Pesquisar este blog

segunda-feira, setembro 14, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 67

 

O saudoso Laíla, ícone do carnaval carioca

67. Por indicação de Laíla, lendário diretor de harmonia da Beija-Flor de Nilópolis, a Reino Unido contratou o carnavalesco Shangai para colocar ordem no barracão. Shangai, homem precavido, trouxe consigo Paulinho, artista plástico da Baixada Fluminense e um craque na fabricação de adereços.

Paulinho incorporou o espírito da escola com uma dedicação que hoje renderia processo trabalhista. Durante quinze dias trabalhou sem interrupção, como se Carnaval tivesse abolido necessidades fisiológicas e higiene pessoal. Dormia pouco, comia quando lembravam de alimentá-lo e tomar banho tornou-se um luxo incompatível com o cronograma.

Ao fim da maratona, sua única bermuda jeans havia adquirido vida própria. Tão impregnada de tinta, cola, serragem e poeira que, se fosse colocada em pé num canto, havia boas chances de permanecer ali, contemplando a existência.

Mas a Reino Unido atravessava uma sequência de azares tão impressionante que alguém concluiu haver apenas uma explicação possível: macumba braba. E, como toda teoria precisa de uma vítima, Paulinho foi democraticamente escolhido para receber um poderoso banho de descarrego. Católico praticante, aceitou o sacrifício com a resignação de quem imagina que pior do que aquilo só um atraso na entrega dos carros alegóricos.

No barracão, completamente nu, recebeu uma bombona de cinco litros contendo uma fórmula cuja receita jamais deveria cair nas mãos da indústria química. Levava cachaça de cabeça, limão-galego, álcool industrial, pimenta-malagueta triturada e, provavelmente, algum derivado do combustível de foguete. O líquido tinha um aspecto tranquilizador de quem dissolvia ferrugem no café da manhã.

Paulinho despejou tudo sobre a cabeça. O efeito foi imediato. Menos de dez segundos depois, surgiu pela Rua Duque de Caxias um cidadão completamente nu, berrando numa frequência capaz de espantar urubu em voo e correndo como se estivesse sendo perseguido simultaneamente pelo capeta, pela Receita Federal e pela comissão julgadora. Foi preciso mobilizar meio barracão para capturá-lo e descobrir a origem daquela tragédia.

Descobriu-se, então, que quinze dias de trabalho ininterrupto, calor amazônico, umidade de cem por cento e absoluta ausência de banho haviam transformado determinadas regiões anatômicas de Paulinho numa área oficialmente interditada pela Vigilância Sanitária. O banho de descarrego, que prometia expulsar maus espíritos, resolveu exorcizar também a epiderme.

O artista plástico passou a semana seguinte mergulhado em banhos de assento com água gelada e desfilando um elegante fraldão geriátrico, provavelmente a fantasia mais confortável de todo aquele Carnaval.

Consta que o descarrego funcionou e a escola ganhou o título daquele ano. Mas nunca mais a Reino Unido teve a ousadia de testar uma receita daquela potência. Nem Paulinho ficou quinze dias sem tomar banho para ajudar uma escola de samba.

Nenhum comentário: