58. Janeiro de 1996. No carnaval daquele ano, o sambista Luizinho Sá, ex-presidente do GRES Reino Unido da Liberdade, exercia o ingrato cargo de diretor de Relações Públicas da Associação do Grupo Especial das Escolas de Samba de Manaus (Ageesma).
Entre suas atribuições estava uma missão digna de castigo divino: servir de cicerone para Priscila Pantera, a exuberante jovem eleita 1ª Princesa do Carnaval.
Cabia a Luizinho levá-la para programas de rádio e televisão,
entrevistas em jornais, inaugurações, bandas carnavalescas, camarotes, bailes e
qualquer lugar onde houvesse um microfone, um fotógrafo ou um sujeito disposto
a pedir uma selfie antes mesmo de existir selfie.
Priscila, além de bonita, era dona de uma voz rouca, mansa e dengosa que fazia qualquer frase soar como uma declaração de amor. Se perguntasse as horas, parecia estar fazendo uma proposta indecorosa.
Os dois logo ficaram amigos. Luizinho vivia
dando palpites sobre maquiagem, fantasia, cabelo, acessórios e outras
inutilidades indispensáveis ao carnaval. A relação era tão espontânea que a
menina passou a tratá-lo pelo apelido.
– Lulu.
O problema é
que existia uma pessoa no mundo que detestava aquele apelido.
Tetê.
Esse era o
carinhoso apelido de família de Lucicley Barbosa Sá, a diligente esposa do
sambista.
Numa tarde,
Luizinho foi buscar a princesa em casa para mais uma maratona de compromissos.
Como também precisava levar a esposa e duas amigas, todo mundo entrou no mesmo
carro.
Priscila
acomodou-se no banco de trás, abriu a bolsa, puxou um espelhinho e começou a
retocar o batom.
Então veio a
primeira bomba.
– Lulu... Você
acha que aquele biquíni douradinho ficou muito atrevido? Se você quiser, eu
troco pelo prateado...
Luizinho fez de
conta que não ouviu. Tetê apenas mudou discretamente de posição no banco.
Cinco minutos
depois:
– Lulu...
Aquela sandalinha acabou com o meu pezinho. Depois te mostro. Está cheio de
calinho...
Luizinho seguiu
dirigindo como se estivesse ouvindo a previsão do tempo. Tetê pigarreou. Duas
vezes.
Mais cinco
minutos.
– Lulu... Será
que dava para abrir um pouquinho aquela tiara? Ela está apertando minha
cabecinha...
Luizinho
continuou olhando fixamente para o trânsito. Tetê já se abanava com um folheto
de propaganda, embora o ar-condicionado estivesse funcionando perfeitamente.
Cinco minutos
depois, a princesa respirou fundo e começou outra vez:
– Lulu...
Não conseguiu
terminar.
Tetê girou no
banco com a velocidade de uma porta-bandeira possuída, ajoelhou-se sobre o
banco dianteiro e explodiu:
– Lulu é a
minha buceta, porra! O nome do meu marido é Luizinho! Luizinho Sá! Vai chamar
outro macho de Lulu na puta que pariu, sua sirigaita fuleira!
O silêncio que
se seguiu foi tão absoluto que dava para ouvir o pisca-alerta pensando. Antes
que Tetê resolvesse explicar seu ponto de vista com um sapato de salto agulha,
Luizinho encostou o carro, abriu a porta para a princesa, parou o primeiro táxi
que apareceu e despachou a coitada para o restante dos compromissos.
Depois desse
episódio, tomou uma sábia decisão administrativa. Passou três meses sem
aparecer na sede da Ageesma. E, durante muito tempo, sempre que alguém o
chamava de “Lulu”, ele tinha um reflexo involuntário: começava a acenar para o
táxi mais próximo.

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