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quarta-feira, março 10, 2010

Fechado pra balanço


Por motivos alheios a minha vontade de anarco-trotskista 4Life, o mocó vai sair do ar por algumas semanas. Espero retomar a presepada a partir do próximo mês. Por enquanto, se divirtam com essa historinha do tempo em que éramos todos jovens.

Depois do golpe militar de 1964, ocorreu uma diversificação de grupos políticos no cenário nacional, que vão desaguar no movimento estudantil na década seguinte.

No cenário nacional, os partidos políticos foram dissolvidos e, a partir de 1965, por imposição do regime, passaram a existir somente dois partidos: a situacionista Aliança Renovadora Nacional (Arena), e a oposição “moderada”, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que era uma frente de partidos colocados na ilegalidade.

Fora do campo institucional, vários grupos de esquerda resistiram e procuravam combater a ditadura pela guerrilha urbana ou rural.

A Ação Popular (AP) nasceu em 1961, após uma racha na Juventude Universitária Católica (JUC).

A Organização Revolucionária Marxista – Política Operária (ORM-Polop) também foi fundada em 1961.

A primeira grande cisão importante ocorreu no Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1962, dando origem ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB).


Outra dissidência do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a Ação Libertadora Nacional (ALN), surgida em 1967, era intimamente ligada a Carlos Marighella, que, com o lema “a ação faz a vanguarda”, tentou disseminar a guerrilha urbana entre os anos de 1968 e 1973.

A mais famosa ação da ALN foi a participação no seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, no Rio, em parceria com o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), outra dissidência do PCB.

Ainda em 1967, a maior parte dos militantes da Polop de Minas Gerais se desligou da organização para fundar o Comando de Libertação Nacional (Colina).


A Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), fundada em 1968 pelo ex-capitão Carlos Lamarca – que depois passaria para o MR-8 –, era uma dissidência do PCdoB.

O Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), outra cisão do PCB, também foi formado em 1968.

Posteriormente, em meados de 1969, remanescentes da VPR e do Colina, se uniriam para formar a Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares).

A partir de 1975, consolidam-se nas universidades as correntes organizadas nacionalmente, que expressavam veladamente as posições da esquerda brasileira depois da derrota da luta armada.

Tais tendências revelam a persistência das organizações tradicionais como a Ação Popular e MR-8 (agrupado por algum tempo na corrente “Refazendo”) e o PCB (da corrente “Unidade”).

Mostravam também uma nítida ascensão do Partido Comunista do Brasil (corrente “Caminhando”, que depois passou a se chamar “Viração”), fortalecido pelo prestígio da guerrilha derrotada no Araguaia e pelos novos quadros que ganhava na fusão com a Ação Popular Marxista-Leninista (cisão da AP).

Se até então o movimento estudantil era informado, principalmente, pelos partidos marxistas, leninistas e stalinistas, nos anos 70 começam a surgir as correntes trotskistas.

Os primeiros passos do trotskismo no Brasil foram dados na formação do Grupo Comunista Lênin (GCL), em 1930, e logo depois na fundação da Liga Comunista Internacionalista (LCI), em 1931.


A Liga reunia o crítico de arte, jornalista e professor Mario Pedrosa (expulso do PCB em 1929 após uma viagem em que teve contato com os textos de Trotsky), Aristides Lobo, Livio Xavier e João Costa Pimenta, entre outros.

Expulso da União Soviética em 1928, Trotski organizou a Oposição de Esquerda Internacional, onde juntou todo tipo de descontentes e opositores ao Estado soviético e aos partidos comunistas, desde antigos sindicalistas revolucionários para quem o socialismo seria uma espécie de república sindical, até anarquistas descontentes com a revolução russa.

Inicialmente, o trotskismo apresentou-se como oposição comunista, que lutava para trazer os partidos comunistas (inclusive o da União Soviética ) de volta ao caminho da “revolução”, que julgavam abandonado.

Em 1936, contudo, Trotski foi condenado in absentia no primeiro dos grandes julgamentos realizados em Moscou nos anos 30. Foi acusado de conspirar pela derrubada do governo soviético.

Em resposta, Trotski passa a considerar como burocratas contra-revolucionários os dirigentes bolcheviques.

No final da década de 1930, os trotskistas ainda eram em reduzido número e tinham avançado muito pouco.

Para reuni-los e colocar seu movimento em novo patamar, Trotski dirigiu a fundação da IV Internacional, ocorrida em 3 de setembro de 1938, em Paris, com a presença de delegações de 10 países (URSS, Inglaterra, França, Alemanha, Polônia, Itália, Grécia, Holanda, Bélgica e EUA, e um delegado representando os grupos trotskistas da América Latina).


O documento básico aprovado no encontro, escrito por Trotski, foi “A agonia mortal do capitalismo e as tarefas da IV Internacional” (aka “Programa de Transição”). Mario Pedrosa participou da fundação da IV Internacional.

Além das teses trotskistas tradicionais, o Programa de Transição defendia a necessidade de uma revolução política na URSS, cujas principais tarefas eram o fim da ditadura burocrática, o restabelecimento de democracia operária e a entrega da direção do Estado aos órgãos de representação direta dos trabalhadores, os sovietes.

Nos países capitalistas, o Programa de Transição previa um papel destacado para os sindicatos. Eles deviam ser um campo de atuação privilegiado da vanguarda operária.

Em consequência, os trotskistas deviam agir nas grandes organizações sindicais dominadas pelos burocratas.

Ao mesmo tempo, o Programa de Transição enfatizou a necessidade de se criar organismos mais amplos, que representassem todos os participantes engajados na luta, como os comitês de greve, comitês de fábrica – que poderiam incluir os representantes sindicais alienados ou pouco representativos –, proposta em que se pode identificar um eco do tipo de partido ampliado defendido pelos mencheviques.

A guerra imperialista de 1939-1945, cujo principal alvo foi a URSS, bem como as conseqüências da invasão da URSS pelos nazistas, culminando na vitória e na grande resistência do povo soviético contra os alemães que assombrou os generais de Hitler, supostamente desmentia a tese trotskista de divórcio entre o governo e o povo na União Soviética.


Quando terminou a guerra, a União Soviética e os comunistas tinham um prestígio imenso aos olhos dos democratas de todo o mundo. Os trotskistas, por sua vez, começavam esse novo período histórico que se abria enfraquecidos e corroídos por cisões em seu movimento.

A defesa incondicional da União Soviética já havia provocado um cisma ainda quando Trotski era vivo: por não concordar com ela, o trotskista estadunidense J. P Connon afastara-se dos dirigentes da IV Internacional.

No pós-guerra, dois grupos foram gestados no interior da IV Internacional e a tensão entre eles já era visível no começo dos anos 50.

Para Michel Pablo, dirigente da IV Internacional, o realinhamento mundial e a divisão em dois blocos opondo os EUA à URSS criavam as condições para uma radicalização revolucionária na União Soviética e nos partidos comunistas. Assim, os trotskistas deviam entrar nos PCs, para auxiliar ao máximo, da melhor maneira, o processo objetivo revolucionário.

