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sábado, julho 08, 2017

Palmério Dória: tudo índio, tudo parente!


Foi no começo de abril de 1996. Um sujeito ligou para a redação do jornal Amazonas em Tempo, onde eu era editor de Cultura, explicando que tinha uma pauta: queria me fotografar para a revista Sexy.

Achei estranho. Eu, na Sexy, com quarenta anos de idade, careca e barrigudo? Alguma coisa estava fora de ordem...

Durante aquela conversa de bêbado para delegado, o sujeito se identificou.

Era o fotógrafo Wesley Andrade, que eu ainda não conhecia pessoalmente (dez anos depois, trabalharíamos juntos no jornal Correio Amazonense), mas que já era considerado um dos melhores profissionais de Manaus.


Enrolei o Wesley até não mais poder, para que as fichas caíssem.

Uma semana depois chegou à redação um fax do Edson Aran, com 20 perguntas indecentes. Aí, as fichas caíram.

Eu ia sair na coluna “Fax”, da Sexy, por conta da 2.ª edição do livro “Manual do Canalha”, que estava sendo publicado pela Topbooks, do editor Zemário Pereira.

Na época, a Sexy era editada pelo jornalista Palmério Dória e Edson Aran (jornalista, humorista, escritor consagrado e ex-diretor de redação da revista Playboy) era um dos redatores.

Lembro até hoje de umas das 20 perguntas indecentes:

Aran: Reeleição ou reereção?

Eu: Reereção. Reeleição é coisa de viado!


Continuar acreditando nisso até hoje me parece apenas um sinal de coerência ideológica.

O desabusado Palmério eu já conhecia por telefone, por conta do médico botafoguense João Sabino Neto, irmão do saudoso ex-vereador e ex-administrador do Porto de Manaus, Nelson Neto, e do sindicalista portuário Jerry Nelson, de Itacoatiara.


Morando havia mais de 15 anos em São Paulo, onde fazia especialização em cardiopatia no Hospital das Clínicas, Sabino sempre me ligava aos sábados à tarde, em meio a um porre monumental, e, invariavelmente, colocava o Palmério na linha, para conversar comigo.

O bar onde eles se reuniam, o famoso Tucupi, na Avenida Bela Cintra, era ponto de encontro dos nortistas. No geral, falávamos mal da arrogância abissal dos bandeirantes de Sampa e da deselegância indigesta dos buzanfãs de suas meninas – a maioria delas dando a impressão de que recebeu uma remada na bunda na hora em que nasceu.

Tenho quase certeza de que Sabino convenceu Palmério a divulgar meu livro, Palmério passou a bola para o Aran, que colocou o Wesley na jogada e ele entrou em contato comigo.

Acabei na piscina do Tropical Hotel, cercado por 20 ninfetas de parar o trânsito (uma delas, uma morena-jambo na flor dos seus 16 anos, Bhia Borges, depois virou apresentadora do jornal local da TV Cultura e hoje é a pin up mais cult da cidade), de paletó e bermuda, ostentando numa das mãos uma bebida servida em copo longo enfeitada com guarda-chuvinha de papel roxo.

Mais cafajeste, convenhamos, impossível!

Wesley fez, por baixo, umas 50 fotos. A revista Sexy publicou uma delas (a outra fotografia que ilustrou as duas páginas da matéria era do fotógrafo Marco Gomes, realizada durante uma palestra que fiz no Sesc-Senac sobre poesia marginal).

De lá pra cá, Sabino voltou pra Manaus (fez, inclusive, a minha avaliação de “risco cirúrgico” na primeira e única vez em que entrei na faca para consertar um úmero danificado em Borba), Palmério saiu da Sexy e escreveu alguns livros fundamentais para entender o Bananão (“O Princípe da Pirataria” e Honoráveis Bandidos” são dois deles), Edson Aran foi ser redator da Playboy, depois retornou para a Sexy, depois voltou para a Playboy, depois saiu de novo e escreveu alguns livros hilariantes (“Conspirações” e “O Imbecilismo” são dois deles), Wesley continuou fotografando meninas belas e eu também continuei lançando meus folhetins.


Aí, no início de 2006, o escritor Mouzar Benedito – que eu e Marco Gomes havíamos levamos para conhecer o Festival dos Bumbás de Parintins no ano anterior, no barco da galera do GRES Reino Unido da Liberdade – me mandou um livro de presente: “Grandes mulheres que eu não comi, entre elas Vera Fischer, as que sim, e o último salto do goleiro Castilho” (Editora Casa Amarela, 108 pp).

O título é graúdo porque o autor também não cabe em uma definição de meia lauda.

Jornalista e escritor, Palmério Dória narra suas peripécias nessa autobiografia, desde a infância em Santarém (PA) até a chegada ao Sudeste brasileiro, em que sua condição de jornalista o colocou diante de mulheres cintilantes como Vera Fischer, Gretchen, Narcisa Tamborindeguy, Glória Maria e Brigitte Bardot, entre outras.

Além das musas, passeiam pelo livro figuras políticas como Jânio Quadros, Jáder Barbalho, Heitor Aquino Ferreira e outros menos votados.

Filho de goleiro, sobrinho de goleiro, e ele mesmo um goleiro frustrado, Palmério Dória sempre teve Castilho como ídolo no futebol. Adorava-o pela firmeza, pelas defesas impossíveis, pelas pontes aéreas e espalmadas milagrosas.

E entendeu-o perfeitamente quando o grande arqueiro, imortalizado no Fluminense, em fevereiro de 1987, aos 60 anos, saltou pela última vez, jogando-se do apartamento da ex-mulher, num edifício no bairro de Inhaúma, no Rio, ao receber o mais duro não, o não do amor.

Para provar que aqui no Norte é tudo índio, tudo parente, Palmério recorda que foi companheiro de classe, no curso primário, do fero jornalista e escritor Lúcio Flávio Pinto, provavelmente o mais emblemático e valoroso jornalista da região amazônica.


Os dois foram juntos tentar a vida em São Paulo. Depois de certo tempo, Lúcio Flávio voltou para Belém e se tornou editor do combativo Jornal Pessoal, que circula na cidade há mais de 20 anos.

Palmério resolveu prosseguir na batalha e está em Sampa até hoje. Os dois são meus ídolos, claro.

E a autobiografia do jornalista é simplesmente imperdível, como vocês vão descobrir pelas postagens que começo a publicar a partir de hoje. Divirtam-se.


Palmério Dória 1: Rainha do Pau-Rosa


Aos 38 anos, o ídolo do Fluminense foi emprestado ao Paysandu, de Belém do Pará, para jogar no gol do bicolor, em 1965. A chegada dele foi um acontecimento na cidade. Mas para mim teve um efeito especialmente dramático. Eu era goleiro dos juvenis do Remo, o arquirrival do Paysandu, e recebi uma proposta para mudar de clube, feito por um mecenas de lá, Adalberto Chady.

Para um garoto de 15 anos, era uma perspectiva divina: ser treinado por Castilho, que além de jogar, fazia questão de preparar pessoalmente os goleiros, inclusive das categorias inferiores, e ainda ganhar uma mesada. Era assim como virar primeiro-ministro da Bulgária de uma hora para outra.

Havia um componente maquiavélico na tentadora proposta de Adalberto, cujos mundos e fundos vinham menos de um escritório de advocacia do que de um magistral golpe do baú aplicado na rainha do pau-rosa, do qual vem a essência fixadora de perfumes como o Chanel nº 5. No fundo, no fundo, ele só queria tirar do Remo o filho do goleiro dos 7 a 0.

Esse é o placar mágico do futebol paraense. Aconteceu nos anos 40, mas é festejado como se fosse hoje. Antes de o Paysandu ascender à primeira divisão do futebol brasileiro, não havia nada mais importante. Nunca o Remo vai devolver essa goleada. Existe um acordo tácito: se o Remo chegar, digamos, a enfiar 5 a 0, o Paysandu sai de campo.

Não sei se papai era um grande goleiro. Isso pouco importa. O importante é a mística. E ele era o goleiro que estava lá. Todo ano era aquilo, a família toda com a cara no jornal no dia que relembrava a goleada histórica – 25 de julho de 1945 –, que eclipsou o acontecimento mundial da véspera: no final da conferência de Potsdam, perto de Berlim, Harry Truman, Winston Churchill e o delegado chinês deram um ultimato ao Japão, que não se rendeu, sem saber que ia levar duas bombas atômicas pelos costados.

Mas, apesar de torcer fervorosamente pelo Papão da Curuzu, como toda família, acabei parando no Remo, porque, quando tomei gosto pela bola, aí pelos 13 anos, o Paysandu não tinha categoria infantil.

E lá estava eu, no calor infernal do sol de 1 hora, só de calção, a chuteira fuleira sobrando no pé, sem meião, entre trezentos moleques no centro do gramado do estádio do Remo, o primeiro em concreto armado de Belém, com alambrado e tudo.

O técnico Zuru, um baixote de rara energia, parecido com o anão Zangado, ia perguntando o nome de cada um. Quando disse o meu, o mesmo de meu pai, me jogou a camisa número 1.

Encontrei ali minha praia. A saia-justa viria algum tempo depois, quando o Paysandu também formou uma equipe infantil e passamos a nos enfrentar em preliminares do clássico.

Com as chuteiras penduradas no ombro, saía de casa sob vaias da própria família, que morava em boa parte na Vila Letícia, nome de uma das minhas tias, no bairro do Reduto. Mas lá debaixo das traves conseguia ver os cabelos brancos do meu velho na arquibancada. Tenho certeza de que, em silêncio, torcia por mim.

