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segunda-feira, setembro 14, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 70

 


70. Em meados dos anos 1980, embalada pelo sucesso de uma música que estourara na novela das oito da Globo, Fafá de Belém decidiu provar que fôlego não lhe faltava. Anunciou, com toda a convicção, que seria backing vocal de todas as escolas de samba que desfilariam na Marquês de Sapucaí.

A imprensa adorou a ideia. Os patrocinadores também. Formou-se uma verdadeira operação de guerra: empresas providenciaram uma fantasia para cada escola, reservaram um camarote para ela trocar de roupa, retocar a maquiagem e recuperar o fôlego, além de um carro de prontidão na dispersão para levá-la, em velocidade de Fórmula 1, até a concentração da escola seguinte.

No primeiro dia, o plano parecia infalível. Fafá cantou na Portela, passou pela Mangueira, deu uma paradinha na Imperatriz Leopoldinense, atravessou a Vila Isabel, fez escala no Salgueiro e chegou à União da Ilha já vestida, maquiada, sorridente e escoltada por um batalhão de fotógrafos, cinegrafistas e curiosos.

Na concentração, porém, havia um pequeno detalhe que escapara aos estrategistas do marketing: Aroldo Melodia.

Sem dar a menor bola para aquela romaria de câmeras, ele aquecia a bateria com seu tradicional grito de guerra:

– Segura marimba! Olha minha bateria! Minha Ilha! Minha Ilha!

No auge dos flashes, Fafá aproximou-se toda simpática, estendeu a mão para dividir o microfone e cantar junto. Aroldo tirou o microfone da reta com um safanão digno de goleiro defendendo pênalti e decretou:

– Êpa! Aqui não, minha filha! Aqui não! Vai cantar em outra freguesia! Aqui na Ilha quem manda sou eu!

O sorriso de Fafá congelou mais rápido que cerveja esquecida no congelador. Percebendo o desastre que se desenhava diante das câmeras, o presidente da escola, Jorge Taufie, o eterno Peixinho, entrou em campo para apagar o incêndio.

– Pô, Aroldo... é a Fafá! Pelo amor de Deus... Deixa ela dar uma palhinha no nosso samba...

Aroldo nem piscou.

– Se tu quer ouvir a Fafá cantar, contrata um show dela lá na quadra. Aqui, não!

Fim da negociação.

Enquanto Fafá procurava um buraco onde pudesse se esconder – e não encontrou nenhum na Marquês de Sapucaí inteira –, Aroldo simplesmente retomou o serviço, como se nada tivesse acontecido.

– Segura marimba! Olha minha bateria! Minha Ilha! Minha Ilha!

A cantora deixou a concentração às lágrimas, seguida pelos fotógrafos e cinegrafistas, que haviam acabado de ganhar, de graça, a melhor imagem daquela noite.

Horas depois, já na dispersão, Edu do Banjo resolveu cobrar explicações do amigo.

– Porra, Aroldo... Tu cagou e mijou na cabeça da Fafá de Belém! Uma mulher daquele tamanho! Tu não teve medo dela te dar umas porradas?

Aroldo respondeu com a tranquilidade de quem acabara de expulsar uma estrela da Globo do próprio microfone:

– Medo? Tive não, cumpádi...

Fez uma pausa calculada, abriu um sorriso maroto e arrematou:

– Com aqueles peitões todos, o único medo que eu tive foi dela ficar muito despeitada comigo.

Dizem que a bateria da Ilha entrou na avenida afinadíssima. Mas quem arrancou a última gargalhada do carnaval foi mesmo Aroldo Melodia.

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