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quarta-feira, agosto 26, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 38

 


38. Outubro de 1982. Logo após realizar um grande show em São Paulo, o compositor Chico da Silva recolheu-se ao quarto do Augusta Boulevard Hotel para descansar da estafante maratona daquela noite. Estava sozinho, alegre como pinto no lixo e mais pra lá de Marrakesh do que um turista perdido no deserto sem mapa, bússola ou amor-próprio.

Diante de um espelho gigantesco que ocupava boa parte da parede, resolveu iniciar um momento de reflexão íntima. Não uma reflexão filosófica, dessas que produzem livros ou mudam a humanidade. Era um exercício de nostalgia muito mais pessoal e infinitamente menos útil. 

Completamente nu, encarou seu velho companheiro de aventuras, lhe segurou pelo pescoço, deu a velha e boa cusparada e iniciou uma espécie de cerimônia de premiação retrospectiva da própria carreira amorosa.

– Tu te lembras daquela chacrete, a Índia Potira? Rapaz, naquele dia tu estavas inspirado. Parecias o Garrincha driblando zagueiro...

Fez uma pausa respeitosa, como quem homenageia um veterano de guerra.

– E a Rose Bumbum, passista da Portela? Aquilo era uma obra pública de interesse nacional. Meu camarada, tu jogaste em nível internacional...

O discurso prosseguiu.

– E a Graça Veneno? Meu Deus do céu... Aquela noite merecia ter sido tombada pelo patrimônio histórico!

Cada lembrança era tratada como uma conquista militar. Cada romance virava uma batalha épica. Cada flerte parecia ter decidido o destino da civilização ocidental.

– E a Flavinha Terremoto? Aqueles olhos verdes... Rapaz, ali tu deste um verdadeiro espetáculo. Se existisse VAR naquela época, o lance entrava para os melhores momentos da temporada!

O compositor já se encontrava numa espécie de documentário esportivo narrado por ele mesmo.

– E a Telminha Sorriso? Ah, meu velho... Aquilo foi uma atuação de gala. Um negócio para guardar na estante junto com os troféus!

O homenageado permanecia em silêncio, naturalmente, absorvendo os elogios. Foi então que aconteceu a tragédia. Ou melhor: a sabotagem. Sem aviso prévio, sem consulta à diretoria e sem qualquer respeito pela solenidade da cerimônia, uma manifestação gasosa rompeu o silêncio do quarto. Um sonoro peido.

O compositor congelou. O clima de consagração foi destruído em segundos. Todo aquele discurso sobre glórias passadas, conquistas memoráveis e feitos lendários evaporou-se instantaneamente. Indignado com a intervenção daquele elemento que sequer havia sido convidado para a reunião, Chico apontou para baixo e disparou:

– Fica quieto aí, que tu não tens currículo, porra! Tu não tens currículo!

E assim terminou uma das mais rigorosas avaliações de desempenho já realizadas por um ser humano consigo mesmo. Com direito a elogios, retrospectiva de carreira, crise institucional e uma advertência verbal aplicada ao único funcionário da equipe que jamais havia contribuído para nenhuma conquista, mas insistia em aparecer nos momentos mais importantes.

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