Papai era o melhor amigo do sogro de Adalberto, dono dos bosques de pau-rosa que se espalhavam em Santarém, no Baixo do Amazonas. Rico, bonito e inteligente, Adalberto certamente era um dos responsáveis pela contratação de Castilho, que ganhou dois campeonatos pelo alviazul, um como goleiro, outro como técnico.

Com o cacife do sogro, também podia se dar ao luxo de importar craques de outros Estados para as equipes de futebol de salão e basquete. Encarnação do boêmico e bon vivant, Adalberto sabia fazer uma festa.

No casamento dele, um dos mais supimpas de todos os tempos, as comidas e as pressurosas criadas vieram de avião de Santarém.

Os noivos desembarcaram de um Impala conversível bege, nas escadarias da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, às 6 da tarde em ponto, com os sinos badalando, sob aplausos da patuléia. No meio dela, uma língua-de-trapo comentava:

– Se ele está apaixonado por ela, deve ter sido em outra encarnação.

Se você pensa que é barbada fazer uma ponte aérea Santarém-Belém de pratos amazônicos, que incluíam variações em torno da tartaruga, não entende nada de Amazônia.

Eram pelo menos três horas de vôo, geralmente em DC-3 – da Real Aerovias ou do Lóide Aéreo –, avião criado antes da Segunda Guerra Mundial – não sei mesmo o que seria a ocupação da Amazônia sem os DC-3: antes do carro, os índios conheceram o avião.

Bote aí três dias, se fosse numa dessas casas navegantes, ou daquelas gaiolas que circulavam no Amazonas.

Palmério Dória 2: Folias aquáticas


Na verdade, toda essa história começa em Santarém. Um tempo depois dos 7 a 0, papai, funcionário público, foi parar ali com minha mãe, Nazaré, e meus irmãos, Valdemar e Betina, para chefiar a delegacia do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos. Logo fez amizade com seu Elias Hage, um libanês rotundo e bonachão, a calma em pessoa, que ficou milionário com o pau-rosa.

Eu não estava no programa. Mamãe levou um gol por baixo das pernas, cujo resultado saiu dia 9 de março – mesma data em que a frota de Cabral saiu do porto de Palos para descobrir o Brasil – de 1949. Mas foi um bom pretexto para o papai encher a cara durante três dias.

Ainda na primeiríssima infância, fui levado por um toró da porta de casa até uma boca-de-lobo, cujo ferro segurei com as duas mãos com uma energia que tirei sei lá de onde – a lembrança mais distante que tenho. Se elas cedessem, um presuntinho ia aparecer uns 300 metros adiante na margem do Tapajós, verde-azul, o rio mais bonito do mundo, segundo os habitantes de Santarém.

Fui resgatado de lá por uma figura popular, que andava sempre com uma touca de vôo usada pelos pilotos da Primeira Guerra Mundial – quando tive idade para agradecer, ele já tinha morrido. Talvez tenha sido minha ligação mais longínqua com o futebol – segura que (a vida) é sua!!!

De resto, não dava a menor bola, embora ele estivesse presente o tempo todo. De vez em quando a família inteira ia ver papai, aposentado do gol, apitar os jogos em Santarém, principalmente o clássico São Francisco e São Raimundo, e no Baixo Amazonas, para onde íamos de motor.

Me lembro especialmente de um soco que ele levou de um dos contendores no meio da cara, durante uma partida em Monte Alegre. Parece que o jogo acabou naquele momento, com um corte no supercílio do árbitro, que sangrava abundantemente, o lenço na mão de mamãe um vermelho só, do outro lado da cerca que separava a arquibancada mambembe do campo.

Me lembro ainda mais especialmente da minha farra nas piscinas de águas sulfurosas, enxofre puro, cercadas de montes alegres, e da revoada de garças pousando na “cidade baixa” do imenso areal que era a cidade.

As garças quebravam a monotonia desse verde vago mundo. De certos pontos do rio Amazonas nem dava pra ver a margem. Quando dava, as garças se destacavam contra miríades de tons de verde. Por isso era tão espetacular, nas idas e vindas para Belém, a passagem no estreito de Breves, antes da ilha do Marajó – ou ilhas do Marajó: 2.000 –, tão estreito que parecia não ter retorno. A monotonia era fora.

Dentro dos motores, de todos os tipos e tamanhos, se fazia de tudo. Nada a ver com o tempo dos aviões, chato e sem sentido algum. A gente brincava, os adultos papeavam, os cozinheiros cozinhavam, os namorados namoravam, os dorminhocos tiravam uma soneca nas redes e nos camarotes.

De repente, de um ponto da mata, minúsculas canoas, feitas de troncos de árvores, vinham em nossa direção quase sempre no ritmo das remadas de um único caboclo sentado na popa, a proa levantada. O motor passava, eles ficavam balançando no rastro das ondas ou catando na água os pedaços de pão que a gente jogava.

Outras vezes passávamos por uma numerosa família completamente imóvel, em escadinha, na frente das casas de madeira acinzentada, apodrecidas pela umidade, ou só com a cobertura de palha de palmeira e sustentadas por troncos grossos, completamente devassadas.

Um retrato pronto e acabado do que o pessoal chama hoje de Povos da Floresta, pra Pedro Martinelli nenhum botar defeito. 

Palmério Dória 3: Uma babá perfeita


Meu mundo então girava em torno de Ita. Essa, sim, uma babá perfeita. A bem dizer, eu ainda nem tinha idade para saber dessas coisas. Um dia, estava em cima do muro do quilométrico quintal de minha casa, se não me engano pelado.

Do outro lado, lá de baixo, três moleques acenaram com um estilingue, uma baladeira. Um deles era filho do zelador do Clube Recreativo, para onde o muro dava. Tinha uma mancha rosa na face esquerda. Era chamado de Manga Rosa.

Mordi a isca. Desci do muro, e els me levaram para a casa de força, atrás do clube. Me colocaram de costas, eu com o estilingue na mão, absorto com o presente de grego, quando Ita irrompeu como um furacão, quase botando a porta abaixo. Distribuiu sopapos, botou a molecada pra correr, me pôs por cima do muro no quintal de casa, e levou-me para o banheiro.

Não havia água corrente, a gente tomava banho de cuia, pegando a água de uma tina de madeira. Ela tirou o vestido de chita e uma calcinha de algodão, jogou água nela, depois em mim, nos ensaboamos um ao outro, como eu já estava acostumado.

Mas aí fez algo diferente: sentou numa das quinas do banheiro, a última peça de um casarão livre de qualquer adorno, que dava para o quintal com todo tipo de árvore, e abriu as coxas.

Um close em meu rosto flagraria uma expressão de alumbramento, a visão daqueles lábios. Pediu que eu me deitasse de frente no chão de cimento molhado, ajustou meu rosto bem ali, e pediu que eu lambesse. E eu lambi, lambi, lambi.

Tudo ali ganhou outra dimensão, outro colorido. Durante muitos anos dormíamos invertidos na rede, ela com o rosto no meu pinto, eu com o rosto na xoxotinha ainda despentelhada dela.

Ita era bem mais velha, calculo que tinha uns 8 ou 9 anos. Era batista, cabelos anelados e compridos, como toda crente. Com ela tive o melhor bê-á-bá que alguém pode sonhar. Vale contar que hoje, cercada de belas filhas, ela administra um salão de beleza em Copacabana.

– Sabe a Ita? Ela tem um salão de beleza na Siqueira Campos.

Foi assim que soube dela décadas depois, numa papo com mamãe, que costumava passar vários meses de férias no Rio. Peguei o endereço, mas a galeria, quase na esquina da rua Barata Ribeiro, estava fechada.

Passei logo no outro dia, morto de curiosidade. Ela e as filhas me trataram como um querido amigo da família, Palmerinho pra lá, Palmerinho pra cá. E a Ita livrou de novo a minha cara. Dessa vez de uma plantação de cravos.

Não sei direito como apareceu a Iliaci. Mas que teve bala no meio, teve. Lembro-me de que vinha da praia a 200 metros de casa. Vinha de calção, sem camisa, brincando com a Iliaci, pequena como eu, só de calcinha. Ela era filha do vizinho, homem forte do PTB em todo o Baixo Amazonas.

Chegando perto de casa, vimos uma fila de gente que pegava toda a rua de terra desde a porta da casa dela. Fomos entrando por entre as pessoas, assim como vão se metendo as crinanças por entre as pernas dos mais velhos, até enxergar, no meio da sala, de pijama, em pé, recebendo pêsames e chorando convulsivamente, o seu Elias.

Atrás de Elias Pinto, um retrato na parede – Getúlio Vargas de corpo inteiro, a faixa presidencial no peito, no dia de sua posse. Ninguém nos disse nada – nós mesmo percebemos:

– Getúlio morreu!

Mas não estávamos nem aí para o drama nacional. Enquanto as ondas da Rádio Nacional narravam a tragédia para todo o país, as multidões tomavam conta das ruas do Rio de Janeiro agitando bandeiras rubro-negras – as cores do PTB, as cores do Flamengo –, mas nosso problema básico era onde íamos brincar de médico.

Ali não havia clima. Tratamos de ir correndo para debaixo da cama da minha casa, onde pudemos brincar tranquilamente. Instrumento cirúrgico: a ponta do cinto do meu pai. Nisso ia terminando a manhã.

Palmério Dória 4: Influência do Jazz


Nem tudo era alegria. Outra morte, a de Craveiro Lopes pode entrar perfeitamente num Campeonato Nacional de Azar. Não, não era o presidente português. Era o papagaio da família, escroto e obsceno como o das piadas.

Os marítimos, que traziam na cabeça, quase sempre descalços, tartarugas imensas de presente para meu pai, paravam para vê-lo, dando o show habitual na varanda nos fundos: “Craveiro Lopes quer almoçar”.

