17. Entre os grandes atos de fé da
humanidade estão a construção das pirâmides, a travessia do Atlântico por
Colombo e a decisão de Mestre Carlito de emprestar seu violão para Alderico
Barros. O resultado foi parecido nos três casos: ninguém sabia exatamente onde
aquilo iria parar.
Considerado um
dos maiores violonistas da história do Amazonas, Mestre Carlito carregava uma
biografia respeitável e um ouvido tão refinado que provavelmente identificaria
uma corda desafinada a dois bairros de distância. Cego desde os cinco anos de
idade, em consequência de uma conjuntivite provocada pelo sarampo, havia
desenvolvido uma relação quase afetiva com seu inseparável Alhambra 8C.
E não era
qualquer instrumento. Era um violão espanhol daqueles que fazem músico babar e
agiota aceitar como garantia. Tampo de cedro maciço, jacarandá indiano, escala
de ébano, ferragens douradas e toda aquela conversa técnica que serve
basicamente para informar que o objeto custava caro demais para ser emprestado.
Principalmente para Alderico.
Numa tarde de
sábado, Alderico apareceu em sua casa com a tradicional expressão facial dos
homens que estão prestes a pedir um favor que jamais deveriam pedir. Queria o
violão emprestado. Por um dia apenas.
– Devolvo hoje
mesmo!
A frase mais
perigosa da língua portuguesa. Carlito hesitou. Alderico insistiu. Carlito
hesitou de novo. Alderico insistiu melhor. E assim, depois de uma conversa que
certamente deveria ser estudada pelos departamentos de psicologia das
universidades, o violão foi entregue. Foi a última vez que alguém viu o
Alhambra em liberdade.
O domingo
chegou. Nada. A segunda-feira chegou. Nada. Uma semana passou. Nada. Duas
semanas depois, o violão já havia adquirido o mesmo status de desaparecidos
famosos como o voo MH370, a Arca da Aliança e o dinheiro das obras públicas.
Foi então que
entrou em cena o violonista Rinaldo Buzaglo. Num trabalho investigativo digno
da Polícia Federal, conseguiu descobrir o endereço de Alderico. Passou na casa
de Carlito. Colocou o amigo no carro. E partiram para a missão.
Chegando à
residência do suspeito, encontraram apenas a proprietária da vila. Ela não
sabia do paradeiro do violão. Mas sabia onde Alderico trabalhava. O que já era
mais informação do que a polícia costuma conseguir em certos casos. Lá foram
eles para a Cidade Nova.
Encontraram o
homem. Alderico os recebeu com a cordialidade de um contribuinte diante de uma
auditoria da Receita Federal. Disse que estava ocupado. Muito ocupado. Só
poderia tratar daquele assunto após o expediente.
Eram nove horas
da manhã. Nove horas. Carlito e Rinaldo fizeram o que qualquer cidadão
desesperado faria. Montaram campana num bar. Passaram o dia inteiro esperando.
Quando deu seis da tarde, reapareceram.
Dessa vez
Alderico embarcou no carro. Vitória. Ou assim parecia. Os três seguiram rumo à
Praça 14. Carlito já devia estar imaginando o reencontro com o velho Alhambra.
Talvez até planejando um sermão. Talvez um abraço. Talvez um homicídio leve.
Quando se
aproximaram da rua Nhamundá, Alderico orientou:
– Dobra à
direita.
Carlito
estranhou. Rinaldo também:
– Como assim?
Tua casa é dobrando à esquerda.
Foi então que
Alderico pronunciou uma das frases mais extraordinárias da história da
malandragem amazônica.
– Eu sei, meus
manos, eu sei. Mas nós não vamos lá em casa.
Pausa
dramática.
– Vamos
primeiro na casa da Mãe Ângela de Iansã.
Silêncio.
– Ela é uma
cartomante poderosa. Filha de catimbozeiros maranhenses. É a única pessoa capaz
de colocar uma vidência e descobrir onde está o teu violão.
Observe a
genialidade da situação. O principal suspeito do desaparecimento do instrumento
estava sentado dentro do carro. A menos de vinte minutos de sua própria
residência. Mas, segundo sua linha de raciocínio, a melhor estratégia
investigativa não era abrir a porta da casa. Era consultar o sobrenatural. Era
como um ladrão de galinhas sugerir a contratação de um arqueólogo para
descobrir quem roubou o galinheiro.
Naquele
instante, até Carlito, que não enxergava havia décadas, provavelmente conseguiu
visualizar perfeitamente o tamanho da picaretagem. O que aconteceu depois
ninguém sabe ao certo. O que se sabe é que a vidência falhou. Os espíritos não
colaboraram. Os búzios entraram em greve. Os orixás pediram licença. E o velho
Alhambra desapareceu para sempre.
Talvez tenha
sido vendido. Talvez tenha sido trocado por dívida. Talvez esteja até hoje
encostado em algum canto, aguardando que alguém toque um samba em sua
homenagem. Ou talvez a Mãe Ângela realmente tenha descoberto onde ele estava e
preferido não contar. Porque, às vezes, nem o mundo espiritual tem coragem de
se meter em certas histórias.

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