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quarta-feira, julho 14, 2010

Artistas amazonenses classificados para o 40º Festival Nacional da Canção

Os músicos amazonense Candinho & Inês, Armando de Paula e Edimar Castro da Silva (Maestro Dino) irão representar a Amazônia no 40º Festival Nacional da Canção que será disputado em 6 etapas em 6 cidades do Sul de Minas Gerais (Extrema, Formiga, Varginha, Pouso Alegre, Três Pontas e Boa Esperança) de 30/07 a 06/09.

Cada cidade abrigará uma eliminatória do Festival, sendo que 30 músicas serão apresentadas em cada uma delas, sendo 15 na sexta e 15 no sábado. Apenas seis músicas serão classificadas por cidade e estas irão disputar a semi-final e a final na cidade de Boa Esperança (272 km de Belo Horizonte e 380 km de SP), entre os dias 04 e 06 de setembro.

Este ano, 3.010 canções foram inscritas e apenas 150 foram classificadas. Os músicos amazonenses foram os únicos da Região Norte que tiveram suas músicas aprovadas, sendo que Candinho e Inês irão defender 4 canções; Armando de Paula, duas e Dino, uma.

O Projeto Cultural Uakti, da Associação dos Pesquisadores do INPA (ASPI), incentivou a inscrição dos músicos e propôs à Coordenação do Festival que durante as 6 etapas do festival fossem realizados shows de artistas do Amazonas na programação paralela que acontece todos os anos nas praças dessas cidades, antes do festival propriamente dito.

A coordenação do Festival aprovou a idéia e os shows paralelos estão sendo montados. O músico Armando de Paula, que vai disputar o festival e coordenar o show “Amazônia” na programação paralela, já convidou alguns músicos, entre eles, Célio Cruz, Torrinho, Antonio Pereira, Candinho & Inês, Nicolas Jr., Lucinha Cabral. Robertinho Chaves; Família Dino e Neuber Uchoa Ainda estão sendo contactados outros artistas.

A idéia é realizar um show diferente em cada cidade, a fim de mostrar a beleza e a diversidade da música amazonense. Também serão expostas obras de artes plásticas e apresentação de recitais poéticos de autores amazonenses.

Maiores informações: 3632-0512 (William) e 9188-9198 (Armando).

Lippo Music exibe concerto do Portishead no Espaço Difusão Cultural


PORTISHEAD / THIRD / CONCERT LIVE PRIVE

COLORIDO - 65 MINUTOS

GRAVADO EM 03 DE MAIO DE 2008 PELO CANAL PLUS DA FRANÇA (CANAL+)

DVD PREPARADO EM 10 DE JULHO DE 2008

MATERIAL ELABORADO E FINALIZADO POR UM FÃ DA BANDA

Músicas do Show: Silence/ Hunter/ Mysterons/ The Rip/ Magic Doors/ Wandering Star/ Machine Gun/ Nylon Smile/ Threads/ Roads/ We Carry On

“Esteja alerta para a Regra dos Três, o que você dá retornará para você, essa lição você tem que aprender, você só ganha o que você merece”

Assim começa o show, com esta fala do brasileiro Claúdio Campos, também constando na abertura do CD Third, de 2008. Claúdio é um professor de capoeira, amigo de Geoff Barrow, o letrista e principal alquimista do som da banda. A frase remete a influências místicas de escritos de Hermes Trimegisto, A Chave Mística, resvalando também na magia da Wicca.

A plateia acompanha atenta ao desenvolvimento musical sutil do Portishead, num cenário perfeito para que as bases sonoras da banda acalentem os corações tempestuosos. A música é grave, mas não carregada e extrema, de vibrações calculadas com precisão.

Trip Hop legítimo, e a voz enigmática de Beth Gibbons continua sua jornada de mistério, sua atuação como cantora é de encher os olhos, dada a precisão de seu minimalismo visceral.

A cozinha básica do Portishead continua a nos servir de um cardápio sonoro de qualidade, e aqui temos a grata surpresa de vermos Geoff Barrow preencher a percussão de forma segura e elegante.

A guitarra de Adrian Utley nos conduz a momentos de extremo êxtase, e já é uma marca registrada do Portishead.

Os sintetizadores se coadunam com a melodia um tanto quanto macabra em algumas canções, mas a poética de letras como a de The Rip é tão linda que deixaria qualquer cadáver feliz.

Sonhos com cavalos que percorrem campos vazios e que nem a brancura de seus pelos nos deixam felizes, pois o amor é algo que estaria na outra esquina da solidão.

Nisso tudo aparece um jogo de metal de um saxofone preciso, que “grita”, que urge por uma batida glamorosa. A voz de Beth Gibbons é puro gozo, é algo impressionante ver como ela consegue emoção com uma voz “estática”, mas que penetra nos segredos mais profundos de nosso ser.

Arcos de violino, slide guitar, uma bateria eletrônica que só falta falar, um pedal de guitarra que entra com um efeito tocado com a mão, um teclado gótico do século XXI, e a competência de uma banda que nunca esteve preocupada em fazer música para tocar nas rádios.

O sucesso veio assim, com prêmios fartos logo no lançamento de Dummy(1994), e uma legião de apreciadores de seu som único e de seu ecletismo característico, onde a banda revigora a música, unindo como poucas o inusitado dos samples e efeitos de pick ups “vinílicas” a orquestra sinfônica de Nova York(no memorável Roseland NYC Live, de 1998).

É pura mágica! O show é todo assim, e é uma pena ser tão curto, e com algumas músicas de Third ficando de fora da apresentação.

Porém, vale a pena comparecer no Coletivo Difusão no dia 16 DE JULHO/ SEXTA-FEIRA, às 20h e entender o porquê do PORTISHEAD ter demorado onze anos a lançar o seu terceiro trabalho. Não é preciso pressa quando se trata de deixar um bom registro para a eternidade.

Data: 16 de Julho de 2010, às 20h

Local: COLETIVO DIFUSÃO – Rua Monsenhor Coutinho, 801 – Centro.

(Próximo ao Hotel do Largo e ao CAUA)

Taxa de Manutenção (Simbólica): R$1,00 (Um real)

ASSENTOS LIMITADOS

Informações: 8421-3391 / 9116-6775

coletivodifusao@gmail.com / vicaflag@hotmail.com

domingo, julho 11, 2010

Fabricio Carpinejar destila irreverência e poesia para retratar o homem contemporâneo

Canalha!, novo livro de crônicas do escritor gaúcho Fabrício Carpinejar, é uma provocação desde o título. Um ato corajoso e irreverente contra os rótulos masculinos. Uma leitura divertida do homem contemporâneo, perplexo e desorientado com as transformações de comportamento e a dissolução dos papéis fixos familiares. O autor mostra que o canalha mantém o charme sexual, mas não é mais o mesmo apregoado pelo Nelson Rodrigues e tantos escritores da metade do século XX.

"Aquele cafajeste de outrora mudou, não é mais o tipo machista e intolerante. Esqueça os personagens de Jece Valadão", afirma Carpinejar. "Há outro canalha mais perigoso em ação, uma mutação cultural: um canalha caseiro, que não tolera preconceito (aceita ser confundido com gay e entende o chamado como um elogio), que vai fundo no sofrimento para não repeti-lo, gentil dentro das expressões, que ama demasiado os filhos, que se veste com estilo, mas não se importa com o que os outros vão pensar, que encontra a autocrítica no humor, que se aproxima de uma mulher para roubar sua alma (porque o corpo é muito influenciável)."

São crônicas que respeitam sua natureza original de conversa, amáveis e despretensiosas. Para serem saboreadas tanto no café-da-manhã, ao lado de uma boa xícara com leite quente e farelos de pão, ou numa mesa romântica, com a toalha manchada de vinho. E por que não numa leitura a dois na cama, atuando como preliminares?

As verdades mais fortes acabam ditas com delicadeza. Textos leves, chamando o leitor para cada vez mais perto. Uma nova percepção do cotidiano, admitindo as imperfeições e as gafes, sem medo de viver para evitar sofrimentos.

"Não crie arrependimentos por aquilo que não foi feito. Sejamos mais reais em nossas dores", propõe na crônica "Insista". Puro carisma de um autor, que mede o mundo com as palavras e os gestos, disposto a se abrir e emoldurar as lembranças com suas histórias.

Carpinejar cria uma espécie de contraponto viril de sua coletânea de sucesso, O amor esquece de começar (2006). Defende a "alma masculina" como sinônimo de sensibilidade. Analisa as relações amorosas, homenageia a amizade dos detalhes e as preciosidades da rotina, desfaz tabus sociais. É capaz de provar a gravidez masculina, onde o homem não contará para a amada que aguarda seu filho no ventre, ou de destacar o cuidado dos velhos pais com seus filhos adultos, preservando o quarto deles exatamente como deixaram ao saírem de casa.

O texto de orelha é assinado por Xico Sá: "Entre uma canalhice explícita e um inocente ‘Ivo viu a uva’, Carpinejar, o cronista, o poeta, o fabulador, o mito, o homem, o álbum branco dos Beatles, nos enfeitiça, desgraçado bom de lábia, de escrita e de jabs. Parece golpe baixo, mas o cara é capaz de observar o origami da pressa que foi feito, pela mulher, com o papelão cortado do biquinho da caixa de leite, donde sugere um peito platônico ou quase, pelo menos para os tarados de plantão terá sido mais ou menos isso, por supuesto".

Textos como "O fim é lindo", "Sexo depois dos filhos", "Emprestando roupas ao marido", "Amor é coisa de boteco", "É adorável uma mulher toda nua, ou quase, de meias brancas", "O orgasmo feminino e o quindim" e "Procura-se um brinco", entre muitos outros, fazem de Canalha! um livro para homens e mulheres - casados ou solteiros, lobos ou cordeiros.

Diferente dos dicionários e muito além do significado dos vocábulos, Carpinejar capta o sentimento da pronúncia.

Fabrício Carpinejar, 35 anos, nasceu em Caxias do Sul (RS). Escritor, jornalista e professor, publicou poesia, literatura infantil e crônicas.

Foi premiado com o Erico Verissimo 2006, pelo conjunto da obra, da Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre, com o Olavo Bilac 2003, da Academia Brasileira de Letras, entre outros.

