terça-feira, agosto 11, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 11

 


11. Se dona Sílvia havia perdido a fé na Polícia de Choque, outro morador da rua Dr. Martins Santana ainda acreditava que as forças da ordem eram capazes de resolver o problema dos pagodeiros do Morro da Liberdade. 

O nome dele era Franciner Pinto. Empresário respeitado, dono de uma famosa padaria da vizinhança e pai do futuro diretor de bateria Clemilton Pinto, da Mocidade Independente de Aparecida, que também foi “peara” do bumbá Garantido, de Parintins.

Mas, naquele tempo, Franciner tinha uma convicção inabalável: a culpa de tudo era do samba. Se vendia pouco pão, era o samba. Se faltava cliente, era o samba. Se queimava uma fornada de pão francês, provavelmente também era o samba. Na cabeça dele, a roda de pagode montada pelos meninos da rua já havia se transformado numa espécie de organização criminosa especializada em espantar fregueses.

Até que, num sábado particularmente barulhento, Franciner perdeu a paciência. Pegou o telefone e acionou a Polícia Militar. Dessa vez, pensou ele, a bagunça acabaria. O que ele não sabia era que São Pedro também havia resolvido participar da história. Pouco depois da denúncia, caiu sobre o Morro da Liberdade uma chuva tão forte que parecia prestação atrasada do inverno amazônico. Era água por cima. Lama por baixo. E vento vindo de todos os lados.

Qualquer pessoa normal teria ido para casa. Mas pagodeiro não é exatamente uma pessoa normal. Ao perceber que o temporal não dava sinais de trégua, a turma tomou uma decisão estratégica de altíssimo nível intelectual: comprar uma caixa de Caninha 51.

A logística era simples. Havia apenas um copo. Um único copo. Daqueles de vidro grosso que um dia já haviam abrigado azeitonas e agora serviam à coletividade. O cidadão tomava uma lapada de cachaça, fazia uma careta capaz de assustar um curupira e passava adiante. Era praticamente um sistema cooperativo de aquecimento humano.

A chuva aumentava. A pinga circulava. E o samba melhorava. Foi nesse ambiente de elevada sofisticação cultural que surgiu um Fusca da Rádio Patrulha. Lá dentro, três policiais observavam a cena. O soldado motorista baixou um pedaço do vidro. Só um pedaço. Porque ninguém é doido de abrir a janela inteira numa tempestade daquelas. E começou a chamar um dos pagodeiros. Ninguém ouviu. Ou melhor: ouviram e fingiram que não.

O segundo soldado insistiu. Recebeu exatamente a mesma atenção que um poste recebe durante um desfile de carnaval. Então entrou em ação a autoridade máxima da viatura. O cabo. O homem ajeitou o revólver no coldre, respirou fundo, abriu a porta e mergulhou na chuva. Atravessou a rua sob o vendaval decidido a colocar ordem na situação. Não conseguiu dizer uma única palavra. Antes mesmo de abrir a boca, Jairo Beira-Mar anunciou para toda a roda:

– Ei, pessoal! Esse aqui é o cabo Macaxeira, o rei da caixinha de guerra! Traz uma pra ele mostrar serviço! E capricha na pinga porque ele é dos nossos!

O cabo foi pego tão de surpresa que não teve tempo nem de negar. Recebeu a dose. Virou. Recebeu a caixinha. Tocou. Recebeu outra dose. Virou. Recebeu aplausos. Gostou. Na terceira dose já estava sorrindo. Na quarta, já estava dando opinião sobre andamento de samba. Na quinta, provavelmente já se considerava fundador honorário do grupo. Pouco depois, Macaxeira retornou à viatura.

Os outros policiais imaginavam que finalmente viriam as prisões. As advertências. Talvez até alguma multa. Mas o cabo tinha outros planos. Chegou à janela e decretou:

– Avisa pro comando que a ocorrência foi resolvida!

– Resolvida, cabo?

– Resolvidíssima!

– E agora?

– Agora desliga esse rádio e vem pro pagode que o pessoal aqui é sangue-bom!

Os soldados não discutiram. Em menos de dois minutos, os três estavam completamente ensopados, dividindo o copo de azeitona, cantando refrão, batucando na caixinha de guerra e ajudando a transformar uma operação policial numa confraternização etílico-musical. Naquela noite, a única coisa que a Polícia Militar conseguiu reprimir foi a sobriedade.

Quanto a Franciner, observando tudo de longe, teve uma revelação dolorosa. Descobriu que existiam duas forças impossíveis de combater naquele bairro: o samba. E, claro, a cachaça. 

Depois daquele dia, nunca mais depositou grandes esperanças na polícia. Afinal, quando os agentes da lei terminam a ocorrência tocando percussão e pedindo mais uma rodada, fica difícil acreditar na eficácia do Estado.

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