Por Luis Fernando Verissimo
(Descoberta recentemente, por acaso, dentro de uma caixa de
sapatos na Torre do Tombo, a carta de Fuas Roupinho, escrivão da frota de
Cabral embarcado com Vasco de Ataíde na nau dada como desaparecida, e que um
vento misterioso impeliu para a costa brasileira e, segundo o seu autor, para
500 anos depois, dá uma visão holística da nova terra, pois as versões de Fuas
e de Vasco de Ataíde sobre o que viram no ano 2000 não podiam ser mais
diferentes, e mostram as duas maneiras como o futuro do Brasil foi imaginado
pelos descobridores. Já que a carta, ao que tudo indica, é imaginária.)
Posto que as notícias do achamento da terra nova já são da
vossa ciência por relato de Pero Vaz de Caminha e outros, resumirei minha conta
do que já sabeis, rogando o perdão de Vossa Alteza para o pecado que um
escrevedor mais teme, o da redundância. Também rogo a Vossa Alteza que não
duvide da minha sanidade, estou lúcido e verdadeiro como só um condenado pode
estar. Não porei aqui mais do que aquilo que vimos, ouvimos e nos pareceu, a
mim e a Vasco de Ataíde. Pois quem vos escreve é Fuas Roupinho, escrivão
embarcado com Vasco de Ataíde na nave tresmalhada, de cujo desaparecimento vos
deu conta o Caminha.
Mudo de parágrafo para que Vossa Alteza refaça-se do susto
que lhe causaram meu nome e o do meu capitão. Faz parte da arte de escrever a
distribuição sagaz de espaços abertos, como os jardins nas casas mouras. Assim
respira o texto e respira o leitor. Toda arquitetura, de pedra ou palavra, deve
ter aberturas bem-postas por onde circule o ar e cure-se a opressão, e não
pretendo que esta carta seja uma enclausura onde vosso espanto procure a saída
em vão, como uma freira tomada de fogos, um fantasma novato num mausoléu, ou um
traque num calção. Respire, rei, e prepare-se para estranhezas. Vossos navegadores
não vos deram apenas este mundo, destamparam muitos outros. Horrores e
maravilhas, horrores e maravilhas.
Portanto, Senhor, do que hei de falar começo e digo:
A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi
segunda-feira, 9 de março.
Sabe também Vossa Alteza que o mais difícil das viagens não
é o Mar e as suas fúrias e o Desconhecido e seus monstros, o mais difícil é
sair de Portugal. Somos a raça da saudade, eternamente divididos entre o chão e
o além, entre o ficar e o ir. Portugal, com os braços e a garganta da minha
mulher, me segurava no cais, como se o Restêlo fosse vivo e chorasse e
ralhasse. As pragas da minha mulher não se dirigiam só a mim, mas a todos os
navegadores, a todos os homens que viajam, a todos da História que não ficaram.
Para o que queria mais mundo quem já tinha Portugal? Tudo, disse ela, pela
vaidade, pela fama vã, pelo que tira o Homem de casa.

Ali, sobre o cais, éramos menos uma família do que uma
alegoria. Um quadro do Portugal indeciso entre ser o que já era e ser outro,
entre o campo e o mar, a agricultura e a epopéia, a amável pequenez e a
odiável, mas soberba, conquista. Minha Maria bem representava o Portugal
agropastoril que precisava ser deixado, com sua cor de terra virada, seus
tufos, seus cheiros e suas lamúrias reincidentes. Eu me via como o Portugal que
precisava ir, e substituir a epopéia semanal de descobrir Maria sob os seus
camisolões, sempre a mesma Maria, repetindo-se como as estações, e montá-la,
pela aventura de descobrir novas terras sob outros céus, e ocupá-las.
Era o passado que me segurava, era o Tejo que molhava o meu
ombro, perguntando-me para o que queria mais água quem já tinha tal rio.
Desgrudei-me finalmente dos braços de Maria, mas as suas pragas me seguiram
como cachorros raivosos, rampa acima. Ela nunca entendeu que saímos de Portugal
para ter saudade de Portugal, que Portugal na nossa saudade é como Portugal
preservado numa salmoura de afetos. Que entre o aqui e o lá, preferimos o lá,
mas estando aqui.