Atua como coordenador do curso de Formação de Escritores e Agentes Literários, e professor do Curso de Formação de Músicos e Produtores de Rock, ambos da Unisinos (RS).

Desde outubro de 2005 mantém o blog Consultório Poético, em que responde a dúvidas amorosas dos leitores. Colabora com diversos jornais e revistas, e assina a coluna "Primeiras intenções", da revista Crescer.

Pela Bertrand Brasil, publicou As solas do sol, Cinco Marias, Como no céu / Livro de visitas, O amor esquece de começar, Meu filho, minha filha e Um terno de pássaros ao sul.

Trechos do livro Canalha!

"É pelas expressões que se define a segurança masculina. Sempre duvidei do homem que diz que vai fazer xixi. Xixi é coisa de criança. Eu não represo a gargalhada quando um amigo adulto e de vida feita comenta que vai fazer xixi. Imagino o cara sentado. Infantil como Ivo viu a uva. Já urinar é muito laboratorial. Prefiro mijar, direto, rápido e verdadeiro. As árvores mijam. Os relâmpagos mijam. Os cachorros mijam para demarcar seu território. Aliás, o correto é não anunciar, ir ao banheiro apenas, para evitar constrangimentos vocabulares." (p. 18)

"Uma mulher não se interessa por um homem que seduz como quem dá as cartas, um homem que solicita a conta como quem fecha um negócio, que envolve como se fosse um investimento. Uma mulher não se interessa por um homem que não tenha também músculo nas pálpebras para chorar por ela, músculos na boca para guardar sua língua." (p. 66)

"As mulheres têm o direito de deslocar sua data de nascimento; elas são as idades que imaginam. Mas os homens, eles não desfrutam desse talento e são completos amadores. Nem sabem onde estão se metendo. Falta-lhes sutileza, preparo. Falta-lhes, acima de tudo, unidade." (p. 224-225)

sábado, julho 10, 2010

A História dos Quadrinhos (Parte 1)

Em 1895, Richard Felton Outcault desenhava uma página no suplemento dominical colorido do jornal New York World, chamada Down Hogan’s AlIey. A página introduziu Yellow Kid, o primeiro personagem famoso das Histórias em Quadrinhos, que celebrizaria seu roupão amarelo até nos palcos da Broadway.

Em 1904, as histórias de Yellow Kid foram compiladas e deram origem à revista em quadrinhos.

Antes do Kid, os quadrinhos eram rudimentares. Little Bears and Tigers (1892) de Jimmy Swinnerton, considerado por muitos o verdadeiro pai do gênero, não usava seqüência de quadros nem diálogos com balões.

O fato é que Yellow Kid mostrou que quadrinhos vendiam jornais. E os artistas passaram a ter seus passes disputados pelos grandes rivais da imprensa.

William Randolph Hearst, proprietário do New York Journal, não só contratou os melhores desenhistas da época, inclusive Outcault, como providenciou o segundo sucesso histórico dos quadrinhos.

Hearst sugeriu a Rudolph Dirks, então com 20 anos, que adaptasse as aventuras de Max und Moritz para o seu jornal. Surgiam os Katzenjammer Kids, mais conhecidos como Os Sobrinhos do Capitão, dois endiabrados pirralhos que adoravam atormentar a família.

As primeiras tiras (strips) eram cheias de personagens infantis. Além dos citados, havia entre os mais famosos, Little Nemo, que vivia no mundo dos sonhos e A Aninha (Little Orphan Annie), a órfã boazinha de Harold Gray.

Mas também havia muitos bichinhos humanizados como Maud de Frederick Burr Opper, o brilhante Krazy Kat de Herriman e seu sucessor, o gato Felix de Pat Sullivan, que lidavam com o humor em sua forma mais pura, ao contrário dos personagens tirados dos cartoons cinematográficos, que encenavam sempre o mesmo sketch: pequenos Davis do reino animal invariavelmente levando a vantagem sobre seus maiores e mais fortes antagonistas.

Os Três Porquinhos e o Lobo Mau, de Disney, começaram a tradição, continuada por Tom e Jerry, Pernalonga, Pica-Pau e inúmeros outros.

O bichinho mais famoso, Mickey, chegou aos jornais em 1930. Seu maior concorrente, o Pato Donald, em 1938. Em muitas partes do globo (incluindo o Brasil) é o genioso pato que lidera em popularidade.

O mérito é de Carl Barks, o artista que desenhou os primeiros quadrinhos das revistas Uncle Scrrooge (Tio Patinhas) e Walt Disney’s Comics and Stories. Ainda hoje, suas sempre reprisadas histórias de caça a tesouros perdidos inspiram novas aventuras, como Duck Tales.

O charme do “tipo azarado” foi outro fator de sucesso de Donald. O azarado era uma categoria de personagem popular no início dos quadrinhos,descendente de Happy Hooligan (1899, de Opper), Mutt (que fazia dupla com Jeff) e Dagwood (o marido de Blondie).

A criação de uma rede de distribuição nacional (Syndication) causou o primeiro grande impacto nos quadrinhos.

Os personagens de maior identificação pertenciam à classe média baixa e ignoravam a era do jazz – à exceção de Polly, da tira Positive Polly (mais tarde, Polly and Her Palls) de Cliff Sterrett, que despertava temores em seus pais devido a seus vestidos escandalosos e estilo coquete.

Pafúncio (Bringing Up Father) de George McManus, foi a tira mais bem sucedida do período, centrando seu argumento na guerra doméstica entre um casal novo-rico.

Foi McManus, aliás, quem criou a primeira tira familiar, The Newlyweds, responsável pela temática predominante nas primeiras décadas: a crise entre a bela esposa atarefada e o bom marido vagabundo – tema levado à perfeição por Chic Young nas tiras de Blondie.

As primeiras tiras de quadrinhos eram cômicas e caricatas e por isso foram chamadas de comics, nome que persistiu mesmo quando seu conteúdo se abriu para o campo da aventura e dos problemas sociais. Os quadrinhos de humor (funnies) reinaram até os anos 30.

Contudo, a partir do crack da economia americana, até mesmo personagens de traço caricato como Ferdinando (L’il Abner), de Al Capp, passaram a temperar o humor tradicional com um estilo satírico grotesco.

Mas a principal guinada dos comics, que passaram a refletir a necessidade de fuga da crise do período entre-guerras, foi o surgimento das tiras de aventura e dos super-heróis.

Foi um marinheiro introduzido por Elzie Segar na série ThimbleTheatre (1924) quem fez a transição. Popeye foi o primeiro super-herói dos quadrinhos, adquirindo super-força ao ingerir espinafre.

A era das tiras de aventura começou, de fato, com Tarzan e Buck Rogers, publicados, por coincidência, no mesmo dia (7 de Janeiro de 1929).

As primeiras tiras de Tarzan foram adaptadas do livro Tarzan dos Macacos de Edgar Rice Burroughs, de 1914.

Harold Foster, o autor da adaptação, desenvolveu uma técnica romanceada em suas ilustrações, substituindo os balões convencionais por legendas.

A idéia foi especialmente feliz por resolver um problema peculiar: Tarzan, de acordo com o conceito original de Burroughs, não falava nenhuma linguagem específica.

Após Foster, o melhor artista de Tarzan foi Burne Hogarth, responsável pela transformação do Homem-Macaco em um super-herói selvagem.

Buck Rogers foi o primeiro herói espacial. Boa parte dos conceitos de suas tiras, de autoria de Phil Nowlan e Dick Calkins, eram baseados em escritores como Jules Verne e H. G. Wells.

O próprio tema das histórias, um astronauta do século XX que despertava cinco séculos no futuro, possuía relação direta com A Máquina do Tempo de Wells.

Suas aventuras ainda mostraram o primeiro pouso na Lua, mísseis, lasers, televisores, robôs e, numa seqüência de 1939, seis anos antes de Hiroshima, uma descrição da bomba atômica.

Buck Rogers também foi a primeira novela radiofônica adaptada dos comics (1932) e o personagem da primeira revista em quadrinhos mensal dos EUA, Famous Funnies (1933).

O filão aberto por Buck Rogers foi seguido por Brick Bradford, outro viajante do tempo, criado por William Riu e Clarence Gray em 1933.

Graças a seu “Balão do Tempo”, o herói vivia aventuras que se desenrolavam tanto na pré-história como no futuro distante.

A idéia colou até mesmo no funnie Brucutu (Ailey Oop) de V. T. Hamlin, também de 33. Em 1939, Brucutu e sua namorada Ula (Dola) foram desmaterializados em sua época pré-histórica, graças a uma engenhoca do tempo, e transportados para o século XX.

Mas nenhum personagem de ficção foi tão famoso quanto Flash Gordon.

O herói, criado por Alex Raymond em 1934, foi a outro planeta, salvou a terra da destruição e ainda lutou ao lado dos americanos na Segunda Guerra Mundial. Flash Gordon foi também a primeira aventura dos quadrinhos adaptada para o cinema (em 1936).

Alex Raymond era o artista mais criativo de seu tempo. No mesmo dia em que Flash Gordon foi publicado, ele lançou Jim das Selvas (Jungle Jim), em aventuras transcorridas no Sudoeste Asiático. Ao lado da bela Lil e de seu companheiro hindu, Kolu, Jim Bradley disputava o público de Tarzan com o único rival a altura da arte de seu autor: Hal Foster.

As selvas também foram exploradas pela editora Fiction House, especialmente nas páginas da revista Jumbo Comics, lançada em 1939 e adaptada do maior sucesso da editora, as Jungle Stories dos anos 20.

Jumbo Comics apresentava aventuras de vários personagens, entre eles Hawk, criado por Will Eisner, e Sheena, uma garota perdida na selva. A loira de maiô tigrado, inventada por W. Morgan Thomas, foi a primeira heroína das revistas em quadrinhos. Em 1942, essa versão feminina de Tarzan ganhou revista própria.

A King Features, a editora mais poderosa da época, também tinha a sua Jungle strip. Na verdade, o Fantasma (The Phantom), uma criação de Lee Falk e Ray Moore em 1936, era mais que uma simples história de selva.

