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quarta-feira, novembro 20, 2019

Racismo e Preconceito na obra de Mário Ypiranga Monteiro



Em 1964, o professor Mário Ypiranga Monteiro publicou o livro “Roteiro do Folclore Amazônico – Tomo I”, que pretendia fornecer à cultura regional “elementos de extraordinária atualidade e veracidade, ficando dispensadas de uma vez por todas as falsas interpretações arrivistas”.

O livro era o primeiro volume de uma coleção chamada “Etnografia Amazônica”, com um total de 17 volumes, cujo objetivo seria fornecer um atestado da nossa emancipação cultural no setor das invenções populares.

O pioneirismo da coleção, entretanto, apenas deixou claro o preconceito do escritor em relação à cultura negra que, no nosso entendimento, teve uma importância fundamental na formação da cultura popular amazonense.

Vejamos o que diz o professor nas páginas 27 e 28 do referido livro:

“(...) Nem cedendo um pouco no campo da flexibilidade (limiar da tolerância) se poderia admitir uma frente de aculturação negra rompendo certos padrões de cultura locais. Impossível. Não é científico, como método geográfico-histórico moderno, admitir francamente influências negras no folclore amazoníndio sem romper com a lógica e com os fundamentos da história insignificante do negro, cuja presença pelo número, precária pela participação econômica, medíocre pelo contingente tradicional, foge de qualquer senso científico especulatório.

Os que criaram a fábula das influências negras no folclore nacional (respeitado o que é autêntico e permanente) esqueceram obviamente de que à época seria impossível, pelas distâncias arrasadoras, pela ausência de meios de transporte, pela natural e cruel inimizade entre índios e negros, e por outros fatores locais, haver um contato permanente e, portanto, derrame e absorção da falada cultura negroide.

Ignoram os que defendem a influência negra na cultura amazonense que o infeliz estoque servil só deixou de sua incipiente passagem pela terra pequenas manchas, insignificantes manchas culturais que vão perdendo a significação completamente eliminadas pelas culturas branquilóide e indígena. (...)”

A patacoada com um verniz supostamente científico prossegue pelas páginas 30 e 31 da obra já citada:

“(...) Em que nos baseamos para estas afirmações tão categóricas? No conceito de valorização do elemento indígena como expressão étnica-cultural. Inferiorizado perante o índio, biológica e numericamente, e mais tarde ao branco, o negro – minoria esmagada pelo fatalismo servil – criou um padrão de comportamento diferente, capaz de sobrepor-se aos padrões locais? Não tivemos agricultura, nem engenhos, nem casa-grande. As senzalas foram risíveis e efêmeras em comparação com as de outras regiões do Brasil e nem chegaram a ter expressão.

Se falarmos nos seringais, onde alguns negros efetivamente trabalharam, a partir de 1858, no eito cercado do barracão, veremos que a única coisa que ficou a lembra-lo foi o tronco, instrumento de tortura que passou ignominiosamente a servir aos hilotas brancos. E note-se que o tronco não é uma invenção do tempo do escravo, nem sequer fora com ele inaugurado no Brasil, decorrentemente, pois vem de mais longe, dos momentos trágicos da Inquisição. Não criamos uma sociedade patriarcal fundada na economia nem sequer da borracha, muito menos na da cana de açúcar.

Os negros de Manaus, quiçá do Amazonas, mesmo nos dias atuais, são quase todos oriundos do Maranhão, Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Rio Grande do Norte, etc. Parece-me que a maior concentração de quilombos existiu no rio Madeira e só encontrei nas crônicas oficiais duas nomeações para capitão do mato. Talvez, não afirmo, esse quadro se reproduza nos demais povoados e vilórios de então, pelo menos nos principais onde o volume de pretos é escasso em relação ao índice populacional.

O que é certo, indiscutível, o que não pode ser negado, é que a entrada de negros no Amazonas não só se fez muito tarde (1778, com dois indivíduos) como o foi em pequena quantidade. Falando-se da Amazônia, então, podemos culpar ao excelente padre Antônio Vieira pela introdução dessa mácula, ao redor do século XVII. E essa pequena quantidade não teve força para introduzir na bacia, esparramando por todas as póvoas indígenas então difíceis de alcançadas e reduzidas, uma cultura expressada em termos de valores estéticos orais. Realmente era impossível e de todo contrário à lógica histórica e econômica. (...)”



O contrário à lógica histórica e econômica é corroborar com esses equívocos do professor Mário Ypiranga Monteiro. Basta nos lembrarmos de que até o início do século 19 os costumes, manifestações e rituais africanos eram proibidos em nosso país, pois não faziam parte do universo cultural europeu e nem representavam sua visão de mundo, do ponto de vista filosófico. Eram vistos simplesmente como retratos ou recortes de uma cultura atrasada e condenada ao fracasso.

Foi somente a partir do século 20 que começaram a ser aceitos e celebrados como expressões artísticas genuinamente nacionais e hoje fazem parte intrínseca da cultura tupiniquim. O número de manifestações culturais afro-brasileiras é gigantesco: Afoxé, Bumba-meu-boi, Cacuriá, Capoeira, Carimbó, Ciranda, Congada, Escola de Samba, Folia de Reis, Frevo, Jongo, Maculelê, Marabaixo, Maracatu de Baque Virado, Maracatu de Baque Solto, Marujada, Negro Fugido, Reisado de Congo, Samba de Coco, Samba de Roda, Samba de Terreiro e Tambor de Crioula, para só citar algumas.

Essa nossa pequena contribuição sobre o assunto nasceu da necessidade de fazer um contraponto aos preconceitos divulgados pelo professor Mário Ypiranga Monteiro. Ela também tem a pretensão de mostrar que 80% da cultura popular amazonense, incluindo o folclore, sofreu forte influência direta ou indiretamente da cultura negra, afirmativa já corroborada pelo primoroso livro “O Fim do Silêncio – Presença Negra na Amazônia” (Edições Açaí / CNPq, 2011), organizado por Patrícia M. Sampaio e leitura obrigatória para quem se interessar pelo assunto.

Aliás, no livro “O Negro no Pará, sob o Regime da Escravidão” (Universidade Federal do Pará / Fundação Getúlio Vargas, 1971), um dos títulos da “Coleção Amazônica: Série José Veríssimo”, o cientista social Vicente Salles escreve textualmente que “a lúdica amazônica, no que tem de mais representativo, é essencialmente africana”.

(...)


(Texto extraído do meu novo livro “Marupiara – Antologia dos Festivais Folclóricos do Amazonas”, atualmente em fase de editoração eletrônica)

Maracatus: as diferenças entre o baque virado e o baque solto



Por Alexandre Acioli

A afirmação de que os “maracatus são todos iguais” não é verdadeira. Maracatus são diferentes; iguais só na alegria. Folião não precisa ter conhecimento aprofundado sobre os maracatus, mas é interessante, pelo menos, saber o que diferencia esses grupos de brincantes.

Não cabe aqui aprofundar essa discussão, mas quem se interessar pelo tema pode recorrer à leitura de alguns escritos de pesquisadores como Câmara Cascudo, Mário de Andrade e Guerra Peixe, que centraram a atenção na questão da origem dessas manifestações culturais.

Em Pernambuco temos Maracatus de Baque Virado (Maracatu Nação) e Maracatus de Baque Solto (Maracatu Rural). São manifestações com características diferentes e bem definidas. Os elementos que compõem os grupos diferem nos personagens, na estrutura estética, nos instrumentos e nas particularidades musicais. O olhar mais atento, a escuta das loas e toadas bastam para identificá-los e diferenciá-los.


O Maracatu de Baque Virado tem suas origens na instituição dos reis negros, conhecida em Portugal desde o século XVI. Em Pernambuco, os estudos apontam o ano de 1674 como data dos primeiros registros de coroações de soberanos do Congo e de Angola, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Recife. Esses cortejos passaram a acontecer também no Carnaval e receberam, na época, a denominação de maracatus - conotação pejorativa para denominar “ajuntamento de negros”.


Já o Maracatu de Baque Solto surgiu na Zona da Mata Norte pernambucana, no final do século XIX, como “brincadeira de cambindas” (homens que se vestiam de mulher), uma brincadeira eminentemente masculina. É o resultado da junção cultural de diversos folguedos populares da região canavieira, como o bumba-meu-boi, o pastoril, o cavalo-marinho e o reisado. Nele não existe a Corte Real e o seu maior destaque é a presença do caboclo de lança, também chamado de lanceiro ou caboclo de guiada.


Os personagens também são diferentes. As figuras tradicionais dos Maracatus Nação são a Dama do Paço, mulher responsável pela condução da calunga (ícone detentor do axé do maracatu); Rei e Rainha; as Baianas de Cordão (com roupas de tecidos estampados) e Baianas Ricas (vestidas de branco, com turbantes e cordões coloridos que fazem alusão à cor de cada orixá) e o Caboclo “Arreia Mar” (Caboclo de Pena), figura vinculada especialmente às práticas da Jurema Sagrada.

A orquestra é formada apenas por instrumentos de percussão (tarol, caixa de guerra, gonguê, alfaias, abês e atabaques). O comando do batuque (ou baque) é do Mestre de Apito, que conduz as batidas e toadas, também chamadas de zuelas ou loas.


Nos Maracatus Rurais os caboclos de lança, transformados em símbolos da cultura pernambucana, são destaque à parte: camisas estampadas de mangas longas e calças de chita com franjas; rostos pintados, óculos escuros e cravo branco na boca. Carregam nas costas um surrão onde estão presos os chocalhos (em número ímpar, “para não dar azar”). Na cabeça, um lenço e uma enorme cabeleira com tiras de pano colorido; nas mãos, uma lança de madeira medindo cerca de dois metros.

As manobras, ordenadas pelo Mestre, são feitas em torno do cortejo. Esse tipo de maracatu apresenta quatro tipos de cantoria: marcha (sempre de quatro versos), samba curto (de quatro a seis versos, o tipo mais comum), samba comprido (geralmente de 10 versos, mas podendo ter até vinte), e o galope (normalmente de seis versos).

Então folião, se você chegou até aqui, agora sabe que os “maracatus não são todos iguais”. Existem maracatus e maracatus.

terça-feira, novembro 19, 2019

Boi-bumbá em Manaus: tradição de mais de 160 anos!



Pai Francisco (Zé Wilson), Padre (Marquinhos) e Mãe Catirina (Mestre Ronaldo), figuras típicas do bumbá Tira Prosa, de Santa Luzia

O médico Robert Christian Barthold Avé-Lallemant nasceu em Lübeck, Alemanha, em 25 de julho de 1812, e faleceu nessa mesma cidade, em 13 de outubro de 1884. Após estudos em Berlim, Heidelberg e Paris, formou-se em Kiel, em 1837. No ano seguinte, foi para o Rio de Janeiro, tornando-se médico-chefe de hospital. Atuou no combate à febre amarela.

Retornou à Alemanha em 1855. Dois anos depois retornou ao Brasil, sendo nomeado médico do Hospital dos Estrangeiros. A partir daí, realizou várias viagens ao Sul e ao Norte do Brasil.

Avé-Lallemant foi, antes de tudo, um médico. Entretanto, ele oferece em suas obras os resultados de suas observações e impressões em várias regiões brasileiras. Para a história cultural dessas regiões, os dados que oferece são de grande importância como testemunho ocular de “alguém de fora”.

A sua contribuição à história da medicina no Brasil ainda está à espera de estudos mais pormenorizados. Avé-Lallemant surge como um exemplo de médico com interesses culturais diversificados e assume uma posição histórica nos estudos das relações entre a medicina e os estudos culturais.


O próprio Avé-Lallemant salientou, no prefácio de suas edições das viagens pelo Sul e pelo Norte do Brasil, que fazia as suas observações apenas como um “simples médico de hospital”:

“Quase nada tenho a acrescentar ao prefácio, já enviado para a minha Viagem pelo Sul, ao desta Viagem pelo Norte. É a repetição do pedido de indulgência para a narração dum médico de hospital, que nunca teve pretensões ao nome de naturalista, seja zoólogo, botânico ou mineralogista. Contando com a indulgência solicitada, conservei também este texto tal qual o escrevi durante minha viagem, na Bahia, Canavieiras e pelos rios locais, mais tarde em Pernambuco e Maceió, no Pará, em Manaus e Tabatinga, na fronteira peruana, sem alterá-lo, limitando-me, apenas a algumas correções nos apontamentos então escritos.”

As observações de Avé-Lallemant relativas aos índios cristianizados da Amazônia adquirem relevante significado etno-musical e histórico-musicológico. Com a sua obra, contribuiu grandemente para a difusão, na Europa, de conhecimentos das expressões culturais amazônicas de cunho católico.

Segundo ele, os tapuios de Manaus eram fervorosos católicos, fascinados pela riqueza de formas do culto, pela variedade das vestes sacras, pelo incenso e pelos repiques de sinos. Essa religiosidade cristã parecia-lhe misturada com paganismo, o que se manifestaria nos festejos da véspera de São João. A dança de arcos, com cantos e movimentações rítmicas – de resto conhecida em tradições de outras regiões do País e da Europa – poderia ser comparada, segundo Avé-Lallemant, com algumas danças dos Mares do Sul.


De particular interesse para o estudo das tradições culturais da Amazônia é o detalhado relato de Avé-Lallemant a respeito da brincadeira do boi-bumbá, que ele conheceu em Manaus, quando aqui chegou em 1859, ou seja, há 160 anos.

Com a sua pormenorizada descrição, o médico apresentou aos leitores europeus, pela primeira vez, uma imagem bastante expressiva dessa importante manifestação cultural da região, cujo texto original depois foi incluído no seu livro “Viagens no Rio Amazonas”:

Vi um outro cortejo, logo depois de minha chegada, desta vez em homenagem a S. Pedro e S. Paulo. Chamaram-no bumba. De longe ouvi de minha janela uma singular cantoria e batuque sincopados. Surgiu no escuro, subindo a rua, uma grande multidão que fez alto diante da casa do Chefe da Polícia, e pareceu organizar-se, sem que em nada pudesse reconhecer.

De repente chamas dalguns archotes iluminaram a rua e toda a cena. Duas filas de gente de cor, nos mais variegados trajes de mascarados, mas sem máscaras – porquanto caras fuscas melhores – colocaram-se uma diante da outra, deixando assim um espaço livre.

Numa extremidade, em traje índio de festa, o tuxaua, ou chefe, com sua mulher; esta era um rapazola bem proporcionado, porque mulher alguma ou rapariga parecia tomar parte da festa.

Essa senhora tuxaua exibia um belo traje, com uma sainha curta, de diversas cores, e uma bonita coroa de penas. O traje na cabeça e nos quadris duma dançarina atirada teria por certo feito vir abaixo toda uma platéia em Paris ou Berlim. Diante do casal postava-se um feiticeiro, o pajé; defronte dele, na outra extremidade da fila, um boi.

Não um boi real, e sim um enorme e leve arcabouço dum boi, de cujos lados pendiam uns panos, tendo na frente dois chifres verdadeiros. Um homem carrega a carcaça na cabeça, e ajuda assim a completar a figura dum boi de grandes dimensões.

Enquanto o coro acompanha o compasso do batuque, entoando uma espécie de bocca chiusa monótona, o pajé, o feiticeiro, avança em passo de dança para seu par e canta:  “O boi é muito bravo / Precisa amansá-lo”. 

O boi não gosta disso e empurra com os chifres seu par, também dançando, para trás, para o lugar do tuxaua. Mas, com a mesma fórmula amansadora, o pajé dança e empurra o boi novamente para trás, e depois este o pajé, e assim durou a singular dança, em meio de toda sorte de voltas e trejeitos de ambos os atores, diante de cuja exibição, mesmo o mais mal-humorado dos solteirões não poderia ficar sério por muito tempo e indiferente ao ritmo do maracá e ao canto dos circunstantes.

Por fim, o boi fica manso, quieto, absorto, desanimado, cai por terra, e no mesmo instante tudo silencia. Reina em volta um silêncio de Morte!

Que aconteceu ao boi? Está morrendo ou já morto, o bom boi, que ainda há pouco representava tão bem seu papel? Chamam depressa outro pajé para socorrê-lo; dantes iam mesmo buscar um padre, que devia meter-lhe na boca o santo viático. Isso, porém, é proibido agora, e tem de contentar-se com o pajé.

Este começa a cantar diante do boi uma melodia muito sentida que, porém, não mais eficaz, mas em vão; o boi imóvel! E depois de sozinho, nada ter conseguido, toda a companhia ajuda, infelizmente, porém, com o mesmo resultado. O boi está morto.

Irrompeu então, acompanhada de cânticos, uma dança de roda, em saltos regulares e cadenciada, que exigia certamente apurado estudo e ensaios. As mãos na cintura, formando uma longa cadeia, todos os dançarinos dão a um tempo um passo para a frente e outro para trás com o pé direito, fazem então a pausa dum compasso inteiro, e repetem os mesmos movimentos com o pé esquerdo, com graciosos meneios do corpo para o lado que faz os movimentos. Dançam assim em volta do centro, perto dos archotes atirados junto do boi, o que faz com que os variegados vultos animados produzam maravilhosos efeitos de luz.

Cantam particularmente sobre a palavra lavandeira, como pronunciam o vocábulo lavadeira, que lhes dá um lenço limpo, para que possam fartar de chorar, e que provavelmente deverá lavar também o boi.

O pajé, porém, canta sempre, nos intervalos, versos aparentemente improvisados, exatamente como num descante vienense, levando nisso muito tempo. E, como, por fim, todos devem estar convencidos da triste realidade da morte do boi, decidem-se, como último grande ato, por uma intimação geral cantada: “(...) chora / O boi já vai-se embora”. Isto é, vai ser enterrado

E partem cantando e batucando, com seu boi, enquanto este, exatamente como um herói morto de teatro, depois de cair o pano, resolve, por uma louvável consideração, acompanhá-los com os próprios pés, isto é, com os que o tinham trazido; param na primeira esquina, e assim repetidamente, até altas horas, correndo cinco ou seis vezes na mesma noite.

Até onde se vislumbram aí, o espírito e alusão ou reminiscência duma antiga festa na selva, não posso dizer. Para mim também representava, com seus coros e saltos cuidadosamente cadenciados, algo atraente, algo de lídima poesia selvagem.

Se o boi parece representar um papel prosaico, então aconselho ir a Paris, pelo carnaval, e procurar lá o boeuf gras, atrás do qual toda Paris corre, sobretudo os Faubourgs St. Marceau e St. Antoine, onde a alta sociedade olha pelas janelas, tensa como se aguardasse a passagem de um herói, dum César.

Assim a grande tragédia inglesa faz puxar o carro do seu tribuno popular, a plebe romana que ainda ontem ovacionava Pompeu para hoje aclamar César. No carnaval, porém, o parisiense contenta-se em deixar viver o boeuf grass, enquanto em Manaus na véspera de São Pedro e São Paulo, o que agrada é o “boi bravo”.

