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quinta-feira, março 05, 2009

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 10


RANKS, Shabba
Ele saiu dos guetos malcheirosos de Trenchtown para se tornar a grande promessa do reggae dos anos 90. Rexton Rawlston Fernando Gordon era um admirador do veterano Josey Wales quando iniciou na profissão de DJ, inicialmente com o apelido DJ Co-Pilot. O nome não decolou e ele adotou o codinome de Shabba Ranks em homenagem à Rainha de Sabá.

Shabba virou uma sensação na Jamaica fazendo o que todo mundo faz e gosta - sexo, sexo, sexo. Dizia que era um “malvado na cama” (“Wicked In Bed”), que resolvia a carência da mulherada toda (“Mr Loverman”), que fazia e acontecia.

O sucesso na Jamaica o catapultou para um contrato multimilionário com a Sony Music. E Shabba continuou com sua prosa lascada em discos como As Raw As Ever e X-Tra Naked. Só caiu em desgraça ao comentar, num programa de auditório, que “os homossexuais deviam ser apedrejados até a morte.” A turma do politicamente correto crucificou o jamaicano e, desde então, ele tem dado poucos sinais de que conseguirá recuperar o prestígio que possuía.

RAPPA, O
Surgiu em 1993, como banda de apoio do astro de reggae-baba Papa Winnie. Na época eles se chamavam Conexão Xangô e a formação era a seguinte: Marcelo Yuka (bateria, ex-KMD5 – o atual Negril), Nelson Meirelles (baixo, produtor do Cidade Negra), Xandão (guitarra) e Marcelo Lobato (teclados). O vocalista Falcão chegou tempos depois.

Rebatizado como O Rappa, o grupo assinou contrato com a WEA em 1993 e soltou seu CD de estréia no ano seguinte. O trabalho foi mixado por Dennis Bovell, lendário expert em dub.

Rappa Mundi, o trabalho seguinte, tem uma produção mais pop (a cargo de Liminha, o mesmo de Cidade Negra e Titãs). Nelson Meirelles foi substituído por Lauro Farias, irmão de Bino, baixista do Cidade Negra. O Rappa também fugiu das amarras do reggae, adicionando elementos de música brasileira (a regravação de “Vapor Barato”, sucesso de Gal Costa nos anos 70), funk e rock.

RAS
Título usado pelos rastas. Pode significar “senhor” ou “cabeça”. Também é rei na língua etíope.

RAS MICHAEL & THE SONS OF NEGUS
Negus é um título de nobreza do imperador da Etiópia Hailé Selassié, o senhor do movimento rastafari. E ninguém paga mais tributo ao deus rastafari do que Ras Michael e sua banda. Usando a percussão como elemento principal, eles promovem autênticas missas rasta desde os anos 70. Ainda fazem barulho na Jamaica, agora adicionando uma parafernália eletrônica a seus hinos de devoção rasta. Parece uma missa do ano 2 mil.

RASTAFARIANISMO
Filosofia que mistura crendices e profecias no mínimo contestáveis com uma interpretação própria da Bíblia. As raízes da filosofia rastafari foram plantadas na sociedade jamaicana por Marcus Mosiah Garvey, líder negro jamaicano que se radicou nos EUA. Grande orador, ele pregava que os negros deviam voltar à África e, em 1919, fundou um jornal (The Negro World) e uma revista (The Black Man) para difundir suas mensagens. Acreditava que a Terra Prometida do povo negro era a Etiópia.

A Garvey foi atribuída a seguinte profecia: “Olhem para a África. Quando um rei negro for coroado, é sinal que a redenção está próxima.” O pastor foi preso por sonegação de impostos e morreu na Inglaterra, em 1940, sem nunca ter conseguido a sonhada redenção. Mas o estrago já estava feito: em 1930, Ras Tafari Makonnem se autoproclamou Imperador da Etiópia, reinvindicando para si os títulos de Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Leão Conquistador da Tribo de Judah.

O soberano que mudou o nome para Hailé Selassié (que significa “o poder da Santíssima Trindade”) era na verdade um tirano de marca maior, que preferia alimentar seus leões a matar a fome do povo. Mas os jamaicanos o tomaram como divindade e dirigiram suas preces a ele.

Um grupo liderado pelos “teóricos” Leonard P. Hovell, o reverendo Claudius Henry, Edward Emanuel e Vernal Davis se encarregaram então de criar os preceitos da filosofia rasta. Eles achavam que a Bíblia havia sido adulterada e fizeram uma espécie de “revisão” do livro sagrado.

O rastafarianismo vê a Igreja Católica, o governo e a polícia como agentes do mal, a Babilônia – “apelido” dado ao corrupto sistema ocidental. Os rastas não devem cortar seus cabelos. As longas tranças nunca podem ser penteadas nem lavadas. Elas são uma espécie de “antena” para captar vibrações positivas.

Os rastas execram o consumo de carne de porco e carne vermelha. A culinária deles se baseia na I-Tal Food, composta de legumes, raízes e frutas. Vez ou outra, peixe ou frango.

A maconha é uma erva sagrada – teria sido encontrada no túmulo do Rei Salomão. Serve para ajudar na compreensão das coisas e é usada como incenso nas igrejas. Hoje a filosofia rasta não tem a mesma popularidade que tinha nos anos 70 (quando Bob Marley propagou o nome de Hailé Selassié em todo o mundo) mas ainda atrai curiosos fãs de reggae.

REBEL, Tony
O DJ Patrick Barret nasceu para cantar as maravilhas da seita rastafari. Tudo isso embalado pela melhor produção que o dancehall tem para oferecer. Seu grande sucesso foi “Fresh Vegetables”, de 1991. O álbum Vibes Of Time, lançado dois anos depois, é considerado seu melhor trabalho.

RED
Chapado de erva, na língua rastafari.

REID, Duke
Grande rival de Coxsone Dodd no reino dos sound systems, Reid era arrogante e gostava de exibir armas junto dos compactos raros de R&B americano que tocava, lá pelo final dos anos 50. Dono de uma loja de bebidas em Kingston, ele entrou de cabeça na produção de discos, investindo tudo que tinha no rock steady e apadrinhando cantores como Alton Ellis. Quando o rock steady afundou, Reid foi junto – e nunca mais se recuperou.

REID, Junior
Ele já tinha uma carreira-solo de relativo sucesso quando foi convidado para assumir os vocais do Black Uhuru. O ano era 1986. Reid gravou um belo disco de estréia (Brutal), mas depois sofreu as inevitáveis comparações com o cantor Michael Rose – aqui entre nós, infinitamente superior. Em 1988, lançou One Blood. E foi cuidar de sua vida, gravando ao lado do grupo inglês Soup Dragons (na cover de “I’m Free”, dos Rolling Stones) e soltando trabalhos de qualidade superior ao Black Uhuru atual (Long Road, de 1993).

ROCK STEADY
Foi uma evolução mais sincopada e harmoniosa do frenético ska que saiu do sound system de Duke Reid no começo dos anos 60. Parente do rhythm & blues americano da época, mais lento e gostoso de se dançar junto, o gênero é o pai do reggae. Grandes nomes que você precisa conhecer: Alton Ellis, Paragons, Ken Boothe e Delroy Wilson.

ROMEO, Max
Coube a ele a “honra” de ter a primeira canção jamaicana a levar pau da censura inglesa. “Wet Dream” – ou “sonho molhado” – teve sua execução proibida pela BBC de Londres por causa do “conteúdo pornográfico” nos anos 60. Mas Romeo só disse a que veio mesmo nos anos 70, quando, ao lado de Lee Perry, gravou o álbum War In A Babylon. Isso foi em 1976, ano marcado por brigas entre os dois principais partidos políticos jamaicanos - com direito a distúrbios de rua e o escambau. As letras fortes de Romeo, que retratou bem o espírito da época, bateu forte nos poderosos da ilha.

ROSE, Michael
Antes de entrar para o Black Uhuru, na década de 70, Rose já havia estourado nos terreiros jamaicanos com “Guess Who’s Coming To Dinner”. Sua grande sacada vocal são os mantras que solta entre uma virada e outra de Sly & Robbie (um segredo: inventou aquilo porque simplesmente esqueceu o que ia cantar). Michael saiu do B.U. em 1984 e segue uma carreira irregular, dando uma no cravo (o bom disco Michael Rose, de 1995) e outra na ferradura (o chatérrimo Be Yourself, de 1986). Michael mudou a grafia de seu nome para Mykal Rose, aproveitando para modernizar o som.

ROOTS RADICS
A banda in da Jamaica nos anos 80. Gravou com todo mundo: de Gregory Isaacs (no magistral Night Nurse, de 1982) a Bunny Wailer (Rock & Groove). Com Dwight Pinkney na guitarra e Erol “Flabba” Holt no baixo, Style Scott na bateria e Steelie nos teclados, eles ajudaram a construir a história do reggae na década passada. Seu álbum World Peace III (de 1992) vale uma conferida.

SATTA
Rejubilar-se, meditar, agracer e rezar.

SAW, Lady
Perto do que esta moça faz, as reboladas de Cada Perez são brincadeira de criança e as simulações sexuais de Madonna não passam de fúria de freirinha. Lady Saw é uma safada (no melhor sentido da palavra) que tomou a Jamaica de assalto nos anos 90. Marion Hall - seu verdadeiro nome - era uma inocente cantora do sound system The Romantics. Não obteve o sucesso esperado porque sua voz era muito parecida com a de Tenor Saw - que ainda estava vivo e cantante nos terreiros da Jamaica. A opção que ela encontrou pela frente foi partir para a sacanagem. E nesse quesito teve iniciativa de vencedora. Nomes de algumas de suas músicas de sucesso: “Find A Good Man” (“Encontre Um Homem Decente”) e “Love Me Of Lef Me”. Nos shows, não é raro ela simular um ato sexual no palco e apalpar a genitália para delírio dos machões jamaicanos.

SCIENTIST
Praticante de bruxaria.

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 11


SHAGGY
O jamaicano Orville Burrel tirou do amigo do Scooby-Doo o nome artístico. Apelidado de Salsicha (“Shaggy”) pelos companheiros de escola, ele fez uso da homenagem para iniciar uma tímida carreira de DJ. A primeira tentativa não rendeu o esperado e Shaggy serviu ao exército americano durante a Tempestade no Deserto, operação militar na guerra contra o Iraque. De volta ao mundo do reggae, alcançou sucesso mundial com a regravação de “Oh Carolina”, hit jamaicano pré-reggae (1960) dos Folkes Brothers. Shaggy então assinou um contrato de um milhão de dólares com a Virgin e vem justificando o investimento. Boombastic (1995) foi considerado o melhor disco de reggae do ano por diversas publicações. De quebra, ressuscitou a banda inglesa Mungo Jerry ao tirar do baú a canção “In The Summertime” – que acabou na trilha sonora do filme Flipper.

SHINEHEAD
Carl Aiken é Shinehead porque costumava passear pelas quebradas de Brooklyn (EUA) com o cocuruto reluzente. Musicalmente, ele eleva a moral da galera com uma mistura esperta de reggae, rap, e funk da melhor qualidade.

Seu début se deu em 1984, com uma versão cheia de ginga para “Billie Jean”, de Michael Jackson. O primeiro álbum, Unity, era uma pedrada só, com releituras para canções de Sam Cooke (“Chain Gang”, que tocou nos bailes funk cariocas), críticas ao crack (“Gimme No Crack”) e uma chupada em “Come Together”, dos Beatles (na faixa-título).