O Fantasma era um justiceiro mascarado, um dos primeiros heróis uniformizados, que cumpria o juramento de um ancestral do século XVI, combatendo o mal nas selvas.

Seus auxiliares eram os terríveis pigmeus Bandar, os únicos além de sua namorada, (e posteriormente esposa) Diana Palmer, que conheciam a localização da caverna da Caveira, seu lar, e os segredos de sua origem.

Para os malfeitores, o Fantasma era uma lenda, “o espírito que anda”, um imortal com mais de quatrocentos anos de idade, que deixava em suas vítimas a marca da caveira.

As histórias de Tim e Tom (Tim Tyler’s Luck), de Lyman Young (irmão de Chic Young, autor de Blondie) também chegaram às selvas da África.

Entretanto, a tira começou como uma aventura de aviação, vertente inspirada no vôo de Charles Lindenbergh através do Atlântico, em 1927.

O herói mais popular entre inúmeras tiras de aviação dos anos 30 era Ace Drummond, de Eddie Rickenbacker e Clayton Knight.

O western também habitava as tiras. Os principais “mocinhos” dos quadrinhos eram o Rei da Polícia Montada (1935) de Zane Gray, Red Ryder (1938) de Fred Harman e Zorro (The Lone Ranger, 1939), adaptação da mais popular série radiofônica de todos os tempos.

Havia aventuras realmente exóticas, como as vividas na China por Terry e os Piratas, de Milton Caniff, as inúmeras voltas ao mundo de Tintin, o personagem de quadrinhos mais popular da Europa, criado por Hergé, aliás George Remis, num jornal de Bruxelas, Bélgica, em 1929.

Mas o grande filão das tiras dos anos 30 foi mesmo a realidade das ruas, transformada em manchetes graças à onda de violência que varreu os EUA durante a Lei Seca.

A primeira tira policial séria foi desenhada por Chester Gold em 1931: Dick Tracy atuava em Chicago, o principal reduto dos gangsterismo, na época dominada por Al Capone.

Seus inimigos eram grotescos, deformados como o crime. Por isso, Dick Tracy entrava em ação derrubando portas a tiros de metralhadoras e esparramando sangue em quantidade industrial.

O maior noir dos detetives dos quadrinhos foi Red Barry, criado por Will Gould em 1934 para disputar o concurso que daria um desenhista ao agente secreto X-9, de Dashiell Hammett.

O ruivo Barry era um irlandês durão, convicto de que a lei deveria se opor ao crime com métodos tão violentos quanto fossem necessários. Sua vida foi curta, infelizmente.

Seis anos após sua estréia, a censura interna da King Features exigiu uma reformulação do personagem, que deveria renunciar à violência e ter o conteúdo moral de suas histórias alterado. Gould encerrou a carreira.

Alex Raymond, o primeiro desenhista do detetive do FBI conhecido como agente secreto X-9, por ironia, acabou redefinindo o perfil áspero dos detetives dos quadrinhos.

Ao contrário dos tipos dos anos 30, Rip Kirby (no Brasil, Nick Holmes), que Raymond trouxe ao mundo em 1946, era um intelectual sofisticado, burguês, que amava música clássica, bebia moderadamente, jogava xadrez e golfe... até usava óculos!

O tema “herói detetive” ainda se prestaria a variações como a de Charlie Chan, o detetive chinês, Mandrake, o detetive mágico, os mascarados Spirit e Sombra e o super-detetive Batman, entre os mais famosos.

A grande contribuição das tiras de aventura, na verdade, foi uma nova concepção de desenho, que exigia conhecimento da anatomia, perspectiva, luz, sombra e uma acurada busca de autenticidade em todos os detalhes – O Príncipe Valente de Hal Foster foi o ápice.

Os enredos das tiras, porém, não eram novidade. Já existiam em pulp, revistas baratas com histórias curtas estreladas por um mesmo personagem. Doc Savage, criado por Lesse Dent, foi o primeiro herói a se denominar “super-homem”.

O Sombra de Maxwel Grant, por sua vez, foi a grande influência de Batman. Quando os dois se encontraram, em 1972, Batman admitiu: “Nunca disse a ninguém, mas você foi minha maior inspiração! Será uma honra apertar sua mão”.

Doc Savage e o Sombra, personagens dos pulps, viraram quadrinhos quando sua editora, Street e Smith, decidiu entrar no boom dos comics nos anos 40.

Galeria de Personagens

Ferdinando (L’il Abner) é um caipirão que foi caçado até ao altar por Violeta (Daisy Mãe), uma loirinha ingênua e deliciosa nas medidas de Marilyn Monroe. O escritor John Steinbeck chegou a considerar suas desventuras o melhor exemplo de seu tempo. Seu maior clássico foi a saga dos Schmoos (os tipos bizarros inventados por Al Capp eram inúmeros), criaturinhas amáveis que, infelizmente, reproduziam tão rápido que ameaçavam arruinar a economia.

Krazy Kat foi precursor dos quadrinhos underground. Sua ultrajante farsa de amor e ódio envolvia um gato andrógino, um rato sádico e um policial. Ignatz era o rato com uma missão: acertar Kat com um tijolo. O gato, porém, amava loucamente o rato e via em cada tijolo um míssil de amor. George Herriman criou esse comic clássico em 1941 e morreu com ele em 1944. A tira não teve seqüência – seu apelo não era popular. Entre os ávidos admiradores de Krazy Kat encontravam-se o poeta e.e.cummings e o presidente Wilson.

As aventuras de Little Nemo, iniciadas em 1905, duravam uma página, tempo suficiente para o menino sonhar e cair da cama. O traço de Winsor Mccay possuía uma perspectiva única, que transformava as duas dimensões dos quadrinhos num plano infinito. Sua fantasia onírica antecipou o surrealismo, bombardeando o papel com rococós, sets bizantinos e detalhamento obsessivo.

Os Sobrinhos do Capitão são inspirados em Max und Moritz, onde Wilhelm Busch já misturava poemas infantis com desenhos ilustrativos. Rudolph Dirks adaptou as histórias de dois garotos levados da breca e desenvolveu a técnica de contar uma história a partir de seqüências narrativas (os quadrinhos) e do uso dos balões.

Yellow Kid, o risonho garotinho oriental de camisola amarela de Richard Felton Outcault, foi o primeiro que reuniu as características que passaram a definir a história em quadrinhos: um elenco regular de personagens em histórias com continuação, um tema comum e texto integrado à imagem, que mais tarde se desenvolveu em balões com legendas.

A História dos Quadrinhos (Final)

Na virada para a década de 40, o conceito de justiceiro mascarado estava em voga. Os dramas radiofônicos haviam introduzido Lone Ranger. O Fantasma fazia sucesso nos jornais e Hollywood acabara de realizar “A Máscara do Zorro”.

Dá-se na Detective Comics 27 (maio de 1939) a primeira aparição de Batman. Imaginado por Bob Kane e Bill Finger, Batman foi o primeiro herói a usar uniforme como parte integrante de sua personalidade.

Logo vieram outros super-heróis, que como Superman e Batman seriam totalmente reformulados com o passar dos anos. Na verdade, apenas Batman não partia de uma concepção ingênua e juvenil. Muito pelo contrário.

Flash, cujo uniforme lembrava Hermes, o mensageiro dos deuses, foi o primeiro super-herói com um poder específico: super-velocidade, adquirida num acidente com substâncias químicas.

Flash Comics 1 também apresentou o Gavião Negro (Hawkman) de Gardner Fox, que era a reencarnação de um príncipe egípcio traído pelo deus-ave Anubis. Seu uniforme possuía um par de asas artificiais que lhe permitiam voar. Em Flash Comics 24, sua namorada, Shiera, adotou traje similar e se tornou a Mulher-Gavião.

Mulher-Maravilha, a primeira heroína a ter revista própria, era a Amazona vencedora do torneio de Afrodite, escolhida para lutar contra Ares. Claro que Hitler estava do lado do deus da guerra. O background mitológico era apenas um pano de fundo para Charles Moulton, que pretendia ensinar através das aventuras de Mulher-Maravilha que o amor é mais forte do que a violência. Mas o autor morreu antes de completar sua saga e a história ganhou outros rumos.

O Espectro, criado em 1940 por Bernard Bailey, a partir de uma idéia de Joe Shuster, era o fantasma de um policial assassinado por gângsteres, que usava poderes sobrenaturais no combate ao crime.

Foram os super-heróis que iniciaram a era de ouro dos quadrinhos. Sua popularidade detonou um boom criativo, a partir dos anos 40, que acabou fixando os quadrinhos como uma forma própria de Literatura.

O primeiro super-herói dos Comics Books surgiu num fanzine de ficção científica, cinco anos antes de sua aparição na capa de estréia da revista Action Comics. Tratava-se de um fantástico ser do espaço com super-poderes, recusado por inúmeras editoras sob a acusação de ser uma idéia infantil.

Seus autores, Jerry Siegel e Joe Shuster, tinham apenas 17 anos quando convenceram a National Periodical a publicá-lo.

Sua concepção original era bastante juvenil e combinavam características de diversos personagens dos pulps, que costumavam ter centenas de seres espaciais, duplas identidades, repórteres e heróis invencíveis no combate ao crime.

Sua própria identidade secreta é uma pista. Não seria Clark Kent a junção dos nomes de Clark Savage Jr. (Doc Savage) e Kent Alard (Sombra)?

As páginas de Action Comics também serviram de berço para O Vigilante, o cowboy do Oeste que montava uma moto ao invés de um cavalo, assim como Mr. América, o primeiro super-herói patriótico, além de aventuras da selva (Congo Bill), box (Pep Morgan), mágicos (Zatara), policiais (Scoop Scanlon), quadrinhos históricos (Marco Polo) e até mesmo funnies (Estica e Espicha).

Mas nada superava o entusiasmo despertado por Super-Homem, a primeira revista a publicar aventuras totalmente inéditas (desde 1937).

Suas histórias eram publicadas na revista More Fun Comics, que também lançou Aqua-man, Arqueiro Verde, Superboy e Senhor Destino (Dr. Fate), outro super-herói com poderes sobrenaturais, adquiridos graças à intervenção de um alienígena que viveu entre os faraós.

