quinta-feira, agosto 27, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 41

 


41. O portelense João Batista Nogueira Júnior, mais conhecido como João Nogueira, faleceu em junho de 2000, vítima de um enfarte. Foi um dos maiores sambistas que o Brasil produziu, dono de uma voz inconfundível, de uma malandragem elegante e de uma capacidade rara de transformar qualquer roda de samba em patrimônio cultural da humanidade.

Carioca do Méier, flamenguista doente, aprendeu violão com o pai, compôs clássicos gravados por gigantes da música brasileira e deixou obras-primas como “Espelho”, “Poder da Criação”, “Nó na Madeira” e “As Forças da Natureza”.

Na década de 1980, quando o samba começou a ser tratado pela indústria fonográfica com o mesmo entusiasmo que um síndico dedica a um bloco de carnaval dentro do elevador, João reagiu criando o Clube do Samba. Era praticamente uma seleção brasileira do gênero.

Por lá circulavam Beth Carvalho, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Zé Kéti, Nei Lopes e uma infinidade de craques. Na bateria, nos sopros e nas cordas só havia monstros sagrados. Era mais fácil encontrar um gênio musical naquele salão do que uma pessoa comum. E o presidente daquela república independente do samba era justamente João Nogueira.

Pois bem. Em 1985, o fundador do Clube do Samba veio fazer um show em Manaus. Assim que chegou, ligou para seu velho amigo Altairzinho Nunes, violonista, farmacêutico e conhecedor profundo das prioridades da vida. 

Altairzinho não perdeu tempo:

– João, amanhã vai ter tambaqui assado e pagode na casa do Coracy Brasil, pai do Edu do Banjo e meu cunhado. Se você tiver disponível, faz o seguinte:

João aceitou o convite antes mesmo de ouvir o restante da frase.

No sábado, apareceu acompanhado de uma verdadeira delegação. Vieram Mané do Cavaco, Nicinho do Trombone, Cuscuz do Surdo, Dézio, Jorge Simas e outras figuras cuja simples presença já elevava o nível alcoólico médio do ambiente. 

Em menos de meia hora, a roda de samba estava instalada. Em uma hora, ninguém mais lembrava quem era anfitrião e quem era convidado. Em duas horas, a cerveja já começava a desaparecer numa velocidade preocupante.

Por volta das três da tarde, surgiu o protagonista oculto desta história. Não era João Nogueira. Não era o tambaqui. Não era o samba. Era uma pequena pimenta-malagueta. Uma criatura vermelha, discreta e aparentemente inofensiva, criada por Deus especificamente para testar a arrogância humana.

Enquanto devorava uma costela monumental de tambaqui, João percebeu que alguns amazonenses levantavam da mesa, caminhavam até uma pimenteira no fundo do quintal, colhiam algumas malaguetas, esmagavam tudo no prato, misturavam azeite, farofa e tucupi e comiam aquilo com a tranquilidade de quem passa manteiga no pão. Intrigado, perguntou:

– Que pimenta é essa?

Caio do Cavaco explicou:

– É malagueta. Prima da dedo-de-moça.

Fez uma pausa.

– Só que é a prima que saiu da cadeia.

Edu do Banjo reforçou:

– Vai com calma, João. Isso aí não é brincadeira.

João Nogueira ouviu os avisos com o mesmo interesse que um adolescente ouve recomendações para estudar. Olhou para as pequenas pimentas. Depois olhou para si mesmo. Era João Nogueira. Fundador do Clube do Samba. Parceiro de grandes compositores. Figura respeitada em todo o país. Que perigo poderia representar um vegetal de dois centímetros?

Tomado por essa confiança excessiva, esmagou cinco malaguetas num pires. Cinco. Não uma. Não duas. Cinco. Misturou azeite, farofa, tucupi e engoliu tudo de uma vez, como se estivesse assinando um tratado de paz. Durante trinta segundos, nada aconteceu. João chegou até a imaginar que os amazonenses estavam exagerando. Foi então que a malagueta resolveu se apresentar formalmente.

O sambista levantou da cadeira numa velocidade incompatível com as leis da física. Atravessou o quintal. E mergulhou de roupa e tudo na piscina. Foi um mergulho tão desesperado que alguns presentes cogitaram a hipótese de ele ter visto uma sucuri. Quando emergiu, parecia um sobrevivente de desastre industrial.

– Minha boca está pegando fogo!

Mergulho.

– Minha língua está pegando fogo!

Outro mergulho.

– Meu beiço está pegando fogo!

Mais um mergulho.

– Tragam gelo! Açúcar! Pasta de dente! Um padre! Um bombeiro! Qualquer coisa!

A cena era emocionante. Ali estava um dos maiores nomes da história do samba brasileiro sendo derrotado por cinco pimentas colhidas num quintal da Zona Norte de Manaus. Nem a censura da ditadura. Nem os executivos das gravadoras. Nem os defensores do jabá. Nem os críticos musicais. Nada havia conseguido derrubar João Nogueira daquele jeito. Somente a malagueta.

Após alguns minutos de negociações diplomáticas entre sua boca e o restante do organismo, a crise finalmente começou a passar. Ainda abalado, João sentou-se novamente e fez uma análise serena da situação. Ou pelo menos tão serena quanto alguém recém-saído de um incêndio bucal.

– Que sufoco, meu compadre...

Respirou fundo.

– Eu não sei o que está ardendo mais agora: minha boca...

Nova pausa.

– ...ou o que vai arder daqui a algumas horas.

A roda explodiu em gargalhadas. João então revelou a razão de sua preocupação estratégica:

– Eu sofro de hemorroidas, compadre!

Naquele instante, todos compreenderam que a batalha estava apenas no primeiro tempo. A guerra verdadeira ainda seria travada mais tarde. Dizem que João Nogueira continuou amando o samba, o tambaqui, Manaus e os amigos amazonenses. Mas nunca mais chegou perto de uma pimenta-malagueta. Porque algumas lições a vida ensina uma única vez. E algumas professoras vêm vestidas de vermelho, medem dois centímetros e crescem silenciosamente no fundo de um quintal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário