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terça-feira, agosto 07, 2012

Vascão perde mais um torcedor fervoroso!



O cantor Celso Blues Boy morreu na manhã desta segunda-feira, 6, em Joinville, no Norte de Santa Catarina. 

Segundo a central funerária de Joinville, o músico faleceu às 8h50.

O corpo já foi encaminhado para Blumenau para ser cremado.

O músico tinha 56 anos e sofria câncer de garganta.

Blues Boy era cantor, compositor e guitarrista.

Celso Ricardo Furtado de Carvalho nasceu no Rio de Janeiro, em janeiro de 1956.

Na década de 1970, com apenas 17 anos, começou a tocar profissionalmente com Raul Seixas, além de acompanhar nome da MPB como Sá & Guarabyra e Luiz Melodia.

Seu nome artístico é uma homenagem ao seu ídolo B.B. King, com quem chegou a tocar na década de 1980.

O vascaíno foi guitarrista das bandas Legião Estrangeira e Aero Blues, considerado o primeiro grupo de blues do Brasil.


Em 1980 passou a ser mais conhecido, quando mandou uma fita para a Rádio Fluminense, no Rio, voltada para o repertório roqueiro.

Quatro anos depois gravou seu primeiro disco, Som na Guitarra, que inclui seu maior sucesso: “Aumenta Que Isso Aí É Rock’n Roll”.

Entre 1986 e 2011, Celso lançou mais nove álbuns, como Marginal blues (1986), Quando a noite cai (1989), Indiana Blues (1996) e Vagabundo errante (1999).

Em 2008, foi lançado seu primeiro e único DVD ao vivo, Quem foi que falou que acabou o rock ‘n roll?, gravado no Circo Voador, no Rio de Janeiro, que também saiu em CD.

Seu último CD foi lançado ano passado.

Intitulado Por um monte de cerveja, o álbum possui 13 canções, como “Beth Carvalho Quer Comprar O Meu Fuscão” e “Odeio Rock’n’Roll”, com participação dos Detonautas.

Celso Blues Boy morava há 15 anos em Joinville.


Músicos e outros artistas publicaram mensagens em redes sociais para lamentar a morte do cantor e guitarrista.

“Foi-se Celso Blues Boy: uma vez fomos induzidos a tocar Coqueiro Verde numa festa e o resultado foi hilário... Saudades”, escreveu Erasmo Carlos em seu perfil no Twitter.

O apresentador Serginho Groisman também se manifestou em seu perfil no site: “Morreu Celso Blues Boy. Tive o prazer de assistir ele tocando sua furiosa guitarra. Seu encontro com B.B.King é antológico.”

Já Humberto Gessinger, líder do grupo gaúcho Engenheiros do Hawaii, afirmou: “Putz... Segunda Feira Blues... RiP”.

O cantor Ritchie, do sucesso “Menina veneno”, foi outro comentar a morte de Celso Blues Boy: “R.I.P. Celso Blues Boy :(“.

Tico Santa Cruz, do Detonautas Roque Club, mencionou uma recente colaboração com o músico: “É com muita tristeza que recebo a noticia da morte de meu querido amigo Celso Blues Boy!! Muita muita muita! Nós fizemos o último disco dele”.

O guitarrista e vocalista do Ultraje a Rigor, Roger Moreira postou: “Noticia triste. Celso Blues Boy se foi...”.

Pelo Facebook, o cantor Leoni disse: “A Música Brasileira perdeu um de seus grandes nomes e eu perdi um amigo querido. Valeu, Celso Blues Boy!”.

Caetano Veloso faz 70 anos e ganha disco tributo de presente



Caetano Veloso, que completa 70 anos nesta terça-feira, é presenteado com o lançamento de um disco tributo inédito, uma homenagem que traz cantores de diversos países interpretando algumas de suas músicas mais clássicas.

Intitulado “A Tribute to Caetano Veloso”, o disco, que conta com 16 músicas assinadas pelo musico baiano, começa a ser distribuído hoje pela gravadora Universal Music.

