87. Fevereiro de 1973. O comerciário Assis
Bulcão resolveu promover uma “brincadeira” em sua casa, na Cohab-AM da Raiz, em
pleno sábado gordo de carnaval.
Para quem não
sabe, “brincadeira” era o nome das festinhas “mela-cueca” que rolavam nas
residências à base de luz negra e música ambiente romântica. Até aí, tudo
normal.
O problema foi
a estratégia de recrutamento. Em vez de convidar a vizinhança inteira, Assis
decidiu chamar um esquadrão de aproximadamente quinze comerciárias que,
reunidas no mesmo ambiente, faziam qualquer concurso de Miss parecer reunião de
condomínio.
O resultado foi
imediato. Os marmanjos do bairro esqueceram completamente que existiam outras
mulheres na face da Terra. As comerciárias não paravam sentadas um minuto.
Dançavam uma música, emendavam outra e, quando voltavam à cadeira, já aparecia
um novo candidato segurando a mão e perguntando: “Podemos dançar só mais essa?”
As moças da
vizinhança assistiram ao espetáculo durante algum tempo. Depois concluíram que
estavam participando de um baile na condição de figurantes. Uma saiu fazendo
charme. Outra saiu fazendo cara feia. A terceira saiu prometendo nunca mais
voltar.
Antes das dez
da noite, a debandada feminina era tão grande que só restavam as quinze
comerciárias e cerca de cinquenta sujeitos disputando cada uma delas como se
fossem terrenos na Ponta Negra.
Foi quando
surgiu Antídio Weil. Ou melhor: surgiu o Opala. O carro era zero-quilômetro e
brilhava mais do que fantasia de destaque. Pneus tala larga, rodas de magnésio,
bancos de couro de antílope, descarga Kadron e um toca-fitas Roadstar que fazia
qualquer um acreditar que estava dirigindo um carro da Fórmula 1, embora o
trânsito de Manaus insistisse em lembrar que não.
Na prática,
Antídio deixou de ser um cidadão comum para virar acessório do automóvel. As
meninas cercaram o Opala como arqueólogos diante da descoberta de Tutancâmon.
Percebendo que São Longuinho finalmente resolvera trabalhar a seu favor,
Antídio lançou a proposta:
– E se a gente
fosse todo mundo pro Baile do Havaí, no Rio Negro?
Foi a pergunta
mais desnecessária da história do carnaval. Em menos tempo do que leva um
fiscal para pedir ingresso, as quinze comerciárias já estavam acomodadas no
carro. “Acomodadas” talvez seja exagero. Algumas estavam sentadas. Outras,
empilhadas. Havia moça no banco, no colo, no ombro e provavelmente uma ocupando
espaço em outra dimensão.
Assis Bulcão
viu sua monumental brincadeira terminar antes das onze da noite, vítima do
maior êxodo feminino já registrado na Cohab-AM da Raiz. Dizem que até hoje ele
desconfia de veículos de quatro portas.
No Atlético Rio
Negro Clube, Antídio estacionou numa viela ao lado do clube, comprou mesas,
ingressos, colares havaianos, bandanas coloridas, confete, escondeu o
lança-perfume onde a fiscalização jamais imaginaria procurar e entrou aos
gritos de:
– Aloha! Aloha!
Foi recebido
como se tivesse desembarcado de um cruzeiro vindo do Taiti. Durante algumas
horas, tornou-se o homem mais invejado de Manaus. Não apenas pela quantidade de
belas companhias, mas pela impressionante capacidade logística de administrar
um harém carnavalesco sem perder nenhuma integrante pelo caminho.
Quando o baile
terminou e o sol já começava a cozinhar os foliões, Antídio saiu do clube mais
feliz do que pinto na merda, abraçado com duas garotas, puxando em coro:
“Bandeira branca, amor...”
Era um homem
que acreditava sinceramente que Deus existia e gostava dele. Até virar a
esquina. O lugar onde o Opala havia sido estacionado estava vazio. Tão vazio
que parecia nunca ter existido um automóvel ali. Antídio olhou para um lado.
Depois para o outro. Depois olhou para cima, talvez imaginando que o enredo do
Baile do Havaí tivesse sido substituído por “A Ascensão do Opala ao Reino do
Céu”. Nada. O carro tinha evaporado. Ele entrou em desespero.
– Puta que
pariu! Cadê meu carro? Roubaram meu carro! Estou lascado!
Como todo
brasileiro em estado de calamidade emocional, procurou imediatamente um culpado
que não fosse o verdadeiro. Encontrou quinze.
Virou-se para
as comerciárias e distribuiu impropérios numa velocidade que faria qualquer
locutor de corrida de cavalos pedir arrego. Disse que a culpa era delas,
chamou-as de tudo o que o Código Penal não proíbe e expulsou o próprio harém
como quem dissolve um ministério.
As pobres
fugiram em direção ao Terminal da Matriz sem entender como tinham passado da
condição de musas havaianas para responsáveis pelo furto de um automóvel.
Antídio pegou
um táxi e saiu convocando amigos para uma caçada ao Opala desaparecido. O carro
foi encontrado apenas às cinco da tarde do domingo, abandonado perto do Igarapé
do Japonês, na Colônia Japonesa.
Só que, nesse
momento, o Opala já era praticamente um conceito filosófico. Tinham levado os
quatro pneus com rodas de magnésio, os bancos de couro de antílope, a descarga
Kadron, o toca-fitas Roadstar e tudo o que pudesse ser desaparafusado sem
derrubar o volante. Restou apenas a lataria e a lição.
Até hoje não
existe prova alguma sobre quem arquitetou tamanha desgraça. Mas confesso que
sempre achei muito curiosa a coincidência. A “brincadeira” do Assis acabou por
falta de mulher. O Opala do Antídio acabou por excesso de inveja.
E, conhecendo a
capacidade de um anfitrião humilhado de planejar vinganças criativas, nunca
consegui absolver completamente o Assis Bulcão dessa presepada.








