terça-feira, agosto 11, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 13

 


13. Fevereiro de 1985. O carnaval carioca fervia, as escolas desfilavam, os sambistas sambavam e a TV Globo, sempre atenta à oportunidade de transformar qualquer imprevisto em televisão de qualidade duvidosa, colocava sua repórter Maria Lúcia Rangel no meio da avenida para colher depoimentos espontâneos – essa perigosa modalidade jornalística em que ninguém sabe o que vai sair da boca do entrevistado. 

Foi então que surgiu ela: Neuzinha Brizola. Ou melhor, uma versão de Neuzinha que parecia estar recebendo sinais de rádio diretamente de Saturno.

Filha de Leonel Brizola, então governador do Rio de Janeiro, cantora de rock e protagonista frequente das colunas policiais, Neuzinha já possuía uma reputação capaz de causar palpitações em qualquer assessor de imprensa. Naquela noite, porém, resolveu elevar o padrão.

Maria Lúcia aproximou o microfone da moça, que dançava com a desenvoltura de quem havia feito um acordo particular com a gravidade.

– Essa moça dançando aqui do meu lado é Neuzinha Brizola, que caiu no samba de maneira total. Neuzinha, o samba é melhor que o rock?

Neuzinha respondeu praticamente de costas, talvez porque estivesse ocupada demais conversando com entidades invisíveis:

– É difereeeennntee!... Tô achando lindooooo... Tô choraaaando... Tá me emocionaaaaando...

A resposta não esclareceu absolutamente nada, mas produziu um excelente material televisivo.

A repórter insistiu.

– E você está torcendo por alguma escola?

– Tô torcendo por toooodaaaas... É difereeeennntee!... Tô achando lindooooo... Tô choraaaando... Tá me emocionaaaaando...

Naquele momento, qualquer jornalista experiente teria entendido que a entrevista já havia entregue tudo o que tinha para entregar. Mas a televisão ao vivo possui uma característica semelhante à dos filmes de terror: os personagens sempre tomam a decisão errada.

Maria Lúcia avançou.

– Mas tem alguma que você gostou mais do que as outras?

– Nãããããooooo... Tô curtindo toooodaaaas... É difereeeennntee!... Tô achando lindooooo... Tô choraaaando... Tá me emocionaaaaando...

A essa altura, o público já havia percebido que Neuzinha não estava exatamente respondendo perguntas. Ela parecia funcionar como um disco arranhado movido a emoção, repetindo as mesmas frases em loop enquanto navegava por dimensões que o restante da humanidade desconhecia.

Em algum lugar da transmissão, um diretor de TV provavelmente começou a esfregar as mãos. Porque a entrevista reunia tudo que a televisão adora: celebridade, constrangimento, imprevisibilidade e uma vítima incapaz de perceber que estava sendo transformada em espetáculo nacional.

O resultado foi devastador. No dia seguinte, milhões de brasileiros já tinham assistido à cena. Neuzinha virou assunto de botequim, de escritório, de fila de banco e de mesa de almoço. Se a intenção era apenas registrar uma foliã curtindo o carnaval, a operação fracassou. Se a intenção era produzir uma das entrevistas mais constrangedoras da história das transmissões carnavalescas e ainda deixar o governador Leonel Brizola com vontade de desligar a televisão na tomada, então foi um sucesso retumbante.

A Globo conseguiu aquilo que todo programa de auditório sonha alcançar: encontrar uma pessoa completamente incapaz de dar uma resposta coerente e, mesmo assim, mantê-la no ar pelo máximo de tempo possível.

E Neuzinha, sem querer, acabou produzindo uma obra-prima involuntária do surrealismo televisivo brasileiro: uma entrevista inteira resumida a três frases, uma emoção incontrolável e uma guerra sem vencedores entre o samba, o rock e a lucidez.

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