38. Outubro de 1982. Logo após realizar um
grande show em São Paulo, o compositor Chico da Silva recolheu-se ao quarto do
Augusta Boulevard Hotel para descansar da estafante maratona daquela noite.
Estava sozinho, alegre como pinto no lixo e mais pra lá de Marrakesh do que um
turista perdido no deserto sem mapa, bússola ou amor-próprio.
Diante de um espelho gigantesco que ocupava boa parte da parede, resolveu iniciar um momento de reflexão íntima. Não uma reflexão filosófica, dessas que produzem livros ou mudam a humanidade. Era um exercício de nostalgia muito mais pessoal e infinitamente menos útil.
Completamente nu, encarou seu velho companheiro de
aventuras, lhe segurou pelo pescoço, deu a velha e boa cusparada e iniciou uma
espécie de cerimônia de premiação retrospectiva da própria carreira amorosa.
– Tu te lembras
daquela chacrete, a Índia Potira? Rapaz, naquele dia tu estavas inspirado.
Parecias o Garrincha driblando zagueiro...
Fez uma pausa
respeitosa, como quem homenageia um veterano de guerra.
– E a Rose
Bumbum, passista da Portela? Aquilo era uma obra pública de interesse nacional.
Meu camarada, tu jogaste em nível internacional...
O discurso
prosseguiu.
– E a Graça
Veneno? Meu Deus do céu... Aquela noite merecia ter sido tombada pelo
patrimônio histórico!
Cada lembrança
era tratada como uma conquista militar. Cada romance virava uma batalha épica.
Cada flerte parecia ter decidido o destino da civilização ocidental.
– E a Flavinha
Terremoto? Aqueles olhos verdes... Rapaz, ali tu deste um verdadeiro
espetáculo. Se existisse VAR naquela época, o lance entrava para os melhores
momentos da temporada!
O compositor já
se encontrava numa espécie de documentário esportivo narrado por ele mesmo.
– E a Telminha
Sorriso? Ah, meu velho... Aquilo foi uma atuação de gala. Um negócio para
guardar na estante junto com os troféus!
O homenageado
permanecia em silêncio, naturalmente, absorvendo os elogios. Foi então que
aconteceu a tragédia. Ou melhor: a sabotagem. Sem aviso prévio, sem consulta à
diretoria e sem qualquer respeito pela solenidade da cerimônia, uma
manifestação gasosa rompeu o silêncio do quarto. Um sonoro peido.
O compositor
congelou. O clima de consagração foi destruído em segundos. Todo aquele
discurso sobre glórias passadas, conquistas memoráveis e feitos lendários
evaporou-se instantaneamente. Indignado com a intervenção daquele elemento que
sequer havia sido convidado para a reunião, Chico apontou para baixo e
disparou:
– Fica quieto
aí, que tu não tens currículo, porra! Tu não tens currículo!
E assim
terminou uma das mais rigorosas avaliações de desempenho já realizadas por um
ser humano consigo mesmo. Com direito a elogios, retrospectiva de carreira,
crise institucional e uma advertência verbal aplicada ao único funcionário da
equipe que jamais havia contribuído para nenhuma conquista, mas insistia em
aparecer nos momentos mais importantes.
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