Pesquisar este blog

segunda-feira, maio 18, 2009

Modama tem coquetel de lançamento


A Companhia de Dança Corpo e Movimento, em parceria com o Serviço Social da Indústria (SESI Amazonas) e o Serviço Social do Comércio (Sesc), promove nesta terça, às 13h, no hall do Auditório Gilberto Mendes de Azevedo, sede do SESI/AM, coquetel de lançamento da 14ª edição da Mostra de Dança de Manaus – Modama, que será realizada de 3 a 7 de junho no Largo São Sebastião, Centro.

Reconhecido como o maior evento ligado à dança no Amazonas, a Modama reúne grupos de todos os estilos e gêneros, do balé clássico à dança de rua. Nos cinco dias da mostra, os grupos e companhias apresentam-se com coreografias de até 5 minutos. Além dos espetáculos, a mostra contará com oficinas e seminários sobre dança.

Durante o coquetel de lançamento, estarão à disposição da imprensa amazonense as coordenadoras Ana Mendes e Lia Sampaio, a primeira como coordenadora geral do evento e a segunda como coordenadora do seminário “A Trajetória da Dança no Amazonas”.

Também estarão presentes representantes dos parceiros da Modama 2009, entre eles, o SESI Amazonas, o Sesc, a Secretaria de Estado de Cultura (SEC), Universidade do Estado do Amazonas (UEA), oficineiros e apoiadores.


Evento: Coquetel de lançamento – Modama 2009
Local: Auditório Gilberto Mendes de Azevedo – sede do SESI Amazonas, na Avenida Joaquim Nabuco, 1919, Centro
Data: 19 de maio de 2009, às 13h

MOSTRA ETNODOC


PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL

Mostra de 15 filmes etnográficos realizados no país, escolhidos em concurso nacional entre 466 projetos apresentados e produzidos em 2008, que serão exibidos em Manaus no período de 19 a 22 de maio de 2009, no horário das 19 às 21:30h

A Mostra Etnodoc em Manaus, contará com a presença de dois dos 15 realizadores, Gavin Andrews, do Amapá e Andrea Tonacci, de São Paulo, que participarão, com outros convidados, dos debates programados após a exibição dos filmes.

LOCAL: CAUA - Centro de Artes Hahnemann Bacelar /UFAM

Rua Monsenhor Coutinho,724 – Centro

Entrada franca

Outras informações:

8121-9841
coletivodifusao@gmail.com

quinta-feira, maio 14, 2009

Mas o que querem os gays?


Texto do Grande Mestre da AMOAL paulista Reinaldo Azevedo

No clipping desta madrugada, vocês encontram trecho de uma reportagem da Folha que informa que a União quer classificar programas de TV com “conteúdo homofóbico”. Não é preciso ser um gênio para perceber que já se começa a trilhar o terreno da censura.

Eu me oponho a qualquer forma de ação do estado que limite a liberdade de expressão — inclusive a dos idiotas. E que cada um arque na Justiça com o peso do que disser. É tudo muito simples.

Sou freqüentemente acusado de sionista por conta das minhas opiniões sobre os conflitos israelo-palestinos, por exemplo. Os mais tresloucados estão convencidos de que sou um agente do Mossad. Pois é. Mas acho bobagem que se proíba, por exemplo, a publicação de livros que neguem o Holocausto.

A proibição faz com que celerados como Ahmadinejad mobilizem a cabeça oca conspiratória dos imbecis: “Se é proibido negar, então é porque eles têm medo da verdade”. Entenderam? Os tolos têm de ser combatidos à luz do dia.

“Ah, então ações concretas contra grupos raciais ou minorias devem ser permitidas?” O quê? Intimidação? Não! Devem ser contidas com o uso da polícia mesmo. Cana nos vagabundos! Ademais, cumpre não confundir o revisionismo, por mais estúpido que seja, com incitação ao ódio. Adiante.

Há programas humorísticos de TV que fazem troça de homossexuais? Há. Mas também fazem pilhéria dos gordos, dos magros, dos feios, dos bonitos, dos doentes, dos saudáveis... ALIÁS, NENHUMA CATEGORIA, SE ASSIM POSSO CHAMAR, É MAIS HUMILHADA E DISCRIMINADA, HOJE EM DIA, NOS PRODUTOS DA INDÚSTRIA CULTURAL, DO QUE O QUE EU CHAMARIA DE HOMEM MÉDIO!

Pobre do coitado que for um desses trabalhadores que fazem tudo certinho, que pagam os impostos, que seguem as leis, que cuidam da sua família, que têm uma existência, digamos, banal. É logo tratado como um medíocre, um bobalhão, que é até ruim de cama.

Há um filme na praça que não vi e não vou ver, um desses caça-níqueis com atores de TV, chamado Divã. Falo do que dá para perceber no trailer. Pela pegada se percebe o tamanho do gigante. Uma mulher de meia-idade — casada com um desses maridos chatos que gostam de assistir a jogo de futebol na TV, apenas regulamentar na cama, sem grandes arroubos — decide cair na farra. E descobre o mundo.

É a versão para as massas do “bovarismo”. Emma Bovary, como sabem os que leram, quebrou a cara. As Emmas da cultura de massa são bem-sucedidas: encontram a felicidade na era da psicanálise de revista entre feminina e feminista. Basta pôr chifre no marido, que um horizonte se abre... Preconceito? É. Um preconceito da correção política.

O que há fazer nessa guerra de valores? Ora, que cada um brigue pela sua verdade. Mas podemos perfeitamente bem deixar o estado fora disso. Afinal, o que querem os gays? Um aparato repressivo que proíba as piadas consideradas indesejadas? O mesmo devem fazer as outras chamadas “minorias”? Viveremos numa sociedade em que todos patrulham todos, transformando o humor em manifesto político?

Pergunto: um homossexual poderá ser acusado de homofobia se chamar um outro homossexual de “veado” (ou “viado”, na versão popular)? Nas novelas e filmes, os gays deverão ser apresentados sempre como exemplos de caráter virtuoso? O mau-caratismo passará a ser uma prerrogativa apenas dos heterossexuais? Ou ainda: os heterossexuais têm o direito de reclamar das caricaturas que se fazem do “machão”, sempre meio bronco e de raciocínio curto?

O politicamente correto é a mais detestável das formas de censura porque exercida por pessoas que se querem dotadas de valores humanistas superiores. Acreditam, como os inquisidores, que estão perseguindo pessoas para o bem da humanidade e até dos próprios perseguidos. Rezavam enquanto o corpo do pecador ardia. Estavam crentes de que tinham acabado de vencer mais uma luta contra o demônio ao libertar aquele corpo.

Le vie en rose


Esse ano, o meu aniversário e o do meu primo Carlos Alberto (“Cazuza”), filho da saudosa tia Maria, irmã do papai, coincidiu com o Dia das Mães (minha mãe, Celeste, faleceu em 1978).

Como os meus sobrinhos João Ricardo (filho da Simone) e Simão Neto (filho da Selane) também haviam aniversariado no meio da semana, a gente resolveu celebrar tudo junto. Esse era o pretexto oficial.

O pretexto oficioso: o Mário Dantas descobriu minha paixão por vinil e resolveu me presentear com um aparelho de som da Panasonic, novinho em folha, que ele tinha guardado em casa há 15 anos – um dos primeiros modelos a trazer tanto o toca-discos de vinil como o CD-Player. A festa foi pra batizar o aparelho e, de quebra, encarar uma tartarugada.

Em virtude de a tartaruga ser grande, mas não ser “duas”, o fuzuê ficou restrito ao pessoal da família e a meia dúzia de amigos (Engels, Palheta, Jânio, Suhellen, Mocinha, Bia, Áureo, Raoni, etc). Os quituteiros Samdu e Comandante se encarregaram de preparar o quelônio e todos os pratos (guisado, sarapatel, picadinho, cozido e farofa) receberam nota dez dos jurados (Mário Dantas, Engels e Nelson).

Eram, no máximo, umas 40 pessoas. Ainda assim, elas detonaram 20 caixas de Skol em lata, duas garrafas de Red Label (eu e Simas, de testa), quatro grades de Antarctica, duas garrafas de conhaque, duas garrafas de cachaça de cabeça e seis garrafas de vinho. Fala sério, mas vão beber bem assim lá na BICA!

Como o Simas esqueceu de levar os discos de vinil, tivemos que improvisar uma audição em MP3, que incluiu clássicos do rock (Led, Deep, Beatles, Stones), do funk (James Brown, George Clinton, O’Jays, Con Funk Shun), da discotéque (Boney M., Chic, Sylvester, Kool & The Gang), da house (Larry Levan, Knuckles, Marshal Jefferson, Farley Jackmaster), do electro (Basement Jaxx, Armand Van Helden, Daft Punk, Fatboy Slim) e o diabo a quatro. Os vizinhos devem ter pirado.

A zoeira começou às 10h da manhã e só acabou às 10h da noite. O aparelho de som, no volume máximo, agüentou a porrada sem chiar, durante 12 horas seguidas. O bicho é bom. Em compensação, o tocador de MP3, que o Nelson havia comprado no começo do ano, deu “tilt” antes das três da tarde e só não foi direto pra lata de lixo porque ainda está na garantia. Já não se fazem produtos eletrônicos como antigamente.

No próximo domingo, se não chover, nós vamos finalmente experimentar o toca discos de vinil. Como a rapaziada não agüenta mais nem o cheiro de tartaruga, vamos voltar ao velho cardápio de sempre: mutum, anta, capivara, paca, tatu. Cotia não, que tem gente que não agüenta “reima”. Ê mundão cheio de novidades, sô!