Ao vivo, Shinehead faz barba, cabelo e bigode. Brinca com a banda, se joga no meio da galera, imita Gregory Isaacs e Michael Jackson.

SILK, Garnett
Para alguns críticos, ele era o Bob Marley dos anos 90. Garnett Silk tinha mesmo qualidades – carisma, convicção rasta, uma voz divina – que o aproximavam do eterno rei do reggae. Nascido em Manchester (a da Jamaica), ele se mudou para Kingston em 1987. Logo caiu nas graças de produtores top (King Jammy, Steely & Clevie) e emplacou seu primeiro hit em 1991. Dois anos depois já era uma celebridade, headliner de festivais como o Sumfest e estampado na capa de revistas especializadas. Um dos destaques dessa época foi “Mama”, adaptação regueira de “Patches”, clássico do soulman americano Clarence Carter (você conhece essa: foi vertida por Nando Reis e virou “Marvin” nos Titãs muito antes de ser cantada por Silk). O cantor morreu no Natal de 1994, quando um botijão de gás estourou e incendiou a casa de sua mãe, em Kingston. Numa tentativa de salvá-la, Garnett Silk atravessou a cortina de fumaça e nunca mais voltou.

SKANK
O reggae com tutu à mineira desse grupo já conquistou gente tão distinta quanto Maxi Priest e Michael Platini. Formado por Samuel Rosa (guitarra, vocais), Lelo Zanetti (baixo, vocais), Haroldo Ferreti (bateria) e Henrique Portugal (teclados), o Skank se diferenciou de outras bandas brasileiras por fazer um reggae moderno, mais voltado para o dancehall de Shabba Ranks e Shaggy do que para o roots reggae de Peter Tosh.

O grupo já era respeitado no circuito alternativo quando lançou um CD independente. O ano era 1992. O sucesso do álbum – que esgotou sua prensagem inicial – despertou a atenção da Sony Music, que contratou a banda no ano seguinte. Mas o Skank só iria se consagrar definitivamente com Calango (1994), disco de reggae com um pé na modernidade e o outro no Brasil, estouro de mais de um milhão de cópias e marco inicial da associação com o produtor Dudu Marote.

O Samba Poconé veio em seguida, superando expectativas: “Garota Nacional” arrebatou os prêmios de melhor clipe na votação dos espectadores da MTV e foi um dos singles mais tocados na Espanha e no América do Sul. Hoje o Skank é um grupo respeitado não apenas nacionalmente, mas também em diversos países do Primeiro Mundo. Não por acaso, o quarteto foi convidado para fazer o show de abertura da Copa do Mundo de 1998 na França.

SKA
Ritmo surgido na Jamaica, no final dos anos 50, fusão do mento (uma espécie de calipso jamaicano) e canções ancestrais com todos os gêneros que rolavam na ilha naquela época:, R&B americano e jazz. O nome saiu da boca do músico Jah Jerry – um dos muitos pais da criança. Era nada mais que uma onomatopéia para o som de sua guitarra: skat, skat.

SKATALITES
Grupo formado por experientes músicos de jazz jamaicanos que teve sua época áurea no início dos anos 60, era da “febre do ska”. Sob a batuta do trombonista Don Drummond, emplacou hits locais e trabalhou no Studio One como “banda da casa”. Eles ajudaram a construir sucessos de Bob Marley, Bob Andy & Marcia Griffiths e outros. Quando Drummond matou a namorada a facadas em 1964, a credibilidade dos Skatalites foi para o espaço. O grupo se desfez e só voltou nos anos 80, com alguns dos integrantes originais. Está na ativa até hoje mostrando preciosidades.

SLACKNESS
Sacanagem, canções de apelo chulo.

SLY & ROBBIE
Dizem que Sly Dunbar completa Robbie Shakespeare e vice-versa, feito feijão-com-arroz. Pode acreditar: os dois tocam desde os anos 60 e são conhecidos como a maior seção rítmica da história do reggae. Sly (bateria) e Robbie (baixo) tocaram com quase todos os grandes artistas da Jamaica e do mundo: foram da Word, Sound & Power (banda de apoio de Peter Tosh), brilharam na melhor formação do Black Uhuru e incrementaram as carreiras de Dennis Brown, Gregory Isaacs e muitos outros. Sly & Robbie também fizeram sucesso com astros fora do circuito reggae, como Bob Dylan (no álbum Infidels) e Carly Simon. Donos do selo Taxi e do estúdio Mixing Lab, eles estão ainda com força total.

SMALL, Millie
Millie ainda usava vestidinho curto quando, lançada por Chris Blackwell, emplacou “My Boy Lollipop”, um rock steady danadinho, nas paradas da Inglaterra. Foi o primeiro hit da então pequena Island. O ano era 1964 e a música ganhou versão até no Brasil – “Meu Bem Lollipop”, cantada por Wanderléia e pelo Trio Esperança.

SOUL SYNDICATE
Um dos primeiros supergrupos da Jamaica nos anos 70, era formado por George “Fully” Fulwood (baixo), Carl “Santa” Davis (bateria), Earl “Chinna” Smith (guitarra) e Freddie McGregor (vocais). Emplacou hits locais e se esfacelou com a partida de Freddie (carreira solo) e “Chinna” Smith (até hoje no clã Marley).

SMITH, Slim
Nos anos 60, ele era o cantor principal dos Uniques. Muitas vezes comparado a Curtis Mayfield (uma de suas maiores influências), Smith nunca teve o reconhecimento merecido. E morreu de maneira trágica nos anos 70, quando meteu a mão numa janela de vidro e sangrou até morrer.

STEEL PULSE
A cidade inglesa de Birmingham, que deu ao mundo Black Sabbath e UB-40, é também o berço do Steel Pulse. O grupo surgiu em 1975 sob a batuta do cantor e guitarrista David Hinds e se diferencia de outros grupos do gênero por aliar uma performance cênica à força de sua música. Eles costumam “desacelerar” as músicas durante os shows – como se tivessem sido desligados da tomada – e interagem sempre com a platéia. Bob Marley se encantou com o SP e os convidou para os shows de abertura de sua turnê européia em 1978. Depois de entrar em decadência na segunda metade dos anos 80, o grupo retomou as letras com mensagens e a postura rasta do início de carreira.

STEELY & CLEVIE
Alunos da última fase do Studio One, os produtores foram celebrados no início dos anos 90 como “o Sly & Robbie da era digital”. Festejados pelo trabalho com Shabba, Diana King e Patra, continuam lançando novos artistas e trabalhando com veteranos como Leroy Sibbles e John Holt.

SUPERCAT
DJ indiano criado na Jamaica, Supercat tem o apelido de Don Dada. O homem é mesmo mafioso: anda sempre de metranca e se meteu num estranho tiroteio em 1992 – que vitimou o DJ Nitty Gritty. Assinou um contrato com a major Sony Music, mas ainda não alcançou projeção internacional. “My Girl Josephine” entrou na trilha do filme Pret-A-Porter.

SANCHEZ
Cantor identificado com o movimento dancehall. Ente seus estouros estão releituras para Tracy Chapman (“Baby Can I Hold You”) e para o grupo americano Bread (“Baby I´m A Want You”).

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 12


TOSH, Peter
Winston Hubbert McIntosh veio ao mundo para criar confusão. Nasceu em agosto de 1944, não conheceu o pai, sequer a mãe. Foi criado (largado) pela tia, que o deixou perambulando pelas ruas de Trenchtown, a famosa favela de Kington. Num dos poucos mimos ao sobrinho, ela o presenteou com um violão em frangalhos.

Tosh sabia arranhar umas notas quando conheceu Bob Marley e seu meio-irmão Bunny Livingstone. Eles formaram os Wailing Wailers, que mais tarde seriam rebatizados como Wailers e depois Bob Marley & The Wailers. Quando viu seu amigo (Bob havia roubado sua namorada, Rita Anderson, mas continuara amigo) ser alçado à liderança do grupo, Peter Tosh saiu em carreira solo. Que foi tocada aos trancos e barrancos, mas deixou obras marcantes.

Guitarrista e cantor com voz de barítono, Tosh estava gravando seu álbum quando policiais jamaicanos invadiram o estúdio – no exato momento em que Tosh colocava os vocais. O cantor foi espancado e jogado num canto do hospital. O atendimento demorou horas – quem chegasse ao local era “convidado” pela polícia a dar uma olhada no estropiado rastman. Foi uma espécie de aviso aos Wailers, que começavam a incomodar os poderosos da Jamaica.

Legalize It saiu em 1976. A música-tema pedia a liberação da erva e sua mensagem até hoje é contundente (o Planet Hemp que o diga: eles usaram um sample do hino em “Legalize Já”). O disco teve participações das I-Threes e de diversos instrumentistas dos Wailers, como Aston “Family Man” Barret e Seeco Patterson.

A amizade entre Bob e Peter – que sofreu uma ligeira balançada com a saída de Tosh da banda – Winston azedou de vez naquele ano. Um dia, quando saía da Island House (a mansão que Bob ganhou de Chris Blackwell, dono da Island), o carro que levava Tosh e sua mulher, Yvonne, foi atingido por um motorista bêbado. O cantor quebrou várias costelas e Yvonne morreu depois de vários dias em coma. O “Mystic Man” atribuiu o acidente aos espíritos malignos que dominavam a casa dos Marley.

Equal Rights foi lançado em 1977. É um trabalho mais bem-resolvido, com participação de Sly & Robbie e canções que caceteavam o injusto establishment jamaicano. Como “Equal Rights”, em que Tosh brada: “Todo mundo quer ir para o céu/ Mas ninguém quer morrer/ E eu digo: nós nunca teremos paz/ Até o dia em que tivermos direitos iguais e justiça”. O disco também mostrava manifestações de africanismo (“African”), uma regravação dos Wailers (“Get Up, Stand Up”) e uma canção roubada de Joe Higgs (“Stepping Razor”).

A repercussão de Equal Rights chamou a atenção de Mick Jagger e Keith Richards, que estavam formando o cast da Rolling Stone Records. Peter Tosh lançou pelo selo da linguinha seu melhor disco: Bush Doctor (1978), uma paulada certeira com pitadas de soul music americana (“Don’t Look Back”, dos Temptations, um dueto precioso com Mick Jagger), recordações dos tempos de wailer (“Soon Come”, “I’m The Toughest”) e novas exaltações à cannabis (“Bush Doctor”, que tem uma ajudinha da guitarra preguiçosa de Keith Richards).

Tosh buscou sempre o confronto e sua rebeldia às vezes beirava o mau-caratismo. Durante um concerto para o primeiro-ministro da Jamaica, fumou maconha no palco e soltou fumaça para as autoridades – semanas mais tarde, teve a mão esmigalhada por policiais durante uma batida. Keith Richards teve a ousadia de pedir de volta a casa em Ocho Rios que havia emprestado para Tosh. Foi ameaçado de morte. Conclusão: a Rolling Stones Records deu cartão vermelho para o rasta.

Os brasileiros puderam conferir a audácia de Tosh em 1980, quando ele tocou no Festival de Jazz de São Paulo. Foi uma das melhores apresentações na história dos shows no Brasil: acompanhado de uma superbanda (essa escalação tem de ser dada: Sly Dunbar, bateria, Robbie Shakespeare, baixo; Darryl Thompson e Mickey Mao Chung, guitarras, Keith Sterling, teclados; Sky Juice na percussão e os vocais de apoio dos Tamlins), ele entrou no Palácio das Convenções do Anhembi vestido de egípcio e levou o público à loucura. Deu golpes de caratê no ar, soltou “Jah Rastafari” a dar com pau e fumou toda a maconha que havia em São Paulo.