O Lanterna Verde, de Martin Modell, também possuía poderes incríveis, adquiridos de uma fonte alienígena: um anel de energia verde que poderia transformar todos os desejos em realidade...

A lista de heróis da National dos anos 40 é interminável. A National foi também a primeira editora a reunir vários heróis numa mesma história.

O primeiro grupo de super-heróis, a Sociedade de Justiça da América foi fundada em 1940 com oito integrantes: Flash, Gavião Negro, Lanterna Verde, Senhor Destino, Espectro, Átomo, Homem-Hora e Sandman.

Com o passar dos anos, a equipe sofreu reformulações, até cair no limbo em 1949.

Mas os super-heróis não eram uma exclusividade da National. Na primeira edição de Police Comics (agosto 1941), debutava o Homem-Borracha (Plastic Man), de Jack Cole, que podia se esticar como um elástico e assumir mil e uma formas.

O curioso é que o personagem era originalmente um criminoso, que adquiriu seus super-poderes num assalto frustrado a um indústria química, derrubando pingos de um misterioso ácido sobre seu corpo.

A Fawcett, por sua vez, explodiu nos Comics com seis letras: SHAZAM!, invenção do artista C. C. Beck, que deu origem ao Capitão Marvel em 1940.

O pequeno Billy Batson se tornava o mortal mais poderoso do mundo pronunciando a palavra mágica, que era acróstico de Salomão, Hércules, Atlas, Zeus, Aquiles e Mercúrio, entidades que lhe forneciam super-poderes idênticos aos de super-homem.

Logo surgiram o Capitão Marvel Jr. e Mary Marvel. Seu sucesso chegou a ameaçar o vôo solitário de seu concorrente de Krypton, tornando-se o primeiro super-herói adaptado por um seriado de aventura de cinema.

Os super-poderes da National, porém se mostraram implacáveis. Acionada por plágio e vencida na Corte, a Fawcett teve de desistir de seu herói, entregando os direitos de publicação para a editora do primeiro Super-Homem.

A Fox Features Syndicate possuía um cast invejável de super-heróis, como o exótico Flame (1940) de Basil Bertold e Lou Fine, iniciado por monges tibetanos na arte da auto-defesa e dos segredos dos lamas, que incluíam o poder místico sobre o fogo, ou o Besouro Azul (Blue Beetle) de Charles Nicholas, que possuía um traje a prova de balas e aprofundava suas habilidades tomando uma dose periódica de um componente farmacêutico secreto.

Junto a Sansão, a dupla chegou a formar um grupo chamado Big 3 (1940), que entrou para a história por debochar de Roosevelt, Churchill e Stalin. Os congressistas americanos, porém, não gostaram muito da piada e votaram pela suspensão da revista, bem como dos títulos individuais dos personagens.

Nos anos, 60, o Besouro Azul voltou a ação através da Charlton Comics, editora que, por sua vez, teve seus personagens adquiridos pela DC. Atualmente, o Besouro Azul integra a reformulada Liga da Justiça, grupo sucessor da Sociedade de Justiça da América.

A maior curiosidade da Fox, porém se chamava Thor, um super-herói baseado na mitologia nórdica.

Thor surgiu em 1940, quando um jovem cientista chamado Dr. Grant foi quase eletrocutado em uma experiência com novo condutor elétrico. O acidente revelou que ele era herdeiro do poder sobrenatural antigo Deus do Trovão.

A partir de então, sempre que a vida de Grant era exposta ao perigo, o espírito de Thor se apossava de seu corpo e lhe conferia super-poderes. Duas décadas depois, o personagem e o conceito de Thor seriam revividos pela Marvel Comics Group. Mas isto é tema para outra bat-hora e outro bat-canal, a ser contada pelo gênio Stan Lee.

Galeria de Personagens

A luta de Flash Gordon contra o tirano do planeta Mongo é o maior épico dos quadrinhos. Seu estilo kitsch mistura cenários medievais com naves futuristas, pinceladas seguras e traços turbilhonados. Na Itália, Flash Gordon chegou a ser desenhado por Fellini. Após a Segunda Guerra, Alex Raymond foi o primeiro autor de quadrinhos a expor suas telas na National Gallery (Washington).

Mandrake, o mágico criado por Lee Falk e Phil Davis em 1934, era um gentleman aventureiro e detetive que usava poderes sobre naturais(posteriormente, hipnotismo). Mandrake era acompanhado por seu servo (depois, parceiro) Lothar, um príncipe africano, que foi o primeiro personagem negro importante dos quadrinhos.

Príncipe Valente de Hal Foster é mais do que um comic, é quase um romance. A trama começa com Val criança e continua através de seu filho mais velho, Arn, décadas após os eventos que tornaram o príncipe Cavaleiro da Távola Redonda. A mais impressionante inovação de seus desenhos hiper-realistas – que não usava balões mas legendas – eram os quadrinhos panorâmicos, que chegavam a ocupar dois terços de uma página.

Milton Caniff pesquisou exaustivamente antes de lançar Terry e os Piratas. Nessas pesquisas, encontrou o recorte de jornal sobre a mulher pirata que aterrorizou a China nos anos 30 e que inspirou a criação de Dragon Lady, a mais misteriosa mulher fatal de todos os quadrinhos. Caniff também foi um dos primeiros a explorar as possibilidades do sombreamento. Seu mérito, contudo, foi no trabalho de enquadramento, que antecipou princípios da linguagem cinematográfica.

Superman inaugurou a era dos super-heróis saltando sobre edifícios, levantando pesos “incríveis” e correndo mais rápido do que uma locomotiva. Além disso, Superman podia colocar todos os fortões em cima de edifícios e atrair as meninas mais bonitas da cidade (especialmente sua colega de trabalho, Lois Lane). Graças a esta idéia juvenil dos garotos de 17 anos Jerry Siegel e Joe Shuster, os quadrinhos nunca mais foram os mesmos.

Batman era mais barra pesada: sua origem estava ligada à vingança de um menino, que presenciara o assassinato dos pais por um assaltante num beco escuro. Pra piorar, ele ainda vestia um uniforme sinistro... A pressão acabou levando seu autor, Bob Kane, a conceber o primeiro parceiro juvenil dos super-heróis, Robin, um adolescente de 13 anos com quem o público podia se identificar.

The Spirit, criado por Will Eisner em 1944, possui muito mais violência, humor e maturidade que qualquer outro comic do seu tempo. Eisner foi um visionário. Em diversas ocasiões, desenhou Spirit apenas como um personagem secundário, como contraponto de crônicas urbanas.

Meter a língua onde não é chamado


Por Joaquim Ferreira dos Santos

Azeite, não é meu parente! Nem todos entendem, mas a língua que se falava antigamente era tranchã, era ou não era?

As palavras pareciam todas usar galocha, e eu me lembro como ficava cabreiro quando aquela tetéia da rua, sempre usando tank colegial, se aprochegava com a barra da anágua aparecendo, vendendo farinha, como se dizia. Só porque tinha me trocado pelo desgramado que charlava numa baratinha, ela sapecava expressões do tipo “Conheceu, papudo?!”. “Ora, vá lamber sabão”, eu devolvia de chofre, com toda a agressividade da época. “Deixa de trololó, sua bacurau.”

Era tempo do onça total. As garotas, algumas tão purgantes que pareciam eternamente de chico, não davam esse mole de escancarar o formato do V-8 sob a saia, e os homens, tirando uma chinfra, botavam pra jambrar com quedes e outras papas-finas. Eu, hein, Rosa?! Tanto quanto o telefone preto, a geladeira branca e o sebo para passar no couro da bola número 5, essas palavras foram sendo consideradas como as garotas feias de então – buchos. Aconteceu com elas, as palavras, o mesmo que ao Zé Trindade – empacotaram, bateram as botas. Tomaram um cascudo, levaram sopapo, catiripapo, e chisparam do vocabulário. Uma pena.

A língua mexe, pra frente e pra trás, e assim como o bacana retornou guaribado para servir de elogio nos tempos modernos, pode ser que breve, na legenda de uma foto da Carolina Dickmann, os jornais voltem a fazer como diante da Adalgisa Colombo outrora. Digam que ela tem it, que ela é linda, um chuchu. São coisas do arco da velha, vai entender?! Não é só o mistério da ossada da Dana de Teffé que nos une ao passado. Não saberemos nunca, também, quem matou o mequetrefe, a pinimba, o tomar tenência e o neca de pitibiribas, essas delícias vocabulares que, enxotadas pelo bom gosto gramatical, picaram a mula e foram dormitar, como ursos no inverno, numa página escondida do dicionário.

Outro dia eu disse para minhas filhas que o telefone estava escangalhado. Morreram de rir com esse maiô Catalina que botei na frase. Nada escangalha mais, no máximo não funciona. Me acharam, sem usar tamanho e tão cansativo polissílabo, um completo mocorongo. Como sempre, estavam certas. Eu tenho visto mulheres de botox, homens que escondem a idade, tenho visto todas as formas de burlar a passagem do tempo, mas o que sai da boca tem data. Cuidado, cinquentões, com o ato falho de pedir um ferro de engomar, achar tudo chinfrim, reclamar do galalau que senta na sua frente no cinema e a mania de dizer que a fila do banco está morrinha. Esse papo, por mais que você curta música techno e endívias, denuncia de que década você veio.

Acho maneiro que a Sônia Braga volte, curto às pamparras a Emilinha vendendo CD na praça. Mas por que não dar uma linguada no passado? Sem querer amolar, sem bololô, sem querer fazer arte, sem querer, em tempos já tão complicados, trazer mais angu de caroço para a vida das pessoas, eu torço, quer dizer, tenho a maior queda por um revival lingüístico. As mães costumavam passar sabão na língua do ranheta que falava palavrões. De vez em quando, todos sofremos essa limpeza e perdemos palavrinhas tão gostosas quanto aquele mingau de sagu com uma banana caramelada no meio. Será o Benedito?! Ninguém merece.

