Segue abaixo os links das melhores postagens do Candiru desta
semana, de acordo com uma pesquisa do New York Times realizada em tempo real com usuários do Orkut:
Espaço destinado a fazer uma breve retrospectiva sobre a geração mimeográfo e seus poetas mais representativos, além de toques bem-humorados sobre música, quadrinhos, cinema, literatura, poesia e bobagens generalizadas
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sexta-feira, março 10, 2017
segunda-feira, fevereiro 27, 2017
Reino Unido da Liberdade é bicampeã do Carnaval amazonense
Por Paulo André Nunes
Campeã do ano passado, a Reino Unido da Liberdade é de novo a
grande campeã do Grupo Especial do Carnaval amazonense. A agremiação, que este
ano levou para o Sambódromo o tema da sustentabilidade, foi a quarta escola a
desfilar no último sábado, quando oito grandes agremiações apresentaram belos e
diversificados enredos.
A escola de samba do Morro da Liberdade somou 268,50 pontos
e faturou seu 11° título no Carnaval amazonense. O segundo lugar ficou com a
Vitória Régia que somou 266,9, seguido pela Grande Família com 266,8 pontos.
“Nós enfrentamos muitas dificuldades, mas fizemos um grande
trabalho. A Reino Unido é uma escola de samba de comunidade e dedico esse
título às pessoas humildes do Morro”, comentou o presidente Jairo de Paula
Beira-Mar.
A obrigatoriedade de entrega em tempo hábil a Ceesma de
informações como o áudio do samba-enredo e a ficha técnica provocou a perda de
1 ponto para quatro escolas: Aparecida, Alvorada, Andanças e Vila da Barra.
A Unidos do Alvorada foi penalizada em 2 décimos por exceder
o tempo de desfile em 2 minutos
(apresentou-se em 72 minutos quando o limite era 70min).
Grupo de Acesso A
A Primos da Ilha foi a primeira colocada do Grupo de Acesso
A do Carnaval 2017. Ela empatou em número de pontos com a Beija-Flor do Norte e
Unidos da Cidade Nova com 179,2, mas a definição veio após a leitura do quesito
alegorias e adereços, que era o critério de desempate segundo o artigo 60 do regulamento
do Grupo de Acesso A.
Em quarto lugar ficou a Unidos da Cidade Alta com 179,8, em
quinto o Dragões do Império levando 178,5 e em sexto a Balaku Blaku com 178
pontos.
Grupo de Acesso B
Com 179 pontos a Mocidade Independente do Coroado foi a
campeã do Grupo de Acesso B do Carnaval de Manaus. A escola homenageou o deputado
estadual Sinésio Campos (PT).
Em segundo ficou o Império do Hawaí com 176,7, Unidos do
Coophasa levou 176,5 e a Presidente Vargas em quarto com 174,2 pontos.
“Estamos alegres, mas ao mesmo tempo tristes porque esse ano
não teremos o acesso para o grupo A”, disse Montelo Lira, representante da
Mocidade do Coroado.
Grupo de Acesso C
A agremiação Tradição Leste, do bairro Coroado, foi a campeã
do Grupo de Acesso C do Carnaval de Manaus.
Ela levou 179,3 dos pontos em nove quesitos e sagrou-se
vencedora sobre a Legião dos Bambas (176 pontos), Gaviões do Parque (172) e
Leões do Barão Açu (166,2).
A escola levou para a Avenida do Samba o enredo sobre o
xadrez. O presidente da Tradição Leste, Gláucio Coelho, falou da satisfação da
escola em conquistar o título. “Esse título bem em boa hora pois é a
continuidade do trabalho do ano passado”, comentou ele.
Na leitura das notas foi comunicada a penalização das
escolas de samba Legião de Bambas, Leões do Barão Açu e Gaviões do Parque por
irregularidades como ausência de membros nas alas ou excesso do tempo de
desfile (que era de 25 minutos para essa categoria).
Foi registrada, também, a ausência de um jurado da comissão
de frente no dia do desfile (24). Com isso, a nota que seria dada por esse
jurado passou a ser 10 para todas as escolas.
“Damos parabéns para as todas as escolas do Grupo C pois
elas foram guerreiras e não receberam apoio financeiro para o desfile”,
desabafou Fabrício Nascimento, diretor de Carnaval da União das Escolas de
Samba do Amazonas (Uesam), entidade que rege a categoria.
Sensacionalista: uma pausa pra dar risada
Manchete 1: “Alfaiate do Planalto é chamado para ajustar
faixa presidencial para caberem Temer, Cunha e Serra”. Manchete 2: “Prestes a
ter todos os cargos, PMDB teme perder a razão de existir”. Manchete 3: “Menos
de 24 horas depois de separado do governo, PMDB já é visto no Tinder”.
Com chamadas como essas, pingando sarcasmo e puro deboche, o
site Sensacionalista, sediado no Rio de Janeiro, tem se destacado nestes meses
de crise como uma das mais comentadas, visualizadas e compartilhadas válvulas
de escape para os males que assolam o país.
Com 2,3 milhões de seguidores e 10 milhões de acessos todos
os meses, o site é municiado por quatro sócios-redatores e dois auxiliares, que
renovam continuamente o conteúdo com impagáveis reinterpretações de notícias
reais.
Atiram para todos os lados – e aí talvez esteja a base de
seu sucesso. “Nem coxinhas, nem petralhas: nós somos do partido da zoeira”,
define seu fundador, o jornalista e roteirista Nelito Fernandes.
Egresso do extinto programa de humor Casseta & Planeta,
da Globo, Fernandes conta que se inspirou no americano The Onion para criar o
Sensacionalista, em 2009, como uma atividade paralela e sem maiores pretensões
– os visitantes não passavam de ínfimos 3 000 por dia.
A virada se deu na campanha presidencial de 2014, quando as
tiradas do site “isento de verdade”, como diz seu logo, passaram a ser
replicadas nas redes sociais.
“Vivemos uma situação em que as manchetes são surreais. E,
quando o real parece piada, o humor não tem limites”, diz o humorista Antonio
Tabet, do Porta dos Fundos, sobre o sucesso dos colegas.
“Falamos de qualquer assunto. Passamos o dia inteiro
trocando informações, sugestões e ideias de piadas”, explica a jornalista
Martha Mendonça, mulher de Fernandes, da equipe de redatores. A própria revista
Veja, ao publicar a capa revelando o plano de Lula de buscar refúgio na Itália,
acusada de “falsa” pelos petistas, recebeu do site o hilário “prêmio de melhor
obra de ficção do ano”.
A atividade principal do casal e de outro sócio, Leonardo
Lanna, é elaborar roteiros para humorísticos da Globo. Apenas o jornalista
Marcelo Zorzanelli trabalha no site em tempo integral.
O faturamento, cujos valores eles não revelam, provém de
anúncios intermediados pelo Google e de piadas patrocinadas, como a encomendada
por um aplicativo de relacionamentos que informa: “Homem que sabe a diferença
entre ‘mas’ e ‘mais’ vira alvo de disputa entre colegas de trabalho”.
Problemas, até hoje, só tiveram com uma “vítima”: o deputado
federal Marco Feliciano, expoente da brigada antigay, processou o site – e
perdeu – por sentir-se “moralmente abalado” pelos posts a seu respeito.
Aproveitando o sensacional momento, o time pôs no ar mais um
site, o Surrealista – Notícias Reais que Parecem Coisa do Sensacionalista, e no
emblemático dia 1º de abril lançou uma antologia de piadas intitulada Pagar por
um Livro que Está na Internet É Sinal de Genialidade, Dizem Especialistas
(editora Belas Letras). Próximo projeto: Sensacionalista, o Filme. Quem viver
rirá.
Sobre os protestos
Explicando o
inexplicável
Hipocrisias
cotidianas
História indigesta
Dedução
Na pista para negócio
Vida moderna
As 100 melhores frases de Millôr Fernandes
Por Sergio Augusto
O acaso é uma besteira de Deus.
Morrer é uma coisa que se deve deixar sempre pra depois.
O Brasil é os Estados Unidos onde eu vivo.
Um homem é adulto no dia em que começa a gastar mais do que
ganha.
A invenção do Alka-Seltzer foi uma tempestade em copo
d’água.
Nasci com talento melódico numa época em que o pessoal só se
interessa por percussão.
Analista é um sujeito que partindo de premissas falsas
consegue chegar a conclusões perfeitamente equivocadas.
Anarquia é apenas uma proposta social em que você dá ao
palhaço a administração do circo. (E quase sempre ele é muito bem-sucedido)
Se os animais falassem não seria conosco que iam bater papo.
Nunca deixe de fazer amanhã o que pode deixar de fazer hoje.
Nas noites de Brasília, cheias de mordomia, todos os gastos
são pardos.
Um desses livros que
quando você larga não consegue mais pegar.
Minha especialidade e meu orgulho: sou o maior leigo do
país.
50% dos doentes morrem de médico.
Celebridade é um idiota qualquer que apareceu na televisão.
Chato é uma pessoa que não sabe que “Como vai?” é um
cumprimento, não uma pergunta.
Todo governante se compõe de 3% de Lincoln e 97% de
Pinochet.
Jamais chame um amigo de imbecil. É preferível lhe pedir
dinheiro emprestado e não pagar.
Se sua calça tem um buraco, use-a pelo avesso.
Quem se curva aos opressores mostra a bunda aos oprimidos.
A alma enruga antes da pele.
Comida é bom, bebida é ótimo, música é admirável, literatura
é sublime, mas só o sexo provoca ereção.
Especialista é o que só não ignora uma coisa.
Os pássaros voam porque não têm ideologia.
A falsa modéstia é o rabo escondido com o gato de fora.
Fobia é um medo com PhD.
A fotografia é a mentira verdadeira.
Toda fotografia antiga é uma punhalada.
O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia.
Quem sai aos seus não endireita mais.
O gourmet é o comilão erudito.
O haddock é um bacalhau que venceu na vida.
A humildade é uma espécie de orgulho que aposta no perdedor.
O humorismo é a quintessência da seriedade.
Idade da razão é quando a gente faz as maiores besteiras sem
ficar preocupado.
Desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal.
Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos &
molhados.
Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem!
Grande erro da natureza é a incompetência não doer.
Todo homem nasce original e morre plágio.
Livre como um táxi.
Divagar e sempre.
Monogamia é a capacidade de ser infiel à mesma pessoa
durante a vida inteira.
A morte é hereditária.
A ociosidade é a mãe de todos os vices.
O cara que completa 80 anos está, evidentemente, vivendo
acima de seus recursos.
Se é gostoso, faz logo. Amanhã pode ser ilegal.
O otimismo é o pessimismo em diluição.
A probidade não tem cúmplices.
Deus dá o frio a quem não tem dentes.
O quartzo é um mineral que fica entre o tertzo e o quintzo.
A invenção da poltrona acabou com os heróis.
Certos escritores se pretendem eternos e são apenas
intermináveis.
O dinheiro não é tudo. Tudo é a falta de dinheiro.
Dizem que quando o Criador criou o homem, os animais todos
em volta não caíram na gargalhada apenas por uma questão de respeito.
Conheço alguns escritores que morreram aos 30 anos e só
conseguiram entrar pra Academia aos 60.
Não confundir ética com etiqueta, que é apenas uma ética de
butique.
Eu posso não ser um bom exemplo. Mas sou um bom aviso.
A beleza é a inteligência à flor da pele.
Todo líder acaba empregado de sua liderança.
Dinheiro compra até amor verdadeiro.
Os homens não fervem à mesma temperatura.
À noite (na penumbra aconchegante das alcovas permissivas),
todos os pardos são gatos.
A importância leva mais gente ao cemitério do que a
impotência.
Quando a bajulação não atinge seu objetivo, você pode estar
certo de que não é por falta de vaidade do bajulado – é por incompetência do
puxa-saco.
Entre o riso e a lágrima quase sempre há apenas o nariz.
De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha
do que a abstinência,
A Academia Brasileira de Letras se compõe de 39 membros e um
morto rotativo.
Não existe o japonês individual.
Temos que começar por baixo. Como os Estados Unidos, por
exemplo. Eles começaram com um país só.
Não gosto de direita
porque ela é de direita, e não gosto de esquerda porque ela é de direita.
Nos momentos de perigo é fundamental manter a presença de
espírito, embora o ideal fosse conseguir a ausência do corpo.
O arroto é um som burguês, incompreensível entre os pobres.
Deus é bom. Esta é muito mal cercado.
O sujeito que me fará acreditar na imortalidade da alma
ainda está pra ressuscitar.
Político é um sujeito que convence todo mundo a fazer uma coisa
da qual ele não tem a menor convicção.
Bahia – a menor
agência de publicidade do mundo.
O bêbado é o subconsciente do abstêmio.
O bolero não morrerá enquanto houver um coroa tomando banho
de chuveiro frio.
Todos os grupos são apenas agências de emprego para seus
membros.
Nada é certo neste mundo – a não ser o telefone tocar quando
você está sozinho em casa e acabou de sentar no vaso.
Baiano só tem pânico no dia seguinte.
Os corruptores são encontrados em várias partes do mundo,
quase todas no Brasil.
A credibilidade de um país é inversamente proporcional aos
juros que os banqueiros internacionais lhe cobram.
A curiosidade mórbida é a mãe do vidro fumê.
Não haverá democracia enquanto eu for obrigado a escrever
deus com D maiúsculo.
O problema da democracia é que quando o povo toma o palácio,
não sabe puxar a descarga.
O mal do mundo é que Deus e o Diabo envelheceram, mas o
Diabo fez plástica.
Os socialistas são contra o lucro. Os capitalistas são
apenas contra o prejuízo.
Um escritor só é realmente famoso quando seus erros de
linguagem passam a ser considerados regras gramaticais.
O problema de ficar na fossa é que lá só tem chato.
Não existe tendência para engordar. Existe tendência para
comer.
Cada ideologia tem a Inquisição que merece.
Quando uma ideologia fica bem velhinha vem morar no Brasil.
O pior não é morrer. É não poder espantar as moscas.
Há males que vêm pra pior.
Quem não tem memória sabe tudo de olvido.
O maior erro de Noé foi não ter matado duas baratas que
entraram na Arca.
No Nordeste nu explícito é esqueleto.
Quando você está fora de si, o pessoal vê melhor o que você
tem dentro.
Manual do Publicitário
Por André Barcinski
Tenho muitos amigos – e até parentes – que são
publicitários. E tenho me espantando com a popularidade dessa profissão entre
os mais jovens. Para ajudar quem está pensando em se dedicar a essa profissão
cheia de glamour, resolvi fazer um pequeno guia. Espero que seja útil.
Como se inserir no
mercado de trabalho
Fácil: minta no currículo. Ninguém vai checar mesmo. Incluir
cursos no exterior é sempre bom. Especialmente em cidades modernas e cool como
Berlim ou Copenhagen. Ponha lá: “assistente de produção no Stor Oksekod, na
Dinamarca”. Ninguém precisa saber que é uma churrascaria.
Outra coisa que sempre funciona bem em currículos é incluir
premiações. Publicitários adoram premiações, tanto que criaram milhares para
distribuir entre eles mesmos.
Inclua algo como: “4º colocado do prêmio Golden Taroba na
categoria 'melhor folheto' no 5º Publicity Awards de Itaperuna”. Sempre ajuda.
Pronto, consegui um
estágio na agência. E agora?
O passo seguinte é achar um nome pra você. Lembre-se que, da
porta da agência pra dentro, você é um artista. E todo artista precisa de um
nome adequado.
Nomes de publicitários se dividem em três categorias
básicas.
A primeira são os nomes italianizados. Fica bonito e
moderno. João vira “Gianni”, Luís vira “Luigi”, Lucicleide vira “Luce”.
A segunda categoria é a de nomes monossilábicos terminados
em acento circunflexo ou “u”, como “Clô”, “Fô”, “Rê”, “Mô”, “Stê”, “Pê”, “Um”
ou “Du”.
A terceira são apelidos bem brasileiros e divertidos, como
“Joca”, “Tutuca”, “Drica” ou “Zoza”.
Mas lembre-se: independentemente do nome que você escolher,
o sobrenome precisa ser grande e insólito. Nada de “Silva” ou “Moreira”.
O nome ideal, portanto, seria algo como Du Fregolini, Clô
Bierrenbach ou Joca Thompson.
Observe que, em todos eles, o primeiro nome tem uma pegada
bem despojada, mas o sobrenome dá o tom grave e solene que o publicitário
precisa e merece.
Vamos supor que seu nome seja Luis Castro. A partir de hoje,
você é Luigi Castellari. Parabéns, Luigi!
Como me enturmar?
Mesmo que você ganhe 545 reais, a melhor idéia é investir
uns 4 mil e comprar um abadá no bloco da agência no carnaval de Salvador. É lá
que os melhores contatos são feitos.
O vocabulário
Não estranhe se, na primeira reunião, alguém te disser: “Luigi,
vamos dar o start. Você tem o briefing do job? Então faça um c-call com o team
do Du Fregolini, que fez o filme do papel higiênico Ralorrabo, e pergunte se o
recall do cliente foi satisfatório.”
Fique calmo. Ninguém está entendendo nada mesmo. Você se
acostuma.
A obsessão pelo
making of
Todo publicitário adora um making of. Esse fenômeno é
conhecido por “efeito Narciso”.
Lembre-se: para cada segundo de comercial filmado, a agência
costuma rodar 30 minutos de making of.
