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terça-feira, setembro 22, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 85

 

Zé Roberto, Jair Mendes e Jairzinho no galpão dos Ciganos

85. Fevereiro de 1985. O GRES Andanças de Ciganos entra na Avenida Djalma Batista disposto a fazer história. O enredo, “Caprichoso e Garantido: Cultura Popular de Parintins”, assinado pelo carnavalesco Jair Mendes, era daqueles que faziam o sujeito esquecer até o preço da cerveja.

Os carros alegóricos pareciam saídos de um delírio amazônico, os destaques reluziam mais que vitrine de joalheria e as fantasias estavam tão caprichadas que, ainda na concentração, os jornalistas já decretavam o óbvio:

– Pode entregar o troféu. Acabou o campeonato.

O presidente Vilson Benayon não andava: flutuava. O coração batia no ritmo da bateria. Os diretores de harmonia só repetiam uma frase:

– Pelo amor de Deus, ninguém invente moda.

Era pedir demais. Vestidos de Amos do Boi Garanchoso – metade Garantido, metade Caprichoso, numa demonstração diplomática que faria a ONU pedir consultoria – Sadok Pirangy, Wilson Fernandes, Maurílio, Zé Alfaia, Ivan Chibata, Juarez Tavares, seu Almeida, Antídio Weil, Petroba, Nelito, Galúcio, Luluca e Ruizinho formavam a Comissão de Frente.

E que comissão. Pela primeira vez no carnaval amazonense, a Comissão de Frente desfilava como uma tropa de elite suíça. Um apito. Doze passos rigorosamente iguais. Outro apito. Todos tiravam o chapéu na mesma fração de segundo. Outro apito. Viravam para a arquibancada da direita e saudavam o público com a elegância de lordes ingleses. Mais um apito. Giravam para o lado esquerdo com uma sincronia que faria relógio suíço pedir aulas. Era tão perfeito que o público acompanhava hipnotizado.

Foi justamente nesse momento de absoluta perfeição que o destino resolveu atravessar a avenida. Lá do alto da arquibancada, um sujeito começou a berrar:

– Aí, seu Juarez! Tá mandando bem! Vai dar Ciganos na cabeça! A Comissão de Frente tá do caralho! Tá do caralho!

No roteiro original, seu Juarez deveria sorrir discretamente e seguir desfilando. Mas o roteiro perdeu para a vida real. Ao virar o rosto para agradecer os elogios, seu Juarez reconheceu o cidadão. Era Zé Raimundo. O mesmo Zé Raimundo que havia transformado cheque sem fundo em modalidade esportiva.

Sem interromper a coreografia – pelo menos nos dois primeiros segundos –, seu Juarez respondeu num tom que certamente também foi avaliado pelos jurados:

— ZÉ RAIMUNDO, FILHO DA PUTA! ME PAGA O QUE TU ME DEVE, DESGRAÇADO! JÁ PROTESTEI TRÊS VEZES AQUELE TEU CHEQUE SEM FUNDO, CORNO DUMA FIGA! ME PAGA, FILHO DUMA RAMPEIRA LEPROSA! SENÃO EU ENCHO TUA CARA DE CHUMBO, VIADO SAFADO, CORNO DA MOLÉSTIA!

A plateia, que até então assistia a um desfile de carnaval, passou a acompanhar um episódio inédito de Programa do Ratinho transmitido quinze anos antes de existir.

O mais impressionante foi que seu Juarez não ficou só na cobrança. Largou a Comissão de Frente no meio da apresentação e saiu em disparada atrás do devedor. Zé Raimundo fez o que qualquer cidadão sensato faria diante daquela coleção de impropérios: desapareceu na multidão.

Seu Juarez pulou o alambrado como se disputasse os 110 metros com barreiras nas Olimpíadas e iniciou uma perseguição digna de filme policial. Atrás dele foram metade dos integrantes da Comissão de Frente. Atrás deles, diretores de harmonia. Atrás dos diretores, um segurança. Atrás do segurança, ninguém sabe por quê, foi um vendedor de churrasquinho. Enquanto isso, a outra metade da Comissão permanecia na avenida tentando convencer os jurados de que aquele novo formato de Comissão de Frente – metade desfilando, metade participando de uma caçada humana – fazia parte da proposta estética do carnavalesco.

Não convenceu.

Depois de muito esforço, conseguiram trazer seu Juarez de volta, praticamente pelo colarinho, ainda distribuindo promessas de cobrança judicial, extrajudicial e corporal. Os jurados, homens de pouca imaginação e nenhum senso de humor, deram nota mínima para a Comissão de Frente. O Andanças de Ciganos, que tinha tudo para levantar o caneco, acabou ficando em segundo lugar.

Dizem que, durante várias semanas, o presidente Vilson Benayon olhava para seu Juarez com a mesma expressão de quem consulta uma receita de fígado acebolado imaginando pequenas adaptações na lista de ingredientes.

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