quarta-feira, agosto 05, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 3

 


3. Se o carnaval brasileiro tem um avô legítimo, ele não era exatamente um cavalheiro. Chamava-se entrudo e chegou ao Brasil trazido pelos portugueses dos Açores. Era uma brincadeira tão refinada quanto uma briga de galos dentro de um chiqueiro. Grosseiro, violento, sujo e frequentemente estúpido, o entrudo consistia em jogar nos outros tudo o que estivesse ao alcance da mão: baldes de água, bisnagas, limões-de-cheiro, pó de cal, vinagre, groselha, vinho e, para os mais criativos e menos civilizados, até urina. Era uma espécie de guerra química artesanal praticada muito antes de a humanidade inventar convenções internacionais para proibir esse tipo de coisa.

Curiosamente, essa demonstração coletiva de barbárie era tolerada pelo imperador Pedro II, homem culto, poliglota e leitor compulsivo, mas aparentemente bastante compreensivo quando o assunto era ver a aristocracia trocando banhos involuntários de líquidos suspeitos nos jardins da Quinta da Boa Vista. Afinal, nada une mais uma nação do que a possibilidade de humilhar o próximo sem consequências jurídicas.

Mas seria injusto reduzir o entrudo a uma simples sucessão de grosserias. Para escravos, libertos e pobres em geral, aqueles dias representavam uma rara oportunidade de inverter, ainda que simbolicamente, as hierarquias de uma sociedade construída sobre privilégios e opressões. Durante algumas horas, a vítima de ontem podia transformar-se no algoz de hoje, armada com um balde, uma bisnaga ou qualquer recipiente que não tivesse sido lavado recentemente. O entrudo começou a perder espaço quando chegaram da Europa novidades mais elegantes, como o lança-perfume, o confete e a serpentina. Em outras palavras, a civilização finalmente descobriu que era possível importunar os outros com mais charme e menos risco de cegueira.

Durante muito tempo, especialmente no Rio de Janeiro, o carnaval também serviu para homenagear figuras populares da cidade. Entre elas destacou-se um sapateiro português chamado José Nogueira de Azevedo Paredes. Em 1846, ele resolveu sair às ruas acompanhado de zabumbas e tambores, reproduzindo costumes de sua terra natal. O resultado foi um sucesso estrondoso – literalmente. Nascia o famoso Zé-Pereira, prova de que o brasileiro sempre teve uma relação muito íntima com qualquer manifestação que produzisse barulho suficiente para acordar um bairro inteiro.

A fama do personagem cresceu tanto que acabou virando peça teatral. O povo cantava entusiasmado: “Viva o Zé-Pereira, pois que a ninguém faz mal / Viva a bebedeira nos dias de carnaval”. Uma afirmação curiosa para um desfile cuja principal característica era fazer exatamente o contrário daquilo que recomendavam os médicos, os padres e os vizinhos que queriam dormir.

No início do século 20, as zabumbas foram ganhando a companhia de pandeiros, tamborins, reco-recos, cuícas, triângulos e frigideiras. Sim, frigideiras. O brasileiro sempre demonstrou talento para transformar qualquer objeto doméstico em instrumento musical desde que isso implicasse produzir o máximo de ruído possível. Desse caldo sonoro surgiram os blocos de rua. Bastava o Zé-Pereira passar e atrás dele formava-se uma procissão profana de foliões, curiosos, desocupados e especialistas em matar o expediente. Era o embrião de uma tradição que mais tarde arrastaria multidões e patrocinadores na mesma proporção.

Por volta de 1870 apareceram os cordões carnavalescos, compostos por negros, mulatas e brancos pobres. Enquanto a elite se divertia em bailes fechados e iluminados por lustres importados, o povo inventava nas ruas a verdadeira alma do carnaval brasileiro, embalado por ritmos profundamente influenciados pelas tradições africanas que a sociedade da época fingia desprezar, mas adorava copiar quando chegava a hora da festa.

À frente dos cordões vinham enormes estandartes chamados “panos”, conduzidos com orgulho por seus porta-estandartes. No início do século 20, o número dessas agremiações chegou a duzentas. Eram nomes como Teimosos da Chama, Dália de Ouro e Destemidos do Livramento. Convenhamos: até os nomes eram mais criativos do que boa parte dos slogans publicitários que hoje tentam vender o carnaval como experiência premium.

Nos salões, quem reinava eram três personagens importados da Commedia dell’Arte italiana: Colombina, Pierrô e Arlequim. O enredo era simples e atravessou séculos sem envelhecer. Pierrô era o romântico incurável, especializado em sofrer por amor. Arlequim era o malandro debochado que tentava roubar sua namorada. E Colombina, bela, sedutora e inconstante, mantinha os dois girando em torno dela como satélites sem combustível emocional. 

Traduzindo para os dias atuais, Pierrô seria o sujeito que escreve textões de madrugada nas redes sociais, Arlequim, o amigo que reage com foguinho às fotos da namorada dele, e Colombina, a influencer que monetiza o triângulo amoroso sem assumir compromisso com nenhum dos dois. Já o rei Momo, soberano máximo da folia, nasceu inspirado nos bufos portugueses, atores especializados em fazer rir os nobres. Nada mais apropriado. Desde então, boa parte da política nacional parece ter se esforçado para honrar essa tradição teatral.

As fantasias e máscaras viveram seu auge entre o final do século 19 e meados do século 20. Havia de tudo: caveiras, diabos, morcegos, rajás, mandarins, velhos, doutores e até burros com orelhas enormes. Em muitos casos, a fantasia servia apenas para tornar visível aquilo que alguns indivíduos passavam o resto do ano tentando esconder. O declínio começou quando os custos dos tecidos e adornos dispararam. 

Aos poucos, as fantasias foram encolhendo. Primeiro por economia. Depois por praticidade. Mais tarde por causa do calor tropical. Finalmente, por uma combinação explosiva das três coisas. O resultado foi uma evolução curiosa: da indumentária elaborada do Império ao short, à bermuda, ao biquíni e, em alguns casos, a uma quantidade de tecido insuficiente para confeccionar um guardanapo.

As máscaras também enfrentaram uma história atribulada. Desde o século 17 eram proibidas e liberadas conforme o humor das autoridades. Em 1685, por exemplo, um governador determinou que negros e mulatos mascarados fossem chicoteados em praça pública, enquanto brancos mascarados seriam enviados para o exílio. Era a velha tradição colonial de distribuir castigos de acordo com a cor da pele e o tamanho da conta bancária.

Apesar das proibições, as máscaras sobreviveram por séculos. O brasileiro sempre teve enorme apreço pelo anonimato festivo. Talvez porque, num país acostumado a tantas desigualdades, vestir uma fantasia fosse uma das poucas formas de experimentar a liberdade de ser outra pessoa – ainda que apenas até a quarta-feira de cinzas, quando a realidade reaparecia sem máscara, sem maquiagem e sem nenhuma intenção de participar da brincadeira.

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