Pesquisar este blog

terça-feira, maio 30, 2017

Mudança no ministério: Temer troca zero por 171


Por Augusto Nunes

A mudança que transferiu Osmar Serraglio para o Ministério da Transparência e instalou Torquato Jardim no Ministério da Justiça pode parecer aos desinformados outra troca de seis por meia dúzia. Engano. O que fez o presidente Michel Temer foi trocar o zero pelo 171. Serraglio, que nunca existiu como ministro, agora está numa ministério inexistente. Torquato melhorou de endereço para reforçar a tropa que insiste em deter o avanço da Operação Lava Jato.

Em maio de 2016, numa entrevista a um jornal do Piauí, o agora ministro da Justiça formulou quatro perguntas, abaixo reproduzidas, para provar que a mais bem sucedida ofensiva anticorrupção da história do Brasil não passa de uma irrelevância inconsequente. Confiram:

1) O que mudou com o impeachment de Fernando Collor?

2) O que mudou depois da CPI do Orçamento, quando os sete anões foram cassados?

3) O que mudou com o Mensalão?

4) O que vai mudar com a Lava Jato?

Vamos desenhar. Ao livrar-se de Collor, o Brasil substituiu um caso de polícia por um insuspeito Itamar Franco, cujo governo, com Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda, instituiu o Plano Real, domou a inflação estratosférica, impôs a responsabilidade fiscal e deixou o país pronto para um sucessor provido de cinco neurônios.

Depois da CPI do Orçamento, o Congresso ficou com sete delinquentes a menos.

A devassa do Mensalão ensinou que, além de pobres, pretos e prostitutas, as cadeias têm vagas para meliantes da classe executiva, como José Dirceu, José Genoíno ou Delúbio Soares.

A quarta pergunta induz à suspeita de que Torquato mora em outro planeta. A Lava Jato já mudou o Brasil.

O balanço dos três últimos anos informa: já não há condenados à perpétua impunidade, presídios existem para hospedar também ex-presidentes, camburões espreitam a turma do foro privilegiado, figurões da política e do empresariado cabem em celas e beliches. Fora o resto.

Tudo somado, o povo aprendeu que os corruptos e seus defensores não têm musculatura para deter a devassa das catacumbas. Se tentar sabotar a Lava Jato, o ministro Torquato será despejado do novo gabinete antes de decorar o ramal da secretária.

O caos nosso de cada dia


Por Fernando Gabeira

Numa carta endereçada a Robert Louis Stevenson, o escritor Henry James diz que gostaria que ela fosse um mingau de boas notícias. Infelizmente, não é possível preparar esse prato no Brasil, com notícias tão tristes que nem podemos homenagear e conhecer melhor as vítimas do atentado em Manchester, algo que aconteceu nos principais países do mundo.

Apesar das más notícias, é possível demonstrar que o Brasil está preparado para uma situação melhor se olhar para algumas decisões recentes. Por exemplo: as desordens que aconteceram em Brasília não aconteceram em Curitiba, quando Lula foi depor. E, se acontecessem, seriam rapidamente debeladas, tal o aparato policial e sua articulação com outros setores do governo.

É preciso evitar e combater a barbárie, aceita ainda por uma esquerda que flerta com a violência e não superou o viés autoritário das teorias do século passado. Uma esquerda que não sustenta dois minutos de discussão se for chamada a defender com ideias a destruição de prédios públicos e propriedades particulares, sobretudo os primeiros, que pertencem ao povo que ela supõe representar.

Curitiba foi diferente, dirão alguns. Além do mais, o que estava marcado em Brasília era apenas mais uma das inúmeras manifestações. Ficamos acostumados com manifestações dominicais pacíficas, feitas por gente que trabalha a semana inteira e derrubou o governo Dilma sem quebrar uma janela.

E nos acostumamos também com manifestações marcadas com antecedência de quase um mês, algo que já comentei aqui, reforçando a importância de analisar a conjuntura, sobretudo num país de mudanças tão rápidas.

Uma nova conjuntura foi aberta com a delação dos donos da Friboi. Ela atingiu Temer em cheio e criou uma situação insustentável para ele. O PT finge que não foi delatado também, que o partido não recebeu US$ 150 milhões para as contas das campanhas de Lula e Dilma. Daí sua fuga para a frente, firme na tentativa de fazer com que Lula escape da cadeia, vencendo as eleições presidenciais, se possível ainda neste ano.

Li que a inteligência do governo tinha captado os sinais de possível violência no movimento Ocupa Brasília, convocado no auge das contraditórias respostas de Temer às acusações que pesam contra ele. No entanto, esta antevisão não resultou num esquema mais complexo de prevenção, que poderia ser realizado pela relativamente bem paga polícia de Brasília?

Sempre se pode argumentar que o governo de Brasília é de oposição a Temer e iria ou confraternizar ou fazer vista grossa diante dos excessos dos manifestantes. Mas isso também poderia ser previsto por uma inteligência modesta e deveria ter sido levado em conta na organização do esquema preventivo, que poderia contar com a Força Nacional e a logística do Exército.

Além dos ministérios que simbolizam o governo, o prédio mais importante do Exército, o chamado Forte Apache, está em Brasília. As condições não eram idênticas às de Curitiba. Mas isso faz parte de uma inteligência modesta: adaptar experiências bem-sucedidas a realidades diferentes. A incapacidade de preparar um esquema preventivo praticamente deixa como alternativa o aumento da repressão. É precisamente isso que interessa à esquerda, atrair uma forte repressão, de preferência excessiva.

Isso faz com que a imprensa priorize os excessos da repressão e jogue para um segundo plano os atos de vandalismo que a motivaram. A esquerda não é inteligente, se você der a esse termo uma dimensão estratégica, mas é esperta. Se o governo responde com uma pobre informação e uma tática burra, os antidemocratas nadam de braçada.

Concordo que Temer deve deixar a Presidência. Mas discordo dos métodos e dos objetivos das pessoas que estão na rua para derrubá-lo. Elas querem apenas um escudo para seu líder escapar da polícia. Primeiro você arruína o país com uma irresponsável política populista. Em seguida, você começa a destruir prédios públicos com a esperança de voltar ao poder e prosseguir na rapina.

Isso não acontecerá pelo caminho do voto, em eleições limpas. Mas a fragilidade do governo e sua incapacidade de analisar o momento favorecem as tendências autoritárias e destrutivas da esquerda.

Não há razão para dizer que o Brasil não tem jeito e que a barbárie é um destino inescapável. Nem é preciso olhar para fora em busca de exemplos nos países avançados. Aqui dentro mesmo é possível encontrar as bases para uma política que defenda a civilização da barbárie. Milhões de pessoas nas manifestações dominicais provaram que é possível combater um governo corrupto e incapaz sem verter uma gota de sangue. Curitiba viveu serenamente um momento de tensão, a vida e os bens da cidade foram protegidos com competência.

São essas qualidades que farão a balança pesar a favor da democracia, isolando cada vez mais os setores que não se adaptam a ela. Mas, é claro, serão necessários alguma coisa que você possa chamar de governo e algum presidente que, pelo menos, esteja preocupado com o país e não com as investigações que rondam seu palácio.

segunda-feira, maio 29, 2017

Manaus: como eu a vi ou sonhei (25)


Por Jefferson Peres

A cidade possuía, naturalmente, seus monstros sagrados. Aliás, chamados pelo povo simplesmente de monstros, termo que, na gíria de então, representava o máximo de elogio. Era aplicado a todos aqueles que tinham uma atuação considerada genial em qualquer atividade, fosse um jogador de futebol ou um cantor. Mas a admiração maior, embevecida e respeitosa, ia para os homens de letras. Cultuados como monumentos vivos, eram saudados nas ruas, com reverência, e apontados como celebridades.

O anúncio de uma conferência, a ser proferida por um deles, era garantia de sala cheia, e no dia seguinte o pronunciamento era o assunto da cidade. O mesmo acontecia com seus artigos e poemas, publicados na imprensa, que rendiam aos seus autores momentos de glória, ao receberem uma chuva de cumprimentos, partidos até de desconhecidos.

Todos eles pertenciam à Academia Amazonense de Letras, o grande templo do saber, no qual entrávamos como se estivéssemos indo participar de um culto religioso. Desde criança me habituei ao contato direto ou indireto com aqueles monstros sagrados. De perto ou de longe, conheci-os todos e deles guardo as mais diferentes impressões.

Como a Grécia, o Amazonas também teve a sua Era de Péricles. Durante cerca de três décadas, até a sua morte, em meados dos anos cinquenta, o grand-seigner da literatura amazonense foi Péricles Moraes. Sua casa modesta, na Rua Henrique Martins, era um local de romaria dos acadêmicos e dos que aspiravam às galas da imortalidade. Uma recomendação sua era um passaporte seguro para os ingressos no Silogeu. Seu veto, ao contrário, erguia uma barreira intransponível às pretensões de qualquer candidato. E um simples elogio seu já constituía uma consagração para qualquer jovem intelectual.

Dono de vasta erudição literária, era fascinado pela França, cujo idioma dominava perfeitamente, como, aliás, todo intelectual de sua geração. Dizem que quase metade da sua opulenta biblioteca era constituída de livros escritos em francês. Encontrei-o algumas vezes em casa do meu tio Leopoldo Péres, de quem era amigo íntimo e que seria por ele biografado numa obra repassada de emoção. Alto, gordo, óculos de aros finos, nariz rubicundo, lembrava a figura de um bispo ou de um avô bonachão. Um perfeccionista, tinha o que ele chamou , certa vez, de martírio flaubertiano da construção do período.