Peter também deu o ar de sua graça em Água Viva, novela de Gilberto Braga. Ele cantou “Legalize It” tendo Fábio Jr. nos vocais de apoio. Três anos depois, o cantor deu um cano federal em empresários brasileiros que o contrataram para apresentações aqui. Pegou o dinheiro, alegou “dores nas costas” e ficou lagarteando sob o sol de Kingston.

Em 1987, Peter Tosh devia para Jah e o mundo e estava sujo e sem crédito na praça. Devia até dinheiro de drogas para uma turma de bandidos de Kingston. No dia 11 de setembro daquele ano, a galera do mal foi cobrar a dívida e não admitia voltar de mãos vazias. Tosh se recusou a atender os caras e morreu com quatro balaços no peito.

THIRD WORLD
Considerada uma das mais consistentes bandas da história do reggae, surgiu depois que Michael “Ibo” Cooper, Stephen “Cat” Coore e Milton “Priliy” Hamilton deixaram o Inner Circle em 1973. A formação se estabilizou quando adicionaram o baixista Richie Daley e o baterista Carl Barovier.

O Third World incorporava quase tudo à sua música: raízes jamaicanas, música africana e o R&B americano. Assinou com a Island e lançou álbuns importantes como 96° In The Shade e Journey To Addis. Depois da entrada do cantor Bunny “Rugs” Clark veio o estouro mundial, com “Now That We’ve Found Love”.

E o Third World continuou entusiasmando o público do mundo com grandes apresentações ao vivo, fazendo jus ao título de embaixadores do reggae. Hoje, após completar 20 anos de carreira, o grupo atualizou seu som com elementos de dancehall e hip hop.

TIGER
É o Tião Macalé do reggae. Só não faz “tchan!”. DJ de voz roufenha, abalou os guetos jamaicanos em 1987 com o sucesso “Wanga Gut”. Suas músicas obedecem ao esquema “sai pra lá, polícia, vem pra cá, garota” que marcou o reggae no início dos anos 90. Tiger não proseia, rosna. E seus ronrons despertaram a atenção do grupo de funk inglês Brand New Heavies, que o convidou para o projeto Heavy & Rhyme Experience (1992).

A Sony Music contratou Tiger no ano seguinte. Ele lançou então Claws Of The Cat, um álbum mediano, que traz participações dos Heavies e do rapper Q-Tip (do A Tribe Called Quest). A velocidade, ao lado das mulheres e do reggae, era uma das grandes paixões do DJ – e que acabou por atrapalhar sua carreira para sempre. No final de 1993, Tiger sofreu um acidente de moto. Depois de vários meses em coma, ele sobreviveu, mas não se recuperou totalmente. Hoje tem dificuldade até para falar.

TOOTS & THE MAYTALS
A voz apaixonada e treinada em igrejas batistas de Toots Hibbert (comparada a de mestres da soul music como Otis Redding) é o grande trunfo deste grupo seminal surgido em Kingston em 1962, como The Vikings. O nome definitivo foi adotado dois anos depois. Logo depois vieram os hits “If You Act This Way” e “John And James”, cruciais no estabelecimento do ska.

Em 1966, Hibbert foi preso – por porte de maconha, ora veja! Quando saiu, gravou pelo Beverley, selo de Lesley Kong, “54-46” (música depois regravada pelo Aswad e tocada no Brasil pelo Skank), sobre a vida de penitenciário, e “Do The Reggay” (sic), primeira canção a usar o termo reggae. No começo dos anos 70, Toots & The Maytals tornaram-se conhecidos mundialmente pela participação no fume The Harder They Come. Nos anos 80, Hibbert gravou nos EUA o belo disco Tools In Memphis, no qual interpreta clássicos da soul music.

TOSH, Andrew
Filho mais velho de Peter Tosh, Andrew fez sua estréia nos funerais do próprio pai, ao embalar uma platéia jamaicana com os sucessos de Peter. Lançou um belo disco de estréia em 1990 (Original Man, que tinha o hit “Poverty Is A Crime”) e se apresenta com músicos da antiga banda de Peter Tosh – a Word, Sound & Power –, como George “Fully” Fulwood (baixo) e Carl “Santa” Davis (bateria).

TRIBO DE JAH
A Tribo de Jah é a banda mais conhecida do Maranhão e tem um trabalho apreciado no país inteiro. A grande curiosidade é que quatro integrantes do sexteto são cegos e um é caolho. Apenas o líder Fauzy Beydoun, um paulista radicado em São Luís, enxerga direito. A banda animava bailes junto com um sistema de som: quando Fauzy comprou o equipamento, acabou herdando a Tribo de Jah. O som é calcado no reggae roots e a militância no gênero, acima de modismos, verões e gravadoras, inspira “respect” no Brasil inteiro.

TECHNIQUES, The
Uma das várias seleções vocais da Jamaica. A banda teve em sua formação Slim Smith e Pat Kelly, além de Winston Riley e Frankie White. Os Techniques foram descobertos por Duke Reid em 1964 e entre os seus maiores hits estão “I Wish It Would Rain” (dos Temptations) e “Queen Majesty”.

A enciclopédia que você pediu a Jah – Parte 13


UB-40
Tendo à frente os irmãos canhotos Ali e Robin Campbell, o grupo provoca grande celeuma entre os fãs de reggae. Os mais ortodoxos preferem classificá-lo como banda pop que vive de regravar pérolas da canção jamaicana (como fizeram nos álbuns Labour Of Love, de 1984, e Labour Of Love 2, de 1989). Mas há quem defenda os ingleses dizendo que eles são muito importantes para a popularização mundial do reggae. Se hoje ouve-se falar fora da Jamaica em John Holt, U-Roy e outros astros, isso se deve ao UB-40.

A banda teve mesmo grandes momentos, principalmente entre o final dos anos 70 e o início dos 80. O iúbi – como é popularmente conhecido, a partir do som de UB em inglês (o nome vem do código do seguro-desemprego britânico) – temperou o reggae com boas doses de música pop e lançou discos emblemáticos como Baggariddim (1985) e Present Arms (1980). O vocalista Ali Campbell é um dos grandes incentivadores do reggae moderno: financiou as primeiras raves de jungle em Birmingham, quando o ritmo ainda não causava frisson entre os modernos.

U-ROY
Shabba Ranks tem de ajoelhar para esse vovô (mais de 70 anos); Ninja Man reza todo dia por seu bem-estar. Sem U-Roy, não haveria o blablablá esperto que marca o atual reinado dos DJs na música jamaicana. Não foi U-Roy quem inventou, mas vêm dele as principais influências no desenvolvimento do estilo talk over: no alto do sound system, o DJ usava a base instrumental do disco para dar o seu recado e divertir a massa.

U-Roy é anterior ao próprio reggae: começou a tagarelar improvisando nas pequenas partes sem vocal dos sucessos do rock steady. Em 1970, já era tão popular que chegava a ter o primeiro, o segundo e o terceiro lugares da parada jamaicana. Bob Marley o citou numa entrevista no começo da carreira dos Wailers, ao falar sobre influências: “Me like U-Roy.”

A voz empapuçada de eco e reverb do DJ seguiu com muito sucesso fazendo versões dos hits de seu fã Bob Marley (uma clássica performance é “Soul Rebel”) e de outros cantores dos anos 70. Ao longo da década seguinte, U-Roy, rasta convicto, perdeu a coroa para sujeitos mais rápidos e safardanas, mas sempre será respeitado como the king of DJs.

WAILER, Bunny
Desde que abandonou os Wailers, Bunny tem mantido uma carreira irregular. Lança álbuns divinos (Blackheart Man, de 1976), mas se recusa a divulgá-los no exterior porque tem medo de avião. Cai de cabeça nos sons mais modernos do reggae, mas critica os DJs – o que lhe custou uma chuva de garrafas num festival na Jamaica. Bunny não tira seu sustento de música – é fazendeiro – e vive numa eterna nuvem de fumaça e devoção a Jah.

WAILERS, The
Com a morte de Bob Marley em 1981, os Wailers juntaram os cacos e seguiram em frente. Seis anos depois, eles perderam o baterista Carlton Barret, assassinado por um Ricardão jamaicano – o bandido traçava a mulher do pobre rasta. Com Junior Marvin (guitarrista americano, que entrou na banda em 1977 – nenhuma relação com Junior Murvin) à frente, o grupo excursiona pelo mundo e mostra que um dia foi a maior banda de reggae do planeta.

WAILING SOULS
Este grupo vocal jamaicano teve diversas formações, sempre capitaneadas pelos chapas Winston “Pipe” Matthews e Lloyd “Bread” McDonald. Ao lado do cantor Buddy Hayes, a dupla iniciou a carreira em 1965 no Studio One. Na época eles se chamavam Renegades. Sua primeira composição foi “Lost Love”. Garth Dennis (ex-Black Uhuru) se agregou à banda e eles mudaram o nome para Wailing Souls. Essa formação gravou álbuns com produção de Sly & Robbie, estourou clássicos como “Bradda Gravalicious” e “Babylon Back Against The Wall”... Durou até 1984, quando Dennis e Hayes seguiram em carreira solo. Pipe e Bread voltaram à Jamaica e contrataram o novato Ziggy Thomas. Vieram os discos Lay It On The Line, Kingston 14 e Reggae Inna Firehouse. Em 1992, já sem Ziggy Thomas, eles lançaram o disco All Over The World, com participação especial de U-Roy.

WANGA-GUT
Faminto, na linguagem patois.

WILSON, Delroy
Ex-parceiro de Joe Higgs na dupla Higgs & Wilson, ele foi muito popular no início dos anos 70. Emplacou o hino da campanha socialista jamaicana em 1972 (“Better Must Come”), mas perdeu espaço para os ideais rastafari de Bob Marley, Peter Tosh e outros. No ostracismo, tornou-se alcoólatra e morreu de cirrose em 1994.

YAGA YAGA
Uma expressão do dancehall, que serve para agitar a platéia.

YELLOWMAN
Ele é albino, desbocado e mais feio do que cão chupando manga. Mas as mulheres não ligam para esses pequenos detalhe se elegeram Winston Foster símbolo sexual do Jamaica.

Essa relação amorosa se iniciou em 1979, quando ele subiu ao palco de um show de calouros em Kingston trajando um berrante terno amarelo. Na ponta da língua, canções com termos chulos, em que contava vantagens sobres suas proezas sexuais. Este esquisito DJ reinou absoluto na Jamaica entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80. Sempre se gabando (“Yellow Like Cheese”, “Be My Guest”), descendo a lenha na polícia (“Nobody Move, Nobody Get Hurt” – refrão que Sérgio Britto emenda em algumas versões de “Polícia”) e comemorando a liberdade de Gregory Isaacs (“Gregory Free”).

O melhor disco dessa fase é King Yellowman (1982), gravado em Nova York, com produção de Bill Laswell e participação de Afrika Bambataa. Até hoje o repertório desse trabalho consiste no filé das apresentações de Yellowman no mundo todo – inclusive no Brasil, país que ele visitou pelo menos quatro vezes. Tem “Strong Me Strong”, a versão sacaneada de “Country Roads” (de John Denver, morto recentemente) e muita prosa sacana (“Mi Belief”, “Girls Don’t Do It”).

