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sexta-feira, setembro 18, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 78

 


78. O rabugento Jamelão veio fazer um show em Manaus e seus empresários tiveram a brilhante ideia de levá-lo para conhecer o Carrossel da Saudade, da TV Cultura. Brilhante para eles. Para o apresentador, nem tanto.

O programa, um patrimônio afetivo da televisão amazonense, estava há quase trinta anos no ar e funcionava como um botequim de verdade: mesas espalhadas pelo estúdio, plateia tomando uma gelada, banda fixa, convidados habituais e, de vez em quando, um cantor da velha guarda que aparecia sem avisar e acabava puxando um samba. Também havia espaço para aquele cidadão que, depois do terceiro copo, jurava tocar cavaquinho melhor que o Canhoto.

Quando Jurandir Vieira bateu os olhos em Jamelão sentado discretamente numa mesa, sentiu que Deus finalmente havia resolvido turbinar sua audiência. Afinal, existia uma tradição não escrita: artista famoso que aparecesse no “boteco” tinha obrigação moral de dar uma palhinha.

O único detalhe é que ninguém havia comunicado isso ao principal interessado.

Jurandir caminhou até a mesa em estado de êxtase e começou a apresentá-lo como se estivesse anunciando a chegada do Papa ao sambódromo:

– Senhores e senhoras, temos aqui uma verdadeira enciclopédia ambulante do samba! O maior intérprete de samba-enredo da história do carnaval! Sua majestade... Jaaaaameeeelããããooooo!

Jamelão ouviu tudo com a mesma expressão de quem espera a conta do restaurante.

Jurandir esticou o microfone, sorrindo de orelha a orelha:

– Vai lá, mestre! Dá um refresco pra rapaziada!

Foi quando Jamelão, usando aquela voz que parecia ter sido temperada com lixa e uísque, respondeu:

– Refresco eu não dou, não, compadre. Vocês não me pagaram cachê. Vim assistir ao programa, não trabalhar. Quem quiser ouvir minha voz, paga primeiro. Eu vivo dela. Se não tem cachê... o papo morreu.

Foi como jogar um freezer ligado dentro do estúdio.

Jurandir ficou alguns segundos procurando alguma frase espirituosa, alguma saída elegante, qualquer coisa. Não encontrou. Restou anunciar, com um sorriso que pedia socorro:

– E... vamos para os nossos comerciais...

O intervalo salvou o apresentador, mas não o clima. Jamelão permaneceu no programa até o último minuto. Não cantou um verso, não sorriu uma vez, não moveu um músculo do rosto. Fez a única coisa que havia combinado consigo mesmo desde o início da noite: assistir ao show. De graça.

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