Quando presidia as sessões de recepção de novos acadêmicos, muitas vezes seus discursos de abertura eram mais trabalhados do que as peças oratórias dos principais personagens da noite. Muito apegado aos amigos, comenta-se que sabia ser, igualmente, implacável como inimigo. Ficou famosa a sua inimizade com Raimundo Morais, de quem não era parente, e a quem nunca perdoou, não permitindo que entrasse na Academia e excluindo seu nome no livro que escreveu intitulado Os Intérpretes da Amazônia. Era também muito cioso do próprio valor e infenso a intimidade.

Certa vez, um cidadão bem mais novo do que ele e que frequentava sua casa fazia algum tempo, de repente resolveu tratá-lo por você. A reação de Péricles foi imediata: Dobre a língua. O único jovem a quem eu permito que me trate por você é Leopoldo Péres, e mais ninguém! O visitante saiu arrasado, com o pito e com a morte das pretensões acadêmicas que certamente alimentava. Como aconteceu, aliás, com muitos outros.

Morreu sem concluir o livro de memórias, do qual, curiosamente, só escreveu o último capítulo. É dedicado à esposa, mas de passagem menciona os momentos angustiosos que viveu durante o assédio a Paris, onde se encontrava em 1914. Ao final, dirige um comovente apelo a Deus para que não o deixasse morrer depois da esposa, pois não gostaria de sobreviver a ela. Deus foi ao encontro de sua vontade e levou-o , em 1956, deixando viúva D. Andrômaca, que sobreviveu a ele por muitos anos, morrendo em idade avançada. Não há dúvida de que, com o desaparecimento de Péricles, se encerrou uma era da história literária do Amazonas.

A liderança de Péricles só era disputada, talvez por Adriano Augusto de Araújo Jorge, fundador e segundo presidente da Academia, posto que manteve até morrer. Mas, ao contrário do seu colega, Adriano era, reconhecidamente, um dispersivo, que deixou pouca coisa escrita e não chegou a publicar um livro sequer. Brilhou, sobretudo, como orador.


O anúncio de que falaria, em qualquer evento, era garantia de público certo, para lhe ouvir a palavra cintilante. Nisso era ajudado por seu físico apolíneo. De estatura mediana, cabelo penteado em topete, olhos mortiços, olhar de cabra morta, como se dizia, impressionava principalmente as mulheres. Mantendo-se solteiro até muito perto de morrer, teve uma vida amorosa marcada por aventuras picantes, que prefiro omitir. Doublé de médico e humanista, sua atividade intelectual não o impedia de exercer a profissão com rara competência.

Clínico geral, com numerosa clientela, seu consultório, na Eduardo Ribeiro, vivia cheio, sendo muito solicitado, ainda, para atender pacientes em casa. Famoso, também, pela generosidade, não costumava cobrar de seus clientes, que pagavam como e quando queriam. Conta minha mãe que durante a epidemia de gripe espanhola, em 1918, que tirou a vida de centenas de pessoas, Adriano era um dos pouquíssimos médicos que não se recusavam a atender chamados. Apesar disso, às vezes não resistia à tentação de fazer humor mesmo que fosse humor negro.

Um dia, chamado por um vizinho nosso para atender seu velho pai, Adriano, ao deparar com um ancião arfante sobre a cama, parou na porta da alcova e disse em voz baixa: Eu trato de doentes, não de moribundos. Mas era apenas um blague, pois logo a seguir medicou o paciente, embora sem resultado, porque o caso era mesmo sem jeito.

Como político não foi muito feliz. Candidato ao Senado, em 1945, foi derrotado; tentou em seguida a deputação estadual, também sem êxito; conseguiu finalmente, numa terceira tentativa, eleger-se vereador à Câmara Municipal de Manaus. Em seu primeiro discurso como vereador não ocultou uma ponta de mágoa, ao salientar que, dos três cargos eletivos que disputara, havia conquistado exatamente o mais modesto.

Em seus últimos meses de vida, alquebrado, andava claudicante, talvez devido a alguma artrose ou reumatismo. Sem perder o bom humor, aos que perguntavam o que tinha na perna, respondia que era o peso de muitos pecados. Avesso a cemitérios, recusava-se a visitá-los desde que pronunciara a oração fúnebre em homenagem a Heliodoro Balbi, cujos restos foram transladados do Acre para Manaus. Sempre que era convidado, respondia que para lá só iria morto.
Surpreendentemente, no dia de finados de 1948, mudou de idéia e acompanhou a esposa ao São João Batista. À noite, sentiu-se mal e morreu, de madrugada, em sua velha casa da Rua Fortaleza, pobre como sempre vivera. Em sua homenagem, deram ao bairro o nome de Adrianópolis, que o povo, ao peso da tradição, teima em chamar de Vila Municipal.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (26)


Por Jefferson Peres

Waldemar Pedrosa era muito mais jurista do que homem de letras. Dividia com Leopoldo Péres o mais prestigioso escritório de advocacia da cidade. Dizem que nas causas criminais ficava a seu cargo a fundamentação jurídica, cabendo a Leopoldo o combate no Tribunal do Júri. Infelizmente, não enfeixou em livros todos os seus pareceres e arrazoados, que, em sua maioria, jazem perdidos em arquivos mortos, à espera de algum pesquisador que se anteceda às traças e aos cupins.

Político, teve uma passagem brilhante no Senado Federal, onde se distinguiu pela participação ativa na reunião de um dos órgãos da ONU em Paris, e pelo célebre parecer de sua lavra, favorável à cassação dos mandatos dos parlamentares eleitos pelo Partido Comunistas Brasileiro. Argumentou que, havendo o Tribunal Superior Eleitoral cancelado o registro do PCB, que deixou, assim, de ter existência legal, entendia como automática a perda dos mandatos dos senadores e deputados eleitos sob legenda desse partido.

Com base nesse parecer, o Congresso, em reunião tempestuosa e dramática, procedeu à cassação dos mandatos dos comunistas, inclusive de Carlos Marighella, deputado, e de Luiz Carlos Prestes, colega de Waldemar no Senado, onde representava o Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Com isso, Waldemar caiu no índex das esquerdas, que passaram a ferreteá-lo com a pecha de reacionário.

Mas não foi a impressão que me ficou daquele senhor baixinho, encanecido, afável e simpático que, senador da República, primeiro, e mais tarde ministro do Tribunal Superior do Trabalho, aparecia nos comícios da Cruzada Amazonense de Resistência e da Frente Nacionalista, para me abraçar e se dizer solidário com a nossa luta. E como poderia ser de outro modo, em se tratando de um homem que eu havia conhecido anos antes, já advogado famoso, de cabelos grisalhos e pai de filhos adultos, no pátio de sua casa na Sete de Setembro a empinar papagaio com um entusiasmo infantil.


Huascar de Figueiredo disputava, com Leopoldo e Waldemar, o título de maior advogado do Amazonas. Seu escritório, na Rua Barroso, era frequentado por uma grande clientela, em busca de seu patrocínio para causas, principalmente cíveis, que dificilmente perdia. Comentava-se que guardava profunda mágoa pela morte prematura de sua primeira mulher, vítima de hanseníase. Quando despertei para o mundo, ela já havia desaparecido, mas era mulher elegante e de grande beleza, segundo depoimento de todos que a conheceram.

Entretanto, nas poucas vezes em que pude observar Huascar, não cheguei a perceber nele nenhuma sombra de tristeza, a menos que a dissimulasse, extravasando-a somente para os íntimos. Ao contrário, parecia um homem extrovertido e alegre, bom contador de anedotas, que narrava sem medir palavras, arrancando gargalhadas dos que o ouviam.

Irreverente, causou grande constrangimento ao poeta Sebastiao Norões, quando este lhe foi apresentado, ao disparar: “Norões?! Que boa rima para colhões!” E soltou uma gargalhada. Norões, muito tímido, sorriu amarelo e engoliu em seco. Mas parece ter guardado mágoa para o resto da vida, pois era visível o seu mal-estar quando lembravam o episódio.

Esse destempero verbal era uma das suas características, não poupando sequer os clientes, se lhe atazanava a paciência. Um dia foi procurado por um comerciante português, homem rico, mas conhecido por sua avareza, que lhe encomendou a elaboração de um contrato. Huascar, pediu que ele voltasse daí a duas horas. Decorrido esse tempo, o português voltou e recebeu o contrato pronto. Ao perguntar quanto devia, ouviu como resposta uma quantia que lhe pareceu exagerada e reclamou: Tudo isso por um serviço que lhe custou duas horas de trabalho?! Huáscar então explodiu: Olhe aqui, sêo f.da p., para redigir este documento em duas horas, eu precisei estudar mais de vinte anos. Pague ou procure outro advogado. O homenzinho pagou, mas naquele dia ele perdeu um cliente.

Tal como Adriano, não deixou nenhum livro. Sua obra se encontra dispersa em conferências, artigos de jornal e, sobretudo, editoriais nos vários órgãos de imprensa com os quais colaborou. Estes últimos são irrecuperáveis, porque impossível identificar a sua autoria. É fora de dúvida, no entanto, que sua pena contribui para manter elevado o nível do editorialismo na imprensa local. Para perpetuar sua memória, a municipalidade deu seu nome ao trecho da Rua Saldanha Marinho entre a Avenida Getúlio Vargas e o Igarapé de Manaus, onde nasci e passei minha infância.


Peço licença, agora, para colocar a modéstia de lado e falar um pouco do meu tio, Leopoldo Carpinteiro Péres. Aos olhos da comunidade, ele formava, juntamente com Péricles e Adriano, embora mais novo do que eles, a Santíssima Trindade do mundo intelectual amazonense. Orador fulgurante, conseguiu brilhar em quase todos os ramos da oratória: literária, parlamentar e judiciária. Tão grande o seu prestígio, que era solicitado, como profissional, até pelos seus desafetos.