A partir da segunda metade da década de 80, Yellowman entrou em decadência. Teve de arrancar o maxilar por causa de um tumor (o que lhe deu uma aparência mais estranha) e foi trocado por rappers mais jovens e rapidinhos (Shabba Ranks, Buju Banton etc) na preferência do público. Mesmo assim, continua na ativa até hoje. E com a vantagem de compor rápido e sobre qualquer tema. Bi Ribeiro que o diga. Ao pedir um autógrafo para Yellowman depois de uma apresentação do jamaicano em Londres, ele pediu uma caneta para Herbert Vianna. O amarelo gostou da sonoridade da palavra e criou um rap que tinha caneta como tema. Se ficou bom, só Bi (e os outros dois paralamas) sabem.

ZION TRAIN
O futuro do reggae provavelmente está nos vagões deste sound system inglês que produz uma mistura alucinada de reggae, dub e dance music, trocando o surrado discurso rastafari por mensagens pró-ecologia e antifascismo. Seu álbum Homegrown Fantasy (1995) é obra básica para se entender a cultura reggae desse novo milênio.

quarta-feira, março 04, 2009

Literatura na cadência do samba




O economista, geógrafo, compositor e pesquisador Daniel Sales


A diagramação amadora prejudica a leitura de alguns textos

No início de fevereiro, rolou o lançamento do livro “É Tempo de Sambar – História do Carnaval de Manaus”, de Daniel Sales, no Espaço Cultural da Livraria Valer – Rua Ramos Ferreira, 1195 – Centro. A obra, pioneira no assunto, foi construída a partir de décadas de pesquisa e com auxílio de vários sambistas, relatando desde os primórdios do carnaval de Manaus até as manifestações no ano de 2008.

A história da Kamélia, um dos maiores símbolos do carnaval da cidade, as folias na Avenida Eduardo Ribeiro, o Carnaval de Rua, o surgimentos das Escolas de Samba e do Sambódromo, são alguns pontos apresentados no livro, que traz ainda a relação dos discos de vinil e CDs de carnaval de Manaus, as Rainhas e Reis Momos de 1980 a 2008, os Clubes de bailes de carnavais e Bandas de Manaus mais famosas, além de uma seleção de fotos, algumas curiosidades e causos.

Natural de Manaus, Daniel Sales, desde muito jovem desenvolveu o gosto pelos folguedos populares, como Cirandas, Bumba-meu-boi. Aos sete anos de idade anotava diversas observações em suas cadernetas sobre futebol, carnaval e curiosidades em geral. Em 1978 passou a frequentar a quadra da Escola de Samba Vitória Régia, onde em 1981 auxiliou no acabamento de um carro alegórico da Escola e ainda o conduziu no desfile.

Depois desfilou em outras Escolas e Blocos (Sem Compromisso, Mocidade de Ipixuna, Presidente Vargas, Andanças de Ciganos), sempre anotando o que achava interessante dentro dos desfiles de blocos, das batucadas e das Escolas de Samba. Com o tempo passou a compor sambas de enredo e hinos de clubes. Conseguiu emplacar 13 sambas de enredo, dos 38 que compôs.

Em 1996 Daniel Sales se prontificou a informar ao mundo sobre o futebol e o Carnaval de Manaus. Antes que qualquer meio de comunicação do Amazonas inaugurasse os seus sites na internet, ele criou um site específico sobre o carnaval de Manaus atualizado permanentemente (http://geocities.com/carnavaldemanaus/). “No tempo em que a internet ainda não era muito falada, montei um site simples, mas que os sambistas pudessem se informar sobre as notícias do carnaval”, relembra. O site está no ar até hoje.

A partir daí, os jornalistas free-lancers, as redações de jornais, alguns pesquisadores e as agências de comunicação do Brasil requeriam informações de Daniel sobre o Carnaval do Amazonas, pois sabiam que suas informações eram seguras.

Daniel passou seis anos de pesquisa para reunir todas as anotações em seu primeiro livro e ainda conversar com os sambistas sobre detalhes do carnaval. “A obra era para se concluída em 2003, mas como faltavam pessoas que não podia deixar de homenagear, resolvi esperar”, explica. Ele diz que escreveu o livro para imortalizar o samba e para divulgar a história das agremiações de Manaus. “O que se tinha eram fragmentos do carnaval nas revistas como a Manaus, Samba e Turismo de que participei”, lembra Sales.

Infelizmente, o belíssimo trabalho de pesquisa de Daniel ficou comprometido pelo amadorismo envolvido na diagramação do livro. Sem perceberem que o livro seria do tipo “lombada”, Elvécio Junior e Kleyton Falcão diagramaram a obra no formato “canoa” (utilizado em revistas). Resultado: a “lombada” engoliu as margens da “mancha” (onde fica situado o texto) e, pra ler algumas páginas, é necessário praticamente abrir a lombada no muque, deixando o livro todo arrebentado.

Além disso, o livro tem toda pinta de que foi diagramado no famigerado Corel Draw (que não permite hifienização!), em vez de nos tradicionais QuarkXpress, PageMaker ou Scribus. Aí, quando o texto é justificado, aparecem aqueles hediondos “brancos” entre as palavras para caber na linha. Sem contar que usar letras em corpo 10 no formato itálico é pra deixar cegueta qualquer ser humano.

De qualquer forma, como já disse antes, o conteúdo é primoroso. Só fiquei puto com o raquitismo do texto a meu respeito, conforme está publicado no verbete que transcrevo abaixo:

SIMÃO PESSOA – Jornalista. Poeta. Roqueiro. Torcedor da Escola de Samba Andanças de Ciganos. Em 2004, fez o enredo da escola tricolor. Simão destaca-se mais pelo seu texto crítico, insinuante e marcante, nos jornais em que trabalha. É um bom “vivant”.

Carálio, Daniel Sales, mas você podia pelo menos escolher uma dessas “atividades” abaixo, frutos de minha modesta contribuição ao carnaval amazonense:

Fundado do Bloco do Macacão (campeão do carnaval de 1974)
Fundador e diretor do bloco Andanças de Ciganos (pentacampeão do carnaval, de 1976 a 1980)
Primeiro namorado da rainha do carnaval de 1982 Jeane Guimarães (em 1975, quando ela tinha apenas 14 anos...)
Fundador e diretor do GRES Andanças de Ciganos
Fundador e diretor do bloco Aluga-se Moças (que agitou a Cachoeirinha de 1980 a 1995)
Fundador e diretor da Banda Independente Confraria do Armando (BICA)
Fundador e diretor da Banda do Cinco Estrelas
Autor do livro-revista Causos de Bamba, com histórias de sambistas daqui e do Rio de Janeiro.
Um dos autores do livro Amor de BICA, contando a história da banda mais escrachada de Manaus.
Compositor de inúmeras marchinhas da BICA e da Banda Cinco Estrelas, em parcerias com Afonso Toscano, Mário Adolfo, Edu do Banjo, José Roberto Pinheiro, Davi Almeida e Orlando Farias.

Ok, você acertou em me rotular de bom “vivant”. Viver é bom!

Ah, propósito: em setembro, se não chover, estarei lançando um novo livro contando a história do GRES Reino Unido da Liberdade.

Para você entender o metal melódico


Como assim melódico? Heavy metal não é aquele gênero em que só se grita e se faz barulho nos instrumentos? Quem tem um mínimo de conhecimento musical sabe que não, que entre aqueles cabeludos com cara de malvado e suas guitarras distorcidas há bandas que primam por melodias fortes em suas canções, não importa o quão pesado seja o som.

O heavy metal (a expressão, inventada pelo escritor americano William Burroughs, foi associada ao rock depois de incluída na letra de "Born To Be Wild", que fala de um "trovão do metal pesado", o som de motocicletas) surgiu das escalas pentatônicas típicas do blues, tocadas por guitarristas como Jimmy Page, do Led Zeppelin, e Jimi Hendrix. Depois, outros nomes incorporaram ao estilo outros tipos de formação musical.

"Meu artista favorito é Johann Sebastian Bach", não se cansa de dizer o guitarrista Ritchie Blackmore, do ex-Deep Purple. Principalmente no Rainbow, banda que formou após sair do Purple pela primeira vez, Blackmore foi um dos pioneiros da influência da música erudita no rock pesado. O Queen, com os vocais e o piano de Freddie Mercury e o toque erudito de canções como "Bohemian Rapsody", também ajudou a pavimentar o caminho. Logo surgiu uma corrente - que hoje vive mais uma grande onda de popularidade, principalmente na Europa, no Japão e no Brasil - de guitarristas fãs dos compositores barrocos Vivaldi e Haendel e cantores com voz operística que enchem de matizes melódicos um gênero musical visualmente marcado pelo negro das roupas.

IRON MAIDEN

Piece Of Mind (1983) EMI

Depois de um começo repleto de metal mais puro, no quinto disco - o segundo com o cantor Bruce Dickinson, que substituiu o ex-skinhead Paul Di´Anno e ajudou o quinteto a atingir o mega-estrelato -, os mestres do heavy inglês encontraram a perfeita liga de melodia e peso. Canções como "Flight Of Icarus", "Where Eagles Dare" e "Revelations" começavam a ensinar ao mundo que metal também se cantava, e que havia vida inteligente após The Number Of The Beast. Ao lado deste e do álbum seguinte, Powerslave, Piece Of Mind é a estrela da trilogia em que o baixista Steve Harris detona suas melhores composições.


HELLOWEEN

Keeper Of The Seven Keys, Part 1 (1985) RCA

A banda que melhor reflete o metal melódico atingia o auge de sua melhor formação com este clássico. O guitarrista Kai Hansen (que mais tarde deixaria a banda para formar o ótimo Gamma Ray), que no início também cantava, forma um duo infernal com Michael Weikath, enquanto Markus Grosskopf (baixo) e Ingo Schwichenburg (bateria, depois falecido) seguram a onda para os vocais inspirados de Michael Kiske, estreando no Hello-ween. Pelo menos duas músicas, "Twilight Of The Gods" e "Halloween", são clássicos do heavy metal.


YNGWIE MALMSTEEN

Yngwie Malmsteen´s Rising Force (1984) PolyGram

Aos 19 anos, o astro sueco - após passar pelo Alcatrazz - abria a palhetadas seu lugar no panteão dos grandes guitarristas. O disco é quase todo instrumental, e é nas seis cordas que residem irresistíveis melodias, insistentemente comparadas com o trabalho de compositores como Paganini e Bach. Quando são necessários vocais, Jeff Scott Soto - o primeiro de uma longa série - dá conta do recado, com louvor. O disco seguinte, Marching Out, também é clássico, mas o virtuosismo jamais deixou Yngwie repetir a performance de sua estréia como artista solo.


RAINBOW

Rainbow Rising (1976) Polydor

Após uma bela estréia com Ritchie Blackmore's Rainbow, mais direcionado ao hard rock, o ex-guitarrista do Deep Purple solta todo o Johann Sebastian Bach que tem dentro de si em encontro ao vozeirão de Ronnie James Dio, à época já experiente com os anos no grupo Elf, de rock com inspiração blueseira. Apenas seis faixas - um alívio em comparação com CDs de hoje em dia, que se sentem obrigados a ocupar oitenta minutos sem ter muito o que dizer -, todas clássicas, pavimentam o caminho para o metal melódico que surgiria.