O último comercial do desodorante Suvacol, dirigido por Du
Fregolini, mereceu um DVD triplo com dezenas de entrevistas, análises e depoimentos.
“Fregolini é um gênio”, disse Joca Thompson. “Considero este o Encouraçado Potemkin
dos filmes de desodorante”.
Características de
comportamento
Publicitários têm duas características básicas: são extremamente
gregários e indecisos.
Isso explica o gigantesco número de reuniões de cinco horas
com 15 pessoas em que não se decide nada.
A gênese de idéias e
da criação publicitária
Em reuniões na agência, toda boa idéia, mesmo que venha do
estagiário, é reivindicada pelo seu superior imediato, que é então reivindicada
pelo superior deste, e assim por diante, até chegar ao dono da agência.
E toda idéia que dá errado, mesmo que venha do dono da
agência, é colocada na conta de seu subalterno imediato, que passa para o seu
subalterno, e assim por diante, até chegar ao estagiário, que é então demitido.
A injeção sazonal de
modernidade
Fenômeno que costuma ocorrer nos meses de agosto e janeiro,
quando o dono da agência ou o chefe de criação voltam de Nova York ou Paris,
onde viram o Blue Man Group ou o La Fura Dels Baus pela 37ª vez, trazendo as
últimas novidades em matéria de comportamento: “Fui ao Brooklyn e vi muita
gente usando cueca por cima da calça, é a última tendência!”
O fenômeno é seguido, alguns meses depois, por uma enxurrada
de comerciais estrelados por pessoas usando cueca por cima da calça, editoriais
de moda com modelos usando cueca por cima da calça, e publicitários andando
pela agência com cueca por cima da calça.
Pronto. Agora é com você. Boa sorte, Luigi!
Um feirante na vida de uma mulher
Por Xico Sá
Nada melhor que uma mulher que acabou de chegar da feira.
Sacola na mão, fome de viver, sorriso de princesa. Os vendedores de frutas,
peixes e verduras são mestres na arte de reconhecer talentos e animar as moças
com os seus adjetivos. Adjetivos às pencas, elogios às dúzias, mimos, dizeres,
samba exaltação, graças.
Meia hora de uma mulher na feira vale mais do que um mês de
análise, do que a onda de orientalismos tantos do mercado, do que a yoga, do
que o mestre japonês das agulhas, do que uma banheira de sais, do que um dia na
Oscar Freire...
Nem mesmo quando as mulheres estão acompanhadas, os
feirantes dão sossego. Esperam você, jovem mancebo, se distanciar um pouco,
dois, três passos, e tome gracejos e flertes à baciada.
“Olha a manga, gostosa!”, bradam, administrando com malícia
a vírgula e o duplo sentido na ponta da língua.
“Ovo e uva boa!”, arriscam para as elegantes damas de preto.
“Essa é modelo!”, capricham para as gazelas saltitantes.
“Gisele!”
“Se eu fosse um peixe, eu seria um namorado!”.
É a boa guerra dos mascates. Eles vão no ponto, exatos como
neurocirurgiões do desejo. Sabem de longe, por exemplo, quando uma mulher tem
alguma encrenca com a idade.
Em um segundo, sapecam um tratamento carinhoso: “Pra mulher nova, bonita e carinhosa, eu não
vendo... eu me dou todinho!”
E mais: “Só vendo pra menores de 18 acompanhada pelos pais”.
Em dias de chuva, mandam ver de acordo com o meteorologista:
“Essa é enxuta até debaixo d'água”, alardeiam.
Um bom feirante reduz até os efeitos de uma TPM, de uma
dívida nunca paga, de uma culpa que corrói o juízo, de um regime ainda sem
resultados – elas ainda não sabem que uma polegada a mais, uma a menos, pouco
importa para quem tem gosto de fato por mulher.
Nada como incentivar o caminho da feira mais próxima da sua
casa para as mulheres.
No Ceasa, então, os
adjetivos saem a grosso e a varejo, na bacia ou nos caixotes.
Os feirantes não mentem jamais. Eles sabem, mais do que
ninguém, que em toda mulher, seja quem for, existe um traço ou um aspecto de
beleza.
Afinal de contas, mulher é metonímia, parte pelo todo, você
passa a apreciá-la por uma boca, um pé, uma orelha, uma mão, uma omoplata, um
belo ilíaco ressaltado, uma saboneteira, uma marca sulcada de vacina, um corte
no joelhinho esquerdo, uma cicatriz de artes de infância, uma bela bunda faceira,
uma falsa magra, um umbiguinho do mundo, aquele tom cinza dos cotovelos da
espera...
Na passarela dos feirantes, a insegurança feminina, mesmo
naqueles dias em que o cabelo acorda brigando com as leis do cosmo, dissolve-se
em segundos, num suspiro, na velocidade de um pastel, na ligeireza de um
caldo-de-cana.
domingo, fevereiro 26, 2017
Olha o índio aí, gente!
Por José Ribamar Bessa Freire
“Sangra o coração do meu Brasil. / O belo monstro rouba as terras
dos seus filhos / devora a mata e seca os rios”. (Samba da Imperatriz
Leopoldinense , 2017)
Tem um Brasil que está morrendo e outro que está nascendo
dentro de um país de cores e cantos tão diversos. Para identificá-los, não
precisa ser médico-legista nem parteiro. Basta observar neste carnaval o
desfile da Sapucaí, com os olhos bem abertos para não confundir um com o outro,
já que nenhum dos dois tem samba no pé.
Um deles manca porque, decrépito, está com esclerose
múltipla, enquanto o outro, hesitante e trôpego, ainda aprende a andar,
ensaiando na avenida seus primeiros passos. Mas só quem entende a língua dos
pássaros, das árvores e dos rios sabe disso.
Berço do renascimento
O Brasil com um pé entrando no caixão fez tudo para abortar
o parto do Brasil com um pé saindo do berço. Em vão. Domingo (26), logo depois
da meia-noite, cerca de 3.000 componentes da Imperatriz Leopoldinense, entre
eles Raoni e outros índios, desfilam em 32 alas e seis carros alegóricos com a
rainha de bateria, Cris Vianna, e mestre Lolo comandando a percussão. “Xingu, o
clamor da floresta” canta aquilo que foi explorado na Rio-92 por Daniel Matenho
Cabixi com a palestra “As tecnologias dos povos indígenas na preservação do
meio ambiente” editada pela UERJ.
O enredo foca os saberes de 17 etnias que vivem no Parque
Indígena do Xingu (MT) e a contribuição das civilizações indígenas – “a primeira
semente da alma brasileira” – na defesa da natureza agredida, da beleza e
exuberância de cores da floresta. Exalta as pinturas corporais, o artesanato,
os instrumentos musicais - as flautas e os maracás, a liberdade e a memória
sagrada. “Salve o verde do Xingu, a esperança, a semente do amanhã!”.
Esse Brasil que nasce e que está aprendendo a ficar de pé
inaugura o diálogo do carnaval com a academia e com os índios, quase sempre
folclorizados como exóticos. Da Antropologia, a escola de samba toma emprestado
o trabalho de campo como forma de entender o outro, o diferente. Busca na
Museologia a curadoria compartilhada com os índios na organização de
exposições. Recorre à História para abordar os acontecimentos com o conceito de
longa duração de Fernand Braudel, abandonando o fatual, nomes de heróis fajutos
e sucessão de datas inúteis.
Foi assim que o carnavalesco Cahê Rodrigues, assessorado
pelo antropólogo Carlos Fausto do Museu Nacional (UFRJ), se deslocou ao Xingu
para conviver com os índios, observar o cotidiano e com eles conceber o enredo.
Viu a área contaminada por agrotóxico, causador de câncer que já matou muitos
índios. “Voltei de lá com outra cabeça” –
disse em entrevista. Viajou com a cabeça do general Custer e voltou pensando
como Touro Sentado, a exemplo do ministro Ayres Brito, do STF, no processo da
Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Escola sem partido
O enredo, dividido em seis setores, começa com o sagrado,
passa pelas riquezas da flora e da fauna e aborda a invasão e o roubo de
terras. No quarto, as queimadas, as madeireiras, o agrotóxico e Belo Monte. No
quinto, as alianças de índios com não índios na defesa do Xingu, o último é o
clamor que vem da floresta. Isso foi suficiente para que o outro Brasil com o
pé no caixão, passasse a agredir a Imperatriz Leopoldinense e estendesse às
escolas de samba o conceito de “escolas sem partido”, pelo qual lutam.
Mesquinhos, não admitem versão crítica, nem no carnaval.
A figura sinistra do senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) quer uma
CPI “para discutir, debater e descobrir os financiadores da Imperatriz
Leopoldinense”. A Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) em carta
atacou a escola de samba e garantiu que o agronegócio é responsável pela comida
e bebida consumida pelos turistas no carnaval. Lideranças ligadas ao plantio de
soja, milho, algodão e cana de açúcar se pronunciaram no mesmo sentido.
