terça-feira, agosto 04, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 2

 


2. No Brasil, diferentemente de outros países onde o carnaval ainda conservava alguma aparência de ritual coletivo, a festa ganhou fama justamente por ser o momento oficial da catarse nacional. Era a época em que o povo, esmagado pelas agruras do cotidiano, saía às ruas para cantar, dançar, rir de si mesmo e esquecer, ainda que por alguns dias, que a conta do armazém continuava lá esperando. Nos antigos blocos dos “sujos” e entre mascarados de toda espécie, reinavam a irreverência, a espontaneidade e aquele humor debochado que nunca precisou de patrocínio, camarote VIP ou pulseira eletrônica para existir.

Mas, como costuma acontecer no Brasil, quando algo se torna genuinamente popular, logo aparece alguém disposto a cercá-lo com cordas, cobrar ingresso e chamar isso de evolução. Aos poucos, o carnaval foi perdendo parte de sua alma popular e adquirindo ares aristocráticos, clubísticos e seletivos. Surgiram os bailes luxuosos, frequentados por quem tinha sobrenome, dinheiro ou ambos, enquanto o povo, que havia inventado a brincadeira, passava a observá-la do lado de fora.

Hoje, o carnaval é celebrado em diversos países de tradição católica nos dias que antecedem a Quaresma. A festa gira em torno de fantasias, música, dança e uma generosa suspensão do bom senso. Seu nome tem origem controversa. Alguns estudiosos o relacionam ao latim medieval carnem levare ou carnelevarium, expressões ligadas à despedida da carne antes dos quarenta dias de abstinência quaresmal. Em outras palavras: era a última oportunidade de exagerar antes que a Igreja lembrasse aos fiéis que a diversão tinha prazo de validade.

Como toda tradição humana, o carnaval também sofre de problemas de calendário. Em Munique e na Baviera, na Alemanha, começa no Dia de Reis, em 6 de janeiro. Em Colônia e na Renânia, também na Alemanha, alguém decidiu que a festa deveria começar exatamente às 11 horas e 11 minutos do dia 11 de novembro. Afinal, se é para criar uma tradição, por que não complicar um pouco?

Na França, a celebração é mais econômica e se concentra basicamente na terça-feira gorda e na mi-carême (“meio da quaresma”). Nos Estados Unidos, especialmente em Nova Orleans, a festa se estende do Dia de Reis até o famoso Mardi Gras (foto). Já na Espanha, a quarta-feira de cinzas também entra na brincadeira, numa espécie de prorrogação carnavalesca que sugere uma dificuldade histórica em aceitar que a festa acabou.

No Brasil, até a década de 1940, sobretudo no Rio de Janeiro, o carnaval começava a ensaiar seus primeiros passos ainda em outubro, durante os festejos de Nossa Senhora da Penha. Crescia no fim do ano e explodia nos quatro dias que antecediam a Quaresma. Hoje, em cidades como Recife e Salvador, a festa se alonga tanto que às vezes parece disputar com o Natal o título de comemoração mais extensa do calendário. Dependendo do entusiasmo dos organizadores, só falta chegar ao Dia das Mães.

Entretanto, há uma ironia pouco comentada. Embora o carnaval brasileiro continue sendo vendido como a maior festa popular do planeta, apenas uma pequena parcela da população participa efetivamente dele. Na chamada época de ouro – entre o final do século 19 e os anos 1950 – a multidão não assistia ao carnaval: ela era o carnaval. Atualmente, boa parte do público ocupa o confortável papel de espectador, consumindo imagens da folia pela televisão, pelas redes sociais ou dos camarotes que transformaram a espontaneidade popular em produto premium.

Ainda assim, o carnaval brasileiro segue sendo celebrado como um dos melhores do mundo por turistas estrangeiros e por muitos brasileiros, especialmente pelos mais jovens, que nunca conheceram aquele carnaval verdadeiramente compartilhado, improvisado e democrático. É um pouco como sentir saudade de uma cidade que nunca se visitou.

Talvez ninguém tenha resumido melhor essa transformação do que o folclorista Luís da Câmara Cascudo. Segundo ele, “o carnaval de hoje é de desfile, carnaval assistido, paga-se para ver”. O carnaval de antigamente era vivido, dançado, pulado, gritado e até cutucado. O de hoje, em muitos casos, parece uma grande vitrine: de um lado, os que pagam para aparecer, do outro, os que pagam para assistir. E ambos saem convencidos de que participaram da mesma festa.

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