KING DIAMOND

Them (1988) Roadrunner

O homem das mil vozes, um ex-jogador de futebol que até hoje se divide entre o quinteto dinamarquês Mercyful Fate e a carreira solo - já veio ao Brasil para shows seguidos com as duas bandas, no festival Monsters Of Rock -, não poderia ficar de fora de uma antologia de metal melódico. Em mais um disco conceitual, a respeito de uma casa mal-assombrada e uma família de defuntos que tomam chá, King mostra tudo o que sabe com o auxílio de uma banda em que brilham o guitarrista Andy La Rocque e o baterista Mikkey Dee, que pouco tempo depois passaria a integrar o Motörhead.


MANOWAR

Into Glory Ride (1983) Geffen

Tudo bem, os caras se fantasiam de guerreiros vikings - como se um visual ridículo não fosse absolutamente corriqueiro no mundo do show-business -, mas é difícil achar, no mundo do metal, um cantor com a competência de Eric Adams e composições fortes como as do baixista Joey DeMayo, com a eventual parceria do guitarrista Ross The Boss, ex-Dictators. As melodias de canções com temas medievais ou mitológicos, como "Secret Of Steel", "March For Revenge" e "Gates Of Valhala", são de chorar, de tão belas.


DIO

Holy Diver (1983) WEA

Após brilhar no Rainbow e no Black Sabbath, o cantor baixote Ronnie James Dio saiu para formar sua própria banda e descobriu o ótimo guitarrista irlandês Vivian Campbell, que depois passou pelo Whitesnake e acabou no Def Leppard. Na época um moleque de 20 anos, Vivian ajudou a transformar o disco em um clássico, com canções como "Rainbow In The Dark" e a faixa-título. Após militar no blues rock, no hard rock e no metal tradicional, Ronnie descobria sua verdadeira cara. O Dio foi uma das primeiras bandas de metal a colocar bons teclados, puxados para o clássico, em muitas de suas canções.


FATES WARNING

Awaken The Guardian (1987) Metal Blade

O terceiro disco da banda americana que começou como pastiche do Iron Maiden - e último registro com o cantor John Arch, cuja lembrança até hoje provoca lágrimas de sudades nos dedicados fãs da banda - é exatamente aquele em que o quarteto encontra seu ápice. Nunca mais o grupo viajaria tão bem em temas ficcionais (de canções como "Fata Morgana" e "Valley Of The Dolls") e no talento de seus músicos. Com a saída de Arch e a entrada de Ray Alder - causada por um mal-entendido entre cantor e banda -, o Fates Warning passou a ser apenas mais um bom grupo de rock pesado.


VIPER

Theatre Of Fate (1989) Rock Brigade

Cheio de influências clássicas, o último disco do cantor André Matos (que depois sairia com a desculpa de estudar para se tornar maestro e fundaria o Angra) em sua banda original mostra como o Brasil estava antenado com o estilo, ainda de fraldas na década de 80. As guitarras de Yves Passarel e Felipe Machado são afiadas como sempre e as melodias emocionam, em canções como "A Cry From The Edge", "To Live Again" e "Living For The Night". A qualidade precária da gravação só dá mais charme ao disco.


SAVATAGE

Hall Of The Mountain King (1987) WEA

Antes que o metal tradicional dos primeiros discos entrasse em uma crise criativa, o quarteto americano enveredou pelo mundo das historinhas medievais. Os irmão Criss (guitarrista, que depois morreu em um acidente de carro) e Jon Oliva (teclados e voz) destilam grandes canções, no melhor momento da banda que apenas recentemente - como um sexteto e com poucos músicos em comum com os daquela época - voltou a lançar bons discos. O clipe da faixa-título, uma his-torinha medieval povoada por anões e figuras esquisitas, é uma obra-prima de fidelidade ao metal.

Se ficou interessado em baixar essas preciosidades, corra para o Pirate Bay que - se depender da indústria fonográfica - está com seus dias contados. Mas enquanto as autoridades suecas não se manifestarem em definitivo, o negócio é ir pirateando e enchendo o butim com as pepitas da velha era. É isso aí!

terça-feira, março 03, 2009

Rescaldo da carnavália ximango - Parte 1


Nato Neto e Rossini Lima em divagações existencialistas, Sergio Pereira mandando bala e eu me encharcando de Red


Se essa tartaruga não tiver três palmos, eu corto meus três ovos...


Rossini Lima, Sergio Pereira, eu, Luiz Bacellar, Almir Diniz, Mello Jr., Benayas e a careca do Zemaria Pinto


Almir Diniz, Anisio Mello, Armando de Menezes, Mello Jr., Benayas e Zemaria Pinto


Almir Diniz, Mello Jr., Anisio Mello e Armando de Menezes


Nato Neto (que não comeu tartaruga porque estava sem joelheiras) e Mello Jr. se preparando para apresentar o melhor do brega adulto contemporâneo

Um dos mais antigos imortais da Academia Amazonense de Letras (AAL), o escritor Armando de Menezes criou o “chazinho do Armando” (uísque a dar no meio da canela, cerveja estupidamente gelada e o mais inusitados “tira-gosto” da paróquia) há seis anos, para fugir da chatice tradicional da AAL, que insistia em encerrar suas sessões deliberativas com chá de camomila e biscoitos de aveia integral, coisa que qualquer escritor – imortal ou não – deve abominar. Sempre.

No princípio, o chazinho do Armando rolava no porão da AAL, onde fica localizada a biblioteca da entidade, sempre a partir das 16h. Depois de alguns anos, o então recém-eleito presidente da AAL, poeta Élson Farias, durante um surto de abstinência aguda e moralismo idem, proibiu a presepada no local. Incontinenti, Armando e os demais escritores se mudaram para o Ideal Clube.

Há alguns anos, eles resolveram arribar de novo, dessa vez para a Escola de Artes Esther Mello, residência do poeta e imortal Anísio Mello, localizada ali em frente da Beneficente Portuguesa, na Joaquim Nabuco. É lá que toda sexta-feira, chova ou faça sol, a partir das 16h, eles se reúnem para colocar as maledicências em dia e contar histórias do arco da velha sobre a intelectualidade baré. Uma farra!

Comecei a freqüentar o chazinho no final de 2007, por iniciativa de meu cunhado, o livreiro Antonio Diniz, sobrinho do também imortal Almir Diniz, considerado um dos freqüentadores mais assíduos da reunião. Como diz meu brother Chico da Silva, “boca livre e pênalti só perde quem é otário”. Confesso que nunca fui uma presença constante no balacobaco, mas sempre que apareço, sou bem-vindo. Cortesia da turma.

Num desses porres iniciais, degustando avidamente um queijo francês da melhor qualidade, prometi a eles que forneceria um tira-gosto diferente: uma tartarugada. Ninguém levou a sério, claro. Nem eu. Um dos primeiros mandamentos da boemia é jamais – jamais! – comentar o porre no dia seguinte! Daí que essa minha “boutade” ficou por conta das lambanças que o excesso de álcool provoca nas pessoas.

Na verdade, o suposto “ato falho” tinha sido uma forma de eu contribuir para o fuzuê, já que sempre tive o péssimo hábito de chegar ao recinto de mãos vazias. E aquela doce e inebriante cachaçada, afinal de contas, tem um custo financeiro razoável, rateado entre os frequentadores.

De qualquer forma, por uma dessas coincidências que Jung colocaria no saco sem fundo da chamada “teoria da sincronicidade” (aquela história de que o acaso não existe e que se uma borboleta levantar vôo na Austrália ela é capaz de provocar um terremoto em São Francisco), há três semanas, véspera do desfile da BICA, resolvi aparecer no chazinho. Ia apenas fazer hora, para depois descer até o bar do Charles Stones, ali ao lado do Cheik Clube, na Getúlio Vargas, para acertar os detalhes da Banda do Cinco Estrelas. Como sempre, cheguei ao covil apenas com a cara e a coragem.

Lá pelas tantas, depois de duas garrafas de Johnnie Walker Red, Armando de Menezes me cobrou a “tartarugada”. Como, coincidentemente, eu tinha em casa uma tartaruga de três palmos de peito, propus entregar a eles o robusto quelônio e eles que encontrassem alguém para preparar. Os cachorros me pegaram pela palavra. Eu havia prometido uma “tartarugada”, não uma tartaruga. Aceitei o fato, com o estoicismo e a resignação de um autêntico Dom Quixote, e convoquei minha cozinheira favorita, Dona Sônia, para executar a nobre tarefa.

Na sexta-feira seguinte, eu e o jornalista Mário Dantas adentramos no gramado com os acepipes básicos: sarapatel, picadinho, guisado, farofa e risoto de tartaruga. De quebra, levei uma dúzia de ovos da falecida tortuga para o Armando fazer um portentoso arabu – ou comê-los cozidos, com farinha uairini e pimenta malagueta. Foi uma festa. O Mário Dantas e o coronel Roberto Mendonça registraram o fuzuê.

Depois que os cacarecos foram limpos – quem não quis comer, levou um pouco pra comer em casa –, Mário Dantas me deixou no bar do Charles. Eu já estava meio biritado e o Charles, só pra me sacanear, colocou uma garrafa de Red, zero bala, na minha frente.

Porra, no dia seguinte (sábado gordo) eu ia viajar de barco pra Parintins com o Gil da Liberdade, mas uma garrafa de Red é uma garrafa de Red. Resultado: detonei a primeira garrafa e, por volta das 2 da manhã, o Charles me deu uma segunda garrafa – também zero bala. Caindo pelas tabelas, fui pra casa e fiquei bebendo até o dia amanhecer, enchendo o saco dos vizinhos com minha trilha de gangsta rap no máximo volume.

Acho que falei com o Gil, via celular, por volta de meio-dia, agradecendo – e dispensando – o camarote reservado no barco, mas informando que viajaria no dia seguinte. E simplesmente apaguei.

No domingo, ainda meio grogue, comprei a primeira passagem de barco na direção de Parintins, me enfurnei no camarote, liguei o ar-condicionado no máximo e voltei a dormir. Morri em R$ 500 para viajar sozinho, mas valeu a pena. Só sai de lá por volta das oito da noite, porque estava com uma fome da moléstia. O resto... Sinceramente, vou te contar!

Rescaldo da carnavália ximango - Parte 2


A galera do Luizinho durante um apronto em Petropólis (RJ) em 2005. Não faço idéia de quantos quilos de ganja eles detonaram em duas semanas...


Gustave Dirram na festa de carnaval (?!) em New Orleans, em 2003. Chamar aquela merda ("mardi gras") de carnaval, só o cara sendo francês, anão e viado...

Eu havia combinado com o Gil da Liberdade fazer o lançamento do meu livro “Alô, Doçura”, no Kais Bar, em Parintins, durante o “happy hour” da segunda-feira gorda. Calculei que, saindo de Manaus ao meio-dia de domingo, o barco chegaria à cidade, no máximo, por volta das 9 da manhã da segunda-feira gorda. Daria tempo de sobra para arregimentar os cachorros (Carlos Paulain, João Pedro Baranda, Careca, Bi Garcia, Vicente Matos, Gato, Henrique Medeiros, Raí Cabeça, Toni Albuquerque, Inaldo Medeiros, Tadeu Garcia, Fred Góes, Emerson Maia, etc) e transformar o convescote em um porre federal.

