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quinta-feira, agosto 20, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 29

 


29. Fevereiro de 1984. Amigos desde os tempos heroicos de Irajá, quando ainda dividiam sonhos, sambas e provavelmente algumas dívidas, Nei Viana e Zeca Pagodinho desembarcaram em Manaus para ajudar nos ensaios de Carlinhos de Pilares, puxador de samba do GRES Andanças de Ciganos. 

A missão oficial era fortalecer o samba. A missão paralela era conferir se eram verdadeiras as lendas que chegavam ao Rio de Janeiro sobre um certo Chico Padeiro, personagem cercado por um misticismo que misturava traficante, alquimista e fornecedor oficial da alegria da Cachoeirinha.

Numa noite de sábado, enquanto a quadra fervilhava de ritmistas, passistas e bebedores profissionais, Zeca Pagodinho encontrava-se numa situação delicada. Muito delicada. Mais precisamente, estava parado na esquina das ruas Parintins e Borba, do outro lado do Top Bar, aguardando o retorno de seus companheiros. Nei Viana, Carlinhos de Pilares e Mestre Roxinho haviam saído numa expedição de abastecimento e demoravam além do razoável.

Zeca aguardava. Esperava. Suspirava. Consultava o relógio. Tornava a suspirar. O homem estava numa ansiedade capaz de envelhecer uma tartaruga. Foi então que surgiu Jacó Fernandes, caminhando tranquilamente em direção ao ensaio, duas baquetas na mão e zero preocupação na cabeça. Zeca viu nele uma luz no fim do túnel. Infelizmente, era um trem vindo na direção contrária.

– Ô, gente boa, será que você podia me fazer um favor? – perguntou.

Jacó respondeu com a cautela de quem já tinha visto muita coisa na vida:

– Depende...

– Tô querendo apertar um beise. Será que você consegue alguma coisa pra mim? De preferência do Chico Padeiro...

Ao ouvir aquele nome, Jacó quase se sentiu ofendido.

– Chico Padeiro?

Fez uma pausa dramática.

– Aquilo só vende palha, coentro e bosta de vaca, porra!

Zeca arregalou os olhos. Jacó continuou:

– Bagulho bom mesmo quem tem é o Pirarucu, lá no Bodozal da Maués.

A segurança com que ele falou era impressionante. Parecia um especialista apresentando um artigo científico num congresso internacional. Os olhos de Zeca brilharam. Finalmente encontrara uma solução. Sem hesitar, entregou cerca de 200 pilas ao emissário. Jacó guardou o dinheiro. Ajustou as baquetas. Desceu a ladeira da Rua Parintins em direção ao Bodozal da Maués e desapareceu. Como fumaça. Como miragem. Como promessa de político em ano eleitoral.

Passou uma hora. Passaram duas. Passou um tempo suficiente para um sujeito rever toda a própria existência. E nada de Jacó. Foi então que apareceu Nego Keko. Encontrou Zeca exatamente no mesmo lugar. Mesma esquina. Mesma posição. Mesma esperança. O mesmo prejuízo.

Depois de ouvir toda a história, Keko balançou a cabeça com pena. Era como um veterinário examinando um cachorro atropelado.

– Você perdeu, playboy. Você perdeu.

– Como assim?

– O cara não volta mais nem pelo caralho.

Zeca sentiu um arrepio.

– Não fala isso...

– A essa altura ele já deve estar apertando o black com a turma dele. Conheço essa raça...

O silêncio que se seguiu foi devastador. Zeca olhou para o horizonte. Olhou para a rua. Olhou para o bolso. Olhou novamente para a rua. E compreendeu. Havia sido vítima de um dos mais antigos golpes da humanidade. O famoso “vou ali e já volto”. Mordido pela indignação, resmungou:

– Caraco, mano... Eu vir lá do Rio de Janeiro pra tomar banho em Manaus...

Fez uma pausa.

– Assim é foda...

E voltou para a quadra dos Ciganos carregando apenas duas coisas: a decepção e a certeza de que Jacó Fernandes era mais rápido desaparecendo com dinheiro do que muito velocista olímpico.

Felizmente, quando tudo parecia perdido, surgiu Carlinhos de Pilares trazendo uma generosa pacoteira da famosa erva do Chico Padeiro. A paz voltou ao universo. O samba voltou a soar bonito. A vida voltou a fazer sentido.

E Zeca aprendeu uma importante lição sobre a fauna humana da Cachoeirinha: se um sujeito desconhecido disser que conhece um fornecedor melhor, primeiro exija referências. Ou, no mínimo, um fiador.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 28

 


28. Um dos maiores talentos produzidos pelo Morro da Liberdade, o compositor, ritmista e designer gráfico Jorge Halen – conhecido em todos os continentes civilizados como Mestre Chocolate – sempre teve uma vida amorosa tão tranquila quanto uma convenção de anarquistas armados.

Mulherengo desde a mais tenra infância, Chocolate era daqueles sujeitos que, ao passar por uma maternidade, já saía distribuindo piscadelas para as enfermeiras. Aos 19 anos, porém, aconteceu o impensável. Cupido, aquele delinquente reincidente que vive destruindo a vida dos outros em nome do romantismo, acertou-lhe uma flechada em cheio.

A vítima era uma passista do Morro da Liberdade cuja padaria, segundo testemunhas da época, possuía atributos arquitetônicos capazes de provocar acidentes de trânsito. Chocolate apaixonou-se imediatamente. Namorou. Noivou. Casou. Tudo em menos de seis meses. Tempo insuficiente para amadurecer um abacate, mas aparentemente suficiente para tomar decisões irreversíveis.

Para a cerimônia, escolheu pessoalmente um magnífico paletó marrom. Não era um simples paletó. Era uma entidade. Uma instituição. Uma obra de arte têxtil. Segundo o poeta Gilsinho Nogueira, a cor era “mel com areia”. Segundo o resto da humanidade, era simplesmente marrom. O traje possuía revestimento em seda chinesa, bolsos de pele de chinchila e uma aparência geral que sugeria a união estética entre um diplomata soviético e um cantor de bolero.

No dia do casamento, Chocolate estava feliz. Ridiculamente feliz. Perigosamente feliz. A lua de mel aconteceu numa pousada do Paraná do Ramos e durou mais de uma semana. Menos de um ano depois, a esposa resolveu terceirizar os serviços afetivos. Quando Chocolate descobriu que o novo ocupante da concessão amorosa era um dono de panificadora, cogitou incendiar uma padaria inteira apenas por coerência temática. Foi impedido pelos amigos Carlão, Gilsinho, Jairo, Ivan, Bosco e Luizinho, homens que passariam boa parte da vida exercendo a função de contenção de danos emocionais.

Passado algum tempo, as lágrimas secaram. As feridas cicatrizaram. E Chocolate voltou ao mercado. Conheceu outra passista. Apaixonou-se novamente. Namorou. Noivou. Casou. Tudo em menos de seis meses. Porque a experiência é uma professora excelente, mas alguns alunos faltam às aulas.

Mais uma vez surgiu o lendário paletó cor de mel com areia. Mais uma vez a cerimônia foi realizada. Mais uma vez a lua de mel foi um sucesso. E mais uma vez a esposa resolveu fazer intercâmbio afetivo. Desta vez o contemplado foi um violonista de bossa nova.

Ao saber da notícia, Chocolate cogitou destruir sua coleção de discos de João Gilberto. Não por raiva do cantor. Por associação criminosa de estilo musical. Novamente os amigos intervieram. Novamente evitaram uma tragédia. Novamente recolheram os pedaços do coração do companheiro.

Depois do segundo desastre conjugal, Chocolate desenvolveu uma teoria revolucionária. Virou vegetariano. Ninguém sabe exatamente qual a relação entre alface e fidelidade matrimonial, mas ele acreditou firmemente no método. Passou a consumir apenas “brotinhos” prestes a desabrochar. Foi nessa época que um amigo resolveu casar.

Como era um homem generoso, Chocolate emprestou ao compadre seu velho paletó marrom. Sim. O mesmo. O lendário. O maldito. O cor de mel com areia. O equivalente amazônico do Anel de Sauron.

O compadre usou o traje. Casou-se. Sorriu. Posou para fotos. Foi feliz. Durante aproximadamente seis meses. Quando completou meio ano de matrimônio, tornou-se membro efetivo da Confraria Internacional de São Cornélio, padroeiro informal dos maridos surpreendidos pelos fatos. Foi aí que a situação começou a parecer estatisticamente suspeita.

Carlão Nascimento, engenheiro, juiz de futebol, sambista e estudante de parapsicologia nas horas vagas – currículo que sozinho já justificaria uma tese acadêmica –, resolveu investigar. Pediu as fotografias dos dois casamentos de Chocolate. Analisou tudo cuidadosamente. E quase teve um infarto. Com exceção do padre e de dois coroinhas, praticamente todos os homens que apareciam nas fotos haviam sido corneados em algum momento da vida. Aquilo já não era coincidência. Era uma epidemia.

Carlão passou uma semana inteira estudando o fenômeno. Fez anotações. Traçou diagramas. Levantou hipóteses. Nada fazia sentido. Até que tomou a única atitude possível diante de um problema científico dessa magnitude. Consultou Mãe Zulmira.

A respeitada líder espiritual ouviu o relato. Jogou búzios. Conversou com entidades. Consultou forças invisíveis. Fez uma auditoria completa no além. E apresentou o diagnóstico:

– Mande meu zifio jogar fora esse paletó. Esse troço atrai desgraça.

Estava encerrada a investigação. O culpado havia sido identificado. Não eram as esposas. Não eram os amantes. Não era Cupido. Era o paletó.

Convencer Chocolate a se desfazer da peça, entretanto, revelou-se tarefa quase impossível. Foi necessária uma operação conjunta. Enquanto Carlão aplicava um mata-leão digno de campeonato mundial, Bosco Saraiva segurava as pernas. Gilsinho e Ivan invadiram a residência. Localizaram o artefato. E conduziram sua execução sumária.

O paletó foi queimado no cruzamento das ruas São Pedro e Martins Santana sob circunstâncias que lembravam um exorcismo medieval. Houve pólvora. Houve cachaça. Houve galinhas pretas. Faltou apenas chamar o Vaticano. Mas funcionou. O descarrego deu certo.

Alguns anos depois, Chocolate conheceu uma mulher maravilhosa. Constituiu família. Encontrou paz. Nunca mais foi traído. Nunca mais foi corneado. E nunca mais chegou a menos de cinquenta metros de qualquer vitrine que exibisse um paletó marrom. Porque certas lições a vida ensina. Outras, ela esfrega na sua cara duas vezes. E algumas vêm forradas em seda chinesa, com bolsos de pele de chinchila e uma maldição conjugal embutida no preço.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 27

 


27. Agosto de 1982. O GRES Vitória Régia conseguiu um feito que, para a época, equivalia a contratar os Rolling Stones para tocar no quintal de casa: trazer Martinho da Vila para um show exclusivo em Manaus. Durante um mês inteiro, um carro volante percorreu a cidade anunciando o acontecimento histórico. O veículo atravessou becos, avenidas, igarapés, invasões, conjuntos habitacionais e provavelmente algumas dimensões paralelas, repetindo sem descanso:

– Grande show de Martinho da Vila! Grande show de Martinho da Vila!

A diretoria da escola fazia contas otimistas. Casa cheia. Lucro garantido. Prestígio em alta. Nada poderia dar errado. Naturalmente, tudo deu errado.

Poucas horas antes da apresentação, já instalado no hotel, Martinho da Vila chamou um assessor e comunicou uma necessidade que considerava tão importante quanto afinar os instrumentos ou testar o sistema de som. Precisava relaxar. Mais especificamente, precisava fumar um cigarro de índio.

