segunda-feira, setembro 14, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 68

 

Antídio Weil, Carlito Bezerra e Zeca da Gracinha

68. Fevereiro de 1985. O despachante Antídio Weil foi brincar o carnaval num baile do Cheik Clube. Em algum momento da madrugada, um parceiro de gandaia – desses que confundem amizade com experiência de laboratório – resolveu misturar alguns comprimidos de Artane na bebida dele.

O Artane é um medicamento usado no tratamento do mal de Parkinson. Misturado com álcool, porém, transforma qualquer cidadão pacato num roteirista de filme psicodélico. Não por acaso, também ganhou fama nos tempos do famigerado golpe do “Boa Noite, Cinderela”. Resultado: Antídio deixou o baile mais torto que serpentina molhada.

Quando chegou em casa, na Cohab-Am do Japiim, entrou pela porta da sala com os olhos arregalados, a testa suando e a coragem pedindo licença. Assim que o irmão João Carlos, o eterno Bazam, abriu a porta, Antídio disparou aos berros:

– Mano! A nossa casa está cheia de índios! Cheia de índios! Eles querem me matar!

Bazam olhou para a cara do irmão por dois segundos. Percebeu imediatamente que discutir com aquele cérebro era perda de tempo. O melhor era entrar na novela. Coçando o queixo, perguntou com a maior naturalidade do mundo:

– E onde essa tribo resolveu acampar?

Antídio respondeu quase chorando:

– No banheiro, porra! Tá tudo lotado! Tem índio pra todo lado! Eles são muitos... muitos...

Bazam fez cara de quem estava diante de uma grave questão de segurança nacional.

– Deixa comigo.

Entrou no banheiro, fechou a porta e passou uns dois minutos fazendo sabe Deus o quê. Talvez estivesse escovando os dentes. Talvez estivesse dando descarga para produzir efeitos sonoros de batalha. Talvez apenas estivesse rindo sozinho da situação. Quando voltou, trazia no rosto a serenidade de um caçador que acabara de salvar a humanidade.

– Pronto. Pode ficar tranquilo. Já matei três.

Antídio arregalou ainda mais os olhos.

– Três?

– Três. Mas ainda sobrou uma penca deles. Vai pro teu quarto, dorme sossegado, que eu termino o serviço. Até amanhecer não sobra um vivo.

Antídio respirou aliviado. A tensão desapareceu na mesma velocidade em que havia surgido. Obedeceu ao irmão sem fazer mais perguntas, entrou no quarto e dormiu feito um bebê.

Na manhã seguinte, acordou sem encontrar um único índio pela casa. Nem vivo. Nem morto. Mas, desde aquele dia, Bazam passou a ser reconhecido, pelo menos dentro da família, como o maior exterminador de índios imaginários da história do bairro.

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