Circulou até mesmo denúncia de que empresários teriam oferecido R$ 15 milhões
aos índios para que não desfilassem.
A escalada de violência culminou com o programa “Sucesso do
Campo” da Rede Goiás, afiliada da Record, quando a jornalista Fabélia Oliveira,
comentando o samba-enredo, declarou que “o tradicional malandro carioca” não
pode falar do índio e da floresta. O índio “vai ter que morrer de malária, de
tétano, do parto. É a natureza”.
Se eles estão tão incomodados, é porque o desfile da
Imperatriz Leopoldinense vai ser uma grande aula na Sapucaí, nesse espaço
mágico e dionisíaco do carnaval. Darcy e Berta Ribeiro, Maria Yedda Linhares,
John Monteiro, Antônio Brand e tantos outros amigos dos índios devem estar
requebrando alegremente na tumba ao som do samba da Imperatriz. Olha o índio
aí, gente.
Segunda feira gorda tem Cauxi Eletrizado na Assinpa
Formado por integrantes das bandas OsTucumanos, Alaídenegão
e Cabocrioulo, o sensacional combo Cauxi Eletrizado vai embalar os foliões manauaras
nessa segunda feira gorda, 27, na sede da Assinpa (Associação dos Servidores do
Inpa), com a 6ª edição do Bloco do Cauxi Eletrizado.
Durante o panavueiro, haverá a participação especial da
bateria da Mocidade Independente de Aparecida e do premiadíssimo DJ Marcos
Tubarão. Os portões da Assinpa abrem às 16h e a entrada custará R$ 20 até 18h.
A partir deste horário, o valor será de R$ 25. A sede da Assinpa está
localizada no Conjunto Morada do Sol, zona Centro-Sul de Manaus.
Os ingressos antecipados já estão disponíveis por R$ 20, no
quiosque Os Barés, do Manauara Shopping (Avenida Mário Ypiranga, 1300,
Adrianópolis). O valor da rolha será R$ 40, para qualquer bebida. A festa
contará com espaço para crianças, que, até 10 anos, não pagam entrada. Maiores
informações: 98210-2438/98242-3133.
A folia terá início com o DJ Marcos Tubarão comandando as
carrapetas, em um setlist de muito groove, swing e balanço, com remixagens de
antigas marchinhas. Em seguida, será a vez da bateria da Mocidade Independente
de Aparecida, que sobe ao palco às 18h.
A banda do Cauxi Eletrizado assume o comando da festa às
19h, com clássicos como “Atrás do Trio Elétrico”, “Frevo Novo”, “Cabelo de
Fogo”, “Me segura se não eu caio”,
“Frevo mulher”, “Haja amor”, “Evocação de Recife” e “Hino do Elefante de Olinda”,
entre outras. Como acontece todo ano, será apresentada em primeira mão uma
música feita especialmente para o evento.
Composta pelo cantor Clóvis Rodrigues, a novidade é uma
sátira do boato de arrastão e tiroteio no Centro, na semana da fuga dos presos
do Compaj e traz a história de um homem que postou nas redes sociais que estava
na confusão e conseguiu correr para a boate Rêmulo’s, para se salvar.
O fator Filho da Puta
Por Luís Fernando Verissimo
“Não se pode fazer omelete sem quebrar ovos” é “o fim
justifica os meios” transformada em receita. Mesmo que você concorde com a
velha e debatível máxima e sua versão para a cozinha, invocada para desculpar
algumas das piores barbáries da nossa espécie, é preciso lembrar o que disse,
certa vez, o crítico José Onofre: tem gente que não se interessa pela omelete,
gosta do barulhinho de ovos quebrando. Gosta do crec-crec. É o chamado fator
Filho da Puta.
Há Filhos da Puta em todos os grupos humanos. Eles se
caracterizam pela maldade gratuita, pelo chute a mais. No futebol existe uma
diferença, às vezes tênue, entre a “falta necessária” e a “falta desnecessária”
que o juiz flagra ou não flagra mas que expõe o Filho da Puta a um julgamento
instantâneo.
Mas o pior Filho da Puta é o que anda armado e tem a lei do
seu lado, ou pelo menos às suas costas. Você já o viu em ação. Raras vezes o
viu punido. É o policial que bate quando o manifestante já está dominado. O
militar que se aproveita do poder para exercer a sua prepotência, ou o seu
gosto em quebrar ovos.
As Forças Armadas e policiais brasileiros têm um péssimo
retrospecto quando se trata de controlar, ou mesmo reconhecer, seus Filhos da
Puta. Ou reconhecem e justificam. Existem teorias de contra insurgência que
defendem o terror como instrumento, a ameaça do excesso como método e,
portanto, o Filho da Puta como um boçal necessário.
Muitos Filhos da Puta hoje podem se convencer de que não
estavam fazendo outra coisa nas salas de tortura, durante a longa noite dos
generais, senão um omelete redentor.
Com o aumento da criminalidade a questão de meios e fins se
torna debatível como nunca. Tem gente clamando por um “endurecimento” na
repressão ao crime, e não são poucos os que querem estender a dureza a outras
ameaças à ordem, como manifestações legítimas de sem-terras e outros
despossuídos da nossa pseudo-social-democracia contra uma falsa ordem.
A emergência do momento justificaria todos os meios,
inclusive os mais potencialmente desastrados. A tese da violência contra a
violência depende, para vencer, de um certo cochilo deliberado, uma certa
suspensão de pudores jurídicos e morais – ou seja, de uma licença tácita para
os Filhos da Puta exercerem o seu gosto pelo crec-crec. Até as coisas
melhorarem – ou não sobrarem mais ovos, o que vier primeiro.
quinta-feira, fevereiro 23, 2017
Musas da Banda da Caxuxa já estão em Manaus
Nesse sábado, 25, no Canto do Fuxico, as musas da Banda da
Caxuxa serão apresentadas oficialmente aos foliões durante o penúltimo esquenta
da troça carnavalesca mais divertida da cidade.
As popozudas chegaram a Manaus na manhã desta quarta feira
e, na mesma tarde, participaram de um jogo beneficente na quadra de futebol
society Golden Gol, enfrentando as Sereias Encantadas, de São Francisco. O jogo
terminou empatado em 7 a 7.
Durante o evento, foram arrecadadas três toneladas de
latinhas de cerveja, que serão doadas à Cooperativa de Catadores da Bethânia
Oriental e Adjacências (Cocadaboa).
“Estamos muito felizes em pode ajudar a essa causa
humanitária e mostrar que não somos apenas um rosto bonitinho”, explicou a
técnica Hilda Furacão. “Também temos peitinhos e padarias de não se jogar fora...”
Experimentado e verdadeiro mestre suburucu no assunto, o advogado
Val Wilkens está encarregado de ciceronear as musas durante sua curta
permanência em Manaus.
“Elas estão excitadíssimas para conhecer a cobra grande e
depois brincar de casinha com um boto vermelho”, explicou ele. “A cobra grande
já está na mão, achar um boto vermelho é que vai ser complicado. Lá no Canto do
Fuxico só tem boto tucuxi...”
Intitulada “A Rosa é o nosso perfume permanente”, a
marchinha da Banda da Caxuxa 2017 já está disponível no Spotfy e teve 12
milhões de downloads nas primeiras 24 horas.
Com letra de Simão Pessoa, música de Joel dos Ciganos,
vocais dos Demônios da Garoupa, Maura Maravilha, Pet Shop Girls e grande
elenco, a marchinha será executada ao vivo, nesse sábado, pelo grupo de sopros
do Tenente Ramalho.
Segue abaixo a letra, pra você decorar e fazer bonito durante o panavueiro:
Segue abaixo a letra, pra você decorar e fazer bonito durante o panavueiro:
“Na Banda da Caxuxa todo mundo se diverte: / Têm os que
cheira... Têm os que fede... / Na Banda da Caxuxa todo mundo brinca bem: / Careta
de respeito dá um dois também... / A noite com seu manto prateado / Já escondeu
o estresse e a tristeza / Bem singela nossa banda quer louvar / Rosa Vital de Almeida
essa mulher guerreira / Se a noite ainda é dos namorados / A Rosa Almeida é o perfume
dos amantes / Que saudade do querido Umberlino / Hoje no céu, com estrelas e
diamantes / Vem cá, menina, ciganinha feiticeira! / Mestre Pajé batucando pra
valer / Jaqueline, Sheila e Cláudia fazem coro / Que na Banda da Caxuxa quero
ver o sol nascer!”
Sábado é dia da 1ª Banda do Galvez Botequim
Surfando na onda do “carnaval politicamente correto,
socialmente justo, ambientalmente responsável e sem assédio sexual”, o
empresário Álvaro José assinou o atestado de óbito da Banda Pega na Inxada e,
em seu lugar, vai realizar a Banda do Galvez Botequim.