Da mesma maneira que se foi, parece que para sempre, o crescer a barba como sinônimo de passar vergonha, às vezes dá-se a ressurreição de uma dessas espoletas estabanadas. Eram palavrinhas catitas, todas do tempo em que as moças ficavam incomodadas mas não dormiam de touca. O borogodó, por exemplo, tem tudo para ser um novo mantra de felicidade solar com seus redondos abertos e femininos. Seria uma coqueluche semântica, qual é o pó?! Por que não?! Se a bossa nova voltou, se a boca-de-sino também, por que não a moda da língua retrô? Haverá adjetivo mais correto para aquela vizinha sonsa do 302 do que songamonga? Batatolina. Ô mulherzinha pra gostar de um bafafá!

Essas palavrinhas das antigas, verdadeiros pitéus sonoros, podiam formar o MSL, Movimento dos Sem Língua, e exigir assentamento no papo do dia-a-dia ao lado de pamonhas, patas chocas do tipo disponibilizar, fidelizar, maximizar e outras gaiatas que andam fazendo uma interface lambisgóia, totalmente lengalenga, na fala cotidiana. Ficaria, como se diz, um mix contemporâneo.

Uma língua bem exercida é metida, jamais galinha morta. É feita de avanços e recuos, e se isso parece reclame de algum filme apimentado, digamos que, sim, pode ser. Língua, seja qual for, é erótica. Dá prazer brincar com ela. Uma lambida no passado envernizaria novamente palavras que estavam lá, macambúzias e abandonadas, como quizumba, alaúza e jururu, expressões da pá virada como na maciota, onde é que nós estamos! E ir pra cucuia. Certamente, por mais cara de emplastro Sabiá que tenham, elas dariam uma viagrada numa língua que tem sido sacudida apenas pelo que é acessado do cybercafé e o demorô dos manos e das minas.

Meter a língua onde não se é chamado pode ser divertido. Lembro do Oscarito passando a mão na barriga depois de botar pra dentro uma feijoada completa e dizer, todo preguiçoso, pimpão e feliz, “tô com uma idiossincrasia!”. Estava com o bucho cheio, empaturrado de palavras gordas, compridas e nonsenses como um paio de porco. É o banquete que eu sugiro. Troque essa dieta de alface americana de palavra transgênica, que anda na moda mas não vale um caracol. Caia de boca num sarrabulho com assistência na porta, um pifão de tirar uma pestana do caramba, uma carraspana batuta. Essa idiossincrasia vai fazer sentido.

Se alguém, depois de ouvir todas essas palavras de lambuja, repetir mamãe das antigas, gritar menino, dobre a língua, não se faça de rogado – estique.

Sobre o Pato Fu e outras futricas midiáticas


A atual formação do Pato Fu inclui Fernanda Takai (vocal e violão), John Uchoa (guitarra, programações e vocais), Ricardo Koctus (baixo e vocais), Xande Tamietti (bateria) e Lulu Camargo (teclados)


Setembro de 1995. No papel de editor de Cultura do jornal Amazonas Em Tempo, onde estava trabalhando há quase um ano, a minha única preocupação diária era não repetir o rame-rame, a mesmice, a pauta sem imaginação dos suplementos locais, sempre anunciando os mesmos shows das mesmas bandas nos mesmos locais.

A minha editoria possuía apenas dois jornalistas (o saudoso Marcos Figueira e a querida Amélia Loureiro, ela mais focada em matérias de turismo e comportamento) e uma estagiária (a lovely Trícia Cabral, atual editora executiva do jornal).


Encontrar um fotógrafo disponível para cobrir nossas pautas só com a ajuda de São Judas Tadeu, o padroeiro das causas impossíveis.


Para ilustrar as matérias locais, na maioria das vezes eu me valia de fotografias dos arquivos pessoais de nossos brilhantes colunistas sociais (a saudosa Elaine Ramos e os abnegados Alexandre Prata, Fernando Coelho e César Seixas, que nunca me deixaram na mão).


Naquelas circunstâncias, era quase impossível querer disputar espaço com as bem-fornidas editorias de cultura dos jornais A Crítica, Diário do Amazonas, Jornal do Norte, etc, cobrindo os mesmos assuntos.


A gente preferia publicar coisas mais interessantes e inventivas, que estivessem na terceira margem, no acostamento ou a léguas de distância do mainstream local. É claro que isso nos causava alguns problemas.


Aliás, aqui cabe fazer, antes, um pequeno registro.


Apesar do suposto glamour de trabalhar com cultura, moda e comportamento, o suplemento cultural dos jornalões sempre foi o patinho feio de qualquer redação.


Os jornalistas das demais editoriais olham para a turma da Cultura com um misto de ódio, inveja, rancor e ressentimento. E todo mundo dá palpite nas matérias publicadas.


Eu nunca vi um repórter de Cultura pegar uma página de Cidade, ir lá com o editor e dizer: “Essa matéria está uma merda! Não gostei não!”


Mas qualquer estagiariozinho do caderno de Esportes se acha com o direito de falar desse jeito com um editor de Cultura ou, durante o cafezinho, com um repórter da referida editoria responsável pela tal matéria que lhe deu engulhos.


Bom, pelo menos era assim há 15 anos. Não faço a menor idéia se mudou alguma coisa de lá pra cá. Desconfio que não.


Naquela época, nas tardes de segunda-feira, a doce e enérgica jornalista Hermengarda Junqueira, diretora executiva do Amazonas Em Tempo, se reunia com todos os editores para discutir as falhas e os acertos da semana anterior (incluindo os “furos” dados ou tomados da concorrência) e pautar as edições da nova semana.


Era uma espécie de “lavagem de roupa suja”, mas de alto nível. Eu nunca dei palpite sobre as demais editorias, mas sempre tinha que me livrar de alguma saia justa provocada por um dos presentes.


Em uma dessas reuniões, a jornalista Solange Elias, editora de Economia, resolveu me detonar por conta de uma matéria publicada na sexta-feira anterior.


Exibindo os demais suplementos culturais da cidade, que abriram a primeira página anunciando um show da banda Carrapicho naquela noite, ela comparou com a primeira página do nosso suplemento: eu anunciava que a banda Pato Fu iria se apresentar em Nova York.


Como a Solange Elias nunca havia ouvido falar nos músicos mineiros, ela achava que o jornal estava prestando um desserviço à população amazonense por não informar direito sobre a cena cultural local e, o mais grave, levando um banho da concorrência.


Eu contra-argumentei explicando que o leitor queria saber de novidades (e o Pato Fu em Nova York era novidade), de informações quentes, de pautas fora da mesmice.


Se ela não conhecia o Pato Fu, aquilo era problema dela. E sua (dela) ignorância musical não era motivo suficiente para privar os leitores do jornal de conhecerem o trabalho de um dos mais inventivos grupos musicais da época.


“Não vai demorar muito pra todo mundo começar a elogiar o trabalho musical do Pato Fu. Que mal há em os nossos leitores tomarem contato primeiro com aquilo que só vai ser novidade daqui a um ano?”, ironizei.


O Augusto Banega, editor de Cidade, ficou do meu lado e comprou a briga. “O Simão está editando um caderno de Cultura, não um guia de shows da cidade. Eu também não conhecia o Pato Fu, mas agora já sei de quem se trata e vou tentar comprar o disco deles pra ver se é mesmo aquela maravilha toda!”, avisou.


A Solange Elias, evidentemente, ficou puta nas calças.


Também não precisava. A matéria sobre o show do Carrapicho havia sido publicada nas páginas internas do suplemento, logo, portanto, por conseguinte, a gente não estava “levando um banho da concorrência”. Pelo contrário. Só a gente tinha dado a matéria do Pato Fu.


Além disso, naquele ano, eu já havia dado quatro primeiras páginas para a banda Carrapicho. Eu era amigo dos músicos, mas eles só ganhariam a primeira página de novo se fossem apresentar algo inusitado naquele show (o vocalista Zezinho Corrêa praticar harakiri no palco durante a milionésima apresentação de “Tic Tic Tac”, por exemplo).


Como isso não estava previsto no script, optei pela divulgação da banda mineira. Simples assim.


As origens do Pato Fu


Se o senhor não está lembrado, dê licença, eu vou contar: Marcelo Dolabella sempre foi um dos grandes agitadores culturais de Belo Horizonte. Apesar de nunca nos termos conhecido pessoalmente, trocamos muitos livros de poesia via correio nos anos 80.


Ativo colaborador do vanguardista fanzine Gass, ele editou uma revista de poesia e textos, a Farenheit 451, foi dono de uma loja de livros usados, a Boogie Woogie, encabeçou vários cursos, como o “Da Poesia ao Rock”, ministrado no festival de inverno de São João del-Rey (MG), mas na mídia em geral ficou mais conhecido como autor do primeiro dicionário de rock brasileiro – o famoso “ABZ do Rock”.


Como se não bastasse ter participado de todos os aprontos citados anteriormente, aí por volta de 1984, Marcelo arquitetou um projeto musical intitulado Divergência Socialista.


O nome podia ser associado tanto a uma oposição à corrente política trotskista Convergência Socialista (hoje PSTU) como a uma dissidência do Sexo Explícito, um dos melhores grupos pop do país, que contava com Marcelo na primeira formação e tinha entre os colaboradores Gato Felix e Rubinho Troll.


Depois de ficar parado durante todo o ano de 85, o Divergência Socialista começou a sedimentar seu novo projeto em 1986, tendo lançado um CD com o nome da banda.


Devido a infinitas mesclas e referências, eles se transformaram em um dos poucos grupos de rock experimental daquela década que vingaram em termos de proposta, mas que não obtiveram a continuidade necessária para se manter na ativa. Coisas do Brasil.


Para dar maiores detalhes sobre o trabalho da banda Divergência Socialista, ninguém melhor do que o próprio Marcelo Dolabella, a partir desses toques pinçados de uma sua entrevista para a extinta revista Bizz:
“Miramos o rock-experiência, unido a outras formas de arte. Um trabalho de aglutinação: de Alice Cooper, passando pela discotéque e o punk dos anos 70, até a música contemporânea. Toda essa mescla se associa à linguagem cinematográfica e à poesia. Enfim, pegamos as coisas que todos já experimentaram no rock e as acrescentamos às que ainda não foram usadas”.


O quê, por exemplo?