Os aniversariantes da semana: Cazuza, eu, João Ricardo e Simão Neto


Eu e meu neto mais novo, Vinicius, filho do Marcelo, irmão gêmeo do Marcel


Nelson fazendo o primeiro teste de degustação (depois desse pré-aquecimento, ele encarou os cinco pratos, individualmente)


O clã masculino dos Pessoa: Diego (filho da Silene), Charles (marido da Mika), Márcio (meu filho), Simão Pai, Marcel (meu filho), João Ricardo, Marcelo, Vinicius, eu, Cazuza, Bruno (filho da Silane) e Simas. Ausentes: Pablo (irmão do Diego), Junior e Simão Neto (filhos da Selane), Gabriel e Ícaro (filhos do Simas), Marcus Vinicius (meu filho) e Mathews (meu neto, filho da Maíra). Os faltosos serão multados.


Eu e Jânio B. Good se preparando para dar uma aula de funk dos anos 70


Cazuza e Simas, ambos já levemente embriagados


O passo dos elefantinhos ao som de “Superfreak”, do Rick James

quarta-feira, maio 13, 2009

Da série “Vale a pena ler de novo”: Paris era uma festa!


Vinha então o mau tempo. Surgia sempre que não havia bom tempo. À noite fechávamos as portas, as janelas e a boca de Ezra Pound e o vento gelado desnudava as árvores da Place Contretemps. As folhas ficavam deitadas umas ao lado das outras e o vento jogava a chuva de encontro à vidraça embaçada do Café des Auteurs.

Era um café alegre, excelente serviço, repleto de escritores do bairro, americanos todos, cada um alegando ser mais perdido do que o outro, sempre bêbados, cheirando mal e aborrecendo os franceses. Eu não saía de lá. As mulheres de porre eram chamadas de prostitutes que quer dizer poetisas de vanguarda.

O Café des Auteurs era a cloaca da rue Moustarde, maravilhosa, pequenina, apinhada de gente. Eu não saía de lá. A privada parecia um quadro de Magritte. Eu não saía de lá. Toda a tristeza da cidade, quando chovia e ventava, assim como se concentrava no Café des Auteurs.

Ou talvez fosse a presença do falecido Verlaine, sempre na mesma pose, na mesma mesa de fundo, uma taça de absinto na mão esquerda, uma pena na direita, uma réplica em tamanho natural de Toulouse-Lautrec sobre a cabeça putrefata.

A rua Moustarde era de um negro malhado e sinuoso. Abdul M’Saka, acho que era seu nome. Vivia do pedágio que cobrava de escritores americanos no exílio. Eu gostava de sua inventividade, seu desplante, seus lábios grossos como saucissons pintados por Vlaminck.

Fazia frio e eu não tinha o que botar na lareira para queimar. Andei pelas ruas passando pelo Lycèe Louis XVIII, a velha igreja de St.-Braque-le-Riche, a Place du Santos Dumont, sempre varrida pelos ventos, garis e crianças soltando aviões de papel, dobrei à direita, dobrei à esquerda, dobrei à direita novamente e, finalmente, dobrei à frente do coitado do Scotty que, após uma pequena conversa, concordou em me ceder a Zelda para pôr na lareira.

Com Zelda debaixo do braço, desci o Boulevard St.-Michel, passando por Cluny, atravessei o Boulevard St.-Germain até chegar a um café razoável perto da Place St.-Michel. Era um café agradável, com um jeito de limpeza e calor humano, pelo menos sempre que Pascin ou Ford Maddox Ford, dois canalhas, possivelmente homossexuais, lá não se encontravam.

Coloquei minha capa molhada e Zelda no cabide e pedi um café au lait. O garçom trouxe e eu puxei um livro de notas do bolso e comecei a escrever sobre Michigan, uma vez que chovia, ventava, e todo mundo, ao redor, falava francês.

Escrevi sobre a mocidade, a meia-idade, a velhice e a morte até que um garçom, bem diferente daquele que me atendera, veio me avisar que, a qualquer momento, os alemães entrariam em Paris, e se eu não ia querer mais nada, uma vez que eles estavam para fechar e já se haviam passado dezoito anos desde que eu me sentara.

Peguei minha capa ainda molhada, algo que me parecia ser Zelda, e fui para casa me sentindo bem, uma sensação agradável percorrendo meu corpo e meu espírito. Depois descobri que era Zelda.

Passei por Gertrude Stein, Alice B. Toklas, Modiglianni, Sylvia Beach, James Joyce, D. H. Lawrence, Jean Cocteau, Picasso, Man Ray, Isadora Duncan, Tristan Tzara, Francis Picabia, André Breton, Stravinsky, um homem parecido com Dostoiévsqui e o marechal Goering. Todos perdidos, todos invertidos.

Sempre que terminava um conto ou um livro eu me sentia cansado, esfomeado, barbado, sujo e mal-cheiroso. Principalmente se o conto, ou livro, me levara 18 anos de trabalho. Eu tinha sempre que fazer amor logo depois. Mas eu ainda não sabia se o conto ou livro prestava. Só saberia uns 10 anos depois quando relesse. Mas antes eu tinha que fazer amor.

– Eu acho uma idéia maravilhosa – disse Hadley, minha mulher.
– A do livro?
– Não. A outra.
– Fazer amor?
– Não.
– Zelda?
– Também não.
– Qual?
– Você ficar 18 anos sentado num café perto da Place St.-Michel.
– Ah.

Quando duas pessoas realmente se amam e uma dessas pessoas sou eu e a outra é uma mulher, quando os dois estão contentes, trabalhando, amando, bebendo, falando mal dos outros, trabalhando, amando, bebendo, falando mal dos outros, essas pessoas atraem outras pessoas como o cheiro de sangue atrai os espanhóis à arena, os escritores à guerra, os críticos a um livro que eles não entendem. Quando chegam essas outras pessoas, há uma porção de pessoas. Muito mais do que havia antes.

E é por isso que nós todos fomos a Paris, na década de 20. Paris não termina nunca e a lembrança de cada pessoa que viveu em Paris é diferente uma da outra.

Nós sempre voltávamos a Paris, não importavam as mudanças, as dificuldades, os turistas brasileiros. Paris sempre valia a pena e o capital nela investido sempre rendia juros.

Mas é assim que Paris era antigamente quando éramos todos pobres e muito felizes e meu nome era Ernest Hemingway e eu ainda não tinha botado a boca no cano da carabina e espalhado meus miolos pela sala inteira.


(By Ivan Lessa, no semanário Pasquim, circa 1978)

A riqueza cultural da música negra


Leidiane Montfort

Há exatos 121 anos a princesa Isabel assinava a Lei Áurea, libertando do cativeiro milhares de homens, mulheres e crianças. A tão sonhada liberdade física abria então a porta para uma outra parte dessa história de luta sofrida dos negros por direito a uma vida digna, menos humilhante, respeitosa e cidadã.

Segundo dados do IBGE, até o ano que vem a maioria dos brasileiros será de negros, pela primeira vez na história do país. A renda deles, no entanto, vai ser igual a da população branca somente no ano de 2040, isto é, daqui a 31 anos! Atualmente, recebem em média, 53% da renda dos brancos.

Na esteira dessa luta a arte permeou o choro, o banzo, a indignação e a esperança. Marcas fortes na cultura e principalmente, na música popular brasileira fizeram com que as terras tupiniquins ouvissem, falassem e dançassem essa música forte, linda, cheia swing e impregnada de história.

O swing africano aportou pelas bandas de cá com a vinda dos escravos que trouxeram na bagagem instrumentos musicais como o Ganzá, Puíta ou Cuíca e o Tabaque ou Atabaque, entre outros. Estes instrumentos são quase todos de percussão exclusivamente rítmica, que servem a combinações de ritmos que fazem com que os resultados sejam sons dinâmicos, incisivos e viscerais que emocionam e dão um gingado próprio a qualquer canção.

Essa importante influência negra na musica brasileira fez com que esta se transformasse em uma das mais ricas e com maior diversidade do planeta. Se não fosse o povo africano que aportou no Brasil para sofrer em cativeiro infortúnios de toda ordem não teríamos a oportunidade de penetrar e incorporar toda a riqueza cultural vinda do continente longínquo. Contudo, o preço para essa inserção da cultura negra em nossos costumes foi muito alto e cruel, mas o que dela temos hoje é um patrimônio inestimável, e de beleza única.

Tudo isso só foi possível graças a obstinação e a resistência dos africanos em não deixar que suas matrizes culturais fossem perdidas da convivência cotidiana de nossa sociedade impondo-a com muita luta a sua penetração e adquirindo ao longo da história o lugar de destaque que hoje muito nos orgulha. Dessa contribuição temos no caso da musica popular o samba como a sua maior representação.

É importante ressaltar que o Brasil mesmo conservando a sua integridade cultural sempre esteve aberto a sofrer influencias de outros povos e a incorporá-las ao nosso acervo artístico subtraindo dessas manifestações alienígenas apenas a forma mas enriquecendo-a com um conteúdo nosso, desse modo tudo o que aqui se produz ou se produziu acaba tendo uma conotação verde amarela.

Um exemplo dos que se mostram como fiéis a identidade da música nacional e à raça do swing é o rapper carioca MV Bill, que baseia seus discos e samplers em produções feitas no Brasil, com músicas de Tim Maia e Djavan por exemplo, ou nos atabaques afro-brasileiros que pontuam as produções.

"Nossa música é rica demais para que os rappers do Brasil afora fiquem sampleando James Brown, Isaac Hayes e demais nomes do funk americano. Sou um colecionador de rap do mundo todo, tenho coisas de rap russo, asiático, alemão e francês, e percebi que todos eles fazem rap com própria identidade, com elementos da própria cultura", aponta o ativista e fundador da Central Única das Favelas-Cufa.

Para ele, cada vez mais os brasileiros podem se honrar da música que é produzida no Brasil, principalmente a chamada "música negra", seja qual for o estilo musical escolhido.

"A verdade é que você, e todo brasileiro, tem sangue crioulo, tem cabelo duro, sarará crioulo", canta Sandra de Sá, exaltando a formação étnica brasileira multicolorida. Sandra é um dos grandes expoentes da música negra no Brasil. Assim como Pixinguinha, Cartola, Martinália, Jair Rodrigues (considerado precursor do rap), Racionais Mcs, Luis Melodia, Jorge Ben, Tim Maia, Seu Jorge e muitos outros nomes e histórias de sucesso na música, fora os que indiretamente contribuíram para o crescimento da variedade e diversidade de ritmos brasileiros e/ou importados.

De nítida influência africana, o samba nasceu nas casas de baianas que seguiram rumo ao Rio de Janeiro no início do século passado. A consolidação de seu estilo com grandes nomes, de maioria composta por cantores e compositores negros que viviam nos morros antigos, encontra força revigorante no final dos anos 20, que é quando desponta a geração do Estácio, fundadora da primeira escola de samba. O samba, maior base da MPB, gerou derivados, como o samba-canção, o samba-de-breque, o samba-enredo e, inclusive, a bossa nova, entre outros.

A madeira vestida de arte


Israel Conte
Especial para A CRÍTICA

O pátio da extinta serraria São Jorge na avenida Sete de Setembro foi para Afonso Lacerda como uma sala de aula. Lá, em meio ao pó de serragens e pedaços de madeira que Afonso começou a dar os primeiros passos na arte da marchetaria, um trabalho que incrusta ou embuti pedaços recortados de madeira para formar figuras ou paisagens em quadros. A técnica pode também ser utilizada para construir objetos tridimensionais, esculturas, utilitários, joias. Afonso se define um autodidata.

“Eu fiz dois trabalhos sozinhos e coloquei para vender. Um japonês comprou e disse que aquilo que eu fazia era marchetaria. Quando cheguei em casa procurei o significado no dicionário e confirmei. A partir de então comecei a pesquisar mais sobre esta arte para desenvolvê-la melhor” , conta o artesão.

Com 25 anos de carreira, Afonso já produziu exatos 826 quadros exclusivos, dos quais 807 já foram vendidos. Entre os seus clientes estão o jogador Ronaldo, o empresário Bill Gates, a atriz Demi Moore e a ex-premier da Inglaterra Margareth Thatcher . “Ronaldo comprou meu quadro numa exposição em Milão e o deu de presente para Rivaldo. A Margareth e a Demi gostaram do meu trabalho quando o viram no Ariaú. E Bill Gates levou para os Estados Unidos o quadro “Deusa das Águas”, comenta.

Espécies

Afonso é um dos 11 marcheteiros do mundo que produzem quadros com mais de 20 tipos de madeira. Além disso é recordista mundial por usar em seus quadros até 33 tipos diferentes de madeira. “No total tenho no ateliê 72 espécies de madeira, sendo 26 da região e 46 trazidas da África e de outros Estados brasileiros. Detalhe: todas são legalizadas”, faz questão de afirmar.

Quem observar os quadros de Afonso vai notar a preferência por temas regionais. “Abro a janela do meu quarto de manhã e tenho toda a inspiração que preciso para fazer meus trabalhos”, diz o artesão. Lendas, o povo indígena e monumentos locais como o Teatro Amazonas. O mercado Adolpho Lisboa e a Alfândega também têm lugar na sua arte.

Garantia

Afonso traz informações a mais em cada quadro. “Na parte de trás eu sempre coloco o histórico do que foi embutido e ainda os tipos de madeira que foram usados”, fala o artesão. Os quadros também têm garantia de dez anos. “Já imaginou se depois de dois ou três anos, pelas condições de temperatura ou por outra razão, as peças do quadro começam a cair? A pessoa não me compra mais e nem indica”, comenta. Até agora Afonso não recebeu nenhuma reclamação.

Exposição

Afonso embarca para São Paulo na primeira semana de julho para representar o Amazonas na Mostra Brasil. “A partir de agora vou explorar temas mais universais como orquídeas, mas sem perder a essência indígena como por exemplo, embutindo máscaras e rituais indígenas ” conclui.


(publicado no jornal A Crítica, em 13 de maio de 2009)

NOTA: Afonso é um dos conselheiros da Associação Esportiva Jovens Livres, da Cachoeirinha, e irmão do sindicalista Carlos Lacerda, diretor Regional Norte da CNTM.

sábado, maio 09, 2009

O Perigoso


Em março de 1990, quando a economista Zélia Cardoso de Mello e sua equipe receberam a missão de consertar a política econômica, o País estava à beira da hiperinflação.

O Banco Central era forçado a girar diariamente uma dívida pública de US$ 60 bilhões. Se esse dinheiro saísse do mercado financeiro em direção ao mercado de bens e serviços, corria-se o risco de haver uma explosão de preços.

Por isso, o Banco Central oferecia juros cada vez mais altos e, assim, os credores do governo continuavam a financiar a dívida. Uma autêntica bola de neve.

Foi essa a justificativa do bloqueio de 65% dos ativos financeiros decretado por Fernando Collor de Mello assim que assumiu a Presidência da República.

O Plano Collor exigiu dezenas de medidas provisórias, resoluções e portarias. O Congresso “engolia” tudo. O programa impôs uma recessão que reduziu o PIB em 4% em menos de um ano de governo.

Aos “descamisados” aclamados na campanha collorida restou assistir ao empobrecimento do País.

Dez meses depois de lançar um plano econômico antiinflacionário que resultou em 20% de inflação ao mês, o governo resolveu começar tudo de novo, editando o Plano Collor 2, em fevereiro de 1991.

Nesse momento, porém, o combate à inflação ficou na dependência das políticas tradicionais.

Preços e salários foram congelados, o governo suprimiu algumas siglas que serviam para orientar a atividade econômica como o BTN e criou outras, como a TR.

A recessão se agravou, o desemprego cresceu e a inflação, apesar de tudo, voltou a acelerar-se.

O saldo positivo desse período ficou por conta das reformas. Iniciou-se um programa de abertura comercial, mexeu-se na política de informática e estimulou-se o poder de competição da indústria. Enfim, mudanças compatíveis com a política liberal prometida na campanha de Collor de Mello.

O curto reinado de Zélia Cardoso de Mello foi marcado pelas turbulências. Zélia adicionou nada menos de 26 novas atribuições a seus poderes e somou confrontos com parlamentares, empresários, trabalhadores, ministros e credores externos.

O romance com o então ministro da Justiça, Bernardo Cabral, colaborou no processo de desgaste da ministra, mas a gota d'água para a queda de Zélia foi o confronto com o secretário de Desenvolvimento Regional, Egberto Batista.

Zélia derrubou uma portaria na qual Baptista entregava à Suframa o poder de conceder cotas de importação além dos limites estabelecidos pelo Ministério da Economia.

O embaixador brasileiro em Washington, Marcílio Marques Moreira, foi escolhido para substituir Zélia.

O “romance que abalou o Planalto” começou discreto, com Zélia e Bernardo apenas se insinuando e se encontrando às escondidas.

Nesta época, nem o próprio Fernando Collor sabia ou sequer desconfiava do relacionamento dos dois.

Tempos depois, quando ambos não tinham mais como esconder o fato, resolveram contar ao presidente que estavam namorando. Collor definiu muito bem o fato: “É nitroglicerina pura”.

O namoro teria constrangido o presidente por envolver adultério: o ministro era casado e não teria demonstrado a intenção de se separar de sua mulher.

Em setembro de 1990, durante a festa de aniversário de Zélia, realizada na badalada Academia de Tênis de Brasília, o romance tornou-se público: jornalistas do Estadão, já desconfiando que havia algo entre os dois ministros, foram à festa e presenciaram uma tórrida dança entre Zélia e Bernardo, ao som de “Besame Mucho”, que durou 15 minutos.

Os dois rodopiaram pelo salão, de rosto colado, com Bernardo alisando carinhosamente a “poupança” da ministra.

Depois de uma matéria de primeira página sobre o aniversário, o caso repercutiu de maneira estrondosa e, em outubro, Bernardo Cabral entregou sua carta de demissão ao presidente, após uma fritura que todo o país acompanhou.

Antes, porém, várias outras histórias rechearam o episódio, entre elas, o bilhete trocado pelo casal em que Cabral descrevera a saia curta de Zélia como “deliciosa”.

Os dois pombinhos ainda voltariam a se encontrar em dezembro, em Paris. Lá pelas tantas, Bernardo Cabral falou pra Zélia que ia ao dentista fazer um tratamento de canal, mas que voltaria logo.

Do hotel em que ambos estavam hospedados, ele foi direto para o aeroporto Charles de Gaulle, onde embarcou para o Rio de Janeiro, deixando a ministra inconsolável.

A presepada foi contada no livro “Zélia, uma paixão”, considerada a pior obra escrita pelo saudoso Fernando Sabino.


Em 1996, Bernardo Cabral resolveu disputar uma das duas vagas para o Senado.

Numa de suas viagens pelo interior, ele desceu do barco numa comunidade do rio Badajós e começou a visitar os moradores.

Dois caboclos começaram a seguir o ex-ministro a distância. A cada morador que se aproximava, um deles apontava o beiço em forma de “bico” para Bernardo e advertia:

– Perigoooooso...

O outro fazia a mesma coisa:

– Perigoooooso...

No início, Bernardo Cabral achou engraçado, mas lá pela décima quinta vez ele ficou de saco cheio e resolveu interpelar os capiaus:

– Que história é essa de perigoso? Vocês sabem quem eu sou?...

– Claro que nóis sabe – disse um deles. “O sinhô é o diputado federau Bernado Cabrau e foi rilatô da constituini de 88”

– É, e foi miniztru do Colo... – avisou o outro.

– E daí? E o que isso tem de perigoso? – contra-atacou Cabral.

– Ulha, diputado, se o sinhô foi capaiz de inrabá uma miniztra, qui dirá noiz, qui é tudo bestin, bestin...

– É, diputado – acudiu o outro. “Nóis num vira as costas pro sinhô é cum nojo...”

Aí, fazendo o beiço em forma de “bico” arrematou:

– Perigoooooso...

O certo é que mais perigoso do que nunca, Bernardo Cabral foi o senador mais votado do pleito.

sexta-feira, maio 08, 2009

Presentaço de aniversário. Sorry, periferia!


Hoje pela manhã, o simpático carteiro aqui do bairro me fez uma bela surpresa: me entregou um pacote enviado pelo companheiro Mouzar Benedito contendo o seu mais recente trabalho, publicado pela Editora Lumiar, com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo - Proac Programa de Ação Cultural 2008.

O livro foi lançado no mês passado, no Canto Madalena, o bar da Tita, na Rua Medeiros de Albuquerque, 471, na Vila Madalena, claro.

De quebra, o presente veio com uma singela dedicatória:

“Ao amigo Simão Pessoa, com saudade das Antárticas no Bar do Armando, um romance que não é só ficção, relembrando os tempos em que a ditadura começava a balançar. Um abraço do Mouzar. SP.maio/09.”

Como o velho pajé das Alterosas não sabe que aniversario domingo, ele só pode ter parte com o “fute” pra me fazer tão bela surpresa. Valeu, diabo branco!

Ainda não comecei a ler essa sua nova obra prima, porque isso exige rigor, astúcia e disciplina, que nem um prato fumegante de sarapatel. Mas reparto com vocês o texto da “orelha”:

Tal qual um quebra-cabeça que se compõe à medida em que suas peças são colocadas, este livro se constrói de pequenas histórias, como bilhetes deixados na geladeira de uma república.

Aqui, vários amigos, tendo Valadares à frente, dividem o mesmo teto, algumas mulheres, problemas e sonhos em comum, formando um rico painel da Vila Madalena e do país nos anos que antecederam à redemocratização.

É a época em que surge o PT, presos políticos são libertados, o Brasil joga, mas não ganha no futebol, os hippies envelhecem, mas um pouco de seu ideário resiste nas jovens cabeças revolucionárias.

Valadares, jornalista de esquerda, bom bebedor de cachaça e militante por vocação, vive causos inusitados em companhia de seus companheiros e companheiras de militância, mesa de bar e farra.

O dia-a-dia de uma típica casa da Vila Madalena vira cenário para situações burlescas neste folhetim bem humorado de Mouzar Benedito, autor que domina como poucos a arte de contar histórias curtas.

Em “João do Rio, 45”, essas histórias ganham vida pela narrativa de uma personagem inusitada: a própria casa, cujas paredes teimam em ouvir tudo o que se fala e se cochicha. E ela tem cada história para contar...


Mouzar Benedito, jornalista e geógrafo, é mineiro de Nova Resende. Quinto entre os dez filhos de um barbeiro e uma dona de casa, ex-professora rural, nasceu em novembro de 1946. foi engraxate, aprendiz de barbeiro e de seleiro, caixeiro, calculista, técnico em contabilidade, pesquisador de cultura popular, professor, tradutor de teatro e de livros, etc.

Trabalhou ou colaborou em cerca de trinta jornais e trinta revistas. Participou da fundação dos jornais Versus e Em Tempo e colaborou em vários outros jornais alternativos. Tem 18 livros publicados e participou de três coletâneas.

Casado com Célia Talavera, sem filhos, vive em São Paulo desde os 16 anos de idade.

Resumindo a ópera, Mouzar é um desses amigos (e o poeta Marco Gomes pode confirmar) que inspirou o também mineiro Milton Nascimento a escrever Canção da América:

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir

Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam "não"
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

Curtindo a vida adoidado


Parece que foi ontem, mas foi há duas semanas. Atendendo a um simpático convite do prefeito Antonio Peixoto (PT), de Itacoatiara, fui prestigiar o aniversário do município e aproveitar a oportunidade para coletar novos causos do folclore político da região. O esquema? Boca livre total, comme il faut.

A gente saiu de Manaus na sexta-feira 24, por volta das 14h. No volante do EcoSport do Simas, o Mário Dantas, que não bebe, não fuma, não cheira, não ouve música sertaneja (fundamental, em viagens de longo curso) e conhece a perigosíssima estrada Manaus-Itacoatiara como a palma da mão.

Paramos rapidamente no Posto Equatorial, no marco zero, para abastecer o carro de gasolina e nos abastecer de cervejas em lata. Mário Dantas limitou-se a comer um sanduba de galinha e beber uma coca-cola. É o parceiro ideal, na medida em que não dá despesas com cachaçadas.

Calculei que 45 latinhas dariam para a gente (eu, Simas e Áureo Petita – conhecido na Velha Serpa como “Áureo Barqueiro”) agüentar até Lindóia, já que não pretendíamos fazer pit stop no Rio Preto da Eva. As latinhas acabaram no Km 150, a meia hora de Lindóia. Uma tristeza!

Chegamos à Velha Serpa por volta das 17h e, como soe sempre acontecer nessas ocasiões, o nosso cicerone (Fernando Jerry Nelson) havia sumido da cidade. Depois de meia hora de ligações disparadas para vários amigos, localizamos o cantor Ewerton Pastor, que estava envolvido com a passagem de som no palco da fuzarca.

Na maior boa vontade, Pastor nos levou ao hotel Saint Martin, onde, supostamente, ficaríamos hospedados. Quando começamos a descarregar as tralhas, o gerente da baiúca veio explicar que o hotel estava lotado, só havia um quarto vago.

Por problemas de saúde, o poeta Aníbal Beça não havia viajado, mas, em compensação, Armando de Paula aportara na cidade com uma banda de se tirar o chapéu: George Jucá (baixo), Shirley Sol (vocal), Junior (bateria), Mosquito (percussão), Pachola (violão de sete cordas) e Diego (violão acústico). O cantor Macca também estava pra chegar, havia dado sinal de vida saindo de Rio Preto da Eva. O quarto vago seria pra ele.

Dessa vez, não teve jeito: tivemos que exigir a presença do cicerone para resolver a encrenca. O zen-budista Jerry Nelson chegou com aquela sua calma irritante de sempre. Depois de confabular com o gerente, ele também disparou uma série de telefonemas.

Dali a dez minutos, apareceu a secretária municipal de Cultura e Turismo, a sempre prestativa Ednilce Mendes, e sua entourage. Jerry explicou a situação. Outra série de telefonemas e, de repente, surgiu no Saint Martin um sujeito boa praça toda vida, Petrônio Rogério, dono do Hotel Pousada Rural, a 12 km da entrada da cidade.

Quase nos pedindo desculpas, ele perguntou se haveria algum inconveniente em ficarmos hospedado lá no seu “hotel de selva”. Ôrrameu, aquilo era tudo o que a gente queria: ficar longe da civilização!


Ficamos alojados no chalé Jatobá, cada um em um quarto, evidentemente. Por volta das 20h, embicamos no rumo da cidade e fomos jantar no restaurante Panorama. Antes disso, o Mário Dantas nos levou para comer, segundo ele, o melhor “cachorro quente da América Latina”.


Não sei se foi o cachorro quente, o suco de jenipapo ou o péssimo atendimento, mas o certo é que meu estômago começou a embrulhar. Mal toquei na caldeirada de costela de tambaqui servida no Panorama. Em compensação, Simas e Áureo detonaram uma picanha no bafo de quase dois quilos.

Chegamos ao palco montado na orla por volta das 21h30. Umas 5 mil pessoas se comprimiam no lugar. A banda do Armando de Paula estava fazendo o pré-show. As meninas da secretaria de Cultura me colocaram em uma barraca para autografar os livros e ficaram por ali, me pajeando como se eu fosse um cantor de rock.


Simas e Áureo se encontraram com o Lucio Preto e foram encher a cara nos botecos da redondeza, com a pretensão posterior de carcar umas vadias. Mário Dantas ficou cumprindo sua tarefa de repórter fotográfico do Blog da Floresta.


Dali a pouco, alguns poetas de Itacoatiara começaram a se aproximar para conversar comigo. Antonio Valdinei e Kayo Auzier me falaram sobre o Flip, que começaria na próxima semana. Alguns repórteres me entrevistaram para as televisões locais.

Ao longo da semana que precedeu a festa de aniversário, Itacoatiara havia se convertido em um dos “Territórios da Cidadania”, com seminários, mesas redondas, audiências públicas e a presença de oito prefeitos, dezenas de vereadores e os presidentes de Câmaras Municipais da região (Urucurituba, Itapiranga, Silves, etc).

O show na orla era a coroação desse evento, já que a festa da cidade iria ocorrer no sábado, no Centro Cultural Juracema Holanda – batizado com o nome da vereadora morta tragicamente na perigosíssima (volto a repetir!) rodovia Manaus-Itacoatiara.

Lançado no ano passado, o programa “Territórios da Cidadania” tem como objetivo promover o desenvolvimento econômico e universalizar programas básicos de cidadania por meio de uma estratégia de desenvolvimento territorial sustentável. Na cola das discussões a respeito do programa, diversos políticos estavam prestigiando o fuzuê.

De cara, lembro dos deputados estaduais Nelson Azedo, Therezinha Ruiz e Sinésio Campos, dos deputados federais Francisco Praciano e Vanessa Grazziotin, do secretário de Agricultura Eron Bezerra, do vereador de Manaus Ricardo Wendling, do superintendente adjunto da Suframa Everaldo Fernandes, do delegado regional do Ministério Agrário Lúcio Carril, além de diversos aspones, xerimbabos e militantes da CUT, da Força Sindical, da CGT e da SDS. Um verdadeiro x-tudo ideológico!


Por volta da meia noite, sem que eu soubesse previamente, fui chamado ao palco para receber um certificado de mérito cultural outorgado pelo prefeito Antonio Peixoto. Coube ao deputado estadual Sinésio Campos me entregar o diploma e falar algumas lambanças a meu respeito. Fiquei mais contente do que pinto em lixo.

O diabo é que o cachorro quente estava fazendo uma revolução no meu estômago e já havia convencido o intestino grosso a participar da intentona. Suando frio, eu tentava, heroicamente, manter a disciplina na casa.

Quando o endiabrado Ewerton Pastor assumiu o comando do show, o cabaré incendiou. Ele enfileirou, de cara, uma seqüência do Gilberto Gil pra não deixar ninguém parado (“Vamos fugir”, “Indigo blue”, “Sarará miolo”, “Punk da periferia” e “Maracatu atômico”).

Na seqüência, foi de Zé Ramalho, Alceu Valença, Raul Seixas, fez alguns duetos com o Macca (“Mosquito da Malária”, “Porto de Lenha”, “Ronda”), e começou a se preparar para o ponto alto de suas apresentações, quando só falta arrebentar os pulmões ao sustentar por dois minutos seguidos os versos de “Galopeira”, de Chitãozinho e Xororó.

Nos primeiros versos, Pastor leva a música bem legal, quase na manha: “Foi num baile em Assunción / Capital do Paraguai / Onde eu vi as paraguaias / Sorridentes a bailar/ E ao som de suas guitarras / Quatro guapos a cantar / Galopeira, galopeira / Eu também entrei a dançar”.

Aí, na segunda parte, o sacana começa a se esgoelar: “Galopeeeeeeeiiira (e ele sustenta o verso por quase um minuto) / Nunca mais te esquecerei / Galopeeeeeeiiiira (e ele sustenta o verso por quase um minuto e meio) / Pra matar minha saudade / Pra minha felicidade paraguaia / Eu voltarei / Pra minha felicidade paraguaia / Eu voltarei / Galopeeeeeiiiraaaaa (e ele sustenta o verso por quase dois minutos, uma eternidade!) nunca mais te esquecerei...”.

A platéia, claro, vai ao delírio.

Por volta das 2h da madrugada, sob o argumento calhorda de que a viagem havia me deixado moído, convenci a nossa tropa de choque a voltar para o hotel. O intestino fino havia se juntado aos rebeldes e agora eu só podia contar com a coragem do esfíncter em não se deixar vencer. Estava sendo uma luta de Titãs, melhor não abusar da sorte.

Meu brother Simas, em adiantado estado de decomposição alcoólica, ficou possesso:

– Porra, bicho, tu passa a noite inteira naquela mesa, só tomando água mineral, vendendo um livro de vez em quando, com cara de bundão, e agora quer ir embora?... Eu sei que tu tá a fim de encher a cara! Vamos beber, porra, vamos beber, que a noite é uma criança...

Não adiantou argumentar que todos os meus livros tinham sido vendidos e que no dia seguinte a gente podia farrear à vontade porque meu compromisso já havia sido cumprido. O bebum enjoado devia estar com medo de, ainda naquela mesma noite, o prefeito Antonio Peixoto implantar a lei seca no município e ele ficar a ver navios.

Se valendo do fato de que era dono do carro, o safado foi peremptório:

– Negócio seguinte: vocês são um bando de bundões! Se a gente voltar pro hotel agora, amanhã cedo eu pego o carro e me mando pra Manaus, e quero é que vocês se fodam!

Como o que mais existe em Itacoatiara é táxi-lotação indo pra Manaus, eu e Mário Dantas nem discutimos. Fomos direto pro hotel. O Áureo, que também estava em estado terminal de embriaguez, se quisesse, que fosse embora com ele. Acontece.

Quando chegamos ao hotel, uma surpresa: não havia energia elétrica. Ficamos uns quinze minutos discutindo se voltávamos pra cidade ou encarávamos as legiões de piuns, meruins e carapanãs (que não são tantas, assim).

No momento em que optamos por encarar os insetos, a luz voltou. Dedução óbvia: para garantir a energia elétrica na festança, a Amazonas Energia havia desativado o circuito da zona rural. No momento em que a fuzarca terminou tudo voltou ao seu lugar.

Depois de me livrar do cachorro quente e colocar ordem no pardieiro, ainda fiquei nadando meia hora dentro da piscina e papeando com Petrônio Rogério e Áureo Petita até por volta das 3 da manhã.

De qualquer forma, ainda percebi, de soslaio, quando o Simas foi ao bar do hotel, pegou meia dúzia de latinhas e se enfurnou na sua toca. O cabra estava se preparando realmente para a implantação da lei seca no município. Pode?

Curtindo a vida adoidado (parte 2)


Acordei no sábado por volta das seis e meia da manhã. O Simas estava em uma das mesas do restaurante desde as 5h30, provavelmente esperando o bar abrir. O café regional de respeito foi servido pessoalmente por dona Estela, esposa do Petrônio.

E tome queijo de búfala, queijo coalho, salame italiano, mortadela, pamonha, pé de moleque, banana frita, mungunzá, pão caseiro, ovos caipira, tucumã, pupunha, sucos de cupuaçu, taperebá e laranja, café feito em fogão de lenha e leite de gado tirado na hora. Simplesmente nababesco.

Nossa agenda mínima consistia em verificar a extensão das enchentes na cidade, prestigiar a reinauguração da Empresa Municipal de Trânsito e Transportes (EMTT), conferir as obras do Porto de Itacoatiara, dar uma geral no abandono das empresas madeireiras e depois entrevistar o prefeito. Simples assim.

Em menos de quatro horas, cumprimos todas as tarefas. No fuzuê da EMTT, o prefeito colocou para tocar a mais tradicional bandinha da cidade, que deu um verdadeiro show. Na falta de coretos e praças públicas para se apresentar, a banda toca onde for convidada. São músicos abnegados que só querem divertir o povo. Uma tradição centenária que o prefeito promete perpetuar. Estou na torcida.


Por outro lado, na real, a enchente está castigando a cidade pelos quatro cantos. Já existem bairros tradicionais isolados, como o Centenário (uma espécie de bairro da Aparecida da Velha Serpa) e o Jauari (uma espécie de bairro da Cachoeirinha). Muitas áreas do centro estão completamente alagadas.



O Porto de Itacoatiara se transformou em uma verdadeira sacanagem. Há uma placa indicando os valores a serem gastos (R$ 7.406.453,15) na recuperação e ampliação do porto e o prazo para conclusão das obras (270 dias). A placa está lá desde que o atual ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, resolveu sair candidato a senador (agosto de 2006). Depois de eleito, ele nunca mais tocou no assunto.


Nesse meio tempo, cerca de 300 portuários perderam o emprego (nosso cicerone Fernando Jerry, entre eles) e estão sobrevivendo como motoboys, camelôs, biscateiros, passadores de fumo, etc. O Jerry, felizmente, conseguiu ser lotado no gabinete da deputada Terezinha Ruiz, sua cunhada, mas e os outros?... Uma tristeza!

Lá na madeireira Gethal Amazonas, procuramos a samaumeira que o candidato a presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, plantou em 2002, durante sua campanha presidencial. A samaumeira tomou chá de sumiço, assim como os quase 5 mil empregos (entre diretos e indiretos) gerados pela madeireira.


Totalmente abandonada, a Gethal é um simulacro do que havia sido antes. Para entender o que aconteceu com a empresa, basta lembrar que apenas 20% das 3 mil madeireiras que atuam na Amazônia respeitam as leis ambientais e trabalhistas do país.

Dessas, só quinze, o equivalente a 0,5% do total, exercem sua atividade com padrão de excelência que preenche todos os requisitos internacionais de preservação ambiental. Não cortam árvores raras ou jovens e respeitam um intervalo de 25 anos para explorar uma mesma área – medida que permite a regeneração da floresta.

Seus empregados dispõem de bons alojamentos, comida e escola para os filhos. Por seguirem esses princípios, receberam o certificado Forest Stewardship Council (FSC), um tipo de ISO 9000 das madeireiras que é conhecido como selo verde.

São empresas que deveriam ter atenção especial do governo. Deveriam. Mas elas são as madeireiras mais penalizadas por ele.

Em dezembro de 2005, uma das quinze serrarias que tinham o selo verde, a fábrica de compensados Gethal Amazonas, fechou as portas. Motivo? O Ibama protelou a concessão de novas autorizações para que ela extraísse madeira da floresta amazônica.


Como usava padrão internacional de exploração, a Gethal não derrubou árvores ilegalmente. Sobreviveu até outubro de 2005 vendendo estoques. Quando eles acabaram, demitiu seus 720 funcionários e saiu do ramo.

A companhia não quebrou por ineficiência. Mesmo seguindo as regras do selo verde, ela vinha conseguindo competir com as madeireiras chinesas, que há cinco anos dominam o mercado mundial, apesar de operar com margens de lucro cada vez mais baixas. O caso da Gethal não é exceção.

Naquele mesmo ano, o Ibama também não concedeu nenhuma autorização para outras sete serrarias detentoras do selo verde, que, juntas, respondiam por 90% da produção de madeira certificada da Amazônia. A segunda a quebrar foi a Carolina, ligada à multinacional Precious Woods, que demitiu mais de 450 funcionários.

Hoje, 2 400 madeireiras cometem atrocidades na floresta. Desmatam, derrubam espécies ameaçadas e usam métodos que destroem, pelo menos, metade da vegetação da área onde atuam. Só estão em operação porque o Ibama não tem fiscais suficientes.

O incentivo à ilegalidade produziu estímulos negativos até na população ribeirinha, que aderiu ao comércio ilegal de madeira. Ela avança sobre a floresta sem autorização porque sabe que o governo é incapaz de puni-la. Longe do vale tudo, a Carolina e a Gethal estão trabalhando (e gerando emprego) no Equador.