O assessor entendeu a gravidade da situação. Afinal, havia missões impossíveis, missões suicidas e missões envolvendo artistas antes de um show. Depois de uma sequência frenética de telefonemas, surgiu um nome: Chico Padeiro. Morador da Cachoeirinha. Lenda viva. Fornecedor cuja reputação corria pela cidade com a mesma velocidade das fofocas e das contas atrasadas.

Os dois embarcaram num táxi e seguiram para a residência do mestre artesão botânico. Ao chegarem, foram recebidos pelo próprio Chico Padeiro, que os acolheu com a elegância de um sommelier francês recebendo a visita da realeza. Cumpridos os protocolos iniciais, Chico entrou na casa. Minutos depois retornou carregando uma pequena mala de couro.

Martinho observava tudo sentado numa cadeira de macarrão, dessas que transformam qualquer varanda em consultório de psicólogo. Chico pousou a mala aos seus pés. Abriu. O conteúdo era tão abundante que a mala parecia ter sido preparada para abastecer uma pequena república independente. Com humildade profissional, Chico explicou:

– Pode fazer uma presença pra saber se o produto é bom.

Era como oferecer uma colherada de sorvete ao cliente antes da compra. Martinho aprovou o procedimento. Pegou uma amostra. Preparou o finório com a precisão de um relojoeiro suíço. Acendeu. Deu uma tragada. Depois outra. Depois uma terceira, daquelas capazes de fazer um sujeito conversar amigavelmente com as cortinas da sala. Prendeu a respiração. Fechou os olhos. Esperou. E aguardou a chegada do famoso tapa da pantera. O tapa chegou. Chegou de caminhão. Chegou de carreta. Chegou acompanhado de banda de música.

Porque, segundos depois, Martinho abriu os olhos e pronunciou uma das mais importantes avaliações de qualidade já registradas na história do comércio informal amazônico:

– A mala é minha.

Fez uma pausa. Olhou novamente para a mercadoria. E reforçou:

– A mala é minha!

Negócio fechado.

Enquanto isso, na quadra da Vitória Régia, milhares de pessoas aguardavam o artista. O horário passou. Mais um pouco. Mais um tanto. E nada de Martinho. Os dirigentes começaram a suar em bicas. A plateia começou a reclamar. A reclamação virou revolta. A revolta começou a flertar com o motim. Em poucos minutos, a situação exigiu a presença da Polícia de Choque para convencer a multidão de que incendiar a quadra talvez não fosse a solução mais adequada.

Na Cachoeirinha, porém, o clima era completamente diferente. Ali reinava a paz. A serenidade. A contemplação. O estado zen. Indiferente ao caos que se instalava na Praça 14, Martinho permaneceu afundado na cadeira de macarrão, apreciando a brisa da varanda e estudando com rigor científico a qualidade extraordinária do produto fornecido por Chico Padeiro.

O show foi cancelado. A escola entrou em parafuso. A polícia trabalhou. O público esbravejou. E Martinho passou a noite inteira firme em sua missão de pesquisa. Porque existem artistas que cancelam apresentações por problemas técnicos. Outros por questões de saúde. E existe o raro caso do sujeito que encontra uma varanda ventilada, uma cadeira confortável e uma mercadoria de qualidade internacional. Contra uma combinação dessas, simplesmente não há produtor cultural que dê jeito.

quarta-feira, agosto 19, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 26

 


26. O sambista Dominguinhos do Estácio desembarcaria em Manaus numa terça-feira para cumprir uma verdadeira jornada de operário do entretenimento: apresentações diárias até domingo. Tudo corria conforme o planejado até que alguém percebeu uma brecha na agenda da sexta-feira. Dominguinhos, que não tinha alergia a dinheiro, ligou imediatamente para Edu do Banjo.

– Meu camarada, não tem nenhum canto onde eu possa cantar na sexta? Levantar um troquinho? Comprar um pão com manteiga?

Edu começou a mexer os pauzinhos e conseguiu interessar a diretoria da Associação Atlética Banco do Brasil. Fechado o negócio, o show seria exclusivo para os associados da AABB. Coube a Edu vender as mesas por um preço camarada, suficiente para garantir o cachê do artista.

Entre os compradores apareceu Nailson Brito, bancário pernambucano, especialista em forró pé de serra, apreciador profissional de cachaça de cabeça e proprietário de uma confiança quase infantil na humanidade. Tão logo ouviu falar que haveria um show de um sujeito chamado Dominguinhos, comprou cinco mesas. Cinco. Vinte lugares. O homem mobilizou parentes, amigos, agregados, vizinhos e talvez até alguns transeuntes capturados na rua.

Na noite do espetáculo, Nailson era a própria personificação da felicidade. Instalou sua tropa a poucos metros do palco e aguardava ansiosamente o momento em que ouviria os primeiros acordes de sanfona. O show começou. Primeiro veio um grupo de pagode local. Depois, finalmente, surgiu Dominguinhos.

Nailson ajeitou-se na cadeira. A qualquer momento viria “Eu Só Quero um Xodó”. Não veio. O cantor abriu os trabalhos com um samba-enredo. Depois outro. Depois mais outro. A seguir mergulhou em partido-alto, samba-canção, pagode, jongo, lundu, breque, terreiro e tudo o mais que a cultura afro-brasileira havia produzido nos últimos cem anos. A sanfona não apareceu. A zabumba não apareceu. O triângulo não apareceu. “Asa Branca” continuava desaparecida.

Duas horas depois, Dominguinhos do Estácio encerrou o espetáculo sob aplausos entusiasmados da plateia. A plateia inteira. Ou quase. Nailson Brito estava sentado à mesa com a expressão de um homem que acabara de descobrir que comprou uma passagem para Recife e desembarcou em Vladivostok. Ao avistar Edu do Banjo, saiu em sua direção feito um fiscal da Receita atrás de sonegador.

