67. Por indicação de Laíla, lendário
diretor de harmonia da Beija-Flor de Nilópolis, a Reino Unido contratou o
carnavalesco Shangai para colocar ordem no barracão. Shangai, homem precavido,
trouxe consigo Paulinho, artista plástico da Baixada Fluminense e um craque na
fabricação de adereços.
Paulinho
incorporou o espírito da escola com uma dedicação que hoje renderia processo
trabalhista. Durante quinze dias trabalhou sem interrupção, como se Carnaval
tivesse abolido necessidades fisiológicas e higiene pessoal. Dormia pouco,
comia quando lembravam de alimentá-lo e tomar banho tornou-se um luxo
incompatível com o cronograma.
Ao fim da
maratona, sua única bermuda jeans havia adquirido vida própria. Tão impregnada
de tinta, cola, serragem e poeira que, se fosse colocada em pé num canto, havia
boas chances de permanecer ali, contemplando a existência.
Mas a Reino
Unido atravessava uma sequência de azares tão impressionante que alguém
concluiu haver apenas uma explicação possível: macumba braba. E, como toda
teoria precisa de uma vítima, Paulinho foi democraticamente escolhido para
receber um poderoso banho de descarrego. Católico praticante, aceitou o
sacrifício com a resignação de quem imagina que pior do que aquilo só um atraso
na entrega dos carros alegóricos.
No barracão,
completamente nu, recebeu uma bombona de cinco litros contendo uma fórmula cuja
receita jamais deveria cair nas mãos da indústria química. Levava cachaça de
cabeça, limão-galego, álcool industrial, pimenta-malagueta triturada e,
provavelmente, algum derivado do combustível de foguete. O líquido tinha um
aspecto tranquilizador de quem dissolvia ferrugem no café da manhã.
Paulinho
despejou tudo sobre a cabeça. O efeito foi imediato. Menos de dez segundos
depois, surgiu pela Rua Duque de Caxias um cidadão completamente nu, berrando
numa frequência capaz de espantar urubu em voo e correndo como se estivesse
sendo perseguido simultaneamente pelo capeta, pela Receita Federal e pela
comissão julgadora. Foi preciso mobilizar meio barracão para capturá-lo e
descobrir a origem daquela tragédia.
Descobriu-se,
então, que quinze dias de trabalho ininterrupto, calor amazônico, umidade de
cem por cento e absoluta ausência de banho haviam transformado determinadas
regiões anatômicas de Paulinho numa área oficialmente interditada pela
Vigilância Sanitária. O banho de descarrego, que prometia expulsar maus
espíritos, resolveu exorcizar também a epiderme.
O artista
plástico passou a semana seguinte mergulhado em banhos de assento com água
gelada e desfilando um elegante fraldão geriátrico, provavelmente a fantasia
mais confortável de todo aquele Carnaval.
Consta que o
descarrego funcionou e a escola ganhou o título daquele ano. Mas nunca mais a
Reino Unido teve a ousadia de testar uma receita daquela potência. Nem Paulinho
ficou quinze dias sem tomar banho para ajudar uma escola de samba.

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