O evento terá início a partir das 12 h deste sábado, 25, com
uma feijoada self service (R$ 30 por cabeça) e a presença do DJ Leandro Kandall
nas carrapetas. A partir das 16 h, Junior Rodrigues entra em campo para mostrar
as melhores marchinhas de carnaval e os melhores sambas enredos da história.
O Galvez Botequim está localizado na Rua Altair Severiano
Nunes, nº 08, Conjunto Eldorado, na pracinha em frente à antiga Utam (atual
UEA).
A natimorta Banda Pega na Inxada foi rifada pelas dezenas de
frequentadoras do botequim, que consideraram o nome de duplo sentido “assaz
indecente”, a letra, “machista e sexista”, e o símbolo da banda, de autoria do
famigerado Jack Cartoon, “simplesmente pornográfico”.
“Se passadas de mão, beijos à força, puxões no cabelo e
outras investidas sem consentimento não podem ser encaradas como algo natural
no carnaval, então o carnaval perdeu todo o seu sentido”, diz o sociólogo Beto
Souza, inconformado com o fim da Pega na Inxada. “Carnaval é uma tradução de carne vale, que significa despedida do corpo, uma vez que nesta
época as pessoas são estimuladas a se soltarem e se envolverem com as
atividades carnavalescas.”
Outro que lamentou a falta de humor da mulherada foi o eletricista
Jorge Baiano. “Conheci minha esposa, Suhelen Lima, na Banda do Pau Mole, do
bairro da Raiz, e estamos juntos há 15 anos. Na hora em que começou a tocar a marchinha Máscara Negra e chegou naqueles versos do vou beijar-te agora, não me leve a mal, tudo é carnaval, eu mandei um beijão de surpresa na nega velha. Colou. Se, na época, fosse proibido dar
cantada em mulher bonita, eu não teria conquistado o amor da minha vida...”
Proibição de marchinhas é sintoma de fascismo cultural
Algumas decisões politicamente corretas são tão absurdas,
tão próximas do ridículo que até artistas consagrados são contra. É o que está
acontecendo com o fascismo cultural envolvido na censura às músicas consideradas
incorretas nos repertórios das bandas e blocos de rua.
A lista é considerável. Segundo o Estadão, O Cordão do
Boitatá, no Rio, decidiu acatar a proibição de não tocar O Teu Cabelo Não Nega, de Lamartine Babo. Os versos “mas como a cor
não pega, mulata / mulata eu quero o teu amor” seriam os vilões de um mundo que
não condizia com a realidade.
Outro clássico das marchinhas de carnaval que fizeram a
alegria de muitos, Ai que Saudades da
Amélia, que Mario Lago e Ataulfo Alves fizeram em 1942, já está na lista
das “proibidas do carnaval”.
O próprio Caetano Veloso diz: “Sou mulato e adoro a palavra
mulato: é como o país é chamado em Aquarela
do Brasil, que é nosso hino não oficial. Sempre detestei A Cabeleira do Zezé por causa do refrão
“corta o cabelo dele”, que é repetido como incitação a um quase linchamento.
Mas não tenho vontade de proibir nada”. Às vezes, até o polêmico baiano tem
noção do ridículo.
A folia contra o bom-senso também chegou a São Paulo onde
alguns blocos se posicionaram a favor do cuidado com o que iriam tocar para não
reforçarem supostos preconceitos. A clássica Índio Quer Apito foi vetada por ser depreciativa aos costumes e
hábitos dos nossos silvícolas.
O compositor João Roberto Kelly tem cerca de 100 marchinhas,
todas diametralmente opostas às ideias da patrulha do mimimi: Cabeleira do Zezé, Menino Gay, Maria Sapatão
e Mulata Bossa Nova são algumas.
“Nunca vi um patrulhamento tão grande, nem no tempo da
ditadura. Carnaval é brincadeira, meu querido. A gente goza do careca, do
barrigudo, não podemos levar as coisas ao pé da letra”, ensina ele.
Tom Zé é outro que se assusta quando ouve que sambistas
estão deixando de tocar Amélia. “Puxa vida, mas ela era uma mulher tão
dedicada… Carnaval é a época de fazer tudo ao contrário, mas agora querem
consertar o mundo.”
“Estão querendo mostrar serviço no lugar errado”, insiste
Djavan. Para ele, a discussão do reforço de estereótipos precisa passar, antes,
pela educação. “O racismo está ligado à falta de formação, desde sempre.”
Ney Matogrosso reforça a opinião de que há patrulhamento
desnecessário. Ele lembra que Maria Sapatão, por exemplo, não fala mal da
mulher quando diz que “o sapatão está na moda, o mundo aplaudiu / É um barato,
é um sucesso / dentro e fora do Brasil”.
“Estão gastando energia com coisas desnecessárias”, afirma.
O pesquisador Tárik de Souza também fala: “Ninguém pode ser
obrigado a cantar o que não quer. Mas a volta da censura, mesmo que por razões
consideradas nobres, é algo assustador. O carnaval tem sempre um sentido
anárquico e caricatural. Já pensou se forem revisar também as chanchadas da
Atlântida, vetar os personagens malvados e politicamente incorretos dos
folhetins de TV? Vamos acabar num quartel ou num colégio de freiras
carmelitas...”
Reforçando a hipocrisia da patrulha do mimimi, Ruy Castro,
outro pesquisador, se atenta ao termo “mulata”: “Das dezenas de marchas que
falam da mulata, muitas foram compostas por Assis Valente, Wilson Baptista,
Haroldo Lobo, a dupla Zé e Zilda, Haroldo Barbosa, Monsueto Menezes etc. etc.,
e lançadas por cantores como Orlando Silva, Silvio Caldas, Aracy de Almeida,
Carmen Costa, Ciro Monteiro, Moreira da Silva, Jorge Veiga, Ângela Maria etc.
etc.. Todos mulatos. E não viam nenhum problema nisso.”
Campanha contra o assédio sexual no carnaval ganha força na internet
Por Helô D’Angelo
O assédio sexual é uma prática comum. Segundo a pesquisa
Chega de Fiu Fiu, 98% das mulheres já sofreram assédio nas ruas. Em época de
carnaval, o clima de festa pode dar a falsa impressão de que “pode tudo” –
inclusive assediar sem consequências.
Foi pensando nisso que o Catraca Livre criou a campanha
#CarnavalSemAssédio, em parceria com a Revista AzMina, com os movimentos #AgoraÉQueSãoElas
e “Vamos Juntas?”,
com o Bloco das Mulheres Rodadas, com o Samba em Rede e com o apoio da advogada
de direitos humanos Andrea Florence e da arquiteta e urbanista Marília Ferrari.
“Infelizmente, os números de abuso sexual aumentam neste
período por diversos fatores, e muitos homens justificam suas condutas abusivas
como sendo uma tentativa normal de ‘paquera’”, conta Heloisa Aun, jornalista do
Catraca Livre e uma das criadoras do #CarnavalSemAssédio.
O objetivo é “lutar contra a violência e o machismo,
promovendo a discussão de que assédio é assédio em qualquer época do ano”, como
explica o Catraca Livre no evento da campanha no Facebook.
As ideias e práticas para o combate ao assédio sexual são
variadas: o Catraca Livre começou espalhando imagens com a hashtag
#CarnavalSemAssédio e incentivando as mulheres a compartilharem fotos e relatos
com a tag, e entrou em contato com ONGs como a Engajamundo para ajudar na
distribuição de adesivos e plaquinhas com frases conscientizadoras. Depois, a
Revista AzMina compartilhou manual que diferencia “paquera” de “assédio”.
O movimento “Vamos Juntas?” também entrou no samba criando
um grupo chamado “Vamos Juntas Pra Folia?”, no qual mulheres podem combinar
encontros nos blocos de carnaval em várias cidades do Brasil.
“Essa visão de que o carnaval é ‘terra de ninguém’, ainda
que naturalizada, não é natural. temos que dar esse recado aos homens, mas
também mostrar para as mulheres para que elas tenham certeza disso e entendam
que não são obrigadas a nada”, defende a jornalista Babi Souza, criadora do
“Vamos Juntas?”.
Heloisa conta que, assim que a ideia surgiu, no inicio de
janeiro, ela e seus colegas entraram em contato com coletivos e páginas feministas,
para alcançar o maior apoio possível. A campanha começou, de fato, no primeiro
bloco de São Paulo, o “Privamera, Te Amo”, onde Heloisa e o videomaker Gabriel
Nogueira foram gravar uma matéria com depoimentos de mulheres sobre situações
abusivas que elas já viveram no Carnaval.