Um dia, ele não apareceu para o almoço e apareceu em frangalhos nas mãos de um vizinho, que nem precisou bater – a porta estava sempre escancarada. Tinha sido atropelado pelo único carro da cidade – apesar de estarmos bem perto de Fordlândia –, mais uma criação do império Henry Ford, herói do capitalismo, plantada no coração da Amazônia para fornecer goma elástica aos americanos, mas não colou.

Craveiro Lopes morreu, mas ficou a lenda. A morte deletéria teria sido encenada: era tão valioso, tão cobiçado, que o tal vizinho o roubou, pegou outro papagaio e armou a cena do atropelamento. O comprador seria um regatão – o mascate dos rios – que atracava o barco no cais da cidade.

O fato é que passei um bom tempo atento a todos os papagaios que via nas embarcações ali atracadas. Com alguns chegava a levar um papo, nenhum com a fluência de Craveiro Lopes. De vez em quando, alguém aparecia dizendo que daquela vez era. Nunca era.

No meio dessa tragédia, veio uma compensação à altura. Um irmão de seu Elias Hage, José, que precisou voltar às pressas para Belém, me presenteou com uma vitrola e uma pilha de discos 78 rotações. Eu botava um monte deles para tocar. Um após outro, caíam pesadamente no prato.

Para mamãe, aquele mamute na entrada não passava de um trambolho, que só atrapalhava suas faxinas, uma formiguinha infatigável. Para mim, era um brinquedo extraordinário. O libanês era um sofisticado colecionador de jazz. Mas eu lá sabia o que era jazz, blue note, be-bop, toda essa sonora volta por cima da cultura negra?

A cidade tinha só um serviço de alto-falante, no alto de um prédio chamado Castelo, armazém de secos e molhados na ponta do cotovelo que adentrava o rio. Santarém inteira ficava na escuta exclusivamente do que o serviço de alto-falante despejava diariamente de Luís Gonzaga a Jackson do Pandeiro, passando por Nelson Gonçalves e Núbia Lafaiete, das 7 da matina às 6 da tarde, quando encerrava suas transmissões com a ave-maria.

Enquanto isso, eu bancava o DJ, ouvia Charlie Parker, John Coltrane, Thelonious Monk, Miles Davis, Count Basie, Louis Armstrong, Dizzy Gilespie, Aretha Franklin, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, entre outros e outras.
 
Só vim saber direito quem era quem aí pelos 18 anos, já morando no Rio de Janeiro, nas sessões de jazz que o jornalista paraense José Gorayeb promovia em sua casa no bairro de São Clemente, onde me hospedei por um bom tempo.

Eram sons absolutamente familiares. Algumas músicas eu acompanhava assobiando, para surpresa da roda, formada por outros jornalistas, de formação jazzística e comunística, como Carlos Jurandir, George Cabral e José Edson Gomes. Depois eu ia dar uma conferida nos long-plays, lia uma ou outra coisa, e passava também a cagar a minha goma.
 
O rádio existia, sim. Mas na figuraça de Zeca BBC, dublê de fofoqueiro e técnico que ia de casa em casa, trajando brim-coringa, consertando ou ajustando um aparelho aqui e outro ali, parece que sem muito sucesso. Diziam à boca nada pequena que Zeca BBC tinha uma sólida reputação de não dar conta do recado.

Todo mundo tinha um problema com eles, os malditos rádios. A música que predominava era a Estática Número 5, de Chopin. E a língua arrevesada dos gringos da BBC – daí o apelido – e da Voz da América. Sem contar as porradas que os prezados ouvintes davam nos aparelhos, quando perdiam a paciência.

Palmério Dória 5: Matinês do cinema Olímpia


Perfeição era o cinema. Os fundos do cine Olímpia davam para minha casa. A tela ficava praticamente colada na parede da sala em que eu dormia, geralmente ouvindo os sons dos filmes, os diálogos ininteligíveis, a trilha sonora, os tiroteios...

Para encontrar Super-Homem, Rocky Lane, Tarzan e Hopalong Cassidy, bastava descer a minha rua e dobrar a esquina. Pagar eu não pagava, era xodó do seu Loureiro, dono do cinema, uma das figuras mais benignas do mundo. Ali, a cortina do espetáculo se abria com um toque suave da orquestra de Glenn Miller.

Se existia uma realidade era aquela. Tá certo que os chapéus dos mocinhos e bandidos não caíam nunca, mesmo na maior pancadaria, mas os óculos do pessoal do Matrix também não caem até hoje.

Eu brincava quase todas as tardes no palco do cinema. Podia levar meus amigos e tudo. Como eu dizia, a realidade era o Super-Homem em pleno voo. O que me impedia de fazer o mesmo? Botei uma toalha nas costas, amarrei as pontas no pescoço, tomei distância no fundo do palco, arremessei e aterrissei nas cadeiras da primeira fila da plateia. Uma aterrissagem forçada coroada com dez pontos no supercílio.

Era melhor encontrar um herói com os pés no chão. Ou pelo menos pendurado num cipó. Tarzan! Incorporava Johnny Weissmuller quase todo fim de tarde num igarapé de águas glaciais. Enquanto meu pai tomava as lambadas dele, eu atravessava num cipó o Uirurá, de uma margem a outra – noite alta, céu risonho, as bacantes tomavam porres homéricos nas margens do mesmo igarapé, onde hoje existe um seminário.

Para compor o personagem, mamãe cortou pra mim, na máquina Singer, uma autêntica tanga de couro de onça, que eu só tirava para dormir.

Depois, Esther Williams incendiou a minha imaginação. Passei a desejar todas as piscinas do mundo ao vê-la. Lânguida, bonita e gostosa, eletrizava a minha infância em shows aquáticos em plena Hollywood dos anos 40 e 50.

Eu desejava nadar com ela naquela piscina enorme, aristocrática, de mármore alvo do Copacabana Palace, com sheiks, reis, artistas, o mundo dando braçadas de prazer em frente ao mar estonteante de Copacabana bem perto de mim, sentado na pérgula do grande hotel, lendo as páginas de O Cruzeiro, que chegava na Pérola do Tapajós com mil semanas de atraso.

Volúvel, troquei Esther Williams por Minnie Mouse. Não me apaixonei por ela no telão, mas nas histórias em quadrinhos que eu lia na sala de projeção do cinema, naquelas tardes mornas, pegando carona na coleção do operador. E também não era aquela Minnie Mouse em roupas convencionais, mas a super-heroína voadora, de cinturinha fina, cintura de pilão.

Minnie Mouse era a minha favorita, mas estavam todas lá com seus respectivos namorados: Flash Gordon e Dale Arden, Tarzan e Jane, Fantasma e Diana Palmer, Mandrake e Princesa Narda, Super-Homem e Mirian Lane, Pato Donald e Margarida, Zorro e... Tonto.

O gap entre as gerações acabou em O Cangaceiro. Se nunca houve mulher como Gilda, nunca houve filme como esse de Lima Barreto. Toda noite era noite de ver o bangue-bangue do agreste.

De ver Milton Ribeiro lustrar os anéis – um em cada dedo – na camisa, depois de uma estilosa bafada neles. De torcer por Alberto Ruschel. De morrer de amor por Marisa Prado. De morrer de raiva da Vanja Orico. Vi O Cangaceiro umas trinta vezes, teve gente que viu muito mais. Toda vez que o caixa do seu Loureiro fazia água, o filho dele Raul dizia:

– Papai, passe de novo O Cangaceiro!

Na condição de filho do dono do Olímpia, Raulzinho protagonizou um casamento cinematográfico. De uma dessas viagens ao Rio, para garantir o nosso estoque de emoções e gargalhadas – puxadas principalmente pela dupla Oscarito e Grande Otelo, mais José Lewgoy, Eliana, Anselmo Duarte e Ankito de Caroço –, voltou com uma noiva, uma coisa de cinema, tornando-se o homem mais invejado da cidade.

Alta, clara, cabelos fartos, negros e compridos, olhos imensos, decotes abissais nos vestidos geralmente de cetim negro, muito parecida com a Jessica Rabit e a Drag Car. Além de tudo, encarnava tudo aquilo que se entendia como espírito carioca.

Adorava promover seresta no sobrado deles. Os convidados exultavam. Cada qual se esmerava na cantoria. No fundo, todos a cantavam.

No meio de uma seresta lá, a hostess pediu que seu Uchoa, que tinha quase 1 metro e 90, tirasse uma mala de cima do guarda-roupa no quarto do casal, com fotos dela no Rio, para mostrar aos convidados.

Quando se viu a sós com Laura, o pau de seu Uchoa ganhou vida própria. Enquanto erguia os braços para pegar a mala, notou um volume que ameaçava explodir a braguilha. Além do que, a calça era folgada demais e a cueca samba-canção não oferecia a menor resistência.

Passou a suar profusamente, temendo que Laura percebesse e o tomasse por um sátiro. Chegou a imaginar Laura:

1. abrindo sôfrega os botões de sua braguilha e caindo de boca;

2. saindo aos berros, gritando: “Tarado! Tarado!”;

3. e perguntando: “Todo negro tem pau grande?”.

Mas tomou uma decisão radical: deixou a pesada mala desabar em seus pés, numa autêntica cena de Carlitos. Saiu dessa com um dedo fraturado, mas com uma bitoca agradecida de Laura. Pelo sim, pelo não, comparecia agora às serestas usando suporte atlético.

quarta-feira, julho 05, 2017

Sabão, amor e fantasia


Por Edney Silvestre

Nunca me passou pela cabeça que lavar roupa pudesse ser divertido. Pudera. Sou brasileiro do interior, acostumado com tanque, varal, coradouro, e, mais tarde, transplantado para o Rio de Janeiro, às máquinas de lavar e aos secadores de alumínio em minúsculas áreas de serviços. Como poderia imaginar que existem vida, cultura e romance em alguns quilos de roupa suja? Só mesmo morando em Nova York.

Lavar roupa aqui é como ir á praia no Rio ou fazer footing na Rua dos Mineiros, a principal de Valença, onde nasci, cresci e me neurotizei: uma atividade social democraticamente partilhada, economicamente acessível, alegremente banal.

Não é uma reunião às margens do rio Hudson ou à beira do lago do Central Park, evidentemente. Mas não está muito distante de uma congregação em volta da fonte de algum vilarejo no século XVIII. Com algumas adaptações.

Conversa-se com vizinhos e desconhecidos, trocam-se novidades sobre o comércio local, marca-se programa para mais tarde ou dias – e noites, especialmente – seguintes; come-se, bebe-se, leem-se livros ou os jornais do dia; empresta-se ou toma-se emprestado sabão, detergente, água sanitária, amaciante de roupa; discute-se a qualidade das mais recentes produções estrelares na Broadway e fora dela, especula-se o que Frank Sinatra, Jerry Lewis, Julie Andrews ou Shirley MacLaine ainda são capazes de fazer em seus constantes espetáculos de despedida ou shows de retorno da aposentadoria; aplaude-se a atual segurança, limpeza e ausência de pedintes nos trens do metrô; louva-se a temperatura perfeita e os belos dias frescos deste final de primavera; trocam-se confidências e números de telefone, cochila-se, pede-se e dá-se opinião sobre assuntos tão diversos quanto a padaria que tem o melhor bagle ou se o melhor cirurgião plástico é o de Elizabeth Taulor ou o de Ivana Trump; toma-se um capuccino; sai-se para fumar e volta-se para malhar, indistintamente, Rudy Giuliani, Rush Limbaugh, Hillary e Bill Clinton. E paquera-se. Muito.

Lavar roupa em Manhattan é parte integral – e sinônimo – de inusitada festa de acasalamento. É uma festa reservada para os sábados, e começa cedo. De nove da manhã em diante, rapazes, moças e outros não tanto deixam seus apartamentos em direção às lauderettes. Não importa se o prédio onde moram tem sua própria lavanderia. Em Nova York não se lava roupa em casa. Não tem graça. Nem flerte.

Saem todos carregando sacos de plástico preto ou lona colorida, pesados com os lençóis, toalhas e roupas íntimas e públicas usadas durante a semana, numa réplica extemporânea de Papai Noel. Vestem-se com aquilo que parece ter sido a primeira coisa que encontraram ao acordar, amassado ao levantar da cama. Parece. Mas não é bem assim.

O tênis roto, a camiseta desbeiçada, o jeans ou a bermuda – se as pernas assim permitem – mais desbotada são parte de uma atitude típica do nova-iorquino chamada dressing down. Que, livremente traduzido, pode ser lido como “não estou nem aí para roupa”. Que pretende significar: se estou vestido assim é porque não estou paquerando, pois não estou sozinho (a), portanto não estou aflito(a) para arranjar um namoro. Que, na verdade, quer dizer exatamente o contrário.

Cada espécie tem seus próprios códigos no fervilhamento de hormônio que precede o acasalamento, e este não é mais singular que tantos outros. A escolha do terreno para exibição da plumagem também é importante.

Quem é casado(a) ou já tem sua/seu companheiro(a) vai às lavanderias automáticas sem maiores atrações e fica ouvindo seu walkman ou lendo alguma coisa, enquanto cada load – o monte de roupa que cabe dentro do cilindro rotativo das máquinas – é lavado (uns trinta minutos) e secado (em torno de quarenta e cinco minutos) por seis moedas de quarter, aquelas de 25 centavos de dólar, cada vez.

Solteiros(as) e esfaimados(as) buscam laundromats com maiores recursos. Máquinas de refrigerantes, por exemplo, dão chance a um “Não quer beber alguma coisa?” Bancos do lado de fora permitem comentar o tempo, pedir emprestado o protetor solar, jogar o verde de um futuro final de semana à beira da praia em Fire Island ou nos Hamptons.

Revistas e jornais grátis podem levar a comentar um filme que se deseja ver (“Ah, você não tem programa? Pois há uma sessão especial hoje, à meia-noite”), um restaurante conhecido (“Já fui/não fui; prefiro tal/os preços são um roubo”), uma trapalhada política recente qualquer (“Quem teve o irmão mais idiota: Carter, Bush ou Clinton?”), ou aonde quer que leve a imaginação.

Minha amiga Carol Asch conheceu seu atual namorado, Max, assim. Estão juntos há mais de ano e meio, desde outubro passado partilham o mesmo endereço e pretendem trocar alianças assim que ela vencer a resistência da mãe em ter um genro goy.

George e Nancy Gould, que tinham sido colegas na Columbia University nos anos sessenta e depois se perderam de vista (ele foi morar na Califórnia, ela na Carolina do Norte) se reencontraram, ambos saindo de casamentos fracassados, na lavanderia da Hudson Street, quase esquina da Rua Charles, onde vivem juntos desde 1987.

Chris e Tony, neste momento rodando pela Espanha, se falaram pela primeira vez quando o sabão líquido de um acabou e outro ofereceu sua caixa de Dash, que já tem água sanitária e amaciante de tecidos incluídos na fórmula.

Minha lavanderia favorita é a Suds, que também funciona como coffee house. Fica num subsolo da Rua 10, entre as Avenidas Greenwich e Sétima. O capuccino deles é muito bom, o espresso melhor ainda. Foi lá que comi a primeira torta de ruibarbo da minha vida.

Tem cinco mesas com cadeiras, revistas, jornais, várias opções de sanduíches e tortas, águas de diversas partes do mundo, sucos, refrigerantes. Ah, sim, no fundo tem umas dez ou doze máquinas de lavar. Não sei a quantidade certa porque nunca as contei. Nem usei.

Os sábados em que frequentei a Suds foram para bater papo com Stephen Springman, que sabe tudo sobre música alternativa e os clubes do East Village onde se pode ouvir o melhor e mais recente roquenrôl, como o grupo Beat Rodeo, que se apresenta no Ludlow Street Café nas noites de segunda.

Mas Stephen não vai mais ao Suds. Arranjou uma namorada.

Que conheceu numa pizzaria.

Um telefonema


Por Ivan Lessa

Triiim. O telefone lá em casa. “Alô”, respondi eu, em português, evitando o hello, para não parecer pretensioso caso seja um amigo íntimo que eu não vejo há mais de dez anos. Mas era, coisa rara, um inglês. Não queria falar comigo mas com minha filha.

Expliquei que estava no banho, se não queria deixar recado. Era para eu dizer que fora o Nick quem telefonara, que ligaria dentro de meia hora. Trocamos as cortesias de praxe e nos despedimos. Mentalmente, assinalei com lápis vermelho o dia e a hora do telefonema.

Aí estava: o primeiro telefonema de um homem para minha filha de 14 anos. Um homem chamado Nick. Que deve ter pelo menos 15 anos. Que ficou sabendo que minha filha estava no banho. Que ligaria mais tarde e eu ficaria sentado na sala enquanto minha filha riria – de que, meu Deus? –, riria no quarto, na extensão, com a porta fechada.

E eu sentado na sala subitamente envelhecido em dez anos assistindo ao noticiário na televisão. O mundo inteiro acendendo velinhas e pedindo para eu soprar e fazer um pedido.

Peço que o Nick seja um bom marido, e sopro a primeira velinha.

Peço que – olha, não é por nada , não –, mas que tenha alguns recursos e seja trabalhador, e sopro a segunda velinha.

Peço que tenham paciência com as aflições do amor, e sopro a terceira velinha.

Peço que desculpem o fraque alugado e meio apertado demais no dia do casamento, e sopro a quarta velinha.

Peço que me visitem no asilo pelo menos uma vez por mês aos domingos, e sopro a quinta velinha.

Peço que leiam Machado de Assis mesmo em tradução para o inglês, e sopro a sexta velinha. 

Peço que deixem segurar no colo por uns poucos minutos o neném pois eu tenho alguma experiência, e sopro a sétima velinha.

Peço que me perdoem o sotaque e o papo chato sobre os filmes antigos e que não levem a mal o disco de Bing Crosby que eu insisto em botar na vitrola e quero que eles reparem na letra, e sopro a oitava velinha.

Fiquei lá, soprando. Firme. Velho mas firme. Tomando muito cuidado para não quebrar nada nem ser quebrado.

O noticiário passou para um item sobre os anos de governo da Sra. Thatcher e as mudanças ocasionadas pela gestão. Eu me lembro que em 3 de maio de 1979 minha filha tinha quatro anos e não estou certo se ainda vigorava o carrinho que eu empurrava, quando a distância a percorrer era maiorzinha um pouco ou fazia muito frito.

Mas ela era muito pequena e eu era quase do mesmo tamanho de hoje e a Grã-Bretanha também tinha um jeitão diferente. Ou será que é impressão minha? Tudo é impressão. Minha, sua, nossa. Toda impressão deixa marcas. Chama-se de História, o catalogar ordenado de cicatrizes. E contusões.

Nos anos Thatcher, os sindicatos levaram uma traulitada e minha filha aprendeu a esquiar na neve. Nos anos Thatcher, a Argentina perdeu uma guerra e minha filha ganhou um livro de prêmio pela melhor composição.

Nos anos Thatcher, houve privatização de diversos serviços de utilidade pública, inclusive da Cia. Telefônica, o que deve ter tornado mais fácil para Nick telefonar para minha filha e convidá-la para um cinema no domingo.