“Fazer uma coisa que tenha peso, mas que seja dançante. Por questão de amadurecimento, utilizamos, também, o silêncio como interferência na massa sonora. O texto, meio minimalista, hai-kai, toma uma forma diferente quando cantado – muda... Como diz a letra: ‘Você não é muda, quem sabe muda...’ Politicamente não se refere à descrença. como normalmente ocorre quando se utilizam esses temas. Leva para o lado antiniilista, para cima, no sentido de fazer alguma coisa. Não tem que ficar chorando o leite derramado e achar que tudo é ruim e não há o que fazer.”


A argamassa sonora do Divergência Socialista incluía a utilização de instrumentos tradicionais, como baixo acústico, por conta do arranjador Mário (também Sexo Explícito), teclados, violão, baixo elétrico, mas também um computador rítmico, aos cuidados da graciosa Aleca, além de voz mais performance do desencanado Suma. O multimídia Marcelo Dolabella se incumbia dos “dada tapes” e textos.


A idéia de usar tapes veio da experiência do cineasta russo Dziga Vertov. No início do século 20 ele usava gravação de elementos da natureza e de vozes lúbricas para servir de fundo para suas declamações. Marcelo utilizava o mesmo recurso como uma nuvem ou tempestade que perpassava a massa sonora e o vocal.


“Gravo, por exemplo, um som de floresta, jogo em 45 rotações e fica como se fosse uma guerra”, explicava.


Entre os moleques que gravitavam em torno de Marcelo Dolabella estava um adolescente gaiato chamado John Ulhoa, que pode ser visto fazendo uma pequena participação neste vídeo caseiro abaixo:





O Pato Fu teve início em 1992, quando Fernanda Takai, até então vocalista da banda Fernanda & 3 Do Povo, decidiu formar uma banda com dois amigos de uma loja de guitarras onde ela costumava comprar encordoamentos.


Os amigos eram John Ulhoa e Ricardo Koctus, das bandas Sustados por Um Gesto e Sexo Explícito, respectivamente. Alguns anos depois, Fernandinha se casaria com John.


A proposta do trio era fazer música de forma não convencional, unindo bases eletrônicas a guitarras pesadas, música regional, baladas e o que mais aparecesse pela frente. Uma espécie de filho pródigo do Divergência Socialista.


Eles decidiram se chamar Pato Fu em alusão a uma tira de quadrinhos em que o preguiçoso gato Garfield lutava gato-fu.


Para não lembrar tanto a história original, trocaram a primeira letra, e ficaram com um nome tão estranho quanto o som que fariam mais tarde.


Em outubro de 1992, gravaram sua primeira fita demo, e, no final do ano, começaram a se apresentar no circuito universitário de Belo Horizonte.





Já no começo de 1993, participaram do show Rock Brasil, ao lado de bandas como Skank, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e Titãs.


Em maio de 1993, o Pato Fu terminou de gravar o seu primeiro álbum – Rotomusic de Liquidificapum – no estúdio Ferreti, localizado em Belo Horizonte, atual estúdio Máquina do Haroldo Ferreti (baterista do Skank).


Embora o disco não tenha obtido o sucesso esperado, acabou despertando a atenção da gravadora BMG, durante uma apresentação do trio eletrônico no Rio de Janeiro, em 1994.


Em meio a outras bandas emergentes, o Pato Fu foi escolhido por Maurício Valadares (coordenador do selo Plug da BMG) para assinar um contrato com a gravadora.


Algum tempo depois, em 1995, gravaram o segundo CD – Gol de Quem? –, em apenas um mês, no estúdio Cia. de Técnicos, também no Rio de Janeiro.


Eles me enviaram os dois trabalhos (Rotomusic de Liquidificapum veio em fita K-7), um release e o anúncio de que iriam tocar em Nova York. De quebra, haviam trocado a sua bateria eletrônica por um músico de verdade: Xande Tamietti.


Pra quem gostava de boa música, aquilo era uma notícia e tanto, aqui ou na Conchichina. E merecia a primeira página de qualquer suplemento cultural digno do nome, independente do mau humor das demais editorias.


Em dezembro daquele ano, o Pato Fu voltaria a ocupar a primeira página dos suplementos culturais do país inteiro: músicas como “Sobre o tempo” e “Qualquer bobagem” deram à banda o prêmio de revelação no 1º Video Music Awards da MTV Brasil e também o 1º Prêmio Multishow de Música Brasileira.


Apesar de ter errado na previsão (em vez de um ano, o Pato Fu estourou em quatro meses), eu havia ganho a aposta da querida Solange Elias. Acontece.


O certo é que com uma sonoridade bem diferenciada, que fazia a ponte dos Mutantes ao Britpop, passando por elementos típicos de música brasileira e pelo pós-punk, a banda de Fernanda Takai, John Ulhôa e Ricardo Koctus, aos pouquinhos, foi entrando no dial das rádios e lançando sucessos que todos sabem de cor.


Os seus primeiros discos, mais experimentais, prepararam o terreno para o Pato Fu soar um pouco mais comercial a partir de “Televisão de Cachorro” (1998), mas sem perder a sua originalidade.


A partir daí o Pato Fu segue uma carreira de sucesso, com muitos shows e participações importantes, grava musicas que fazem sucesso no mundo inteiro, lança CDs e DVDs, excursiona pela “Bahia, Brasil e Oropas” e se transforma em queridinho da mídia.


Na nova década, os integrantes dão um tempo para se dedicar a projetos pessoais sem, no entanto, desfazer o grupo. John e Fernanda curtem o primeiro filho, enquanto Ricardo dedica-se a fotografia e assim seguem até 2005, quando lançam o CD “Toda cura para todo mal”, um trabalho que traz uma nova roupagem da banda, um som mais maduro, mais forte e que também marca a estréia do selo independente do Pato Fu: Rotomusic.


Em 2007, novo sucesso com o CD “Daqui para o futuro”, que vendeu como água pela internet antes mesmo de ser lançado nas lojas especializadas.


Resumo da ópera: com mais de 15 anos no cenário musical brasileiro, o Pato Fu já se consagrou como uma original banda de rock, tendo sido classificada pela revista Time entre as 10 melhores bandas do mundo. Não é pouca porcaria.


Curtam abaixo um novo vídeo de Rubinho Troll, de seu disco solo “Fedendo que nem Brasileiro” (2009), produzido por John Ulhoa:


sexta-feira, julho 09, 2010

Men of certain age: a nova aposta arriscada de Romano



Paulo Serpa Antunes

Ray Romano foi o primeiro comediante após Jerry Seinfeld a chegar ao topo. Eu tenho pena deles. Sério. Tenho medo do sucesso. Tenho medo de que, quando se chega lá em cima, lá no cume, logo após aquele suspiro de alívio, logo após o coração se encher de realização e desfrutarmos aquele dose imensa de felicidade, o cérebro dispare uma sinapse assustadora, lançando a pergunta: e agora?

Assim como Seinfeld, Romano tem mais dinheiro do que jamais conseguirá gastar em vida. Romano não precisa mais trabalhar. Romano pode fazer o que quiser. Quer dizer, em termos. Porque Romano, ao conduzir com brilhantismo por nove anos Everybody Loves Raymond, chegando ao alto da montanha, ele ganhou um bem precioso e frágil, chamado credibilidade.

Romano é relativamente jovem, não pode ficar parado, se aposentar. Mas cada movimento é um risco, e se a credibilidade se perde, quebra, desaparece? O que fazer?

Ele decidiu seguir os passos do Seinfeld. Primeiro sumiu da mídia por um tempo, pra diminuir a pressão. Depois percebeu que o caminho é fazer algo totalmente diferente do que fazia. Diversificar. Seinfeld fez desenho animado, tentou roubar alguns milhões do Bill Gates, relembrou os velhos tempos ao lado do Larry David e parece que vai investir em reality show.

Romano decidiu partir pro drama. E assim nasceu Men of a Certain Age.

O título da série, que estreou na segunda-feira, dia 7 de dezembro do ano passado, no canal americano TNT, é auto-explicativo. Men of a Certain Age gira em torno do universo masculino, em especial da vida de três baby boomers, membros desta geração de norte-americanos que comandou a economia do mundo e ditou as tendências culturais e, bom, não se deram por conta disto na época. Hoje assistem aos X e aos Y tomar conta do mundo que um dia foi deles e se debatem para recuperar a identidade e a dignidade perdida depois da crise financeira.

O tema é ótimo. E arriscado. Depois que Sex and the City se tornou uma máquina de fazer dinheiro muitos produtores pensaram: e se fizermos uma versão masculina, com homens de meia idade? Veja bem, a princípio a ideia é ótima, e comercialmente espetacular – estamos falando de fazer um show para esta horda de norte-americanos que assistem muita TV (Internet é para os jovens) e dão índices de audiência gigantescos para o Sunday Night Football e NCIS.

O melhor seriado nesta linha foi a comédia britânica Manchild. Houve recentemente uma tentativa de se fazer uma versão norte-americana, que ficou no piloto. Na época de Sex and the City tivemos The Mind of the Married Man, muito honesta, mas um pouco sem gás e às vezes um pouco rude. De lá pra cá esta temática vai e volta, geralmente resultando em séries medíocres como Big Shots ou estas comédias sem graça dos canais de TV paga, como Californication.

Men of a Certain Age, felizmente, consegue se descolar das acima logo na saída. Digo mais, ela se distingue já na vinheta de abertura, que me conquistou com imagens mostrando a infância dos três protagonistas, emulando de forma mais saudosa e menos grandiosa a bela abertura de Anos Incríveis. As imagens sugerem que o tema do universo masculino será abordado com sensibilidade. E a sensibilidade segue ao longo de 42 minutos, no roteiro despretensioso, na boa direção de atores, na trilha sonora setentista, na fotografia inteligente (belos planos fechados, sempre buscando as expressões faciais e as rugas dos atores).



Men of a Certain Age - Piloto

Dito isto vem o pavor de que Men of a Certain Age seja chata. Não, não é. É uma dramédia, cujos momentos cômicos funcionam razoavelmente bem no episódio piloto. Quem leu o livro de Ray Romano “Tudo e Mais uma Surpresa” (a venda no Submarino, recomendo), sabe que ele é muito bom stand up comedian, dono de um humor leve, ingênuo, construído em torno da observação do comportamento das pessoas. Em Men of a Certain Age este senso de humor gera bons diálogos de small talk – já nos primeiros minutos ele conta para os amigos que emagreceu um quilo depois de fazer xixi, iniciando uma divertida discussão tola.