Em linhas gerais, esse é o resumo do que ocorreu com a atividade madeireira em Itacoatiara. Os empregados demitidos estão engrossando as estatísticas dos bolsões de miséria. Depois de fazermos algumas fotos, retornamos à nossa base operacional por volta das 12h30.

Curtindo a vida adoidado (parte 3)


No dia anterior, ao perceber a criação de carneiros Santa Inês do empresário, eu havia sugerido a ele, meio de brincadeira, que um carneirinho na brasa cairia bem. O sacana nem contou até três. Quando chegamos ao hotel, Petrônio estava acabando de preparar as carnes de um bitelo.

Uma parte do carneiro, ele ia fazer assado à moda gaúcha. A outra parte seria um prato típico de sua terra natal: a célebre “ovelha atolada”, uma variante sulista da nordestina “vaca atolada”. Aí, nos deu uma aula sobre a máquina de assar que ele mesmo havia desenvolvido.

Durante o almoço, comi tanta “ovelha atolada” (um guisado de carneiro pra se degustar ajoelhado), que quase enfarto. Pedimos ao Petrônio que guardasse o resto do acepipe para detonarmos no jantar (o hotel só serve almoço. À noite, rolam apenas as melhores músicas do planeta, biritas de todo tipo e iscas espertíssimas).

Pra não enfartar, resolvi espairecer na piscina. Meu brother Simas, esquecido completamente do porre monumental da noite anterior, resolveu me fazer companhia. Começamos a contar piadas, um pro outro.

Mario Dantas e Áureo se mandaram para a cidade para assistir a um jogo de “veteranos” no estádio Floro Mendonça. Entre os destaques, estavam Lucio Preto e Sacaí, mais conhecido nas internas como “Cara de Frango”, ex-lateral esquerdo do Peñarol de Itacoatiara (Áureo foi um dos melhores jogadores que passou pelo time e até hoje é reverenciado pelos torcedores).

Lá no hotel, ao saber que eu só bebia cerveja Antarctica (em Itacoatiara só vendem Skol e Brahma), Petrônio me apresentou uma nova presepada: o famoso “submarino”, que altera o paladar de qualquer cerveja, inclusive da Skol.

O truque é simples. Você enche um cálice pequeno de steinhagger e emborca em um copo de cerveja vazio, de forma que o steinhagger permaneça dentro do cálice, sem vazar. Aí, é só encher o copo de cerveja. Pela pressão da cerveja sobre o cálice emborcado, este começa a liberar o steinhagger. Sim, o gosto fica completamente diferente. E a embriaguez é de juntar criança.


Uns três submarinos depois, eu e o Simas já começávamos a rir antes mesmo de contar as piadas. Aquele era um estado alfa em que a gente só atingia depois de uma garrafa inteira de Johnnie Walker Red Label. Caraco, mas o tal submarino era bom demais!

Por volta das 17h, falei pro Simas que a gente precisava dar uma cochilada até às 19h (já estávamos meio alto, como não?), pra depois ir pra farra em busca das vagabundas. Ele concordou e foi dormir.

Me acordei às 20h, na hora do jantar. O infeliz do Áureo havia trazido do campo de futebol direto pro hotel os zagueiros Lucio Preto e Cara de Frango. Mal o Petrônio serviu a nossa “ovelha atolada”, os dois zagueiros devoraram a nossa janta com uma fome de anteontem. Eu e Mário Dantas ficamos a ver navios. Completamente bêbado, Áureo achou aquilo tudo divertidíssimo.

Bem que o Mário Dantas tentou acordar o Simas, mas ele estava totalmente capotado. Resolvemos ir embora assim mesmo.

Chegamos ao Centro de Convenções junto com metade da população. Nunca havia visto uma multidão daquelas. No palco principal, uma banda de forró. A atração principal seria a banda punk-rock Os Raimundos, que deveria se apresentar por volta das 2h da manhã.

Em um momento de distração, Mario Dantas me convenceu a tomar o “melhor tacacá da América Latina”. Encarei o desafio, apesar de não suportar cebola roxa, cebolinha, cheiro verde, pimentão, tomate e outros condimentos utilizados no tacacá itacoatiarense. Pra mim, tacacá é goma, tucupi, jambu e camarão. Só, somente só.

Quinze minutos depois, começou uma nova revolução no meu estômago. E os pedidos de socorro começaram a me irritar: azia, má digestão, suor frio, cãibras nas mãos.

Fomos para a área externa do Centro de Convenções, local em que as gatinhas haviam escolhido para desfilar em busca de conquistadores em potencial (qualquer um com mais de 50 paus no bolso. A crise não poupa ninguém).

Nos instalamos em um bar onde o telão exibia o Kid Abelha, mas o que a gente ouvia mesmo era uma banda meio furreca cantando aquele repertório de bosta do Só Pra Contrariar, em um palco armado a 50 metros de distância.

Sei lá como, mas o Áureo conseguiu rebocar pra nossa mesa duas gatinhas. Quando a mais bonitinha delas falou que tinha 25 anos e duas filhas, uma de 12 e outra de 10, o tesão de muita gente foi tomar tacacá na esquina e não voltou mais.

Por volta de meia noite, sob o argumento calhorda de que se o Simas acordasse e não visse seu carro no local a jiripoca ia piar, convenci Mario Dantas a me levar para o hotel. Combinei com Áureo, Lucio Preto e Sacaí que voltaria em meia hora para pagar a despesa.

No hotel, acordamos o Simas. Ele olhou pra mim, olhou pro Mário, ficou uns cinco minutos bamboleando como um João Teimoso procurando o eixo, aí se jogou na cama e voltou a dormir. Resolvi fazer o mesmo.

Puto da vida, Mário Dantas voltou à cidade para resgatar o Áureo e pagar a despesa. O sacana foi a contragosto porque o Áureo tem uma mania irresponsável de tomar banho de florais de Bach, do Boticário, a cada quinze minutos. O cheiro dá pra ser sentido a 10 km de distância. E Mário Dantas tem alergia a perfume.

No dia seguinte, Mário me contou que havia deixado o Sacaí no bairro de São Francisco e foi com o Áureo até o centro, para comprar meia dúzia dos famosos “cachorros quentes”.

Quando estava pagando a despesa, o Sacaí surgiu das sombras e deu um puta beijão na bochecha do Áureo, seguido de um abraço de quase dez minutos. Mário queria entender como o sujeito tinha chegado até ali, já que o bairro de São Francisco ficava a 10 km de distância.

– Ele veio seguindo o cheiro de perfume no ar – expliquei. “Cães treinados fazem isso.”

Áureo ficou vermelho feito um pimentão, mas nem assim parou de se lambuzar com a tranqueira.

Curtindo a vida adoidado (final)


Na manhã de domingo, depois de um lauto café da manhã disputado avidamente com os esfamiados músicos do grupo Bicho Solto, que havia se hospedado na pousada na noite anterior, nos despedimos de Petrônio Rogelio e fomos nos despedir do brother Fernando Jerry e do coronel Paulo Roberto Vital, itacoatiarense da gema e secretário adjunto da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas.

Pra completar, a irmã do Paulo Roberto, Teresa, minha parceira preferencial de birita e curtição de reggae em Itacoatiara, havia chegado em casa com o dia amanhecendo e estava “capotada”. Não consegui falar com ela e esqueci de deixar com sua mãe um livro sobre o Bob Marley, que havia lhe levado de presente. Fica pra próxima.

Paramos em um posto de gasolina na saída da cidade. Compramos cigarros, refrigerantes, militos. Mário Dantas consultou o computador de bordo e definiu: “Coloca só 20 paus de gasolina, que a gente está com mais de meio tanque”. Dito e feito.

Deixamos a cidade por volta das 10h e, só de onda, resolvi tirar uma foto na frente da frondosa castanheira “Mário Dantas - Orlando Farias”, que hoje é um símbolo da cidade. Explico melhor.

Em 2001, o então vice-governador Samuel Hanan se projetara como virtual candidato à sucessão do governador Amazonino Mendes e contratara os dois jornalistas (Mário e Orlando) para sua assessoria de imprensa.

Os dois começaram a fazer um programa de rádio em Itacoatiara, para onde se dirigiam todo sábado, mesmo que chovesse canivetes. Não é a toa que Mário Dantas conhece a estrada como a palma de sua mão.

Um belo dia, eles observaram que várias castanheiras estavam sendo derrubadas ao longo da rodovia AM-010, sem nenhuma razão aparente. Repórteres investigativos por natureza, os Starsky & Hutch barés logo trataram de apurar o fato. A presepada era um retrato bem acabado da pouca importância que se dá ao meio ambiente, normalmente visto como um entrave para o progresso.

Para diminuir a falta de energia do município, a madeireira Mil, localizada na Estrada da Várzea, a 20 km de Itacoatiara, resolveu enviar para a cidade o seu próprio excedente de energia elétrica. Caberia à Prefeitura apenas fazer o “linhão”.

Para economizar alguns “cobres”, a Prefeitura fez o “linhão” a meio metro da rodovia AM-010 e saiu derrubando todas as castanheiras que estavam no trajeto porque atrapalhavam a fiação aérea. O último dos moicanos era essa majestosa árvore da foto acima, que nem seis cabras do meu tamanho de mãos dadas são capazes de abraçar seu tronco.

Durante algumas semanas, Orlando Farias e Mário Dantas colocaram a boca no trombone, mobilizando a população para defender a castanheira. Não deu outra. Diante do clamor público, o prefeito teve que recuar e autorizar um pequeno desvio no “linhão”, para poupar a castanheira. Ela agora é conhecida como castanheira “Mário Dantas – Orlando Farias”.