Entre os convidados do disco aparecem: o uruguaio Jorge Drexler (“Fora da Ordem”), o espanhol Miguel Poveda (“Força Estranha”), a cantora portuguesa Ana Moura (“Janelas Abertas nº 2”), o americano Beck (“Michelangelo Antonioni”), a banda londrina The Magic Numbers (“You Don’t Know Me”) e Chrissie Hynde (“The Empty Boat”).

Marcelo Camelo, que interpreta “É de Manhã”, Seu Jorge, com “Peter Gast”, Os Mutantes, com “London, London”, e Mariana Aydar, com “Araçá Azul”, também fazem parte deste disco tributo.

A homenagem citada é a mais importante em uma data que Caetano decidiu não festejar publicamente.

Ao invés de celebrar seus 70 anos, o músico aproveitou para adiantar a gravação de um disco de músicas inéditas, que possui lançamento previsto para novembro.

Além do disco tributo, Caetano receberá outra homenagem da Academia Latina das Artes e Ciências da Gravação, que anunciou o cantor baiano como a personalidade do ano durante a cerimônia de entrega do Grammy Latino.


“Caetano Veloso se transformou em um verdadeiro embaixador da música e da cultura brasileira. É difícil encontrar alguém com tanto talento, paixão e dedicação a seus projetos criativos, tanto na música e nas letras como no social”, afirmou o presidente da Academia, Gabriel Abaroa, ao anunciar a homenagem há algumas semanas.

A Universal também festejou o aniversário do artista com o lançamento de uma página na internet, na qual toda sua discografia pode ser ouvida gratuitamente.

Aos 70 anos, Caetano continua bastante ativo. Além da gravação de um novo disco, o cantor, ao lado da família Caymmi, participará de um show de homenagem ao centenário do escritor Jorge Amado, que será realizado nesta sexta-feira.

Nascido no dia 7 de agosto de 1942 em Santo Amaro da Purificação, no interior da Bahia, Caetano teve sua carreira marcada pelo Tropicalismo, movimento que inovou a música brasileira em épocas de ditadura.

Diante deste contexto, o cantor teve várias músicas censuradas e chegou a ser acusado de subversão, sendo obrigado a se exilar em Londres por alguns anos.

Ele viveu no exílio em Londres de 1968 a 1972.

Nos anos 80, ampliou seu público. Gravou mais de 40 discos, publicou cinco livros, dirigiu um longa e ganhou vários prêmios.

Em 2003, participou da cerimônia do Oscar, em performance ao vivo com Lila Downs em “Burn It Blue”, do filme “Frida”, pelo qual recebeu a indicação de Melhor Canção Original.

No Grammy Latino, ele passa a integrar uma lista de homenageados que inclui Placido Domingo, Gloria Estefan, Julio Iglesias, Carlos Santana e Shakira, entre outros.

Escritora brasileira lança campanha contra pirataria com pintura corporal



Lívia Machado
Do G1, em São Paulo

A escritora brasileira Vanessa de Oliveira fará um novo protesto contra a pirataria de livros. Desta vez, mostrará seus atributos físicos em território nacional, a começar por fotos para ilustrar a campanha por ela idealizada.

A autora ganhou fama após aparecer nua em frente ao palácio do governo do Peru, em Lima, em julho. Ela descobriu que uma de suas seis obras – “O diário de Marise - A vida real de uma garota de programa” – era vendida em barraquinhas clandestinas nas ruas da cidade.

O novo topless está programado para domingo (12), na livraria Martins Fontes da Avenida Paulista, na Zona Sul de São Paulo, às 15h30. O evento faz parte da nova agenda da escritora.

A ex-garota de programa, de 37 anos, encabeçou uma campanha contra a cópia e venda ilegal de livros e pretende usar seu corpo para fazer piquetes internacionais.


O protesto em um ambiente privado foi sugestão de Vanessa à editora Martins Fontes, que comercializa seus livros. De volta ao Brasil, ela aproveitou a repercussão no país vizinho para arrebatar aliados mundiais.

“Fiz a oferta de autografar meus livros e falar sobre os danos da pirataria, e eles toparam na hora. Estarei apenas de calcinha, com os dizeres escritos pelo corpo, tentando conscientizar as pessoas”, conta ao G1.

Na próxima semana, deve retornar ao Peru após convite da editora Help.

Em dezembro, participará da Feira do Livro de Guadalajara, no México.

Antes de embarcar em viagens internacionais, Vanessa recrutou amigos e profissionais interessados na causa e produziu fotos e vídeo para a campanha que elaborou sozinha.

Nas imagens, usou tinta branca, preta e vermelha para colorir o próprio corpo com os dizeres “Pirataria não” em diferentes idiomas. “Amo a cor vermelha. O preto simboliza o mercado negro, e o branco é a cor usada para ilustrar a caveira, no logo da campanha”, justifica.


As nacionalidades estão representadas nas pernas, nos braços, na barriga, no colo e no quadril. Para traduzir a expressão, pediu ajuda aos amigos e fãs que residem fora do Brasil via Facebook e Twitter. Por fim, checou as grafias nos dicionários e na internet.

O material teve apoio de uma fotógrafa, maquiadora, publicitários e um produtor de vídeos. Todos os profissionais aderiram de forma voluntária.

Para a sessão de fotos, a escritora dormiu com uma cinta modeladora e amargou mais de 24 horas em jejum. Também suportou as baixas temperaturas do inverno catarinense em prol da revolução literária.

“Queria estar com a barriga bonita no vídeo. Na foto dá pra usar o Photoshop, mas no vídeo não tem como. Dormi com cinta na barriga pra ficar com a cinturinha bem fininha e passei um dia sem comer.”

Vanessa foge de tabus e preconceitos. Para ela, a nudez é uma bandeira coerente com seu estilo de vida. São raras as vezes em que está vestida dentro de sua casa. “Gosto de ficar pelada. A maior parte dos meus livros eu escrevo sem roupa.”

Ela não teme que o excesso de exposição renda uma repercussão negativa, tampouco pretende mudar sua estratégia para se fazer ouvir. “Você fica pelada e o povo para, chama atenção. O que significa se expor demais? Não tenho problema com isso. Se tivéssemos um clima bom, e todo mundo ficasse nu, seria bem melhor”, convoca.

domingo, agosto 05, 2012

Jamaica: cinquentona e bem acesa



Um típico sound system jamaicano dos anos 60: música nas ruas

Na música “Forward march”, Derrick Morgan celebrava, em agosto de 1962, o novo status de seu país, após mais de três séculos como colônia britânica, cantando: “Vamos nos juntar, irmãos e irmãs/ Somos independentes”.

Mas foi o jovem Jimmy Cliff, então com 14 anos, quem conquistou o topo das paradas com “Miss Jamaica”, o primeiro hit daquele período de euforia.

Na letra, carregada de simbolismos, ele comparava a pequena ilha caribenha, de praias paradisíacas, a uma beleza que o mundo iria conhecer: “Embora você não tenha um tamanho fabuloso/ Comparado ao resto do mundo/ Você é do meu tamanho/ É tudo o que eu preciso/ Você é minha Miss Jamaica/ Estou te coroando agora”.


Na próxima segunda-feira, aquela “miss” completa 50 anos, sendo conhecida do mundo não apenas pelas suas belezas naturais, mas também pelo incrível poder da sua música.

Do ska ao ragga, passando pelo enfumaçado dub e pelo seu maior produto de exportação, o reggae, a Jamaica — cujos sons serão celebrados ao longo dos próximos 12 meses em shows, discos e exposições — influenciou decisivamente muito do que se ouviu e do que se ouve no planeta, fertilizando a disco, o rock, o hip-hop, a eletrônica e a MPB.

De quebra, deu ao mundo um dos seus maiores ícones, Bob Marley, de adoração comparável a Elvis Presley e aos Beatles, e cujos discos não param de vender, mesmo após a sua morte, em maio de 1981, de câncer. A compilação “Legend”, de 1984, por exemplo, já vendeu 25 milhões de cópias em todo mundo, tornando-se o maior sucesso da história do reggae.