– Que merda foi essa, Edu? Que merda foi essa?

Edu estranhou.

– Calma, mestre! O que aconteceu?

– Aconteceu que vocês vão devolver o dinheiro das minhas cinco mesas!

– Mas por quê?

Nailson respirou fundo para organizar a indignação.

– Porque isso foi propaganda enganosa da mais baixa categoria!

– Como assim?

– Porra, Edu! Eu trago minha família inteira pra assistir Dominguinhos e o cidadão passa duas horas cantando música que ninguém conhece!

– ...

— Não trouxe a sanfona!

– ...

– Ninguém sabe tocar zabumba!

– ...

– Ninguém sabe tocar triângulo!

– ...

– E aquele filho de uma égua ainda termina o show sem cantar “Asa Branca”!

A cada argumento, Edu sentia sua alma abandonar lentamente o corpo.

– Nailson...

– O quê?

– Acho que houve um pequeno mal-entendido.

– Pequeno?

– O Dominguinhos que você está pensando é o sanfoneiro.

– Claro!

– Esse aqui é o Dominguinhos do Estácio.

Seguiu-se um silêncio tão grande que dava para ouvir o gelo derretendo dentro dos copos. Nailson piscou algumas vezes. Olhou para o palco. Olhou para Edu. Olhou para os parentes. Olhou novamente para o palco. E finalmente compreendeu que havia comprado cinco mesas para assistir ao artista errado. Aquele talvez tenha sido o único caso documentado de um pernambucano que foi a um show de samba e saiu reclamando da ausência de sanfona. Durante semanas, a família inteira debochou dele. E com razão.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 26

 


25. Fevereiro de 1979. Sábado magro de carnaval. Tão magro que dava para contar as costelas da folia. O folião Sicy Pirangy resolveu dar uma passada no Top Bar, lá na Cachoeirinha, para conferir o movimento e quase entrou em depressão ao encontrar o estabelecimento praticamente alugado para as moscas. O bar estava mais vazio que carteira de estudante na última semana do mês.

Num canto, sentados com cara de quem tinha acabado de receber uma ordem de despejo da própria dignidade, estavam Zeca Boy e Luiz Lobão.

Os dois conversavam baixinho, cultivando aquela expressão melancólica típica de quem possui muitos sonhos e exatamente nenhum tostão. Sicy chegou chegando:

– Cadê o resto da turma, porra?

– Foi todo mundo pro baile de carnaval no Clube Municipal! – respondeu Zeca Boy.

– E vocês ficaram plantados aqui por quê?

Luiz Lobão suspirou fundo:

– Porque, se jogarem um gato em cima da gente, ele escorrega. Estamos mais lisos que muçum ensebado.

Sicy abriu um sorriso daqueles que normalmente antecedem uma tragédia.

– É só isso? Seus problemas acabaram. Venham comigo!

A frase, que em qualquer filme sério seria seguida de uma solução milagrosa, naquele caso era apenas o prenúncio de uma picaretagem de alto nível. Ele parou um táxi que passava pela rua. Era um fusquinha, daqueles que rodavam Manaus inteira tossindo fumaça e sobrevivendo apenas pela força da fé. Os três embarcaram.

– Meu compadre, Clube Municipal, na Torquato Tapajós! – ordenou Sicy.

O taxista sorriu por dentro. Finalmente uma corrida decente naquela noite. E lá foram eles.

Naquele tempo, a Torquato Tapajós parecia cenário de filme de faroeste produzido com orçamento de merenda escolar. Era mato de um lado, mato do outro e uma escuridão tão profunda que até os vaga-lumes andavam com medo. Quando chegaram às proximidades da Estrada do Aeroclube, Sicy bateu no ombro do motorista.

– Meu amigo, sem querer abusar da sua boa vontade, mas o senhor pode parar um instantinho aqui?

O motorista, alma pura e inocente, freou o carro. Foi o erro da noite. Sicy então bateu no ombro de Zeca Boy e anunciou:

– Daqui pra frente é com vocês dois, bonitões!

Antes que qualquer cérebro presente processasse aquela informação, ele já havia acionado a maçaneta, aberto a porta e desaparecido na escuridão com a velocidade de um atleta olímpico fugindo de um agiota. O taxista levou alguns segundos para entender o golpe. Tempo mais que suficiente para Zeca Boy e Luiz Lobão concluírem que permanecer no veículo seria uma decisão financeiramente desaconselhável. Abriram a porta e partiram atrás de Sicy numa fuga tão sincronizada que parecia ensaio de escola de samba.

Quando o motorista finalmente percebeu que tinha sido promovido de trabalhador honesto a patrocinador involuntário do transporte carnavalesco, os três já estavam evaporados no matagal. Furioso, o sujeito desceu do carro munido de uma lanterna e um revólver. Fez uma busca rápida pela região e ainda disparou alguns tiros na direção do escuro. Mas procurar Sicy Pirangy no mato àquela altura era como tentar capturar fumaça usando uma peneira. O xexo já tinha sido aplicado com sucesso.

Minutos depois, já dentro do Clube Municipal, Zeca Boy e Luiz Lobão encontraram o mentor da operação e foram logo cobrando explicações:

– Porra, bicho! Quase que a gente leva uns tiros por tua causa!

Sicy deu de ombros, com a serenidade de um monge tibetano especializado em calotes coletivos.

– Tá bom, bonitões, mas vocês queriam que eu fizesse o quê? Eu também tô mais liso que muçum besuntado de óleo Johnson, carálio!

E os três seguiram para o baile como se nada tivesse acontecido. Porque naquela época havia duas certezas absolutas: ninguém tinha dinheiro e todo mundo tinha coragem. E porque, no fim das contas, o que se leva da vida é a vida que se leva – desde que o táxi fique para trás.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 24

 


24. Apaixonado por samba desde os tempos em que ainda tinha cartilagens intactas, o delegado Petrônio Carvalho passou por várias escolas de samba. Começou na Vitória Régia, fez estágio na Sem Compromisso e acabou criando raízes na Reino Unido quando descobriu que um de seus subordinados na Polícia Civil, o investigador Jairo Beira-mar, era diretor de bateria da escola.

Petrônio sonhava tocar tamborim. O problema é que sonhar e saber tocar são duas coisas completamente diferentes. Depois de ouvi-lo executar alguns improvisos involuntários que ofendiam a teoria musical, a prática musical e possivelmente a própria humanidade, Jairo tomou uma decisão estratégica:

– Tu vai tocar caixa de guerra.

Era um cargo mais seguro para todos os envolvidos.

Em 1989, a Reino Unido preparava-se para desfilar com o enredo “Axé Mãe Preta”. A concentração acontecia ao lado do cemitério São João Batista, um local que, por coincidência, combinava perfeitamente com o destino de alguns ritmistas que desafinassem durante o desfile.

Jairo organizou a bateria com a precisão de um comandante militar. Caixas aqui. Surdos ali. Tamborins no meio. Cuícas acolá. Tudo perfeitamente alinhado. Aquela bateria não parecia uma escola de samba. Parecia uma operação da OTAN. Foi então que surgiu um problema.

A escola anterior, a Barelândia, resolveu protestar por alguma razão insondável e simplesmente não saía da avenida. Jairo foi verificar o que estava acontecendo. Ausentou-se por cerca de vinte minutos. Vinte. Quando voltou, encontrou um cenário que o faria questionar todas as suas escolhas de vida. A bateria havia deixado de existir. No lugar dela havia uma gigantesca roda de pagode.

O delegado Petrônio Carvalho presidia os trabalhos como um maestro do caos. Garrafas de cachaça circulavam de mão em mão. Passistas sambavam. Curiosos tocavam instrumentos da escola. Gente que nunca tinha visto um surdo na vida estava batucando nele com entusiasmo. A concentração parecia menos uma preparação para desfile e mais um churrasco clandestino financiado por alguma facção especializada em samba.

Jairo quase sofreu uma parada cardíaca. Aos gritos, começou a expulsar intrusos, recolher instrumentos e reorganizar os ritmistas. Alguns componentes já apresentavam um nível de embriaguez que os impedia de distinguir um repique de uma geladeira. Mesmo assim, o diretor seguiu firme. A disciplina precisava ser restaurada.

E Jairo possuía um método pedagógico extremamente simples. Quem errava, apanhava. Sua famosa baqueta de pau-ferro não era exatamente uma baqueta. Era um argumento. Parecia um taco de beisebol produzido para resolver conflitos trabalhistas.

Quando a escola entrou na Djalma Batista, Petrônio recebeu a primeira correção técnica.

CRACK!

A baquetada atingiu o ombro.

– Toca direito, porra! Se não quiser tocar, corre pro mato! Isso aqui é sério!

Petrônio ficou indignado. Durante anos interrogara criminosos perigosos. Prendera traficantes. Investigara homicídios. Jamais imaginara que seria esculachado em público por um subordinado diante de milhares de testemunhas. Mas permaneceu calado. Naquele ambiente, claramente Jairo era a autoridade máxima.

Antes de chegar à Tevelândia, o delegado já havia recebido tantas baquetadas corretivas que começou a suspeitar de que não participava de um desfile. Participava de uma sessão de tortura temática. Cada erro de ritmo era seguido por um novo golpe.

CRACK!

– Presta atenção!

CRACK!

– Tá atravessando!

CRACK!

– Quer me matar do coração?

Ao final do desfile, enquanto os componentes choravam emocionados, se abraçavam e comemoravam a apresentação histórica da Reino Unido, Petrônio procurou o diretor de bateria. Seu aspecto físico lembrava um sobrevivente de acidente ferroviário.

– Porra, Jairo... eu nunca apanhei tanto nem do meu pai.

– Mas melhorou o ritmo.

– Melhorou uma ova. Ano que vem me arranja um cargo na Harmonia. Não quero mais saber dessa bateria furiosa. Estou indo agora falar com o massagista Dico Paiva porque acho que meu ombro está quebrado.

A escola acabou campeã. A bateria foi elogiada. Jairo ficou feliz. Já Petrônio passou o resto da noite descobrindo músculos cuja existência desconhecia. Na segunda-feira apareceu na delegacia usando tipoia. A clavícula havia pedido exoneração.

Naturalmente os colegas quiseram saber o que havia acontecido. Petrônio, homem experiente e preocupado com sua reputação, respondeu com toda a dignidade possível:

– Estava perseguindo uns bandidos no Puraquequara. Me distraí e levei uma queda durante a operação.

Os investigadores ouviram a história com respeito. Era uma narrativa heroica. Uma demonstração de bravura policial. Um relato digno de filme de ação. Foi então que alguém perguntou a Jairo Beira-mar se aquilo era verdade.

Sem piscar, sem rir e sem demonstrar qualquer sinal de remorso, o investigador confirmou:

– Foi exatamente isso.

E naquele momento nasceu talvez o primeiro caso da história da Polícia Civil em que uma lesão corporal provocada por uma caixa de guerra foi oficialmente registrada como acidente em serviço durante perseguição a criminosos. O inquérito jamais esclareceu quantas das fraturas do delegado foram causadas pelo combate ao crime e quantas foram causadas pela Bateria Furiosa da Reino Unido. Mas quem conhecia Jairo Beira-mar sempre teve suas suspeitas.

terça-feira, agosto 18, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 23

 


23. Numa modorrenta tarde de sábado, alguns amigos estão aboletados no Bar do Cardeal, na Rua Ipixuna, esperando para assistir um jogo de futebol pela tevê. Depois de quase uma grade de cerveja, eles começam a discutir sobre qual seria o maior pássaro da Amazônia.