Na noite de domingo, no momento em que saio do camarote do barco para ir em busca de algum rango no bar – eu estava sem comer há mais de 24 horas, o que, para um cara obeso como eu (118 kg, bem pesados), é quase um crime hediondo! –, me deparo com o poeta Luizinho Marques, que eu não via há uns trezentos anos. Sabia apenas que ele continuava morando no Rio de Janeiro.

Foi uma festa! O sacana estava comandando uma verdadeira delegação de neo-hippies em direção ao “carnaval místico de Alenquer” (conforme ele me explicou). Passamos o resto da noite conversando sobre futilidades e enchendo a cara de cerveja Kaiser quase morna. Poeta ligado ao movimento práxis, Luizinho chegou a participar de um concurso de poesia falada que promovi no Barraka’s Drinks, na Cachoeirinha, no começo dos anos 80 (salvo engano, vencido pelo poeta Almir Graça).

Pra quem não sabe que merda é essa, a poesia práxis se classifica como um processo literário marcado por considerar as palavras que integram um vocabulário não como um mero objeto inerte de composição, mas, sim, como energia, matéria-prima em permanente transformação – repudiando a palavra-objeto dos concretistas –, onde a forma-conteúdo do texto se transforma em uma estrutura genérica e aberta, de tal modo que o leitor possa intervir crítica e criativamente no texto, exercendo uma função de co-autoria. Parece complicado? Nas não é.

O movimento teve como principal teórico o paulista Mário Chamie e como avatares o mineiro Afonso Ávila e o carioca Armando Freitas Filho, todos poetas de real grandeza. Exemplo de poema:

PLANTIO (Mário Chamie)

Cava,
então descansa.
Enxada; fio de corte corre o braço
de cima
e marca: mês, mês de sonda.
Cova.

Joga,
então não pensa.
Semente; grão de poda larga a palma
de lado
e seca; rês, rês de malha.
Cava.

Calca
e não relembra.
Demência; mão de louco planta o vau
de perto
e talha: três, três de paus.
Cova.

Molha
e não dispensa.
Adubo; pó de esterco mancha o rego
de longo
e forma: nó, nó de resmo.
Joga.

Troca,
então condena.
Contrato; quê de paga perde o ganho
de hora
e troça: mais, mais de ano.
Calca.

Cova:
e não se espanta.
Plantio; fé e safra sofre o homem
de morte
e morre: rês, rés de fome
cava.


Luizinho ficou meio puto quando perguntou pelas minhas poesias (eu também fui ligado ao movimento práxis) e, com o distanciamento brechtiano que se exige nessas ocasiões, expliquei que, agora, francamente, eu achava que poesia era “coisa de viado”. Claro que isso foi apenas o pretexto para fazer o motor do carro pegar. Falei sobre o que estava fazendo ultimamente (livros sobre música, causos, machismo, folclore político, essas coisas). Rimos muito ao nos lembrarmos das presepadas da “poesia marginal” (éramos todos jovens, pois não?), quando invadíamos botecos para “passar” (esse era o termo) nossas mensagens poéticas. Valeu a pena? A gente acha que sim.

Quando soube que eu estava indo pra Parintins, para lançar um novo livro, ele quase surtou. Tentou, a todo custo, me convencer a não ir dar força praquela “baboseira bovina” (Luizinho não sabe que a baboseira bovina chamada “carnaboi” acontece exclusivamente em Manaus. Em Parintins, o carnaval é como sempre foi e deveria ser: blocos na rua, com gente animada curtindo marchinhas e sambas de enredo. Simples assim.) Permaneci irredutível. Ele apelou.

Depois de me apresentar como “um dos melhores caras que ele já havia conhecido em sua vida”, mandou se sentar ao meu lado uma das fadas de seu séqüito fenomenal e abriu as comportas do inferno. Pois foi essa neo-hippie (Beth Luz do Sol, Beth Arco-íris, Beth Gota Serena ou algo do gênero – ela mudava de “sobrenome” de acordo com a posição do sol ou das estrelas), que se encarregou – por meio de massagens tipo do-in, dengos, afagos, cochichos, risinhos safados e otras cositas más – a me convencer de ir com eles a Alenquer. Eu não já conhecia Parintins? Então, por que não sair da mesmice e curtir uma coisa diferente?... Sinuca de bico. Bingo!

Depois de uma demorada negociação com o comandante do barco, Luizinho “esticou” minha passagem até a “morada dos Ximangos” e, prestativo como sempre, ainda se encarregou de vender entre os passageiros os 40 exemplares do “Alô, Doçura!”, que eu planejara lançar em Parintins e Santarém. Não sei se o pessoal comprou porque se interessava pela chamada literatura erótica de cunho pornográfico ou (o mais provável) porque poderia chegar em casa exibindo um livro autografado pelo próprio autor. Seja lá qual tenha sido a motivação dos compradores, não deu pra quem quis.

O certo é que a Beth Sunshine, Beth Rainbow, Beth Raindrops, Elisabeth Bishop, sei lá, foi responsável por me convencer a encarar a nova parada – sim, as cervejas Kaiser quase mornas também tiveram sua pequena contribuição. Mas a Beth... Pense na mulher melancia com a cara da Cléo Pires... Era por aí... Você resistiria? Nem eu.

Apesar do jeitão meio hippie (saia indiana, bustiê multicolorido, tatuagens tribais, adornos plumários na cabeça, uma incontinência verbal em pontuar suas frases sempre com um chatíssimo “entende?”), era cabeça feita: professora de Antropologia na UFRJ. Idade? Calculei – êh, cerveja morna da muléstia! – entre 25 e 30 anos. Podia ser um pouquinho mais. Podia ser um pouquinho menos. Dessas coisas de estrias e celulite eu nunca entendi bem...

Em menos de duas horas de conversa, me transformei em amigo de infância dos quase 20 acompanhantes do Luizinho. Era uma trupe miscigenada: havia cariocas (Mary, Estelinha, Rubão, Dandara), catarinenses (Beth, Jaiminho, Dolores), paraenses (Luizinho, Darley, Mônica), capixabas (Aninha, Fabrício), mineiros (Gustavo, Francine), gaúchos (Pereba e seu inseparável chimarrão, Lucinha, Margô) e o resto – eu e o francês Gustave, que eles chamavam “Dirram”, porque ele era baixinho e parecia ter “o cu de rã”. Gustave morria de rir.

Que porra era aquela?, questionei o Luizinho. Ele me explicou que há 20 anos vinha catequizando aquela turma para conhecerem o carnaval da Amazônia. Mas nada de encarar escola de samba em Belém, carnaboi em Manaus ou forrobodó em Boa Vista. A parada era ver a essência do carnaval em Alenquer, onde seus pais haviam nascido (ele é carioca). Falar que eu nunca havia ouvido falar no carnaval de Alenquer, quase iniciou uma pancadaria.

– Você está por fora, cara! Você está por fora! O carnaval de Manaus é uma merda! O carnaval de Belém é uma merda! O carnaval de Santarém, Parintins, Óbidos, é tudo uma merda! Tá tudo vendido, tá tudo dominado! Axé-music? Uma merda! Toada de boi? Uma merda! Forró-brega? Uma merda! Carnaval mesmo, de raiz, é em Alenquer! Lá só toca marchinhas das antigas! Lá ainda rola bisnagas de cheiro, confetes e lança-perfume! Você vai ver, cara! Você vai ver! – e ele vociferava isso como se a gente estivesse jogando pôquer em um saloon do Velho Oeste e o nojento tivesse percebido eu tirar um suspeitíssimo ás da manga. Pra começar a detonar seu Colt 45 de cano longo era um passo...

A interrupção providencial da antropóloga Beth Suzie Q (sim, de vez em quando ela virava roqueira) ajudou a serenar os ânimos:

– Porra, Luizinho, o carinha aqui não tem nenhuma obrigação de conhecer todas as manifestações populares da Amazônia. Dá um tempo! Ele deixou de ir fazer as coisas deles em Parintins pra ir com a gente pra Alenquer e agora você entra nessa? Ah, porra, vai tomar no cu! – e ela disse isso escandindo bem as sílabas. O cu do Luizinho acusou o golpe.

Ele pediu desculpas, me deu um abraço emocionado, falou que estava muito louco e resolveu ir dormir. Já devia ser mais de meia-noite, o bar estava ameaçando fechar e eu ainda não havia comido porra nenhuma. Falei isso pra Beth Balanço. Ela foi lá no bar, esculachou o moleque, depois desceu pro segundo piso do barco (onde fica a turma que viaja em redes) e retornou com um X-tudo, que detonei sem nenhuma cerimônia. Agradecido, a convidei pra passar a noite no meu camarote. Ela topou. O resto é história.

Rescaldo da carnavália ximango - Final


Igreja de Santo Antônio, em Alenquer. A de Borba, pelo menos, tem uma magnífica escultura do santo (by Marius Bell) vigiando o rio Amazonas em vez desse cruzeiro sem-vergonha...


Pelo jeitão, a Cidade dos Deuses era morada permanente do deus Khepra (escaravelho, em egípcio)...


A badalada Cachoeira Paraíso. Iguais a essa, existem mais de 30 só no primeiro ramal do Rio Preto da Eva...

Como professora de Antropologia, a Beth Boop mostrou-se uma senhora mucama. Eu praticamente não saía mais do camarote. Era massagem pra cá, incenso pra lá, comidinha pra cá, trepadinha pra lá, e o barco viajando. Eu sequer almoçava ou jantava junto com a galera – ela se encarregou de arregimentar uma senhora para nos servir a comida no próprio camarote. Se não tivesse levado minha ração diária de guaraná com mirantã (e viagra de 50mg, of course!), teria voado baixo.

A exemplo da maioria das cidades amazônicas – e independente do que o Luizinho vai achar depois de ler minhas impressões abalizadas, se é que vai ler... – Alenquer é só mais uma cidadezinha amazônica, com seus problemas estruturais do tempo do Onça e com sua gente hospitaleira 24 horas por dia. Exatamente igual a Borba, Coari, Tefé, Benjamin Constant, Boca do Acre, Novo Airão, Barcelos e tantas outras cidadezinhas perdidas nesse mundo de meu deus, aonde o progresso ainda não chegou e nem tem intenção de chegar.

Ficamos hospedados na casa de uns parentes do Luizinho (que, sabiamente, haviam se mandado para curtir o carnaval de Fortaleza). Era um casarão do tempo da borracha, com quase dez quartos, pé direito gigantesco, varandão a perder de vista, área de lazer decente – churrasqueira, piscina, essas coisas –, cozinha bem equipada, sala de vídeo com os melhores DVDs da revista Caras, enfim, uma verdadeira mordomia senatorial para os padrões de miserabilidade do lugar. Eu, por mim, só sairia dali sendo rebocado por corrente no pescoço. Não era o que pensava o anfitrião.

A primeira discussão foi para saber em qual dos três blocos a gente ia sair. Havia o Bloco dos Piçudos (que é o nome que eles dão ao tracajá macho, o nosso popular capitari), o Bloco Cu de Cana (da galera que vive 24 horas por dia movida a álcool – o meu favorito, mas fui voto vencido) e o Bloco dos Alhos (meio classe média, formado por abstêmios, por evangélicos, por beatas, enfim, por pessoas que odeiam ver alguém embriagado ou se portando inconvenientemente).

