68. Fevereiro de 1985. O despachante
Antídio Weil foi brincar o carnaval num baile do Cheik Clube. Em algum momento
da madrugada, um parceiro de gandaia – desses que confundem amizade com
experiência de laboratório – resolveu misturar alguns comprimidos de Artane na
bebida dele.
O Artane é um
medicamento usado no tratamento do mal de Parkinson. Misturado com álcool,
porém, transforma qualquer cidadão pacato num roteirista de filme psicodélico.
Não por acaso, também ganhou fama nos tempos do famigerado golpe do “Boa Noite,
Cinderela”. Resultado: Antídio deixou o baile mais torto que serpentina
molhada.
Quando chegou
em casa, na Cohab-Am do Japiim, entrou pela porta da sala com os olhos
arregalados, a testa suando e a coragem pedindo licença. Assim que o irmão João
Carlos, o eterno Bazam, abriu a porta, Antídio disparou aos berros:
– Mano! A nossa
casa está cheia de índios! Cheia de índios! Eles querem me matar!
Bazam olhou
para a cara do irmão por dois segundos. Percebeu imediatamente que discutir com
aquele cérebro era perda de tempo. O melhor era entrar na novela. Coçando o
queixo, perguntou com a maior naturalidade do mundo:
– E onde essa
tribo resolveu acampar?
Antídio
respondeu quase chorando:
– No banheiro,
porra! Tá tudo lotado! Tem índio pra todo lado! Eles são muitos... muitos...
Bazam fez cara
de quem estava diante de uma grave questão de segurança nacional.
– Deixa comigo.
Entrou no
banheiro, fechou a porta e passou uns dois minutos fazendo sabe Deus o quê.
Talvez estivesse escovando os dentes. Talvez estivesse dando descarga para
produzir efeitos sonoros de batalha. Talvez apenas estivesse rindo sozinho da
situação. Quando voltou, trazia no rosto a serenidade de um caçador que acabara
de salvar a humanidade.
– Pronto. Pode
ficar tranquilo. Já matei três.
Antídio
arregalou ainda mais os olhos.
– Três?
– Três. Mas
ainda sobrou uma penca deles. Vai pro teu quarto, dorme sossegado, que eu
termino o serviço. Até amanhecer não sobra um vivo.
Antídio
respirou aliviado. A tensão desapareceu na mesma velocidade em que havia
surgido. Obedeceu ao irmão sem fazer mais perguntas, entrou no quarto e dormiu
feito um bebê.
Na manhã
seguinte, acordou sem encontrar um único índio pela casa. Nem vivo. Nem morto. Mas,
desde aquele dia, Bazam passou a ser reconhecido, pelo menos dentro da família,
como o maior exterminador de índios imaginários da história do bairro.

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