A carnavalização antropofágica ocorrida nos bumbás de
Parintins tem uma data precisa e um gênio que não saiu da lâmpada de Aladdin,
mas da Baixa de São José, como primeiro e único responsável por esta guinada
radical: o artista plástico Jair Belém Mendes. Ele nasceu em Parintins, em 12
de junho de 1942, e desde criança já integrava o grupo de brincantes do boi
Garantido no papel de índio das tribos do bumbá.
– Sempre fui fanático pelo touro branco. Aqui cada pessoa
torce por um boi desde menino e como eu morava na parte de cima da cidade
torcia pelo Garantido – diz ele. – Quando eu tinha uns 15 anos, seu Lindolfo
Monteverde, que era muito amigo do meu pai, sabendo que eu gostava muito de
desenhar e de pintar, me convidou para que eu fosse ajudar a pintar as
alegorias do boi Garantido. Naquele tempo, o boi era feito de pau e de cipó,
sendo que a cabeça era uma caveira de boi de verdade. A armação era forrada de capim,
com um pano por cima imitando o couro. Pesava uma tonelada. Para ser tripa do
boi a pessoa precisava ter muita força, tinha que ser um verdadeiro Sansão,
Maciste ou Hércules.
No início de 1978, Jair Mendes, que desde o ano anterior era
responsável pelas alegorias do bumbá exibidas na arena, falou para Lindolfo
Monteverde que seria capaz de criar um boi mais leve, com armação em espuma, o
que facilitaria o bailado do “tripa” durante a brincadeira, além de dotar a
armação de movimentos semelhantes aos de um boi de verdade. Apesar de meio
cismado com a conversa, Lindolfo deu sinal verde para Jair Mendes colocar em
prática aquela sua ideia mirabolante.
A tarefa foi executada em absoluto sigilo. Além de Jair e
Lindolfo, somente o apresentador do Garantido, Paulinho Faria, sabia o que
estava acontecendo. De madrugada, Paulinho Faria colocava Jair Mendes em uma
picape e os dois iam visitar os pastos de gado na zona rural do município.
Paulinho iluminava a boiada com os faróis do carro e Jair Mendes começava a
desenhar, buscando encontrar o maior realismo possível entre aqueles bois de
carne e osso e o bumbá de pano que surgira na sua imaginação, se esmerando em
reproduzir com precisão as proporções anatômicas dos animais.
Em uma dessas incursões – sempre feitas de madrugada, para
ninguém ficar sabendo! –, Jair Mendes se deparou com um boi nelore, de pelagem
cinza-clara e vassoura da cauda preta, que tinha na testa uma marca de nascença
parecendo um coração, exatamente igual à marca tradicional do bumbá Garantido.
O boi ficou olhando fixamente para o artista plástico por alguns minutos, aí
mexeu a cabeça para um lado, depois para o outro e, na sequência, baixou a
cabeça e disparou para o meio da boiada, até se perder de vista. Jair Mendes
conta que os movimentos de cabeça daquele nelore foram como uma epifania.
Do ponto de vista filosófico, a epifania significa uma
sensação profunda de realização, no sentido de compreender a essência das
coisas. Ou seja, a sensação de considerar algo como solucionado, esclarecido ou
completo. Jair Mendes agora já sabia como o seu boi de pano iria movimentar a
cabeça. O resto era o de menos.
Ele e Paulinho Faria, com um gravadorzinho na mão, ainda
passaram mais dois dias de campana nos pastos da zona rural, esperando que um
boi urrasse, até que conseguiram gravar o urro de um zebu. Nem mesmo Paulinho
Faria sabia o que Jair Mendes estava tramando. Só sabia que para evitar
qualquer imprevisto, o próprio Jair Mendes já havia combinado com Lindolfo
Monteverde que ele, Jair, seria o “tripa” do novo boi.
Até hoje, o ex-apresentador Paulinho Faria se lembra daquela
noite mágica do dia 28 de junho de 1978, quando o boi Garantido surpreendeu o
festival de Parintins e fez a brincadeira tradicional atingir um novo patamar
de qualidade, dando início a uma evolução permanente que dura até os dias de
hoje:
– Eu chamei a atenção da galera e dos jurados para a entrada
do boi, que entrou bonito como nunca. Aí eu dizia: Atenção, galera, para esse
momento… Olhe para o olho do Garantido. Aí o olho piscava. Agora, galera, olhe
para rabo… Aí o rabo balançava, como se estivesse espantando as moscas… Depois
ele começou a mexer a boca, a orelha… Parecia mesmo um boi de verdade… A partir
daí, meu amigo, a galera foi ao delírio… Era menino, mulher, velho, todo mundo
emocionado, a gente chorava e ria ao mesmo tempo. Era muita emoção. Neste ano,
o Caprichoso não voltou mais na segunda noite. Nós disputamos o resto do
festival com o bumbá Campineiro. De repente, quando o Garantido encerrou sua
apresentação e já ia saindo, eu disse: Acho que está faltando alguma coisa,
galera! Atenção, galera vermelha e branca! Aí o boi urrou, que foi aquela nossa
gravação, e começou a mexer a cabeça, a dançar com a Sinhazinha da Fazenda e se
movimentar todo, de um jeito que ninguém nunca tinha visto antes… A galera foi
à loucura! Não tinha mais jeito, ninguém ia superar aquele nosso bumbá…. Foi
por isso que o contrário não voltou mais na noite seguinte. Aquilo tinha sido
uma idéia fantástica desenvolvida pelo Jair, porque o Garantido fez de tudo
nessa noite, só faltou voar. O Jair Mendes saiu consagrado do tablado!