– É realmente incrível pensar que uma ilha, pequena daquele jeito, tenha tido essa importância para a contemporanidade musical do planeta – diz Gilberto Gil, possivelmente o artista brasileiro mais associado ao reggae e aos ritmos da Jamaica, onde gravou, em 2002, o disco “Kaya n’Gand Daya”. “Mas a cultura musical do país é muito rica. E foi ela que nos deu Bob Marley, um talento extraordinário, um gênio que eu comparo a Tom Jobim e João Gilberto”.


No jubileu da Jamaica, a figura de Marley é lembrada na exposição “Messenger”, em exibição até 22 de outubro, no museu interativo The British Music Experience, em Londres.

A capital inglesa – onde os sons jamaicanos encontraram uma segunda casa – recebe também, durante os Jogos Olímpicos, a Jamaica House e o festival Respect Jamaica 50, ambos na Arena O2, onde até 12 de agosto vão se apresentar DJs como Jah Shaka e David Rodigan e artistas como Lee Perry, U-Roy, Damian Marley e Jimmy Cliff.

– A influência da música jamaicana na Inglaterra é imensa. E, a partir dali, ela se espalha pelo mundo – conta David Katz, autor do livro “Solid foundation: an oral history of reggae”. “Isso remonta aos anos 1960, quando o ska foi adotado pelos mods e, mais tarde, pelos skinheads. Depois, foi Bob Marley conquistando o público do rock e os punks se apaixonando por roots reggae. As conexões se estendem até o lovers rock e à influência dos MCs no surgimento do jungle. É uma união bastante antiga e rica.”

Nas próximas semanas chega às ruas uma série de lançamentos também celebrando a data. A gravadora VP Records vem com “Out of many: 50 years of reggae music”, com três CDs, cada um trazendo um hit de cada ano na Jamaica, de 1962 até 2012.

A Trojan surge com “Freedom sounds: a celebration of Jamaican music”, com cinco CDs.


Mas o pacote mais farto vem da Island Records. A gravadora fundada na Jamaica aparece com “Soundsystem”, caixa de oito CDs acompanhada por um livro de cem páginas.

Os dois últimos lançamentos chegam ao Brasil até o fim do mês, importados pela Universal.

– O reggae continua sendo a maior fonte de inspiração e de orgulho para os jamaicanos – diz Carolyn Cooper, professora da University of West Indies, em Kingston, e autora de livros sobre o assunto como “Sound clash: Jamaican dancehall culture”. “Mas há jovens que não conhecem sua história. Tive um aluno que me confessou só ter descoberto Peter Tosh recentemente. É trágico. O dancehall é o som dos novos tempos, é a música que ecoa junto às novas gerações. Mas há artistas de dancehall, como Queen Ifrica, I-Octane, Romaine Virgo, Etana e Tarrus Riley, que se equilibram entre a modernidade e a tradição roots.”

No Brasil, as conexões com a Jamaica – acionadas pela primeira vez no começo dos anos 1970, por artistas como Caetano Veloso e Jards Macalé – continuam à vista.

Além de notórios relacionamentos – do samba-reggae, na Bahia, ao som das radiolas, no Maranhão – novidades não param de dar na praia.


No Recife, o grupo Ska Maria Pastora, que debutou recentemente com o disco “As margens do Rio Doce”, liga o balanço jamaicano com o frevo, enquanto produtores como Bid vão ainda mais longe, aproximando baião e maracatu do ska e do dancehall, como no disco “Bamba dois”, gravado na ilha, com estrelas locais como Luciano e Sizzla.

– O reggae tem uma divisão rítmica parecida com a do forró, por exemplo. A diferença é que a gente usa triângulo, zabumba e sanfona, e os jamaicanos usam baixo e bateria para a marcação – diz Gil. “Mas são parentes muito próximos.”

Autor de “Não chores mais”, um clássico da fusão Jamaica-Brasil (versão de “No woman, no cry”, de Bob Marley), Gil completa:

– Reggae, ska, afoxé, xote, é tudo uma pulsação só. Lembro da primeira vez que mostrei um reggae para Dominguinhos, em 1975, e ele me respondeu, brincando: “Mas que xotezinho sem-vergonha, Gil”.


Adaptação local para os sound systems caribenhos, onde se dança as “pedras” (sucessos, na gíria local do Maranhão)

São Luís curte o reggae há mais de 30 anos, de um jeito bastante particular. E não há sinais de que essa conexão vá cair.

Na capital maranhense, o ritmo jamaicano ainda é o som da massa, dançado juntinho, seja nas famosas radiolas — adaptações locais para os sound systems caribenhos — ou em bares espalhados pela cidade.

Nas gigantescas caixas, nada de ritmos digitais, como dancehall ou ragga.

O que une os casais é a batida marcada, macia e envolvente do som roots, típico dos anos 1960, como se as duas ilhas tivessem parado no tempo.

Mas há algumas novidades no ar. E uma polêmica também.

Até o começo dos anos 2000, os DJs locais disputavam com ferocidade o privilégio de tocar uma “pedra” (sucesso, na gíria local) com exclusividade.


Para isso, alguns, como Edmílson Tomé, mais conhecido como Serralheiro, uma lenda local, chegavam a viajar até a Jamaica em busca de um compacto.

Era esse o combustível para animar os bailes de radiolas como Voz de Ouro Canarinho e Águia do Som.

Com as facilidades obtidas pelos avanços tecnológicos, o cenário mudou um pouco.

Agora, o que os novos DJs tocam, em seus laptops, são produções feitas em estúdios locais, com a ajuda de bases eletrônicas, o chamado “robozinho”.

É o que se escuta na domingueira Chama-Maré, realizada na beira da praia da Ponta d’Areia, frequentada por um público mais “classe média”, como explica Fauzi Beydoun, DJ e cantor do grupo Tribo de Jah, mas não o que rola em bares de “resistência” como o Kingston 777, na periferia da cidade, comandado pelo DJ Jr Black, que só toca vinil.

– O robozinho é um som muito repetitivo, por causa das programações eletrônicas, e às vezes soa artificial. Aí surgiu esse movimento de resistência, e hoje há dezenas de bares pela cidade tocando sons mais orgânicos – conta Beydoun. “A única coisa que não mudou em São Luís é que o reggae continua sendo o som do povão, a forma de lazer mais barata, a identidade cultural da cidade.”


Diversidade na 3ª edição do Terruá Pará



Daniela Dacorso, de Belém (PA)

Na imponente construção neoclássica de 134 anos, inspirada no Teatro Scala de Milão, cadeiras tropicais de madeira e palha trançada.

No palco, garotos fazem som eletrônico da periferia com roupas que simulam futuristas pinturas indígenas que brilham no escuro.

A senhora de anos canta versos que louvam, com divertida conotação sexual, o “tremor” causado na boca (e no corpo todo) pelo jambu — verdura típica da culinária local que causa dormência na língua.

Os músicos da orquestra de violoncelistas dançam com seus instrumentos como se estivessem num misto de arrasta-pé e baile de tecnobrega.

Guitarras cultivadas por décadas em bordéis fuleiros dialogam com a vanguarda da juventude classe média.

Duas musas iluminam o olhar lançado dali sobre o mundo exterior: “Ela é americana/ Da América do Sul” e “Essa ‘lorinha’ americana/ Está querendo me esculachar/ Dizendo que eu sou neguinho/ E na América eu não posso entrar”.

No fim, a diva pop pós-moderna comanda o carimbó.

Realizada entre 31 de julho e 4 de agosto no Teatro da Paz, em Belém, a terceira edição do Terruá Pará – espetáculo de quase três horas unindo artistas do estado, entre 20 e 90 anos, de diferentes gêneros – sintetiza um tanto da teia de informações que gera a força da produção cultural paraense hoje.

Uma produção cultural que não se limita à música, sua vitrine mais evidente, mostra também nas artes visuais, na moda, no teatro, na literatura e no audiovisual que pode aceitar facilmente definições-clichês como “exuberância amazônica” e “diversidade de floresta tropical”, justificando, enfim, os olhares atraídos pelo estado recentemente como o polo cultural mais interessante do país.

O terruá (termo criado pelo evento a partir do francês terroir, que indica identidade local) paraense não nasce do acaso.