Certa vez, foi procurado para aceitar a causa de membros da família Brasil, de Boa Vista, cujo patriarca, coronel Bento Brasil, se tornara inimigo irreconciliável de seu pai, e meu avô, quando este lá servira como juiz. Leopoldo então procurou o pai, que o liberou para agir profissionalmente. O mesmo brilho demonstrava como professor e ainda hoje suas aulas são recordadas com saudades pelos seus ex-alunos. Mas assim como dominava a arte do bem-falar, não se descuidava igualmente do bem-escrever. Era um estilista, de prosa escorreita, fluente, elegante. Pode-se dizer que escrevia como falava.

Lamentavelmente, os dois livros em prosa que nos deixou, além de um outro de poemas, póstumo, constituem apologias do Estado Novo e de seu criador. Como diz o povo, queimou boa cera com um mau defunto. Mas se redimiu amplamente desse pecado, quando, deputado à Assembléia Nacional Constituinte, fez inserir na Constituição de 46 o famoso artigo 199, que destinava 3% da receita da União ao desenvolvimento da Amazônia. Se mais não tivesse feito, já teria justificado o seu mandato.

Mas tudo o que se disser de Leopoldo será inútil para quem não o tenha conhecido. O forte dele era a personalidade, o encanto que sabia irradiar. Fisicamente não impressionava. Baixo, quase gordo, óculos de aros de tartaruga, passaria despercebido, não fora a requintada elegância no modo de ser e de dizer. Causeur admirável, dominava todas as rodas, nas quais se tornava logo o centro das atenções, quaisquer que fossem os seus integrantes. Não é de admirar que tenha colecionado muitas conquistas femininas, pois nem os homens escapavam ao seu fascínio.


Uma de suas muitas aventuras amorosas quase se transforma em tragédia quando, ao sair de sua residência, teve de arrostar a fúria de um marido ultrajado. A custo, alguns transeuntes desarmaram o agressor, salvando-lhe a vida, mas não a tranquilidade, afetada pelo escândalo. Um aristocrata, sabia receber os humildes com a mesma simpatia que dispensava aos importantes. À sua casa iam diariamente pessoas de condição modesta, às quais distribuía, generosamente, dinheiro que lhe fazia falta. Um esteta, sua preocupação descia a pormenores.

Certa vez, em conversa com Péricles Moraes, pronunciou o nome de Anatole France, com o “o” fechado (Anatôle). No dia seguinte Péricles, inconformado, lhe telefonou para indagar por que ele se pronunciara assim o nome do escritor francês, que para ele, Péricles, devia ser pronunciado com o “o” aberto. Leopoldo deu uma gargalhada e respondeu: Ora, Péricles, porque é mais eufônico. Por ocasião do meu nascimento, ao ser informado de que me seria dado o nome de José Jefferson, estranhou: José Jefersson? Zé-jé? Não soa bem. E aconselhou que eu fosse batizado apenas como Jefferson. Mas o parto ocorrera a 19 de março, dia de S. José, e minha mãe decidiu manter o prenome duplo, em homenagem ao santo.

Por lhe parecer de péssima concepção arquitetônica, detestava o edifício-sede da Associação Amazonense de Imprensa, na esquina de Eduardo Ribeiro com 24 de Maio, que só chamava de horrendo caixote. Para minha tristeza, convivi pouco tempo com ele. Deixou-nos muito cedo, aos 47 anos, fulminado por um derrame cerebral. Morreu praticamente na tribuna parlamentar, provavelmente como gostaria.
Num livro de memórias. Afonso Arinos de Melo Franco, testemunha ocular, conta como aconteceu. Reunida a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal, Leopoldo lia um parecer, quando, a certa altura, sua voz foi ficando pastosa, seus movimentos descoordenados e logo, para estupefação geral, caiu no chão e foi levado ao hospital, onde morreu horas depois. Sepultado no Rio de Janeiro, até hoje seus restos não foram transladados para Manaus.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (27)


Walmiki Ramayana Paula e Souza de Chevalier era o seu nome completo. Como que antevendo a vocação literária do filho, seu pai lhe deu os nomes de célebre poema épico hindu e do seu autor presumível. Não sei por que Ramayana acabou por estudar Medicina. Dizem seus contemporâneos da faculdade que em suas provas orais ele já fazia verdadeiras dissertações. Formado, guardou o diploma e nunca exerceu efetivamente a profissão. Seu mundo era o das letras e da boêmia, como ele próprio confessava.

Tribuno excepcionalmente dotado, era capaz de discorrer durante horas sobre qualquer tema. Quando ele voltou do Rio, após longos anos de ausência, procurei-o, em nome do Diretório Acadêmico, para convidá-lo a pronunciar uma conferência na Faculdade de Direito. Deixado o tema à sua escolha, decidiu na hora: Democracia Libertária.

À noite, depois de ouvir o discurso de saudação, que coube a mim fazer, tomou a palavra e, por mais de uma hora, discorreu sobre os princípios de um novo regime, que preconizava, bem como sobre o movimento político que estaria sendo articulado para a sua implantação. Ao fim, compreendemos que tínhamos assistido apenas a um prodigioso exercício de imaginação. Mas nem por isso nos sentimos frustrados, pois em compensação nos havíamos regalado com uma bela demonstração de oratória.

Ator nato, tinha um grande pendor para os gestos teatrais. Em 1953 liderou uma ruidosa campanha de arrecadação de donativos em favor das vítimas da enchente. Parece-me vê-lo, ainda em plena Eduardo Ribeiro, sentado no paralama dianteiro de um velho automóvel, com faixa e alto-falante, a implorar o auxílio da população.

Jornalista de combate, tinha uma pena demolidora, que muito incomodava os adversários durante as campanhas eleitorais. Mas não teve sorte em política, jamais conseguindo galgar nenhum posto eletivo. Em grande parte, talvez, devido ao seu pouco empenho. Levava sua candidatura na brincadeira, como quase tudo que fazia. Gostava mesmo era de varar a madrugada num bate-papo com os amigos, sem preocupação com o tempo. Um eterno menino, que ocupava as horas vagas com trotes irreverentes passados nos figurões da cidade.

Displicente, escreveu apenas dois ou três livros, muito menos do que se poderia esperar de seu enorme talento. Aquele garoto brincalhão quer era Ramayana – oculto na máscara de feições orientais – guardava, no entanto, a mágoa de viver, por circunstâncias diversas, longe do Amazonas, que ele amava com um apego telúrico e uma unção quase religiosa.


Por coincidência ou não, dentre os homens que brilhavam em nosso meio literário, além de Álvaro Maia, também ensaísta e ficcionista, apenas um era, antes e acima de tudo, poeta. Chamava-se Américo Antony. Seu valor intelectual era reconhecido por todos, mas muitos lhe torciam o nariz devido à sua excentricidade. A começar pela figura. Magro, recurvo, cabelos compridos, terno amarfanhado e capa eternamente pendurada no braço, fizesse chuva ou sol.

Formado em direito, foi promotor no interior, mas dedicava aos autos apenas as horas que lhe sobravam da ocupação principal, que era a poesia. Conta-se que quando serviu, em determinada comarca, com Octaviano Mello – pai de Pedro e Anísio Mello –, um homem de letras aprisionado pela magistratura, os dois mantinham o fórum fechado e se deixavam ficar, perdidos, em longas conversas sobre literatura.

Dizia-se, também, com foros de verdade, que umas das muitas mulheres com quem viveu, certo dia entrou na sala em que Américo escrevia um poema e pediu-lhe dinheiro para o mercado. O poeta, indignado com a interrupção, gritou: Miserável! Espantaste-me as Musas! Consta que a moça deixou a casa no mesmo dia.

Eu próprio testemunhei uma dessas tiradas de Américo. Certa manhã, quase meio-dia, de regresso das aulas, no colégio Dom Bosco, encontrei Américo cercado de amigos, embaixo de um benjamim, na calçada do Leão de Ouro, esquina de Eduardo Ribeiro, com Henrique Martins. No exato momento em que eu cheguei, ele acabava de declamar um dos seus poemas. A cerca de dois metros de roda, um jornaleiro, de apelido Ferrugem, entusiasmado, bateu palmas. Ao invés de agradecer, Américo, voltando-se para o rapazinho, perguntou: Você entende de poesia? Surpreso, o interpelado meneou a cabeça negativamente, e Américo arrematou: Pois então não se meta, porque sapateiro não toca rabecão!

Acho que até hoje, se vivo for, Ferrugem continua sem entender de poesia, e muito menos, das razões do poeta. Mas apesar desse comportamento nada convencional, reprovado pelos mais velhos, os moços reconheciam em Américo um grande talento poético e lhe dedicavam o respeito devido ao artista sério que ele sempre foi.

O último dos monumentos sagrados a desaparecer foi Ramayana, já nos anos 70, doente e auto-exilado no Rio de Janeiro. Muito antes havia ocorrido o crepúsculo dos deuses com o fim de uma era em que a sociedade, reverente, cultuava seus intelectuais como figuras do Olimpo.

Amigo gay pra mim é homem


Por Xico Sá

Duas coisas que nós do mundo macho deveríamos aprender de uma vez por todas: festa sem gay não decola, não emplaca, não orna. A outra verdade: toda grande mulher tem um gay como principal e inseparável amigo. São duas sentenças bíblicas. Deveriam constar de lei federal, nas Tábuas de Moisés, em todos os testamentos.

