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sexta-feira, agosto 28, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 44

 

O cantor e compositor Mauro Diniz

44. No início dos anos 90, Bosco Saraiva resolveu expandir os domínios da Reino Unido. Abriu uma filial da escola de samba no Olímpico Clube, graças a um convênio com o presidente Almerinho Botelho. Para inaugurar o novo reduto do samba, anunciou duas atrações de respeito: Mauro Diniz e Quinho da Ilha. Era como prometer Pelé e Garrincha para uma pelada de bairro.

Mauro Diniz vinha com pedigree. Nascido em Oswaldo Cruz, praticamente aprendeu a andar no terreiro da Portela. Aos quatro anos, já ficava entre as pernas do pai, o lendário Monarco, arrancando acordes do cavaquinho e suspiros dos bambas da Velha-Guarda. Aos oito, já compunha samba-enredo para bloco carnavalesco e ganhara da mãe, Thereza, um violão. Enquanto outras crianças brincavam de pique-esconde, Mauro fazia estágio supervisionado na Portela.

Quinho da Ilha não carregava um sobrenome tão pesado quanto Mauro, mas, em 1989, explodira com “Festa Profana”, o samba-enredo da União da Ilha que levou a escola a um histórico terceiro lugar. Naquele ano, até quem odiava carnaval andava pela rua cantarolando: “Eu vou tomar um porre de felicidade...”. O Brasil inteiro sabia o refrão. Alguns nem sabiam o nome do presidente da República, mas sabiam o samba inteiro.

No dia da chegada, Bosco e Almerinho foram ao aeroporto receber as estrelas. Só que as estrelas resolveram não comparecer. Bosco telefonou para Mauro Diniz.

– Meu irmão, estou derrubado. Quarenta graus de febre. Mas fique tranquilo. Para não furar, mandei meu pai.

Mandou o pai. Como quem diz: “Não consegui levar o Roberto Carlos, mas estou enviando dona Laura.”

Bosco saiu pelo aeroporto até encontrar Monarco, completamente perdido entre as esteiras de bagagem, olhando para um lado e para o outro como quem procurava a Portela no Eduardo Gomes. Bosco se apresentou, chamou Almerinho para conhecer Monarco e respirou aliviado. Metade do prejuízo estava resolvida. Faltava a outra metade. Ligou para Quinho.

– Rapaz, o presidente da escola proibiu minha viagem. Mas não se preocupe. Mandei meu irmão.

Bosco gelou.

– Seu... irmão?

– Isso. Zinho da Ilha. Mesma voz. Mesmo repertório.

Quando desligou o telefone, Bosco teve a impressão de ouvir uma gargalhada do destino. Saiu pelo aeroporto procurando Zinho e encontrou um cidadão que lembrava uma mistura de Reginaldo Rossi com fiscal do Detran aposentado. O sujeito sorriu, estendeu a mão e confirmou:

– Sou eu mesmo. Zinho da Ilha.

Bosco preferiu não fazer perguntas. Quem faz pergunta demais acaba ouvindo resposta.

À noite, antes do espetáculo, Bosco parecia pai de noiva esperando a cerimônia começar. Andava de um lado para outro repetindo as instruções ao apresentador Ivan Oliveira.

– Ivan, explica direitinho. Diz que Mauro ficou doente, mas veio o Monarco. Fala que ele é uma lenda viva. Capricha nos adjetivos.

Nem precisava exagerar. Monarco dispensava apresentações. Era um dos maiores compositores da Portela, autor de clássicos gravados por Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Clara Nunes. Qualquer roda de samba ficava pequena perto dele. O problema era o outro.

Bosco olhava para Zinho como quem observa uma bomba-relógio tentando adivinhar em qual segundo ela explode. Ivan, mais otimista do que responsável, tranquilizou o amigo:

– Relaxa, chefe. A gente apaga um pouco as luzes. Se ele tiver mesmo a voz parecida com a do irmão, ninguém percebe.

Fez uma pausa.

– Até porque eu nunca vi o Quinho pessoalmente...

Era um plano tão sólido quanto guardar dinheiro em saco de papel. Monarco abriu o show. Cantou, encantou, distribuiu elegância e mostrou por que era um monumento do samba. Quando terminou, saiu aplaudidíssimo.

Entrou Zinho. Nos primeiros trinta segundos, a plateia ainda alimentava alguma esperança. No primeiro minuto, começou a desconfiar. No segundo, já queria o dinheiro de volta. A única característica realmente parecida com a do irmão era que, em qualquer música – qualquer uma – Zinho encontrava um jeito de encaixar um estridente:

– Ê, ê, ê, ê, ê... minha Ilha! Minha Ilha!

Podia ser Cartola, Nelson Cavaquinho ou até “Parabéns pra Você”. Em algum momento aparecia a Ilha. De resto, era um desastre de dimensões geológicas. O homem desafinava em tons ainda não catalogados pela ciência. Parecia conhecer o samba apenas por fotografia. Cantava como quem tinha aprendido o repertório no táxi, vindo do aeroporto.

Quando o show terminou, Bosco e Almerinho descobriram que a plateia amazonense pode até perdoar um desafino, mas não perdoa propaganda enganosa. Escaparam do linchamento porque correram mais do que os seguranças.

No dia seguinte, a filial da Reino Unido fechou as portas. Durou menos que dieta vegana começada na segunda-feira. E o Olímpico Clube – que os mais antigos ainda insistiam em chamar de Clube dos Cinco Aros – levou anos para convencer o público de que, dali em diante, quando anunciasse um artista, seria exatamente aquele artista que subiria ao palco.

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