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quinta-feira, junho 29, 2017

Poeira de estrelas 33: De Pai (e Mãe) para Filho


Por Luiz Carlos Miele

Na inauguração da Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro, vários shows foram realizados. Homenagens obrigatórias a um dos gigantes da música brasileira. Conheci Baden logo que vim para o Rio, na TV Continental, no programa Is e Rosana.

“Is” era a marca de cigarros. Rosana Toledo, a cantora. Ótima e muito bonita, na linha da Maysa. Sua irmã, Maria Helena Toledo, era namorada de Luiz Bonfá, o que prova que as duas irmãs entendiam tudo de violões.

Estabelecemos, eu e Baden, uma razoável intimidade. Alguns anos depois, eu e Ronaldo produzimos o seu show. Estávamos em período de ensaios, no Teatro da Praia. Baden vinha de uma sofrida separação com sua mulher, Tereza, que, de musa inspiradora, virou alvo da revolta do Baden. Ele brigou do jeito que sabia. Com sua música.

Para não deixar dúvida, chamou letras talentosas do parceiro Paulo César Pinheiro e a primeira das composições dessa safra cheia de farpas. “Todo mundo se admira, da mancada que a Terezinha deu e deu no pira, sem levar um nada ter de seu. Ela não quis levar fé, na virada da maré, mas que malandro sou eu pra ficar dando colher de chá se eu não tive colher. Quá quá rá quá quá, quem riu, quá quá rá quá quá, fui eu.”

Durante os ensaios, Baden e Ronaldo foram alimentando a tese de vingança e resolveram colocar no show o título de Trator na margarida. Achei que era um pouco demais e, quando os dois se distraíram, coloquei o título Baden é de lei.

Ronaldo ainda produziu sozinho outros espetáculos dele e nos encontramos novamente em Vivendo Vinicius, que foi realizado inicialmente no Metropolitan, com o poetinha recebendo as homenagens dos parceirinhos queridos, Baden, Toquinho, Carlinhos Lyra e Tom Jobim. Esse, nas vozes de Miúcha e Leila Pinheiro. Baden tinha agora, como esposa e guardiã, Silvia, que lhe deu os dois filhos maravilhosos, Marcel e Phillipe, herdeiros do talento do pai, no violão e no piano.

Os dois me convidaram para a apresentação dos shows que citei no início desse texto. Artistas como Alcione, Wanda Sá e muitos outros faziam parte dos convidados das três noites de espetáculo. Sempre ao lado dos “meninos” do Baden.

Na primeira noite, eu na vez de mestre-de-cerimônias do evento, Marcel, no palco, me convida:

– Ô Miele, manda aí o Refém da solidão. Depois a gente faz Lapinha para encerrar.

No canto do cenário, havia uma enorme foto do Baden, cujo olhar apontava diretamente para o centro do palco. Como se fosse dizer para mim:

“Miele, vê bem o que é que você vai aprontar com a minha música.”

Falei dessa preocupação com os garotos, mas eles me “carregaram no colo” com o acompanhamento e eu cheguei são e salvo ao fim das músicas. Agora, eles fazem parte de vários projetos que eu ando sonhando. Afinal, é importante para mim saber que eu estou trabalhando com os filhos de artistas maravilhosos que eu tive a honra de produzir.

Nesses shows de homenagem ao Baden, cantei também com a Carol Saboya, filha do Antonio Adolfo, com quem gravei uma canção infantil quando ela tinha 9 anos de idade. E espero que seja assim com o Jairzinho de Oliveira, Luciana Mello, Pedro Camargo Mariano e agora Maria Rita, a cujos shows fui assistir emocionado.

Bom, com o netinho da Elis acho que não vai dar mais tempo para show juntos, não. Mas com Simoninha deu. Fizemos já três apresentações, no Rio e em São Paulo, e é muito divertido. Claro que o tema do show é o relacionamento profissional (e pessoal) que eu tive com seu pai, Wilson Simonal.

Além dos sucessos de seu repertório atual, Simoninha relembra os grandes sucessos do “velho”: Vesti azul, Meu limão, meu limoeiro, Mamãe passou açúcar em mim, País tropical, Minha namorada etc. Durante o show, Simoninha me chama carinhosamente de “tio Miele”. É melhor do que vovô, não é mesmo? E vamos lembrando um pouco das aventuras do artista que uma noite regeu “o maior coral do mundo”, no Maracanãzinho, quando, com sua habitual irreverência e domínio absoluto do público, comandou:

– Agora, só os quinze mil do lado de cá. Depois os 15 mil do lado de lá.

Eram 30 mil pessoas que lotavam o estádio, aguardando o show de Sergio Mendes, que voltava consagrado dos Estados Unidos e, inadvertidamente, convidou Simonal para “abrir” o show. Pois ele abriu e quase fechou. Sergio teve que esperar um bom tempo, até a rapaziada sossegar e ele poder se apresentar.

Fizemos muitos espetáculos juntos até a tragédia artística e pessoal que ele sofreu. Recentemente, seus filhos prepararam uma primorosa caixa especial com várias das inúmeras gravações de uma carreira extraordinária, no Brasil e no exterior, prematuramente encurtada por uma série de acontecimentos nebulosos.

O trabalho de Simoninha e Max resgata (em parte) essa carreira, o que as autoridades brasileiras se preparam também para fazer, com justiça. Na época do processo, “um processo sem réu” na opinião do juiz responsável, pois nunca houve uma acusação formal contra Wilson Simonal, eu fui solicitado a dar um depoimento sobre o mesmo, assim como Chico Anysio, a cuja reputação o Brasil deve grande respeito.

Meu depoimento:

À Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH-OAB),

Atendendo à solicitação do Dr. Antônio Ribeiro Romanelli, venho dar o meu testemunho sobre o processo de reabilitação moral do cantor Wilson Simonal (proc. 01/2002/cndh protocolo 595/2002).

Prezados senhores,

Não pretendo fazer nenhuma literatura com relação ao meu depoimento sobre o resgate da memória de Wilson Simonal.

Acredito que a simples citação dos momentos profissionais e pessoais de nossa convivência bastem para definir a minha opinião o artista e o homem.

Durante os anos 60, eu e Ronaldo Bôscoli nos tornamos os produtores dos espetáculos que tornaram famoso o Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro, onde foram revelados, entra tantos artistas, Elis Regina, Sergio Mendes, Leny Andrade, Trio & Tambo, Luiz Carlos Vinhas e a maioria dos instrumentistas que deram início ao movimento da Bossa Nova, hoje reconhecido internacionalmente.

Simonal era crooner de boates como Drink e Top Club. Impressionados com o seu sucesso na noite, fomos convidá-lo para estrear um show. Ele era a estrela principal, claro. Foram dois shows, o primeiro deles em companhia da atriz Darlene Glória, e, no segundo, já estabelecido como grande atração, Simonal lançou a cantora Rosa Maria. Os shows tiveram a participação do Bossa 3, formado por Luiz Carlos Vinhas, Otavio Baily e Ronye Mesquita.

Em pouco tempo, Simonal tornou-se um dos artistas queridos do Beco da Garrafas. Assim como os demais artistas que serão aqui citados, dentre as pessoas que ainda estão entre nós, todos os testemunhos podem ser facilmente identificados.

O Beco das Garrafas ficou pequeno para Simonal. Fomos para o Teatro Santa Rosa, onde produzimos (Miele & Bôscoli... sempre!!!) o primeiro show de MPB apresentado em teatro, com roteiro e textos especiais. Além do Bossa 3, a bailarina Marly Tavares completava o elenco.

Nesse espetáculo Simonal, além de cantar, fazia várias imitações, contava piadas, enfim, era o início da sua afirmação como grande showman. Em pouco tempo foi contratado pela TV Tupi para apresentar o programa Spot Light, dirigido por Aberlado Figueiredo.
Depois, veio a TV Record, onde passou a liderar o programa Show em Simonal num momento em que os movimentos musicais no Brasil tinham suas tribos absolutamente separadas, como o samba de raiz, a Bossa Nova, a Tropicália, a Jovem Guarda. O show de Simonal era absolutamente aberto a todas as vertentes da melhor música popular, dos Vips a Nara Leão e a Ciro Monteiro. Sem preconceito. Nem mesmo o preconceito musical.

Simonal tornou-se, então, um dos maiores cartazes do Brasil, dividindo o primeiro lugar entre os cantores com Roberto Carlos. Já durante a fase de grande sucesso, depois de um ensaio, ele me chamou para irmos a uma sauna. E partimos para a sauna Leblon, que ele não conhecia. Quando chegamos, houve uma grande correria, tanto de funcionários quanto dos clientes.

Afinal, na semana anterior, Simonal havia feito um sucesso extraordinário no Maracanãzinho, ao reger o que a imprensa chamou de “o maior coral do mundo”, quando 30 mil pessoas cantaram com ele o “Meu limão, meu limoeiro”.

Portanto, naquela tarde na sauna, Wilson Simonal de Castro foi recebido como um rei. Autógrafos, fotografias ao lado dos funcionários etc. Depois de observar detalhadamente o imóvel onde a sauna estava localizada, ele perguntou:

“Miele, qual é o endereço daqui?”

“Rua Carlos Góes, 84”, respondi:

“Miele, minha mãe foi cozinheira da família que morava aqui, e como eles não admitiam empregada com filhos, enquanto a família estava à mesa, almoçando, ela fazia um prato para mim e colocava no fundo do quintal. Eu pulava o muro, almoçava escondido e pulava o muro de volta para minha dureza.”

É evidente que a mudança de situações serviu para desenvolver uma série de conflitos na personalidade de Wilson Simonal. Na ocasião em que foi roubado por um dos contadores do seu escritório (contador que confessou o roubo na polícia), Simonal, em lugar de recorrer às providências oficiais, aceitou a sugestão de dois policiais, dos muitos que frequentavam as boates onde fazíamos os nossos shows.

“Simonal, deixa que a gente dá um aperto nele e ele entrega tudo...” Assim foi feito, assim o fato veio a público. Simonal foi detido e acredito que, em um de seus momentos de ingênua soberba, teria afirmado nada temer, pois tinha apoio e relacionamento com as autoridades que dominavam o país, todas elas fãs de seu talento. Num momento em que muitos artistas exerciam uma grande militância política, sofrendo por isso pesadas repressões, a atitude de Simonal foi considerada um verdadeiro ato de traição. O que lhe valeu o banimento do meio artístico.

Essa é a versão que eu conheço e na qual acredito, como, aliás, passaram a acreditar vários de seus acusadores e órgãos de imprensa, depois que Simonal amargou anos de exílio pessoal e profissional que culminaram com a sua morte.

É da profissão dos diretores de espetáculos definir o comportamento, atitude e caráter dos personagens que dirige. É inevitável que esse trabalho nos leve à apreciação da sensibilidade do homem que vive o personagem. E eu, e os outros profissionais citados nesse depoimento, não podemos ter nos enganado todos em relação a WILSON SIMONAL.

Atenciosamente,
Luiz Carlos Miele.

Poeira de estrelas 34: Roberto Carlos


Por Luiz Carlos Miele

“Nesta casa se escreve a história da Música Popular Brasileira.” A frase é do Ronaldo, não me lembro quando foi escrito, mas permanece até hoje na fachada do Canecão. Realizamos naquele palco alguns dos shows mais importantes de nossa carreira.

Desde o primeiro espetáculo de Roberto Carlos, em 1970, Roberto Carlos a 200 quilômetros por hora. Tinha a ver, é claro, com a paixão do Rei, naquele momento fascinado pela velocidade. Foi nosso primeiro show com direito à grande produção, com orquestra, cenografia etc.

Naquela época, a TV Record dominava absolutamente o cenário da música brasileira. Roberto, dirigido por Carlos Manga, e coadjuvado por Erasmo Carlos e Wanderléia, liderava Jovem Guarda, e Elis comandava O fino da bossa, dirigido por Miele & Bôscoli. Todos eram contratados do empresário Marcos Lázaro.

Assim como Simonal, Agnaldo Rayol, Renato Corte Real, Elizete Cardoso, Aracy de Almeida, Juca Chaves, Fred e Carequinha, enfim, todo grande cartaz do Brasil ou aqueles que viriam a ser os grandes cartazes do Brasil, ou ainda aqueles que já haviam sido os grandes cartazes do Brasil e que ainda continuavam firmes na carreira.

A Record tinha um musical diferente por noite, mas a maioria dos artistas participava eventualmente de todos eles. O Regional de Caçulinha também, e acompanhava desde Silvio Caldas a Pepino di Capri. Caçulinha ainda não havia descoberto aquela moleza de faturar uma nota só para tocar oito compassos por domingo no programa do Faustão, com a frase “Quem disse que não dá?”

Tudo bem, pois o Caçulinha é gente finíssima e já batalhou muito tentando acertar o tom para muito equívocos musicais que aconteceram na própria Record e que continuam acontecendo até hoje.

Marcos Lázaro controlava toda essa programação semanal, que envolvia talvez uma centena de artistas, de maneira quase familiar. Cuidava das contratações e pagamentos de todos os artistas convidados para os programas. Das estrelas principais era responsável inclusive pelas despesas particulares. Assim, pagava as prestações do carro do Erasmo (Rolls Royce), o colégio dos filhos do Roberto, o aluguel do apartamento da Elis. Luz e gás incluídos.

Você chegava no escritório, pedia um vale, ele mandava fazer o cheque e você assinava o primeiro papel que estivesse por perto, o qual ele colocava num fichário daqueles antigos de colégio. Como é que ele conseguia fazer aquelas contas, ninguém sabe até hoje. Mas eu adorava o Marcos, e a maioria dos artistas também. Havia uma grande amizade entre ele e a turma. Seu apelido carinhoso era Tio Patinhas.

Estavam todos empolgados com a carreira, o sucesso, e também não se ganhava o dinheiro que gira hoje em dia em torno do show business. Como no futebol, as estrelas eram famosas, mas não milionárias.

Marcos convidou a dupla Miele & Bôscoli para a produção do tal primeiro show do Roberto. Ao mesmo tempo, terminava a época de O fino da bossa, e ele tornou a proposta muito atraente, conjugada com outra participação minha:

– Veja Miele, vai acabar mesmo seu contrato com a Record, eu negociei a sua ida para a Globo para substituir o Agildo Ribeiro em Mister Show, pois o Agildo não renovou o contrato.

Tudo bem, pensei. Desfaço a casa aqui em São Paulo, volto para o Rio, para a Globo, e ainda produzindo o Roberto. Beleza. Eu devia ganhar naquela época uns 4 mil alguma coisa (cruzeiro, reais?). Não tinha a menor idéia de quantos vales havia solicitado ao Marcos, nem por quanto ele havia negociado a minha ida para a Globo. Portanto, perguntei:

– OK, Marcos. Tudo Bem. Como é que estão as nossas contas?

– Veja Miele, contando o salário da Record e os shows que você tem feito, você me deve 50 mil.

Fiquei sem fala durante os 45 minutos do primeiro tempo, os quais ele esperou pacientemente, enquanto efetuava os pagamentos dos cachês de Yvone de Carlos e Gene Barry (o Bat Masterson), que tinham vindo fazer um show na Record (péssimo, por sinal).

Quando me recuperei, ele continuou a conversa:

– Tudo bem, Miele, eu vou descontando dos próximos shows e do salário da Globo. Agora, voltando ao show do Roberto. Quanto é que você quer para dirigir?

Respondi imediatamente:

– 50 mil.

E o Marcos, também imediatamente:

– Fechado.

E assim começou a nossa primeira grande aventura no Canecão.


Roberto Carlos no velório de Luiz Carlos Miele

Logo no início, um impasse. Marcos e Roberto exigiam um depósito que seria equivalente hoje a, digamos, 350 mil reais. Era um fato novo nos shows brasileiros, e o Canecão hesitou em aceitar a proposta.

Preocupado com a possibilidade de o show não se realizar, pedi a Anita para me apresentar o assessor do presidente do Banco do Estado da Guanabara (BEG), Marcio Lomba, ex-colega dela no governo Negrão de Lima. O presidente do BEG era Carlos Alberto Vieira. Devidamente autorizado pelo Marcos e pelo Canecão, apresentei a proposta:

– O banco adianta o dinheiro e retira “x” por cento da bilheteria durante cada noite do show. (Os shows, naquele tempo, duravam meses.) Além disso, na fachada e nos anúncios de jornais estará a frase “BEG apresenta”, assim como nos cartazes internos e nas tabuletas de reserva em cada mesa etc.

– OK – concordou o presidente – mas banco é banco, e preciso de um fiador.

– É claro, respondi. Ninguém melhor do que Roberto Carlos.

Não vou dizer que inventei o merchandising, mas foi no mínimo a mais estranha operação do gênero. Roberto foi fiador de um dinheiro que ele mesmo recebeu, e o banco, que ganhou o benefício de toda a propaganda, como patrocinador, recebeu, da bilheteria, todo o dinheiro de volta. Vai ver que foi isso que, ao fim da temporada, o presidente me perguntou:

– Miele, você não quer vir trabalhar com a gente, não?

Quem sabe não teria sido uma boa escolha. Pelo menos, eu não acordava toda segunda-feira tendo que correr para cobrir minha conta, repetindo aquela frase:

– Ah, eu tenho muita vontade de voltar a ser pobre por um dia. Porque todo dia é foda.

De qualquer maneira, com Roberto e o Canecão, fomos felizes quase para sempre. Fizemos vários outros shows em que Roberto aceitava diversos desafios que eram desnecessários à sua condição de maior ídolo do país. O mais marcante, para mim, foi o de se travestir de palhaço.

Foi idéia do Ronaldo, para fazer justiça. Eu fiquei apavorado, na certeza de que, se aquilo não funcionasse, eu e ele teríamos um brilhante fim de carreira no Tocantins, produzindo o show de aniversário do Boto Tucuxi. Pois, depois de experimentar 40 perucas e narizes de palhaço, Roberto topou (ficou com a primeira que experimentou) e foi um sucesso enorme, com a capa da Veja anunciando o show.

Lembro também do Roberto cantando em dupla com ele mesmo, com o vídeo de sua imagem projetada numa tela vertical do tamanho exato do seu corpo. Como eu não queria fazer nenhum corte no vídeo, fazendo gravação direta para dar a idéia perfeita de “outro” Roberto, gravamos durante 16 horas, nos estúdios da Miksom, em São Paulo.