Em agosto de 1951, o 3º Congresso da IV Internacional aprovou as teses de Michel Pablo. A maioria do Partido Comunista Internacional, seção francesa da IV Internacional, discordou e acusou Pablo de abandonar o Programa de Transição e apoiar o stalinismo.

Em julho de 1952, a maioria do PCI foi expulsa da IV Internacional. Estava consolidada a divisão que deu origem aos dois principais grupos trotskistas de nossos dias.


O primeiro deles é o Secretariado Unificado da IV Internacional, liderado por Ernest Mandel.


O outro é o Comitê Internacional da IV Internacional, herdeiro da luta iniciada pelo PCI em 1952, e dirigido pelo francês Pierre Lambert.


Formou-se também, na época, a Liga Internacional dos Trabalhadores, liderada pelo argentino Nahuel Moreno.

No Brasil, o dirigente do PCB, Hermínio Sacchetta, rompe com o partido e se une ao grupo de Mario Pedrosa, formando o PSR (Partido Socialista Revolucionário), reconhecido como seção brasileira da IV Internacional.

Logo viria uma grave crise com a polêmica sobre apoiar ou não o stalinismo. Pedrosa aderiu às teses anti-stalinistas e rompeu com a Internacional.

O PSR sobreviveu muito enfraquecido e acabou definitivamente em razão da direção da IV Internacional, que defendeu um entrismo no PCB. O defensor direto dessa política era Juan Posadas, dirigente do birô latino americano da IV Internacional.

Hermínio Sacchetta resistiu ao entrismo, mas terminou se afastando do partido. Foi organizado então o Partido Operário Revolucionário (POR), já sob a direção direta de um emissário de Posadas.

Na década de 70, o trotskismo brasileiro ganhou novas perspectivas com a estruturação de três correntes distintas atuando no movimento estudantil.

O Secretariado Unificado se expressava na corrente estudantil “Centelha”, que daria origem à Democracia Socialista (DS).

A Organização Socialista Brasileira (OSI), ligado ao “lambertistas”, animava a corrente estudantil “Liberdade e Luta” (aka “Libelu”), que se transformaria na organização O Trabalho.

A outra, “Novo Rumo”, que tinha origem morenista e era oriunda da Liga Operária, depois Convergência Socialista, seria a principal corrente a formar o PSTU.

Todos os três grupos fizeram entrismo não no PCB, mas no PT, sendo que depois seguiram caminhos bem distintos.

A DS não só se adaptou ao PT, como participou do governo Lula indicando o ministro da Reforma Agrária. Hoje é um movimento eleitoral reformista.

O Trabalho seguiu trajetória semelhante. Completamente adaptado ao reformismo, cumpre hoje o papel lamentável de ser um dos principais defensores da CUT contra todos os setores que rompem pela esquerda.

O PSTU incorporou as duas características fundamentais da corrente morenista da qual se originou: o vínculo com movimento dos trabalhadores e a luta contra os aparatos burocratas. A Convergência Socialista pôde assim romper com o PT e ajudar a fundar o PSTU.

Contraponto perfeito da “Viração” (braço estudantil do PCdoB, que acendia velas para Stálin, Mao Tsé-Tung e Henver Hodja), a barulhenta e numerosa “Libelu” era muito fashion para a sua época.


Seus militantes descartavam a música engajada, forró e samba. Internacionalista, a Libelu adotou o rock, símbolo do movimento hippie. Socialista e revolucionária, ela também rejeitava o socialismo real.

Nada de Stálin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro ou Pol-Pot. Seus ídolos eram Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Pierre Bruoé e Pierre Lambert.

Com as madeixas compridas, bolsa a tiracolo, calça jeans e botinha, os militantes da Libelu sempre tinham à mão a última edição do jornal O Trabalho.

Produto da imprensa nanica, o veículo denunciava a ditadura civil e militar, fazia campanha por anistia ampla, geral e irrestrita e divulgava ações dos trabalhadores em nome do internacionalismo proletário.


Em defesa de um partido operário independente da burguesia, do stalinismo (PCB, PCdoB e MR-8) e da social-democracia, a Libelu pregou o voto nulo em 1978. Para as demais correntes estudantis, eles não passavam de um bando de “porras loucas”. Mas, nos final dos anos 70, eram o sal da terra.

Em janeiro de 1978, a futura jornalista Verenilde Pereira, militante da corrente “Unidade”, estava aniversariando naquele mês e iria se formar naquele ano. Seus companheiros de movimento estudantil resolveram festejar seu aniversário e sua formatura com um presente inesquecível: uma tartarugada regional.

Havia um único problema: eles não tinham a menor idéia de onde conseguir uma tartaruga de três palmos de peito e, mesmo que soubessem onde encontrar, também não tinham dinheiro suficiente para adquirir o pitéu.

Depois de muita discussão, eles resolveram expropriar uma tartaruga existente na piscina do aeroporto Eduardo Gomes, presenteada ao Infraero pelo então prefeito de Manaus, coronel Jorge Teixeira.


Na noite combinada para a façanha, Guto Rodrigues, Bernadete Andrade e Greco embarcaram em um fusquinha 72, enquanto Mariolino Brito e Deise, na época mulher do Rui Brito, embarcaram em um corcel cupê 73.

Os dois grupos táticos se encontraram em frente ao aeroporto por volta da meia-noite. Estudaram o ambiente. Havia vários soldados do Exército armados de metralhadoras patrulhando a área.

O desencanado Greco, um afro-descendente de quase dois metros de altura, exímio capoeirista e portador de um único dente frontal na boca, se aproximou da piscina, identificou a localização do quelônio e fez um sinal para o resto da turma.

Abraçados pela cintura como se fossem dois casais de namorados, Guto, Bernadete, Mariolino e Deise se aproximaram da piscina, fazendo uma “paredinha” em torno de Greco, enquanto fingiam observar os peixes.

Este se sentou na borda da piscina e, com a agilidade de um felino, conseguiu puxar a tartaruga de dentro d’água utilizando os dois pés.


Os cincos saíram caminhando rapidamente em direção ao corcel cupê 73, depositaram a carga no porta-malas e abandonaram a cena do crime. As diversas patrulhas de soldados não perceberam nada.

O pequeno comboio se dirigiu ao Japiim, onde morava a Verenilde, e entregaram a encomenda. Depois, cada qual seguiu para sua casa. Tinha sido o chamado crime perfeito.

Na hora em que deixou Bernadete em sua casa, Guto teve uma surpresa: percebeu que sua tiracolo de pano estava completamente vazia. Ele, Bernadete e Greco começaram a procurar seus documentos dentro do carro. O lugar mais limpo.

Greco entrou em desespero:

– Camarada, não vá me dizer que os teus documentos caíram lá no aeroporto... Só faltava essa!