Você já viu uma festa sem gay animada? Também não. A pista não pega fogo, a dança não orna, as mulheres não têm com quem fuxicar sobre o modelito de perua de vermelho... Seja forró ou drum’n bass. Seja em Nova York ou em Colônia do Piauí, terra de um dos raros bons políticos do Brasil, o travesti Kátia, vereadora há dois mandatos, adorada na região por homem, mulher, menino, cachorro, gato, papagaio, macaco e os velhinhos “aviciados”.

E se a festa tiver, por exemplo, um Jackson Araújo, ave!, palavra, basta. São tudo nos conformes: do ossobuco ao repertório – com direito a Diana (“Ó meu amado/ por que brigamos?...”) e tudo o mais que exige a decência e a fome de viver. Pra completar, o desgraçado ainda ajeita o caimento da roupa de uma aqui, corta a franja da outra acolá, comenta uma “chapinha”, receita um Lancôme mais na frente... Um espetáculo. Luxo, riqueza e conforto num ambiente cinco estrelas.

A mesma lição da festa perfeita vale para a amizade das nossas gazelas. Mulher sem um amigo gay nos arredores não tem graça. Com um gay como melhor amigo, ela fica mais inteligente, mais bem-humorada, mais faceira, acerta a roupa que veste, pinta o cabelo pra sair da rotina, o diabo a quatro. Você ainda pode ficar em casa vendo aquele Bangu x Madureira na maior tranquilidade desse mundo, pois ela certamente terá ido ao cinema com a biba de estimação. Ora, e você ainda fica livre da obrigação de ver cinema paquistanês ou coisa que o valha – ela terá visto todos com o amigo-cabeça. Uma beleza, uma mão na roda essa bela união.

Sem esquecer, claro, que você, cabra-macho, também terá um grande amigo, normalmente brilhante, para quebrar um pouco a rotina da testosterona à milanesa do boteco e a ignorância animal de tantas peladas. Pra diverti-lo, você ainda pode até dizer, toda vez que encontra-lo, essa lorota: Rapaz, amigo gay para mim é homem, eu só como o fiofó, o zé-de-boga, o roskoff, o fogareiro...

sábado, maio 27, 2017

Manaus: como eu a vi ou sonhei (17)


Por Jefferson Peres

Naquele tempo era baixo o índice de violência, pelo menos em suas manifestações mais brutais, como, por exemplo, os crimes de sangue. Isto não significa que o relacionamento humano fosse sempre ameno, isento de agressividade. Ao contrário, a mentalidade machista dos homens, inculcada desde o berço, criava em muitos a necessidade de se afirmarem, um tipo de comportamento que a sociedade aceitava como próprios dos varões.

Um macho não podia demonstrar fraqueza. Chorar, nunca, em nenhuma circunstância, que isso era coisa de mulher. A dor tinha de ser disfarçada, contida a qualquer custo, já que o pranto masculino era ridicularizado sem piedade. Por igual, era inadmissível que um homem levasse desaforo para casa. Uma provocação devia ser respondida com uma reação igual ou superior.

Desde criança, nas rodas de molecagem, éramos acostumados assim. O início da briga obedecia até mesmo a um ritual. Quando dois companheiros se estranhavam, um terceiro, geralmente de maior tamanho, fazia dois riscos no chão representando as respectivas genitoras dos contendores. Se cada um pisasse simbolicamente na mãe do outro, a disputa evoluía para a luta corporal, que só terminava com a derrota de um ou com a intervenção de adultos. Esse ânimo belicoso era estimulado por muitos pais, que ameaçavam castigar os filhos não por haverem brigado, mas por terem perdido a briga ou fugido à luta. Era comum a expressão “filho meu que apanhar na rua, apanha também em casa”.

Como não havia academias de karatê, onde os jovens pudessem descarregar sua agressividade e adestrar-se em artes marciais, aprendia-se a brigar na rua e na escola, em lutas nas quais valia tudo, menos dentada e puxão de cabelos. Quem apelasse para esses recursos era xingado de desleal e maricas. Homem usava os punhos e os pés. Estes não apenas podiam, mas deviam ser usados como prova de macheza.

Era natural, portanto, que os jovens fossem portadores de uma boa carga de agressividade, à qual procuravam dar vazão em manifestações grupais de bandos aguerridos. Era grande o número de turmas famosas pela sua belicosidade. Ganhavam o nome do espaço físico em que se reuniam diariamente.


Havia a turma do Ginásio, a da Bandeira Branca, a da Major Gabriel, a do Pedro II e a do Alto de Nazaré, dentre outras. A do Ginásio era constituída por um grupo de rapazes, alguns homens feitos, alunos das últimas séries, como José Caitete Filho, Volmar Simões, Zilmar Bonates, Paulo Jacob, mais tarde desembargador, Jonas Limaverde e Benayon, cujo primeiro nome esqueci.

Brigavam por prazer, a troco de nada, por motivos reais ou inventados. Tiveram atritos frequentes com os alunos do Colégio D. Bosco, velhos rivais, travaram uma pancadaria com a rapaziada do Tijuca, e até deflagraram uma guerrinha com a Manaos Tramways. Com esta o pretexto foi dos mais banais.

A antiga farda cáqui do Ginásio um dia foi trocada por um novo modelo de cor cinza. Por coincidência, pouco depois a concessionária inglesa adotou um uniforme também cinzento para os motorneiros e cobradores dos bondes. Foi o suficiente para que o grupo desencadeasse uma campanha contra a Tramways, que ia da hostilidade aos funcionários até a prática de atos de sabotagem, como o descarrilamento dos elétricos, provocado por sabão passado nos trilhos. A campanha durou semanas e já não me lembro se veio a cessar com a mudança de fardamento dos empregados da Tramways ou por cansaço dos beligerantes.

O recinto do Ginásio era sagrado e ai do estranho que ali entrasse sem permissão do grupo. Certo dia vi um dos nossos colegas da turma do Moderno, chamado Celestino – por sinal, também um famoso brigão – ser expulso a pontapés por Volmar e Zilmar. Não pontapés simbólicos, mas reais, pesadamente aplicados no traseiro. Inúmeras outras passagens poderiam ser contadas desse grupo, que perdeu o elã a partir da morte de Aníbal Santos, atingido por uma bala disparada, acidentalmente, dentro do Ginásio, por um dos integrantes da turma.

Esses grupos tinham um forte espírito gregário. As ações eram empreendidas coletivamente, com a participação obrigatória de todos. Em contrapartida, como no lema dos Três Mosqueteiros, os agravos feitos a um eram vingados por toda a grei. E o sentimento de posse dos seus territórios se estendia, muitas vezes, às moças neles residentes, que se viam impedidas de receber namorados.


Lembro-me de um amigo que namorava uma garota no Alto de Nazaré, como era conhecido o trecho da Joaquim Nabuco entre a Rua Japurá e a Praça Santos Dumont. Depois de resistir a um sem-número de provocações, afinal desistiu na noite em que teve o paletó de linho branco passado nos postes em que habitualmente se encostava. E ainda se deu por feliz de não haver apanhado na frente da namorada, como acontecera a tantos outros.

Quando a pessoa molestada pertencia a outra turma, o episódio podia provocar uma verdadeira guerra, como a que foi declarada entre as turmas da Major Gabriel e do Pedro II. A primeira era liderada por Ugo Zuany, um dos mais notórios valentões da cidade. Morava em frente ao Palácio Rio Negro e tinha um físico de meter medo. Com um protuberante peito de pombo, andava com os braços abertos, à semelhança de um gorila. Fui testemunha de duas ocorrências em que o Ugo se envolveu.

Certa noite dois amigos meus, os irmãos Alberto e Augusto Lacerda, baixos, mas fortes e acostumados a brigar, por um motivo qualquer desafiaram a fera, que não se fez de rogada. E durante quase meia hora, no cruzamento da Getúlio Vargas com a Saldanha Marinho, Zuany travou com os dois um luta que só terminou quando os preliadores, exaustos, resolveram dá-la por empatada.

Ainda pude assistir a outra demonstração de ferocidade de Ugo, quando uma de suas irmãs, que estudava à noite no Ginásio, chegou em casa chorando porque um professor a tratara grosseiramente. Eu estava no Café do Pina e vi quando, à aproximação do Ugo, o mestre, avisado, desembestou numa carreira digna de campeão olímpico, atravessou toda a Praça da Polícia e embarafustou pela Marcílio Dias, perdendo-se de vista. Ugo logo desistiu da perseguição, menos por cansaço, talvez, do que por sentir vingado em submeter o homenzinho àquele vexame perante toda a comunidade ginasiana.


A turma do Pedro II se reunia na Praça da Prefeitura e era comandada pelos irmãos Abdalla e Mamede Jezini, filhos do dono da Casa Jezini, que funcionava na esquina da Sete de Setembro com Joaquim Sarmento. Eram ambos muito fortes e bons de briga. Mais tarde, Abdalla se integrou à turma do Moderno, que era de paz e amor. A princípio, desambientado e privado de sua diversão predileta, introduziu como sucedâneo uma brincadeira chamada de “revista”. Consistia em reunir um grupo de oito a nove participantes, aos quais se atribuíam postos militares, de soldado raso a coronel.

Essa tropa era passada em revista por um general, quase sempre o Abdalla, que proclamava ter dado pela falta, digamos, do tenente. Este teria que replicar de pronto que não fora ele e sim outro qualquer. Este, por sua vez, teria de atribuir a falta de outro, e assim sucessivamente. Se o detentor de qualquer dos postos demorasse a responder ou se atrapalhasse na resposta, era submetido ao sabacu, o castigo físico aplicado ao infeliz, na forma de pancadas de mão aberta, dadas por todo o grupo, nas costas e na cabeça. Muitos ficavam com os olhos cheios de lágrimas.


Mas antes de se juntar a nós, quando ainda pertencia à turma do Pedro II, Abdalla e outros tiveram um atrito com alguns integrantes da turma da Major Gabriel, e resolveram tirar a coisa a limpo. Seria o confronto definitivo a ser travado num local ermo, livre da interferência da polícia ou de testemunhas. E acertaram a luta para uma hora determinada, à noite, nas proximidades do Clube Amazonense de Regatas. 
E lá realmente teve lugar a grande batalha campal, que terminou com a derrota das hostes de Ugo. Este, excelente nadador, escapou atirando-se ao rio Negro e voltou para casa pelo Igarapé de Manaus. Foi a última guerra de turmas de que tive notícia.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (18)


Por Jefferson Peres

Mas nem todos os grande pelejadores do passado faziam parte dos bandos. Havia também os combatentes solitários, que jamais participavam de ações coletivas. Não que fossem necessariamente anti-sociais. Podiam ser até pessoas perfeitamente integradas ao meio, com um amplo círculo de amigos, mas orgulhosas demais para pedir ou aceitar ajuda de terceiros em suas questões pessoais. Agiam sempre sozinhos, enfrentando e vencendo desafios, por mais difíceis que se apresentassem, E assim, iam criando fama de valentes, com a notícia de suas façanhas ajudando a construir o mito em que se transformavam alguns deles, principalmente aos olhos dos mais novos, que os viam como heróis de carne e osso.

Danilo Silva, que mais tarde adotaria o sobrenome Du Silvan e morreria como promotor público da capital, era um cultor da forma física. Narcisista, praticava barra e halteres e gostava de exibir, vaidoso, o tórax protuberante e os bíceps salientes. Seu campo de treinamento e de exibição era o vasto pátio externo do Ginásio Pedro II, onde estudava.

Ao lado da quadra de basquete havia uma estrutura metálica, de uns quatro metros de altura, dotada de escadas e barras horizontais e verticais, para a prática de exercícios. Todas as manhãs ele comparecia ao local, vestido com um pequeno calção de banho, para dar o seu mini “show”, ante um pequeno público formado por colegas de ambos os sexos, com predominância do feminino.

Certa vez, instado pelas fãs, galgou a escada e, de lá do alto, resolveu bancar o super-herói, saltando para o solo de areia não muito fofa. A proeza custou-lhe fraturas nos pés e uma boa temporada no hospital. Desde, então, operou-se um notável mudança em Danilo, que substituiu o culto do corpo pelo do espírito, dedicando-se com paixão às atividades literárias.

Mas um pouco antes desse incidente, ele ainda se envolveria num outro episódio do qual se sairia igualmente de maneira pouco airosa. Um tanto agressivo, já se metera em meia dúzia de brigas, que lhe granjearam a fama de valentão, porque levara a melhor em todas, graças aos seus poderosos músculos. Orgulhoso da fama, encimou-se quando um sol maior se levantou, na pessoa de Abdalla Jezini, um dos “cancões de fogo” da cidade.


Um dia, inconformado com a popularidade do rival, Danilo lhe mandou um recado, desafiando-o para uma luta na “Baixa do JG”, um campo de peladas no local onde hoje se ergue o “Palácio do Rádio”. Abdalla prontamente aceitou o desafio e a notícia logo se espalhou. No dia marcado, uma pequena multidão se aglomerou na Baixa para assistir o combate. E esse público não saiu frustrado. Foi uma luta prolongada e violenta, mas leal. Infelizmente para Danilo, a sorte não o favoreceu. Após uma demorada troca de socos, “gravatas” e pontapés, Abdalla conseguiu afinal dominá-lo, no chão, e castigou-o sem piedade. Danilo retirou-se abatido, com o nariz sangrando e o rosto cheio de hematomas, enquanto Abdalla vivia mais um instante de triunfo.

Dentre todos que adquiram notoriedade naqueles anos, por sua coragem, um sobreleva em minha memória, acima dos demais, talvez por tê-lo conhecido mais de perto. É Alfredo Aguiar, cujo nome completo, como o de Bilac, é também um alexandrino, embora imperfeito: Alfredo Augusto Braga Vieira de Aguiar. Seu pai era Francisco das Chagas Aguiar, mais conhecido como Chiquito, que, aos trinta anos de idade, assumira a Prefeitura de Manaus, no governo revolucionário de Ribeiro Júnior. Nas poucas semanas que passou a frente da Comuna, não pôde, obviamente, realizar nenhuma obra importante. Mas deixou registrado um episódio denunciador da sua personalidade, dotada de altivez e senso de humor.

Chiquito tinha baixa estatura, ao passo que Ribeiro Jr. era um homenzarrão. Um dia, os dois conversaram, de pé, sobre um assunto em torno do qual divergiam. A discussão se acalorou e Ribeiro Jr., exaltado, levantou a voz. Chiquito, igualmente exaltado, replicou: Se você está gritando comigo porque é mais alto do que eu, não seja por isso. A seguir, mais do que depressa, trepou na cadeira mais próxima e concluiu: Agora eu sou mais alto do que você. Tomado de surpresa, o governador não pode deixar de sorrir da audácia e presença de espírito do auxiliar, e a conversa terminou em paz.

Continuaram amigos, como prova o nome de Alfredo, que lhe foi dado em homenagem a Ribeiro Jr. Além do pai, a quem não conheci, outro membro de sua família foi um exemplo dignificante. Seu irmão, Gualter, cujo nome pronuncio com respeito. Sério em tudo que fazia, era dotado de coragem física, que demonstrou com serenidade e firmeza, sempre que necessário, mas sobretudo de coragem moral, comprovada ao longo de sua vida, durante a qual se manteve fiel às suas idéias ante as circunstâncias  mais adversas. E não mudou em seus últimos anos, quando, alquebrado pela doença, soube enfrentar a morte com galhardia.

Não é de surpreender, assim, que Alfredo tenha sido, em sua mocidade, uma figura singular, que despertava ódio, amor, inveja, admiração, mas ao qual não de podia ser indiferente. Ao contrário dos valentões da época, ele não era um arruaceiro vulgar. Não usava armas, não agredia cidadãos pacatos, não provocava os mais fracos e, como já disse, não se acobertava em turmas. Adorava brigar, mas sempre por um bom motivo e arrostando sozinho as consequências. Nem sempre eram questões pessoais. Podia entrar em briga alheia, desde que a causa lhe parecesse justa.


Por outro lado, estava longe de seu um bronco intratável, que julgasse resolver tudo pela força. Era na verdade um intelectual, autodidata com excelente cultura humanística. Produzia pouco, mas quando o fazia se revelava bom articulista e razoável poeta. Pelo menos um de seus sonetos poderia figurar em qualquer antologia. Politizado, comunista militante, defendia suas idéias com paixão e conhecimento de causa. Era um prazer ouvi-lo, em especial quando tratava discussões, que dificilmente perdia, por ser espirituoso, mordaz e dotado de grande agilidade mental.

Sua aparência física era enganadora. Baixo, magro, dava a impressão de frágil. No entanto, era um feixe de músculos, que lhe dava uma força insuspeitada, capaz de derrubar adversários com quase o dobro do seu peso. Além disso, deslocava-se com incrível rapidez durante a briga, sendo muito difícil atingi-lo. E, quando atacava, os punhos eram acionados com grande velocidade e precisão, numa série sucessiva de golpes que podiam decidir a luta em poucos minutos.

Mais do que a destreza e a força física, porém, intimidava seus antagonistas o gênio de Alfredo, que não esquecia agravos nem aceitava derrotas. Levar vantagem sobre ele só podia causar intranquilidade ao vencedor, que tinha de se preparar-se para um segundo round, porque ele iria fatalmente à forra. Conheço inúmeras passagens da vida de Alfredo, das quais me permito contar algumas.

Seu espaço preferido, como o de muitos intelectuais e boêmios, era o triângulo que tinha como vértices o Bar Avenida, na esquina de Eduardo Ribeiro com Saldanha Marinho, o Café Leão de Ouro, na esquina de Eduardo Ribeiro com Henrique Martins, e o Café A Baratinha, na esquina de Henrique Martins com Joaquim Sarmento. Dentro desse espaço se continham, ainda, o Café da Paz, com seu grande salão de sinuca, o Cine Avenida, três livrarias e, bem próximos, o Cine Odeon e as redações de todos os jornais da cidade. Pode-se dizer, portanto, que ali pulsava o coração de Manaus. E Alfredo era seu frequentador diário.

Um dia, ele se encontrava no Bar Avenida, quando reclamou do mau atendimento, irritou-se e saiu dizendo que voltaria para promover uma quebradeira. Horas depois, foi informado de que o dono do bar levara a sério a ameaça e pedira a proteção de cinco ou seis guardas-civis armados de cassetetes. Alfredo já tinha esfriado a cabeça e não pretendia cumprir a promessa. Mas não era homem de recusar desafios como aquele. Sem pensar duas vezes, dirigiu-se ao bar e passou a provocar os guardas, que reagiram com violência. Ele se defendia com cadeiras, socos e pontapés. Mas, em desvantagem, foi recuando até à calçada, onde arrebatou de um dos guardas o cassetete, que passou a usar.

E assim, foi batendo e apanhando, até o lado oposto da Eduardo Ribeiro, onde afinal, foi dominado. A custo, conseguiram levá-lo a Central de Polícia, sendo liberado mais tarde por interferência de Herculano Castro e Costa, jornalista influente e seu amigo. Passado alguns anos, ao comentar comigo o incidente, Alfredo confessava: Foi a primeira e última vez que enfrentei guardas armados de cassetetes. Pancada de cassetete arde como fogo. Uma semana depois minhas costas ainda doíam.


Outra vez, estava na Baratinha, tomando uma média, quando acidentalmente derramou café sobre a calça. Aborrecido, arremessou a xícara à rua. Encontrava-se no café um português, recém-chegado de Portugal, que estava em negociações para arrendar o estabelecimento. Alto e corpulento, o homem de dirigiu a Alfredo, rispidamente, para censurar o seu gesto. Houve o revide, em seguida os dois se engalfinharam e o português conseguiu prender a cabeça do antagonista sob uma forte gravata.

Com muito esforço, os circunstantes conseguiram apartar os contendores e Alfredo foi levado para fora do café por um de seus amigos. Mas, para ele a briga não tinha terminado. Antes de andar meio quarteirão, parou, deu meia-volta e retornou ao café, indo direto ao português, que atingiu com poderoso murro. O homem desabou. Foi tão grande o susto, que desistiu da Baratinha e do Brasil. Semanas depois, voltou para Portugal.

Havia em Manaus, um jornalista, também de gênio explosivo e que habitualmente usava um revólver à cintura. Ao saber que Alfredo havia dado uns tapas em alguém, comentou que com ele seria diferente. Alfredo soube do comentário e passou a caçar o homem. Uma tarde, ao entrar no Bar Americano, tranquilo e decadente, deparou com o próprio, que bebia cerveja em companhia de um amigo. Alfredo nem se deu ao trabalho de interpelar o homem. De dedo em riste, atacou: Você disse que com você ia ser diferente. E vai ser. Moleque da sua espécie não merece apanhar de tapa. A seguir, pegou uma das mãos do outro, espalmou-a e, com os dedos se sua mão direita, aplicou-lhe meia dúzia de sonoros bolos. E retirou-se sem olhar para trás, sem verificar sequer se o homem estava armado.

Por mais de uma vez saiu em defesa de outros, mais fracos, sem ter nada com a briga. Assim aconteceu uma noite, quando lia tranquilamente, numa garçonière na Rua Miranda Leão. De repente, o silêncio foi quebrado pelo som de vozes alteradas que vinham do quarto fronteiro. Seguiu-se um ruído de luta, acompanhado de choro e de grito de uma mulher a pedir socorro.

Alfredo, cavalheiresco, não era homem para deixar sem resposta os apelos de uma dama. E foi bater na porta do quarto, que se abriu, mostrando uma mulher em prantos e um homem forte e mal-encarado, que recebeu o indesejado visitante com quatro pedras na mão. Discutiram e o desconhecido, furioso, partiu para a agressão, que lhe custou muito caro. Levou tremenda surra e teve de ser medicado no Pronto-Socorro. Provavelmente nunca mais bateu em mulher nenhuma.


Somente uma vez Alfredo fugiu a um desafio. O autor da proeza foi Pedro Santiago de Amorim, ou Augusto Sandino, pseudônimo que utilizava em sua mocidade, quando se apresentava em show cantando árias de óperas famosas e canções napolitanas, com sérias pretensões de se tornar um novo Caruso. Meu amigo de infância, sempre foi um excelente caráter, por isso dado a certas quixotadas.

Pedro era colega de Alfredo na antiga Delegacia Fiscal, onde tinha seu cargo a elaboração das folhas de pagamento. Um dia apareceu uma diferença a menor nos vencimentos de Alfredo, que reclamou, exigindo que fizessem a retificação, do contrário ele próprio a faria. Pedro, franzino e baixinho, devia pesar uns quarenta quilos, podendo ser derrubado com um sopro. Mas nem assim se intimidou. Pondo-se de pé, encarou o formidável competidor e, teatral, desafiou: Nunca! Só se passar por cima do meu cadáver. Alfredo ainda cerrou o punho, mas logo percebeu que se aplicasse o murro estaria cometendo homicídio. Preferiu engolir a raiva e retira-se, deixando o Pedro gozar, deliciado, o seu dia de herói.

Mas nem todas as passagens curiosas da vida de Alfredo estão relacionadas com brigas. Como já observei, tinha um apurado senso de humor e vivia a maquinar brincadeiras, inclusive a pregada em Adaucto Rocha não foi a única nem a maior. Uma noite, ele e Pedro Lemos (tinha que ser!), em frente à redação de O Jornal, na Eduardo Ribeiro, tiveram a idéia de aprontar uma com Álvaro Bandeira de Melo, pacato e ilustre cidadão que morava do outro lado da avenida, nos altos de um prédio hoje reformado.

Começaram com um telefonema para a Garagem Esportiva, pedindo um carro de praça. Em seguida chamaram a Polícia, para prender um ladrão que estaria tentando arrombar uma casa. Ligaram, a seguir, para o Pronto-Socorro, pedindo a ambulância para atender a um caso de urgência. E, finalmente, deram um quarto telefonema para o Corpo de Bombeiros, comunicando um incêndio. Em todas essas chamadas forneceram o endereço de Álvaro. Em poucos instantes a confusão estava formada. O motorista de praça ficou algum tempo batendo na porta, sem ser atendido, porque o dono da casa havia saído com a mulher.

Nesse momento chega a polícia no carro celular, a velha Manduquinha, e dá voz de prisão ao motorista, que se rebela. Logo chega a ambulância, com a sirene uivando, seguida do carro de bombeiros com o sino tocando. Ao retornar a casa, em companhia da excelentíssima esposa, Álvaro encontrou o pandemônio formado, e por pouco não precisou dos serviços da ambulância. Creio que morreu sem descobrir os autores da façanha, que naquela noite, da porta do jornal, se divertiam a valer.


Outra das suas brincadeiras teve, contudo, inspiração mais generosa. Aconteceu no Bar Avenida, onde também funcionava um restaurante. Os garçons, cumprindo ordem superior, passaram a mover campanha sistemática contra os pequenos engraxates que ofereciam seus serviços aos frequentadores. 

Alguns dos garotos, mais insistentes, eram escorraçados aos empurrões e com xingamentos humilhantes. Alfredo foi inchando de raiva e um dia resolveu dar uma lição ao proprietário e a seus fiéis serviçais.

A pretexto de homenagear autoridades e políticos, inclusive o senador Cunha Melo, encomendou um jantar de trinta ou quarenta talheres, com um cardápio dos melhores. Na noite marcada, para surpresa e desgosto do dono e de seus empregados, o restaurante era invadido não por convidados ilustres, mas por um enxame de engraxates, que tomaram assento à mesa caprichosamente arrumada, com o anfitrião, rejubilado, à cabeceira. 

O jantar decorreu sem incidentes, mas o proprietário vingou-se cobrando o dobro do preço usual, que Alfredo pagou sem discutir, feliz como uma criança.


Nunca mais vi Alfredo Aguiar, o bravo guerreiro, agora em repouso. 
Não sei que marcas a vida lhe terá imprimido. Sejam quais forem, serão amenizadas, certamente, pelas recordações de que soube fazer de sua juventude não uma caminhada de cinzenta monotonia, mas antes uma alegre cavalgada com sabor de aventura.

Manaus: como eu a vi ou sonhei (19)


Por Jefferson Peres

O cinema era tema de diálogo e discussão, muito mais que a literatura. Dizer que nenhuma diversão ultrapassava o cinema, naquele tempo, não era um simples slogan de propaganda, mas uma verdade incontestável. Não tínhamos televisão que nos distraísse com sua variedade de programas e ainda nos desse a oportunidade de assistir a qualquer filme em nossa própria casa. Ou íamos aos cinemas, ou não os veríamos jamais.

Uma superprodução, precedida de ampla publicidade, gerava uma expectativa que se prolongava por vários meses, tempo que mediava entre o lançamento no sul do país e a estréia em Manaus. Ficávamos contando os dias que faltavam para a data ansiosamente aguardada, com a emoção das crianças à espera do Natal. Mas não eram só os filmes que nos atraíam. Os cinemas não eram apenas casas de espetáculos, mas também locais de encontro e de convício social. Às vezes, eram os únicos lugares onde se podia ter momentos de maior intimidade com a namorada, em razão do severo controle que os pais exerciam.

Apesar da presença do inevitável acompanhante, sempre havia chances de trocas de carinhos difíceis ou impossíveis fora dali. Mais tão importante quanto a sala de projeção podia ser o salão de espera, onde os espectadores, languidamente refestelados em poltronas, fumavam e conversavam, enquanto assistiam à exibição de beleza e elegância das moças que desfilavam. E ainda havia aqueles que, já tendo visto o filme, ou sem dinheiro para o ingresso, se plantavam na calçada em frente, a olhar a entrada e a ouvir música, como num sereno de festa.

Nós nos familiarizávamos com o mundo do cinema, antes mesmo de assistir o primeiro filme, através de uma revista especializada, A Cena Muda, que publicava um variado noticiário sobre o assunto. Fartamente ilustrada, constituía a grande fonte de onde nossas tias, irmãs e primas tiravam fotos dos astros e estrelas em voga, as quais, cuidadosamente recortadas, iam enriquecer seus álbuns.

Vivíamos a era do star system, com a eficiente máquina publicitária de Hollywood mobilizada para a fabricação dos ídolos da tela, em torno dos quais se criava toda uma legião de fãs femininas de Tyrone Power, Robert Taylor, Errol Flynn, Carry Grant e Charles Bayer, enquanto os homens se rendiam ao charme de Hedy Lamarr, Vivien Leigh, Lana Turner, Rita Hayworth e, um pouco mais tarde, Ava Gardner, Grace Kelly e Kim Novak. E havia outros que pelo talento ou simpatia atraíam ambos os sexos, tais como Bette Davis, Spencer Tracy e Olivia de Havilland. Ia-se ver um filme principalmente pelo elenco e menos pela qualidade ou pela assinatura do diretor.


Como todo menino do meu tempo, eu me iniciei com as comédias de Carlitos, do Gordo e o Magro e de Harold Lloyd, e creio que nunca mais na vida vou dar, outra vez, as espontâneas gargalhadas que eles arrancavam de mim. Adorava também, obviamente, os desenhos animados, especialmente os de Popeye, então, como sempre, enfrentando o eterno rival Brutus, na disputa por Olívia Palito.

Depois, vieram os filmes de western classe B, primários no enredo e na realização, que se limitavam a uma sequência confusa de socos, tiroteios e correrias, com o happy end tradicional. Eu não os perdia, principalmente se estrelados pelos meus mocinhos preferidos, como Tim McCoy, Ken Maynard e Charles Starret.

Como não perdia igualmente os seriados. Nada mais emocionante do que acompanhar aqueles dez ou doze episódios, exibidos semanalmente, com o final sempre apresentando o herói ou a sua garota em situação de perigo mortal. No episódio seguinte, após escapar milagrosamente, reiniciava a luta implacável contra o monstruoso vilão. Entre um episódio e outro ficávamos a semana inteira especulando sobre o que aconteceria.

Outro gancho que nos mantinha presos à história era a identidade do vilão, misterioso personagens que só era desmascarado ao final, numa atmosfera de clímax. Até hoje guardo a imagem do sinistro chefe dos bandidos no Aranha Negra, do qual só víamos  a mão afagando um gato preto sobre a escrivaninha, enquanto instruía seus asseclas com uma voz cavernosa que me dava arrepios. Além desse, creio que assisti a quase todos, como A Deusa de Jeba, O Império Submarino, Novas Aventuras de Tarzan, A Adaga de Salomão e muitos outros.

Com o tempo, meu gosto foi ficando mais eclético e também um pouco mais apurado. Não me tornei um cinemaníaco, mas passei a gostar de todos os gêneros e a assistir, em média, de três a quatro filmes por semana. Em meio a tantos de segunda categoria, pude assistir a alguns que se tornaram clássicos e a outros que, embora não fossem obras-primas, me marcaram, com passagens e cenas que ficaram em mim, inesquecíveis.


De muitos, pude matar a saudade ao revê-los periodicamente, em reprises nos cinemas e na televisão, e alguns até gravei, para minha filmoteca, como os eternos E o Vento Levou…, Casablanca, Gilda e Rebeca, a mulher inesquecível. De vez em quando faço o projeto para me reencontrar com Scarlett em Tara, ou com Rick a ouvir Sam no bar tocando As Time Goes By. Outros, para minha tristeza, nunca mais consegui rever, por não terem sido reprisados ou por falta de oportunidade.

Dos westerns, que continuaram a gozar da minha preferência, como esquecer Os Brutos Também Amam, como o mocinho Shane, tendo Alan Ladd no papel-título, a manejar o revólver como um mágico, ante os olhos do menino fascinado com a proeza, ou o xerife encarnado por Gary Cooper em Matar ou Morrer, atirando ao chão a estrela, num gesto de supremo desprezo pela cidade que ele salvara sozinho, ou, ainda, Jesse James, com Tyrone Power no papel-título, assassinado pelas costas e vingado pelo irmão, numa perseguição emocionante ao assassino, em A volta de Frank James, vivido pelo Henry Fonda.

A Segunda Guerra Mundial foi e continua a ser um riquíssimo filão para os estúdios cinematográficos. Outro gênero que sempre exerceu uma grande atração sobre mim, porque funde uma dupla paixão, pelo cinema e por aquele conflito. Acho que poucos me escaparam. Procurava ver todos, qualquer que fosse o tema: operações bélicas, ações de espionagem ou dramas vividos em campos de concentração.

Pouco importava também o teatro de guerra. Podia ser no Pacífico, no norte da África ou na Europa, o interesse era o mesmo. Pude ver Humphrey Bogart vivendo alguns de seus bons momentos em Passagem para Marselha e Uma Aventura na Martinica. E Errol Flynn, como o braço oficial americano a resistir até o fim ao avanço japonês em Bataan. E outros, menos famosos, sendo aniquilados na ilha de Wake, em Nossos Mortos Serão Vingados. Como realmente foram, mais tarde, em Guadalcanal.


Isto não quer dizer, claro, que filmes referentes a outras guerras não me interessassem. A Primeira Guerra Mundial nos proporcionou, por exemplo, Patrulha da Madrugada, com Errol Flynn, e Nada de Novo na Frente Ocidental, inspirado no livro de Erich Maria Remarque; a Guerra da Criméia nos deu, também com Errol Flyn, Carga da Brigada Ligeira; e a Guerra Civil Espanhola foi cenário do imortal Por Quem os Sinos Dobram?, da obra de Hemingway, com Gary Cooper tendo seu desempenho empanado por uma Ingrid Bergman belíssima como a terna Maria dos cabelos cacheados.

E até as guerras coloniais inspiraram bons filmes, à parte suas conotações políticas e distorções históricas. Por isso não podemos esquecer Beau Geste, romantizando as lutas da Legião Estrangeira na África do Norte ou Gunga Din, apresentando os nacionalistas hindus como fanáticos sanguinários. De qualquer forma, fiquei comovido com o sacrifício do pária indiano – que não me saiu da memória – a galgar a cúpula do templo dourado para, com suas clarinadas, salvar seus amigos ingleses de uma cilada mortal.

Não faltava, também, aos filmes de aventuras, fossem de piratas, como Capitão Blood, ou de capa e espada, como As Aventuras de Robin Hood, do qual me ficou o memorável duelo travado entre Errol Flynn (tinha que ser) e Basil Rathbone. Igual, só veria muito mais tarde, em Scaramoche, em que os espadachins eram Stewart Granger e Mel Ferrer. Os policiais era outros que me tinham como espectador certo, especialmente os que traziam os nomes de James Cagney, Humphrey Bogart e George Raft.

De alguns esqueci até os títulos, mas não as cenas de violência, como aquela em que Richard Widmark, num requinte de sadismo, lançava escada abaixo, com cadeira e tudo, uma velhinha paralítica. Igualmente imperdíveis os que tinham como vilões Sidney Greenstreet e Peter Lorre; ou musicais com Fred Astaire e Gene Kelly; ou ainda, as comédias com Bob Hope, Red Skelton e Danny Kaye.

Mencionei apenas filmes americanos porque Hollywood dominava amplamente o mercado, na proporção, talvez, de nove a um, em dez exibidos. Os nacionais só começaram a ter popularidade, a partir das chanchadas da Atlântida. Quanto aos europeus, embora quantitativamente menos expressivos, foram responsáveis por algumas obras-primas que nos marcaram, como Ladrões de Bicicletas, Roma, Cidade Aberta, Milagre em Milão e outros do neo-realismo italiano, sem esquecer os franceses de diretores como Jean Cocteau, Jean Renoir e René Clement. Que delícias de filmes, A Bela e a Fera e Brinquedos Proibidos.


Finalmente, não posso deixar de mencionar os mexicanos, com os horríveis dramalhões da Pelmex, a que assistia para ouvir as canções de Pedro Vargas e do Trio Los Panchos, mas, principalmente, para admirar Maria Antonieta Pons, talvez o mais bonito par de coxas do cinema. Ou, então, quando as produções traziam as assinaturas de Emílio Fernandez e Gabriel Figueroa, que nos deram obras antológicas, como a Pérola.

Creio que algumas das mais intensas emoções que senti ocorreram no interior dos cinemas, nos arroubos do namoro ou nas fugas que empreendia quando, ao mergulhar na penumbra, emergia no retângulo mágico da tela para viver em comunhão com os deuses e as divas de um mundo mitológico.

No centro de Manaus existiam apenas quatro cinemas, o Avenida, o Odeon, o Polytheama e o Guarany, pertencentes a suas empresas, a J. Fontenele e a A. Bernardino. Na segunda metade dos anos quarenta surgiria o Éden. Não incluo o Popular porque, de tão precário, só era frequentado, praticamente, por pessoas residentes no Alto de Nazaré e imediações. Basta dizer que um habitué de cinema como eu, nunca lá pus os pés.

Mesmo os quatro melhores, porém, deixavam muito a desejar em matéria de conforto. As poltronas tinham assentos de madeira e não havia refrigeração. O calor era amenizado por ventiladores de teto e de parede, os quais, dependendo da hora e da quantidade de gente, podiam ser praticamente inúteis. Lembro-me perfeitamente das sessões das bilheterias, que abriam ao meio-dia. À hora marcada, com a sala superlotada, inclusive com espectadores sentados no chão, as cortinas eram cerradas e o prefixo musical anunciava o início da sessão. Aí se desencadeava uma zoadeira infernal de gritos, assovios e sapateados, que logo se interrompiam, para se repetir, com intermitência, durante toda a sessão, a pretexto de qualquer coisa.

Nas cenas românticas, quando o galã beijava a moça, nas de briga e nas de perseguição, a cavalo ou automóvel, a zoada era a mesma, por pura molecagem. Quando o filme queimava e as luzes se acendiam, então era um pandemônio, com gritos de ladrão, em protesto contra possíveis mutilações da película. A sala era uma estufa, e após três horas de calor e barulheira, a camisa encharcada de suor, os olhos habituados à semi-escuridão, tomávamos um choque quando as portas se abriam e recebíamos, em pleno rosto, a claridade da luz solar. Frequentemente, essas sessões me custavam uma forte dor de cabeça que me estragava o resto do dia. Mas, no domingo seguinte, lá estava eu, firme, na fila de ingressos.