A propósito devo consignar que o odor do povo de Paris, por ocasião destas aglomerações, é extraordinariamente penetrante, e se deve chamar fétido, ao passo que o do bom povo de Manaus, sobretudo das raparigas fuscas, com os cabelos escorrendo, cheira à água do Rio Negro ou a uma odorífera flor de jenipapeiro, presa atrás da orelha. 

segunda-feira, novembro 18, 2019

A Carta do Fuás



Por Luis Fernando Verissimo

(Descoberta recentemente, por acaso, dentro de uma caixa de sapatos na Torre do Tombo, a carta de Fuas Roupinho, escrivão da frota de Cabral embarcado com Vasco de Ataíde na nau dada como desaparecida, e que um vento misterioso impeliu para a costa brasileira e, segundo o seu autor, para 500 anos depois, dá uma visão holística da nova terra, pois as versões de Fuas e de Vasco de Ataíde sobre o que viram no ano 2000 não podiam ser mais diferentes, e mostram as duas maneiras como o futuro do Brasil foi imaginado pelos descobridores. Já que a carta, ao que tudo indica, é imaginária.)

Posto que as notícias do achamento da terra nova já são da vossa ciência por relato de Pero Vaz de Caminha e outros, resumirei minha conta do que já sabeis, rogando o perdão de Vossa Alteza para o pecado que um escrevedor mais teme, o da redundância. Também rogo a Vossa Alteza que não duvide da minha sanidade, estou lúcido e verdadeiro como só um condenado pode estar. Não porei aqui mais do que aquilo que vimos, ouvimos e nos pareceu, a mim e a Vasco de Ataíde. Pois quem vos escreve é Fuas Roupinho, escrivão embarcado com Vasco de Ataíde na nave tresmalhada, de cujo desaparecimento vos deu conta o Caminha.

Mudo de parágrafo para que Vossa Alteza refaça-se do susto que lhe causaram meu nome e o do meu capitão. Faz parte da arte de escrever a distribuição sagaz de espaços abertos, como os jardins nas casas mouras. Assim respira o texto e respira o leitor. Toda arquitetura, de pedra ou palavra, deve ter aberturas bem-postas por onde circule o ar e cure-se a opressão, e não pretendo que esta carta seja uma enclausura onde vosso espanto procure a saída em vão, como uma freira tomada de fogos, um fantasma novato num mausoléu, ou um traque num calção. Respire, rei, e prepare-se para estranhezas. Vossos navegadores não vos deram apenas este mundo, destamparam muitos outros. Horrores e maravilhas, horrores e maravilhas.

Portanto, Senhor, do que hei de falar começo e digo:

A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março.

Sabe também Vossa Alteza que o mais difícil das viagens não é o Mar e as suas fúrias e o Desconhecido e seus monstros, o mais difícil é sair de Portugal. Somos a raça da saudade, eternamente divididos entre o chão e o além, entre o ficar e o ir. Portugal, com os braços e a garganta da minha mulher, me segurava no cais, como se o Restêlo fosse vivo e chorasse e ralhasse. As pragas da minha mulher não se dirigiam só a mim, mas a todos os navegadores, a todos os homens que viajam, a todos da História que não ficaram. Para o que queria mais mundo quem já tinha Portugal? Tudo, disse ela, pela vaidade, pela fama vã, pelo que tira o Homem de casa.


Ali, sobre o cais, éramos menos uma família do que uma alegoria. Um quadro do Portugal indeciso entre ser o que já era e ser outro, entre o campo e o mar, a agricultura e a epopéia, a amável pequenez e a odiável, mas soberba, conquista. Minha Maria bem representava o Portugal agropastoril que precisava ser deixado, com sua cor de terra virada, seus tufos, seus cheiros e suas lamúrias reincidentes. Eu me via como o Portugal que precisava ir, e substituir a epopéia semanal de descobrir Maria sob os seus camisolões, sempre a mesma Maria, repetindo-se como as estações, e montá-la, pela aventura de descobrir novas terras sob outros céus, e ocupá-las.

Era o passado que me segurava, era o Tejo que molhava o meu ombro, perguntando-me para o que queria mais água quem já tinha tal rio. Desgrudei-me finalmente dos braços de Maria, mas as suas pragas me seguiram como cachorros raivosos, rampa acima. Ela nunca entendeu que saímos de Portugal para ter saudade de Portugal, que Portugal na nossa saudade é como Portugal preservado numa salmoura de afetos. Que entre o aqui e o lá, preferimos o lá, mas estando aqui.

Domingo, 22 do dito mês, às 10 horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde. Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu de nós o resto da frota, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para os achar, a uma e outra parte, mas não mais apareceram, até meses mais tarde, quando os reencontramos neste porto de Calicute, onde comparamos aventuras sob a sombra das cimitarras árabes, que em breve nos atacarão. Pois também chegamos ao mesmo sítio a que chegaram Cabral, Caminha e os outros, mas não ao mesmo tempo, e sim 500 anos depois.

Vê Vossa Alteza que abri outro espaço para vosso desfalecimento, ou qualquer outra manifestação coreográfica de incredulidade. Enquanto vos refazeis, conto o meu conhecimento do Caminha, que se pode medir em garrafas, az-zebibs e anos de conversa nas tabernas de Lisboa. Tão bem ele me conhece que garantirá minha honestidade. Aliás, foi de Caminha a idéia, lançada numa mesa de escritores da Alfama, de viajarmos todos com a esquadra de Cabral num barco só de escrivães, abandonada quando nos vimos discutindo se o barco precisaria de um piloto ou se nossas interpretações das nuvens e exegeses criativas das correntes nos levariam ao destino, qualquer destino, e então descobrimos que o vinho nos empurrara, como solerte vento levantino, para a Terra da Bobagem.

Seria o barco mais divertido da frota, ainda que dado a derivas depressivas, polêmicas corcoveantes e conflitos de estilos a bordo, e o único que os choques de teses e vaidades ameaçariam mais do que as tormentas do Mar Oceano. E que não dependeria de chegar a nenhuma terra para descrever seus sortilégios, pois qualquer guirlanda flutuante é uma Ilha Afortunada, se bem imaginada, qualquer lombo de baleia a Última Thule das lendas gregas, se bem contado. Mas sabe o Caminha que não invento, pois não se comem tantas azeitonas com um homem sem lhe conhecer o coração. E do Vasco de Ataíde não se duvide, pois é um nobre português e descrer da nobreza é desesperar da Humanidade.


Vimos-nos sozinhos num mar sem ondas, o Tejo sem as margens, com as velas murchas e os olhos grandes. E subitamente alguém apontou com terror para o horizonte e todos viram um rosto gigantesco com as bochechas estendidas, como os sopradores de vento que ilustram os mapas, e de tal força foi o sopro dos seus lábios quilométricos que o barco disparou sobre a água com as velas insufladas ao máximo e todos agarrados ao fixo mais próximo que os salvasse de ficar para trás, e sentimos que tínhamos sido impelidos para outro mar, ou o mesmo mar em outro mundo. E houvemos vista à terra e vimos o que viu Caminha. O monte a que chamaram Pascoal e as serras mais baixas e a terra chã. Mas o que vimos e fizemos depois em nada se pareceu ao que viram e fizeram eles. Pois, Senhor, tínhamos passado por um portal do tempo e chegamos à vossa nova terra quando nova já não era.

No ancoradouro em que aportamos, 500 anos depois, haviam barcos fundeados, obra de 10 ou 12, mas que pouco se pareciam com as naus de hoje. Vimos que no futuro o velame será imenso, o que permitirá que os barcos cheguem a vários andares de altura e várias funduras de quina, e com tal amplidão que seria possível aos navegadores portugueses atenderem ao secreto desejo da sua alma e levarem o Restêlo na viagem. Mas o Restêlo lá já estava! Além do cais erguia-se uma cidade não muito diferente de Lisboa ou do Porto.

Nossa chegada foi saudada com fogos de artifício e bandeiradas, tiros de pólvora seca das naus e muito ruído da multidão. Desfilamos, escoltados, pelas ruas da cidade, vendo de perto a felicidade e a prosperidade de todos, e todos nos festejavam sem que para isso houvesse razão forte. Depois se explicou a alegria: tomaram a nossa nau como uma réplica das naus de 500 anos antes, e nossa chegada como uma comemoração do achamento da Papagália, pois assim será chamada a terra nova no ano 2000.

De nada adiantou falar do portal do tempo e do vento misterioso que nos lançara da costa da África para a costa do inexplicável. Não o entenderam e riram-se muito, e nos discursos que fizeram no banquete em nossa honra, em sua língua arrevesada que parecia português falado pelo nariz, julguei ouvir elogios aos recém-chegados, que tinham cruzado o oceano não numa casca de noz, mas numa imitação de casca de noz e mereciam tantos brindes com aguardente quanto era grande a sua coragem. Naquela noite todos os tripulantes dormiram com sete mulheres cada um, pardas e brancas, salvo o Ataíde, que dormiu abraçado com um crucifixo. E só eu encanei quatro, por diante e por trás, antes de sumir dentro de mim num sorvedouro de aguardente. E vi que no banquete o aguardente era servido a todos em taças de ouro.