Durante o show, a tela era puxada para o palco por uma cordinha bem rudimentar. Foi um dos primeiros “efeitos especiais” feito com martelo e pregos. Projetávamos a imagem do “Robertinho”, que entrava no show só para perturbar o Rei, com perguntas sobre as mulheres da vida dele, quem dividiu com ele o “Café da manhã” etc. “Robertinho” havia gravado apenas com a participação de um teclado, enquanto eu, deitado no chão, soprava as frases que seriam cantadas depois pelo Roberto, no palco.

Todos os técnico consultados afirmaram que não seria possível realizar o quadro, pois a orquestra iria acompanhar tudo ao vivo, no palco, e não havia condição de dar certo. Pois deu certo e foi um tremendo sucesso. Acredito que foi a primeira vez no mundo que isso tenha sido realizado, sem o auxílio de computador etc. Apesar de tudo, um crítico escreveu que a idéia era muito boa, mas mal realizada, pois o sósia do Roberto não se parecia muito com ele. Rimos muito, pois o “sósia” era ele mesmo.

Tenho muitas lembranças formidáveis dos shows do Roberto. Eu e Ronaldo bolamos um quadro em que o Pepe trazia as roupas de várias épocas da carreira do ídolo. Pepe é o maior diretor de palco do Brasil e o único com moral para dar bronca em estrelas do porte de Simone, Vinicius, Gal e o próprio Roberto. Pois bem, ele trazia até o centro do palco a arara, que é aquele cabide com rodinhas que se usa nos camarins.

Roberto pegava cada uma das roupas, que representava uma época diferente, vestia, contava a história e cantava a música correspondente. Nos primeiros shows, incluíamos sempre uma música internacional e lembro de um arranjo espetacular de Chiquinho de Moraes para McArthur’s Park, um grande momento, que mostrava um intérprete completamente amadurecido.
Foi muito bacana também a participação da garotinha que cantava Imagine, do John Lennon, junto com Roberto. Mas, a bem da verdade, esse quadro e a descoberta da menina foram por conta do Eduardo Lages, maestro do Rei até hoje. Engraçado, o destino. Chiquinho de Moraes é um arranjador genial, que, de tantos compromissos, teve que interromper repentinamente seu trabalho conosco, durante os ensaios que antecediam a estréia de mais um show.

Tínhamos pouco tempo para encontrar alguém para substituí-lo. Depois de uma reunião tensa, parei no bar Preto 22 para tomar um uisquinho para descontrair (boa desculpa, sempre). Havia um bom conjunto, um quinteto fazendo música de qualidade, que ficou ainda melhor no meu quinto uísque. Fui até o pianista e líder do conjunto e perguntei:

– Boa noite, está beleza o som. Os arranjos são seus?

Eram.

– Escuta, você não quer ganhar mais uma graninha? Aparece amanhã no ensaio do Roberto Carlos pra gente conversar...

Quem sabe se eu não entrasse naquele bar, Eduardo Lages não estaria há mais de vinte anos como o maestro e arranjador do Roberto Carlos?

Lembro da surpresa do Lages, em outro espetáculo cuja estréia foi no Maracanãzinho. Roberto resolveu que o título do show seria Verde-Amarelo. Ele havia acabado de compor uma canção com esse tema ufanista e eu fiquei preocupado com a repercussão política junto à imprensa. Afinal, Don & Ravel foram marginalizados quando gravaram Eu te amo, meu Brasil, eu te amo, que foi considerada uma canção a serviço do governo militar.

Quando levei essa preocupação até Roberto, ele respondeu que todo o Brasil sabia que ele não carregava nenhuma bandeira para qualquer governo. E depois, tinha todo orgulho em ser brasileiro, tivera aquela inspiração e não tinha o menor receio de ser mal interpretado. Ia cantar a música e gostaria de manter o título.

Quando ele diz educadamente que gostaria de manter o título, quer dizer que o título vai ser aquele mesmo, e não há de ser nenhuma dupla que vai mudar. Nem Miele & Bôscoli, nem Geisel & Médici, que, aliás, não fizeram muitos sucessos. De qualquer maneira, achei que podia dar uma disfarçada no roteiro e tentei incluir duas músicas que, na minha opinião, iriam contrabalançar o que eu acreditava que era um risco, Coração de estudante e As rosas não falam.

Aprovadas por ele as sugestões, pedi ao Lages um arranjo imponente. O querido maestro caprichou na escrita e escalou o coral de uma universidade para cantar à capela a primeira parte. Roberto só entrava em “Queixo-me às rosas, mas que bobagens, as rosas não falam...” Pra quê? No ensaio do dia seguinte, ele me chamou num canto:

– Bicho, você viu o que é que você ia aprontando? Eu fui rever a letra da música. Você já prestou atenção nessa letra?

– Claro, Roberto. Música e letra são uma obra-prima.

– Tá certo, bicho. É muito bem-feita, mas não exata. Diz aqui que as rosas não falam. E todo mundo sabe, tá provado cientificamente que as flores e as plantas ficam muito mais viçosas quando o homem se comunica com elas. Você sabe do meu carinho com as minhas plantas. E tem outra coisa errada. Diz aqui que as rosas exalam o perfume que roubam de ti. O homem é que se aproveita do perfume das rosas, industrializa tudo...

Sem perceber que aquilo era uma coisa importante para ele, um assunto sério, eu quis defender minha idéia e respondi:

– OK, Roberto. Você tem razão. Mas a gente já gastou uma grana nessa produção e o resultado com o coral ficou lindo. Você podia explicar para as rosas que eu não sabia de nada e já pedi para fazer os arranjos, que a culpa não é sua e...

Pela primeira vez em 30 anos de convivência, vi Roberto irritado. E pela primeira vez, levei uma certa bronca, o ensaio foi interrompido, ele voltou para o camarim, houve um grande atraso, até que eu fui lá me desculpar, e ele não só me serviu um uísque, como ainda me garantiu que ia livrar a minha cara com as rosas. Mas não cantou.

Nunca, nem antes, nem depois desse episódio, vi Roberto Carlos levantar a voz para alguém da sua produção, ou para um de seus empregados domésticos. É um homem de grande generosidade e educação. Solidário, fechado nas suas convicções.

Quando me acidentei, ele me ligou. Não me lembro de ter recebido outro telefonema dele em 30 anos de trabalho, embora tenha sempre atendido as minhas ligações profissionais. Dessa vez atendi ao chamado, transmitido por uma enfermeira emocionadíssima:

– Seu Miele, seu Miele, é o Roberto Carlos no telefone.

– Alô, Mielão. Qual é, bicho? Que é que você andou aprontando? Assim você assusta a gente. Nem tantas emoções assim...

E continuou brincando comigo, sem deixar de perguntar se eu precisava de alguma coisa etc. Desconfiando de que eu precisava, mandou depositar uma simpática quantia na minha conta e depois mandou me chamar para a reunião de produção do próximo show.

Sabiamente orientado por Dodi Sirena, empresário da maior competência, que acho que deu a ele uma grande tranquilidade em termos de estrutura, Roberto resolve hoje todo o seu repertório e comportamentos no show. É amparado por uma equipe da maior qualidade, da qual fazem parte o próprio Dodi, Lages, Césio, responsável pela iluminação e desenho de palco, e Genival Melo, o famoso Quem-Quem, que faz o som e muito mais. Essa equipe faz mais ou menos a arte-final do que Roberto pretende.

Durante seus dois últimos shows, fiz parte dessa equipe e das sugestões, mas pouco pude acrescentar. Acho que Ronaldo fez muita falta para mim e para Roberto. Sei que Roberto jamais iria me substituir e, então, quando convocado para a reunião do show mais recente, inventei outro compromisso.

Acho que resolvi o problema de todos nós. Mas vou estar sempre na platéia para aplaudi-lo no palco, onde ele é soberano. O Rei.

Poeira de estrelas 35: Canecão


Luis Quatronne, Luiz Carlos Barreto e Mario Priolli

Por Luiz Carlos Miele

Muitas lembranças do Canecão. Ainda fizemos lá shows da Elis, da Alcione, do Agnaldo Timóteo, do Simonal, da Regina Duarte, além de inúmeras convenções e eventos especiais. E também como outros produtores, NÃO fizemos o show de João Gilberto. Depois de noites e noites de ensaios e pesquisas sobre o acompanhamento – orquestra, trio, conjunto, quarteto, quinteto de cordas, berimbau, só piano??? –, João não se convenceu com nenhuma formação.

Após uma semana de ensaios e tentativas, desistiu daquele espetáculo e seguiu brilhantemente sua carreira, acompanhado somente por João Gilberto, único capaz de entendê-lo em seu imenso talento, técnica, suingue e sensibilidade.

Mas os ensaios ao lado de Mario Priolli, o proprietário do Canecão, valeram sempre pelos muitos sucessos e mínimas decepções. Mario mandava colocar uma mesa enorme em frente ao palco, onde ficávamos eu, ele, Ronaldo, Maneco, responsável por solucionar as eventuais loucuras técnicas que a gente pudesse inventar, Zeca Priolli e algum convidado especial.

Mario sempre foi muito fidalgo em relação às mordomias, o que a gente pedisse para comer etc. Por uma estranha afinidade entre proprietário e produção, o uísque foi eleito por unanimidade o elemento principal desse menu noturno e, embora os ensaios terminassem mais ou menos ás três da manhã, era normal que eu, Mario e Ronaldo ficássemos discutindo as possibilidades do roteiro, da música brasileira em geral, da situação da política mundial, do futuro da cultura de abobrinhas na Escócia e de qualquer outro assunto que resistisse ao consumo da imensa adega do Canecão.