Mas voltando à viagem. Antes de chegarmos em Lindóia, conseguimos ultrapassar um caminhão rebocando uma van de turismo meio avariada, depois de quase vinte minutos de tentativas. O filho da puta, apesar do reboque, corria feito um desesperado, com o caminhão ocupando as duas faixas. O sujeito deve ter aprendido a dirigir brincando de autorama.

Paramos para almoçar no Rio Preto da Eva por volta do meio dia. Quando reiniciamos a viagem, Mário Dantas olhou pro marcador de combustível, consultou o computador de bordo e cantou a pedra: “Nos fudemos. Acendeu a luz da reserva!”

Puta que pariu, a gente estava a 60 km do posto de combustível mais próximo. O negócio era economizar. Pregar de gasolina em um domingo, dia de jogo entre Flamengo e Botafogo, na rodovia AM-10, era convite certo pra só chegar a Manaus na noite de segunda-feira.

Responsável em potencial pela tragédia (bastava ele ter pedido pra encher o tanque na saída de Itacoatiara), Mário Dantas teve que usar de toda sua experiência dos anos 70 dirigindo um Maverick de seis cilindros (que bebia como um V8 e corria como uma carroça).

Era um tal de acelerar nas subidas e desligar o motor nas descidas, que também quase me enfartou. Eu ia vendo as placas marcando a quilometragem da estrada e ficando cada vez mais preocupado.

Por volta do Km 20, avistamos um posto de gasolina. Como a gente ia na “banguela” em uma velocidade de F1, Mário teve que fazer uma redução rápida (calculei que meio litro de gasosa tinha ido pro espaço) e retornar de marcha ré.

Quando, enfim, conseguimos entrar no posto, um zé mané (provavelmente o gerente) grudado em um celular, andando pra lá e pra cá, perto das bombas de combustível, explicou que não havia gasolina. Puta que pariu, mas quase que a gente desce do carro pra encher o sujeito de porrada!

A viagem continuou no mesmo sufoco até adentramos no Posto Equatorial, antes da barreira da Ponte da Bolívia. Resolvemos encher o tanque. A bomba registrou 39,5 litros. Quer dizer, a gente só devia estar com, no máximo, um litro de gasolina no tanque. Daria para rodar mais cinco quilômetros. O Maverick seis cilindros do Mário Dantas tinha mesmo que servir para alguma coisa...

Na segunda-feira, o telejornal Amazônia TV, da TV Amazonas, exibiu uma reportagem mostrando um acidente ocorrido no domingo, no Km 50 da rodovia Manaus-Itacoatiara. O caminhão rebocando a van de turismo meio avariada (que havíamos ultrapassado perto de Lindóia) perdeu a direção, invadiu a outra pista, abalroou um Escort e o jogou pra fora da estrada, dentro de um igarapé.

Não sei se houve vítimas fatais. Mas que a estrada é perigosíssima, ficou provado pela enésima vez. Acontece.

quarta-feira, maio 06, 2009

Minhas andanças com Thiago de Mello (parte 1)


Foram 20 anos de evasivas. Sempre que nos encontrávamos em Manaus durante algum evento literário, o poeta Thiago de Mello sacava o Colt 45 niquelado que trazia preso na cintura e atirava à queima-roupa: “Quando é que você vai me visitar em Barreirinha? Ou só está esperando eu morrer pra ir naquele fim de mundo e derramar suas lágrimas de crocodilo?...”

Eu tentava sair da saia-justa na maior diplomacia. As velhas desculpas de praxe: excesso de trabalho, uma inexplicável falta de grana, o corre-corre em busca de pautas interessantes pros veículos onde dava expediente, os tais compromissos previamente acertados, as desavenças amorosas, essas coisas. Nenhuma colava, claro. Thiago desconfiava que eu não ia muito com a sua (dele) cara. Bobagem.

Como essa conversa de bêbado para delegado já durasse muito tempo, em dezembro de 2000, na virada do milênio, resolvi ir à forra. Durante uma noite de autógrafos do poeta Élson Farias, eu saquei meu Colt 45 primeiro: “Estou indo pra Parintins, para fazer uma matéria sobre Pastorinhas na zona rural. Se der tempo, dou um pulo em Barreirinha. Você vai estar por lá?...”

Os olhos do poeta se iluminaram. “Esquece Parintins, meu filho. Vai pra Barreirinha que te levo para ver as melhores Pastorinhas da zona rural do baixo-Amazonas!”, ele determinou.

Combinamos nos encontrar em Parintins dali a duas semanas. Convenci minha macuxi, Dinari Guimarães, de trocar as festas de Natal e Ano Novo em Boa Vista (RR), sua terra natal – também adiadas há uma porrada de anos –, por uma aprazível estada em Barreirinha. Ela concordou, depois de uma semana de penosas negociações.

Chegamos a Parintins por volta das 11h da manhã. Mal descemos do avião, rumamos para o cais do Porto, onde Thiago já nos aguardava com aquela sua típica paciência zen. Os barcos de linha estavam começando a rumar para Barreirinha e o poeta ali, matutando. Sentei ao seu lado e também fiquei ali, matutando.


A doce e singela Aparecida, sua esposa, fez uma festa quando chegamos. Monossilábico, Thiago explicou que a gente viajaria no seu (dele) barco, “Príncipe dos Mares”, que estava passando por uma manutenção na cidade há duas semanas. Ele estava ali, matutando, esperando a chegada do barco. Comecei a prestar atenção nos iates que se aproximavam do cais.

Quando, finalmente, o barco do poeta chegou, levei o maior susto: tratava-se de um bote de, no máximo, 2 m de comprimento por 1m de largura, com um motor de 30 hp, guidão e caixa de marcha. Era bem menor que a Romiseta do prefeito José Ribamar Beleza. Calculei automaticamente que meus 115 kg iriam afundar aquela casca de noz, mesmo feita de alumínio.

Thiago nem discutiu. Colocou as malas dentro do bote, ajeitou Dinari e Aparecida perto dele (o sacana é que ia pilotar a tranqueira), me colocou no meio do bote – para equilibrar a precária embarcação, cujo casco estava a 15 cm do nível d’água, e ordenou que Raimundo (mix de piloto, confidente, mordomo e pau pra toda obra do poeta) se posicionasse lá atrás, perto do motor. Raimundo havia chegado pilotando o bote.

Thiago meteu uma marcha-ré e saiu a toda, no meio daquela porrada de barcos de linha que estavam no cais. Quando deu uma reduzida para enfrentar o rio Amazonas, o motor morreu. Quebrou o cabo de aço que prendia o leme. Não posso garantir, mas desconfio que nessa hora o poeta gritou um enfático “puta que pariu!”

Ficamos à deriva por quase quinze minutos, no meio daquele riozão barrento de correnteza filho da puta, até uma “voadeira” nos rebocar de volta pro cais do Porto. Não preciso dizer que Thiago ficou possesso e Raimundo teve que ouvir, calado, uma série de impropérios.

Para nossa sorte, havia um barco de carga que havia se atrasado e estava indo pra Barreirinha. Ter o poeta Thiago de Mello a bordo, para os simplórios tripulantes, era mais ou menos como você estar andando de carro, no maior dilúvio tropical, e parar para dar uma carona ao rei Pelé. Festa geral.


Limitei-me a comprar duas redes para tornar a viagem de quase seis horas um pouco mais agradável (Thiago havia prometido fazer a mesma viagem, no seu “bote motorizado”, em duas horas. Não duvidei.). Raimundo ficou em Parintins para consertar o bote e depois levá-lo a Barreirinha.

No barco de carga, nós quatro (eu, Dinari, Thiago e Aparecida) fomos tratados a pão de ló. O convés ficou à nossa disposição. Quando o barco começou a se aproximar do cais de Barreirinha, a tripulação do barco fez uma queima de fogos de responsa e convenceu Thiago de Mello a ir pra proa, para acenar para a multidão. Uma festança inesquecível!

Falar que a casa onde nos instalamos era melhor do que qualquer hotel de cinco estrelas (e olha que conheço hotéis cinco estrelas pra cacete, de Tóquio a São Paulo), seria chover no molhado. A casa do Thiago de Mello em Barreirinha é o sonho de consumo de qualquer leitor da revista Vip (você lê a revista Vip? Hummmm...).

Esculpida em madeira (esse, o termo exato), com todas as vantagens funcionais da vida moderna, a casa ainda levava a assinatura nada modesta do arquiteto Lúcio Costa – o sujeito que “inventou” Brasília, mas preferiu deixar as glórias para o jurássico Oscar Niemeyer. Se tivesse internet, seria o Paraíso. Infelizmente, estávamos na virada do novo milênio. Naquela época, não havia internet decente nem mesmo em Manaus.

Nessas duas semanas – do dia 22 de dezembro ao dia 5 de janeiro – tentamos conciliar nossos horários da melhor maneira possível. Pela manhã, Thiago devotava-se ao seu trabalho de tradução do poeta peruano César Vallejo, que eu só conhecia de alguns poemas publicados no extinto jornal Versus, do inesquecível Marcos Faerman. Sempre que terminava uma transcriação, Thiago pedia minha opinião, cotejando o original com a nova obra. Eu escapava pela tangente.

Por volta do meio-dia, invariavelmente, Thiago ia pra cozinha. As mulheres – Dinari, Aparecida e Soninha, a governanta da casa e esposa do Raimundo – se limitavam a cortar verduras, limpar as carnes e separar os temperos. Em duas horas, o “chef” apresentava suas armas: galinha à cabidela, leitão à pururuca, cordeiro com hortelã, omelete de ovas de bodó, escabeche de pescada e o pirarucu, preparado e servido no alpendre. Uma farra deliciosa!

Depois do almoço, a “siesta”, que ele havia aprendido com seu parceiro Pablo Neruda (os dois moraram juntos mais de seis anos, no casarão da Isla Negra), que consumia o resto da tarde. Eu aproveitava esses horários para colocar a correspondência em dia – se é que vocês me entendem.