Domingo, 22 do dito mês, às 10 horas, pouco mais ou menos,
houvemos vista das ilhas de Cabo Verde. Na noite seguinte, segunda-feira, ao
amanhecer, se perdeu de nós o resto da frota, sem haver tempo forte nem
contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para os
achar, a uma e outra parte, mas não mais apareceram, até meses mais tarde,
quando os reencontramos neste porto de Calicute, onde comparamos aventuras sob
a sombra das cimitarras árabes, que em breve nos atacarão. Pois também chegamos
ao mesmo sítio a que chegaram Cabral, Caminha e os outros, mas não ao mesmo
tempo, e sim 500 anos depois.
Vê Vossa Alteza que abri outro espaço para vosso
desfalecimento, ou qualquer outra manifestação coreográfica de incredulidade.
Enquanto vos refazeis, conto o meu conhecimento do Caminha, que se pode medir
em garrafas, az-zebibs e anos de conversa nas tabernas de Lisboa. Tão bem ele
me conhece que garantirá minha honestidade. Aliás, foi de Caminha a idéia,
lançada numa mesa de escritores da Alfama, de viajarmos todos com a esquadra de
Cabral num barco só de escrivães, abandonada quando nos vimos discutindo se o
barco precisaria de um piloto ou se nossas interpretações das nuvens e exegeses
criativas das correntes nos levariam ao destino, qualquer destino, e então
descobrimos que o vinho nos empurrara, como solerte vento levantino, para a
Terra da Bobagem.
Seria o barco mais divertido da frota, ainda que dado a
derivas depressivas, polêmicas corcoveantes e conflitos de estilos a bordo, e o
único que os choques de teses e vaidades ameaçariam mais do que as tormentas do
Mar Oceano. E que não dependeria de chegar a nenhuma terra para descrever seus
sortilégios, pois qualquer guirlanda flutuante é uma Ilha Afortunada, se bem
imaginada, qualquer lombo de baleia a Última Thule das lendas gregas, se bem contado.
Mas sabe o Caminha que não invento, pois não se comem tantas azeitonas com um
homem sem lhe conhecer o coração. E do Vasco de Ataíde não se duvide, pois é um
nobre português e descrer da nobreza é desesperar da Humanidade.

Vimos-nos sozinhos num mar sem ondas, o Tejo sem as margens,
com as velas murchas e os olhos grandes. E subitamente alguém apontou com
terror para o horizonte e todos viram um rosto gigantesco com as bochechas
estendidas, como os sopradores de vento que ilustram os mapas, e de tal força
foi o sopro dos seus lábios quilométricos que o barco disparou sobre a água com
as velas insufladas ao máximo e todos agarrados ao fixo mais próximo que os
salvasse de ficar para trás, e sentimos que tínhamos sido impelidos para outro
mar, ou o mesmo mar em outro mundo. E houvemos vista à terra e vimos o que viu
Caminha. O monte a que chamaram Pascoal e as serras mais baixas e a terra chã.
Mas o que vimos e fizemos depois em nada se pareceu ao que viram e fizeram
eles. Pois, Senhor, tínhamos passado por um portal do tempo e chegamos à vossa
nova terra quando nova já não era.
No ancoradouro em que aportamos, 500 anos depois, haviam
barcos fundeados, obra de 10 ou 12, mas que pouco se pareciam com as naus de
hoje. Vimos que no futuro o velame será imenso, o que permitirá que os barcos
cheguem a vários andares de altura e várias funduras de quina, e com tal
amplidão que seria possível aos navegadores portugueses atenderem ao secreto
desejo da sua alma e levarem o Restêlo na viagem. Mas o Restêlo lá já estava!
Além do cais erguia-se uma cidade não muito diferente de Lisboa ou do Porto.
Nossa chegada foi saudada com fogos de artifício e
bandeiradas, tiros de pólvora seca das naus e muito ruído da multidão.
Desfilamos, escoltados, pelas ruas da cidade, vendo de perto a felicidade e a
prosperidade de todos, e todos nos festejavam sem que para isso houvesse razão
forte. Depois se explicou a alegria: tomaram a nossa nau como uma réplica das
naus de 500 anos antes, e nossa chegada como uma comemoração do achamento da
Papagália, pois assim será chamada a terra nova no ano 2000.
