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quinta-feira, agosto 13, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 17

 


17. Entre os grandes atos de fé da humanidade estão a construção das pirâmides, a travessia do Atlântico por Colombo e a decisão de Mestre Carlito de emprestar seu violão para Alderico Barros. O resultado foi parecido nos três casos: ninguém sabia exatamente onde aquilo iria parar.

Considerado um dos maiores violonistas da história do Amazonas, Mestre Carlito carregava uma biografia respeitável e um ouvido tão refinado que provavelmente identificaria uma corda desafinada a dois bairros de distância. Cego desde os cinco anos de idade, em consequência de uma conjuntivite provocada pelo sarampo, havia desenvolvido uma relação quase afetiva com seu inseparável Alhambra 8C.

E não era qualquer instrumento. Era um violão espanhol daqueles que fazem músico babar e agiota aceitar como garantia. Tampo de cedro maciço, jacarandá indiano, escala de ébano, ferragens douradas e toda aquela conversa técnica que serve basicamente para informar que o objeto custava caro demais para ser emprestado. Principalmente para Alderico.

Numa tarde de sábado, Alderico apareceu em sua casa com a tradicional expressão facial dos homens que estão prestes a pedir um favor que jamais deveriam pedir. Queria o violão emprestado. Por um dia apenas.

– Devolvo hoje mesmo!

A frase mais perigosa da língua portuguesa. Carlito hesitou. Alderico insistiu. Carlito hesitou de novo. Alderico insistiu melhor. E assim, depois de uma conversa que certamente deveria ser estudada pelos departamentos de psicologia das universidades, o violão foi entregue. Foi a última vez que alguém viu o Alhambra em liberdade.

O domingo chegou. Nada. A segunda-feira chegou. Nada. Uma semana passou. Nada. Duas semanas depois, o violão já havia adquirido o mesmo status de desaparecidos famosos como o voo MH370, a Arca da Aliança e o dinheiro das obras públicas.

Foi então que entrou em cena o violonista Rinaldo Buzaglo. Num trabalho investigativo digno da Polícia Federal, conseguiu descobrir o endereço de Alderico. Passou na casa de Carlito. Colocou o amigo no carro. E partiram para a missão.

Chegando à residência do suspeito, encontraram apenas a proprietária da vila. Ela não sabia do paradeiro do violão. Mas sabia onde Alderico trabalhava. O que já era mais informação do que a polícia costuma conseguir em certos casos. Lá foram eles para a Cidade Nova.

Encontraram o homem. Alderico os recebeu com a cordialidade de um contribuinte diante de uma auditoria da Receita Federal. Disse que estava ocupado. Muito ocupado. Só poderia tratar daquele assunto após o expediente.

Eram nove horas da manhã. Nove horas. Carlito e Rinaldo fizeram o que qualquer cidadão desesperado faria. Montaram campana num bar. Passaram o dia inteiro esperando. Quando deu seis da tarde, reapareceram.

Dessa vez Alderico embarcou no carro. Vitória. Ou assim parecia. Os três seguiram rumo à Praça 14. Carlito já devia estar imaginando o reencontro com o velho Alhambra. Talvez até planejando um sermão. Talvez um abraço. Talvez um homicídio leve.

Quando se aproximaram da rua Nhamundá, Alderico orientou:

– Dobra à direita.

Carlito estranhou. Rinaldo também:

– Como assim? Tua casa é dobrando à esquerda.

Foi então que Alderico pronunciou uma das frases mais extraordinárias da história da malandragem amazônica.

– Eu sei, meus manos, eu sei. Mas nós não vamos lá em casa.

Pausa dramática.

– Vamos primeiro na casa da Mãe Ângela de Iansã.

Silêncio.

– Ela é uma cartomante poderosa. Filha de catimbozeiros maranhenses. É a única pessoa capaz de colocar uma vidência e descobrir onde está o teu violão.

Observe a genialidade da situação. O principal suspeito do desaparecimento do instrumento estava sentado dentro do carro. A menos de vinte minutos de sua própria residência. Mas, segundo sua linha de raciocínio, a melhor estratégia investigativa não era abrir a porta da casa. Era consultar o sobrenatural. Era como um ladrão de galinhas sugerir a contratação de um arqueólogo para descobrir quem roubou o galinheiro.

Naquele instante, até Carlito, que não enxergava havia décadas, provavelmente conseguiu visualizar perfeitamente o tamanho da picaretagem. O que aconteceu depois ninguém sabe ao certo. O que se sabe é que a vidência falhou. Os espíritos não colaboraram. Os búzios entraram em greve. Os orixás pediram licença. E o velho Alhambra desapareceu para sempre.

Talvez tenha sido vendido. Talvez tenha sido trocado por dívida. Talvez esteja até hoje encostado em algum canto, aguardando que alguém toque um samba em sua homenagem. Ou talvez a Mãe Ângela realmente tenha descoberto onde ele estava e preferido não contar. Porque, às vezes, nem o mundo espiritual tem coragem de se meter em certas histórias.

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