Já o capitão viu outra coisa. Para Vasco de Ataíde os tiros de recepção no porto não eram de festim, eram de verdade, fomos escoltados através das ruas da cidade e das suas multidões maltrapilhas como prisioneiros, o banquete não foi um banquete, foi um interrogatório, e os brindes foram orações de exorcismo, pois nos tomavam como enviados do Demônio. Contou Ataíde que, contrariando sua natureza fidalga, teve de mentir como um cigano, dizendo que não éramos uma manifestação maligna, mas estávamos a recriar a viagem de 500 anos antes, em todos os detalhes, do velame aos cadarços e dos calções ao sotaque.

E fez isso com grande dificuldade, pois em 500 anos o Homem, se aprendeu a construir barcos gigantescos, desaprendeu o latim. E assim os bispos, pois eram bispos, aceitaram que não éramos visitantes de outro mundo e sim encenações dos primeiros portugueses. E se isso pouco mudou seus humores, pois ali não tinham grande veneração pelos antepassados nem achavam que seu começo era de muito se festejar, pelo menos, segundo Ataíde, nos salvou da grelha. Mas fomos avisados para não nos misturarmos ao povo do Novo Portugal, pois assim Ataíde entendeu o nome futuro de Vera Cruz. O povo era ignorante e supersticioso, e mal distinguiria uma falsa pronúncia antiga de uma das línguas do Diabo. E Vasco de Ataíde confirma que o vinho era servido em taças de ouro, mas só para os senhores e os bispos.

Na vossa nova terra, Senhor, tudo será compartilhado e o que for de um será de outro. Das histórias conservadas do achamento, como relatou Caminha, as mais contadas em Papagália serão as das trocas com o gentio. De como os portugueses davam barretes vermelhos e carapuças de linho e sombreiros e recebiam em troca muito mais do que davam, e para cada barrete recebiam 10 cocares, para cada carapuça 12 colares e para cada sombreiro 20 papagaios.


Em Papagália, nos dias de festa, os nobres dão tudo do que é seu para os plebeus, e os plebeus dão tudo do que é seu para os nobres, e os nobres vivem como plebeus e os plebeus como nobres até a festa seguinte, quando destrocam tudo, pois a terra é rica e haverá para todos. Mas assim não viu meu capitão, Vasco de Ataíde, para quem o resultado de 500 anos em que um chapéu português valerá 20 papagaios na nova terra e um papagaio valerá 20 chapéus novos em Portugal será uma classe de nobres com 20 vezes 500 mais chapéus do que a outra, e que não trocará nada com ninguém.

Vimos, para a alegria de Vossa Alteza, o ouro e a prata que Cabral e Caminha não viram, e vimos a sua abundância. Ouro, prata, diamantes, tudo tem a vossa terra para ter Felicidade. E será feliz (digo eu) e não será feliz (diz o Ataíde). Vi que todos beberão em taças de ouro, viu o Ataíde que disso só farão os senhores e os bispos. Vi putos do tamanho da minha meia-perna jogando com diamantes nas ruas, enquanto Ataíde só viu diamantes nos jogos da corte, onde um dos costumes é comê-los e cagá-los, pois descobrindo diamantes no próprio barro os nobres têm o prazer diário da garimpagem sem o desconforto da aventura ou de deixarem o litoral, além da lembrança da sua superioridade sobre bestas e pobres com sua merda sem conteúdo, e, mais ainda, saúde, pois a passagem de diamantes enobrece tripas que de outra forma seriam só tripas.

Para mim o encontro da inocência dos pardos com a bondade lusitana inaugurou um país como antes não havia, “Dulcia incógnita”, doçura inédita, uma Arcádia portuguesa. O povo é o mesmo que Caminha viu nas praias, mas com uma alma cristã e 500 anos de educação clássica e atruística, além das vergonhas tapadas, e com eles muitos portugueses queimados do sol e igualmente pardos.

Fazem tão pouco da vã fortuna de todos que a prata é usada nos telhados e nos urinóis. Já Ataíde diz que encontramos o Paraíso antes da Queda, adões e evas antes da Culpa Feliz que os condenaria e salvaria, pois é preciso pecar para ser regenerado. E diz que salvamos os inocentes corrompendo-os, trazendo-os como comparsas ou escravos para a corrente da História, para o pântano do vício, para a ambição e o comércio e o torvelinho das dúvidas, para que tais provações lhe dessem o paraíso depois da Morte. Em Novo Portugal, no ano 2000, Vasco de Ataíde viu um antevestíbulo da Eternidade onde pardos e plebeus juntavam misérias para merecer lugares no Céu e senhores juntavam riquezas para comprá-los, e os bispos intermediavam.


Aqui em Calicute, muito discutimos com Caminha e os outros o fato de os pardos usarem arcos e setas como as usávamos antes de a pólvora nos trazer suas bênçãos, pois certamente eles não tinham notícia das Escrituras, onde os homens da Europa tinham buscado suas artes de matar com distância: a funda de Davi, as lanças dos essenitas e os arcos e as setas dos assírios no cerco de Jerusalém. Uns desconfiam que aqueles homens são descendentes de uma das tribos perdidas de Israel, o que explicaria o seu conhecimento bíblico, do que outros discordaram, visto que nenhum tinha as vergonhas circuncidadas. Outros pensam que o arco e as setas foi uma idéia que nasceu com o homem e era uma das ciências naturais de Adão, ao contrário da besta e das armas de fogo, produtos da civilização moderna.

Contei que em 2000 haverá bestas de seis e sete e até oito setas apontadas para todos os lados menos para trás, para caçar de tudo menos o caçador, mas as maiores armas de guerra serão gigantescas Catapultas Hipotéticas, enormes instrumentos de ataque que ninguém saberá como funcionam, dado que Papagália não fará guerra com nenhuma outra ilha. Haverá um exército só para manter, pintar, polir e azeitar os grandes instrumentos que não terá como disparar, pois o único que sabia morreu sem passar o segredo, já que nunca foi necessário. E as Catapultas Hipotéticas ficarão em seus lugares e só sairão para desfilar em dias de festa cobertas de crianças e flores.

Em Papagália a pólvora só será usada em fogos de artifício e folguedos de rua, e só haverá explosões nos ares em dias de grande festa. Concordei que arco e setas é uma das ciências naturais que Deus insuflou em Adão pelas narinas, só não tendo certeza como a ciência passou dos descendentes de Adão para os outros seres, como os que encontraram em Vera Cruz, e por que os outros seres, imitando o arco e as setas, também não imitaram as falas e as vestimentas cristãs. Vasco de Ataíde diz que Novo Portugal será fortificado, pois muitos serão os inimigos que cobiçarão nosso entreposto privilegiado para as especiarias do Oriente, e os exércitos existem para garantir o comércio. E sobre o arco e as setas disse Vasco de Ataíde que são a única coisa comum a todos os homens da Terra, cristão ou não, além do membro desonesto, circuncidado ou não.

Em Calicute também muito falamos das moças da nova terra, e das suas vergonhas altas e cerradinhas, tão limpas de cabeleiras, como as viram Caminha e os outros. E ouvindo sobre as partes glabras das moças, lembrei-me da minha Maria, cujo vaso natural tem a cercá-lo um jardim chumacento como um quintal das Terras Altas onde muito chove, e como existem sob as fraldas nobres que conhece Vossa Alteza, salvo se na corte for diferente. E se me subiu, num mesmo assomo, a saudade de Portugal e a ventura de aí não estar.


Contei que 500 anos depois muito se falará de outros éfes, além de Fortuna, Fama e Fé, que chamarão os navegadores para os outros mundos. Éfes de Fêmeas Formosas com suas Fendas Fabulosas e Fechadas, mundos onde os montes das moças serão lisos e à toda vista e os montes da terra serão luxuriantes, ao contrário da Europa, onde os montes das moças vicejam escondidos e os montes da terra são lisos. E o mundo e a História agradecerão o quanto devem às partes peludas da Europa.

Em Papagália todos andarão com suas vergonhas tapadas, mas as destaparão para as festas e para o banho diário, que será público, no mar. Em 2000, homens e mulheres se vestirão da mesma maneira e só se lhes conhecerá o gênero quando se destaparem, e não existirá qualquer pejo em se mostrarem o um ao outro antes da cópula, para saber o que o um pode fazer com o outro, ou se vale a pena.

Parecem todos despreocupados e felizes e pouco trabalham, pois riqueza há para todos, e frutas e legumes para quem pegar. Vasco de Ataíde diz que não viu homens e mulheres copulando como animais contentes, não viu nobres e plebeus colhendo as mesmas frutas e legumes, ou nobre brando e plebeu feliz, ou todos se entregando juntos ao vício árabe do banho frequente, e que o que Portugal dará ao mundo, louvado seja Deus, será outro Portugal.

Em Papagália, os papagaios terão grande prestígio e devoção. Em 500 anos de convívio com os portugueses e intercâmbio com a Terra Mestre desenvolverão um português próprio, que usarão com desenvoltura. Terão a expressão, a inflexão, a entonação e a garrulice humanas, mas não terão o raciocínio, e se manifestarão sobre todos os assuntos com grande animação, mas pouco sentido. O que será a causa do seu prestígio e devoção entre as gentes, pois darão a impressão de transmitir idéias quando apenas transmitem barulho agradável, e em Papagália barulho terá mais valor do que idéias, por ser mais pacífico.

Serão tão amados os papagaios que terão privilégios que os bispos e os nobres não terão no Segundo Paraíso, e serão chamados de “Comunicadores” em gratidão por nada comunicarem. Para Vasco de Ataíde, em Novo Portugal os papagaios serão venerados e formarão uma casta, mas serão mantidos pelos bispos e os nobres para distrair os plebeus e os pardos das suas misérias. Pois que tudo dizendo e não dizendo nada, pouparão o gentio de ter idéias articuladas, e dos malefícios do pensamento.