Naquela época, o Canecão não tinha as cortinas, eram as paredes de vidro que deixavam passar as luzes da noite, que não atrapalhavam os shows. Mas, em virtude da extensão do horário de nossas reuniões, todas elas no sentido de contribuir para a melhoria das condições dos espetáculos, em favor da cultura do Brasil, o sol que atravessava as vidraças começou a perturbar nossa concentração.

Numa dessas ocasiões, mais ou menos às dez da manhã, remanescentes ainda os bravos profissionais do show da noite anterior, Mario houve por bem mandar instalar as cortinas negras, que imediatamente se mostraram supereficientes, também em relação aos espetáculos. Mas que foram colocadas por causa do “nosso sol”, foram.


Em outra ocasião, Mario trouxe para o Brasil o Moulin Rouge. Foi preciso adaptar o palco do Canecão para receber toda aquela cenografia. Veio um batalhão de técnico, bailarinos e bailarinas e um... leão. Leão de verdade, mesmo, porque em matéria de leões-de-chácara, o Canecão tinha a melhor equipe do Brasil.

Mas onde é que vai ficar guardado o leão? Naquele tempo, ainda não havia sido construído o shopping, ali ao lado, e ainda estava lá o morro, com alguns barracos. Ofereceram uma grana altíssima a um dos moradores para construir um cercado para hospedar a fera e o dono do barraco, que não era leão, mordeu rapidinho.

De maneira que, todas as noites, o domador descia a pé pelo morro com o leão na corrente até uma estradinha onde uma Kombi aguardava para levar o bicho até o Canecão.

Numa dessas noites, durante a descida pelo matagal, domador e leão passaram perto de um casal que fazia das estrelas seu cobertor. No auge da empolgação, o macho homem sentiu aquele bafo quente na nuca.


Como ele estava por cima, estranhou, e, ao virar a cabeça, deu de cara com aquela tremenda cabeça, que ainda por cima urrou. O leão urrou, mas não comeu ninguém. É claro que o apaixonado amante também não. 
Aliás, nunca mais comeu ninguém. Ficou broxa para sempre.

Quizumba no Bar do Armando


A musa Petronília, a rainha Érika Tatiana e o patrono Armando Soares

Fevereiro de 1997. O promotor público José Bernardo, irmão dos homeboys Lélio (ex-Secretário de Justiça), Sérgio (juiz federal) e Flávio Lauria (escritor e advogado), está no Bar do Armando, bebendo animadamente com o juiz trabalhista Jorge Álvaro (hoje desembargador) e conversando lorotas. Os dois estão do lado de dentro do balcão.

O bar está completamente lotado, aguardando a chegada do grupo Demônios da Tasmânia para iniciar mais um pré-aquecimento da famigerada Banda Independente da Confraria do Armando (BICA).

Culto, educado e incapaz de fazer mal a uma mosca, José Bernardo está fazendo hora no bar à espera do telefonema de uma namorada para se encontrarem dali a pouco.

Alguns minutos depois, a sexagenária Petronília, eterna musa da banda, se aproxima dos dois e reclama que alguns rapazes estão zoando com ela, lhe atirando pinchas de cerveja e sobras de isca de leitão, entre outras coisas.

José Bernardo olha para a mesa dos rapazes e reconhece entre eles os irmãos Carlinhos, Luiz e Marcos, filhos do comerciante Antônio Português, proprietário do restaurante Calçada Alta, localizado nas proximidades da Praça São Sebastião.

Fazendo alguns sinais com as mãos, José Bernardo pede amistosamente para os rapazes pararem de sacanear a Petronília. Ainda bastante injuriada, a anciã implora delicadamente que Jorge Álvaro lhe pague uma cerveja e então fica bebendo na companhia dos dois, do lado de fora do balcão.

Impaciente com a demora do telefonema da namorada, José Bernardo resolve ligar para a menina do telefone particular do Armando, que também fica do lado de dentro do balcão. Ele não consegue concluir a tarefa porque o telefone convencional estava sem linha.

Os rapazes da mesa observam o promotor desligar o telefone e sair muito puto em direção ao orelhão existente quase na entrada do bar. Completamente bêbados e paranoicos, eles deduzem que José Bernardo está ligando pra polícia e resolvem agir.

Assim que colocou a primeira ficha no orelhão, o promotor público recebeu um tapa no pé do ouvido, que lhe arremessou os óculos de grau a um metro de distância. Em seguida, recebeu uma rasteira que lhe levantou um metro do solo.

Ao perceber o amigo sendo agredido, Jorge Álvaro correu em sua direção. Levou um contravapor na nuca que quase o levou a nocaute.

Caído no chão, José Bernardo limitava-se a proteger o rosto enquanto recebia uma saraivada de pontapés, socos e tentativas de estrangulamento.

O comerciante Armando Soares e mais meia dúzia de biqueiros tradicionais se envolveu na confusão e, depois dez minutos de pancadaria, os biqueiros conseguiram expulsar os agressores de dentro do bar.

Com escoriações generalizadas pelo corpo, José Bernardo entrou no seu carro e foi ao Instituto de Medicina Legal (IML) fazer exame de corpo de delito. De posse do laudo, foi ao 1º DP e fez um Boletim de Ocorrência (BO).

Mais judiado do que ovo de ciclista durante o “Tour de France”, José Bernardo voltou para o Bar do Armando e falou grosso, pra todo mundo ouvir:

– Esses filhos da puta vão se foder comigo! Já falei com o secretário Klinger Costa e ele vai pegar de um por um...

Um ano depois da confusão e totalmente esquecido da promessa de vingança, José Bernardo estava flanando despreocupadamente pela Rua Costa Azevedo quando foi abordado pelo comerciante Antônio Português, em frente ao restaurante Calçada Alta. Nervosíssimo, o lusitano abriu o jogo:

– Doutor Bernardo, pelo amor de sua querida mãe, revogue a pena de morte dos meus filhos! Eu já tive que enviar dois para Portugal e um para o Rio de Janeiro, para não serem mortos pelo Doutor Klinger Costa. Por favor, Doutor Bernardo, revogue a pena de morte dos meus filhos! É só isso que lhe peço!

Foi um parto o legalista José Bernardo explicar que não tinha nada a ver com os “presuntos” desovados semanalmente pela PPK (“Polícia Paralela do Klinger”).

Naquele ano, a PPK matou mais de 80 marginais – entre eles alguns amigos dos filhos do português –, que eram ligados ao tráfico de drogas.

O comerciante estava cismado de que seus meninos estavam na lista negra por solicitação do promotor público. Foi um alívio saber que tudo não passara de um mal entendido.

quarta-feira, junho 28, 2017

Poeira de estrelas 26: Mazzaropi


Por Luiz Carlos Miele

A rádio Nacional do Rio de Janeiro foi durante duas décadas o maior celeiro de cartazes da música popular brasileira. Victor Costa, seu presidente, comprou também a rádio Nacional de São Paulo, e assim grandes programas musicais passaram a fazer parte de sua programação. Havia também as novelas do rádio-teatro. Minha mãe fazia parte delas, além de cantar e produzir programas.

Ângela Maria era a grande estrela feminina. Mas o maior cartaz de toda a emissora era Mazzaropi. Herói sertanejo, fazia o Jeca, com enorme sucesso. Astro do disco, grande vendedor e com tanto público para seus filmes que chegou a construir o próprio estúdio, no interior de São Paulo. Fato inédito, naquela época, e até hoje.

Numa tarde, estávamos assistindo ao ensaio da Ângela, eu e Walter Arruda, jovem locutor. Jovem, elegante e bonito, o que imediatamente chamou a atenção do Mazzaropi. Pelas três razões. Mas acho que principalmente pelo bonito. Quer dizer, se tivesse que escolher, para falar de um casal lindo da época, o Mazzaropi acharia muito mais graça no Anselmo Duarte do que na Ilka Soares.

Mazzaropi veio chegando com aquela malandragem de Jeca, encostou no jovem e elegante e perguntou:

– Mecê trabáia aqui?

Com aquela voz espetacular do horário nobre, Arruda respondeu:

– Trabalho sim, senhor.

O “sim, senhor” que anunciava um anonimato assustou um pouco nosso astro, mas ele resolveu insistir:

– E o que é que ôce faz na rádio?

– Sou locutor – respondeu o Arruda.

– Ah, bão. Por isso essa voz tão bonita num rapaz tão elegante assim. E comé que ôce chama?

E o diálogo continuou:

– Eu me chamo Walter.

– Warte de quê?

– Walter Flávius de Arruda. E o senhor?

Aí já era demais para o ego do Mazzaropi.

– Ué, ôce não me conhece não?

– Não conheço não, senhor. Não tive esse prazer.

O Mazzaropi indignado:

– Ué, eu sou o Mazzaropi.

E o Walter, supersacana:

– Mazzaropi de quê?

Poeira de estrelas 27: O desespero de Paul Bocuse


Por Luiz Carlos Miele

Certa noite, deixei Thomaz Souto Correia, vice-presidente da Abril, totalmente horrorizado ao comentar minhas preferências culinárias. Thomaz, homem de sofisticada cultura, tanto nas letras quanto na gastronomia, quase retirou das minhas mãos a revista Gourmet, que editava.

Por outro lado, ficou interessado com a sugestão que dei, de publicar uma matéria intitulada “Diet porre”, que traria sugestões de receitas para alcoólatras que não queriam engordar. As opções encontradas foram poucas: Caipirinhas com adoçante? Vodca com Coca light? Uísque dietético? Cerveja sem álcool? (Argh!)

Na verdade, não encontrei material satisfatório para essa matéria, pois, apesar dos progressos da ciência, a indústria ainda não chegou a essa perfeição. W. C. Fields, o famoso humorista norte-americano, é que estava certo: “Tudo o que é bom, é imoral, ilegal ou engorda.”

Voltei-me então para a segunda sugestão de matéria, batizada como “O desespero de Paul Bocuse”. E passei a descrever as delícias do que podemos chamar de “cozinha marginal”. Que, às vezes, para ser degustada, exige nervos de aço e estômago de ferro.

O tempo passa e uma das lembranças da força da juventude é a da possibilidade de comer uma feijoada no Parreirinha, na avenida São João, em São Paulo. Não pela feijoada em si, mas pelo horário. Quatro da manhã, toda quarta-feira. Imagino como seria meu despertar hoje, antes de sair para o treino da seleção “subsetenta”, depois de um cardápio desses. Com o agravante de que ele vinha em seguida ao menu da terça-feira: virado à paulista. No mesmo horário da madrugada, com a mesma carne de porco e o acréscimo de dois ovos fritos.

Naquela época ainda não estávamos na fase dos nutricionistas e da discussão “ovo-pode-ou-não-pode”, que, aliás, muda todo ano. Eu, que adoro ovos fritos, já resolvi. Consegui duas receitas diferentes, com dois médicos amigos. Uma que pode, e outra que não pode.

Não estou sozinho nessa cruzada. Paulo Cotrim, renomado crítico gastronômico, autor do livro Os 100 melhores restaurantes de São Paulo, ex-proprietário do imortal João Sebastião Bar, onde deu seus primeiros trinados o estudante paulista Francisco Buarque de Holanda, depois de distribuir quatro e cinco estrelas para as receitas mais rebuscadas possíveis, afirmou no fim do livro que seu prato favorito era arroz com dois ovos fritos. E depois de classificar os melhores endereços paulistas, disse num acesso de mau humor que os dois principais restaurantes cariocas eram o Bob’s e o McDonald’s.

Minha fase dos jantares na madrugada vem de um início de carreira bem modesto. Era, na verdade, uma opção financeira e me lembro com saudade dos locais e sabores que fizeram a alegria e o prazer da minha juventude.

A Salada Paulista

Começou na rua 24 de Maio, São Paulo, e passou depois para a avenida Ipiranga. Sua piéce de résistance era a seguinte: salada de batata, duas salsichas, um croquete de carne com mostarda escura. Acompanhada de chope ou guaraná (caçula) da Antarctica. A gente comia de pé, não havia bancos. O garçom anotava o pedido com lápis no mármore do balcão. Depois, somava tudo e apagava com um pano molhado. Parece muito sujo, e era, mas o proprietário era alemão e as receitas da salsicha e do croquete eram desconhecidas até então. Foi um tremendo sucesso.

Jeca

Na esquina da São João com a Ipiranga. Durante muitos anos, o Jeca jamais fechou as portas. Creio que foi o primeiro 24 horas do Brasil. Não fechava nem no Natal, fim de ano, nunca. Tinha de tudo no cardápio: prato feito, sanduíches, salgados, caldo verde, putas e bêbados.

Muitas vezes, encontrei lá de madrugada Ruy Afonso, o ator que era um dos famosos Jograis de São Paulo, um quarteto fabuloso com Ruy Cortez, Armando Bógus e Maurício Barroso. O uísque ainda não havia me descoberto, e, entre 10 a 15 chopes (lembram da idade?), eu ficava ouvindo o melhor da poesia brasileira.

O Jeca teve também um mesmo funcionário que serviu os sanduíches da madrugada durante mais de quinze anos. A especialidade era um queijo derretido, maravilhoso.

Anita não conheceu a primeira fase da qual eu participei, lá na esquina famosa. Mas uma noite consegui afastá-la de um jantar no Fasano, de cozinha soberba, e arrastá-la até o botequim tradicional. Chegamos lá, eu de smoking e ela de longo, pelo adiantado da hora, ela reclamando, é claro, eu pedi duas calabresas com queijo.

Horrorizada com a ocasião e com a rapaziada do lado (“fala, Mielão!”), ela acabou se rendendo ao sabor do sanduíche. Depois disso, em várias outras noites, depois de sairmos de algumas das casas mais elegantes de São Paulo, Anita sugeria:

– Vamos dar uma passadinha lá no Jeca e pedir um sanduíche “pra viagem”?

Ponto Chic

O sanduíche tem esse nome por causa do Lord Sandwich, nobre inglês que não admitia parar de jogar para comer e pediu para trazerem um pedaço qualquer de pão com algum recheio. Assim, foi o precursor do atual “salta um qualquer coisa no capricho”.

Assim, também o sanduíche de Bauru foi inventado no Ponto Chic, tradicional estabelecimento no largo do Paissandu. Era formado, no início, de pão, tomate, queijo prato e rosbife. Atendia, é claro, a um morador da cidade de Bauru, que inventou a receita. De lá para cá, foi muito desvirtuado. No aeroporto do Rio, por exemplo, é servido com churrasquinho e queijo. Nada a ver.

Esfirras Abertas

Agora, aqui no Rio de Janeiro, temos a cadeia Habib’s. Mas durante muito tempo foi impossível encontrar as tais esfirras. Elas tiveram seu tempo de glória lá na Galeria Menescal, em Copacabana, depois sumiram. Voltaram agora na tal rede de lanchonetes, que pertence a um português e vende especiarias árabes. Talvez, o proprietário tenha sido pressionado pela família e a sobremesa são os pastéis de Santa Clara, uma das grandes especialidades lusitanas.

São chamados assim porque as freiras do convento de Santa Clara usavam as claras dos ovos para lavar os hábitos e sobravam as gemas. Depois, passaram a usar as próprias (as gemas, não as freiras) para alguns doces caseiros, mas, em face dos constantes pedidos da vizinhança, foram fabricando os mesmos em maior escala e só pararam porque o clero português resolveu impedir que nascesse ali a Santa Clara Candies Production.

Voltando às esfirras. Em São Paulo, as melhores, na minha opinião, eram as piores. Quer dizer, as que são fabricadas pelo restaurante Almanara, de refinada produção, na verdade não interessam a um cultor da cozinha marginal, como eu. Tem que ser aquelas que são vendidas na porta dos botequins, naquela guarnição de vidro. Vem derramando azeite naquele papel cor-de-rosa, vale pimenta e limão. E depois, imediatamente depois, coca-cola, para digerir.

No Rio de Janeiro, o Árabe da Gávea só tem as tais fechadas. As abertas não fazem parte da cultura carioca. Houve uma ocasião em que eu fiz uma temporada no 150 Night Club, que era a boate do hotel Maksub Plaza. Artisticamente era uma maravilha. Fui o primeiro humorista a se apresentar na casa. Tive direito ao acompanhamento da banda local, o show se chamava Concerto para Miele & Orquestra.

Minha temporada ficou entre as apresentações de Billy Eckstine e Alberta Hunter. Um luxo. Tudo que eu podia querer. Quer dizer, quase tudo. Pois era impossível conseguir um pastel como aqueles da feira ou uma autêntica coxinha cremosa, daquelas em que a massa da batata envolve completamente o pedaço da galinha.

O sanduíche do room service vem com garfo e faca, como vocês sabem, pecado para os membros do nosso clube, e é de filé (sem tempero) com aqueles envelopinhos de maionese e ketchup, que você não consegue abrir. Restrito, portanto, aos restaurantes do hotel e depois de recusar o salmão e o caviar, que detesto, como qualquer profissional da minha turma, consegui me defender com os picadinhos nos primeiros dias.

Mas quando Anita pediu ovos à Benedict, percebi que corria perigo e saí voando para o centro da cidade, de onde voltei no mesmo táxi, carregando um pacote de esfirras, no tal papel cor-de-rosa, escorrendo azeite. Infelizmente, fui interceptado pelo Roberto Maksud, proprietário do hotel, que, informado do conteúdo do pacote, foi irredutível:

– Desculpe Miele, mas eu tenho cinco restaurantes no hotel. Uma cantina italiana, uma churrascaria cinco-estrelas, o restaurante escandinavo, o japonês e finalmente La Cusine de Soléil, com os chefes que eu trouxe da França. Não dá para deixar você levar esse pacote sem vergonha no elevador.

Como ele tinha razão, concordei e ficou um acordo inusitado, pois ele mandou um maître me acompanhar até o alojamento dos empregados e ficar me atendendo com a carta de vinhos e o menu de sobremesa. Optei, é claro, por uma Pepsi light de safra ignorada e pudim de caramelo. O pudim era meio metido a besta, mas o conteúdo quase se igualava àquele que vem preso à forminha de lata e você tem que bater no balcão e virar de cabeça para baixo para o pudim soltar.

Mesmo nas viagens (que fazia quando o dólar era mais generoso) sempre fui considerado um desastre gastronômico. Na minha primeira viagem a Nova York, fui pedir ao Boni, então vice-presidente da Globo, para desmembrar o valor da minha passagem em quatro ou cinco vezes. Conseguido o parcelamento, fui saindo da sala dele quando ia entrando o Armando Nogueira, mestre e amigo. Informado do meu pedido, me fez voltar e intercedeu por uma regalia maior:

– Boni, o Miele está aqui com a gente desde o começo. Não dá pra liberar a passagem dele?

– Claro que dá, porra. Mas ele não me pediu.

De qualquer maneira, o Boni ainda me presenteou com a lista de alguns dos bons restaurantes (ao meu alcance) e seus melhores pratos. Dos vinhos, ele nem falou, já que até hoje me considera um selvagem em matéria de bebidas, pois só tomo uísque e vodca. Mas a lista dos restaurantes era preciosa:

Massas – Romeo Salta (caro)

Massas populares – Mama Leone (barato)

(Barato, mas tem aquele acordeonista que vem junto com o violinista. Um problema. Se você não olhar, é mal educado. Se olhar e sorrir, eles tocam outra.)

Melhor lagosta – River Café

Fica na beira do rio Hudson, num armazém antigo, lindo. Garçons do Vietnam informam o preço da lagosta que não está no menu. Não adianta muito, porque, depois que ele diz o preço, você não vai dizer “então, não quero”. Nem mesmo que esteja com a própria esposa. Dom Salvador, pianista brasileiro que conheci no Beco das Garrafas, foi durante anos atração da casa, acredito que ganhando bem melhor que lá no Beco.

Divertido – The Signo of the Dove.

É de um amigo do Boni, Joe Santos. É fácil para os proprietários ficarem com essa intimidade, pois o Boni é um grande conhecedor dos melhores vinhos e cozinhas.

Não tive peito de perguntar sobre os melhores cachorros-quentes, que tive que descobrir sozinho. Em compensação, encontrei um bar de esquina na Broadway, que tinha o churrasco grego, de carne de carneiro. Fica rodando naquele esperto, as fatias são colocadas no pão tipo árabe, com coalhada, cebola crua e pimenta-do-reino. Valeu a viagem.

Na verdade, se me largarem em Nova York, com cachorro-quente, sanduíche de pastrami, coca-cola e aquele café aguado que o Marlon Brando tomava na caneca grande em O selvagem da motocicleta, eu estou feliz.

A grande vontade de participar da comida dos personagens dos filmes inclui aquele feijão na frigideira que o John Wayne vive fazendo na fogueira enquanto persegue os índios que raptaram sua sobrinha (Natalie Wood). Aquelas coxas de peru que os cavaleiros da Távola Redonda comiam com as mãos também tiveram a sua época. E, naturalmente, a raspa do chocolate, tirada pelos monges com o dedo, que virou até marca de produto.

Em algum outro momento desse livro, eu comentei as voltas do Sergio Mendes para Niterói, levado até as barcas por Antonio Carlos Jobim, onde existia o Angu do Gomes. Esse eu encarei com alguma reserva. Só em casos de extrema necessidade. O angu era delicioso, mas o acompanhamento era dos famosos miúdos, e desses estou fora. Fígado, rim, bofe, coração. Assim também não. Mas dava para encarar só o angu com o molho. Aliás, muita gente encarava, pois o tal Gomes começou com uma carrocinha e chegou a ter uma verdadeira indústria, com mais de 30 “carrocinhas-filiais” espalhadas pelo Rio de Janeiro.

Portanto, não sou fã de restaurantes, como já deu para perceber. Mas alguns tinham bares maravilhosos. O Flag, de Ricardo Amaral e Zé Hugo Celidônio, era um deles. Em relação à minha época, formou junto com o Antonio’s a dupla imbatível dos dois melhores bares de uma geração maravilhosa. Tinha dois andares, um para o bar, de descontraída e selecionada frequência. Eu, Ronaldo, Elis, os fotógrafos Paulo Garcez e Paulo Góes, Nelson Motta e toda a turma do Pasquim íamos todas as noites. Todas as noite mesmo. No piano, Luiz Carlos Vinhas. Não sei bem como, pois o bar tinha 40 lugares no máximo, lá se apresentaram os shows de Chico Buarque com o MPB 4 e Dorival Caymmi, entre outros. Não podia ser pela grana, era na base da amizade mesmo.

Por conta da descontração do local, Carlinhos Niemeyer fez um streap-tease em cima do piano, ficando apenas com a sunga. E, ao lado de Jorge Ben e Chico Buarque de Holanda, tive a honra de dançar o cancã em cima dos sofás, numa coreografia até hoje lembrada pelo público, não só pelo inusitado do palco, como pela categoria dos solistas.

No andar de baixo, funcionava o restaurante, pilotando pelo talento do Zé Hugo, um dos mais respeitados chefes do Brasil, que passa grande parte do seu precioso tempo ministrando cursos que ensinam a nossas esposas que é melhor mesmo deixar por conta das cozinheiras.

Depois de quase um ano frequentando o estabelecimento, o Calidônio se queixou da minha ausência ao restaurante. Tentei explicar que ele era bom demais para mim, e então, na página 73 do seu livro Histórias e receitas, ele escreveu o seguinte:

“Fui dono de um bar em Copacabana chamado Flag. Aliás não era só um bar, porque tinha um bom restaurante. Enfim, até hoje não sei se era um bar que tinha um restaurante, ou se era um bom restaurante que tinha um bar, com música ao vivo. Isso foi no final da década de 60 início dos anos 70. Num fim de noite no restaurante, estavam bebericando alguns dos fiéis frequentadores. Ronaldo Bôscoli, ainda casado com a Elis Regina, o Miele, sempre casado com a sua Anita, e alguns dos músicos da casa, entre eles, o Luizinho Eça. Todo mundo comeu, menos o Miele. Perguntei por que e ele disse:

‘Não gosto da carne daqui.’

Estranhei, pois se tratava de uma pessoa amável, mas fiquei quieto. Passados alguns dias, ou melhor, algumas noites, depois das quatro da manhã, ele me convidou para cear no lugar que ele mais apreciava. Lá fui eu, até um restaurante de fim de noite, cheio de moças que já haviam parado de ‘trabalhar’, quase todas acompanhadas de seus gigolôs. Se não me engano, era na Princesa Isabel. O garçom chegou e disse:

‘Seu Miele, o bife de sempre?’

‘Sim, mas capricha que meu amigo aqui é do ramo.’

‘Traga um igual pra mim’ – eu disse, o que fez o garçom pedir uma confirmação:

‘O senhor tem certeza?’

O Miele fez algum sinal, e o garçom foi embora. Passados uns quinze minutos, chegaram nossos pratos. Para mim, um filé mignon normal, até com boa aparência. Já o Miele era o bife mais feio ao qual eu tinha sido apresentado até então. Fino, pelancudo e bem passado. Enfim, um horror. E ele atacou seu bife com enorme satisfação.

‘Agora você entendeu por que não como carne no seu restaurante? Acontece que eu só gosto de bife ruim. E lá no Flag, mesmo que eu peça a pior peça da casa, ainda assim não será suficientemente ruim para meu gosto. Tem que vir com aquela gordureba toda.’

No dia seguinte, pedi ao Tião, gerente da casa, para ir ao açougue e comprar um quilo da pior carne para bife que existisse lá. Daí em diante, o Miele pôde jantar com seus amigos, no fim de noite.”

Essa história é verdadeiro e, é claro, virou folclore entre a turma e os garçons. Tanto, que, em outra noite, o maître me explicou ao trazer o prato:

– Seu Miele, hoje não deu pro Tião passar no açougue, o senhor vai ter que comer do nosso estoque. Esse aqui foi o pior que eu consegui.

É evidente que algumas vezes fico em situação embaraçosa. Quando fui ao programa do Clodovil, havia aquela jogada do chefe preparar um prato especial para o convidado. Na pressa de atender ao telefonema da produção, pedi um filé à parmegiana, que ele achou paupérrimo, é claro. E recentemente gravei também como convidado o programa Gema Carioca, do Rodolfo Bottino, também um chefe sofisticado.

Nessa, eu fiquei com vergonha, pois, depois de um maravilhoso suflê de palmito que ele preparou durante a entrevista, eu saí da TV Educativa e deparei com um pagode ali mesmo, na porta do botequim do lado. O botequim é alugado estrategicamente para que os clientes do pagode possam usar os sanitários.

Cerveja etc só podem ser do mesmo bar, mas eles liberam umas barraquinhas para a turma do pagode vender alguma coisa e faturar algum para pagar os músicos. Atenção para o menu: caldinho de feijão, dobradinha, caldo verde, várias moquecas, caldo de mocotó.

Esperei o Bottino entrar no carro dele, fingindo que comprava um cigarro, aderi imediatamente às barraquinhas e hoje sou o mais novo integrante do grupo “Embaixadores da Folia”.

Dentro de pouco tempo, vou publicar um roteiro completo, dando endereços, notas e estrelas a vários petiscos como empadas, pastéis, bolinhos de bacalhau, padarias com os melhores sanduíches de mortadela e relação dos estádios de futebol que servem na entrada os melhores churrasquinhos no espeto.

Algumas amigas da Anita, que promovem jantares elegantes, já conhecem as minhas sutilezas culinárias e às vezes avisam, ao convidar: “Gostaríamos de contar com sua presença. Pode vir, que não precisa jantar.”

Poeira de estrelas 28: Vinicius de Moraes


Por Luiz Carlos Miele

O teatro Casa Grande teve uma participação muito importante na vida cultural do Rio de Janeiro. Não apenas pela excelência dos espetáculos que encenava, como também porque foi palco de várias reuniões da classe artística, em que se discutia a participação política de seus representantes.

Foram momentos em que a atuação de escritores, compositores, poetas, atores e atrizes, diretores e produtores ultrapassaram em muito os limites do palco, em defesa da liberdade.

Numa dessas noites, um grupo de notáveis deixou a reunião exausto de suas responsabilidades para com o país. Todos eram muito amigos, a afinidade e o talento que os uniam facilitavam muito o diálogo. Chico Buarque apontou para a foto que ilustrava a manchete de um jornal do dia e cantou para ela:

“Apesar de você, amanhã há de ser, outro dia”.

Francis Hime rasgou a foto e recomendou calma a Chico, lembrando que os dois haviam avisado que ia passar pela avenida um samba popular. E que cada paralelepípedo da velha cidade, naquela noite, vai se arrepiar. João Bosco a Aldir Blanc lembraram “a raiva de tanta gente que sonhava com a volta do irmão do Henfil e de tanta gente que partiu num rabo de foguete”. Vinicius de Moraes disse ao Tom que estavam perto da rua onde nasceram tantas canções – “rua Nascimento Silva 107 e você ensinando pra Elizete as canções de A Canção do Amor Demais. Lembra Tomzinho?”

Mas Tom respondeu que isso era antigamente e que agora era a rua Nascimento Silva 107, onde a gente corria do pivete, tentando alcançar o elevador. Entre tantas considerações, chegaram, depois de muito tempo, à frente da casa de espetáculos Vivará (que, aliás, era pegada ao Teatro Casa Grande), onde se apresentava o show Paetês – Bananas com Miele & Sandra Bréa, e que, com todo o respeito á memória da Sandra, foi um dos piores equívocos encenados no Brasil.

O formidável sexteto – Tom & Vinicius, João & Aldir e Chico & Francis – achou que já havia prestado serviço suficiente por aquela noite e resolveu seguir os conselhos de Vinicius, que um dia brandou: “O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado.” Imediatamente, vários boêmios elegeram essa frase como uma das mais inspiradas de toda a carreira poética do nosso vate. Mas foi um evidente exagero da turma que vivia nos apartamentos de sala-quarto-banheiro e canil. De qualquer maneira, aqueles compositores maravilhosos entraram para ver o show, o que me deixou completamente apavorado com as críticas que imaginei que viriam no fim.

Mas, com a mesma grandeza e generosidade de sua obra, eles me convenceram de que eu não precisava me suicidar ainda, devia tentar mais uma vez. No fim, todos nós confraternizamos num verdadeiro Kennel Club e a noite ainda me rendeu uma linda foto, que marcou aquele encontro com Vinicius de Moraes.

Conheci Vinicius numa casa noturna chamada Ruy Bar-bossa. Trocadilho brilhante, como vocês perceberam. Foi a minha estréia no palco, ao lado da Tuca, cantora e humorista muito talento. Vinicius fora cunhado do Ronaldo, casado com Lila Bôscoli, e várias das tantas maravilhosas homenagens feitas às mulheres foram dedicadas a ela. As muito feias que perdoem, mas beleza é fundamental. Depois, ele me explicou que tinha dito: “As muito, muito feias.” E como nenhuma mulher e achava “muito, muito feia”, nunca houve problema.

Terminado o show, a boate ficou vazia em alguns minutos, mas ele pediu mais uma garrafinha de uisquinho, pra gente ficar mais uma horazinha batendo um papinho. Eu já tinha ouvido falar da paixão dele pelos diminutivos, achei aquilo do cacetinho e fiquei bebendo (literalmente) aquele talento e sabedoria.

Dizem que ele ficou muito frustrado quando começou a compor com o Toquinho, pois o Toco já era Toquinho. Toquinhozinho também ia ficar demais. Muitas horas depois, ele me perguntou se eu podia dar uma caroninha pra ele. Era tudo que eu queria. Na noite em que conheci Vinicius de Moraes, já ia dar uma carona para ele:

– É claro, poeta, com todo prazer. Onde é que você está morando?

– É logo ali na Gávea, Mielinho. Tô morando na clínica São Vicente.

– Mas Vinicius. São cinco da manhã. Como é que a gente vai entrar na clínica?

– Não tem problema, não. Pode deixar que eu tenho a chave.
Alguns anos depois, já honrado com sua amizade, fui fazer um show no Recife. Patrocinados por uma marca de rum, um grupo de artistas como Regina Duarte, Vera Fischer, Wilma Vernon, Erlon Chaves e a Banda Veneno, Cafuringa, o ponta-direita do Fluminense, um grupo bem divertido.

Do Recife, resolvemos, eu e Anita, passar em Salvador. Como se fosse possível, eu nunca havia estado na Bahia por mais de um dia ou dois, fazendo shows. Desconfiando das minhas possibilidades para descobrir os melhores programas, Anita insistia para que eu ligasse para o Caymmi, um anfitrião respeitável.

Mas era a época da grande escalada turística. Bahia e baianos estavam na ordem do dia, sua música e folclore eram o grande assunto brasileiro, com todos os exageros a que tinham direito. No saguão do hotel, um folheto turístico anunciava: “Pela manhã, visita a Itapuã. Almoço no Solar do Unhão; à tarde, visita à igreja do Senhor do Bonfim. No final da tarde, antes da volta ao hotel, visita à casa de Dorival Caymmi.”

Imaginando o pavor que o magnífico Dorival estava sentindo a qualquer toque de campainha, não tive coragem inclusive de usar o telefone.

– Não dá, Anita. Vou ter que mentir que estou trazendo um recado do Fernando Lobo, se ele disser para eu deixar na portaria do hotel, vou morrer de vergonha. E se pedir para ele me indicar um bom restaurante, e ele me indicar mesmo em vez de me convidar para casa dele, aí é pior ainda.

Resisti aos pedidos da Anita, resolvi descobrir sozinho um lugar formidável e, quase colocando meu casamento em jogo, fui encontrando fechados ou por fechar cada restaurante que me havia sido indicado no hotel.

Era uma segunda-feira e, mesmo na Bahia, segunda não é dia de festa. Terminei antes os olhares de desprezo da Anita, jantando uma pizza, na orla, na minha primeira noite em Salvador. Na manhã seguinte, com o orgulho ferido, resolvi que iria descobrir novamente a Terra de Vera Cruz. E aluguei um carro.

– Mas você não conhece nada. Como é que vai sair dirigindo em Salvador. Se me levar para almoçar outra pizza, está tudo acabado entre nós.

Humilhado, não respondo nada. Sou avisado que o carro alugado chegou. Meu Deus, um Opala roxo. Dessa vez, ela ficou com dó e só riu disfarçadamente. Então eu desço a ladeira da Sete de Setembro (É claro que pelo telefone eu reservei um hotel que NÃO ficava na praia, o que Anita também fez questão de reparar.) Já com uma tremenda dor de cabeça, parei na primeira farmácia para comprar um remédio, quando ouvir a voz salvadora.

– Oi, Miele, na Bahia, é? Chegou quando?

Era a Jesse, esposa de Vinicius. Ah, ah, ah (pensei eu esperançoso).

– Oi, Jesse, cheguei ontem, para conhecer essa terra maravilhosa. Pena que eu não conheça muita coisa.

– Tá hospedado onde?

(Favor ler essas linhas pensando no sotaque delicioso das baianas lindas.)

– Num hotel meio sem graça, ali na Sete de Setembro, longe da praia.

– Espere um pouco, que eu vou ligar pro Vinicius.

Momentos de suspense. Ela volta, maravilhosa.

– Vinicius mandou pegar suas malas e ir lá pra casa.

É difícil descrever o ar de superioridade com o qual voltei para o carro e anunciei para Anita:

– Vamos para a casa do Vinicius, na beira da praia, em Itapuã.

E assim passei a semana hospedado pelo poeta, o que significava a possibilidade de privar das amizades de Caribé, Calazans, Jorge Amado e até Mãe Menininha do Gantois, caso se apresentassem problemas de maiores providências.

Mas não foi preciso. Ocorreu apenas uma ligeira gripe e eu me contentei, orgulhoso, com uma injeção na bunda, aplicada por Marcos Vinícius de Mello Franco Moraes.

Poeira de estrelas 29: Dorival Caymmi


Dorival Caymmi com os filhos, Dori (E), Nana e Danilo, em 1994

Por Luiz Carlos Miele

Uma foto de que me orgulho muito é a que tenho ao lado de Caymmi. Foi tirada durante uma gravação na TV. Ele, já com os sábios cabelos brancos que lhe valeram o apelido de “Algodão”, eu ainda com barba e cabelos escuros. Era a época do festival Abertura, realizado pela TV Globo e que eu apresentava.

Para tornar a votação absolutamente democrática, o júri contava com dez jurados. Cinco deles liberados por Aloysio de Oliveira e os outros cinco sob a batuta de Diogo Pacheco.