Bernadete também ficou nervosa:

– Não adianta a gente voltar ao aeroporto pra conferir porque a esta altura do campeonato eles já devem ter descoberto o roubo da tartaruga...

Guto estava pálido:

– Camaradas, se a polícia encontrar meus documentos, a gente vai ser expulso do partido por colocar a organização em risco porque na minha agenda está o nome dos militantes, com telefone e endereço. E o pior é que vão nos acusar de desvio pequeno-burguês porque a gente foi roubar logo uma tartaruga, que é comida de rico. O Belarmino Marreiro vai ficar muito puto!

Depois de meia hora discutindo o que fazer, Guto Rodrigues viu uma luz no fim do túnel.

– Vamos lá na casa do Mariolino, explicar o que aconteceu. Eu só fiz um movimento brusco que poderia provocar a queda dos documentos da bolsa, que foi quando colocamos a tartaruga no porta-malas. Se Deus for marxista, os documentos caíram dentro do porta-malas. Se não, a gente se ferrou...

Em quinze minutos, os três estavam acordando Mariolino Brito, lá no bairro da Glória. Quando contaram a presepada, ele quase teve um enfarto. Abriram o porta-malas do corcel cupê 73 e começaram a procurar.

Para sorte dos meliantes, os documentos estavam lá, entre o estepe e o macaco. Eles comemoraram a façanha detonando meia dúzia de cervejas e fizeram um pacto de sangue de jamais relatar aquele roubo nem sequer para os dirigentes do PCB. Mantiveram a promessa.

Quando o seqüestro da tartaruga foi descoberto, os jornais da cidade fizeram o maior estardalhaço, denunciando a falta de segurança do aeroporto internacional Eduardo Gomes. O coronel Jorge Teixeira ficou possesso.

O governador Henoch Reis garantiu que os responsáveis seriam identificados e presos nas próximas horas.

A Segunda Seção da Polícia Militar, o Deops, o SNI, o Cenimar e a Cisa entraram em campo, mas todos deram com os burros n’água. Nada foi apurado.

Os estudantes da corrente “Unidade” começaram a espalhar no campus universitário que aquilo só podia ter sido coisa do pessoal da “Libelu”.

A repressão contra os “porras loucas” foi intensificada.

No sábado seguinte, uma tartarugada regional era servida no capricho na casa da Verenilde, com a presença do diretor teatral Fernando Peixoto, que havia acabado de montar “Calabar – O Elogio da Traição”, do escritor Márcio Souza, do antropólogo José Ribamar Bessa Freire e de todos os militantes da “Unidade”: Guto Rodrigues, Bernadete Andrade, Rui Brito, Orlando Farias, Deise, Socorro Andrade, Mariolino Brito, Greco, Terezinha Araújo, Jorge Machado, Lino Chíxaro, Alice Alecrim, Nestor Nascimento, André Gatti, Palmes, Luiz Barreiro e o resto da curriola.

A vida bem vivida é feita dessas pequenas coisas...

PS: Pra quem não sabe, a Verenilde é tia da minha filha caçula, a Marisa. Mas na época ela não sabia que iria ter esse destino. Fazer o que?

segunda-feira, março 08, 2010

Hold Your Horses faz um passeio pela memória pictórica do planeta



A referência ao Andy Warhol é simplesmente primorosa!

Dia Internacional das Mulheres: o avanço das mulheres muçulmanas na Universidade do Cairo


Formandos da Classe de 1959 - ausência absoluta de mulheres de véu


Formandos da Classe de 1978 - duas ou três mulheres de véu


Formandos da Classe de 1995 - as mulheres de véu empatam o jogo


Formandos da Classe de 2004 - as mulheres de véu viram o jogo

"O véu dignifica a mulher", diz brasileira muçulmana


Para as muçulmanas, o hijab faz que elas sejam conhecidas pelo espírito e não pela aparência

Brasileira e muçulmana, Magda Aref Abdul Latif, formada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e membro do Centro de Estudos e Divulgação do Islã, acredita que o Ocidente tem uma visão distorcida sobre a mulher muçulmana.

"O Ocidente sempre vê a mulher islâmica como inferior e submissa, mas o Islã sempre foi uma religião que inovou no direito das mulheres", afirma.

Apesar de ser de família muçulmana, ela diz que se tornou religiosa por interesse próprio a partir dos 14 anos, quando começou a ter aulas de islamismo com um sheik. Magda é casada há seis anos com um muçulmano e tem uma filha de três meses.

Ela conversou com Gente Online sobre as mulheres muçulmanas e a visão que o Ocidente tem da religião.

O que você acha do tema islamismo ser abordado numa novela brasileira?

Nós temos uma vantagem muito grande que é o fato da nossa religião, que foi sempre tão pouco conhecida ou mal conhecida e mal entendida, entrar em todas as casas do brasileiro. Mas a desvantagem é que, como qualquer novela, ela é fantasiosa, tem coisas que não correspondem à realidade.

Quais são esses erros?

Por exemplo, quando o tio dá um tapa na cara da menina. Eu acho que uma pessoa religiosa jamais teria uma atitude como aquela. Quando falam da mulher, perguntam se ela é 'prometida'. E não é assim que acontecem os casamentos. Eu conheci meu marido aos 14 anos e nós nos apaixonamos. Eu fiquei noiva os 16 e casei aos 18.


Por debaixo dos véus e das roupas longas que cobrem todo o corpo as muçulmanas soltam a voz

Como é a vida da mulher muçulmana?

Não existe a mulher muçulmana. Existem as mulheres muçulmanas. Isso depende de vários fatores como condição social e país de origem. A mulher muçulmana reza cinco vezes por dia, mas não são todas que cumprem, como em qualquer mandamento religioso. No Brasil, nós usamos o véu num país onde quase não se conhece. Praticamos as orações, fazemos jejum no mês de Ramadã. As meninas trabalham, estudam, outras são donas de casa, tem de tudo.

Você acha que existe igualdade entre homens e mulheres no islamismo?

Isso é um assunto muito discutido. Porque a mulher muçulmana é vista pelo Ocidente como uma mulher que tem menos direitos, inferiorizada, submissa. Até pela própria veste se associa isso. Para o Ocidente o fato da mulher usar o véu é sempre associado à submissão e ignorância. Já para a mulher muçulmana o véu é entendido como algo que a dignifica, dá valor, que impõe respeito. É uma idéia diametralmente oposta à que o Ocidente faz do véu e da própria mulher. Quanto aos direitos e deveres, o Alcorão é bem claro quando diz que a mulher tem direitos sobre o marido e o marido sobre a mulher. O Islã foi uma religião que inovou nos direitos da mulher em coisas que a Europa só conseguiu há pouco tempo. A mulher no Ocidente não votava. A muçulmana tem esse direito desde o surgimento do Islã. A mulher tem o direito ao divórcio e à herança, o que é bem mais recente na Europa.