Acostumado a passar mais tempo no mato do que na cidade, o grande passarinheiro Décio Mechinha é taxativo:

– De todas as aves que conheço, a cigana é o maio pássaro da região!

– Cigana? Você está maluco! – avisa Zé Bolota, renomado pescador da região de Autazes. – O maguari é bem maior do que qualquer cigana...

– E o gavião-real? O gavião-real é bem maior do que qualquer maguari! – diz Paulo Sérgio, funcionário do Inpa.

O partideiro Beto Mão-de-vaca entra na conversa:

– Vocês estão mesmo por fora! O maior pássaro da Amazônia é o periquito roxo...

 – Periquito roxo?! – reage Décio Mechinha.

– Exato! – confirma Beto, peremptório. – Eu tô comendo um há quase 40 anos e ainda não acabei...

Marido da negona Greicimar Meireles, ex-passista do GRES Unidos da Selva, Beto Mão-de-vaca quase foi expulso da mesa.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 22

 


22. O ano de 1964 resolveu testar a resistência emocional do brasileiro. Além dos terremotos políticos que sacudiram o país, o Brasil perdeu, no dia 9 de fevereiro, uma de suas figuras mais extraordinárias: Ary Evangelista Barroso. Compositor, letrista, autor de teatro de revista, animador de auditório, locutor esportivo, ex-vereador, flamenguista fanático, boêmio profissional e rabugento em dedicação exclusiva, Ary parecia ter vivido umas quatro encarnações na mesma vida. Seu currículo era tão extenso que, se fosse apresentado hoje no LinkedIn, o sistema acusaria excesso de caracteres.

Além do talento monumental, Ary Barroso cultivava com esmero a fama de mal-humorado. Não era um defeito, era praticamente um hobby. Uma de suas birras era com o jornalista e compositor Antônio Maria, com quem mantinha uma rivalidade alimentada por aquilo que artistas costumam chamar de “divergência estética” e o resto da humanidade chama simplesmente de vaidade.

Ary insistia que a música brasileira mais conhecida no mundo era sua imortal “Aquarela do Brasil”: “Brasil, meu Brasil brasileiro...”. Antônio Maria retrucava que a canção mais famosa era sua melancólica “Ninguém Me Ama”: “Ninguém me ama, ninguém me quer...”. A discussão, basicamente, resumia-se a dois sujeitos brilhantes disputando quem tinha produzido o maior chiclete da história da música nacional. O certo é que se tornaram inimigos figadais.

Quando Ary foi internado com cirrose terminal, justamente em pleno Carnaval – época em que até a morte costuma pedir licença para passar –, os amigos convenceram Antônio Maria de que não ficava bem deixar o velho desafeto partir sem uma reconciliação.

Maria concordou e foi ao hospital. O encontro foi emocionante. Abraços, lágrimas, lembranças. Parecia o último capítulo de uma novela das oito. Com a voz já enfraquecida, Ary fez um pedido insólito:

– Maria, canta para mim Aquarela do Brasil.

Comovido, Antônio Maria puxou uma caixa de fósforos para marcar o ritmo e cantou a música inteira, sem errar uma sílaba. Ary ouviu tudo com expressão agradecida. Quando terminou, resolveu retribuir a gentileza:

– Agora pede para eu cantar Ninguém Me Ama.

– Não, Ary, deixa pra lá...

– Pede, Maria.

– Não precisa...

– Pede!

– Está bem. Canta pra mim Ninguém Me Ama.

Ary então disparou sua derradeira obra-prima de mau humor:

– Não sei a letra.

Antônio Maria explodiu:

– Não sabe porque é um canalha!

Ary respondeu sem perder o ritmo:

– E você é um cafetão.

Pronto. Em poucos segundos, a emocionante reconciliação transformou-se novamente numa briga de botequim de altíssimo nível intelectual. Os dois compositores morreram sem fazer as pazes. O Brasil perdeu dois gênios. E a implicância entre eles sobreviveu até o último acorde, provando que certas amizades são tão profundas que nem a morte consegue impedir uma boa discussão.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 21

 

Meu irmão Simas Pessoa e meu primo Cazuza

21. Quando eu era criança, por volta dos nove anos de idade, meu grande ídolo no futebol era meu primo José Alberto Régis Batista, o Cazuza, seis anos mais velho do que eu, com quem dividia um quarto na casa da tia Maria, irmã do meu pai, ali na Rua Parintins, entre a Rua Waupés e a General Glicério, na divisa com a Praça 14. No campinho de várzea ao lado de nossa casa, cujas partidas eu acompanhava da janela, o Cazuza costumava infernizar as zagas adversárias com dribles desconcertantes, cabeçadas fulminantes e chutes indefensáveis. Quando eu crescesse, queria ser como ele. O campinho hoje pertence ao Edson da Rivera.

Em 1965, faltando duas semanas para o início do campeonato amazonense juvenil, o técnico Rubem Correia foi chamado para montar e dirigir a equipe juvenil do Olímpico. No jogo de estreia, o Olímpico perdeu do Nacional de 3 a 1. No jogo seguinte, nova derrota para o América por 1 a 0. Os dirigentes do Clube dos Cinco Aros ficaram cabreiros. Rubem Correia, que antes já havia treinado o Botafogo e o Ypiranga, da Cachoeirinha, resolveu garimpar novos talentos entre os peladeiros da cidade para reforçar seu elenco. No campo do Oratório Domingos Sávio descobriu Wandi, Mário Bacuri e Cazuza. No campo do Labor descobriu Orlando e Bioca. No campo do Peñarol descobriu Pompeia e Zequinha. Montou um timaço.

Aos 16 anos, Cazuza começou a jogar de centroavante no juvenil do Olímpico Clube. Foi tricampeão (1965, 1966 e 1967) e três vezes artilheiro do campeonato amazonense, jogando ao lado dos moleques já citados e de outros grandes craques como o goleiro Iraúna Jacob (hoje um conceituado médico cirurgião), o lateral direito Calderaro (hoje professor de Educação Física) e o armador Mário Simões (hoje engenheiro civil). Tenho absoluta certeza de que Cazuza seria um dos melhores jogadores profissionais do Amazonas se não tivesse tido sua brilhante carreira interrompida abruptamente aos 21 anos, quando um estúpido zagueiro, após um drible desconcertante, arrebentou maldosamente sua perna direita. A história se passou mais ou menos assim.