De nada adiantou falar do portal do tempo e do vento
misterioso que nos lançara da costa da África para a costa do inexplicável. Não
o entenderam e riram-se muito, e nos discursos que fizeram no banquete em nossa
honra, em sua língua arrevesada que parecia português falado pelo nariz,
julguei ouvir elogios aos recém-chegados, que tinham cruzado o oceano não numa
casca de noz, mas numa imitação de casca de noz e mereciam tantos brindes com
aguardente quanto era grande a sua coragem. Naquela noite todos os tripulantes
dormiram com sete mulheres cada um, pardas e brancas, salvo o Ataíde, que
dormiu abraçado com um crucifixo. E só eu encanei quatro, por diante e por
trás, antes de sumir dentro de mim num sorvedouro de aguardente. E vi que no
banquete o aguardente era servido a todos em taças de ouro.

Já o capitão viu outra coisa. Para Vasco de Ataíde os tiros
de recepção no porto não eram de festim, eram de verdade, fomos escoltados
através das ruas da cidade e das suas multidões maltrapilhas como prisioneiros,
o banquete não foi um banquete, foi um interrogatório, e os brindes foram
orações de exorcismo, pois nos tomavam como enviados do Demônio. Contou Ataíde
que, contrariando sua natureza fidalga, teve de mentir como um cigano, dizendo
que não éramos uma manifestação maligna, mas estávamos a recriar a viagem de
500 anos antes, em todos os detalhes, do velame aos cadarços e dos calções ao
sotaque.
E fez isso com grande dificuldade, pois em 500 anos o Homem,
se aprendeu a construir barcos gigantescos, desaprendeu o latim. E assim os
bispos, pois eram bispos, aceitaram que não éramos visitantes de outro mundo e
sim encenações dos primeiros portugueses. E se isso pouco mudou seus humores,
pois ali não tinham grande veneração pelos antepassados nem achavam que seu começo
era de muito se festejar, pelo menos, segundo Ataíde, nos salvou da grelha. Mas
fomos avisados para não nos misturarmos ao povo do Novo Portugal, pois assim
Ataíde entendeu o nome futuro de Vera Cruz. O povo era ignorante e
supersticioso, e mal distinguiria uma falsa pronúncia antiga de uma das línguas
do Diabo. E Vasco de Ataíde confirma que o vinho era servido em taças de ouro,
mas só para os senhores e os bispos.
Na vossa nova terra, Senhor, tudo será compartilhado e o que
for de um será de outro. Das histórias conservadas do achamento, como relatou
Caminha, as mais contadas em Papagália serão as das trocas com o gentio. De
como os portugueses davam barretes vermelhos e carapuças de linho e sombreiros
e recebiam em troca muito mais do que davam, e para cada barrete recebiam 10
cocares, para cada carapuça 12 colares e para cada sombreiro 20 papagaios.

Em Papagália, nos dias de festa, os nobres dão tudo do que é
seu para os plebeus, e os plebeus dão tudo do que é seu para os nobres, e os
nobres vivem como plebeus e os plebeus como nobres até a festa seguinte, quando
destrocam tudo, pois a terra é rica e haverá para todos. Mas assim não viu meu
capitão, Vasco de Ataíde, para quem o resultado de 500 anos em que um chapéu
português valerá 20 papagaios na nova terra e um papagaio valerá 20 chapéus
novos em Portugal será uma classe de nobres com 20 vezes 500 mais chapéus do
que a outra, e que não trocará nada com ninguém.
Vimos, para a alegria de Vossa Alteza, o ouro e a prata que
Cabral e Caminha não viram, e vimos a sua abundância. Ouro, prata, diamantes,
tudo tem a vossa terra para ter Felicidade. E será feliz (digo eu) e não será
feliz (diz o Ataíde). Vi que todos beberão em taças de ouro, viu o Ataíde que
disso só farão os senhores e os bispos. Vi putos do tamanho da minha meia-perna
jogando com diamantes nas ruas, enquanto Ataíde só viu diamantes nos jogos da
corte, onde um dos costumes é comê-los e cagá-los, pois descobrindo diamantes
no próprio barro os nobres têm o prazer diário da garimpagem sem o desconforto
da aventura ou de deixarem o litoral, além da lembrança da sua superioridade
sobre bestas e pobres com sua merda sem conteúdo, e, mais ainda, saúde, pois a
passagem de diamantes enobrece tripas que de outra forma seriam só tripas.
Para mim o encontro da inocência dos pardos com a bondade
lusitana inaugurou um país como antes não havia, “Dulcia incógnita”, doçura
inédita, uma Arcádia portuguesa. O povo é o mesmo que Caminha viu nas praias,
mas com uma alma cristã e 500 anos de educação clássica e atruística, além das
vergonhas tapadas, e com eles muitos portugueses queimados do sol e igualmente
pardos.