A comunidade muçulmana cresce também em São Paulo entre os descendentes de árabes e pessoas oriundas de outras religiões

Como a mulher islâmica é tratada por sua família?

Para o muçulmano é obrigação do homem sustentar a mulher e os filhos. Isso é um dever dele. Se a mulher quiser trabalhar fora, esse dinheiro é dela.

As muçulmanas podem se produzir, pintando as unhas ou usando maquiagem, por exemplo?

Está no Alcorão que toda mulher muçulmana deveria se cobrir com seus véus porque é mais conveniente para que não sejam molestadas. Isso tem uma finalidade. O significado do véu é esconder das vistas do homem tudo aquilo que desperta o desejo. Toda a sensualidade, toda a beleza, a mulher esconde isso dos homens e restringe isso ao seu marido e ao ambiente familiar. Na presença dos pais, avós, tios, sogros, a mulher pode se produzir da maneira que quiser, pode se maquiar, fazer o cabelo e se vestir da maneira que quiser. O objetivo é não despertar o desejo de outros homens.


O islam é a religião que mais cresce no mundo. Por isso é cada vez mais comum a presença de mulheres com vestes muçulmanas, inclusive no Brasil, em grandes cidades como o Rio de Janeiro

O que você acha do domínio da milícia Talibã no Afeganistão e da vida das mulheres nesse regime?

Olha, sobre o Afeganistão, a gente não sabe o que realmente acontece lá. Mas, se for assim como está sendo divulgado na mídia, o que eu tenho a dizer é que a realidade daquele país passa muito longe do que é o Islã. O Islã não prega nada daquilo, que a mulher seja proibida de trabalhar ou de estudar. O Islã sempre incentivou a busca do conhecimento. O profeta Mohamed diz que a busca do conhecimento é uma obrigação tanto para o muçulmano como para a muçulmana.

O que você acha do cinema iraniano?

Eu gosto muito. Eu acho que são filmes que convidam o expectador a refletir sobre o mundo muçulmano. Mas ele não convida só os muçulmanos. São questões que perpassam a realidade do mundo todo, como a situação da mulher.

sexta-feira, março 05, 2010

Rui de Carvalho canta Noel Rosa









O Superman da canção


Como se houvesse acabado de descobrir um novo manuscrito do Mar Morto, o engenheiro de sistemas Roberto Souza (aka “Bob Crusp”) dispara pelo telefone:

– Você já prestou atenção na letra “Superman”, da Laurie Anderson? Aquilo foi uma profecia para o 11 de Setembro...

– Porra, Bob, você andou fumando maconha vencida?... – limito-me a indagar.

Ele insiste:

– Aquela parte que diz “você não me conhece, mas eu sei quem você é”, são os muçulmanos questionando a arrogância americana. E quando a voz diz “os aviões estão chegando”, é um prenúncio do holocausto...

– Nesse caso, quem é o Superman? – resolvo avacalhar.

– O Osama Bin Laden, porra! Ele é o juiz, o pai e a mãe dos terroristas! – devolve ele, já ficando puto com o meu ceticismo anarquista. “Ele é a mão que toma, é o Osama que tem os braços petroquímicos, os braços militares, os braços eletrônicos...”

– E aquele papo de mãe?... - insisto.

– Porra, poeta, aquilo é a mãe de todas as batalhas...

Falo pro Bob Crusp que vou prestar atenção na letra com bastante calma e me despeço.

Depois que o Dan Brown inventou a teoria conspiratória universal, todo mundo anda procurando pêlo em casca de ovo.


Que eu ainda lembre, escutei a música pela primeira vez na primeira vez em que entrei na casa da Jane Jatobá, lá no Conjunto Rio Xingu, em meados de 1989.

Eu não curtia a Laurie Anderson. Achava ela tão pretensiosa e vazia quanto os outros filhotes bastardos do Kraftwerk (Devo, Eurythmics, Depeche Mode, Ultravox, Human League, Duran Duran et caterva).

A música “Superman” era a segunda faixa do lado B do LP “Big Science”, de 1982.

A Jane colocou a música pra tocar enquanto fazia um divertidíssimo strip-tease, que quase me levou às lágrimas de tão engraçado.

Ela conseguiu zoar - intencionalmente, claro! - tanto com o Superman quanto com a Kim Bassinger em "Nove semanas e meia de amor".

Nunca mais esqueci da cena nem da letra.

Pra mim, a Laurie Anderson estava falando da supremacia feminina no quesito solidariedade, dando ênfase ao amor materno.

Tipo “se sua vida estiver uma grande merda, você sempre pode contar com os braços abertos de quem lhe colocou no mundo”.

Mãe é mãe, paca é paca...

O resto são cerejas para enfeitar o bolo.

Procurei a música no YouTube e tentei uma tradução aproximada.

Continuo achando que não tem nada a ver com terrorista jogando avião em cima de edifício cheio de gente.

Vocês aí tirem as suas próprias conclusões se o querido Bob Crusp fumou ou não fumou maconha vencida.

E feliz Dia da Mulher!



O Superman. O judge. O Mom and Dad. Mom and Dad. O Superman. O judge. O Mom and Dad. Mom and Dad.

(O Superman. O juiz. A mamãe e o papai. Mamãe e papai. O Superman. O juiz. A mamãe e o papai. Mamãe e papai.)

Hi. I’m not home right now. But if you want to leave a message, just start talking at the sound of the tone.

(Oi. Eu não estou em casa agora. Mas se você quiser deixar uma mensagem, basta começar a falar após ouvir o sinal.)

Hello? This is your Mother. Are you there? Are you coming home?

(Olá? Aqui é a sua mãe. Você está aí? Você já chegou em casa?)

Hello? Is anybody home? Well, you don’t know me, but I know you.

(Olá? Tem alguém em casa? Bem, você não me conhece, mas eu sei quem é você.)

And I’ve got a message to give to you. Here come the planes.

(E eu tenho um recado pra você. Os aviões estão chegando.)

So you better get ready. Ready to go. You can come as you are, but pay as you go. Pay as you go.

(Então é melhor você se preparar. Ficar pronta pra ir. Você pode ir como você está, mas você vai pagar. Pagar pra continuar.)

And I said: OK. Who is this really? And the voice said: This is the hand, the hand that takes. This is the hand, the hand that takes.

(E eu disse: OK. Quem é mesmo? E a voz disse: Esta é a mão, a mão que toma. Esta é a mão, a mão que toma.)

This is the hand, the hand that takes. Here come the planes.

(Esta é a mão, a mão que toma. Os aviões estão chegando.)

They’re American planes. Made in America. Smoking or non-smoking?

(Eles são aviões americanos. Feitos na America. Fumante ou não fumante?)

And the voice said: Neither snow nor rain nor gloom of night shall stay these couriers from the swift completion of their appointed rounds.

(E a voz disse: Nem a neve nem a chuva nem a tristeza da noite deve suspender esses mensageiros por causa da conclusão dos círculos apontados.)