Ele é fruto de uma conjunção de fatores que vão desde a formação histórica da cidade até iniciativas (de Estado ou de “guerrilha”) feitas ao longo da última década que, por um lado, permitiram que surgisse uma geração de público e artistas especialmente criativa e, por outro, deram visibilidade ao que já vinha sendo feito há muito tempo.


A cantora Lia Sophia foi uma das atrações do Terruá Pará, que aconteceu no Theatro da Paz

Avaliando o que acontece na música, Ney Messias, secretário de Comunicação do estado e idealizador do Terruá Pará, defende que na base de tudo está um resgate de um “sotaque perdido”:

– O projeto “Mestres da guitarrada”, que Pio Lobato criou em 2003, é o marco zero. Ninguém falava em guitarrada então, era como se não existisse. Mas, a partir dali, as pessoas do Pará voltaram os olhos novamente para essa bagagem, antes desprezada, e viram que havia valor ali. Não só na guitarrada, mas no carimbó e em outros gêneros locais. O que o Terruá Pará faz quando aparece em 2006 (uma segunda edição foi realizada em 2011) é sistematizar esse movimento, dar um sentido a ele.

Festivais de rock como o Se Rasgum a cada edição se abriam mais para o tal “sotaque perdido”, dando espaço para artistas locais tradicionais, o som da periferia do tecnobrega e a nova geração que aparecia misturando esses elementos. O público acompanhava a transformação.

– Lembro que meus amigos riam do Pinduca, e hoje no Se Rasgum tem roda de pogo para suas músicas – diz o cineasta Vladimir Cunha, diretor do documentário “Brega S/A”. “Essa geração que surge agora já cresceu com essa abertura. E é mais esperta com relação à produção, cresceram vendo o Se Rasgum, viajam, têm referências para saber como fazer as coisas. O resultado é algo como o Mongoloid Festival, produzido por moleques de 20 anos, que vai ter bandas indianas, mexicanas e o bregueiro Cacique Cara de Pau juntos. Totalmente diferente da Belém onde eu cresci, onde as pessoas brigavam por música. Metaleiros com punks, essas coisas.”


Gaby Amarantos no festival Terruá Pará

A efervescência da música paraense e a atenção que ela tem recebido acabam dando frutos para outros terrenos, como as artes visuais.

E oferecem oportunidades para que a obra de artistas como Berna Reale, Keyla Sobral (atualmente com a exposição “Meu livro de memórias” no Rio, na Galeria do Ateliê) e Roberta Carvalho rompam os limites do estado.

– Ser de Belém, que outrora gerava um preconceito, hoje é quase pré-requisito para você conseguir mostrar sua arte – brinca Roberta, que desenvolve um trabalho de mapping, projetando imagens em árvores, quase sempre de temas amazônicos. “Nas primeiras vezes em que estive em São Paulo, as pessoas se surpreendiam: ‘Olha, ela é do Norte e está trabalhando com tecnologia.’ Temos uma tradição forte de artes visuais, sobretudo a fotografia paraense, uma escola muito valorizada no mundo.”

Editora e fundadora da revista eletrônica de arte e cultura contemporânea “Não-lugar”, Keyla lança uma provocação:

– Há grupos como o Qualquer Coletivo, gente como Orlando Maneschy, uma grande diversidade. Podíamos ter um Terruá Pará de artes visuais.

Berna mira nas artes plásticas, mas vai além quando aponta para a questão-chave para se pensar cultura no Pará: a dependência das políticas públicas e das empresas (como a Vivo, que no projeto Conexão Vivo apoia festivais, shows e gravação de CDs):

– Infelizmente uma cidade como Belém não tem mercado para sustentar a arte – diz.


O grupo de carimbó Uirapuru abriu a programação na noite de estreia

Mesmo a falta de recursos revela soluções que mostram a força da cultura paraense.

O Teatro Cuíra é um exemplo claro: criado em 2006 para ser a casa do grupo homônimo (há 30 anos em atividade), o espaço, que fica numa região de prostituição da cidade, era um casarão centenário com as paredes internas derrubadas para virar estacionamento.

A configuração acabou favorecendo o grupo, que montou sua sala, com cadeiras compradas de um cinema fechado e arquibancadas e aparelhos de ar-condicionado doados.

