3. Se o carnaval brasileiro tem um avô
legítimo, ele não era exatamente um cavalheiro. Chamava-se entrudo e chegou ao
Brasil trazido pelos portugueses dos Açores. Era uma brincadeira tão refinada
quanto uma briga de galos dentro de um chiqueiro. Grosseiro, violento, sujo e
frequentemente estúpido, o entrudo consistia em jogar nos outros tudo o que
estivesse ao alcance da mão: baldes de água, bisnagas, limões-de-cheiro, pó de
cal, vinagre, groselha, vinho e, para os mais criativos e menos civilizados,
até urina. Era uma espécie de guerra química artesanal praticada muito antes de
a humanidade inventar convenções internacionais para proibir esse tipo de
coisa.
Curiosamente,
essa demonstração coletiva de barbárie era tolerada pelo imperador Pedro II,
homem culto, poliglota e leitor compulsivo, mas aparentemente bastante
compreensivo quando o assunto era ver a aristocracia trocando banhos
involuntários de líquidos suspeitos nos jardins da Quinta da Boa Vista. Afinal,
nada une mais uma nação do que a possibilidade de humilhar o próximo sem
consequências jurídicas.
Mas seria
injusto reduzir o entrudo a uma simples sucessão de grosserias. Para escravos,
libertos e pobres em geral, aqueles dias representavam uma rara oportunidade de
inverter, ainda que simbolicamente, as hierarquias de uma sociedade construída
sobre privilégios e opressões. Durante algumas horas, a vítima de ontem podia
transformar-se no algoz de hoje, armada com um balde, uma bisnaga ou qualquer
recipiente que não tivesse sido lavado recentemente. O entrudo começou a perder
espaço quando chegaram da Europa novidades mais elegantes, como o
lança-perfume, o confete e a serpentina. Em outras palavras, a civilização
finalmente descobriu que era possível importunar os outros com mais charme e
menos risco de cegueira.
Durante muito
tempo, especialmente no Rio de Janeiro, o carnaval também serviu para
homenagear figuras populares da cidade. Entre elas destacou-se um sapateiro
português chamado José Nogueira de Azevedo Paredes. Em 1846, ele resolveu sair
às ruas acompanhado de zabumbas e tambores, reproduzindo costumes de sua terra
natal. O resultado foi um sucesso estrondoso – literalmente. Nascia o famoso
Zé-Pereira, prova de que o brasileiro sempre teve uma relação muito íntima com
qualquer manifestação que produzisse barulho suficiente para acordar um bairro
inteiro.
A fama do
personagem cresceu tanto que acabou virando peça teatral. O povo cantava
entusiasmado: “Viva o Zé-Pereira, pois que a ninguém faz mal / Viva a bebedeira
nos dias de carnaval”. Uma afirmação curiosa para um desfile cuja principal
característica era fazer exatamente o contrário daquilo que recomendavam os
médicos, os padres e os vizinhos que queriam dormir.
No início do
século 20, as zabumbas foram ganhando a companhia de pandeiros, tamborins,
reco-recos, cuícas, triângulos e frigideiras. Sim, frigideiras. O brasileiro
sempre demonstrou talento para transformar qualquer objeto doméstico em
instrumento musical desde que isso implicasse produzir o máximo de ruído
possível. Desse caldo sonoro surgiram os blocos de rua. Bastava o Zé-Pereira
passar e atrás dele formava-se uma procissão profana de foliões, curiosos,
desocupados e especialistas em matar o expediente. Era o embrião de uma
tradição que mais tarde arrastaria multidões e patrocinadores na mesma
proporção.
Por volta de
1870 apareceram os cordões carnavalescos, compostos por negros, mulatas e
brancos pobres. Enquanto a elite se divertia em bailes fechados e iluminados
por lustres importados, o povo inventava nas ruas a verdadeira alma do carnaval
brasileiro, embalado por ritmos profundamente influenciados pelas tradições
africanas que a sociedade da época fingia desprezar, mas adorava copiar quando
chegava a hora da festa.
À frente dos
cordões vinham enormes estandartes chamados “panos”, conduzidos com orgulho por
seus porta-estandartes. No início do século 20, o número dessas agremiações
chegou a duzentas. Eram nomes como Teimosos da Chama, Dália de Ouro e
Destemidos do Livramento. Convenhamos: até os nomes eram mais criativos do que
boa parte dos slogans publicitários que hoje tentam vender o carnaval como
experiência premium.
Nos salões, quem reinava eram três personagens importados da Commedia dell’Arte italiana: Colombina, Pierrô e Arlequim. O enredo era simples e atravessou séculos sem envelhecer. Pierrô era o romântico incurável, especializado em sofrer por amor. Arlequim era o malandro debochado que tentava roubar sua namorada. E Colombina, bela, sedutora e inconstante, mantinha os dois girando em torno dela como satélites sem combustível emocional.
Traduzindo para os dias atuais, Pierrô
seria o sujeito que escreve textões de madrugada nas redes sociais, Arlequim, o
amigo que reage com foguinho às fotos da namorada dele, e Colombina, a
influencer que monetiza o triângulo amoroso sem assumir compromisso com nenhum
dos dois. Já o rei Momo, soberano máximo da folia, nasceu inspirado nos bufos
portugueses, atores especializados em fazer rir os nobres. Nada mais
apropriado. Desde então, boa parte da política nacional parece ter se esforçado
para honrar essa tradição teatral.
As fantasias e máscaras viveram seu auge entre o final do século 19 e meados do século 20. Havia de tudo: caveiras, diabos, morcegos, rajás, mandarins, velhos, doutores e até burros com orelhas enormes. Em muitos casos, a fantasia servia apenas para tornar visível aquilo que alguns indivíduos passavam o resto do ano tentando esconder. O declínio começou quando os custos dos tecidos e adornos dispararam.
Aos poucos, as fantasias foram encolhendo. Primeiro por economia. Depois por
praticidade. Mais tarde por causa do calor tropical. Finalmente, por uma
combinação explosiva das três coisas. O resultado foi uma evolução curiosa: da
indumentária elaborada do Império ao short, à bermuda, ao biquíni e, em alguns
casos, a uma quantidade de tecido insuficiente para confeccionar um guardanapo.
As máscaras
também enfrentaram uma história atribulada. Desde o século 17 eram proibidas e
liberadas conforme o humor das autoridades. Em 1685, por exemplo, um governador
determinou que negros e mulatos mascarados fossem chicoteados em praça pública,
enquanto brancos mascarados seriam enviados para o exílio. Era a velha tradição
colonial de distribuir castigos de acordo com a cor da pele e o tamanho da
conta bancária.
Apesar das
proibições, as máscaras sobreviveram por séculos. O brasileiro sempre teve
enorme apreço pelo anonimato festivo. Talvez porque, num país acostumado a
tantas desigualdades, vestir uma fantasia fosse uma das poucas formas de
experimentar a liberdade de ser outra pessoa – ainda que apenas até a
quarta-feira de cinzas, quando a realidade reaparecia sem máscara, sem
maquiagem e sem nenhuma intenção de participar da brincadeira.

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