‘Cause when love is gone, there’s always justice. And when justice is gone, there’s always force. And when force is gone, there’s always Mom. Hi Mom!

(Porque quando o amor se vai, há sempre a justiça. E quando a justiça se vai, há sempre a força. E quando a força se vai, há sempre a mamãe. Alô, mamãe!)

So hold me, Mom, in your long arms. So hold me, Mom, in your long arms. In your automatic arms. Your electronic arms. In your arms.

(Então me abrace, mãe, em seus braços longos. Então me abrace, mãe, em seus braços longos. Em seus braços automáticos. Seus braços eletrônicos. Em seus braços.)

So hold me, Mom, in your long arms. Your petrochemical arms. Your military arms. In your electronic arms.

(Então me abrace, mãe, em seus braços longos. Seus braços petroquímicos. Seus braços militares. Em seus braços eletrônicos.)

quinta-feira, março 04, 2010

Morra de inveja, Bandit!


A dica foi dada pelo poeta Zemaria Pinto, leitor voraz da Sexy. A revista foi doada pelo piloto militar Francisco Mendes, o gente fina por trás (no bom sentido) do Pina Chope.

Quem posa na capa é a esfuziante Barbara Koboldt. Barbaridade, tchê! Corram atrás (afe!), no sentido lato.

Nós no Araguaia


Quando baixam as águas do Rio Araguaia, de maio a setembro, surgem maravilhosas praias de areia branca nas margens, formando milhares de ilhas, e imensos cardumes passam a desfilar pelo leito do rio barrento, que lembra um pouco o nosso Solimões.

É mais que o bastante para agitar pescadores de todo o País, principalmente os goianos, e atrair milhares de outro tipo de turista: aquele que não quer fazer nada e, ao mesmo tempo, não dispensa urbanidades como festas e boates, paqueras e esportes náuticos.


Nesse caso, são grupos de jovens e famílias inteiras que se abrigam em barracas de palha montadas só para este fim ou nos ranchos, uma mistura de hotel e colônia de férias.


É uma tradição que começou há 60 anos, com famílias tradicionais de Goiânia que passaram a acampar nas praias do Araguaia nas férias de julho e, na base da pescaria, fizeram a fama da região.


Nesse quadro, quem não quer sair do urbano deve se dirigir às cidades de Aruanã (GO) ou as vizinhas Aragarças (GO) e Barra do Garças (MT).

Quem preferir uma estada, digamos, mais selvagem, os melhores destinos são Cocalinho (MT), Xixá (GO), Bandeirantes (GO) e Luiz Alves (GO).

Mas o que torna o Araguaia um rio clássico é o desfile de cardumes que acontece em suas águas. São 120 espécies identificadas somente no Médio-Araguaia, trecho que vai de Aruanã à Ilha do Bananal, conforme pesquisa do biólogo Francisco Leonardo Tejerina, da Universidade Católica de Goiás.

Na lista, entre outros, estão curimatãs – o mais presente –, pintados e filhotes, os preferidos dos pescadores tanto para fisgar quanto para ir para a panela.

Há ainda um peixe especial, o aruanã, que povoa a mitologia da nação Karajá - habitante histórica da região.

Essa espécie é reconhecida como uma “entidade” pelos índios, em sua relação homem-natureza, o que talvez explique um pouco do encantamento que o Araguaia causa em todos aqueles que o conhecem.


Mario Arruda, o Capitão, um autêntico desbravador do Araguaia

Afinal, não é uma história de hoje. Segundo estudos antropológicos, foram possivelmente os antepassados dos karajá que começaram a “mania” de freqüentar as praias para se divertir, pescar e comungar com a natureza.

Isso foi há cerca de 800 anos e, de lá pra cá, os karajá, seus descendentes e os novos colonizadores nunca mais interromperam a tradição.


Em julho de 1989, atendendo a uma intimação do tuxaua Ademar Arruda (aka “Gato”), eu e Mário Adolfo resolvemos participar dessa experiência tribal, de caráter místico-alcoólica-tecno-hippie.

Ademar nos apanhou no aeroporto de Brasília, na manhã de um sábado, e nos levou diretamente para a região de Aragarças, onde a galera já estava acampada há uma semana. Chegamos ao rancho a bordo de uma pequena voadeira pilotada pelo próprio Ademar.

Havia umas 10 famílias no local, num total de quase 50 pessoas – sendo metade crianças. Entre os adultos, além do tuxaua Ademar e do pajé Mário Arruda (aka “Capitão”), estavam os guerreiros Evandro, Valtinho, Eldejames (sobrinho do Ademar), padre Jordelino, Valter, o gaúcho José Ternes, que não se separava do chimarrão nem mesmo quando tomava banho de rio, e mais uns três ou quatro de que não recordo o nome.

Conferi discretamente o estoque de bebidas. Havia 50 grades de cerveja Brahma, 50 caixas de Skol em lata, trinta litros de cachaça de alambique Cambeba, considerada a melhor do mundo, e dezenas de garrafas de vinho tinto, sidra, conhaque, rum, vodka, gim e Campari.

Aquilo era suficiente para embriagar aquele povo o ano inteiro, já que apenas umas dez pessoas (eu e Mário inclusos) bebiam diariamente. E a gente só ia ficar por lá durante duas semanas.


Na despensa do rancho também havia vários fardos de refrigerantes, água mineral, arroz, macarrão, feijão, farinha, milho, manteiga, óleo, embutidos de todos os tipos, frango congelado, ovos, carnes nobres (gado, carneiro e porco), frutas, verduras, legumes, etc. Os peixes seriam pescados na hora.

Um gerador fornecia energia elétrica para o barracão e para iluminar a área das barracas. Havia ainda um banheiro com água puxada por bomba e um sanitário dotado de vaso, mas no estilo “fossa turca”, distante, obviamente, uns 100 metros do camping.


Professor da UnB, o padre Jordelino havia perdido a perna direita em um desastre de carro e usava uma prótese. Era divertido ver as hordas de piuns trombando em sua perna de fibra de vidro em busca de sangue.

Além de ser um bom contador de causos, o padre bebia feito um condenado. Soube que ele faleceu há alguns anos. Uma pena!

Também professor da UnB, o antropólogo Mário Arruda chegou na região do Araguaia, em 1967, recrutado em Manaus pelo PCdoB, para participar da guerrilha de Xambioá.


Ele logo viu que aquilo seria a maior canoa furada da paróquia e, antes que as escaramuças tivessem início, se mandou para Goiânia, onde iniciou uma nova vida.

Em 1969, Mário Arruda recrutou seu irmão Ademar para tentar, como ele, uma nova vida na capital goiana.


Ademar, que na época era o melhor goleiro de Manaus (tanto em futebol de campo quanto em futebol de salão), não quis se profissionalizar apesar dos insistentes convites dos cartolas do Nacional, Rio Negro, Olímpico e Fast Clube.

