78. O rabugento Jamelão veio fazer um show
em Manaus e seus empresários tiveram a brilhante ideia de levá-lo para conhecer
o Carrossel da Saudade, da TV Cultura. Brilhante para eles. Para o
apresentador, nem tanto.
O programa, um
patrimônio afetivo da televisão amazonense, estava há quase trinta anos no ar e
funcionava como um botequim de verdade: mesas espalhadas pelo estúdio, plateia
tomando uma gelada, banda fixa, convidados habituais e, de vez em quando, um
cantor da velha guarda que aparecia sem avisar e acabava puxando um samba.
Também havia espaço para aquele cidadão que, depois do terceiro copo, jurava
tocar cavaquinho melhor que o Canhoto.
Quando Jurandir
Vieira bateu os olhos em Jamelão sentado discretamente numa mesa, sentiu que
Deus finalmente havia resolvido turbinar sua audiência. Afinal, existia uma
tradição não escrita: artista famoso que aparecesse no “boteco” tinha obrigação
moral de dar uma palhinha.
O único detalhe
é que ninguém havia comunicado isso ao principal interessado.
Jurandir
caminhou até a mesa em estado de êxtase e começou a apresentá-lo como se
estivesse anunciando a chegada do Papa ao sambódromo:
– Senhores e
senhoras, temos aqui uma verdadeira enciclopédia ambulante do samba! O maior
intérprete de samba-enredo da história do carnaval! Sua majestade...
Jaaaaameeeelããããooooo!
Jamelão ouviu
tudo com a mesma expressão de quem espera a conta do restaurante.
Jurandir
esticou o microfone, sorrindo de orelha a orelha:
– Vai lá,
mestre! Dá um refresco pra rapaziada!
Foi quando
Jamelão, usando aquela voz que parecia ter sido temperada com lixa e uísque,
respondeu:
– Refresco eu
não dou, não, compadre. Vocês não me pagaram cachê. Vim assistir ao programa,
não trabalhar. Quem quiser ouvir minha voz, paga primeiro. Eu vivo dela. Se não
tem cachê... o papo morreu.
Foi como jogar
um freezer ligado dentro do estúdio.
Jurandir ficou
alguns segundos procurando alguma frase espirituosa, alguma saída elegante,
qualquer coisa. Não encontrou. Restou anunciar, com um sorriso que pedia
socorro:
– E... vamos
para os nossos comerciais...
O intervalo
salvou o apresentador, mas não o clima. Jamelão permaneceu no programa até o
último minuto. Não cantou um verso, não sorriu uma vez, não moveu um músculo do
rosto. Fez a única coisa que havia combinado consigo mesmo desde o início da
noite: assistir ao show. De graça.

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