Cá estou enredando minha história particular – ainda não privatizada a não ser por mim próprio –, enredando minha história destas ilhas. Mas foi a parte que me coube no calendário.

História, concluo eu, é tudo aquilo que se passou em nossa casa. Mal sabendo o que em minha casa se passou, como ousar relatar, resumir as histórias das casas de não-sei-quantos-milhões de habitantes.

Quanto ao futuro. Bem, só posso adiantar que minha filha recusou o programa com o Nick. Agora, é esperar o que vem por aí: George, James, Kevin, Clive, Tom, Bob etc. etc. etc.

Frases curiosas sobre sexo


Por Gilberto Almeida

Fique de antena ligada, porque a todo momento tem alguém falando de sexo. Já que a gente é obrigado a ouvir, reproduzimos aqui, alguns conceitos e comentários super curiosos.

PHILLIS DILLER – “Não há amor que resista quando o homem toma champanhe no sapato de uma mulher e engasga com a palmilha do Dr. Scholl.”

BARBRA STREISAND – “Porque uma mulher dá duro durante dez anos para mudar os hábitos de seu marido e depois se queixa de que ele não é mais o homem com que ela se casou?”

LORD BYRON – “Uma amante pode ser tão incômoda quanto uma esposa, quando só se tem uma.”

YVES MONTAND – “Um homem pode ter dois, talvez três casos durante o casamento. Mais do que isso é sacanagem.”

TIM MAIA – “Parei de cheirar cocaína porque sempre que cheirava me dava vontade de dar o cu”.

LUIZ FERNANDO VERÍSSIMO – “Sexo oral é muito prático porque pode ser feito, inclusive pelo telefone”.

MILLÔR FERNANDES – “Trepada adiada é trepada perdida”.

DERCY GONÇALVES – “Sempre fui feminista. Sustentei todos os homens que tive e fui traída por todos eles. Feminismo não é isso?”

SIGMUND FREUD – “O amor sexual é indubitavelmente uma das principais coisas da vida... Fora uns poucos fanáticos loucos, todo mundo sabe disso”.

A Alternativa


Por Luís Fernando Veríssimo

Envelhecer é chato, mas consolemo-nos: a alternativa é pior. Ninguém que eu conheça morreu e voltou para contar como é estar morto, mas o consenso geral é que existir é muito melhor do que não existir. Há dúvidas, claro.

Muitos acreditam que com a morte se vai desta vida para outra melhor, inclusive mais barata, além de eterna. Só descobriremos quando chegarmos lá. Enquanto isto vamos envelhecendo com a dignidade possível, sem nenhuma vontade de experimentar a alternativa.

Mas há casos em que a alternativa para as coisas como estão é conhecida. Já passamos pela alternativa e sabemos muito bem como ela é. Por exemplo: a alternativa de um país sem políticos, ou com políticos cerceados por um poder mais alto e armado. Tivemos vinte anos desta alternativa e quem tem saudade dela precisa ser constantemente lembrado de como foi.

Não havia corrupção? Havia, sim, não havia era investigação para valer. Havia prepotência, havia censura à imprensa, havia a Presidência passando de general para general sem consulta popular, repressão criminosa à divergência, uma política econômica subserviente e um “milagre” econômico enganador.

Quem viveu naquele tempo lembra que as ordens do dia nos quartéis eram lidas e divulgadas como éditos papais para orientar os fiéis sobre o “pensamento militar”, que decidia nossas vidas.

Ao contrário da morte, de uma ditadura se volta, preferencialmente com uma lição aprendida. E, se para garantir que a alternativa não se repita, é preciso cuidar para não desmoralizar demais a política e os políticos, que seja. Melhor uma democracia imperfeita do que uma ordem falsa, mas incontestável.

Da próxima vez que desesperar dos nossos políticos, portanto, e que alguma notícia de Brasília lhe enojar, ou você concluir que o país estaria melhor sem esses dirigentes e representantes que só representam seus interesses, e seus bolsos, respire fundo e pense na alternativa.

Sequer pensar que a alternativa seria preferível – como tem gente pensando – equivale a um suicídio cívico. Para mudar isso aí, prefira a vida – e o voto.

Pela emancipação do índio


Por Millôr Fernandes

Estranho que haja tanta gente contra a emancipação do índio. É inútil não ser. Não há – que eu saiba – nenhum processo mágico, quer dizer, antropológico, de evitar que um selvagem, ao ser apresentado a um facão de aço ou a um rádio de pilha, não dê um salto (de contentamento) irreversível para uma civilização muitos séculos adiantada. Depois se arrepende. Mas aí já é tarde. Tá emancipado.

Dona Margaret Mead – que inventou a antropologia das ilhas Samoa, aquela em que você faz uma teoriazinha bem maneira, bem caprichada, sobre costumes e evolução de povos primitivos e sai procurando onde encaixá-la – taí que não me deixa mentir.

Foi exatamente a morte de Margaret Mead que me lembrou de escrever esta nota. Pois, é claro, uma civilização mais “adiantada” só teria direito de emancipar o índio se desse a este exatamente o mesmo direito dos emancipadores.

No presente caso, brasileiro, o índio poderia escolher, entre os vinte e tais ministros do governo, três ou quatro que seriam também emancipados do ponto de vista indígena. Mais claramente: no momento em que os índios fossem integrados à civilização urbana, o Dr. Armando Falcão, o general Golbery e o vice-presidente Adalberto Pereira seriam obrigados a tirar a roupa e ir viver nus no meio do mato, comendo peixe moquecado, morando em maloca e obedecendo á lei do morubixaba.

Só desse modo eu estaria em acordo com a emancipação. Só assim poderíamos, dentro de alguns anos, escrever o elogio fúnebre de um índio, exatamente como se faz agora com Margaret Mead:

Juruna – 1944-2039. Morreu ontem, aos noventa e cinco anos de idade, num despenhadeiro na fronteira da Bolívia com Mato Grosso, o índio Juruna, que morreu vendendo saúde, estudou antropologia no Encosto de Jeribitibá, com os grandes mestres Aruin Kagé e Apô-Arinã Kanela.

Ganhou maior prêmio distribuído pelas tribos do Alto Xingu, o troféu Muruxuxawa, por seus dois notáveis estudos: “Relações familiares e rompimentos de parentalha no clã dos Villas Boas” e “A linguagem Cary-Yoe na  na obra do professor Darcy Ribeiro”.

Esses trabalhos de Juruna tiveram grande influência na reforma da visão indígena sobre os brancos do sul do Brasil, até essa altura considerados civilizados.

Juruna fez também o curioso ensaio crítico sobre o que o rádio transístor representa de retrocesso social em relação ao atabaque, mostrando que o atabaque comunica muito mais rápido, é menos neurotizante, não tem estática nem exige reposição de pilhas.

Em suas incursões metódicas em regiões completamente perdidas (lato senso), como São Paulo, Rio e Porto Alegre, Juruna constatou a extraordinária capacidade de sobrevivência dos nativos dessas regiões, que atingiam a espantosa média de sessenta e sete anos de vida apesar de cheirarem quilos de monóxido de carbono, comerem toneladas de poluentes e arriscarem a vida vinte e quatro horas por dia no meio de máquina mais perigosas do que mil bordunas manejadas por selvagens carijós.

Além disso, a monumental divulgação que Juruna fez das práticas sexuais de sua tribo, introduzindo-as entre as adolescentes discotecas do Rio e Salvador, se transformou num livro que, apesar de sério, é leitura altamente faz-cyi-nante (em português: “pornográfica”).

O paralelo da vida de Juruna com a de Margaret Mead chega, algumas vezes, a ser inacreditável. Durante a II Guerra Mundial, todos sabem, Margaret constatou que os habitantes da sociedade lacustre dos Manus de Peri (bombardeados pelos japoneses e ocupados pelos americanos), em apenas cinco anos, saltaram da civilização das pirongas para a dos computadores.

Num estudo genial realizado nas cidades de Hiroxima e Nagassáqui, Juruna descobriu algo antropologicamente ainda mais espantoso: uma civilização que, em apenas vinte e quatro horas, passou da era da fissão atômica para a era dos hospitais de doenças degenerativas.

sexta-feira, junho 30, 2017

Poeira de estrelas 36: Ponte Aérea I Rio de Janeiro-São Paulo


Por Luiz Carlos Miele

“Atenção, passageiros da ponte aérea com destino a São Paulo.” Não sei há quantos anos escuto essa frase dita pela voz maravilhosa de Íris Letieri, com quem, aliás, trabalhei na TV Continental, quando, acho, nem eu, nem ela, tínhamos verba para as passagens aéreas.

As primeiras viagens entre Rio e São Paulo foram feitas mesmo nos ônibus da Cometa ou Brasileiro Viação Ltda. Depois, quando as passagens passaram a ser emitidas pelas emissoras de TV ou pelos clientes dos primeiros shows é que vieram as mordomias do Electra.

Muitos anos atrás (antes do Tom Jobim ensinar que “todos os anos são atrás”), fui convidado a escrever um depoimento sobre a ponte aérea, como um dos mais assíduos usuários. É, que durante uns dez anos, trabalhei no Rio e em São Paulo, o que obrigava a necessidade de duas e às vezes três viagens semanais.

O que não fazia de mim um Mauro Salles, com quem fiquei muito impressionado. Era uma grande vocação de Ícaro, com a diferença de que Mauro não caiu, graças a Deus. Só que, enquanto eu ficava nos vôs regionais, acrescentado vez por outra um Belo Horizonte-Porto Alegre, os roteiros semanais do Mauro assinalavam Rio-São Paulo-Nova York-Brasília-Frankfurt-Ribeirão Preto-Bangcoc. Parecido com a agenda do Roberto Carlos, que em dez dias fez Rio-Nova York-Patos de Minas-Bogotá.