Em 1971, Cazuza e Mário Bacuri aceitaram um convite do time profissional misto do São Raimundo para participarem de dois amistosos contra times de Santarém (PA). Como eram apenas aspirantes do Olímpico Clube, não viram nenhum inconveniente em aceitar o convite e se mandaram para a Princesinha do Tapajós. O São Raimundo venceu as duas partidas graças ao quatro gols de Cazuza e um de Mário Bacuri. Na volta, os dois aspirantes foram cortados do time juvenil do Olímpico e proibidos de participar de qualquer competição profissional ou amadora.

Os dirigentes do São Raimundo compraram a briga, apelaram pra Justiça Desportiva, fizeram o diabo a quatro. Mário Bacuri e Cazuza foram contratados pelo São Raimundo e conquistaram o direito de disputar o campeonato profissional. Como o centroavante titular do “Tufão da Colina” era o famoso artilheiro Santarém, Cazuza aceitou jogar na ponta direita.

Sua estreia profissional, por coincidência, ocorreu contra o Olímpico Clube. O quarto-zagueiro Dirley ficou encarregado de marcá-lo. Lá pelas tantas, Mário Bacuri tocou para Augusto e este lançou uma bola pro Cazuza, meio na dividida. O zagueiro do Olímpico correu pra disputa. Cazuza chegou primeiro, de costas para o zagueiro, e deu um leve “tapa” na bola, para aplicar o conhecido drible “rabo de vaca”, uma de suas especialidades.

Quando girou o corpo pra pegar a bola do outro lado, sentiu uma dor paralisante da cintura pra baixo. O zagueiro Dirley havia entrado de joelho na parte posterior de sua coxa direita e seu pé ficara preso na grama sob a chuteira do adversário. O ponta-direita caiu no chão, gritando de dor. O massagista do São Raimundo entrou em campo e Cazuza saiu de maca.

Cinco minutos depois, aparentemente recomposto, Cazuza entrou em campo para recomeçar a partida. Não deu nem cinco passos. A dor paralisante voltou e ele desabou no chão pela segunda vez. Saiu de campo direto para o hospital. Diagnóstico: rompimento dos meniscos internos e externos.

Como estávamos na pré-história do futebol amazonense e não havia nenhum cirurgião especializado em medicina esportiva disponível para operá-lo, sua perna foi apenas imobilizada com gesso e tratada a banhos de luz. Nunca mais o atleta recuperou sua mobilidade. Sua carreira profissional foi interrompida por aquele acidente de percurso.

sexta-feira, agosto 14, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 20

 


20. Pernambucano do Recife, onde nasceu a 17 de março de 1921, Antônio Maria de Araújo Morais, ou simplesmente Antônio Maria, foi um dos maiores cronistas brasileiros do seu tempo. Compositor de sucessos inesquecíveis como “Ninguém me ama” ou “Se eu morresse amanhã”, ele foi locutor esportivo, poeta e radialista. Mas, para companheiros de farras como Vinícius de Moraes, Fernando Lobo e outros, sua marca maior foi, sem dúvida, a boemia.

E foi como boêmio que Maria morreu, na noite de 15 de outubro de 1964, no Rio de Janeiro, ao entrar no bar Red Point, perto de sua casa, para trocar um cheque. Ele se sentou a uma mesa e, enquanto esperava o dinheiro, passou mal. Emborcou sobre a mesa e ali mesmo o coração parou. Enfarte fulminante.

Neto e filho de usineiros, antes da glória de ver suas músicas nas paradas de sucesso (interpretadas por Dolores Duran, Nora Ney ou Maysa), Antônio Maria viveu dias um tanto difíceis. Primeiro, no Recife, em meados da década de 30, quando os negócios da família decaíram e ele, ainda adolescente, teve que arranjar um emprego na Rádio Clube de Pernambuco, para bancar as já frequentes noitadas no bar Gambrínus e no Cabaré Imperial.

Depois, a dureza continuou no Rio de Janeiro, para onde viajou em 1939, com Fernando Lobo, para “tentar a vida”: seu trabalho, como locutor esportivo na Rádio Ipanema, não agradou e ele chegou a passar fome. Frustrada a primeira tentativa de morar no Rio, Antônio Maria retornou ao Recife, onde gostava de narrar, sobretudo, os jogos do seu clube, o Sport.

Em seguida, convidado por Assis Chateaubriand (chefe dos Diários e Emissoras Associados), aceitou o cargo de diretor da Rádio Clube do Ceará e, já casado com sua primeira mulher, seguiu para Fortaleza. Depois, mudou-se para Salvador, também convidado para a direção das Emissoras Associadas da Bahia. Antônio Maria permaneceu no Nordeste até 1948 quando, mais uma vez, embarcou para o Rio de Janeiro.

Foi a viagem definitiva para a cidade maravilhosa, onde iria conhecer o sucesso e viver mil aventuras. Antônio Maria passou a dividir um apartamento com Fernando Lobo na rua do Passeio, no Centro, onde seguidamente o também pernambucano Abelardo Barbosa (futuro Chacrinha) ia se convidar para o jantar. O “velho guerreiro” sempre ganhava comida, mas antes passava por alguma sacanagem da dupla, como ter que tomar banho gelado.

Em 1949, Maria já era diretor da Tupi, cargo em que se manteve até sair da emissora. Continuava à frente do microfone, onde narrava e produzia O Tempo e a Música, às quintas, às 21h. Ainda em 1949, ele foi convidado por Ary Barroso para inaugurar um novo tipo de narração de futebol: dois locutores, cada um narrando a posse de bola de uma das equipes. Por exemplo: num Flamengo x Vasco, Ary narraria bola com o Flamengo e Maria, bola com o Vasco. A ideia funcionou bem e foi aplicada na Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil.