Em Papagália todos são súditos do rei de Portugal, vosso descendente, Alteza, mas na ilha não há governo, pois não carecem de nada do que faria um governo. Não usam dinheiro, portanto não precisam de impostos. Não fazem guerra, portanto basta um exército autogerido para polir as Catapultas Hipotéticas. E para os debates sem serventia e o divertimento, que são as outras funções do governo, há os papagaios.

Vasco de Ataíde concorda que todos em Novo Portugal são súditos do seu magnífico descendente, Alteza, mas há um Vice-Rei que recebe ordens diretamente de Portugal quanto ao que gastar e o que fazer e finge que governa com um pequeno grupo de nobres que nunca muda, e os nobres fazem as leis para o seu próprio proveito. Mas há participação popular no governo, que é biparlatorial. No paço comunal existe um balcão abaixo, onde se reúne o povo para fazer suas reivindicações do governo, e um balcão acima, no qual o Vice-Rei e os nobres ouvem as reivindicações do povo, depois mijam nele.

Em duas coisas concordamos, eu e Vasco de Ataíde, sobre a terra nova, da qual uma ventania tão misteriosa quanto a primeira nos varreu de volta a 1500, e à rota para Calicute: que vossa grande ilha é deveras mui formosa e de muitos bons ares, e que 500 anos depois o nome de Vossa Alteza venturosa continuará a ressoar nas terras portuguesas e nos mares entre elas. Escrevo, Alteza, com a morte me lambendo os pés.

Não sei que rancores Cabral despertou nos locais, que preferem o nosso sangue a bons negócios. Caminha já se foi, transposto por uma cimitarra. Não sei o que é feito de Vasco de Ataíde, meu vinagroso capitão. Não sei quantos escaparão com vidas para beijar o chão do Restêlo, e vossas mãos. Escrevo estas últimas linhas com meu próprio sangue. A verdadeiro escrivão pode faltar vocabulário e papel, mas jamais faltará tinta.

Tive que fazer minha última escolha, entre segurar a espada com a destra e a pena com a outra, e assim bem esgrimar com os incréus, mas mal escrever, ou a pena com a destra e a espada com a outra, e assim escrever melhor e viver menos. Vê Vossa Alteza que preferi a boa caligrafia à boa defesa. Se alguma posteridade eu tiver, que venha como um exemplo para os escrevedores do futuro: que sejam caprichosos e claros, mesmo sendo mentirosos.

Abdias Nascimento, um herói brasileiro pouco lembrado



Por Claudio Leal

Você sabe o que aconteceu com os escravos a partir de 13 de maio de 1888? Ou o seu livro de História pulou esse capítulo da pós-abolição? É verdade, a suposta liberdade dos escravos negros foi concedida. Mas a lei da princesa Isabel não passava de um simples papel ordinário. Centenas de milhares de negros foram direto da senzala no campo para as senzalas do esquecimento. Formaram a massa de pobres e miseráveis do Brasil no fim do século 19. Fosse áurea mesmo aquela canetada, teria vindo com políticas públicas de integração e emancipação. Fosse áurea mesmo, a gente não estaria agora prestando homenagem a um dos maiores heróis negros do século 20, Abdias do Nascimento.

Não, o negro não era mais propriedade do senhor de engenho após a abolição. Porém, o Império nada fez para garantir as mínimas condições da pretensa liberdade. Não houve incentivos à alfabetização e à formação profissional dos ex-escravos. Nem reforma agrária para que tivessem um pedaço de terra onde pudessem produzir para si próprios e depois comercializar o excedente. Tampouco leis que protegessem sua força de trabalho, que há tão pouco tempo deixara de ser gratuita e eterna.

O Estado deveria ter endereçado a esse grupo uma série de ações sociais e educativas. Só assim, poderíamos falar em liberdade e igualdade de condições e oportunidades. Mas os ex-escravos não sabiam nem por onde (re)começar. A República Velha também os esqueceu. E, sem um marco zero, sem uma fonte de conhecimento, de orientações e de renda, o caminho natural dos negros recém-libertos foi a marginalização.

As mulheres negras deram um jeito. Sabiam cozinhar, lavar, cuidar dos filhos da madame. De mucamas, tornaram-se domésticas nos idos de 1900. Já os homens negros eram vistos com desconfiança. Sabe como é, foram escravos, costumavam fugir dos brancos, organizar quilombos, jogar capoeira, manejar navalhas… Quem daria um emprego a vossuncê?! A criminalidade foi consequência dessa exclusão. A cor da pobreza no Brasil acabou reforçada no início do século 20: os negros eram desempregados, sub-empregados, os primeiros favelados e criminosos.


Abdias do Nascimento, nascido em 1914, em Franca (SP), não se contentava com esse destino, reservado a ele e aos que tinham sua cor de pele. Ainda pequeno, aprendeu a se queixar dos xingamentos que ouvia na escola por ser preto. E entendeu que afirmar a sua diferença – essa que faziam questão de cuspir-lhe com adjetivos ofensivos – era motivo de orgulho e de força.

Por isso, participou da Frente Negra Brasileira, movimento que buscava a ascensão social das pessoas “de cor” na década de 30. As lições da época, sobre a necessidade de destacar a própria identidade racial, foram decisivas na trajetória de Abdias.

Naquele período, “nos teatros municipais do Rio e de São Paulo, negros entravam apenas para limpar o chão que os brancos sujavam”, como disse Abdias em entrevista ao Portal Afro. O ativista decidiu transformar o cenário e as personagens do momento. Recrutou domésticas, analfabetos, operários e desempregados, todos negros, para estudar teatro e montar peças.

Em 1944, ele concebeu o que pode ser considerado um dos maiores laboratórios de diversidade e autoafirmação nas artes cênicas do Brasil. Foi o Teatro Experimental do Negro (TEN), que revolucionou a vida de centenas de pretos, pardos, pobres. Abdias alfabetizava o elenco, preparava os atores e incentivava a conscientização deles como cidadãos. O palco virou espaço para os negros marginalizados terem voz e exercitarem seu talento. Eles aprendiam sobre as próprias origens, aceitavam as raízes africanas, orgulhavam-se de ser quem eram. Abdias trabalhou a autoestima daqueles ex-escravos que quase não tinham deixado de ser ex, mais de 50 anos depois da Lei Áurea.

Graças ao TEN, Abdias ajudou a constranger o racismo nos palcos brasileiros, tirando a temática negra das coxias, acompanhado por artistas como Ruth de Souza, Santa Rosa e Milton Gonçalves. O TEN encenou Eugene O'Neill (Todos os Filhos de Deus Têm Asas), Lúcio Cardoso (O Filho Pródigo), Joaquim Ribeiro (Aruanda) e o próprio Abdias (Sortilégio), além de editar o jornal Quilombo, o braço editorial que aprofundava o debate teórico sobre o negro brasileiro, com colaborações de etnólogos do nível de Guerreiro Ramos, Arthur Ramos e Édison Carneiro.


Além da experiência bem-sucedida no teatro, o ativista dedicou parte da vida às atividades políticas. No exílio, durante a ditadura militar, aproximou-se de Leonel Brizola. Na volta ao Brasil, participou da criação do PDT (Partido Democrático Trabalhista). A igualdade racial tornou-se sua principal defesa e foi incorporada como bandeira pelo trabalhismo da sigla de Brizola. Foi deputado federal nos anos 80 e senador ao longo da década de 90. Sempre que discursava, reivindicava políticas de integração dos negros na sociedade brasileira. Políticas nacionais que nunca haviam sequer sido pensadas por qualquer governo.

Em 2006, Abdias festejou a adoção em massa de ações afirmativas pelas universidades públicas brasileiras. “Essa realidade de hoje, com cotas para negros, foi uma briga minha, nossa, do movimento negro, lá de trás, de anos”, recordou, já um pouco combalido, na cadeira de rodas. Com mais de um século de atraso, a igualdade começava a ser construída. E Abdias foi um dos responsáveis por tentar virar a página dos reflexos e do legado da escravidão. Um herói nacional que merece ser conhecido, estudado e celebrado pelos brasileiros interessados em preencher as lacunas da nossa História.


O único negro brasileiro, pois não. Abdias Nascimento surgia nas crônicas hiperbólicas de Nelson Rodrigues como um militante irredutível, capaz de esfregar “a cor na cara de todo o mundo”, numa solitária consciência racial. “Não conte com o Brasil, não conte com o brasileiro”, desaconselhou Nelson, ao vê-lo colher apoio para um movimento contra o apartheid na África do Sul, em 1968. “Somos não sei quantos milhões!”, reagiu Abdias. Naquele tom de espírito de porco, mas comprometido com o incipiente movimento negro, o dramaturgo enunciou o óbvio ululante: “Abdias, só há um negro, que é você mesmo. Não milhões, você, Abdias, só você”.

Abdias morreu no dia 24 de maio de 2011, aos 97 anos, no Rio de Janeiro, sem jamais ter deixado de denunciar as perversões sociais da escravidão: “Há preconceito racial no Brasil”, repetia até nas mais discretas oportunidades. Era um extraordinário provocador. O Concurso de Artes Plásticas, com o tema do “Cristo Negro”, atraiu as promessas de inferno da Igreja Católica. Nelson Rodrigues inspirou-se no amigo para escrever a peça “Anjo Negro”, mas frustrou-se seu velho desejo, não conseguiu levá-lo a interpretar um dos protagonistas. A fixação do escritor vingou em “Perdoa-me por me traíres”, na qual Abdias interpreta o deputado Jubileu de Almeida. Este nome pomposo veio de uma brincadeira onomástica do psicanalista Hélio Pellegrino; para o “Homero do Subúrbio”, “jubileu” estava mais para o nome de um deputado. Se quer saber, o jubiloso parlamentar só eriçava a sua juba quando uma mulher o chamava de “reserva moral da Nação!”.