Ele sobrevivia como trabalhador braçal da Cosama, cavando buracos para assentamento de tubos, e namorava a Mércia, irmã mais velha do Mário Adolfo, que já estudava Direito na FUA.

Atendendo ao convite do irmão, Ademar viajou pra Goiânia, comeu o pão que o diabo amassou, mas conseguiu se formar em Educação Física e, nos anos seguintes, virou o melhor treinador de natação da história de Goiás.

Invocado como todo tuxaua de sangue quente, ele havia voltado a Manaus uma única vez: para se casar com a Mércia e levá-la para Goiânia.


O advogado Romero e seu pai, o também advogado Leônidas, falecido no ano passado

Na época de nossa viagem, Mércia trabalhava em um escritório de advocacia em Goiânia, junto com o cunhado Leônidas, outro irmão recrutado pelo incansável Mário Arruda, enquanto Ademar era sócio de uma escolinha de natação em Anápolis.

Diariamente, ele se mandava pra Anápolis e retornava pra Goiânia no final do dia. Eu e Mário Adolfo chegamos a acompanhá-lo algumas vezes nessas viagens.

Ele e Mércia eram pais de Maluma, Talge e Tagore, que também estavam no rancho.


Valtinho, Marilúcia, Talge, eu e Dona Inês

Marilúcia, irmã do Mário Adolfo, seu filho Ludmilson, e Dona Inês Aryce de Castro, a matriarca da família, completavam o clã do qual eu fazia parte.

O restante da turma, eu só conheci quando cheguei no Araguaia. Mas era tudo gente boa.

Comerciante em Anápolis, Valtinho passava 24 horas por dia segurando uma latinha de Skol. Mário Adolfo o apelidou de “Valtinho Mão de Lata” e o apelido pegou.


Dono de um vasto bigodão, o engenheiro civil Evandro era o cantor oficial do rancho. Ele tinha a voz bonita e era um virtuose no violão. O problema era o seu repertório, calcado exclusivamente no melhor da música sertaneja.

Se, no primeiro dia, diante da novidade (e por causa da manguaça, claro), eu e Mário Adolfo aplaudimos entusiasticamente, a partir do quinto dia aquela cantoria sertaneja virou um autêntico “pé no saco”.

Aliás, a gente já havia aberto um precedente perigoso: no trajeto Brasília-Aragarças, perguntei do Ademar qual o tipo de música que os goianos curtiam.

Ademar colocou uma fita cassete no aparelho do carro e fomos obrigados a ouvir 57 vezes seguidas a música “As Andorinhas”, do Trio Parada Dura.



Ele acompanhava a música cantando alegremente a plenos pulmões e batucando no volante do automóvel.

Para evitar esse tipo de desconforto, eu havia levado um lote fitas cassetes (Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Deep Purple, Barry White, James Brown) e o Mário Adolfo, outro (Vinicius & Toquinho, Cartola, Lupícinio Rodrigues, Elis Regina, Belchior, Raul Seixas).

No rancho, Ademar nos presenteou com um pequeno toca-fitas cassete de sua propriedade. O problema é que não havia pilhas. A gente só podia ligar o aparelho dentro do barracão do rancho, onde existia luz elétrica.

Como as cantorias noturnas do Evandro eram realizadas à beira de uma fogueira acesa a uma boa distância do barracão, não havia como nossas músicas interferirem nas dele. Essa política de boa vizinhança só funcionou até o sábado seguinte.

Na primeira semana, a minha rotina diária era a mesma. Eu saía da barraca de camping por volta das seis horas da manhã, escovava os dentes, caía na água (um gelo!) e começava a beber.

O Mário Adolfo só entrava na água pra beber depois das 10 horas da manhã. Devia ser alguma simpatia dele, sei lá.

O café era servido no barracão pontualmente às oito horas da manhã, o almoço ao meio-dia e o jantar às sete da noite. Por volta de meia-noite, as luzes do rancho eram desligadas e todo mundo se recolhia às suas barracas.

Das seis da manhã às seis da tarde, a sensação térmica era de que você estava no deserto da Namíbia, porque o sol era verdadeiramente abrasador.


Quando anoitecia, entretanto, a sensação térmica era de que você estava morando na Antarctica. Para suportar o frio da gota serena, era necessário se agasalhar e ficar perto de uma fogueira. A cachaça de alambique havia sido levada para combater aquela friagem maligna.

O tuxaua Ademar nos ensinou alguns macetes: nunca entrar na água correndo para não ser ferrado pelas gigantescas arraias existentes no rio. O certo é entrar no rio arrastando os pés no leito arenoso, que as arraias vão embora.

Ele também nos ensinou a pegar peixes com as mãos, se jogando rapidamente em cima dos cardumes, mas normalmente estávamos bêbados demais para que as inúmeras tentativas obtivessem êxito.


O Mário Arruda resolveu exibir seus dotes de mateiro calejado e nos deu uma aula prática de sobrevivência na selva, embora eu desconfie que metade dos nomes de árvores que ele nos mostrou tenha sido inventada naquela hora.

No domingo, o rancho foi visitado por um grupo de voluntários membros da ONG “Amigos do Araguaia”.

Eles descem o rio de caiaques e vão parando em cada rancho para dar conselhos ambientalmente corretos sobre a flora e a fauna da região e conscientizar os turistas sobre a importância de manter limpos o leito, as margens e as praias do Rio Araguaia.

– Se vocês tivessem chegado aqui há dois dias, teriam evitado um crime ambiental! – expliquei para o rapazinho que me pareceu ser o chefe do grupo.

Disse isso e o levei até a cozinha do rancho, onde o cantador Evandro preparava um portentoso ensopado de jacaré, abatido por eles na sexta-feira.


Aproveitei para mostar a cabeça do jacaré sendo secada ao sol.

Transtornado, o rapazinho deixou o nosso rancho almadiçoando todo mundo.

Sem parar de temperar o ensopado, Evandro ficou me olhando puto da vida. Limitei-me a aconselhar:

– Bicho, se eu fosse você já tinha jogado essa porra no meio do rio, pra servir de comida pras piranhas. Pela quantidade de pragas que o moleque nos jogou, quem provar desse ensopado vai ficar com diarréia...

Não deu outra.


Na tarde de domingo, o sanitário do rancho ficou congestionado. O desmantelo foi tão grande que, no dia seguinte, um novo sanitário teve que ser providenciado às pressas.

Mais naturalistas do que nunca, eu e Mário Adolfo havíamos descoberto uma nova maneira de se divertir.


Em vez de freqüentar o banheiro do rancho e suas nuvens de moscas, mosquitos, piuns e meruins, a gente atravessava o Rio Araguaia (na sua parte mais profunda a água não passava da altura do meu peito) e fazíamos nossas necessidades fisiológicas em Mato Grosso, já que do outro lado do rio era o município de Barra do Garças.