Assim, surgiu um palco a mais na cidade para outras companhias e músicos, prêmios e patrocínios para projetos específicos – peças do grupo que quase sempre trazem prostitutas da região no elenco.

– Quando chegamos, a primeira pessoa a meter a cabeça aqui dentro e perguntar “o que vocês vão fazer aí?” foi uma prostituta. Vimos que tínhamos que trazer as pessoas daqui para dentro do grupo. É uma forma de interagir com a cidade, e teatro se faz assim – defende o dramaturgo e diretor Edyr Augusto Proença, insatisfeito com os rumos da política cultural de Belém.

– O Terruá Pará reúne artistas ótimos, mas a realidade da cultura paraense é essa aqui (olha em volta, mostrando as instalações simples do teatro), não é a do festival.

Escritor com vários romances publicados, Proença vê surgir na literatura uma exploração original dos cenários de Belém, longe da folclorização amazônica e mais interessada na complexidade do cenário urbano de uma cidade encravada na floresta:

– Exploro essa linguagem policial, cinematográfica, sempre em histórias passadas em Belém. Jovens escritores como Marcelo Damaso (produtor do Se Rasgum, ele tem o romance “Iracundo” pronto, à procura de editora) e Cacho Ishak conversam comigo nesse sentido, falam a mesma língua.

Ishak vê as mesmas afinidades. A vista panorâmica da varanda de seu apartamento parece reafirmar seu pensamento: prédios altíssimos acusam a especulação imobiliária de um lado, enquanto a periferia pobre se espalha rasteira do outro.


A orquestra de cellos foi uma das sensações do evento

Alguns artistas ressaltam a curiosidade e o desejo de se “amostrar” do “cabôco” (uma espécie de caboclo com a especificidade de Belém) como determinantes para o que acontece no Pará. Um traço que conversa com a formação clássica, herança da fase áurea da borracha.

O resultado aparece em trabalhos como o erudito-pop da Orquestra de Violoncelistas da Amazônia e cantoras líricas como a jovem Thaina Souza, que, oriunda do tradicional Conservatório Carlos Gomes, acaba de ganhar uma bolsa para estudar em Viena – há cantores líricos paraenses espalhados pela Europa.

O audiovisual acompanha o momento, com nomes como Vladimir Cunha, Jorane Castro, Roger Elarrat, Cássio Tavernard e Priscila Brasil.

Filha de família tradicional, com direito a aulas de francês e piano na infância, Priscila chamou a atenção como diretora do clipe de “Xirley”, de Gaby Amarantos, a cantora de origem pobre, “cabôca”, do bairro de Jurunas, que abraçou a tecnologia.

O encontro das duas – hoje a primeira é empresária da segunda – traz, de certa forma, as possibilidades oferecidas por essa cultura paraense que agora se mostra para o Brasil.

Dos salões do conservatório às aparelhagens, todos estão sob a mesma opressão da umidade e do calor, lembrada a todo tempo pelo brilho do suor nos rostos – como se diz em Belém, todos breados.

quinta-feira, agosto 02, 2012

Amazon lança serviço de música digital que compete com iTunes



A Amazon.com apresentou um novo serviço de música digital nesta terça-feira, intensificando a competição com o iTunes, da Apple.

O novo serviço encontra arquivos de música digital nos computadores de seus usuários, cria cópias dessas canções e as armazena em nuvem, segundo a Amazon.

Como parte do novo serviço, a Amazon anunciou acordos de licenciamento junto a centenas de editoras e distribuidoras de música, incluindo Sony Music Entertainment, EMI, Vivendi, Universal Music e Warner Music.

As licenças permitem que a empresa crie novas versões dos arquivos digitais de música de seus clientes.

A iniciativa intensifica a competição com a Apple, que lançou um serviço semelhante, chamado iTunes Match, em 2011.

Não é a primeira vez que a Amazon invade o território da Apple.

No ano passado, a maior rede de comércio online do mundo começou a comercializar seu próprio tablet, o Kindle Fire, como uma alternativa menor e mais barata ao iPad.