Abdias não dispensou atropelos em outras personalidades essenciais para a valorização das contribuições do negro à cultura brasileira; talvez por vaidades arranhadas ou radicalismos infundados. Às vésperas da 2ª Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora (Ciad), realizada em 2006 na capital baiana, fui pautado pela brilhante repórter Cleidiana Ramos, editora do blog Mundo Afro, do jornal A Tarde, para ouvi-lo sobre a homenagem que seria prestada a sua militância pioneira no Brasil.

Perto do fim da conversa, naquela altura em que entrevistado e entrevistador parecem exaustos do confessionário, saiu-me, por algum diabo, o nome de Pierre Verger (1902-1996), o fotógrafo e etnólogo francês radicado em Salvador, autor do clássico estudo “Fluxo e Refluxo do tráfico de escravos entre o golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos”. Verger, Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi integram o conselho de deuses da Roma Negra.

“Era um canalha!”, revidou Abdias, do outro lado da linha, como um personagem rodrigueano vocacional. “Era um canalha. Eu via como os negros se curvavam diante de Verger. Se os negros brasileiros tivessem vergonha na cara, escarravam na cara dele!”, completou, à beira de cumprir a sugestão, num imaginário torneio de cuspe à distância.

O “único negro” exerceu por duas vezes o mandato de senador, sob a liderança política de Leonel Brizola, no PDT. Por sobreviver ao século 20, Abdias alcançou conquistas impensáveis na década de 40, ainda que nunca tenha admitido a existência da tão surrada democracia racial. Mas poderia comemorar as cotas para negros nas universidades, um teatro menos eurocêntrico, o triunfo de jogadores como Pelé e Didi, a criminalização do racismo, a liberdade de culto do Candomblé, a liderança de Nelson Mandela na África do Sul e a vitória de Barack Obama nos Estados Unidos.

“Acompanhei a luta dele (Obama), sofri com o que ele deve ter sofrido nessa campanha. Não foi uma coisa fácil. E o desassombro de ver um negro liderar no mundo. No Brasil, que tem essa fama toda de democrático, me lembro como fui esmagado quando fui senador”, remoeu Abdias, em entrevista a Terra Magazine.

Em março de 2011, numa cadeira de rodas e com sua bata africana, ele compareceu ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ansioso pelo primeiro discurso de Obama aos brasileiros. A ansiedade de quem ia à pré-estreia de uma peça sempre adiada pelo Teatro Experimental do Negro – e pelo Brasil. Faleceu dois meses depois.

terça-feira, novembro 12, 2019

Afinal, Moby Dick era o homem ou a baleia?



Por Ruy Castro

Na Nova York dos anos 20 e 30, ninguém podia considerar-se a salvo das frases e gozações da turma que compunha a famosa “mesa-redonda” reunida diariamente no hotel Algonquin. Entre os alvos favoritos daqueles escritores e jornalistas, estava um amigo e colega deles: Harold W. Ross, fundador e editor da revista The New Yorker, na qual quase todos trabalhavam ou colaboravam. Ou seja, Ross era o patrão (e generoso nos pagamentos), mas nem assim o poupavam. E, conhecendo bem seu temperamento estouvado e cômico, faziam questão de que ele soubesse das piadas. Pois um livro recém-lançado nos EUA, Letters from the Editor – The New Yorker’s Harold Ross (Thomas Kunkel, org., Modern Library, 428 págs., US$ 15,95), com centenas de cartas e memorandos que ele escreveu de 1917 a 1951, faz finalmente justiça ao homem. Harold Ross era um gênio como editor de revista.

Ross tinha 33 anos quando lançou a New Yorker em fevereiro de 1925. A revista, previamente anunciada como a publicação mais sofisticada que os EUA jamais veriam, foi um retumbante fracasso nos primeiros meses – chegou a ser considerada “um dos maiores fiascos de 1925”. Entre outros motivos, porque era ruim mesmo.

Ross ainda não acertara o ponto e, no começo, seus amigos do Algonquin – Robert Benchley, Dorothy Parker, Alexander Woollcott, Ring Lardner, Herman J. Mankiewicz, Robert Sherwood, George S. Kaufman, Franklin P. Adams, a nata do humor americano – não se dispuseram a colaborar regularmente.

Sem anúncios, sem circulação e reduzida a menos de 50 páginas, The New Yorker só não fechou pela obstinação de Ross, que vendeu os móveis e empenhou as jóias de sua mulher, Jane Grant, para manter a revista respirando. Foi salvo à beira do precipício pelo dinheiro injetado por seu sócio, Raoul Fleischmann, herdeiro da célebre marca de fermento e que, com isso, se tornou acionista majoritário. Em 1927, como se estivesse sendo engrossada com maizena, The New Yorker aprumou-se e começou a crescer. No fim da década, já era um sucesso editorial e comercial, e não seria abalada nem pela depressão pós-estouro da Bolsa em 1929.

As piadas que se faziam com Ross no Algonquin tinham a ver com sua aparência e ignorância. Ross era desajeitado, muito feio (tinha uma falha entre os dentes frontais na qual caberia, fácil, outro dente) e frenético – exceto em emergências, não conseguia ficar sentado (ou de pé) por mais de dois minutos. Quanto a seus conhecimentos, as paredes do Algonquin quase desabaram quando ele perguntou (a sério) na mesa-redonda: “Afinal, Moby Dick é o homem ou a baleia?” Ross podia não saber de literatura, de música ou de artes plásticas, mas tinha uma qualidade já então rara em jornalistas: sabia ler – no sentido de que, se sobrevivesse a seu lápis, qualquer texto alheio sairia enxuto, coerente, perfeito.


Esse perfeccionismo no detalhe era estendido à sua idéia do que uma revista deveria conter: rigoroso equilíbrio e ritmo entre as matérias (artigos, reportagens, cartuns, serviço), as quais deveriam ter em mente o interesse do leitor e o interesse público. Quando se tratava de fazer revista, Ross enxergava a floresta, a árvore e a folha: em poucos anos, The New Yorker deixou de ser uma revista apenas “sofisticada” para dar shows de reportagem, análise e criatividade no resto da imprensa americana, nisso incluindo sua arqui-rival Time, de Henry Luce.

Vários livros anteriores sobre a revista têm ressaltado a importância de Ross: Here at The New Yorker, de Brendan Gill, The Years with Ross, de James Thurber, e até Ross, The New Yorker and Me, de Jane Grant (de quem ele se separou sem ser correspondido). Mas, mesmo esses livros não conseguem ignorar o folclore que o cercava: seu permanente desespero com o fechamento da edição, com a incompetência de sua equipe e com a preguiça dos colaboradores – tudo levado a um exagero caricatural e compensado logo depois com cargas de elogios à competência da mesma equipe e com reajustes e gratificações salariais. Esse folclore tem turvado as fantásticas realizações de Ross como editor, muitas das quais se tornariam padrão na melhor imprensa mundial. O livro de suas cartas (para funcionários, amigos ou inimigos) mostra, pela primeira vez, o próprio Ross falando. É nelas (não importa o destinatário) que se percebe o que ele fez.

Ross cuidava de tudo na redação: contratava e demitia, criava assuntos, aliciava colaboradores e, nas emergências, juntava-se à redação nos fechamentos. Apesar de fazer-se cercar por editores tão exigentes quanto ele (Katherine e E.B. White, Wolcott Gibbs, Rogers Whitaker, William Shawn), lia cada original (dando palpite até nas vírgulas), discutia a precisão das informações e sugeria fontes quentes para os repórteres. Era um jornalista completo, mas não se contentava com isso: interferia também na publicidade e na administração.


Mesmo nos tempos de penúria financeira, estabeleceu a regra de recusar anúncios obviamente mentirosos ou de mau gosto e vetou matérias sobre hotéis ou resorts “restritos” (ou seja, que não aceitavam judeus). Num memo de 1932, deu um exemplar puxão de orelhas em seu patrão Raoul Fleischmann, por este ter pedido, por intermédio da redação, ingressos para a estréia de um show – Ross insistia em que a revista não pedisse ou aceitasse nada de graça. E, isso, apesar da mudança de seu status em relação a Fleischmann: ao ver que a revista se viabilizara, Ross vendera-lhe suas ações, reduzindo-se a funcionário da empresa que criara – para não perder o “ponto de vista dos empregados”.

Foi Ross, ao contratar a jovem Janet (“Genêt”) Flanner, como correspondente em Paris, quem estabeleceu a máxima que deveria ser seguida por todos os correspondentes: “Não quero saber o que você pensa sobre o que acontece em Paris. Quero saber o que os franceses pensam.” Falando de correspondentes, Ross recusava-se a ter um fixo em Hollywood, embora o cinema e suas fofocas fossem a diversão maciça dos americanos nos anos 20 e 30 (e ele fosse amigo pessoal de James Cagney, Ginger Rogers e Orson Welles).

Pelo mesmo motivo, vetou a idéia de uma coluna permanente sobre rádio, cuja força era então equivalente à da televisão hoje. Não era bem um preconceito contra o cinema e o rádio — porque, para Ross, Wall Street também não merecia uma coluna fixa. Segundo ele, os assuntos deviam valer pela notícia, não pela importância que seus militantes se auto-atribuíam.