A idéia seria, após o nosso retorno a Manaus, zoar com a jornalista matogrossense Solange Elias, garantindo que o seu estado natal não passava de um cagadouro fuleiro.


Durante a primeira semana, Evandro, Ademar ou Valter se revezavam como pilotos das voadeiras e nos levavam para conhecer outros ranchos – alguns, com cerca de 500 pessoas e bandas tocando ao vivo.

Ver aquelas meninas goianas bronzeadíssimas era um colírio para os olhos. Ah, meu Deus, as meninas goianas...

Foi então que na noite do sábado seguinte a cobra Norato se mexeu no leito do rio.

Como sempre fazíamos, eu e Mário Adolfo estávamos bebendo e escutando os Beatles dentro do barracão do rancho praticamente sozinhos.

Sei lá por que cargas d’água, mas nessa noite a turma da cantoria resolveu abandonar o luau em torno da fogueira para vir tocar ao vivo dentro do barracão. Não demos a mínima.

De repente, durante a execução de um hit da dupla Matogrosso e Mathias (argh!), o Evandro se invocou de que a música do nosso pequeno gravador estava lhe tirando a concentração. Pediu pra gente desligar o aparelho.

Mário Adolfo, na condição de cunhado do tuxaua do rancho, falou que não desligava o gravador nem pelo caralho.

Argumentei, numa boa, que deixar de ouvir Beatles para ouvir Matogrosso e Mathias (argh!) iria manchar pro resto da vida nossa carreira de betalemaníacos renitentes.

Um dos participantes da cantoria, o padre Jordelino, morto de bêbado, não se fez de rogado: pegou um terçado e zás, cortou o cabo AC do aparelho. O gravadorzinho emudeceu.

Ficamos escutando aquele repertório sertanejo em silêncio, com os colhões atravessados na garganta.


O Ademar estava pescando de malhadeira do outro lado da ilha. Quando ele chegou, com um novo lote de pintados, dourados e filhotes, contamos o que havia acontecido.

O nosso tuxaua não se fez de rogado: pegou o mesmo terçado e partiu pra cima do Evandro, disposto a bandar o violão ao meio. Começou a confusão.

Gritos, discussão, xigamento daqui, xingamento dali, Mário Arruda veio ver o que estava acontecendo e já se armou com uma pernamanca para atacar os “inimigos”.

O Ademar estava possesso – e com razão. Ele, sozinho, arrebentaria uns três sujeitos a terçadadas. O Mário Arruda, outros dois.

Ainda sobrariam dois: o padre Jordelino e o pacifista Valtinho Mão de Lata.

Como guerra é guerra, eu e Mário Adolfo já estávamos escolhendo qual dos dois seria vítima de nossa primeira cadeirada.

Foi quando o mulherio entrou no circuito, esculhambando “aquele bando de machos que não sabiam beber e depois ficavam dando escândalo”. Foi um pára pra acertar.

Depois de meia-hora de bate-boca, os “quase-brigões” se recolheram às suas barracas.


Evandro, Valter, eu, Eldejames, Tágore, Ademar e Mauro (filho do gaúcho José Ternes)

Na manhã seguinte, quando foi servido o café, estavam todos com caras de “Madalenas arrependidas”. Um constrangimento geral.

Pra completar, não havia mais talheres no rancho.

É que durante a confusão, Dona Inês, com receio de aquilo descambar para uma pancadaria generalizada, escondeu todas as facas, colheres e garfos em um buraco na areia e não se lembrava mais da localização exata.

Coube às crianças inventarem uma divertida caça ao tesouro – e em meia hora elas já haviam transformado a praia em um autêntico queijo-suíço –, até conseguirem encontrar as peças diligentemente escondidas.

No domingo, Ademar Arruda pegou a voadeira, foi até Aragarças e retornou com um novo cabo AC pro gravador.

Os cantadores foram definitivamente exilados do barracão do rancho, nós voltamos a usar nosso gravadorzinho e a paz voltou a reinar no pedaço.

No sábado seguinte, eu e Mário Adolfo nos despedimos da galera e o prestativo Ademar Arruda foi nos levar até Brasília, de onde embarcaríamos para Manaus.

Ainda havia no rancho 20 grades de cerveja Brahma e 20 caixas de cerveja Skol em lata.

Quando a voadeira começava a se afastar do rancho, falei pro Mário Adolfo:

–Bicho, se aquelas cervejas fossem Antarctica, acho que a gente teria entrado em coma alcoólica...

Mário Adolfo morreu de rir.


Nunca mais ter voltado ao Araguaia é um dos grandes pecados veniais que tenho cometido ao longo desta minha atribulada existência.

Porque, sinceramente, aquelas duas semanas de curtição foram uma das melhores férias de minha vida.

quarta-feira, março 03, 2010

Velhos amigos, bons companheiros


Recebi do estimado Edilson Martins esse conto de ensinamento que compartilho com vosmecês. Curtam:

Um grupo de amigos em torno dos 40 anos resolve se reunir e discutir onde devem se encontrar para jantar.

Depois de algum debate, é acordado que deve ser no restaurante Café Royale porque a garçonete tem uma bela bunda e seios bonitos.

Dez anos depois, aos 50 anos de idade, o grupo se reúne novamente e mais uma vez discute e debate onde eles devem se encontrar.

Por fim, fica acordado que eles deveriam ir no restaurante Café Royale porque a comida lá é muito boa e a seleção de vinhos é boa também.

Passam-se mais dez anos e os velhos camaradas já em torno dos 60 anos de idade se reúne m novamente e mais uma vez que discutem e debatem onde devem ir.

Finalmente, fica acordado que eles deveriam jantar, no restaurante Café Royale, porque lá eles podem comer em paz e sossego e o restaurante não aceita fumantes.

Lá se vão mais dez anos e grupo com os velhos camaradas com idade em torno dos 70 aos se reúne pela quarta vez, agora para que discutir e debater (novidade) onde eles devem se encontrar.

Por fim, fica acordado que eles deveriam ir no restaurante Café Royale porque o restaurante é acessível em cadeira de rodas e eles ainda têm um elevador.

Aos 80 anos de idade, o grupo se reúne novamente e mais uma vez quer discutir e debater onde devem ir.

Finalmente, fica acordado que eles deveriam ir no restaurante Café Royale e todos concordaram que seria uma ótima idéia conhecer um restaurante novo, porque eles nunca foram lá antes.

Sarau multimídia do Arnaldo Garcez


Amigos,

Estarei apresentando o projeto SARAU RIO 180° unindo as artes plásticas, música e poesia.

Será no próximo sábado 06 de março em Santa Teresa no Rio 180° Hotel, que é um espaço maravilhoso com uma paisagem deslumbrante do Rio.

Será um grande encontro de amigos músicos, poetas e artistas plásticos , antecipando o Dia Internacional da Mulher.

Conto com a presença de vocês!