A sugestão do Dirram: era melhor a gente ir pra praça João Tito Alves, na frente da cidade, e lá escolhia em que fuzarca ia se meter. Com aquele visual hippie, a gente sozinho já era um bloco – o resto era lucro. Durante quase três horas, Luizinho argumentou que a gente precisava se “integrar aos ximangos”, mas não colou. O bloco “Janis Joplin não morreu” foi pra praça na moral. Eu – de camiseta, bermuda e tênis – parecia um peixe fora d’água.

Porra, aí surgiu outra conversa meia boca entre eu e o Luizinho que quase sobra para a galera de nativos. Achei legal aquele monte de gente se divertindo na praça, a maioria fantasiada de piratas, arlequins, colombinas, pierrôs, mascarados, tirolês, espanholas, índios apaches, marinheiros, homens vestido de mulheres, mulheres vestidas de homens, toureiros, etc, mas... catzo, a trilha sonora era o mais genuíno tecno brega paraense e a ubíqua axé-music baiana. Marchinhas, que é bom, nem pra remédio...

Luizinho ficou transtornado. Foi um custo segurá-lo para não ir até o palco, distribuir porradas pra todo lado (ele é professor de jiu-jitsu e karatê na Baixada Fluminense, soube depois) e fazer a bandinha tocar “apenasmente” as músicas que ele curtia há 40 anos. Explicar pro cara que a vida (e o carnaval) é uma permanente evolução poderia soar como blasfêmia.

Preferi segurar a Beth Juanita Bacana pela cintura e me meter no meio dos foliões, como se estivéssemos em uma praia deserta, lá na Martinica. Felizmente, fui seguido pelo resto da turma – inclusive pelo Luizinho e sua namorada Margô. Foi um dos melhores carnavais que já curti (apesar de odiar tecno-brega e axé music!). É, vagabundos, eu estava com uma Cléo Pires com o corpo da mulher melancia – sim, claro, assim não vale, essas coisas. Fazer o que?

Na quarta-feira de cinzas, fretamos um barco e fomos ver de perto as “belezas místicas” de Alenquer, ou seja, as cachoeiras do rio Curuá (Paraíso, Cachoeirinha, Cajuti, Benfica, Japi, Brigadeiro, Cumaru, Tracajá) e os lagos Curumu, Uruxi, Capintuba, Botos e Lago Grande de Juaru. Quando falei que só em Presidente Figueiredo existem mais de 100 cachoeiras mais bonitas do que aquelas, o Luizinho quase me expulsou do barco. Preferi não comentar porra nenhuma sobre as cachoeiras de Rio Preto da Eva ou sobre os lagos de Manacapuru, Tefé, Coari, São Gabriel da Cachoeira e Codajás. Nem sobre os arquipélagos de Anavilhanas e Mariuá. Esses paraenses, além de bairristas, só querem ser as pregas da odete...

Na quinta-feira, fomos visitar a Cidade dos Deuses, distante uns 30 km da cidade. Dessa vez, alugamos duas vans caindo aos pedaços (“cafuringas”, lá no dialeto deles). Sei lá, mas não notei nada de muito excepcional, a não ser o fato de que a pintura rupestre em formações geológicas serem mais impressionantes do que as da Vila Velha (PR), segundo a antropóloga Beth Bagaço (sim, ela tentou estoicamente acompanhar meu ritmo). Na Cidade dos Deuses, a natureza foi pródiga em imitar a arquitetura modernosa de Le Corbusier, dando às rochas uma conformação interessante de casas de cupins high-tech. De qualquer forma, a gruta do Maroaga em Presidente Figueiredo ou as pinturas rupestres de Itacoatiara causam muito mais frisson.

Claro que apenas falei isso, em off, para a minha inseparável Beth Sunflower (por conta do sol infernal, ela ficou vermelha como um camarão na brasa). Se Luizinho me pegasse com mais essa infâmia, era bem possível que eu ainda estivesse exilado na Cidade dos Deuses. De volta pra cidade, fomos curtir a “culinária mística de Alenquer”. Os mesmos peixes fritos, as mesmas caldeiradas de bodó, os mesmos “galetos esturricados”, os mesmos “churrasquinhos de gato”, enfim, os mesmos “pratos típicos” de qualquer cidadezinha amazônica. Uma tristeza!

Quando falei pra Beth Sunrise que em Manacapuru, a qualquer hora do dia ou da noite, eu poderia comer guisado de cotia, paca no leite da castanha, tracajá, tartaruga, mixirra de peixe-boi, mutum, queixada, tatu ou viado, ela teve um tal acesso de riso que quase se engasgou com o churrasquinho de gato. Luizinho nos olhou desconfiado, mas não quis questionar a presepada.

Na sexta-feira, fizemos uma bonita festa para os primos e primas do Luizinho (umas 40 pessoas, sem contar os “penetras”). Fiquei com pena do Pereba, que se transformou em churrasqueiro, por aclamação, e teve que assar uns dois bois à moda gaúcha. Discotequei uma meia-hora – e só músicas da Motown, que eu havia levado em um CD de áudio.

Pela reação da platéia, eles nunca haviam escutado Stevie Wonder, Marvin Gaye, Jackson Five, Temptations, essas coisas. Ficavam olhando pra mim como se estivessem diante de um alienígena tocando tambor. A nossa galera, pelo contrário, caiu matando e, pelos próximos anos, serão esses passos que os “ximangos” vão exibir – se tiverem decorado – no União Clube e no Ilha Verde, os dois únicos clubes da cidade.

Na verdade, a festa só começou a pegar fogo quando começou a rolar músicas do Pinduca, Verequete, Papudinho, Anormal do Brega, Reginaldo Rossi, Calypso, Beto Barbosa, Warilou, Edílson Moreno, Wanderley Andrade e por aí afora. Eu e a Beth preferimos nos recolher e aproveitar melhor a nossa última noite juntos. A trilha sonora foi o disco “Vô imbolá”, do Zeca Baleiro, que ficou tocando repetitivamente até o dia amanhecer. Que nem nós.

No começo da tarde de sábado, eles pegaram o barco de linha em direção a Belém. Eu peguei uma voadeira em direção a Santarém (menos de duas horas). Não procurei nenhum parente na cidade (e, se um dia lerem isso, eles vão me odiar pelo resto da vida, já que há 30 anos prometo visitá-los...). Fui direto pro aeroporto. Em menos de duas horas estava em casa. Viver é bom!

segunda-feira, março 02, 2009

Atendendo a solicitação pungente de uma menina de fino trato


Alô, Chris Braga? Há quanto tempo, gata! O que você manda dessa vez? O que? O signo da mulherada? Jura que isso não vai dar encrenca? Pois bem, então aí vai a versão soft (página 191 do livro Alô, Doçura!). A versão hard (pág. 251) fica para uma outra oportunidade. Você pode encontrar esse e outros livros de minha autoria no Sebão de Manaus, ali na Joaquim Sarmento canto com a Saldanha Marinho. Beijão!

Condenados pela Igreja Católica e perseguidos pela Inquisição durante toda a Idade Média, hoje em dia ninguém duvida mais da influência dos astros em nossa vida. Quem foi que um dia não deixou os cabelos crescerem por causa dos Beatles, não tentou imitar o rebolado sexy do James Brown, não quis ter a pinta de drogado do Keith Richards e não quis comer a mulher do George Harrison como o Eric Clapton?

Ao que parece, somente astrônomos famosos com cara de nerd, como Carl Sagan e Rogério Mourão, não se deixam influenciar por outros astros mais famosos ainda, como Michael Jordan, o rei da enterrada, Pelé, que sempre colocava o bicho na mão da patroa, Mike Tyson, que batia antes de entrar e Tiger Woods, que até hoje não pode ver um buraco dando sopa.

Para esses astrônomos com cara de nerd, a influência da lua em oposição a Vênus, com Saturno fazendo conjunção com Marte na quarta casa de Mercúrio sob a regência de Plutão, não passa de fantasia de escola de samba do segundo grupo.

Por uma questão de bom senso (27% menos nicotina e alcatrão), indisciplina e preguiça, e também porque todo mundo já está careca de saber o seu signo ascendente e descendente (e se não souber, bem-feito!), deixamos de escrever as datas e os períodos lunares a que eles se referem. Vamos explicar apenas a personalidade de cada uma das mulheres dentro do vasto inferno zodiacal bolado pelos gregos.

Áries – São mulheres ativas, ardentes, espontâneas e impulsivas. Também costumam ser sensuais e realistas. Começam entusiasmadas com um novo relacionamento, mas se aborrecem naturalmente. Gostam de tomar a iniciativa, são caprichosas e não é recomendável dar uma de boa praça pra cima delas. Fria, determinada e calculista, a ariana é bastante ambiciosa e seu projeto de vida se resume a fazer bons negócios, se realizar profissionalmente e ganhar muito dinheiro. Entre outras virtudes, são muito perspicazes e capazes de penetrar no lado oculto das coisas. Dica: mulher ariana não tem desejo, tem tara, passa o dia na siririca e de noite levando vara.

Touro – São teimosas, mas pacientes, possessivas e fiéis. Sossegadas, embora possam aborrecer-se terrivelmente. São ciumentas, mas não gostam de ser vigiadas. Gostam de comodidade e conforto, de elegância e luxo. Têm sentido prático e são gulosas, sendo esta a maior de suas fraquezas. As taurinas normalmente têm uma saúde de ferro, ou melhor, de vaca holandesa premiada em exposição, mas seu destino é dividir seu parceiro com alguém, talvez para justificar os chifres. Apesar de esforçadas, ainda vão ter de comer muita grama para subir na vida. Dica: toda mulher taurina é doida por pau rombudo, mas só chupa pica no claro e só goza no escuro.

Gêmeos – Para conquistar as mulheres deste signo tem-se de levar em conta que elas gostam de mudanças, que lhes atrai conhecer coisas novas e que são aficionadas de tarefas intelectuais, embora de forma superficial. Apesar de terem instinto caseiro, não gostam de pagar boquete, porque às geminianas falta o sentido maternal. Sua necessidade de aconchego e intimidade faz com que os momentos passados calmamente em casa sejam ainda mais gratificantes. São tolerantes com todos, não exigem muito dos outros nem valorizam a imperfeição alheia. Dica: a mulher geminiana chupa pica e não enjoa, só tira a pica da boca quando engole a gala toda.

Câncer – Com mulheres desse signo é recomendável discrição, uma vez que são susceptíveis e bastante sensíveis, ofendendo-se com tudo, principalmente com as suspeita de estarem sendo traídas. São muito sentimentais e têm a intuição e a imaginação muito desenvolvidas. São bem-intencionadas, mas caprichosas e o mesmo que a agrada agora, pode enfurecê-la mais tarde. Não tente mudanças com elas, pois são tradicionais e conservadoras. Os cuidados com a imagem são favorecidos pelo seu forte magnetismo pessoal, que está sempre em alta. Dica: a mulher canceriana não pode ver homem nu que pega o caralho dele e atocha logo no cu.

Leão – Com as mulheres de leão deve ser explorado o seu orgulho, o seu gosto pelo inusitado e a sua vontade de correr perigo. Gostam de fazer amor nos lugares mais incríveis, como guichês de banco 24 horas e estacionamento de estádios de futebol em dia de jogo. São egocêntricas, orgulhosas, amam o luxo e detestam as falsificações. Apesar de tudo, são tradicionalistas e têm bem desenvolvido o instinto maternal, razão pela qual gostam de uma mamadeira. Quando estão na cama, são uma fera: mordem a fronha, riscam a parede e roem o colchão, principalmente quando estão dando a bunda. Dica: a mulher leonina gosta muito de trepar, mas prefere casar com fresco que ver seu macho brochar.