Os meus vôos, bem mais modestos, ficavam por conta dos programas da TV Record e, depois, pela minha participação na Mikson Tecnologia de Comunicações, que foi a maior empresa de audiovisual do Brasil e a terceira do mundo, segundo o ranking feito pelo norte-americano que tinham as duas produtoras dos primeiros lugares. Mas a Mikson chegou a uma perfeição impressionante no multivisão, conseguindo resultados formidáveis.

Tinham clientes como a GM, Fiat, Kibon, Johnson & Johnson, Kaiser, Gessy-Lever e inúmeros outros, para quem produzimos convenções memoráveis. A maioria dos clientes exigia os espetáculos dos grandes cartazes como Roberto Carlos, Simone, Gal Costa, Jorge Ben, Gilberto Gil etc, mas muitas vezes criamos temas e roteiros especiais que foram muito gratificantes para nós. Acabamos por produzir shows especiais nos Estados Unidos, Espanha, na Alemanha etc.

Na Miksom fiquei mais de 15 anos como uma espécie de diretor de criação dos eventos especiais. Os Ortalli, família dos proprietários e diretores, foram muito especiais na minha trajetória profissional. Enquanto a tecnologia avançava, eles mantinham as tradições de amizade dos italianos. O presidente continuou a se chamar seu Zeca, os filhos Carlos Augusto e Zé Francisco iam transitando pelos computadores cada vez mais sofisticados, e ele continuava como se estivéssemos nas mesmas pequenas instalações do início da empresa.

Certa ocasião, numa tarde na qual íamos receber o presidente da Ford do Brasil para uma apresentação, eu sugeri que talvez fosse providencial remover o papagaio de estimação que ficava na sala de pós-produção, proposta imediatamente rebatida por seu Zeca:

– O papagaio é do tio Nero e está conosco desde o começo. A Ford tem o seu presidente, e eu não dou nenhum palpite lá nas instalações deles.

E, assim, papagaios e computadores viveram felizes para sempre na mesma sala. Depois, a Miksom cresceu muito, e era impossível para mim continuar lá, pois a minha função exigia um profissional full-time, diariamente e desde as primeiras horas da manhã, para atender à grande demanda de produções. Mas ainda estivemos juntos no Moinho Santo Antônio, espetacular centro de entretenimento com quatro restaurantes, discoteca, sorveteria, arena de rodeios e um bar com música ao vivo (by Miele). Ficou uma grande amizade.

As amizades paulistas são muitas. Como a que tenho por muitos anos com Abelardo Figueiredo, grande produtor de espetáculos. Abelardo tem uma história que não cabe neste livro, e, por isso, o dele também já está pronto, ou quase. Vai falar de suas produções na TV, do Beco, tradicional casa de espetáculos de São Paulo, em que, durante muitos anos, os paulistas aplaudiram grandes shows. Abelardo foi a primeira pessoa que quis me colocar no palco num espetáculo que produziu no Rio de Janeiro chamado 12 Bikinis. Ele acreditava que eu podia ser um showman, mas eu não me convenci e preferi continuar apenas como assistente dele.

Na noite que antecedia a estréia, naquele nervosismo da véspera do show, fui chamado por alguém que, embora à paisana, parecia bem acostumado a dar ordens.

– Vem cá, meu amigo, você é que é responsável pelo elenco?

– Exatamente. Fala rápido que nós estamos no meio do ensaio.

– É o seguinte. Eu estou aqui para buscar a Srta. Mariela Maldonado (codinome de uma uruguaia que era a moça mais bonita do elenco). Ela tem um compromisso em Brasília e estará de volta amanhã ao meio-dia.

Sem entender, a princípio, aquele “texto” do compromisso em Brasília, eu recusei veementemente.

– Nem pensar. A estréia é amanhã. Não dá para liberá-la de jeito nenhum.

Com a mesma firmeza militar da primeira vez, ele continuou:

– Você não está entendendo, garoto. Eu tenho um jato esperando por ela na base de Santa Cruz e estou lhe informando que ela estará aqui amanhã ao meio-dia. E não há como dizer não a quem fez o convite, pois a tranquilidade da nação depende também de certos momentos de privacidade e paz. Paz e amor, naturalmente.

Informado da patente dele e da urgência do compromisso, acedi gentilmente. Realmente, no dia seguinte, ao meio-dia, lá estava ela no ensaio. Naturalmente, todos os outros 11 biquínis queriam saber dos detalhes daquela noite e eu fiquei imaginando qual teria sido o cerimonial: um primeiro drinque para relaxar, abaixar um pouco as luzes, deixando apenas a luz do abajur lilás, colocar no toca-discos uma música romântica e, então, parabadaram, parabadaram, invadem a sala os primeiros acordes do Hino Nacional Brasileiro.

Com Abelardo fiz ainda, já no palco, o espetáculo Sampa-Rio-Samba, que era exatamente essa ponte aérea. Ficamos nove meses em cartaz ao lado de Rosemary e de grande elenco. Depois fizemos também Spot Light com Miele, Ângela Maria e Lucinha Lins. Estranha mistura, não é mesmo? Mas deu certo. Grande Abelardo.


O grande pianista Pedrinho Mattar

Mais recentemente fui contratado para inaugurar uma casa chamada Café Cancun. Deveria fazer o show ao lado de Pedrinho Mattar, o mais conhecido pianista da noite de São Paulo. Mas não fomos avisados de que teríamos que disputar a atenção dos clientes com alegres e divertidas garotas da Paulicéia. Naturalmente elas tinham atributos bem mais atraentes que nossas piadas e canções, pois eu trabalhava de pé, ao microfone, Pedrinho sentado ao piano e as garotas nas mais variadas posições.

Lembro de muitas histórias de Pedrinho. Duas são particularmente elegantes. Ambas aconteceram na Baiuca, restaurante-bar que durante muitos anos foi a casa mais elegante de São Paulo.

Na primeira delas, Carmem Mayrink Veiga, então ainda Carmem Terezinha Solbiati, adentrou o bar com uma pantera negra na coleira. Carmem usava um daqueles colares maravilhosos e a outra pantera, a negra, uma coleira de pedras, espero que falsas. Carmem sentou-se elegantemente, como sempre, e a pantera ficou embaixo do piano do Pedrinho. Deve ter adorado o repertório, já que Pedrinho está entre nós até hoje.

Numa outra noite, já madrugada, apenas um cliente no bar, Pedrinho ia encerrar os trabalhos quando, para sua surpresa e emoção, entra Vivian Leigh, acompanhada por um inglês de capa de livro, ou seja, chapéu coco, bengala, colete, bigodes com as pontas reviradas etc.

Pedrinho tinha aquela lembrança dela levando o fora de Clark Gable no fim do filme famoso e atacou imediatamente o tema do filme. Mas o tal último cliente já estava para lá de Marrakesh e também de Londres. De maneira que ignorou completamente o inglês, sentou-se ao lado da estrela, botou a mão no ombro e mandou um cordial e íntimo:

– Fala, Vivian Leigh.

Em face das reclamações do acompanhante, cobriu Vivian de elogios e propostas e cobriu o inglês de porrada. Com a intervenção do leão-de-chácara, os garçons tentaram controlar a pancadaria, enquanto nossa estrela tirou os sapatos e saiu correndo pela chuva, descalça, de madrugada, pela praça Roosevelt, em São Paulo. Nunca mais se soube dela. O vento levou.

Poeira de estrelas 37: Ponte Aérea II São Paulo-Rio de Janeiro


Por Luiz Carlos Miele

“Atenção, passageiros da ponte aérea com destino ao Rio de Janeiro.” Eu sou paulista, mas, por conta das produções de O fino da bossa e do Show em Simonal, tive que ficar mais em São Paulo que no Rio de Janeiro, pois os programas eram semanais.

Durante muito tempo, os artistas que ficavam em hotel em São Paulo se hospedavam no Normandie, no início da avenida Ipiranga. Não era um hotel de cinco estrelas, muito embora hospedasse dezenas delas. Os hotéis de luxo e demais mordomias aconteceram na geração que veio imediatamente a seguir. Muitos artistas participaram dessa mutação, como Caetano, Gil, Gal etc.

Elis morava num quarto-e-sala pertinho do hotel, cheio de bonecas, as que cabiam no pequeno apartamento. E já era líder do programa mais famoso de música brasileira. Os artistas brasileiros ainda não conheciam as listas que determinavam as dezenas de itens que hoje provêm os camarins.

As listas foram copiadas dos contratos dos artistas americanos e fizeram o maior sucesso. Eu participei da geração anterior e, no início do culto dos superstars, ficava muito surpreso ao me deparar com aqueles pedidos.

Hoje apenas me divirto, mas lembro como eram os pedidos para os camarins de Tom Jobim, Elizete Cardoso ou Dorival Caymmi, por exemplo: algumas doses de uísque, café, biscoito cream-cracker, água, um cinzeiro.

Relação do camarim de qualquer estrela atual (Pop-Sertaneja-Pagodeira-do Samba ou do Axé): duas garrafas de uísque (Black Label ou Old Rarety), três garrafas de vinho Maison de la Frescure-Safra 1996 tinto (resfriado), três garrafas de vinho branco no balde de gelo (já abertos), oito toalhas (quatro brancas e quatro pretas), sabonetes (um Dove e um Soapex-medicinal), papel higiênico (menos o Neve), uma garrafa térmica com café sem açúcar, uma garrafa térmica com café previamente adoçado, uma garrafa térmica com chá (aliás duas, sem açúcar e adoçado), uma TV em cores (com canais de TV a cabo), três linhas telefônicas (uma delas bloqueada, não podendo receber ligações), uma mesa de massagens (só a mesa, o personal massage é “personal”), duas garrafas de champagne Don Perignon (fechadas), biscoitos (integrais), frutas (da estação), salgados e frios (relação à parte, sujeita a alteração dependendo de uma ou mais apresentações). E, caso se trate de uma dupla, a produção providenciará duas listas diferentes.