Aloysio era parceiro de Tom Jobim (Dindi, Inútil paisagem, Fotografia e outras). Ex-fundador do Bando da Lua, que foi com Carmem Miranda para os Estados Unidos, ex-marido de Silvinha Telles, foi também o fundador do selo Elenco, que só gravava astros da MPB, como Tom, Caymmi, Lucio Alves, Dick Farney etc.

Diogo Pacheco, mestre arranjador e regente, foi um dos grandes colaboradores da Tropicália e era de talento e temperamento revolucionários. Sua opinião, bem como a de seu grupo, contrastava absolutamente com a opinião da “turma do Aloysio”, na qual estavam Sergio Cabral e outros competentes tradicionalistas.

Logo na primeira noite de competição, as preferências se anunciaram. Hermeto Paschoal apresentou-se com um porco vivo, que fazia parte de seu arranjo, o que evidentemente lhe valeu uma nota muito baixo da turma do lado de cá. Em compensação, Pery Ribeiro defendeu uma canção de Menescal & Bôscoli. Considerava, é claro, “supercareta” pela vanguarda adversária. Se você tirar um zero e um dez, sua média fica sendo cinco, não é mesmo?

Carlinhos Vergueiro, competente cantor-compositor, parceiro tanto de Toquinho quanto de Adoniran Barbosa e Nélson Cavaquinho, e também competente meio-campista do Pholiteama, na qual é responsável pela principais assistências que resultam nos gols de Chico Buarque, entrou pelo meio da área, apresentou uma linda canção chamada Como um ladrão, que não despertava polêmica para nenhuma das duas torcidas, fez um gol de letra e ganhou o festival.

A cada noite, além da apresentação das músicas concorrentes, Abertura apresentava o show de um grande nome da MPB. Jorge Ben fez o espetáculo da primeira noite. Um dos shows da temporada foi o de Dorival Caymmi. É difícil de acreditar, mas o gigante, o Buda Nagô, como diz nosso ministro Gilberto Gil, estava preocupado com a reação do público:

– Miele, esse festival está muito cheio de novidade. Eles adoraram aquela tal de Farofa-fá, o que é que vão achar das minhas canções?

Fiz uma aposta com ele e ganhei, é claro. Pedi para ele entrar cantando apenas a primeira frase de “Ah, minha Mãe, minha Mãe Menininha” e deixar o resto com a platéia. Não deu outra. Todo mundo cantou por ele e junto com ele. E assim foi com a maioria das músicas de seu repertório.

Satisfeito com a recepção do público, na maioria garotada, Caymmi atendeu a um convite meu para jantar na casa de um casal supersimpático, que simplesmente adorava o mestre. Eram meus amigos de longa data e iriam adorar recebê-lo.

O marido, Luiz Paduan, era o proprietário do restaurante Paddock, tradicional em São Paulo, onde, além da excelente cozinha, havia sempre a preocupação de boa música ao vivo, um bom piano de cauda etc. Depois que eu consegui garantir a presença do ídolo, as preocupações do Luiz aumentavam a cada dia da aproximação do jantar:

– Miele, quantas pessoas você acha que posso convidar? O que é que eu vou mandar preparar para ele? Faço uma moqueca? Moqueca não. As da Bahia devem ser melhores que as do meu chefe. Ele gosta de vinho ou de uísque?

Expliquei ao Luiz que o Caymmi era uma pessoa muito simples, qualquer coisa ia ser muito bem-recebida. E fomos, eu, Aloysio de Oliveira, Caymmi e Dora e Doralice e Marina e Anália e Mãe Menininha e Gabriela e Adalgisa e tantas canções que o homem não anda sem elas.

Quando chegamos na porta do apartamento, toquei a campainha, Luiz Paduan abriu a porta, maravilhado. Emocionado, não resistiu e deu aquele braço de fã no importante convidado. Quando conseguiu recuperar a fala, gritou lá para dentro.

– Meu bemmm. Vem ver quem chegou.

É a vez de Leny Paduan, querida amiga, ficar emocionada. Tão emocionada que errou de cantor:

– Meu Deus. Silvio Caldas, que prazer.

Pânico. Não geral, é claro, pois eu e Aloysio achamos a maior graça. Mas o Paduan, o marido, esse ficou completamente desnorteado. Pronto. Seu jantar iria por água abaixo. O que é que seus amigos iriam dizer? O que é que ele ia dizer para o Caymmi? E mais ainda, imaginem o que é que ele iria dizer para aquela mulher, a quem ele amou toda a vida e que agora fazia aquela confusão?

Pressentindo a tragédia conjugal anunciada, Dorival Caymmi, ídolo de gerações, unanimidade nacional, simplicidade em pessoa, mentindo generosamente, tranquilizou dona Leny:

– Minha senhora, não se preocupe. Não é a primeira vez. Às vezes me confundem com Silvio Caldas, às vezes com Di Cavalcanti. Mas eu não me preocupo. Porque, não só pinto, como canto, melhor que os dois.

Grande Caymmi. Aliás, grandes Caymmis.

Evoé, Danilo e Nana. E Dori, todos cantores. Dona Stella é dos amores. Tive a honra de dirigir no Metropolitan do Rio de Janeiro o show com toda a família. Acompanhada pela Orquestra Sinfônica Brasileira, com arranjos e regência de Chiquinho de Moraes, ele também personagem inevitável nas antologias da música brasileira, autor de tantos trabalhos importantes como a Paulistania, de Billy Blanco, e de tantas viagens musicais maravilhosas a bordo dos arranjos para Elis e Roberto Carlos.

Nesse espetáculo com os Caymmi e a Sinfônica, lembro da minha emoção ao perceber Fernanda Montenegro em lágrima na platéia. Tudo bem. Eles que são grandes que se entendam. Mas, além de emocionantes, os ensaios eram muito divertidos, por conta do bom humor de Danilo e do bom mau humor de Nana e Dori.

Dori criou, junto com o maestro Edson Frederico, uma série de apelidos que não posso publicar aqui, pois atingem toda a classe dos cantores e compositores, e eu tenho que continuar trabalhando no ramo. Para falar de dois dos mais amenos, cito Milton Nascimento e Roberto Menescal, que Dori rebatizou de Milton Mais Cimento e Roberto Menos Cal. Os outros vocês vão imaginando para se divertir.

Quando Dori e Ronaldo Bôscoli se encontravam não sobrava para ninguém. Faziam um verdadeiro e divertido campeonato de maldades, só de farra. Mas se você soubesse que era mais ou menos vulnerável, só ia embora do bar junto com eles, e de preferência, deixava cada um na sua casa, separado do outro.

Certa noite, no Chiko’s Bar, a dupla recebeu a valiosa colaboração da Alcione. A Marrom era intocável e mais discreta nas suas brincadeiras, e ficou por ali, só curtindo o infortúnio dos que tinham que ir saindo mais cedo. Sobrou um. Ou melhor, sobrou para ele. Que sabia que não ia escapar dos “elogios”, que bem merecia. Foi ficando na esperança de que os dois fossem finalmente se recolher. Mas não teve jeito, o sol foi saindo, a vítima finalmente capitulou, deixando, ao sair, uma frase que ficou famosa entre nós.

– OK, pessoal. Eu tentei resistir, mas não aguento mais de sono. Eu vou dormir e seja o que Deus quiser.

Mas Dori não poupava nem mesmo a si próprio ou à família.

– Miele, meu pai não é brincadeira. O velho é o compositor mais preguiçoso do Brasil. Ele levou 14 anos para fazer Maracangalha, que, como todo mundo sabe, tem uma letra complicadíssima. Acho que foi por isso que demorou. Presta atenção na divisão dos 14 anos. Nos primeiros 4 anos ele escreveu: “Eu vou pra Maracangalha, eu vou, eu vou de chapéu de palha, eu vou.” Parou dois anos. Fatigado, eu acho. Sexto ano. Nova inspiração. “Eu vou convidar a Anália, eu vou, eu vou de uniforme branco, eu vou.” No sétimo ano, escreveu de um fôlego só, “Se a Anália não quiser ir eu vou só, eu vou só, eu vou só. Se a Anália não quiser ir, eu vou só, eu vou só, eu vou só, sem a Anália...” E nunca mais escreveu nada. Sete anos depois, o Danilo lembrou: Pô papai, Maracangalha estava ficando muito legal. Termina essa música. E ele terminou: “Mas eu vou”.

Brincadeira, é claro. Quantas das canções de Caymmi terão sido feitas numa mesma noite de inspiração genial? Atenção, João Valentão, que lá vem a baiana, olhando pro mar, que, quando quebra na praia, é bonito, é bonito. Peguei um Ita no Norte, pra saber o que é que a baiana tem. Ah, baiana, requebre que eu dou um doce, que o samba na minha terra deixa a gente mole. Só louco, mesmo, pra não sentir saudades de Itapuã. Você já foi à Bahia? Então vá. Pra saber que é doce morrer no mar.

Por isso (e por mais de cem músicas geniais), Tom Jobim disse dele:

– Brincam com a preguiça de Dorival, mas, em compensação, ele não tem nenhuma música feia.

Tom também não. Dele, Aracy de Almeida, a filósofa do Encantado, disse em maravilhosa síntese:

– Antonio Carlos Jobim é uma pessoa que não resta a menor dúvida.

E do Buda Nagô teria dito:

– Em matéria de maravilhoso, Dorival Caymmi pode dormir sossegado.

E assim adormece esse homem, que nunca precisa dormir para sonhar...