Romano está incrivelmente bem na série, a vontade no papel de Joe, pai separado, dono de uma loja de artigos para festa e golfista frustrado. E bem acompanhado, ao lado do brilhante Andre Braugher (Hack, House) e do razoável Scott Bakula (Enterprise, Chuck), aqui meio canastrão, talvez por ter o personagem mais clichê dos três.



Eu não gostaria de correr o risco de apostar no sucesso ou fracasso de Men of a Certain Age. Até porque, apesar dos bons números de audiência da estreia, a série corre sério risco de sumir na grade de programação da TNT, construída em torno de The Closer, e que nos últimos anos tirou do ar, sem dó nem piedade, Saved, Heartland, Trust Me e agora Raising the Bar.

Pesa contra Men of a Certain Age ainda o fato da série não ter nenhuma grande trama, o que provavelmente causará desgosto no pessoal mais jovem (esta mesma turma que acha Mad Men um tédio). O que vemos são homens de meia idade zanzando pela tela, na maior parte do tempo desapontando suas famílias, seus colegas ou a si mesmos. Não há nada vagamente heróico na série (como por exemplo há em Friday Night Lights ou em qualquer drama médico ou policial) e estes personagens são inofensivos, no máximo mentirosos, bem distante dos anti-heróis amorais que hoje povoam o imaginário dos telespectadores ao redor do mundo.

Justamente por isto, pela simplicidade da fórmula e ao mesmo tempo a ousadia de ir contra a corrente, Men of a Certain Age me conquistou.

Há um diálogo na série em que o personagem de Bakula cita Sísifo, o mortal condenado pelos Deuses para rolar pela eternidade uma grande pedra até o cume de uma montanha, que por fim acabava caindo montanha abaixo. A história fica na cabeça de Joe e parece que o que veremos pelas próximas nove semanas é a sua tentativa de mudar as coisas em sua vida.

Men of a Certain Age pode fracassar ou não, mas o que posso afirmar com certeza é que a credibilidade de Ray Romano sairá intacta desta série, senão maior. A sensação que tenho, neste momento, é que Romano começou sua jornada particular para escalar a montanha de novo. Como Sísifo. Ele já é um exemplo pra mim e, vejam só, acho que acabo de perder um pouco daquele medo de chegar no topo.

NOTA: A série estréia no Brasil , no canal Warner, na próxima terça-feira, 13, às 22h

quarta-feira, julho 07, 2010

O troglodita e o poeta


Uma das obras de Afrânio de Castro pertencente ao acervo particular de Anibal Beça

Por conta de sua excentricidade e ao seu permanente ar de mistério, começou a circular na cidade uma história dando conta de que o poeta Luiz Bacellar virava morcego, à meia-noite, nas sextas-feiras. O troglodita Afrânio de Castro valia-se disso para inventar toda sorte de piadas sobre o circunspecto autor de Frauta de barro. Segue uma delas, recuperada pelo saudoso escritor Arthur Engrácio.

Entrando, uma manhã, no cemitério São João Batista, Afrânio de Castro avistou, a distância, o poeta. Ele foi se aproximando devagar, sem ser percebido, até que ficou bem perto dele, ocultando-se atrás de uma mangueira. Naquele instante, caía uma chuva fina e Afrânio pôde ouvir de repente a voz da mamãe Vampirella dirigindo-se a Luiz Bacellar:

– Bacellarzinho, meu filho, meu tesouro, acho bom você recolher-se ao seu mausoléu. Está começando a chover e você pode ficar gripado.

Ao que o poeta respondeu-lhe:

– Não tem problema, não, mãezinha querida. Não carece se preocupar comigo. Deixa eu ficar aqui fora, brincando mais um pouquinho com o meu priminho Frankstein...

Quando soube da história, Luiz Bacellar jurou matar o artista plástico. Não cumpriu a promessa. No dia 20 de setembro de 1981, num domingo à tarde, Afrânio de Castro morreu afogado na praia da Ponta Negra, durante um porre monumental.

Histórias do saudoso troglodita


Temperamental por excelência, o artista plástico Afrânio de Castro, apelidado amigavelmente de “Troglodita” pelos seus parceiros de Clube da Madrugada, estava enchendo a cara de birita em um boteco na rua Saldanha Marinho, quando percebeu que sua grana havia acabado. No mesmo instante, ele viu o conhecido radialista Josaphat Pires, que lhe devia alguns trocados, caminhando do outro lado da rua. Trajando um terno de linho branco, impecavelmente engomado, de sapatos e meias também brancos, Josaphat estava indo bater o ponto no Bar do Carmona, ali perto.

Pretendendo cobrar a dívida para continuar bebendo, Afrânio de Castro levantou-se, chegou até a porta e gritou pelo nome do amigo. Fingindo-se de surdo, Josaphat continuou o seu caminho. Afrânio deu outro grito. O radialista não deu a mínima. Afrânio repetiu o grito pela terceira vez. Imperturbável, Josaphat continuou na mesma pisada. Afrânio não se conteve.

Se posicionando na calçada do boteco, ele colocou as mãos em concha na boca e gritou bem alto, a plenos pulmões:

– Josaphat, ô Josaphat! Todo de branco, hein? Mas com a alma negra como a asa da graúna!

O radialista quase morreu de rir. Mas não atendeu aos apelos desesperados do troglodita e se afastou dali rapidamente.

segunda-feira, julho 05, 2010

Morre o poeta Roberto Piva



O poeta Roberto Piva morreu no último sábado (3), em São Paulo, aos 72 anos, com falência múltipla dos órgãos decorrente de insuficiência renal. Um câncer na próstata o havia levado ao Hospital das Clínicas, onde estava internado desde maio. O câncer atingiu os ossos. Roberto Piva sofria de Mal de Parkinson há dez anos.


Poeta de importância nacional, Piva nasceu em São Paulo, onde escreveu sua obra prima, a coleção de poemas Paranoia, publicada em 1963.

Ao retratar a capital paulista de maneira maldita, inspirado pelo movimento beatnik e pelo surrealismo, Piva começou a se destacar como uma voz dissonante nos meios artísticos da cidade, num tempo em que os escritores ainda se juntavam em grupos. A obra ganhou reedição neste ano pela editora Instituto Moreira Salles.

O autor fez parte da geração de escritores, como Jorge Mautner, Hilda Hist e Claudio Willer, descobertos pelo editor Massao Ohno. Durante sua carreira, o poeta destacou-se pela poética urbana. Suas obras foram divididas em três volumes.e relançadas pela Editora Globo há cinco anos.

Ele fez parte de uma geração brilhante, mas posteriormente marginalizada, com fortes influências dos poetas beats americanos. Apesar disso, Piva não era facilmente classificável.

O ministro da Cultura Juca Ferreira divulgou nota em que afirma: "Se a morte de um poeta é sempre uma tragédia, a morte de alguém como Piva é um imenso baque a mais, já que a energia que alimentava sua poesia era a exaltação da carnalidade. Essa sua energia enfrentou, nos anos 60 e 70, além da repressão, a estranheza que se voltava contra pregadores, como ele, de uma poética do desregramento. Piva assumiu a responsabilidade de expressar as nossas carências e delírios extremos".

O velório foi realizado na noite de sábado no Cemitério do Araçá e o corpo do poeta foi cremado na tarde deste domingo (4) no crematório da Vila Alpina.

sexta-feira, julho 02, 2010

Doze anos sem Graça

Carlos Castro (de violão), Arnaldo Garcez, Zemaria Pinto, Jackson Chaves, eu, Inácio Oliveira, Orlando Carioca e Antonio Paulo Graça (de óculos e chapéu estiloso, em primeiro plano), durante uma cachaçada no Bar do Armando

No verão de 1998, o rapper Puff Daddy lançou uma música onde usava uma base do grupo musical Police e uma letra emocionante, riscada em cima da batida, numa tentativa desesperada de homenagear seu mano Notorious B.I.G., assassinado em março de 97.

A música, “I’ll Be Missing You”, nos bate no coração na hora em que entra um coro feminino (com Faith Evans, viúva de Notorious, na voz principal) ensinando o bê-á-bá da bem-querência eterna: “Every step I take/ Every move I make/ Every single day/ Every time I pray/ I’ll be missing you/ Thinking of the day/ When you went away/ What a life to take/ What a bond to break/ I’ll be missing you”.

Mal traduzida, essa parte da letra diz o seguinte: “Todo passo que dou/ Cada movimento que faço/ Todo maldito dia/ Toda vez que rezo/ Eu vou sentir sua falta/ Fico pensando no dia/ Quando você foi embora/ Que vida para ser roubada/ Que laço para ser partido/ Eu vou sentir sua falta”.

Essa “apelação” foi só pra dizer que nós, que já somos tão pobres culturalmente, ainda levamos uma porrada na cabeça, que foi perder o escritor Antonio Paulo Graça no dia 9 de junho de 1998. A letra do Puffy Daddy explica tudo o que sinto em relação a ele.

Paulo Graça tinha gênio. Só posso pensar em dois outros sujeitos mais velhos do que eu de quem diria isso: Luiz Bacellar e Thiago de Mello.

Éramos, eu e Paulo, muito mais do que amigos, talvez meio-irmãos, e devo partilhar a culpa de muitos outros amigos que sentiram a tentação de “adotar” Paulo Graça, porque perceberam que ele estava se autodestruindo, mas que fizeram muito pouco para transformar a intenção em gesto.

O gênio de Paulo Graça, ou Paulinho, como a gente o chamava nas internas, era uma assinatura primorosa que aparecia em tudo, em artigos para jornais, ensaios literários, críticas de livros, peças de teatro, romances, composições musicais, poemas, cartas pessoais, o diabo a quatro.

Nunca conheci ninguém que dominasse com maestria tantas linguagens culturais distintas e que fosse, ao mesmo tempo, tão pródigo em dividir esse conhecimento com os outros.