De qualquer maneira, a ponte aérea me transportou de uma geração para outra. Ida e volta. Logo que cheguei ao Rio, depois de uma temporada difícil no Catete e em Laranjeiras, fui finalmente levado a Ipanema e ao bar Jangadeiro. Foi como se eu houvesse entrado num filme em que todos os figurantes eram famosos.

Nas mesas, como quaisquer mortais, estavam Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Luiz Bonfá, Rubem Braga, Glauber Rocha, Tonia Carreiro, Cesar Thedin, Marcos Vaconcelos, Jaguar, Ziraldo, Sergio Ricardo, Ronaldo Bôscoli, Albino Pinheiro, Sergio Bernardes, Caio Mourão e talvez mais umas dez ou quinze pessoas que não tinham saído (ainda) em fotos na primeira página dos jornais.

Isso foi numa terça-feira, pensei que era aniversário de alguém, mas a moça que tinha me levado garantiu que era toda tarde assim. E a noite mais ainda, é lógico. Fiquei fascinado com essa democrática aproximação com a “inteligência” carioca. Em São Paulo, você não encontrava o equivalente cultural paulista tão disponível no bar da esquina.

Como eu tinha vindo para a TV Continental, que não tinha uma grade completa de programação, passei a produzir um programa chamado Documentários de Arte. A cada semana levava alguém dessa “turma do bar”. Isso fez com que eu fosse imediatamente “adotado” por aqueles que eram os meus ídolos.

Marcos Vasconcelos, que citei no início, foi o mais importante deles. Excelente arquiteto, desenhista de humor do primeiro time, eventual compositor – escreveu para João Gilberto e Elis a letra de Samba da pergunta (“Ela agora, mora só no firmamento ou então no pensamento”) e, com seu parceiro Pingarilho, compôs ainda Samba de Rei e outras músicas – escritor de fino e raro humor (publicou Brasil, a marca da Zorra), era uma das figuras mais queridas e respeitadas pelos seus pares. Mas, de maneira estranha, foi o único deles cujo talento não ultrapassou os limites de Ipanema e do Rio de Janeiro.

Marcos ficava honestamente preocupado com minha ansiedade em tentar realizar o meu show, ou produzir em espetáculo de teatro ou dirigir um grande programa de televisão ou tentar o cinema, sem, na verdade, conseguir naquela época nenhum resultado. Sua tentativa de fazer com que eu me decidisse e me dedicasse efetivamente a uma dessas atividades se traduziu numa crônica que ele publicou no Caderno B, depois de me avisar pela manhã, pelo telefone:

“Olha aí, ô Miele, compra o Jornal do Brasil e presta atenção no recado”.

A crônica tinha o seguinte título, “A D’Ugo Miele – Um Bicho Tem Sete Cabeças” e contava a história de um empresário que procurava o dono do circo:

– O senhor é o dono do circo? Pois eu tenho uma atração especial.

– Todo dia me oferecem uma atração especial. Qual é a sua?

– Eu tenho um bicho que tem sete cabeças.

– Sei. E daí?

– Como, e daí? É um bicho com sete cabeças. Todas vivas.

– OK, tudo bem. Mas o seu bicho anda no arame?

– Não. Já disse, meu bicho é espetacular porque tem sete cabeças.

– Isso eu já entendi. Mas seu bicho é um palhaço, diverte as crianças, salta no trapézio, doma os leões?

– Não, não faz nada disso, mas tem sete cabeças. Isso não faz dele uma atração especial?

– Não. E não me interessa. Seu bicho tem muito talento, mas não tem aptidão.


O cineasta Paulo Cesar Saraceni, ícone do cinema marginal

Ainda sob o impacto do texto do Marcos, recebi um convite surpreendente do Paulo Cesar Saraceni para ser diretor de produção do filme Porto das Caixas, que se tornou um dos marcos do Cinema Novo.

Sarra tinha voltado da Europa premiadíssimo com seu documentário Arraial do Cabo, que havia realizado junto com Mario Carneiro, que seria também o diretor de fotografia de Porto das Caixas. Quando respondi que nunca havia feito cinema, além de algumas dublagens, o Sarra respondeu: “É isso que eu quero. Gente nova, com vontade de fazer.”

E foi com esse tesão, e talento é claro, que com pouquíssimas e precárias condições, ele realizou esse e outros filmes muito importantes.

Certa vez, recebi no Rio de Janeiro um diretor americano do qual não lembro o nome. Fui o cicerone para aqueles programas tipo ensaio da Mangueira. O americano havia dirigido Tai Pan e Pássaros feridos e havia sido diretor da segunda parte de Funny girl.

Mostrei o filme do Sarra para ele, que gostou muito, ficou impressionado com o material (nenhum) que o Mario Carneiro havia utilizado para algumas cenas de interiores. Perguntou quanto o filme havia custado e, quando eu disse, ele contou que com aquela verba, que era a verba total do filme, havia rodado uma cena de exatamente quatro minutos com a Barbara Streisand e o Omar Shariff.

“Atenção, passageiros da ponte aérea com destino ao Rio de Janeiro. Informando que, a partir dessa página, as histórias de Luiz Carlos Miele não obedecerão a nenhuma ordem cronológica.”

Pois bem, depois dessa aventura junto à turma do Cinema Novo, veio afinal o encontro com Ronaldo Bôscoli e o Beco das Garrafas, o que narrei em outro momento do livro. Lembro de alguns detalhes do apartamento na rua Otaviano Hudson.

Houve um tempo em que Ronaldo abrigava, além de Chico Feitosa, um rapaz chamado Luiz Carlos Dragão, pois soltava fogo pelas ventas, e este locutor que vos fala. Chico era um dos titulares da cama de casal. Mas não havia nada entre eles. Eram apenas bons parceiros. Como na canção famosa, É fim de noite, que deu ao Chico um dos mais charmosos e boêmios apelidos do Rio de Janeiro, “Chico Fim de Noite”. Charmoso e mentiroso, pois ele dormia antes da meia-noite, só ganhou o apelido por causa da canção.

Só havia a tal cama de casal. E um sofá. Acredito que foi nesse sofá que João Gilberto dormiu durante algum tempo. Usava o sofá e também algumas peças de roupa do Ronaldo. A suéter da foto da capa do seu primeiro disco era do Ronaldo. Tem também a história dele cantando O pato para Ronaldo, às quatro da manhã, que o Ruy Castro conta em seu livro Chega de saudade. Para mim, sobrou a história do sofá.

Quem chegasse mais cedo, eu ou Dragão, dormia na estrutura do sofá. O retardatário, nas três almofadas do mesmo, que a gente colocava no chão. Agora, tentem dormir em três almofadas. Cada parte do corpo fica numa delas, de maneira que, durante a noite, a bunda vai para um lado, a cabeça para outro e as pernas para uma terceira posição. Assim que a Debora Colker experimentar, teremos uma nova e maravilhosa coreografia.

O mais excitante do quarto-e-sala era o fato de que o banheiro ficava dentro do quarto do Ronaldo. Quer dizer, quando ele tinha alguma cliente no lugar do Chico, que, providencialmente, havia sido expulso para a casa dos pais, pintava o problema da ocupação do banheiro, por mim e pelo Dragão. Mas Ronaldo adorava a molecagem de embaraçar a namorada daquela noite:

– Ô Miele, pode passar para o banheiro que ela não vai reparar. Lembra dela, não lembra? Você conheceu lá no show do Tito Madi.

Era muito divertido e também muito embaraçoso. Ainda mais porque o único cobertor era todo queimado de ferro que usávamos para passar nossas camisas e que, invariavelmente, esquecíamos ligado. Ficava todo esburacado, de modo que se tornava difícil para a moça cobrir todas as partes. Muitas futuras capas de revistas encararam aquele cobertor.


As socialites Diana Vianna e Anna Maria Tornaghi

Um pouquinho depois dessa fase... bem, a aeromoça já avisou que a cronologia dançou, não foi? Houve época do Jovem Flu. Eu, Ronaldo, Nelsinho Motta, Carvana, João Albuquerque, Leonam, Paulo Cesar de Oliveira e Otavio Afonseca frequentávamos o bar das cadeiras sociais do Maracanã, vendo inclusive o jogo. Otavinho já se foi, seu falso mau humor faz uma falta danada. Ele casou com Anna Maria Tornaghi, viramos compadres e amigos para sempre.

Num dos meus aniversários, Anna preparou em sua casa uma verdadeira festa de arromba para mim. Eu levei o conjunto que fazia o show, liderado pelo Aécio Flávio. A lista de convidados da Anna Maria foi a mais divertida que eu já vi. Artistas, a turma da sociedade, jogadores de futebol, modelos, maus exemplos, tinha de tudo, como convém a uma festa bem produzida. É claro que surgem “diálogos impossíveis”, como o de Nélson Cavaquinho e o ministro Severo Gomes.

– Nélson Cavaquinho, meu querido. Eu sou um grande fã de suas músicas e de seu talento. E me preocupo com a batalha de vocês. Sei como é difícil e sacrificada a vida do artista em nosso país.

– Pois olha, doutor Severo, o senhor vai me desculpar, mas eu já acho que, no Brasil, ser ministro é que é foda.

