11. Se dona Sílvia havia perdido a fé na Polícia de Choque, outro morador da rua Dr. Martins Santana ainda acreditava que as forças da ordem eram capazes de resolver o problema dos pagodeiros do Morro da Liberdade.
O nome dele era Franciner Pinto. Empresário respeitado,
dono de uma famosa padaria da vizinhança e pai do futuro diretor de bateria
Clemilton Pinto, da Mocidade Independente de Aparecida, que também foi “peara”
do bumbá Garantido, de Parintins.
Mas, naquele
tempo, Franciner tinha uma convicção inabalável: a culpa de tudo era do samba.
Se vendia pouco pão, era o samba. Se faltava cliente, era o samba. Se queimava
uma fornada de pão francês, provavelmente também era o samba. Na cabeça dele, a
roda de pagode montada pelos meninos da rua já havia se transformado numa
espécie de organização criminosa especializada em espantar fregueses.
Até que, num
sábado particularmente barulhento, Franciner perdeu a paciência. Pegou o
telefone e acionou a Polícia Militar. Dessa vez, pensou ele, a bagunça
acabaria. O que ele não sabia era que São Pedro também havia resolvido
participar da história. Pouco depois da denúncia, caiu sobre o Morro da
Liberdade uma chuva tão forte que parecia prestação atrasada do inverno
amazônico. Era água por cima. Lama por baixo. E vento vindo de todos os lados.
Qualquer pessoa
normal teria ido para casa. Mas pagodeiro não é exatamente uma pessoa normal.
Ao perceber que o temporal não dava sinais de trégua, a turma tomou uma decisão
estratégica de altíssimo nível intelectual: comprar uma caixa de Caninha 51.
A logística era
simples. Havia apenas um copo. Um único copo. Daqueles de vidro grosso que um
dia já haviam abrigado azeitonas e agora serviam à coletividade. O cidadão
tomava uma lapada de cachaça, fazia uma careta capaz de assustar um curupira e
passava adiante. Era praticamente um sistema cooperativo de aquecimento humano.
A chuva
aumentava. A pinga circulava. E o samba melhorava. Foi nesse ambiente de
elevada sofisticação cultural que surgiu um Fusca da Rádio Patrulha. Lá dentro,
três policiais observavam a cena. O soldado motorista baixou um pedaço do
vidro. Só um pedaço. Porque ninguém é doido de abrir a janela inteira numa
tempestade daquelas. E começou a chamar um dos pagodeiros. Ninguém ouviu. Ou
melhor: ouviram e fingiram que não.
O segundo
soldado insistiu. Recebeu exatamente a mesma atenção que um poste recebe
durante um desfile de carnaval. Então entrou em ação a autoridade máxima da
viatura. O cabo. O homem ajeitou o revólver no coldre, respirou fundo, abriu a
porta e mergulhou na chuva. Atravessou a rua sob o vendaval decidido a colocar
ordem na situação. Não conseguiu dizer uma única palavra. Antes mesmo de abrir
a boca, Jairo Beira-Mar anunciou para toda a roda:
– Ei, pessoal!
Esse aqui é o cabo Macaxeira, o rei da caixinha de guerra! Traz uma pra ele
mostrar serviço! E capricha na pinga porque ele é dos nossos!
O cabo foi pego
tão de surpresa que não teve tempo nem de negar. Recebeu a dose. Virou. Recebeu
a caixinha. Tocou. Recebeu outra dose. Virou. Recebeu aplausos. Gostou. Na
terceira dose já estava sorrindo. Na quarta, já estava dando opinião sobre
andamento de samba. Na quinta, provavelmente já se considerava fundador
honorário do grupo. Pouco depois, Macaxeira retornou à viatura.
Os outros
policiais imaginavam que finalmente viriam as prisões. As advertências. Talvez
até alguma multa. Mas o cabo tinha outros planos. Chegou à janela e decretou:
– Avisa pro
comando que a ocorrência foi resolvida!
– Resolvida,
cabo?
–
Resolvidíssima!
– E agora?
– Agora desliga
esse rádio e vem pro pagode que o pessoal aqui é sangue-bom!
Os soldados não
discutiram. Em menos de dois minutos, os três estavam completamente ensopados,
dividindo o copo de azeitona, cantando refrão, batucando na caixinha de guerra
e ajudando a transformar uma operação policial numa confraternização
etílico-musical. Naquela noite, a única coisa que a Polícia Militar conseguiu
reprimir foi a sobriedade.
Quanto a Franciner, observando tudo de longe, teve uma revelação dolorosa. Descobriu que existiam duas forças impossíveis de combater naquele bairro: o samba. E, claro, a cachaça.
Depois daquele dia, nunca mais depositou grandes esperanças na
polícia. Afinal, quando os agentes da lei terminam a ocorrência tocando
percussão e pedindo mais uma rodada, fica difícil acreditar na eficácia do
Estado.
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