Chamado até hoje de “Hans Donner do Boi”, Jair Mendes, a
partir dessa noite histórica, conferiu vida às alegorias gigantescas e se
transformou em avatar dessa nova arte parintinense, que fez do festival dos
bumbás um dos mais bonitos espetáculos visuais do planeta.
Um artigo de jornal do arquivo particular de Paulinho
Farias, de 1984, de autor desconhecido, fala de Jair Mendes como “um homem
introvertido, cuja humildade chega às vezes até a irritar seus próprios amigos.
Mas ele é mais do que isso: os efeitos especiais que ele faz para as alegorias
são indescritíveis. Este ano apresentou a lenda do boto, representou o por do
sol com chuvas e trovoadas, além do pescador tarrafeando, numa sequência de
movimentos de arte fantástica que só o Festival de Parintins oferece.”
O mestre Jair Mendes sabe bem de sua importância para o
crescimento exponencial do festival e tem boas lembranças daqueles tempos
pioneiros:
– Naquela época tinha um seriado na TV que se chamava “O
Homem de Seis Milhões de Dólares”. A série era sobre o ciborgue Steve Austin,
interpretado pelo ator Lee Majors, que era chamado de “homem biônico”. Como um
boi articulado também era uma novidade jamais vista em Parintins, o povo
começou a chamar o Garantido de “boi biônico”, porque ele mexia as orelhas,
balançava a cabeça e o rabo, comia capim, pintava e bordava. A partir daí eu
comecei a introduzir coisas novas nas apresentações do boi. A primeira alegoria
com movimentos foi feita em 1979 e representava a Iara, a Mãe-D’água, com a
participação da minha filha. Cada vez mais eu ia encaixando estas coisas,
figuras engraçadas, lendas indígenas, cobra grande, bicho folharal, negrinho do
campo grande, que hoje não tem mais, então cada ano era uma inovação e eu era o
único artista que fazia estas coisas em Parintins, de dar movimentos quases
reais às alegorias. O boi Caprichoso só começou a se mexer em 1986 porque,
aproveitando um desentendimento com a diretoria do Garantido, eu fui para o
Caprichoso. Foi aí que o boi passou a se mexer também. Quando saí do Garantido,
deixei lá o Vandir, que era meu ajudante, que ficou tomando conta do Garantido.
No boi Caprichoso, quem me ajudava era o Juarez Lima. Hoje, nos dois bois, quem
não foi meu discípulo foi discípulo do meu discípulo. Você vê que naquela época
não tinha artista, só era eu, e hoje Parintins está empestada de artistas. Hoje
nós somos referência no Brasil, fazemos o carnaval do Rio de Janeiro, São Paulo,
Manaus, as cirandas de Manacapuru, os peixes ornamentais de Barcelos, os botos
de Alter do Chão, conquistamos nosso espaço e tudo graças a este festival de
Parintins.
N. R.: O mestre Jair Mendes faleceu no dia 15 de março de 2025, no Hospital Delphina Aziz, em Manaus, onde estava internado há alguns dias. Ele tinha 82 anos e era diabético.
Em reconhecimento ao seu legado, o Boi Garantido inaugurou,
em abril de 2023, o “Espaço Mestre Jair Mendes” no curral Lindolfo Monteverde,
homenageando sua trajetória e influência na cultura parintinense.
Jair também dá seu nome à Medalha do Mérito Cultural na
cidade de Parintins.
Em 2023 foi homenageado pelo bumbá vermelho e branco durante
a apresentação do tema “Garantido por toda vida”.
O atual prefeito de Parintins, Mateus Assayag, prestou
homenagem ao artista em sua rede social.
“Seu legado permanecerá vivo na história e no coração de
todos que celebram e valorizam a cultura amazônica, especialmente entre nossos
artistas parintinenses”, afirmou Assayag.

