Ninguém sabe organizar uma festa como a Anna Maria. No Brasil, ou lá fora. E ninguém sabe como ela estar em vários lugares ao mesmo tempo. Uma vez, em Nova York, um brasileiro deslumbrado começou a pegar no pé dela, que não aguentou e sugeriu:

– Meu amigo, não chateia. Vai ver se eu tô na esquina.

O chato foi, ela estava na esquina.

Mas é campeã. Lá em Nova York, ela me ofereceu outra festa de aniversário.

– Obrigado Anna. Mas nós estamos em agosto, meu aniversário foi em maio.

– Mas aqui ninguém sabe, Miele. Pode convidar umas vinte pessoas para jantar, que eu garanto uma boca-livre.

A tal boca-livre foi simplesmente no Plaza, que eu já achava caro para um jantar, eu e Anita, quanto mais para vinte convidados.

– Miele, não esquenta, dá cem dólares para o maître e deixa comigo.

Quem tem amigos como Anna Maria não morre pagão. E janta no Plaza.

De NY pego de volta uma ponte para o Rio e caio nos braços de Cesar Thedin. Um abraço ao mestre com carinho. Cesar namorou algumas das mulheres mais interessantes do Brasil. Casar, achou que só casou com Tonia Carreiro. Segundo ela, melhor amante e pior marido do Brasil.

Viveu grandes romances, um deles com Leila Diniz. Ela, maravilhosa, fazia no Rio um show cujo título era Tem Banana na Banda, no Teatro Aurimar Rocha. Depois de um dos espetáculos, lá pela meia-noite, pegou o seu fusquinha e foi sozinha, guiando até Cabo Frio, só para dormir com o César.

Naquele tempo, a estrada era péssima e foi uma aventura para chegar até lá, ainda mais para quem tinha que voltar no dia seguinte para o show. Chegou finalmente e, graças a Deus, encontrou o Cesar dormindo sozinho. A chegada dela foi uma festa, é claro. Emocionado com o rali que ela havia feito, ele não quis ficar por baixo, já que daqui a pouco iria ficar por cima.

A casa era na beira do canal de Cabo Frio, Cesar mergulhou às quatro da manhã, pescou uma lagosta com o arpão, preparou e  serviu com champagne etc. Foi o filme, ou não foi? As opiniões da turma se dividiram.

– Que mulher, heim. Guiar daqui até Cabro Frio de madrugada. Só a Leila mesmo.

– Tá certo – comentavam as outras garotas, invejosas. – Mas, e ele? Mergulhar àquela hora e preparar a lagosta...

Tempos depois, Cesar me confessou:

– Rapaz, a história da lagosta deu tanto ibope que eu passei a manter um viveiro em baixo d’água com três ou quatro de plantão. Cada mergulho, um flash.

Amigos, amigos. Negócios à parte? Nem sempre. Já trabalhei mais que uma vez com Ricardo Amaral e, mais do que amigo, eu virei seu fã. Chegamos a pensar em escrever um livro juntos, mas se eu consegui reunir algumas histórias, calculem o Ricardo.


O Rei da Noite Ricardo Amaral com sua inseparável Gisela

Fiz vários shows na pioneira Sucata, no Hippopotamus, no Metropolitan. Certa ocasião, ele me chamou a Paris, pois estava estudando a possibilidade de abrir no Rio o Crazy Horse e eu iria dirigir os shows. Fui sozinho, era trabalho, Anita ficou no Rio. Quando cheguei, o prestígio do Ricardo e do seu Clube 78 podia ser medido por uma foto do Regine, até então rainha da noite parisiense. Na foto, ela estava muito abatida, a cabeça entre as mãos e os pés dentro de dois baldes de gelo. E a legenda era a seguinte:

– Regine está desolada, Monsieur Amaral chegou a Paris.

A despeito de todas as notas que comentavam o sucesso de Ricardo por lá, fiquei boquiaberto com a verdade, “ao vivo”. A mesa dele (no La cage d’or) ficava cercada como uma espécie de tenda até ele chegar no clube. Então, com seu tradicional “alô, alô”, ele ia recebendo Liza Minelli, Soraya, Pierre Cardin, Andy Warhol e Luiz Carlos Miele. Como, além de tudo, ele colocou uma Mercedes com motorista à minha disposição, no segundo dia, lembrei que o pecado mora ao lado e, antes que batesse a meia-noite e eu virasse abóbora, liguei correndo para Anita:

– Meu bem, vem logo que eu estou morrendo de saudade.

Gisela já estava lá, é claro. Ave, Gisela. Tão generosa, amada, mas amada pra valer. Gisela adora seus amigos, suas obras sociais etc. Antes da abertura do Metropolitan, Ricardo me avisou:

– Miele, capricha na produção da missa, que dona Gisela mandou benzer a casa.

Peter Gasper, cenógrafo e iluminador, premiado, fez uma cruz linda de acrílico, efeitos especiais, fumaça etc... e a missa foi no palco, ainda em fase de acabamento. Acho que, empolgado com a cenografia, o padre, depois de uma emocionante pregação, agradeceu a Deus e a outros seus superiores, como o empresário Ricardo Amaral, que criava ali mais um campo de trabalho para várias pessoas e agradeceu também a Fiat, à companhia de cigarros Souza e ao uísque JB. Amém.

Mestre também na arte de fazer amigos, outra grande figura da noite é Flavio Ramos. Uma de suas mais famosas foi o Au Bon Gourmet, onde se realizou o memorável encontro de Tom, Vinicius, João Gilberto e Os Cariocas.

– Tom, e se você fizesse agora uma canção para celebrar a nossa união?

– Olha, ô Joãozinho, eu não poderia sem Vinicius para fazer a poesia.

– Para essa canção se realizar só com o João para cantar.

– Ah, mas quem sou eu, eu sou mais vocês.

– Que tal se nós cantássemos os três?

– Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...

Flavio realizou outros shows memoráveis e tinha também a boate Jirau. Da madrugada, perto da hora de fechar, avisava aos poucos retardatários:

– Daqui para frente é todo mundo meu convidado, mas, em compensação, só vou colocar as músicas que eu quiser.

O que representava um grande lucro para os fregueses, pois ele possui uma das maiores discotecas de música americana que eu conheço. Sócio durante algum tempo de um restaurante em Los Angeles, foi íntimo do Sinatra, Sammy Davies e outros cantores sertanejos.

Uma noite apareceu lá no Beco, com Jimmy Van Hoisen, letrista do Sinatra e proprietário de um clube chamado Vila Capri, em Los Angeles. Queria levar a Bossa Nova para lá e foi ver e comprar o show de Simonal, Marly Tavares e Bossa 3. Mas, segundo ele, só havia um problema:

– É o seguinte: eu tenho um sócio muito chato, que vai querer empurrar a esposa dele para participar do show. Tem que dar um jeito dela dançar um inúmero.


A estrela hollywoodiana Cyd Charisse

O sócio era um cantor-canastrão chamado Tony Martin e a esposa, Cyd Charisse, dona das pernas mais talentosas e bonitas de toda a história do cinema americano, que dividiu musicais com Fred Astaire e Gene Kelly.

É claro que prometi a ele que ia tentar quebrar esse galho, mas o show não saiu. Parece que a Cyd Charisse estava disponível, mas o Bossa 3 tinha compromissos em Teresina e não deu para conciliar.

Será que essa história aconteceu assim? Bem que eu avisei no começo do livro que, com o passar do tempo, a gente vai colocando um champignon em cada história, a cada vez que conta. Na segunda edição dessas memórias, provavelmente já vou estar dançando e transando com Cyd Charisse.

Numa noite especial, a Jirau promoveu o lançamento de um compacto com Irene Singery. A música era These boots are make for walking, que havia sido gravada anteriormente por Nancy Sinatra, filha do homem. Foi um grande sucesso, mas as cópias que vieram ao Brasil se esgotaram e naquele tempo era difícil a reposição. João Araújo, presidente da Som Livre, tinha ouvido Irene cantar em uma festa e convidou-a para gravar. Foi no coquetel de lançamento que eu a conheci. Ela se apresentou:

– Você que é Miele da dupla Miele & Bôscoli? Pois vocês têm que me contratar imediatamente. Eu canto, danço. Sei que sou bonita e gostosa, divina e maravilhosa.

E era mesmo. Impressionado com aquele charme e descontração, falei dela para o Ronaldo e no dia seguinte fomos procurá-la para fazer um show ao lado do Lennie Dale, que era a grande sensação da noite carioca.

Ela concordou:

– Está bem, eu faço o show, mas quero ganhar a mesma coisa que ele.

– Mas o Lennie é uma estrela. Você vai começar agora.

– Pode ser. Mas quem vai lotar a casa sou eu. Todo o Rio de Janeiro elegante vai querer me ver.

E foi assim mesmo. Todo mundo queria ver a condessa descalça. Descalça, mas com os pés no chão. Irene fez vários programas de televisão, gravou um disco nos Estados Unidos com produção do Aloysio de Oliveira e arranjos do Oscar Neves. Depois, casou e mudou. Mudou para a ilha da Piedade, que ela transformou pessoalmente num centro de lazer maravilhoso. Tanto que foi durante algum tempo a Ilha de Caras. Quando a Irene achou que a ilha estava ficando com mais cada da revista, em vez de “ilha da Irene”, acabou com a festa. Quer dizer, com “aquela festa”, pois onde Irena estiver, ali é a festa.

Ela me convidou para fazer com ela a festa do cinquentenário do Country Clube, onde é figura queridíssima, e me abriu a porta da frente da sociedade carioca, na qual fiz amizades maravilhosas.