2. No Brasil, diferentemente de outros
países onde o carnaval ainda conservava alguma aparência de ritual coletivo, a
festa ganhou fama justamente por ser o momento oficial da catarse nacional. Era
a época em que o povo, esmagado pelas agruras do cotidiano, saía às ruas para
cantar, dançar, rir de si mesmo e esquecer, ainda que por alguns dias, que a
conta do armazém continuava lá esperando. Nos antigos blocos dos “sujos” e
entre mascarados de toda espécie, reinavam a irreverência, a espontaneidade e
aquele humor debochado que nunca precisou de patrocínio, camarote VIP ou
pulseira eletrônica para existir.
Mas, como
costuma acontecer no Brasil, quando algo se torna genuinamente popular, logo
aparece alguém disposto a cercá-lo com cordas, cobrar ingresso e chamar isso de
evolução. Aos poucos, o carnaval foi perdendo parte de sua alma popular e
adquirindo ares aristocráticos, clubísticos e seletivos. Surgiram os bailes
luxuosos, frequentados por quem tinha sobrenome, dinheiro ou ambos, enquanto o
povo, que havia inventado a brincadeira, passava a observá-la do lado de fora.
Hoje, o
carnaval é celebrado em diversos países de tradição católica nos dias que
antecedem a Quaresma. A festa gira em torno de fantasias, música, dança e uma
generosa suspensão do bom senso. Seu nome tem origem controversa. Alguns
estudiosos o relacionam ao latim medieval carnem levare ou carnelevarium,
expressões ligadas à despedida da carne antes dos quarenta dias de abstinência
quaresmal. Em outras palavras: era a última oportunidade de exagerar antes que
a Igreja lembrasse aos fiéis que a diversão tinha prazo de validade.
Como toda
tradição humana, o carnaval também sofre de problemas de calendário. Em Munique
e na Baviera, na Alemanha, começa no Dia de Reis, em 6 de janeiro. Em Colônia e
na Renânia, também na Alemanha, alguém decidiu que a festa deveria começar
exatamente às 11 horas e 11 minutos do dia 11 de novembro. Afinal, se é para
criar uma tradição, por que não complicar um pouco?
Na França, a
celebração é mais econômica e se concentra basicamente na terça-feira gorda e
na mi-carême (“meio da quaresma”). Nos Estados Unidos, especialmente em Nova
Orleans, a festa se estende do Dia de Reis até o famoso Mardi Gras (foto). Já na
Espanha, a quarta-feira de cinzas também entra na brincadeira, numa espécie de
prorrogação carnavalesca que sugere uma dificuldade histórica em aceitar que a
festa acabou.
No Brasil, até
a década de 1940, sobretudo no Rio de Janeiro, o carnaval começava a ensaiar
seus primeiros passos ainda em outubro, durante os festejos de Nossa Senhora da
Penha. Crescia no fim do ano e explodia nos quatro dias que antecediam a
Quaresma. Hoje, em cidades como Recife e Salvador, a festa se alonga tanto que
às vezes parece disputar com o Natal o título de comemoração mais extensa do
calendário. Dependendo do entusiasmo dos organizadores, só falta chegar ao Dia
das Mães.
Entretanto, há
uma ironia pouco comentada. Embora o carnaval brasileiro continue sendo vendido
como a maior festa popular do planeta, apenas uma pequena parcela da população
participa efetivamente dele. Na chamada época de ouro – entre o final do século
19 e os anos 1950 – a multidão não assistia ao carnaval: ela era o carnaval.
Atualmente, boa parte do público ocupa o confortável papel de espectador,
consumindo imagens da folia pela televisão, pelas redes sociais ou dos
camarotes que transformaram a espontaneidade popular em produto premium.
Ainda assim, o
carnaval brasileiro segue sendo celebrado como um dos melhores do mundo por
turistas estrangeiros e por muitos brasileiros, especialmente pelos mais
jovens, que nunca conheceram aquele carnaval verdadeiramente compartilhado,
improvisado e democrático. É um pouco como sentir saudade de uma cidade que
nunca se visitou.
Talvez ninguém
tenha resumido melhor essa transformação do que o folclorista Luís da Câmara
Cascudo. Segundo ele, “o carnaval de hoje é de desfile, carnaval assistido,
paga-se para ver”. O carnaval de antigamente era vivido, dançado, pulado,
gritado e até cutucado. O de hoje, em muitos casos, parece uma grande vitrine:
de um lado, os que pagam para aparecer, do outro, os que pagam para assistir. E
ambos saem convencidos de que participaram da mesma festa.

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