Paulinho não temia a sombra de ninguém porque, simplesmente, ninguém lhe fazia sombra. Conheci-o pessoalmente por intermédio do jornalista Inácio Oliveira.

Em 1985, o jornal A Crítica lançou um suplemento cultural chamado “Caderno C”. Eu havia sido convidado pelo Mário Adolfo, que trabalhava no jornal, para ser um dos colaboradores, mas estava sem assunto.

Preferi esperar o bicho sair para ver a linha editorial, que, para minha surpresa, mostrou-se bastante pluralista. O subeditor do suplemento era o poeta Aldisio Filgueiras, simplesmente uma garantia de qualidade em tudo onde coloca as mãos.

No número de estreia do “Caderno C”, Paulinho publicou um artigo intitulado “A Lira Marginal”, falando, claro, sobre a “poesia marginal”, que vinha agitando o Brasil desde os anos 70. Usei o texto dele como gancho e escrevi um artigo corrigindo algumas informações que ele escrevera.

Na época, eu me correspondia com a maioria dos autores por ele citado (Chacal, Nicolas Behr, Leila Miccolis, Cacaso, Glauco Mattoso, Ulisses Tavares, Marcelo Dolabela etc.). Paulinho gostou do que escrevi e pediu ao Inácio Oliveira que nos apresentasse.

Nos encontramos no Bar Galvez, ali no canto da avenida Major Gabriel com a rua Ipixuna, e ficamos amigos na mesma hora. Passamos a noite enchendo a caveira de birita e conversando sobre literatura marginal, geração beat, dadaísmo, socialismo, política cultural, física quântica, metempsicose e religiões orientais.

Naquela noite, lhe dei de presente um exemplar do Porandubas, meu livro de poesia lançado em 84. As vendas do livro haviam ajudado a fundar a CUT estadual. O sindicalista Jaques Castro, que trabalhara arduamente na organização do evento, foi eleito o 1.º presidente da entidade.

No dia 31 de março de 1985, Paulo Graça escreveu uma resenha simpática sobre o livro no Suplemento Literário do Jornal do Comércio, intitulada “O poeta em pessoa”, que transcrevo a seguir:

Aprendemos com Octavio Paz que a criação poética se inicia como violência sobre a linguagem. E aprendemos, por conta própria, que culturas periféricas e colonizadas como a nossa acabam emasculando aquela violência e parindo apenas burocráticos diluidores da rebeldia criativa. Por isso, sempre nos surpreendemos com a descoberta de livros como o Porandubas, de Simão Pessoa. Nele, a lírica recupera e mesmo dramatiza seu impulso de rebeldia e oposição ao marasmo social que anestesia as consciências humanas.

A história da poesia amazonense asssemelha-se muito a um velho álbum de fotografias bolorentas. Torna-se um problema insolúvel enfileirar nessa galeria sonâmbula qualquer poeta mais inquieto. Aliás, os ébrios guardiões do templo poético da city estão sempre atentos para, num segundo, desenharem um círculo de silêncio em volta de qualquer artista que carregue na veia uma única gota de sangue. Foi o que aconteceu com Aldisio Filgueiras, com Narciso Lobo, talvez entre outros.

Porém foi o que aconteceu mais dramaticamente ainda com Simão Pessoa. Confesso que jamais ouvira falar de Porandubas, o próprio termo indígena, que significa notícia, aprendi-o em Sérgio Augusto. Mas como me impressionaram essas notícias poéticas, polêmicas e patéticas. Além de afirmar a contemporaneidade da nossa poesia, com um gesto rude ou com um grito selvagem, a pessoa do poeta mostra que as ideias são possíveis a 40º à sombra.

Pois não se espantem: o fato de Malarmé ter demonstrado a Degas que poesia não se faz com ideias, mas com palavras, tem servido de desculpa para alguns equivocados cometerem poemas no vazio absoluto. Ora, poesia se faz com palavras, mas também com ideias assentadas sobre seu próprio mundo e sobre o mundo da poesia. Simão Pessoa sabe disso. Não aceita tudo, com a ânsia do provinciano que pretende exibir falsa cultura. Tem coragem de riscar do mapa o cerebrino Mário de Andrade e soube, num salto tigrino (a expressão é de Benjamin), fazer a conexão entre uma consciência da problemática social e a técnica higiênica do poema concreto.

Quando tange sua lira em elegias à floresta agonizante, Simão Pessoa adota aquela poética dos concretistas, ensinado-nos que não pretende fazer discursos retóricos, mas poemas de uma essencialidade como o osso, crus e selvagens. É como se o poeta violentasse essa tradição bacharelesca de nossa poética que consegue dizer tudo, menos o que interessa e o que deseja dizer.

Há um personagem que passeia por quase todas as páginas do minúsculo livro de Simão, é o “ennui”, o tédio de Charles Baudelaire. Mas seu tédio não é transcendental, pois ele sabe “que só é possível filosofar em alemão”, seu tédio é uma denúncia contra o vazio dessa existenciazinha que se abate sobre uma comunidade que, por já ter perdido e renegado sua própria identidade, sabe-se incapaz de reagir contra o golpe dos alienígenas.

As Porandubas Poéticas, primeira parte do livro, revelam-se uma tentativa de atualização poética. O poeta, exibindo invejável mestria no uso da musicalidade canônica do verso e da plasticidade imagética, nos dá a notícia da defasagem daquela modorrenta temática do “âmago telúrico”, histeria ainda vigente em certas igrejas decadentes.

Vencido o desafio contra o descompasso temporal, Simão Pessoa parte para uma briga contra os cacoetes parnasianos que neurotizam uma certa poesia. Cria as Porandubas Polêmicas, onde já não se preocupa em mostrar que domina a técnica, inventa e desinventa, elimina alguns recursos tradicionais e mistura prosa e poesia, atualizando aquele dito de Schwitters segundo o qual, sendo um poeta, tudo o que produz é poesia, mesmo a prosa. Em seguida vem as Porandubas Patéticas, seção dedicada mais claramente ao combate social. Aqui o poeta não pretende apenas dar demonstrações do poder das palavras, mas, sobretudo, lançar uma palavra contra o poder.

Pescar exemplos de criatividade e da poeticidade de Porandubas é inútil e perigoso, quase todo o livro é brilhante, pois Simão Pessoa vive e convive com a poesia, sabe que não basta, num grande livro, um ou outro exemplar de inventividade e originalidade. Aliás, originalidade é um outro traço que distingue o autor em questão. Nessa história de imitação e diluição, o poeta em Pessoa até nos agride com tamanha independência: não imita ninguém, não pretende ser ninguém, senão a Pessoa do poeta.

Para Walter Benjamin, “sempre foi uma das tarefas essenciais da arte suscitar determinadas indagações num tempo ainda não maduro para que recebesse plena resposta”. Taí a explicação da incompreensão com que se olha o poeta Simão Pessoa.


Evidentemente, o artigo do Antonio Paulo Graça me deixou de ego inflado. Tinha sido a primeira vez que alguém se debruçara com seriedade sobre o meu trabalho e fazia uma crítica interessante.

Até então, apesar de já ter publicado seis livros de poesia e distribuído de mão em mão cerca de cinco mil exemplares, eu era mais conhecido no eixo Rio-São Paulo-Belo Horizonte do que aqui em Manaus. Nunca mais paramos de nos encontrar nos botecos para falar sobre as mesmas coisas.


Isaac Maciel, Paulinho, eu e Kádia Eneida durante uma cachaçada no Espaço Cultural Valer. De costas e de “rabo de cavalo”, o psiquiatra Rogelio Casado

O que aconteceu com Antonio Paulo Graça? Bem, há o público e o privado. Depois de concluir com êxito um mestrado e um doutorado em Literatura na UFRJ, publicar três livros (A razão selvagem, Catedral da impureza e Tango selvagem), deixar outros três prontos (Como funciona a poesia, Uma poética do genocídio e Manual de Literatura do Amazonas), escrever regularmente no Jornal do Brasil e n’O Globo e voltar a ser professor da Universidade do Amazonas, Paulinho era tratado com desprezo aqui na província. Achavam arrogância onde havia apenas discernimento.

Houve outros agravantes. Mesmo trabalhando como um mouro, Paulinho continuava sofrendo penosamente com uma permanente crise financeira. Ele nunca conseguiu assimilar como era possível um intelectual do seu porte enfrentar tão dura batalha pela sobrevivência enquanto semianalfabetos de todos os quadrantes viviam num fausto de verdadeiros marajás.

Paulinho buscava o mínimo, que é viver com dignidade à custa do próprio talento, mas até isso lhe foi negado.

Percebendo que jamais seria como os outros (o puxa-saquismo e a subserviência nunca fizeram parte do seu código de conduta), ele preferiu tirar o time de campo.

Em outras palavras, Paulinho optou, mais ou menos, pelo suicídio consciente, por meio da ingestão diária de álcool em quantidade industrial. Ele não conseguia mais se enquadrar dentro de um mundo em que o poder econômico dita as regras do jogo e que, em última análise, não tolera a insubmissão. Como também sofro isso na pele, sei exatamente pelo que ele passou e penou.

Difícil esquecer aquele homenzinho de voz rascante, óculos grandes com grossas lentes, um andar meio saltitante, a risada explodindo numa frase de efeito, um olhar inquieto e um ar de criança abandonada que inspirava sentimentos maternais permanentes no mulherio presente nas mesas de bar.

Quando sóbrio, era um veludo. Após alguns goles, podia atirar espinhos a torto e a direito. Com os amigos, ficava intolerante. Com os inimigos, ficava intolerável.

Tantos anos depois e a hora ainda é realmente de chorar pela brutalidade dessa ladroagem ilimitada que apressou a morte de Paulinho. E lamentar pela ausência do amigo leal e sempre solidário.

Sem contar essa imensa dor de nunca mais ouvir aquela voz insistente, sempre indagando, criticando, criando, produzindo, nos afagando a imaginação, nos excitando o intelecto e nos fazendo acreditar em um mundo melhor.

O nosso provincianismo ficou mais pobre e triste, quando eu pensava que nada mais era possível. Tudo é possível. Até que tenhamos tido um gênio raro como o de Antonio Paulo Graça e zelado tão mal por esse patrimônio.