Fazem tão pouco da vã fortuna de todos que a prata é usada
nos telhados e nos urinóis. Já Ataíde diz que encontramos o Paraíso antes da
Queda, adões e evas antes da Culpa Feliz que os condenaria e salvaria, pois é
preciso pecar para ser regenerado. E diz que salvamos os inocentes corrompendo-os,
trazendo-os como comparsas ou escravos para a corrente da História, para o
pântano do vício, para a ambição e o comércio e o torvelinho das dúvidas, para
que tais provações lhe dessem o paraíso depois da Morte. Em Novo Portugal, no
ano 2000, Vasco de Ataíde viu um antevestíbulo da Eternidade onde pardos e
plebeus juntavam misérias para merecer lugares no Céu e senhores juntavam
riquezas para comprá-los, e os bispos intermediavam.

Aqui em Calicute, muito discutimos com Caminha e os outros o
fato de os pardos usarem arcos e setas como as usávamos antes de a pólvora nos
trazer suas bênçãos, pois certamente eles não tinham notícia das Escrituras, onde
os homens da Europa tinham buscado suas artes de matar com distância: a funda
de Davi, as lanças dos essenitas e os arcos e as setas dos assírios no cerco de
Jerusalém. Uns desconfiam que aqueles homens são descendentes de uma das tribos
perdidas de Israel, o que explicaria o seu conhecimento bíblico, do que outros
discordaram, visto que nenhum tinha as vergonhas circuncidadas. Outros pensam
que o arco e as setas foi uma idéia que nasceu com o homem e era uma das
ciências naturais de Adão, ao contrário da besta e das armas de fogo, produtos
da civilização moderna.
Contei que em 2000 haverá bestas de seis e sete e até oito
setas apontadas para todos os lados menos para trás, para caçar de tudo menos o
caçador, mas as maiores armas de guerra serão gigantescas Catapultas
Hipotéticas, enormes instrumentos de ataque que ninguém saberá como funcionam,
dado que Papagália não fará guerra com nenhuma outra ilha. Haverá um exército
só para manter, pintar, polir e azeitar os grandes instrumentos que não terá
como disparar, pois o único que sabia morreu sem passar o segredo, já que nunca
foi necessário. E as Catapultas Hipotéticas ficarão em seus lugares e só sairão
para desfilar em dias de festa cobertas de crianças e flores.
Em Papagália a pólvora só será usada em fogos de artifício e
folguedos de rua, e só haverá explosões nos ares em dias de grande festa.
Concordei que arco e setas é uma das ciências naturais que Deus insuflou em
Adão pelas narinas, só não tendo certeza como a ciência passou dos descendentes
de Adão para os outros seres, como os que encontraram em Vera Cruz, e por que
os outros seres, imitando o arco e as setas, também não imitaram as falas e as
vestimentas cristãs. Vasco de Ataíde diz que Novo Portugal será fortificado,
pois muitos serão os inimigos que cobiçarão nosso entreposto privilegiado para
as especiarias do Oriente, e os exércitos existem para garantir o comércio. E
sobre o arco e as setas disse Vasco de Ataíde que são a única coisa comum a
todos os homens da Terra, cristão ou não, além do membro desonesto,
circuncidado ou não.
Em Calicute também muito falamos das moças da nova terra, e
das suas vergonhas altas e cerradinhas, tão limpas de cabeleiras, como as viram
Caminha e os outros. E ouvindo sobre as partes glabras das moças, lembrei-me da
minha Maria, cujo vaso natural tem a cercá-lo um jardim chumacento como um
quintal das Terras Altas onde muito chove, e como existem sob as fraldas nobres
que conhece Vossa Alteza, salvo se na corte for diferente. E se me subiu, num
mesmo assomo, a saudade de Portugal e a ventura de aí não estar.
Contei que 500 anos depois muito se falará de outros éfes, além
de Fortuna, Fama e Fé, que chamarão os navegadores para os outros mundos. Éfes
de Fêmeas Formosas com suas Fendas Fabulosas e Fechadas, mundos onde os montes
das moças serão lisos e à toda vista e os montes da terra serão luxuriantes, ao
contrário da Europa, onde os montes das moças vicejam escondidos e os montes da
terra são lisos. E o mundo e a História agradecerão o quanto devem às partes
peludas da Europa.
Em Papagália todos andarão com suas vergonhas tapadas, mas
as destaparão para as festas e para o banho diário, que será público, no mar.