Voltávamos a nos encontrar por volta das 8h da noite – depois de jantar – para detonar doses paquidérmicas de uísque. E conversar. Conversar muito. Como qualquer dublê de jornalista, eu não levei um mísero gravador para registrar nossas conversas. Aos trinta anos, confesso, tinha um orgulho suicida de minha memória cinematográfica. Hoje, não. Excesso de álcool, I presume.

Dentre as diversas conversas que tive com Thiago, uma, em especial, lhe chamou a atenção e o deixou comovido. Na adolescência, eu estudei com três sobrinhos deles (Nathan Jr., Nádia e Liana) no colégio Ida Nelson.

Por meio deles, soube que Thiago estava exilado no Chile. Também li algumas cartas que o poeta mandou para sua irmã, a pianista Maria Júlia Rodrigues, mãe dos brothers citados antes, emprestadas pela Nádia à minha irmã Simone. As cartas eram entremeadas de poemas.

Com 14 anos, eu não ligava muito pros fatos, mas sabia que estava diante de um poeta genial. Era conta de multiplicar – acho que sempre foi assim, na história da humanidade –: para um moleque com os hormônios à flor da pele, tudo é permitido, inclusive pequenos delitos. A mulherada não dava bola pra mim? Pois então elas iam ver do que eu era capaz.

Na maior cara dura, comecei a copiar alguns poemas deles postados nas cartas (depois reunidos no genial “Faz escuro, mas eu canto”, em que fez dedicatória carinhosa ao velho amigo: “Para Pablo Neruda – meu amigo Paulinho – voz cristalina e ardente, que se ergue cantando, cada amanhecer, pela libertação de nossa América”) e comecei a distribuir pra meninas como se fossem de minha autoria.

O que choveu de brotos na minha horta não estava nos gibis. Thiago riu muito da presepada. Alguns daqueles versos ainda trago de memória, apesar de não serem mais funcionais. Ficaram obsoletos. Hoje em dia, mulher quer saber mesmo é de grana. Talvez tenha sido sempre assim. Fazer o que?

Minhas andanças com Thiago de Mello (parte 2)


O poeta Thiago de Mello retornou ao país em 1979, depois de uma peregrinação de quase quinze anos por terras estrangeiras. Sua bagagem sentimental era composta de livros, esculturas e quadros, presenteados a ele pelos mais representativos intelectuais do planeta. O poeta resolveu compartilhar aquele tesouro com seus irmãos da selva.

Em Barreirinha, ele levou dez anos para erguer o Porantim do Bom Socorro, na zona urbana da cidade, onde passou a residir. O refúgio do poeta, um dos últimos projetos do arquiteto Lúcio Costa, era composto de três imóveis.

Em um deles, que funcionava também como residência, Thiago instalou a biblioteca Moronguetá e uma biblioteca de literatura universal. Em outro, instalou a biblioteca amazônica, com 800 volumes, a biblioteca latino-americana e uma biblioteca de artes plásticas, com centenas de livros. No terceiro, o poeta instalou um Museu Universal e um Museu de Usos Humanos da Madeira Amazônica, atendendo a uma sugestão do antropólogo Gilberto Freyre.

As jóias da coroa estavam na biblioteca latino-americana. Constituída de 1.500 volumes, ela continha, entre outras preciosidades, a coleção completa das revistas Crisis, da Argentina, Casa de Las Américas, de Cuba, e Plural, do México, além das obras completas de Alejo Carpentier, Nicolas Guillén, Octavio Paz, Gabriel Garcia Márquez, Jorge Luis Borges, Julio Cortazar, Pablo Neruda, Jose Lezama Lima, Mario Vargas Llosa, Cíntio Vitier, Guillermo Cabrera Infante, Eduardo Galeano e Osvaldo Soriano, entre outros, a maioria delas com dedicatórias afetuosas ao poeta feitas de próprio punho pelos autores.

Na biblioteca de artes plásticas, com 500 volumes, era possível consultar livros sobre Picasso, Miró, Salvador Dalí, Chagall, Paul Klee, Henri Cartier-Bresson, Man Ray, William Klein, Sebastião Salgado, Robert Doisneau, Mario Giacomelli e muitos outros.

Havia, ainda, um exemplar original da Expedição Langsdorff ao Brasil, com ilustrações de Rugendas, Taunay e Florence, e outro da Colonização dos Holandeses no Recife, com ilustrações de Franz Prost e Barleus. Cada uma destas duas últimas obras citadas está avaliada, por baixo, em 20 mil dólares.

No museu Universal, o destaque era uma gravura em bronze de Miró, da série Constelações (as demais estão no Louvre, de Paris), e várias aquarelas de Roberto Sambonet, considerado o maior pintor italiano do século vinte e morto em 1999. Sambonet, durante quase uma década, foi presidente da Sociedade Internacional de Design.

Havia, ainda, serigrafias de Volpi, gravuras de Ana Letícia (considerada a maior gravadora do Brasil), xilogravuras da mineira Iara Tupinambá, aquarelas de Fernando Fiúza (que já foi premiado na Bienal de São Paulo) e diversos quadros de Moacir Andrade, Jair Jacqmont, Rufino Tamoyo, Rosé Bru e Venturelli (premiado na Bienal de Veneza), para só ficar nos mais conhecidos.

No museu da Madeira, Thiago havia conseguido dezenas de remos antigos de formatos diferentes, arpões de massaranduba desenvolvidos para a pesca de poronga, várias almanjarras (um tipo primitivo de moenda de espremer cana), canoas esculpidas pelos índios diretamente no tronco de árvores, bancos, pilões e gareiras, uma espécie de recipiente do bagaço da macaxeira após o tipiti.

O destaque do museu ficava por conta de uma série esplendorosa de adoquinis – beirais de madeiras ucranianos pintados à mão –, que Thiago havia recebido de presente do ex-ministro de Turismo Rafael Grecca.

Em 1993, quando Fernando Henrique Cardoso assumiu o Ministério de Relações Exteriores, Thiago de Mello foi convidado para assumir o posto de adido cultural do Brasil no Chile. Era uma espécie de acerto de contas, já que o poeta ocupava aquele cargo quando eclodiu o golpe militar de 64 e ele foi defenestrado pelos novos ocupantes do Poder, tendo que se exilar na casa de Pablo Neruda, na Isla Negra.

Thiago, que apesar da idade ainda hoje trabalha doze horas por dia para sobreviver com dignidade, viu logo que seria impossível manter o Porantim do Bom Socorro enquanto estivesse morando em Santiago do Chile.

Ele, então, resolveu vender os imóveis, com tudo dentro, para o governo do Amazonas, cobrando um preço simbólico (menos de 10% do valor real das obras de arte ali coletadas).

O secretário de Fazenda da época, Sérgio Cardoso, com o aval do governador Gilberto Mestrinho, comandou as negociações. Entre as exigências do poeta, uma declaração firmada em cartório de que o Governo do Estado se comprometia em manter “uma cuidadosa conservação do rico patrimônio ali representado, com destinação cultural a serviço do povo da região.”

A idéia do governador Gilberto Mestrinho era fazer do Porantim do Bom Socorro um campus avançado da Utam. Um amigo de Thiago de Mello, Bartolomeu Maranhão, ficou encarregado de vigiar o imóvel enquanto o governo não ocupasse, de fato, o mesmo.

Três meses depois de Thiago ter partido, e sem que recebesse um tostão pelos serviços de vigia, Bartolomeu foi dispensado da função por ordem expressa da Secretaria Estadual de Fazenda. O Porantim ficou abandonado.


Em 1994, uma galera de menores infratores resolveu fazer do lugar seu quartel-general. Foi como colocar uma milícia taleban, armada até os dentes, no templo de Angkor, no Cambodja. Em questões de dias, o trabalho primoroso de Suryavarman II, aliás, de Thiago de Mello, estava completamente destruído.

Os museus e bibliotecas foram saqueados. A residência foi transformada em bordel e em ponto de encontro de viciados. Livros de arte foram queimados em substituição ao carvão comum. Mais de 100 fitas cassetes, com cantos indígenas, foram utilizadas como “bole-bole”.

Duas esculturas de mestre Vitalino, que José Lins do Rego doou a Thiago, quando o escritor paraibano já estava em seu leito de morte, foram destruídas a marteladas. Um vitral em forma de rosácea com mais de 2 metros de diâmetro e 200 anos de história, que Thiago havia adquirido em Paris, foi transformado em vidro moído para cerol de papagaio.

Dezenas de lâminas policromáticas de Barbosa Rodrigues ganharam a destinação de papel higiênico. Cartas pessoais de Pablo Neruda viraram rabiola de carrapetas. Muitas pessoas viajavam de Manaus para Barreirinha exclusivamente para participar do botim. O Porantim do Bom Socorro virou uma terra de ninguém.


Quando Thiago retornou a Barreirinha, em 95, ficou tão traumatizado com o que viu que nunca mais colocou os pés no lugar. Afinal de contas, ali estava depositada, praticamente, toda uma vida dedicada a tornar o mundo mais humano e o resultado tinha sido uma blitz arrasadora digna de animais irracionais.

O mais assustador disso tudo é que ninguém foi responsabilizado pelo desastre. O acervo foi perdido para sempre.

Pior para os amazonenses, que se viram privados de desfrutar de um grandioso patrimônio artístico pacientemente coletado pelo poeta por mais de cinco décadas. A merda é que Thiago me contou essa história escrota sem mostrar qualquer emoção.

Fiquei tão puto que no dia seguinte convenci Aparecida a me levar ao local, fiz fotografias e depois, quando voltei a Manaus, fiz o maior escarcéu na imprensa. Não deu em nada. Vivemos no Brasil.