A Amazon disse na terça-feira que identificará todos os arquivos de música digital comprados em sua loja online e os armazenará gratuitamente.

O serviço também poderá ser utilizado gratuitamente em até 250 arquivos de música digital transferidos a partir de CDs ou comprados da iTunes Store, da Apple, além de outras fontes, informou a Amazon.

Após 250 canções, a Amazon cobrará US$ 24,99 ao ano para identificar e armazenar até 250 mil arquivos de música digital comprados ou adquiridos a partir de outras fontes.

Uma vez armazenados na nuvem, clientes podem ouvir as canções por meio do Kindle Fire e de aplicativos da Amazon em aparelhos como iPhone, iPod Touch, tablets Android e smartphones, e em PCs, por meio de navegadores.

A Amazon disse que o serviço será disponibilizado em breve por meio de boxes Roku Internet TV e do sistema de streaming de música Sonos.

sexta-feira, julho 27, 2012

Cadê o Marius Bell?



Provavelmente todos nós já estamos familiarizados com as técnicas de bodypainting, principalmente durante os bailes de carnaval em exclusivíssimos ambientes fechados, cujo nível de criatividade lembra vagamente Sodoma e Gomorra antes da visita dos arcanjos.

No entanto, há que se separar o uísque da cachaça: há as pinturas dos artistas de rua que são feitas no carnaval para mostrar aos amigos de suruba e há aquelas pinturas com potencial de se elevarem à categoria de arte.

Craig Tracy é claramente um dos segundos casos.


Ele nasceu e cresceu em Nova Orleans (EUA), onde os corpos pintados durante o Mardi Gras (o carnaval de Lousiana) o inspiraram, desde criança, a se tornar artista plástico.

Aos 16 anos, já trabalhava como ilustrador em um shopping center da cidade e, depois de se formar em Belas Artes, continuou atuando na área por alguns anos, até abandonar a carreira por achar que ela tirava o sentido de sua arte.

Filho de pais hippies, apaixonado por pintura corporal, Tracy começou a se dedicar à técnica e levou alguns anos até que se levasse a sério – e levasse a arte a sério.

Em sua obra, Tracy busca unir algumas de suas paixões: a forma do corpo feminino e a arte de pintar sobre ele.


Com esta obra, do início da carreira, o artista teve certeza de que estava no caminho certo para se expressar artisticamente.

A paixão dele cresceu tanto, que Tracy se tornou um colecionador de obras de arte de pintura corporal.


Esta obra foi inspirada pelo filme Beleza Americana.

O artista quis eternizar o vermelho sobre o corpo da modelo.

Nesta outra obra há, na verdade, duas modelos.


O olho do animal é pintado sobre o seio de uma delas, enquanto a mão de sua irmã forma o nariz da fera.

Calhou de a modelo trazer sua irmã para o estúdio e ela, literalmente, deu uma mão.


Tracy afirma que a forma da modelo – em particular sua diminuta cintura – inspirou esta obra.

Todas as sombras foram pintadas no corpo da modelo – nenhuma luz foi usada na foto – e além do branco e preto, o artista usou algumas cores.


A natureza é também uma das paixões do artista, que começou pintando animais nos corpos femininos.

Aqui, ele manteve as “imperfeições” da pintura.

Craig leva cerca de 24 horas para completar suas pinturas em estúdio e fotografá-las.


Nesta obra, Tracy quis mostrar que o sol visto do fundo do mar – como visto pelos mergulhadores – é muito mais interessante.

O artista – que trabalha com o volume do corpo feminino – encaixa suas modelos sobre um fundo para finalizar o quadro.


Tracy conta que essa pintura – representando um caleidoscópio – foi a que demorou mais tempo na pré-produção, já que ele teve que encomendar uma plataforma para posicionar a modelo.

A posição da modelo também dificultou o processo.


Em 2006, ele abriu a primeira galeria de arte do mundo especializada em pintura corporal.

A galeria, em Nova Orleans, tem fotografias, gravuras em papel e tela, além de livros e vídeos sobre o processo de pintura corporal.

Além disso, ele dá palestras semanais sobre o tema.

Porra, Marius Bell, o que você está esperando para fazer o mesmo?