Depois de alguns dias, eles publicaram o vídeo e o
#CarnavalSemAssédio começou. “Inicialmente, queríamos que as pessoas
compartilhassem relatos nas redes sociais. Mas quando lançamos a campanha,
vimos que o melhor jeito de emplacar essa ideia era compartilhar materiais do
Catraca e dos parceiros”.
A partir daí, a campanha viralizou na internet: o vídeo da
marchinha de carnaval da campanha, por exemplo, já tem quase 7 mil
compartilhamentos no Facebook, enquanto o vídeo com os depoimentos já chegou a
quase 5 mil compartilhamentos.
Em São Paulo e no Rio de Janeiro, vários blocos de carnaval
aderiram ao #CarnavalSemAssédio, entre eles o BregsNice, o Primavera, Te Amo e
o Farofa Aquática, de São Paulo, e o carioca Mulheres Rodadas.
Além dos blocos, personalidades da música, da mídia e da
televisão também demonstraram seu apoio à campanha: Chico Buarque, Pitty, Karol
Conká, a mídia NINJA, Nando Reis, Gregório Duvivier, Adriane Galisteu, Cauã
Reymond e muitos outros.
Como o Catraca Livre se espalha por várias cidades e tem
muitos parceiros fora de São Paulo, a campanha chegou a ser apoiada pelas
prefeituras de Salvador e do Rio de Janeiro. Com a força do “Vamos Juntas?”, da
Revista AzMina e dos coletivos feministas, a projeção é que a hashtag continue
viralizando e que atinja cada vez mais pessoas.
Para Heloisa, a campanha vai além do carnaval: “A
importância de uma campanha como essa é conscientizar as pessoas de que a
violência contra as mulheres e o machismo não pode ser algo naturalizado nem no
Carnaval, nem em qualquer outra época do ano.”
Confira a letra marchinha de carnaval do
#CarnavalSemAssédio:
“Carnaval sem assédio/ É a regra da alegria/ Agora são as
minas/ As donas da folia/ Pera lá, rapaz, segure seu amor/ Não é assim que se
faz/ Eu também sou da folia e a minha fantasia é só um jeito de brincar/ E pra
minha brincadeira, se você se comportar/ Posso até te convidar/ Mas jamais se
esqueça da lição: não é não/ Calma lá, Pierrot/ Não é assim que se conquista a
Colombina/ Ela é quem determina até onde a brincadeira vai chegar/ É um charme
ser cortês/ Ao contrário, estupidez, acaba com qualquer clima/ E pra encerrar,
jamais se esqueça da lição: não é não”
Foliões aos milhões em São Paulo: quem diria!
Por Mouzar Benedito
Carnaval de rua… Está aí uma novidade que não é mais tanta
novidade em São Paulo e muitas outras cidades brasileiras. Ele andou sumido por
muito tempo. E voltou com tudo. E mais: com gente pulando e cantando.
Com exceção de alguns lugares, como a Vila Esperança,
carnaval de rua em São Paulo nunca teve muita animação. Tinha muita gente nas
ruas, mas poucos cantando e dançando, parecia mais que estavam passeando.
Nos meus primeiros anos em São Paulo, fechavam um trecho da
Avenida São João e ficava gente andando pra lá e pra cá. De vez em quando
passava algum “maluco” cantando e dançando, e tinha gente que olhava como se
aquilo fosse espantoso.
Presenciei também um “corso” na avenida Brasil. Eram carros
conversíveis andando vagarosamente, com pessoas de pé dentro deles, jogando
confete e serpentina nos outros carros ou em quem andava a pé na calçada ou no
meio dos carros.
Aqui, e em quase todas as médias e grandes cidades
brasileiras, tinha muito carnaval de salão, geralmente em clubes. Nunca fui,
mas me falavam muito da animação do carnaval no Juventus e não sei onde mais.
Não sei se ainda existe carnaval de salão aqui. Nunca mais
ouvi falar, parece que sumiu de vez. Muita gente preferia o carnaval de salão
por ser considerado mais “família”, digamos assim. Mas em alguns casos era mais
ostentação.
Houve carnavais de salão famosos, como os do Teatro
Municipal e do Hotel Glória, do Rio de Janeiro, frequentados por milionários,
com concurso de fantasias luxuosas.
As revistas O Cruzeiro e Manchete traziam páginas e páginas,
a Fatos e Fotos chegava a fazer edições especiais sobre esses carnavais.
Publicavam muitas fotos de páginas inteiras de um pessoal que desfilava com
fantasias que custavam mais do que pobre ganhava em muitos anos de trabalho.
Clóvis Bornay era um sujeito desses, que gostava de se fantasiar com coisas que
faziam referência as minas do Rei Salomão, Rainha de Sabá, faraós ou coisas do
gênero. Foi o mais famoso dessa turma, ao ponto de virar “hors-concours”, não
concorria mais. Só se exibia.
Era um desfile de exibicionistas, e imagino que não tinha
graça nenhuma. Claro que nunca vi um, mas, mesmo sendo um moleque, achava um
troço totalmente besta. Mas certamente tem quem tenha saudade disso.
O que sempre gostei foi do carnaval de rua, dos chamados
blocos de sujos. Participei de alguns. Um deles foi em Parati, com um bando de
pescadores e estudantes daqui de São Paulo. Depois participei de um bloco em
Olinda, num bloco que varou a noite. Mas não era tanta gente como hoje. Há
alguns anos estive em Angatuba, pequena cidade paulista com um grupo muito
ativo e animado.
Lá por 1981 ou 82, quando jovens de São Luiz do Paraitinga
resolveram peitar um padre que “proibia” o carnaval na cidade, criamos o “Peida
n’Água”, que compartilhava com outros blocos uma cantoria dançante pelas ruas
da cidade. O canto era no gogó. Nada de aparelhos de som. No sábado de manhã,
compúnhamos uma marchinha na chácara de um amigo, a uns oitocentos metros do
centro da cidade, e saíamos cantando e dançando. Na saída da chácara, éramos
umas quinze ou vinte pessoas, mas o bloco ia engrossando e chegava à praça com
umas duzentas ou mais pessoas.
Um ano decidimos: em vez de marchinha, bolero! Fomos
cantando o bolero “Maria Helena” e dançando (em pares, como nos bailes) até o
centro. Foi divertido.
Só que o carnaval de lá foi ficando grande demais e uns anos
depois caí fora. Vou muito a São Luiz do Paraitinga, e gosto, mas não no
carnaval.
Bom… Desfile de escolas de samba também é nas ruas. Mas não
tem muito a ver com o que considero “carnaval de rua”. Embora o desfile seja um
espetáculo grandioso e bonito, acho monótono e pouco divertido ficar olhando
escolas que se repetem. É muito formal. Tem um pessoal rico que fica em
camarotes, mais para se exibir do que para se divertir. E até pagam fortunas
para artistas internacionais se exibirem em alguns camarotes, para aparecer
como propaganda de cerveja na mídia.
Salvador tinha um carnaval que eu gostava, o trio elétrico,
mas eles ficaram grandes demais e para participar dele, passou a ser preciso
comprar uma roupa que antes era barata e se chamava mortalha, agora chama-se
abadá e custa caro.
E tem uma equipe de segurança enorme, separando com uma
corda, quem tem o abadá daquele trio elétrico de quem não tem. Só quem pagou
uma grana pelo abadá tem o direito de acompanhar dentro da área dos
privilegiados.
Repito: bom mesmo, pra mim, sempre foi o bloco de sujos. Um
grupo sai anarquicamente, cantando e dançando, e entra nele quem quer.
Geralmente eram blocos pequenos.
De uns três anos pra cá, houve uma explosão no carnaval de
rua em São Paulo. Centenas de blocos. E nem chegou o carnaval ainda. Um mês
antes as ruas já foram tomadas por multidões. Imagino como será o carnaval
mesmo! Nada contra, mas eles não têm o lado anárquico dos blocos de sujos. E
reúnem milhares de pessoas. Fico perdido no meio de tanta gente (coisas de
velho, dirão. Tudo bem).
Eles têm licença da prefeitura, roteiros pré-traçados,
horário para acabar e até patrocínio de empresas. É um carnaval disciplinado.
Vendo esses blocos enormes que tomam conta de várias ruas,
inclusive na Vila Madalena, onde moro, fico me lembrando de quando voltei a
morar em São Paulo, depois de uns tempos fora.
Fui trabalhar num prédio da avenida Paulista e, num final de
tarde, ouvi um batuque não muito afinado, vindo da rua. Abri a janela e vi um
pequeno bloco de sujos. Fiquei animado, mas logo caí na risada: o bloco parou
no sinal vermelho!
Bloco de carnaval que obedece semáforo? Coisas de São Paulo,
pensei. Quem podia imaginar o carnaval que hoje toma conta das ruas
paulistanas? Só que já estão tocando até rock no carnaval. Certo! Se tocamos e
cantamos bolero no bloco do “Peida n’Água”, por que não podem tocar outros
ritmos? Aí tem o rock. Coisas do Brasil de hoje.
