre Washington. Mas, já avisou Marco Antônio perante o cadáver de César, doutor Fachin “é um homem honrado”.

Não falta quem discuta essa desculpa entre seus pares. Marco Aurélio Mello, interessado em melar delações premiadas em geral e as da Lava Jato em particular, logo avisou que quem sentencia é juiz, e procurador é parte. Na cola dele veio o loquaz Gilmar Mendes que, apesar de presidir o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tem tempo para dar diariamente seus showzinhos de arrogância (“o Supremo somos nós”, à Luís XIV).

Este engatou seu vagão retórico na locomotiva do primo de Collor e já aproveitou para deixar claro que quer pegar carona no deslize de Fachin para desautorizar a maioria do plenário, da qual até ele fez parte, para presentear os advogados de grã-finos do Brasil com a volta atrás na decisão da prisão de condenados após a segunda instância.

O colega Luís Roberto Barroso chiou. E com razão. Quem negará a razão de seus pronunciamentos ao UOL? O Judiciário não pode servir como “um instrumento para perseguir inimigos e proteger amigos”, disse Barroso, agora que a Lava Jato chegou a Michel Temer (PMDB) e Aécio Neves (PSDB). “A jurisprudência não pode ir mudando de acordo com o réu. (…) Você só muda a jurisprudência quando existe mudança na realidade ou na percepção social do direito. Não aconteceu nem uma coisa nem outra.”

De fato, a realidade não se limita às opiniões dos líderes do mimo aos reis da segunda instância, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello. “É preciso mostrar às novas gerações que o crime não compensa e que o mal não vence no final. Será uma pena se o Brasil retroceder nisso.” Aí é que mora o busílis. Quem é cavalgado sabe que ele está certo e quer que sua opinião vença. Mas quem cavalga…

Não tenha ilusões de que exista alguém nessa briga que esteja realmente empenhado em defender a cidadania. O ministro Gilmar Mendes pretende somente facilitar a vida de dois amigos em dificuldades: Michel Temer, presidente da República, e Aécio Neves, ex-presidente nacional do PSDB. Nada tem que ver com inocentes que eventualmente percam seu direito de defesa prolongado às calendas pela eventual permissão de prisão apenas para condenados em terceira instância, como propugna Dias Toffoli.

Assim, o presidente do TSE segue, confirmando uma parceria iniciada na Segunda Turma no plano comum de liberar acusados do PSDB, de cujo governo (Fernando Henrique) ele foi advogado-geral, e do PT, de cujo governo (Lula) Toffoli foi advogado-geral e a cujos filiados serviu de forma servil já como ministro do Supremo, no julgamento do mensalão.

Contra a delação de Joesley não são seus inimigos, mas os amigos de Temer, Aécio, Lula, Dilma e outras vítimas de sua bocarra. A favor dela é quem quer ver esses figurões pagar pelos delitos de que são acusados, seja em que instância for. Quem conhece bem o Brasil sabe que não sai punição no andar de cima da Justiça. Só na primeira instância. De resto, de boas intenções, dizia minha avó, o inferno está cheio.

No Brasil de hoje, reprodução bastante próxima do inferno visitado por Virgílio, o poeta romano e protagonista da Divina Comédia de Dante, só há agentes do Estado com as intenções mais personalistas que existem. São todas ótimas, mas só interessam a seus amigos, parentes, afilhados e apaniguados. O resto é mera lorota. Sob qualquer pálio ideológico.