Um abraço,

Arnaldo Garcez

terça-feira, março 02, 2010

Coletivo Difusão Cultural coloca a boca no trombone




O Grito Manaus foi um evento de artes integradas realizado pelo Coletivo Difusão (que tem no meu brother Marcos Tubarão um de seus pilares) em duas etapas com caráter de manifestação cultural. A primeira etapa do grito foi realizada no dia 16 e a segunda dia 20 de fevereiro.

No dia 16 foi realizado o lançamento do Fora do Eixo Manaus em parceria com o Coletivo Cuia, no espaço cultural da livraria valer. Com entrada franca e a participação de aproximadamente 50 pessoas, a primeira etapa também contou com uma mesa redonda formada por produtores, músicos e articuladores para discutirem a importância dos coletivos na produção cultural independente. A programação ainda contou com a apresentação da banda Playmobils e a performance do DJ Marcos Tubarão.

Dia 20 foi realizada a segunda etapa do Grito embaixo do viaduto da Constantino Nery de forma gratuita, 10 bandas, interferências poéticas, cênicas e visuais, performances e exibições de vídeoartes, videoclipes de bandas locais, videodanças e documentários locais feitos sobre música fizeram parte da programação naquele dia. As primeiras exposições do Laboratório de moda do Difusão foram feitas, bem como a nossa primeira transmissão ao vivo de um evento pela rádio web.

O Grito Manaus no dia 20 foi produzido pelo Coletivo Difusão em parceria com a Baruk Produções e com a mobilização da classe artística da cidade em caráter de manifestação cultural. O evento não teve apoio de nenhuma secretaria de cultura ou empresa privada, e reuniu mais de 2 mil pessoas em um espaço público em ócio.

Nosso objetivo em produzir o Grito Manaus com caráter de manifestação/interferência urbana foi feito para promover a identidade cultural da cidade de Manaus, a valorização de espaços públicos e fomentar a formação de público e a produção artística independente da cidade e da região, já que duas bandas (uma de Belém e outra de Boa Vista) participaram do Grito.

Desde 2006 realizamos eventos/interferências urbanas na cidade. E especialmente embaixo do viaduto da Constantino Nery já realizamos outros quatro eventos/interferências lá. Tais eventos em caráter de manifestação são respaldados pela Constituição Federal que nos garante promover essas ações na cidade.


O parágrafo IX do artigo 5º da constituição diz que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. E segundo o parágrafo XVI do mesmo artigo, “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”.

Bom, a Constituição foi citada neste relato para dizer que infelizmente a Polícia Militar do Amazonas se colocou acima da constituição e interrompeu de forma autoritária nosso Grito. À 1h a polícia chegou ao local desligando o som, subindo no palco, sem conversar com os organizadores e só não agrediram os músicos porque impedimos, mas até spray de pimenta foi jogado na direção dos que tentavam registrar o momento.

A ‘interferência policial’ feita por várias viaturas foi realizada 30 minutos depois que protestamos contra as secretarias de cultura do Município de Manaus e do Estado do Amazonas.

Em conversação com a PM eles pediam uma autorização para estarmos ali, então explicamos tudo. Que estávamos respaldados pela Constituição. Que não precisávamos de autorização. Que precisávamos apenas informar os órgãos. E acrescentamos ainda que o Grito fora amplamente divulgado nos principais veículos de comunicação da cidade, com matérias em jornais e rádios e inserções da vinheta do grito na Globo local, que abre espaço para publicitar gratuitamente eventos de promoção cultural sem fins lucrativos.

E a resposta do sargento da PM foi de que o que estávamos fazendo não era uma manifestação cultural. Segundo o PM, uma manifestação só é feita por secretarias ou órgão do governo. Ele também disse que as mais de 2 mil pessoas presentes no evento não representavam a sociedade, porque eram todos iguais e portanto o que estávamos fazendo não era uma manifestação cultural. Como assim?

Nós conseguimos reunir seguimentos artísticos diferentes para um público mais do que diversificado. E o policial de forma preconceituosa falou que as pessoas que lá estavam eram nada! Sem contar que no evento não teve uma única confusão, o que foi reconhecido pelo PM, que afirmou ter passado pelo local várias vezes durante a noite sem ter visualizado qualquer tumulto.

É, mas os PMs não pararam por ai, disseram que a cultura não era algo tão bom quanto acreditamos, porque segundo o sargento, “a cultura fez com que a população não gostasse da polícia”.

Chegamos a argumentar que a paralisação do evento poderia gerar um tumulto generalizado e então o policial nos ameaçou afirmando que tumulto não era problema, porque ele poderia aumentar ainda mais o efetivo de policiais e parar na porrada qualquer problema.


Nós poderíamos continuar o evento, porque estávamos no nosso direito, mas eles estavam dispostos a insistir em calar o Grito. Preocupados com a segurança de todos, já que isso poderia gerar sim um tumulto, insistimos em um acordo para que pelo menos a banda Iekuana de Boa Vista (que viajou por conta própria mais de 12h para estar lá) tocasse. Então, o acordo acabou sendo feito para que o evento fosse encerrado faltando ainda a apresentação de outras quatro bandas.

Os PMs alegaram que o evento deveria ser paralisado, porque moradores da área fizeram reclamações de barulho. Nós realizamos interferências culturais naquele mesmo local outras quatro vezes em três anos. Nunca houve qualquer reclamação, mesmo com o fato de alguns dos eventos terem acabado às 6h.

O mais curioso é que existem poucos moradores próximo do viaduto. Um deles chegou a ir com o PM para falar que já havíamos realizado outros eventos lá e que os moradores não se sentiam incomodados. Sem contar com o fato do viaduto ficar em frente a uma casa de shows que realiza periodicamente eventos que chegam a fechar a rua e que nunca são paralisados.

Enfim, nenhum argumento funcionou e a intransigência prevaleceu.

Estamos enviando esse email para relatar tais fatos que repudiamos por completo.

E para enfrentar de frente e de forma inteligente o que aconteceu vamos realizar a continuação do Grito Manaus no mesmo lugar e em data que ainda será definida com a participação das atrações que foram impedidas pela polícia de se apresentarem.

Mas agora iremos nos munir de outros artifícios jurídicos para fazermos valer nosso direito de nos manifestarmos artístico/politicamente sem que a polícia possa desta vez nos ‘barrar’.

Nessa mesma esteira pretendemos ampliar essa discussão para causarmos uma reflexão e esclarecimento sobre a importância das manifestações artísticas na cidade. Por isso vamos organizar um fórum sobre a ocupação de espaços públicos por movimentos artísticos. Desse fórum, que ainda terá sua data e local de realização definidos, deve ser feito um documento para contribuir com um assunto ainda pouco debatido. Pretendemos compartilhar esse documento com todos do Circuito Fora do Eixo e com simpatizantes do Coletivo Difusão para que as discussões sejam ampliadas ao máximo.

Também estamos produzindo um documentário sobre o Grito Manaus que terá essas questões aqui relatadas abordadas em seu conteúdo


Coletivo Difusão