Em termos de sucessos desse “Brasil de hoje”, a opção
sertanejo universitário não é melhor. Não mesmo!
Turbantes em Fúria: Episódio 1
Jovem com câncer é
acusada de apropriação por usar turbante e desabafa nas redes sociais
Nos últimos dias, um relato feito através da plataforma
Facebook tem ganhado popularidade e também gerou polêmica. Thauane Cordeiro,
uma jovem que luta contra o câncer, relatou ter sido abordada dentro de uma
estação de trem por uma mulher negra que a aconselhou a não usar o turbante por
Thauane ser branca.
A jovem relatou ter sentido olhares de desaprovação de
outras pessoas pelo acessório. O turbante é associado à luta e resistência
negra, além de ser um item que carrega identidade das culturas africanas e, por
esse motivo, é considerado por muitos um grande desrespeito, ato de racismo e
de #Apropriação cultural alguém que não seja negro utilizar-se do turbante.
Segundo o relato de Thauane, no momento da abordagem, ela
tirou o turbante e mostrou que usava o mesmo para cobrir a cabeça pois não
tinha cabelos, resultando do tratamento contra o câncer. “Tá vendo essa careca,
isso se chama câncer, então eu uso o que eu quero!”, foi a resposta de Thauane.
Ela disse, ainda, que a moça ficou com “cara de tacho” e declarou: “Não vejo
qual o PROBLEMA dessa nossa sociedade” e usou a hashtag #VaiTerTodosDeTurbanteSim.
A mesma justificou que “é só um pano”, opinião que foi duramente criticada e
argumentada em diversas plataformas, tendo virado assunto também no Twitter.
A foto que acompanhava a publicação mostrava Thauane,
caucasiana, vestindo um turbante. Devido a grande repercussão da sua postagem,
Thauane veio a público mais uma vez agradecer pelas palavras de conforto e
dizer que não esperava e que nem tinha a intenção de “causar” na internet ou
gerar brigas, assim como não teve a intenção de menosprezar o movimento negro
de qualquer forma.
Apesar das muitas críticas e brigas nos comentários, boa
parte do público quis saber mais sobre o atual estado de saúde de Thauane e
desejou melhoras à garota. Outros declararam que, apesar de sentirem-se
normalmente ofendidos com o uso de turbantes por brancos que “desrespeitam seu
valor cultural”, entendem que Thauane tenha a liberdade para usá-lo, devido à
sua doença.
Turbantes em Fúria: Episódio 2
Na polêmica sobre
turbantes, é a branquitude que não quer assumir seu racismo
Por Ana Maria Gonçalves
Quase toda cidade pequena – principalmente as de Minas – tem
seu louco de estimação. Aquele que toda a cidade conhece, cuida e por quem zela
como uma espécie de patrimônio. Ibiá, onde nasci, tinha o Zé Tem Dó; e foi com
ele que aprendi sobre o valor simbólico de certos objetos. Eu devia ter uns
quatro ou cinco anos. Minha mãe era costureira, e o Zé colecionava carretéis de
linha. Portanto, suas visitas à minha casa eram constantes, porque minha mãe
guardava todos os carretéis para ele e sempre oferecia algo mais, como um refresco,
uma roupa, um prato de comida.
Pensando que o Zé estava distraído, certa vez tentei pegar
em um destes carretéis. Ele se levantou com um pulo e, com mais dois, estava
parado na minha frente, protegendo os valiosos bens que, para minha mãe, eram
apenas sobras de trabalho. Saí eu correndo para o outro lado, assustada, com
medo. Zé pegou suas coisas e foi embora, conversando com um dos carretéis que
ele amarrava na ponta de uma linha e saia puxando. Era seu animal de estimação
ou seu carrinho, algo que ia muito além do que eu conseguia ou conseguirei ver,
a menos que um dia me torne um Zé e vá eu mesma virar folclore em uma cidade do
interior. Mas ali, naquele episódio, aprendi uma coisa da qual pretendo falar
aqui: o Zé não estava brincando com um carretel e nem nós estamos brincando com
um turbante.
Boa parte da população branca brasileira sabe de suas
origens europeias e cultiva, com carinho e orgulho, o sobrenome italiano, o
livro de receitas da bisavó portuguesa, a menorá que está há várias gerações na
família. Quem tem condições vai, pelo menos uma vez na vida, visitar o lugar de
onde saíram seus ancestrais e conhecer os parentes que ficaram por lá. E os
descendentes dos africanos da diáspora? Quando chegaram por aqui, os
traficantes de pessoas já tinham apagado os registros do lugar de onde haviam
saído, redefinindo etnias com nomes genéricos como Mina (todos os embarcados na
costa da Mina), feito-os dar voltas e voltas em torno da Árvore do Esquecimento
(ritual que acreditavam zerar memórias e história) ou passarem pela Porta do
Não Retorno, para que nunca mais sentissem vontade de voltar, separando-os em
lotes que eram mais valiosos quanto mais diversificados, para que não se entendessem.
Ainda em terras africanas tinham sido submetidos ao batismo
católico para que deixassem de ser pagãos e adquirissem alma por meio de uma
religião “civilizatória”, ganhando um nome “cristão” que se juntava, em terras
brasileiras, ao sobrenome da família que os adquiria. No Brasil, não podiam
falar suas próprias línguas, manifestar suas crenças, serem donos dos próprios
corpos e destinos. Para que algo fosse preservado, foram séculos de lutas, de
vidas perdidas, de surras, torturas, “jeitinhos”, humilhações e enfrentamentos
em nome dos milhares dos que aqui chegaram e dos que ficaram pelo caminho.
Como resultado disto, somos o que somos: seres sem um
pertencimento definido, sem raízes facilmente traçáveis, que não são mais de lá
e nunca conseguiram se firmar completamente por aqui. Temos, como diz a poeta,
romancista, ensaísta e documentarista canadense Dionne Brand, em seu
maravilhoso A Map to the Door of No Return, “o próprio pertencimento alojado em
uma metáfora”. Viver na Diáspora Negra, segundo ela, é “viver como um ser
fictício – uma criação dos impérios, mas também uma autocriação. É ser alguém
vivendo dentro e fora de si mesmo. É entender-se como signo estabelecido por
alguém e ainda assim ser incapaz de escapar dele (…).”
Somos signos criados pelos brancos para que nossa negritude
pudesse, e ainda possa, ser mercantilizada. E não conseguimos escapar disso
porque, de antemão, sem ao menos nos ouvir, vocês já parecem saber o que somos,
o que queremos, o que sabemos. Assim mesmo: a negritude, a militância, as
mulheres negras, esse povo – nunca seres individuais, mas sempre em lotes. E
vivemos nesta metáfora que, a partir de agora, vou passar a chamar de turbante,
mas poderia ser outro símbolo qualquer.
Viver em um turbante é uma forma de pertencimento. É
juntar-se a outro ser diaspórico que também vive em um turbante e, sem precisar
dizer nada, saber que ele sabe que você sabe que aquele turbante sobre nossas
cabeças custou e continua custando nossas vidas. Saber que a nossa precária
habitação já foi considerada ilegal, imoral, abjeta. Para carregar este
turbante sobre nossas cabeças, tivemos que escondê-lo, escamoteá-lo,
disfarçá-lo, renegá-lo. Era abrigo, mas também símbolo de fé, de resistência,
de união. O turbante coletivo que habitamos foi constantemente racializado,
desrespeitado, invadido, dessacralizado, criminalizado. Onde estavam vocês quando
tudo isto acontecia? Vocês que, agora, quando quase conseguimos restaurar a
dignidade dos nossos turbantes, querem meter o pé na porta e ocupar o sofá da
sala. Onde estão vocês quando a gente precisa de ajuda e de humanidade para
preservar estes símbolos?
Lembro de ter visto um turbante usado por um homem sensível
à causa das mulheres negras na Marcha das Mulheres, que aconteceu há pouco
tempo em Los Angeles, que perguntava: “Verei todas vocês, mulheres brancas
legais, na próxima marcha #VidasNegrasImportam, certo?”.
Vocês, mulheres brancas legais que querem se abrigar em
nossos turbantes, vão estar conosco enquanto choramos as mortes dos nossos
meninos negros e clamamos por justiça, certo? Vão usar turbante quando nossas
mães e pais de santo são expulsos de comunidades ou entregues aos formigueiros,
certo? Quando reclamamos da dor ao recebermos menos anestesia do que mulheres
brancas durante os partos, certo? Quando denunciamos que sofremos mais
violência, mais abuso e mais assédio do que vocês, certo? Quando reivindicamos
equiparação salarial com vocês, certo? Vão reverberar nossas vozes quando
reclamamos que somos preteridas pelos homens (brancos ou negros), certo? Vão
entender e ter uma palavra de consolo quando sentimos culpa por deixarmos os
próprios filhos em casa para cuidarmos dos seus, certo? Vão nos ouvir e nos
defender quando tiver mais alguém querendo invadir nossos turbantes a força, na
marra, no grito, certo? Porque aí, o turbante também já será de vocês. Vão
ouvir, entender e falar junto quando tentamos explicar que nossas
reivindicações, distorcidas, não têm nada a ver com pizza, calça jeans e feng
shui, certo?
Quando vocês dizem “Vou usar e pronto, quero ver quem vai me
impedir”, às vezes dá vontade de pegar vocês no colo, à moda das “mães pretas”
que devem ter povoado as vidas de muitos de vocês ou de seus ancestrais, e
dizer que isso não é comportamento de criança educada. E dizer que sim, algumas
coisas são de vocês, porque foram da bisavó de vocês, da avó de vocês, da mãe
de vocês e que, deste modo, a gente também poderia ter algumas coisas que são
nossas, herança de família. Quer ver: Pizza! (“É comida italiana!”). Acarajé –
do iorubá akara (bolo de feijão frito) + ijé (comida) – (É MEU! É do Brasil! É
de todo mundo!). Hashu´al (É israelita!). Congado (É MEU! É do Brasil! É de
todo mundo!). Quimono! (É japonês!). Ojá! (É MEU! É do Brasil! É de todo
mundo!). Kung Fu (É chinesa!). Capoeira! – do tupi ko´pwera ou do umbundo
kapwila – (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Abajur (Vem do francês!).
Moleque, quiabo, berimbau, samba, cafuné, zumbi… (É MEU! É do Brasil! É de todo
mundo!).
E depois somos nós os divisionistas, os egoístas, os que não
têm cultura, enquanto vários outros povos podem manter, sem controvérsia e sem
serem obrigados a colocar na roda (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!), as
“contribuições” que trouxeram para o solo brasileiro. Já entendemos que vocês
acham que é (sempre foi) tudo de vocês. Só que cansamos de ficar só nas
cozinhas, nos quartinhos, nos corredores, nas bordas das piscinas, sem sermos
incluídos nisso aí que vocês chamam de “povo brasileiro”. Cansamos de escutar
que não sabemos, não vemos, não entendemos, não queremos, não podemos. De ter
que pedir licença pra tudo, de ter que pedir desculpa mesmo quando somos os
ofendidos. Cansamos de servir quem nem sabe os nossos nomes. Cansamos de sermos
personagens de piadas das quais só vocês riem.
Quase todas as nossas discussões e toda a produção
intelectual acontecidas ali, sob nossos turbantes, são desligitimizadas pela
palavra de ordem #VaiTerBrancaDeTurbanteSim!, gritada para nós com a mesma
arrogância e espera de obediência que os donos dos nossos ancestrais gritavam
#NãoVaiTerCoisaDePretoAquiNão!. Coisas mil acontecem dentro desses nossos
turbantes, das quais vocês nem têm ideia: temos que formar redes de apoio,
invisíveis para vocês e alheias à sua existência privilegiada, para socorrer,
consolar, orientar e fortalecer vítimas de racismo cometido por pessoas que se
ofendem quando apontamos suas faltas, e viram vítimas.
Debaixo deste turbante orientamos crianças negras a não
levarem banana na lancheira porque os amiguinhos vão chamá-las de macacos.
Orientamos nossos jovens a não usarem roupa com capuz, não correrem, não
fazerem movimentos bruscos em público e não parecerem suspeitos, seja lá o que
isso significa para vocês. Sob a proteção destes turbantes, trocamos
informações, discutimos teorias, nos comunicamos com turbantes estrangeiros e até
fazemos vaquinhas para pagar enterro de jovens assassinados pela polícia.
Concordamos, discordamos, rimos, choramos, contamos segredos, gritamos, amamos,
odiamos, estudamos, dizemos uns aos outros que temos que ter infinita paciência
para voltar cinco, dez, vinte casinhas do ponto de entendimento em que estamos
para responder a egocentrismos do tipo “EU li Monteiro Lobato e não me tornei
racista”, “se EU usar turbante vou ser chamada de racista?”. Porque sabemos que
não são comentários nem perguntas inocentes, mas são também metáforas. São os
muros que protegem aqueles lugares que vocês habitam e nos quais não somos
admitidos, porque na porta sempre teve uma placa dizendo “brancos somente”.
O turbante que habitamos não é o mesmo. O que para você pode
ser simples vontade de ser descolado, de se projetar como um ser livre e sem
preconceitos, para nós é um lugar de conexão. Entre nós mesmos e com algo que
perdemos e que nem sempre sabemos o que é e por onde ficou. Habitar nossos
turbantes tem para nós o mesmo significado de “ir conhecer a vila onde meus
avós italianos nasceram”, ou “pude sentir na pele o que meus bisavós viveram
naquele campo de concentração”. Sim, porque, entre muitos outros, ele tem estes
dois significados: abrigo e dor.
Nós não tiramos sarro de vocês quando vocês defendem estes
lugares que fazem parte da história do seu povo. Nós não fazemos piadas com os
significados que estes lugares têm para vocês. Não não dizemos que são meras
construções de pedras e tijolos empilhados uns sobre os outros. Nós não os
chamamos de burros porque a nossa ignorância não nos permite entender o que
vocês falam destes lugares que lhes são caros porque trazem as marcas de seus
bisavós, avós, pais, e que continuarão a marcar as vidas de seus filhos, netos,
bisnetos. E, no entanto, temos que observar calados, sob a pena de tentarem nos
calar à força, como a bestas raivosas que vocês acham que nós somos – não é
ação, é reação! –, vocês meterem os pés nas nossas portas, invadirem nossos
turbantes com gritos de “VaiTerBrancaDeTurbanteSim!. Para vocês é morada
provisória, das quais vocês entram e saem conforme dita a moda e a vontade,
porque vocês têm sempre um lugar outro para onde ir, que é este da branquitude.
Nós não temos, porque nossa existência está cravada na pele, nossa morada está
acoplada às costas, à maneira dos caracóis. Nossa casa, para você, é fetiche, é
exotismo, é acessório, é fantasia. A nossa casa.
Na nossa casa, a gente não fala de turbante quando fala de
turbante. Dentre muitos dos seus nomes, o principal é racismo. É racismo quando
vocês acham que não sabemos do que estão falando. É racismo quando vocês
deduzem que precisam nos ensinar que pizza é italiana, que o algodão do pano do
turbante é indiano, que num mundo globalizado… etc etc etc. A gente tem que
voltar cinco, dez casinhas na discussão que vocês não estão acompanhando porque
não querem – mas se acham habilitados a dar palpite –, para nos nivelarmos ao
entendimento de vocês, só pra dizer: É o racismo, estúpido! E antes que
tenhamos que voltar mais trinta casinhas para ouvir os “eu não sou racista!”: É
o sistema, estúpido! E sendo ele estrutural e estruturante da sociedade
brasileira, faz com que você trabalhe para mantê-lo, quer você queira, quer
saiba, ou não.
Sobre apropriação cultural, a gente conversa depois de vocês
lerem, por exemplo, o artigo da filósofa Djamila Ribeiro, publicado muito antes
desta briga de vocês pelo turbante virar modinha. Ou o poema do mestre Nei
Lopes, colocado aí abaixo. Neste caso, podem ter certeza de que quando vocês
vêm com o fubá (do quimbundo “fuba” ou do quicongo “mfuba”), a gente já está
comendo o angú (provavelmente do fon “àgun”).
BRECHTIANA (para Abdias Nascimento)
Primeiro,
Eles usurparam a matemática
A medicina, a arquitetura
A filosofia, a religiosidade, a arte
Dizendo tê-los criado
À sua imagem e semelhança.
Depois,
Eles separaram faraós e pirâmides
Do contexto africano
Pois africanos não seriam capazes
De tanta inventiva e tanto avanço
Não satisfeitos, disseram
Que nossos ancestrais tinham vindo de longe
De uma Ásia estranha
Para invadir a África
Desalojar os autóctones
Bosquimanos e hotentotes.
E escreveram a História ao seu modo.
Chamando nações de “tribos”
Reis de “régulos”
Línguas de “dialetos”.
Aí,
Lançaram a culpa da escravidão
Na ambição das próprias vítimas
E debitaram o racismo
Na nossa pobre conta
Então,
Reservaram para nós
Os lugares mais sórdidos
As ocupações mais degradantes
Os papéis mais sujos
E nos disseram:
— Riam! Dancem! Toquem!
Cantem!Corram! Joguem!
E nós rimos, dançamos, tocamos
Cantamos, corremos, jogamos.
Agora, chega!
(Nei Lopes)
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