Havia duas sessões, de segunda a sábado, às dezesseis e às vinte horas. Aos domingos realizavam-se, ainda, a matinal, às nove, e a matinée de treze horas. As sessões noturnas eram duplas, com a exibição de dois filmes, sem intervalos. Uma parte do público se retirava ao término do primeiro filme, mas a grande maioria ficava para assistir ao segundo. A plateia das sessões de adultos era geralmente bem-comportada, especialmente a das soirées – era assim mesmo que chamavam – frequentadas por casais da classe média alta, que falavam aos cochichos, como nos teatros. Os homens compareciam de paletó e gravata, acompanhados de esposas e filhos em trajes de festa.

A única perturbação, às vezes, corria por conta de um tipo de chato, muitos com seus acompanhantes, inclusive antecipando sequências da história. Quase sempre os circunstantes engoliam a raiva em silêncio ou, quando muito, trocavam de lugar. Raramente acontecia de alguns, menos educados, protestarem em voz alta ou se queixarem à gerência, criando tumulto. Excetuados esses incidentes, raríssimos, as sessões eram silenciosas e tranquilas. Algo semelhante ocorria com as domingueiras das dezesseis horas, com a diferença de que os frequentadores eram, predominantemente, jovens casais de namorados.

As bilheterias abriam quarenta e cinco minutos antes, quando começava a tocar a música, não para dentro, mas para fora, através dos alto-falantes voltados para a rua. À hora marcada para o início da sessão, tocava o prefixo musical, que era uma música popular. No caso do Polytheama, durante muitos anos foi o Tico-Tico no Fubá. Nunca entendi bem o porquê dessa prática, a não ser pela possibilidade, improvável, de atrair frequentadores. O certo é que perdurou por muitos anos, sendo abandonada aos poucos. O mais renitente foi o Guarany, que só aboliu a música externa no início da década de 60, quando um grupo de habitués da República Livre do Pina, eu no meio, não suportando mais o volume do alto-falante e o baixo nível das músicas, fizemos um apelo ao velho Vasco, que finalmente nos atendeu.

A programação diária era afixada em grandes tabuletas, amarradas aos postes ou aos fícus benjamins fronteiros aos cinemas, com grandes letras azuis e vermelhas. As superproduções, ansiosamente aguardadas, eram anunciadas dias antes, através de carros com alto-falantes que percorriam a cidade inteira, trombeteando com estardalhaço as qualidades da película. Nos dias festivos, como grandes feriados e datas de aniversário dos cinemas, havia sessões ao ar livre.


Nos canteiros em frente ao Polytheama e ao Guarany erguiam-se postes de ferro, aos quais se prendiam as telas em que projetavam os filmes, geralmente documentários e desenhos animados. Eram realizadas entre as dezoito e as dezenove horas, gratuitamente, com grande afluência de espectadores, que se espalhavam, no Guarany, até à calçada da Praça da Polícia, e no Polytheama ocupavam toda a pista da Getúlio Vargas, até a calçada do Ginásio. A área em frente aos cinemas ficava embandeirada com papéis coloridos, como um arraial, a cidade era despertada com salvas de rojões e a matinal regurgitava de crianças que acorriam para ver o filme e receber balas e bombons. Tudo grátis. Era realmente uma festa.

Os donos e gerentes eram conhecidos dos frequentadores, com os quais se relacionavam. E alguns, de tão assíduos, se tornavam íntimos e não pagavam ingresso. Eram os beiradistas, assim chamados porque ficavam rondando a plateia pelas margens, em busca de garotas para possíveis abordagens. Habilíssimos, adotavam várias técnicas de aproximação. Algumas vezes, faziam comentários a respeito do filme. Se o contato era repelido, desistiam; se não, iam em frente, porque o peixe estava fisgado. Outras vezes, faziam comentários a respeito do filme. Se a vizinha respondia, mesmo com um simples sorriso, logo entabulavam conversa. Finalmente, havia a abordagem indireta, que consistia em obsequiar o acompanhante da jovem com chocolates ou balas, se criança, para numa segunda etapa, atingir o verdadeiro alvo.

Esses beiradistas eram encontrados em todos os cinemas, mas o preferido era o Guarany, talvez pela proximidade do Pina. O grupo se constituía de advogados, médicos, dentistas e promotores, que assinavam ponto todos os dias, independentemente do filme em exibição, já que o seu interesse estava na plateia. Mas havia também os neófitos, que podiam agir desastradamente. Foi o que aconteceu uma noite com Fernando Gonçalves, o Fernandão, mais tarde Promotor de Justiça. Sem muito jeito para a coisa e dotado de uma tonitruante voz de barítono, no meio da sessão resolveu abordar uma garota, com sutileza de mamute, cochichando-lhe ao ouvido, num ribombo que ressoou em toda a plateia: Maria, deixa eu pegar no teu peito? A gargalhada foi geral e Fernandão logo deixou a sala, ralado de vergonha. Um vexame completo.

Em meados dos anos 50 surgiram, como novidade, “as sessões só para homens” no Guarany e no Polytheama. Aconteciam às sextas-feiras, às 11 da noite, com enorme afluência de um público rigorosamente masculino. Nem as meninas da zona do meretrício se atreviam a comparecer. Não me lembro de ter visto, alguma vez, nenhuma mulher numa dessas sessões. Eram apenas homens e maiores de 18 anos. Alguns poucos velhos que enfrentavam a zombaria dos outros, que os hostilizavam aos gritos de “velho broxa” e “mineteiro”. Alguns não se davam por achados e todas as semanas lá estavam, firmes, indiferentes aos gracejos da turba. Havia homens de todas as classes sócias, mas aqueles de maior projeção, ciosos de sua reputação, entravam sorrateiramente, depois de começada a sessão, e saíam antes do seu final, temerosos de serem reconhecidos.


Não preciso dizer que os filmes eram todos pornográficos, feitos por amadores em 16 mm, mudos, de péssima qualidade, com estórias curtas que eram simples pretexto para a apresentação de cenas de “sexo explícito”, como se diz hoje. Tudo de muito mau gosto, mas o sabor do proibido fazia a plateia vibrar, excitadíssima, não sendo raro os que se entregavam à masturbação em pleno cinema. 

Certa noite, no Guarany, vi um espectador reclamando, muito irritado, porque um jato de esperma lhe caíra na cabeça, ejaculado do alto da galeria. Diziam os empregados que, após as sessões, tinham um grande trabalho para remover a sujeira deixada pelos onanistas. É claro que a grande maioria não chegava a esses extremos, mas, em compensação, saía do cinema direto para os lupanares, que nesses dias ficavam lotados.

O Guarany era domínio do velho Vasco Farias, o vovô Vasco, que ainda em vida foi homenageado por Farias de Carvalho com um belo e comovente soneto. Alto, cabelos de algodão, ventre avantajado, sua figura paternal despertava simpatia em adultos e crianças. 

Devia gostar muito do ramo, porque trabalhou alguns anos no Polytheama e depois se transferiu para o Guarany, onde ficou até se aposentar, e com o qual se identificou a tal ponto que era a própria personificação do velho cinema. Aliás, teatro também, eventualmente utilizado para shows e programas de auditório, como o popular Tem Gato na Tuba, da Rádio Difusora, que contava com enorme audiência. 

Era o único cinema com o privilégio de manter abertas as portas laterais, nas sessões noturnas, permitindo aos espectadores deixar por instantes a sala de projeções, para fumar e bater papo nos bancos do jardim. Cinema de classe média, era frequentado também pelo povão, que a preços módicos tinha acesso à galeria ou poleiro, um mezanino situado no fundo do salão. Por tudo isso, e pelo velho Vasco, era o cinema mais simpático da cidade.


No Polytheama o próprio dono, Alberto Carreira, comparecia diariamente à porta. Sempre vestido de um branco imaculado, inclusive os sapatos, ficava próximo às borboletas, em conversa com amigos, até o início da sessão. Era filho do renomado poeta Jonas da Silva, sócio da empresa, que eu costumava ver todas as tardes, já muito velho, sentado num banco do canteiro central, em frente ao cinema. 

Mais do que o Guarany, o Polytheama era também teatro. A começar pela disposição interior, com uma plateia em forma de ferradura, circundada por duas fileiras de camarotes. Não sei se chegou a ser encenada alguma peça teatral em seu palco, mas eram frequentes os espetáculos com ilusionistas, cômicos e cantores nacionais e estrangeiros. Foi lá que tive a oportunidade de ver, pela última vez, Gregório Barrios soluçando boleros com sua voz de timbre inconfundível.

No Avenida, além do dono, tínhamos também a presença diária, obrigatória, inarredável, de sua esposa, D. Yayá. Sempre com o rosto pintado de batom e ruge de tom arroxeado, lá estava ela, infalivelmente, em todas as sessões, sentada numa poltrona de palhinha, no hall de entrada, ou debruçada no gradil, ao lado da borboleta. 

Às vezes ficava à porta, procurando aliciar espectadores com a recomendação: Entre, o filme é ótimo. E, ante a incredulidade do interlocutor, acrescentava: É colorido! Para ela, uma prova irrecusável de boa qualidade. Mas o Avenida era também o cinema das elites, preferido pelo escol da cidade. Inesquecíveis as Sessões Chiques das Moças, às sextas-feiras, quando o filme era o que menos interessava, porque o melhor espetáculo se desenrolava na plateia.


Já se foram todos os nossos antigos cinemas: o Odeon, o Avenida, o Polytheama e o Guarany. Este foi o último a tombar, sob protestos tão incisivos quando inúteis. Para a maioria, não passava de um prédio feio, velho e sujo. Para as pessoas da minha geração, no entanto, constituía inestimável relíquia de um tempo em que o cinema não era só uma diversão como outra qualquer. Muito mais do que isso, era parte indissociável de nossas vidas.