Em 2000, homens e mulheres se vestirão da mesma maneira e só se lhes conhecerá
o gênero quando se destaparem, e não existirá qualquer pejo em se mostrarem o
um ao outro antes da cópula, para saber o que o um pode fazer com o outro, ou
se vale a pena.
Parecem todos despreocupados e felizes e pouco trabalham,
pois riqueza há para todos, e frutas e legumes para quem pegar. Vasco de Ataíde
diz que não viu homens e mulheres copulando como animais contentes, não viu nobres
e plebeus colhendo as mesmas frutas e legumes, ou nobre brando e plebeu feliz,
ou todos se entregando juntos ao vício árabe do banho frequente, e que o que
Portugal dará ao mundo, louvado seja Deus, será outro Portugal.
Em Papagália, os papagaios terão grande prestígio e devoção.
Em 500 anos de convívio com os portugueses e intercâmbio com a Terra Mestre
desenvolverão um português próprio, que usarão com desenvoltura. Terão a
expressão, a inflexão, a entonação e a garrulice humanas, mas não terão o
raciocínio, e se manifestarão sobre todos os assuntos com grande animação, mas
pouco sentido. O que será a causa do seu prestígio e devoção entre as gentes,
pois darão a impressão de transmitir idéias quando apenas transmitem barulho
agradável, e em Papagália barulho terá mais valor do que idéias, por ser mais
pacífico.
Serão tão amados os papagaios que terão privilégios que os
bispos e os nobres não terão no Segundo Paraíso, e serão chamados de “Comunicadores”
em gratidão por nada comunicarem. Para Vasco de Ataíde, em Novo Portugal os
papagaios serão venerados e formarão uma casta, mas serão mantidos pelos bispos
e os nobres para distrair os plebeus e os pardos das suas misérias. Pois que
tudo dizendo e não dizendo nada, pouparão o gentio de ter idéias articuladas, e
dos malefícios do pensamento.
Em Papagália todos são súditos do rei de Portugal, vosso
descendente, Alteza, mas na ilha não há governo, pois não carecem de nada do
que faria um governo. Não usam dinheiro, portanto não precisam de impostos. Não
fazem guerra, portanto basta um exército autogerido para polir as Catapultas
Hipotéticas. E para os debates sem serventia e o divertimento, que são as
outras funções do governo, há os papagaios.
Vasco de Ataíde concorda que todos em Novo Portugal são
súditos do seu magnífico descendente, Alteza, mas há um Vice-Rei que recebe
ordens diretamente de Portugal quanto ao que gastar e o que fazer e finge que
governa com um pequeno grupo de nobres que nunca muda, e os nobres fazem as leis
para o seu próprio proveito. Mas há participação popular no governo, que é
biparlatorial. No paço comunal existe um balcão abaixo, onde se reúne o povo
para fazer suas reivindicações do governo, e um balcão acima, no qual o
Vice-Rei e os nobres ouvem as reivindicações do povo, depois mijam nele.
Em duas coisas concordamos, eu e Vasco de Ataíde, sobre a
terra nova, da qual uma ventania tão misteriosa quanto a primeira nos varreu de
volta a 1500, e à rota para Calicute: que vossa grande ilha é deveras mui
formosa e de muitos bons ares, e que 500 anos depois o nome de Vossa Alteza
venturosa continuará a ressoar nas terras portuguesas e nos mares entre elas.
Escrevo, Alteza, com a morte me lambendo os pés.
Não sei que rancores Cabral despertou nos locais, que
preferem o nosso sangue a bons negócios. Caminha já se foi, transposto por uma
cimitarra. Não sei o que é feito de Vasco de Ataíde, meu vinagroso capitão. Não
sei quantos escaparão com vidas para beijar o chão do Restêlo, e vossas mãos.
Escrevo estas últimas linhas com meu próprio sangue. A verdadeiro escrivão pode
faltar vocabulário e papel, mas jamais faltará tinta.
Tive que fazer minha última escolha, entre segurar a espada
com a destra e a pena com a outra, e assim bem esgrimar com os incréus, mas mal
escrever, ou a pena com a destra e a espada com a outra, e assim escrever
melhor e viver menos. Vê Vossa Alteza que preferi a boa caligrafia à boa
defesa. Se alguma posteridade eu tiver, que venha como um exemplo para os
escrevedores do futuro: que sejam caprichosos e claros, mesmo sendo mentirosos.