Ross inventou Dorothy Parker como crítica de livros e, depois dela, entregou a coluna literária a Edmund Wilson (o que equivalia na época a contratar J. Edgar Hoover como chefe de segurança do prédio). Ross ajudou a fazer muita gente, mas gostava também de atrair os pesos pesados para a revista, desde que os admirasse – Hemingway, H.L. Mencken, S.J. Perelman, John O’Hara, Rebecca West – e dava um jeito de que eles fossem pagos de acordo. E foi também o responsável pela eternidade das capas da New Yorker, ao decidir que elas não teriam personagens reconhecíveis (vetou uma capa com Hitler no apogeu da 2ª Guerra, alegando que ninguém podia garantir que Hitler durasse até a semana seguinte). O fato de que, hoje, livros com as capas da New Yorker (algumas datando de 75 anos!) vivem sendo publicados é a prova de que ele estava certo.

Ross criou até o cartum moderno. Foi o primeiro a fazer com que as falas dos personagens se reduzissem a uma linha (uma única fala, e não mais a pergunta e resposta tradicionais). O cartum ideal era aquele que integrava desenho e palavra e que não podia ser entendido sem um desses elementos. (No Brasil, temos um exemplo clássico, da autoria de Jaguar: Cristo pregado na cruz, dizendo para uma invisível Maria Madalena, “Hoje não dá, Madalena. Estou pregado.” Desenho e fala não querem dizer nada isoladamente, mas juntos desfecham o riso. Viva Ross.)

Outra sacada de Ross: se há mais de um personagem no desenho, o que fala deve estar com a boca aberta, para que não haja dúvida. Daí a piada que corria no Algonquin: Ross brandindo um cartum pela redação e perguntando, desvairado, “Qual dos elefantes está falando???”. E sabe quais eram os cartunistas com quem ele falava grosso na New Yorker? James Thurber, Peter Arno, Charles Addams (criador da Família Addams), Otto Soglow (criador do Reizinho) e um jovem rumeno que Ross chamou, em 1942, de “a maior revelação dos últimos 50 anos”: Saul Steinberg.


Ross se detinha sobre cada cartum para certificar-se de que, no desenho, as roupas estavam abotoadas do lado certo, os degraus de uma escada obedeciam à escala correta ou as portas não se abriam ao contrário. Para ele, erros assim eram prejudiciais ao entendimento do cartum. E treinou seus diretores de arte para decidir qual desenhista era mais adequado a esta ou àquela ideia e vice-versa. Um cartunista podia submeter-lhe uma ideia e ele gostar dela, mas achar que ficaria melhor se desenhada por outro. Ou um desenho ter várias falas possíveis e ele submetê-lo à redação até que alguém surgisse com a fala ideal. Ross morreu em 1951, mas a New Yorker manteve até hoje seus critérios. Daí, nesses 94 anos, raramente ter publicado um mau cartum. Há uma ciência nisso.

Quando a New Yorker se impôs como o máximo da “sofisticação”, seus leitores passaram a reagir como tal, mas Ross era contrário a adulá-los. O único critério sobre se um artigo sairia ou não era a sua qualidade – ele não queria saber se o tal artigo se adequava ou não ao “perfil” do leitor. Da mesma forma, proibiu campanhas publicitárias sobre a New Yorker em outros veículos – o melhor comercial de uma revista era a sua excelência editorial, insistia Ross, e não frases ocas dizendo que ela era ótima. E sugeria que o dinheiro gasto em publicidade fosse dirigido à redação, para que ele pudesse pagar melhor aos colaboradores.

Um desses colaboradores era o repórter John Hersey, que ele mandara cobrir a guerra na costa do Pacífico. Quando os EUA arrasaram Hiroshima, Ross pediu a Hersey um relato (do tamanho de que precisasse) do que significava uma cidade ser atingida por uma bomba atômica. A matéria, intitulada Hiroshima, tomou a edição inteira do dia 31 de agosto de 1946 e marcou a virada decisiva da New Yorker como uma revista “séria”. Mas ela já era assim pelo menos desde Pearl Harbor, em 1941 – nos quatro anos seguintes, Ross despachara 13 repórteres para o front e produzira edições “pônei” semanais da New Yorker (24 páginas em formato menor, sem anúncios), especialmente para as tropas americanas. O próprio Churchill era leitor da revista. E, muito antes disso, Ross já era tão ciente de sua importância que, certa noite de 1934, quando um amigo convidou-o a jantar com Gertrude Stein, ele mandou um bilhete de volta: “Cago para Gertrude Stein. Se quiser jogar gamão esta noite, estou às ordens.”

Ross falava chulices e palavrões o tempo todo, mas, até sua morte, em 1951, não admitiu uma única palavra dúbia na revista, nem mesmo a respeito de funções intestinais. E, à sua maneira quase rústica, ele podia ser também elegantíssimo. Certa vez trancou-se no toalete da revista com o original de um longo artigo submetido por um colaborador. Uma hora depois, descobriu que o rolo de papel higiênico estava vazio. No mesmo dia, escreveu uma carta para o colaborador, explicando que o artigo sumira misteriosamente enquanto estava sendo analisado para publicação.

segunda-feira, novembro 11, 2019

Sobre personalidades e personalidades



Por Mouzar Benedito.

“Se você tiver que adquirir personalidade em algum livro de autoajuda, é porque não tem nenhuma” (Não sei quem disse isso, mas concordo)

Estranhamente, a palavra “personalidade” insiste em ficar na minha mente desde o processo eleitoral acontecido há poucos meses. O Facebook contribuiu para isso. Como já disse várias vezes, eu me negava a entrar no dito-cujo, mas em 2018 cedi à insistência de algumas pessoas e entrei. Durou pouco.

O padre Antônio Vieira dizia que “o melhor retrato de cada um é aquilo que escreve”, e hoje em dia parece que isso se comprova no tal de Facebook. Muita gente revela sua verdadeira personalidade nessa coisa. Despem-se das aparências.

Então, entrei nessa “mídia social” e não gostei do que vi. Peguei ojeriza por certas pessoas e (injustamente?), pela ferramenta que usam para se expor. Tem aquele ditado: “Portador não merece pancada”, e realmente o Facebook é só o “portador” da revelação de personalidades. Se ele leva notícia ruim a culpa não é dele.

Numa época de tantos afastamentos, é ruim “perder” relacionamentos amigáveis ou mais ou menos amigáveis. Mas vale a pena manter esses relacionamentos? Enquanto não sabia o que certas pessoas realmente são, ficava por isso mesmo, mas sabendo, dá pra engolir?

O certo é que existe personalidade e “personalidade. “Personalidade” pode ser justificativa para coisas injustificáveis. Incluo nisso as “justificativas” dos seguidores de Bolsonaro para as imbecilidades que ele diz: “É o jeito dele”. Pronto. Só isso. “Jeito” e personalidade aí podem ser vistos como sinônimos. Ou caráter. Lembro-me de uma frase que disse uma vez a um sujeito: “Caráter não lhe falta, tem até de sobra. Só que péssimo”.

Hitler dizia que você pode cometer o crime que quiser e culpar a oposição, que “as massas acreditam”. Seguidor de Bolsonaro é assim, acredita, e ele segue o mestre, culpando ONGs por queimadas na Amazônia, em grande parte consequência do que ele e seus ministro do sem ambiente vêm falando fazendo.

Enfim, é a “personalidade” dele, como disse um pastor deputado. Pode fazer o que quiser, agredir quem quiser, ofender, ser grosso, culpar os outros pelos efeitos horríveis de seu governo, falar merda direto. Aliás, merda é um assunto recorrente dele. Assim, vale, por exemplo, uma agressão gratuita à mulher do presidente da França, dizendo que a idade dela, comparada com a da primeira-dama brasileira, é a explicação para as críticas do presidente francês ao brasileiro.

Para tentar aliviar minha mente que insiste na palavra “personalidade”, coletei um montão de frases (montão mesmo) e reproduzo aqui.

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Tati Bernardi: “Ela é burra, limitada, quieta e sem personalidade. Ela é a mulher perfeita pra você”.

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Papa Francisco: “Não é necessário consultar um psicólogo para saber que quando você denigre o outro é porque você mesmo não consegue crescer e precisa que o outro seja rebaixado para você se sentir alguém”.

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Martha Medeiros: “A mulher interessante não é propriamente bonita, mas tem personalidade, tem postura, tem um enigma no fundo dos olhos e uma malícia que inquieta todos quando sorri… As pessoas se questionam: o que é que essa mulher tem? Ela tem algo. Pronome indefinido: algo. Ficar bonitinha, muitas conseguem, mas ter algo é para poucas”.

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Alphonse Karr: “Cada homem possui três personalidades: a que exibe, a que tem e a que pensa que tem”.

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Nietzsche: “Torna-te aquilo que és”.

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Cora Coralina: “Procuro suportar todos os dias minha própria personalidade renovada, despencando dentro de mim tudo que é velho e morto”.

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Vergílio Ferreira: “Não é por causa dos outros que somos o que somos: é sempre por causa de nós”.

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Assis Chateaubriand: “Vargas deverá ter sido o ser mais estranho e sobre-humano que teve até hoje a galeria dos homens de governo”.

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Paul Harris: “A personalidade tem o poder de elevar, o poder para oprimir, o poder de amaldiçoar e o poder de abençoar”.

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Martin Luther King: “Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele”.

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Tristão de Ataíde: “A primeira condição para ser alguma coisa é não querer ser tudo ao mesmo tempo”.

