44. No início dos anos 90, Bosco Saraiva
resolveu expandir os domínios da Reino Unido. Abriu uma filial da escola de
samba no Olímpico Clube, graças a um convênio com o presidente Almerinho
Botelho. Para inaugurar o novo reduto do samba, anunciou duas atrações de
respeito: Mauro Diniz e Quinho da Ilha. Era como prometer Pelé e Garrincha para
uma pelada de bairro.
Mauro Diniz
vinha com pedigree. Nascido em Oswaldo Cruz, praticamente aprendeu a andar no
terreiro da Portela. Aos quatro anos, já ficava entre as pernas do pai, o
lendário Monarco, arrancando acordes do cavaquinho e suspiros dos bambas da
Velha-Guarda. Aos oito, já compunha samba-enredo para bloco carnavalesco e
ganhara da mãe, Thereza, um violão. Enquanto outras crianças brincavam de
pique-esconde, Mauro fazia estágio supervisionado na Portela.
Quinho da Ilha
não carregava um sobrenome tão pesado quanto Mauro, mas, em 1989, explodira com
“Festa Profana”, o samba-enredo da União da Ilha que levou a escola a um
histórico terceiro lugar. Naquele ano, até quem odiava carnaval andava pela rua
cantarolando: “Eu vou tomar um porre de felicidade...”. O Brasil inteiro sabia
o refrão. Alguns nem sabiam o nome do presidente da República, mas sabiam o
samba inteiro.
No dia da
chegada, Bosco e Almerinho foram ao aeroporto receber as estrelas. Só que as
estrelas resolveram não comparecer. Bosco telefonou para Mauro Diniz.
– Meu irmão,
estou derrubado. Quarenta graus de febre. Mas fique tranquilo. Para não furar,
mandei meu pai.
Mandou o pai.
Como quem diz: “Não consegui levar o Roberto Carlos, mas estou enviando dona
Laura.”
Bosco saiu pelo
aeroporto até encontrar Monarco, completamente perdido entre as esteiras de
bagagem, olhando para um lado e para o outro como quem procurava a Portela no
Eduardo Gomes. Bosco se apresentou, chamou Almerinho para conhecer Monarco e
respirou aliviado. Metade do prejuízo estava resolvida. Faltava a outra metade.
Ligou para Quinho.
– Rapaz, o
presidente da escola proibiu minha viagem. Mas não se preocupe. Mandei meu
irmão.
Bosco gelou.
– Seu... irmão?
– Isso. Zinho
da Ilha. Mesma voz. Mesmo repertório.
Quando desligou
o telefone, Bosco teve a impressão de ouvir uma gargalhada do destino. Saiu
pelo aeroporto procurando Zinho e encontrou um cidadão que lembrava uma mistura
de Reginaldo Rossi com fiscal do Detran aposentado. O sujeito sorriu, estendeu
a mão e confirmou:
– Sou eu mesmo.
Zinho da Ilha.
Bosco preferiu
não fazer perguntas. Quem faz pergunta demais acaba ouvindo resposta.
À noite, antes
do espetáculo, Bosco parecia pai de noiva esperando a cerimônia começar. Andava
de um lado para outro repetindo as instruções ao apresentador Ivan Oliveira.
– Ivan, explica
direitinho. Diz que Mauro ficou doente, mas veio o Monarco. Fala que ele é uma
lenda viva. Capricha nos adjetivos.
Nem precisava
exagerar. Monarco dispensava apresentações. Era um dos maiores compositores da
Portela, autor de clássicos gravados por Martinho da Vila, Paulinho da Viola e
Clara Nunes. Qualquer roda de samba ficava pequena perto dele. O problema era o
outro.
Bosco olhava
para Zinho como quem observa uma bomba-relógio tentando adivinhar em qual
segundo ela explode. Ivan, mais otimista do que responsável, tranquilizou o
amigo:
– Relaxa,
chefe. A gente apaga um pouco as luzes. Se ele tiver mesmo a voz parecida com a
do irmão, ninguém percebe.
Fez uma pausa.
– Até porque eu
nunca vi o Quinho pessoalmente...
Era um plano
tão sólido quanto guardar dinheiro em saco de papel. Monarco abriu o show.
Cantou, encantou, distribuiu elegância e mostrou por que era um monumento do
samba. Quando terminou, saiu aplaudidíssimo.
Entrou Zinho.
Nos primeiros trinta segundos, a plateia ainda alimentava alguma esperança. No
primeiro minuto, começou a desconfiar. No segundo, já queria o dinheiro de
volta. A única característica realmente parecida com a do irmão era que, em
qualquer música – qualquer uma – Zinho encontrava um jeito de encaixar um
estridente:
– Ê, ê, ê, ê,
ê... minha Ilha! Minha Ilha!
Podia ser
Cartola, Nelson Cavaquinho ou até “Parabéns pra Você”. Em algum momento
aparecia a Ilha. De resto, era um desastre de dimensões geológicas. O homem
desafinava em tons ainda não catalogados pela ciência. Parecia conhecer o samba
apenas por fotografia. Cantava como quem tinha aprendido o repertório no táxi,
vindo do aeroporto.
Quando o show
terminou, Bosco e Almerinho descobriram que a plateia amazonense pode até
perdoar um desafino, mas não perdoa propaganda enganosa. Escaparam do
linchamento porque correram mais do que os seguranças.
No dia
seguinte, a filial da Reino Unido fechou as portas. Durou menos que dieta vegana
começada na segunda-feira. E o Olímpico Clube – que os mais antigos ainda
insistiam em chamar de Clube dos Cinco Aros – levou anos para convencer o
público de que, dali em diante, quando anunciasse um artista, seria exatamente
aquele artista que subiria ao palco.
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