7. Com a oficialização dos desfiles, em
1935, a prefeitura resolveu adotar aquilo que durante décadas havia perseguido.
É um comportamento bastante conhecido da história nacional: primeiro o poder
público combate, depois regulamenta, por fim, distribui subsídios e tira
fotografia ao lado.
A partir de
1952, as escolas de samba passaram a funcionar formalmente como sociedades
civis, com sede, diretoria, regulamentos e eleições. O samba, que antes era
tratado como caso de polícia, agora produzia atas, relatórios e assembleias.
Talvez tenha sido o momento em que a burocracia finalmente aprendeu a sambar.
Os desfiles
também ganharam uma estrutura cada vez mais sofisticada. Na frente vinha o
abre-alas, pedindo passagem. Logo atrás, a comissão de frente, representando a
diretoria e tentando convencer o público de que tudo estava sob controle.
Depois
apareciam pastoras, mestre-sala, porta-bandeira, destaques, bateria, alas
coreografadas e carros alegóricos. Era uma combinação improvável de ópera
popular, procissão pagã, desfile militar, espetáculo teatral e reunião de
condomínio. E, contra todas as probabilidades, funcionava.
Tudo girava em
torno do samba-enredo, responsável por contar histórias nacionais, lendas,
personagens históricos e episódios que muitos brasileiros só descobriam existir
quando eram cantados por cinco mil pessoas vestidas de paetê.
Até 1932, as
escolas simplesmente percorriam as ruas acompanhadas pelo povo. Então alguém
teve a ideia que mudaria tudo: transformá-las em competição. Como todo
brasileiro sabe, basta transformar qualquer atividade em competição para que
ela deixe de ser apenas diversão e passe a ser assunto sério.
Naquele ano, o
jornal Mundo Esportivo organizou o primeiro desfile na Praça Onze. Participaram
dezenove escolas. A vencedora foi a Mangueira (foto). No ano seguinte, o jornal O
Globo assumiu a promoção. A Mangueira venceu de novo.
Em 1934, foi
criada a União Geral das Escolas de Samba. E a Mangueira venceu mais uma vez.
Durante algum tempo, o campeonato das escolas de samba apresentou um formato
bastante simples: várias escolas participavam e a Mangueira ganhava.
Somente em 1935
a prefeitura percebeu o enorme potencial turístico daquele espetáculo. A partir
daí, o desfile deixou de ser apenas uma festa popular para se tornar um produto
cultural cuidadosamente promovido.
A primeira
campeã da nova fase foi a Portela, ainda usando o nome Vai Como Pode – uma
expressão que resume com impressionante precisão não apenas a história daquela
escola, mas talvez a própria história do Brasil.
O modelo deu
tão certo que se espalhou pelo país inteiro. Quase inteiro. Salvador e o
conjunto Recife-Olinda olharam para aquilo tudo e responderam algo muito
próximo de: “Muito bonito, parabéns pelo regulamento, pela comissão julgadora e
pela contagem de pontos. Agora saiam da frente porque o trio elétrico está
passando”.
E assim o
carnaval brasileiro seguiu seu destino, dividido entre duas vocações igualmente
nacionais: a necessidade de organizar a festa e o desejo permanente de bagunçar
qualquer organização.

Nenhum comentário:
Postar um comentário