Virgem – Com estas é aconselhável ser precavido, dar-lhes proteção, estabilidade, mas com cuidado, pois são minuciosas, analistas e maliciosas. São fiéis e devotadas, e não suportam uma infidelidade, mesmo que, para isso, lhes apresentem boas razões. Têm medo de quase tudo, principalmente de ratos, baratas e de trocar fusível. Apesar de parecerem maternais e carentes, também sabem ser terrivelmente cruéis e aproveitadoras. Em geral, precisam apenas praticar mais esportes, tais como jogar tênis, andar de bicicleta, praticar natação e sobretudo correr atrás de um homem, para perder o cabaço. Dica: toda mulher virginiana tem tendência pra piranha, quando põe pica na boca chupa quase uma semana.

Libra – Com estas não há necessidade de ser tão escrupuloso, porque amam a paz, e não aprovam a violência. Amam a serenidade, a beleza e o luxo sem ostentação, gostam de cooperar em quase tudo, são egoístas, mas não procuram complicações. É obrigatório, forçoso, explorar seu instinto maternal. Fazer-se passar por um ser desprotegido e temeroso. Agindo assim, a mulher de libra o tomará nos braços, para protegê-lo e atendê-lo. Sua capacidade de cooperação facilita as parceiras e associações amorosas, e faz com que ela se alie aos outros em torno de interesses comuns. Dica: toda mulher de libra possui a xana apertada, mas quando fode a noite inteira de manhã acorda assada.

Escorpião – São mulheres perigosas em muitos aspectos. São agressivas, ciumentas, possessivas, pouco fiéis, solitárias e não se importam com as demais pessoas. São mais emotivas e passionais no amor que as mulheres de qualquer outro signo. Conhecem a angústia e desfrutam dela como ninguém. Têm bem desenvolvido o instinto maternal, mas pode tornar-se perigoso provocá-las nesse sentido, pois são dominadoras em extremo. Se bobear, a mulher de escorpião o subjugará totalmente, sem apelação. Amar alguém assim pode ser o fim da picada. Dica: mulher de escorpião é peituda e boazuda, mas só goza de verdade quando a pica é cabeçuda.

Sagitário – Com estas é necessário ser audaz, pois elas são tímidas, joviais, calorosas, francas e honestas. São muito crédulas, conservadoras e burguesas, e é preciso usar o luxo para impressioná-las. São mulheres muito receptivas e fazem o que lhes pedem, mas também são independentes. Por isso é necessário saber como pedir. Não dê uma de bom-moço pra cima delas, pois odeiam os débeis mentais. Elas preferem os cafajestes. Cuidado com as que se aproximam de você com um imenso sorriso nos lábios: elas podem estar apenas querendo vender um carnê do Baú. Dica: mulher sagitariana é fingida e mentirosa, se queixa que ainda é virgem mas se amarra em dar o toba.

Capricórnio – São mulheres frias, graves, sérias e lógicas. Detestam o superficial e gostam de sofrer de vez em quando. São ambiciosas e se deslumbram se são cortejadas por um homem perverso, sem finura, mas como elas ambicioso. Contentam-se com o pouco que lhes dêem, porque são avaras e gostam de economizar. São duras e pouco carinhosas, mas ao mesmo tempo responsáveis. Não dizem ou fazem nada impulsivamente e estão sempre alertas para não provocar situações indesejáveis. São insuportavelmente secas. Dica: mulher de Capricórnio tem um amante felizardo, todo dia, toda hora, agüenta vara no rabo.

Aquário – São anticonformistas, revolucionárias, aprovam todas as mudanças. Se você é um artista ou um guerreiro, dela obterá tudo. São fiéis e vivem para um só homem. Detestam as aventuras fugazes, mas proponha-lhes todas as mudanças que desejar, que elas concordarão. Costumam ter grandes habilidades nas relações afetivas, evitando sempre situações confusas. Medem as palavras e valorizam o silêncio, para refletir. Provocadas, esquecem a diplomacia e compram qualquer briga. Às vezes se deixam levar pela franqueza excessiva, provocando ressentimentos à sua volta. Dica: a mulher aquariana tem uma xana profunda, agüenta dois palmos de pica e mais três dedos na bunda.

Peixes – São as mulheres mais difíceis, não tanto para conquistar, mas compreender. Têm conflitos internos graves, e como nunca abrem o jogo, não sabe como enfrentá-los. São muito emotivas, sonhadoras, passivas e preguiçosas, embora muito boas e criativas. Procuram, pelos menos, compreender as pessoas, mas são muito orgulhosas. Nada que faça as impressionará. Nada que diga as ajudará. São elas que escolhem o homem que desejam. Odeiam o auto-suficiente e protegem o débil e desamparado, mas o principal problema delas é que têm o rabo cheio de espinhas. Dica: a mulher nascida em Peixes quando cresce vai pra zona, pois além de fingir que goza se torna grande chupona.

Manaus – A Pasárgada Brasileira


Tagore, Mário Adolfo, Romero, eu e Ari de Castro Filho durante um fuzuê no Galvez Botequim


Tagore e Romero celebrando o desfile da BICA

Por Tágore Aryce da Costa

“O Amazonas é um país.” Por diversas vezes ouvi essa expressão e, apesar de já ter visitado o estado do índio Ajuricaba em muitas ocasiões, só fui entender o verdadeiro significado da já conhecida frase numa semana em que fui a trabalho, que era exatamente a semana que antecedia o carnaval de 2009.

Senti-me um gringo ao ver de perto a alegria do povo amazonense. Lembrei-me das viagens que faço ao Rio de Janeiro, quando zombo dos estrangeiros que, embasbacados, veem o febril requebrado das mulatas cariocas e a alegria do povo da Cidade Maravilhosa.

Procurei explicações e, em meio a um gole e outro, tentava criar teorias “científicas” com os companheiros de copo: “dizem que o sol ajuda na produção da melanina e esta deixa a pessoa mais animada.” E a linha do Equador? Chico Buarque já dizia – “Não existe pecado do lado de baixo do Equador...” Enfim, evidentemente, não conclui minhas teses, mas que a alegria reina naquela terra, isso é fato!

Após alguns dias de trabalho em Manaus, eu e meu sócio, Romero Arruda, que estava visitando a cidade pela terceira vez, resolvemos na quinta-feira, participar do Ensaio da Bica (Banda Independente da Confraria do Armando), bloco tradicional da cidade que sempre tem enredos hilários, dizendo aos políticos do estado o que a população pensa em dizer e não tem oportunidade (ou coragem). A banda faz alusão ao Bar do Armando, um Português, proprietário do estabelecimento desde a década de 70.

Naquela noite, eu e Romero já estávamos bem à vontade, entramos no clima (que deve atingir 40 graus no interior do bar) e aproveitamos muito as marchinhas amazonenses que se alternavam com as marchas tradicionais. Pois bem, passamos a observar os “personagens” daquela noite que eram muitos e serviram de inspiração pra este texto.

Personagem número um: Montanha. Que figura caricata. Um baixinho que, além do apelido citado, possui ainda o pseudônimo de Mentira. Não pense você que é pelo fato de ele ser mentiroso (também o é), mas sim, por ter as pernas curtas. Certo, mentira tem perna curta. Ex-garçom do nostálgico Bar do Armando, Montanha foi demitido há dois anos, no entanto, não para de freqüentar o bar, recebendo ainda hoje 10% do consumo dos clientes (agora pagos em cerveja e sem contraprestação de serviços). Montanha ficou ainda mais conhecido com o enredo da BICA do ano de 2007 que dizia: “Armando deu a idéia e Dona Lourdes achou legal: Montanha, meu garoto, meu tesouro, Deputado Federal...” uma alusão aos “filhinhos de papai” que se elegem às custas da história política de seus queridos pais.

Personagem número dois: Cauby Peixoto. Como quem inspirou o nome, ainda não sei se era alguém do sexo masculino ou feminino. Sei que era uma figura de marca maior e chegou junto no meu sócio, querendo por tudo ser a Conceição dele que, educadamente, se esquivou e saiu cantando a música tema do ano: “então preste atenção onde mete a Bica...”.

Personagem número três: Delegado. Semelhança física incontestável com o “Seu Delegado”, o dançarino que faz coisas que aprendeu com Marcelino. É o Delegado da Mangueira que, no entanto, parecia mesmo um bacharel, protegendo meu companheiro de viagem das “más companhias” que surgiam para lhe bolinar.

Personagem número quatro: Quem? Maravilhoso. Chico Buarque de Holanda que, no caso em questão, era uma mulher de cabelos curtos, olhos claros, pele avermelhada. Não conversamos com “ele”, só que a semelhança era tamanha, que não tinha como escapar e sua presença aqui está garantida.

Personagem número cinco: Outro ícone. Raul Seixas. Tão porra louca quanto o vampiro doidão. Andava bem embriagada, mas sempre bem humorada. De vez em quando cantava um samba antigo. Em um episódio, confusão geral, uma mocinha bem magrinha, talvez um affair da “raulzita” ameaçou dar porrada nela e em quem se atrevesse a separar a briga. Admirável a coragem da moça, que devia pesar pouco mais de 40 kg. No fim das contas, não houve briga e saíram abraçadas, cantando: “O ciúme é só vaidade. Sofro, mas eu vou te libertar...”

Personagem número seis: Petronila. Não conversamos com ela, a incluo nesse texto por merecimento. Trata-se de uma senhora de uns 80 anos que é porta estandarte da BICA desde a criação da banda, há 23 anos atrás. Uma mulher muito longe dos padrões de beleza carrega o estandarte do Bloco que, segundo algumas pessoas (maldosas) é a maior concentração de pessoas feias de Manaus. A senhora Petronila vai todos os dias à missa na Igreja de São Sebastião, que fica ao lado do Bar do Armando e, ao sair da igreja, religiosamente, toma duas cervejas no bar do Português. Sai sempre sem pagar a conta e jamais foi cobrada por isso. Justo!

Personagem número sete: Charles Stones (nome verdadeiro), de apelido Charles 5 Estrelas, ex–garçom do Bar do Armando. Dizem as más línguas que o velho Armando viajou pra sua terra natal, deixando o Cinco Estrelas como preposto, gerenciando os negócios do português. Ao voltar da Europa, quando abriu o bar, o portuga soltou um sonoro “curalho”, afinal, não havia mais cascos e engradados de cerveja no bar. O Charles vendeu tudo e montou um bar. Pouco distante dali, o Bar Cinco Estrelas, na Av. Getúlio Vargas, é hoje conhecido como filial do Armando. Tem banda de carnaval e abriga os bebuns, órfãos de bar, quando o Armando baixa as portas e coloca os boêmios pra correr.

Conseguimos, em uma só noite, ser expulsos do Bar do Armando e da filial que nos acolheu tão somente até as três da manhã. Bota fora clássico, com direito a música do Jota Quest tocada no violão pelo próprio Charles (que recusou os insistentes pedidos do jornalista Mário Adolfo para que a noite se finalizasse com Chico Buarque – o original) e luzes apagadas. Alguma revolta, de alguns bebuns, demonstradas especialmente na atitude do Montanha que, ao receber a conta, a rasgou, sem titubear. Sem maiores motins os boêmios se recolheram. Fim de noite!