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Malcolm X: “Todas as experiências se fundem em nossa personalidade. Tudo o que nos acontece é um ingrediente”.

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Carl Jung: “Existem bilhões de pessoas no planeta e muitos tipos de personalidades diferentes. Algumas são introvertidas, outras extrovertidas; algumas se guiam pela lógica e outras pelos sentimentos. Em um mundo com tanta diversidade, como aprendemos a lidar com aqueles que são diferentes? E como aprendemos a entender e aceitar quem nós somos?”.

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Jung, de novo: “O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambas sofrem uma transformação”.

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Henry Van Dyke: “No progresso da personalidade, o primeiro é a declaração de independência e, em seguida, o reconhecimento da interdependência”.

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Herta Muller: “Eu embalei-me em silêncio de uma forma tão profunda e por tanto tempo que nunca mais consegui exprimir-me usando palavras. Quando falo, apenas me embalo de forma um pouco diferente”.

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Epicuro: “Imagine-se para si mesmo um caráter, modelo de personalidade cujo exemplo esteja determinado a seguir, tanto em privado e em público”.

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Kurt Cobain: “Eu uso pedaços de personalidade de outros para construir a minha”.

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Alice Cooper: “Eu tenho complexo de Peter Pan com personalidade de Capitão Gancho”.

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Fernando Pessoa: “Sou a cena nua onde passam vários atores representando várias peças”.

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Fernando Pessoa, de novo: “Ser imoral não vale a pena, porque diminui, aos olhos dos outros, a vossa personalidade, ou a banaliza. Ser imoral dentro de si, cercada do máximo respeito alheio”.

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Alberto Caeiro: “Aceito por personalidade: nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos, mas nunca ao erro de querer compreender demais, nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência, nunca ao defeito de exigir do mundo que fosse qualquer coisa que não fosse o mundo”.

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Annie Frank (em seu “diário”): “Eles criticam tudo a meu respeito – e quer dizer tudo mesmo: meu comportamento, minha personalidade, meus modos; cada centímetro meu, da cabeça aos pés e dos pés à cabeça”.

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James Russell Lowell: “Não importa do que você tenha certeza, tenha certeza de uma coisa: você é igualzinho a um bando de gente”.

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Ana Carolina: “O amor é um rock e a personalidade dele é um pagode”.

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Glauber Rocha: “Não me interesso pelo público, não persigo o elogio e tenho horror a me sentir gratificado”.

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Bob Marley: “Eu não ligo para o que as pessoas pensam sobre mim, porque minha personalidade não é de opiniões e sim de atitudes”.

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Arlindo Colaço: “O ser humano é, por natureza, sujeito a quedas e falibilidades”.

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Doris Lessing: “Para as mulheres como eu, a integridade não é castidade, não é fidelidade, não corresponde a nenhuma das palavras antigas. Integridade é o orgasmo. É algo sobre o qual não tenho controle”.

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Max Nunes: “Personalidade é aquilo que uma pessoa tem quando não está precisando de emprego”.

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Oscar Wilde: “Se há uma coisa que destrua a personalidade, essa coisa é a fidelidade às promessas; talvez também o gosto pela verdade”.

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Oscar Wilde, de novo: “Só os ocos conhecem a si próprios”.

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Oscar Wilde, de mais uma vez: “Quase todas as pessoas são outras pessoas. Seus pensamentos são alheios, suas vidas uma mímica, seus amores uma frase”.

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E mais Oscar Wilde: “A personalidade é coisa assaz misteriosa. Nem sempre podemos analisar o homem pelo que faz: às vezes ele observa a lei e, no entanto, não possui valor; outras, infringe-as e, no entanto, é grande”.

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Margaret Thatcher: “Faça você um cavalo-de-pau, se quiser. Esta mulher não recua”.

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Agustina Bessa-Luis: “A rapidez que as pessoas imprimem às suas vidas faz com que simplifiquem a realidade e fabriquem o que se chama a ‘personalidade do momento’. Sobretudo nos políticos e homens à escala governativa, isso exprime-se por manifestações impulsivas, peculiares a cada hora, vinculadas às situações proteiformes”.

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Madonna: “Eu acho que no final, quando você é famoso, as pessoas gostam de reduzi-lo a alguns traços de personalidade. Eu acho que me tornei ambiciosa. Intimidante. E isso é parte da minha personalidade, mas certamente não é, de longe, o conjunto completo”.

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Catherine Zeta Jones: “Eu tento manter uma atitude positiva. Ser negativo não é bom para a minha personalidade. Me baixa o humor e afeta os que me rodeiam”.

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David F. Wells: “Em nossa cultura pós-moderna, dominada pela televisão, e a imagem sensível e moralmente vazia, a personalidade é tudo e o caráter é cada vez mais irrelevante”.

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Clóvis Bevilacqua: “Personalidade é a aptidão, reconhecida pela ordem jurídica a alguém, para exercer direitos e contrair obrigações”.

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W. C. Fields: “Um homem que detesta crianças e cachorros não pode ser mau de todo”.

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T. S. Eliot: “A poesia não é um voltar-se para a emoção, mas uma fuga da emoção; não é a expressão da personalidade, mas uma fuga da personalidade. Mas, é claro, somente aqueles que têm personalidade e emoções sabem o que significa querer fugir delas”.

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J. W. Goethe: “Personalidade é tudo na arte e na poesia”.

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Salvador Dalí: “A pintura é uma parte infinitamente diminuta da minha personalidade”.

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George Foreman: “O esporte precisa de personalidade, não de um lutador. Temos um monte de grandes lutadores no esporte, mas não de personalidades. Ninguém está para defender nada. O último caractere que tínhamos era Mike Tyson. Ele defendia alguma coisa. Não era muito, mas manteve-se firme por uma causa”.

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Joseph Addison: “Um temperamento agradável pode compensar-nos a falta de beleza, mas a beleza não basta para nos indenizar de um temperamento desagradável”.

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Anaïs Nin: “A ela falta o núcleo da sua própria segurança; ela deseja admiração insaciavelmente. Vive de reflexos de si mesma aos olhos dos outros. Ela não se atreve a ser ela mesma”.

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Natalie Portman: “É lindo quando a personalidade de uma pessoa brilha através da sua aparência. Como na maneira de caminhar, cada vez que você olha, o que você quer é ir abraçá-la”.

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Charles Caleb Colton: “O orgulho é como um ímã apontado constantemente para um objeto; a personalidade, porém, ao contrário do ímã – ela não possui polo atrativo – repele em todas as direções”.

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Rousseau: “Há momentos em que eu sou tão diferente de mim que poderia ser tomado por outra pessoa, de uma personalidade totalmente oposta”.

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Bruce Lee: “Seja sempre você mesmo, expresse-se, tenha fé em si mesmo, não saia à procura de uma personalidade bem-sucedida para duplicá-la”

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Simone de Beauvoir: “Seja você mesmo, apenas você mesmo, é uma experiência incrível e totalmente original que é difícil de se convencer de que algo tão singular acontece a todos”.

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Ralph Emerson: “Ser você mesmo em um mundo que está constantemente tentando fazer de você outra coisa é a maior realização”.

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Steven Spielberg: “Nunca me senti confortável comigo próprio como fazendo parte de uma maioria. Sempre me senti estranho e tímido, e de fora dos grandes momentos das vidas dos meus amigos”.

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Erich Fromm: “O amor muitas vezes não é senão um câmbio favorável entre duas pessoas que recebem a melhor parte do que elas podem esperar, considerando o seu valor no mercado de personalidade”.

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Miguel Unamuno: A dor é a substância da vida e a raiz da personalidade, pois somente sofrendo se é uma pessoa”.

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Khalil Gibran: “Do sofrimento emergiram os espíritos mais fortes, as personalidades mais sólidas estão marcadas com cicatrizes”.

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André Gide: “A personalidade dos grandes homens faz-se das suas incompreensões”.

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André Gide, de novo: “Nós preferimos ir deformando e distorcendo todas as nossas vidas, ao invés de tornar-se como o retrato de nós mesmos que nos têm atraído. É um absurdo. Corremos o risco de deformar o melhor de nós”.

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Rebecca McKinsey: “Eu prefiro ser uma pequena estranha que uma grande chata”.

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Renato Russo: “Se tivesse que fazer tudo de novo, faria tudo de novo, pois é da minha personalidade”.

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Gandhi: “Eu quero a liberdade para a plena expressão da minha personalidade”.

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Clarice Lispector: “É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo”.

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Clarice Lispector, de novo: “Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de quando e como você me vê passar”.

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Marquês de Maricá: “Muitas pessoas se prezam de firmes e constantes que não são mais que teimosas e impertinentes”.

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Bernard Shaw: “A vida é uma pedra de amolar; ela vos desgasta ou afia, conforme o metal de que sois feito”.

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Richard Lindgard: “É possível descobrir mais sobre uma pessoa numa hora de brincadeira do que num ano de conversa”.

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Guimarães Rosa: “O mineiro traz mais individualidade que personalidade. Acha que o importante é ser, e não parecer, não aceitando cavaleiro por argueiro nem cobrindo os fatos com aparatos. Sabe que ‘agitar-se não é agir’”.

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Guimarães Rosa, de novo: “Se a semente tivesse ‘personalidade’, nem a árvore nasceria”.

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Caio Fernando Abreu: “Você tem alguma receita pra gente mudar de vida? E pra tomar decisões: E para mudar de personalidade? E para flagrar-se? E para pagar o karma em suaves prestações? E pra desorientação aguda, você tem? Se tiver, me passa que eu preciso”.