A decepção de Maria e Ary com a derrota do Brasil na Copa de 50 foi total. Ary largou a narração esportiva (só retornou após quase 10 anos), enquanto Maria continuou, para cumprir seu contrato, embora não sentisse mais nenhum prazer na atividade. Há indícios de que Maria era vascaíno.

Sendo amigo de Fernando Lobo, Antônio Maria começou logo de cara a frequentar os grandes pontos da boemia carioca, como o Vilariño e o Clube da Chave, onde sempre estavam Ary Barroso, Vinicius de Moraes, Sérgio Porto (com quem disputou o amor de várias vedetes), Millôr Fernandes, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Aracy de Almeida e Dolores Duran.

Já assinando uma coluna no O Jornal, Antônio Maria torna-se, a 20 de janeiro de 1951, o primeiro diretor da primeira emissora de televisão instalada no Brasil, a TV Tupi do Rio. Mas graças ao dinheiro que o governo Getúlio Vargas despejou em troca de apoio político, no final de 1952 a rádio Mayrink Veiga partiu para o ataque contra a Tupi e passou a contratar seus grandes nomes. Antônio Maria foi um dos primeiros contratados, por 50 mil cruzeiros, o mais alto salário do rádio no Brasil. Logo comprou seu primeiro Cadillac, símbolo de status entre os reis do rádio naquela época.

Vida financeira organizada, é também a partir de 1951 que ele dá partida à carreira de compositor, compondo “Frevo n° 1 do Recife”, gravado pelo Trio de Ouro. E, apesar de ter como atividade principal o jornalismo, foi justamente com a música que ele ganhou fama. Durante 15 anos de trabalho, só ou em parceria com Fernando Lobo, Luís Bonfá, Vinícius de Moraes, Ismael Neto e outros, compôs um total de 63 músicas.

Como cronista, Maria atuou em vários jornais e revistas, entre os quais Diário Carioca, O Globo, Manchete. Mas foi no Última Hora, segundo Paulo Francis (um dos seus companheiros de noitadas), que ele teve a sua melhor fase. Poético, gozador, Maria escreveu sobre tudo: mulheres, política, boemia, solidão.

Homem de muitas atividades, Antônio Maria foi também produtor e diretor de shows e programas de televisão. Por conta da boemia, sempre trocava o dia pela noite, mas dava conta de tudo. Teve época em que fazia, simultaneamente, três programas semanais na Rádio Mayrink Veiga, um programa na Rádio Nacional, uma crônica para a revista Manchete, uma para O Globo e seis para o Diário Carioca e, de quebra, ainda arrumava tempo para compor, enchera cara de birita e correr atrás dos rabos de saias.

Na televisão era famoso o programa “Preto no Branco”, de Oswaldo Sargentelli, onde sempre aparecia uma “pergunta de Antônio Maria, da produção do programa”, geralmente muito embaraçosa. A câmera focalizava em plano fechado o rosto tenso do entrevistado e em seguida ecoava a voz do apresentador, em off: “Pergunta de Antônio Maria para Alziro Zarur, da Legião da Boa Vontade: Senhor Alziro Zarur, se Jesus está chamando, porque o senhor não vai logo?”.

Um dia perguntou a Sandra Cavalcanti, candidata a deputada: “Quer dizer, dona Sandra, que a senhora é mal-amada?” A resposta de Sandra, dizem os espectadores da cena, assegurou-lhe a eleição. “Posso até ser, senhor Maria, mas não fui eu que fiz aquela música Ninguém me ama”.

Nos últimos meses de vida, já doente do coração e um pouco afastado das madrugadas, montou com Ivan Lessa, no Rio de Janeiro, um escritório de produções para TV. Do seu primeiro casamento (com a pernambucana Maria Gonçalves Ferreira), teve dois filhos: Maria Rita e Antônio Maria Filho.

E, como todo boêmio, amou muitas mulheres, milhares delas. Segundo José Aparecido, a última grande paixão de Antônio Maria foi Danusa Leão, que ele roubou do proprietário do jornal Última Hora, Samuel Wainer, e por isso foi demitido, passando cinco meses desempregado. Quando conseguiu um novo emprego, a primeira crônica que Maria escreveu tinha o título “O bom caráter” e começava assim: “Aqueles que dizem que mulher de amigo meu pra mim é homem estão enganados; porque mulher de amigo meu é mulher mesmo.”

Quando sofreu o enfarte, Antônio Maria já estava separado de Danusa Leão, que se reconciliaria, em Paris, com Samuel Wainer. E José Aparecido, que seis meses antes havia dividido um apartamento com o cronista, depois contaria: “Estávamos numa situação muito difícil. Eu, cassado e o Antônio Maria vivendo a sua mais profunda crise sentimental. Foi o único homem que vi morrer de amor”.

Mesmo sendo uma pessoa extrovertida e de muitos amigos (e inimigos), Maria, como era chamado por eles, sempre teve a solidão dentro de si. Um exemplo está em sua crônica “Oração”, escrita em março de 1954:

“Rosinha Desossée, me tire desse quarto de hotel e de todas as coisas que entram pela janela; me leve para longe das palmeiras, mais longe e perto das coisas mais macias; me faça esquecer (depressa) os homens ruins – isto é: os que gostam de cebola crua; me ensine, Rosinha Desossée, tudo o que eu não aprendi: a cortar com a mão direita, a usar anel, a tocar piano, a desenhar uma árvore e valsar; e me lembre do que eu esqueci – raiz quadrada, (as mais ordinárias), frações, latim, geofísica e “Navio Negreiro”, de Castro Alves; depois, me dê, pelo bem dos seus filhinhos, aquilo que eu não tenho há quase um ano, carinho – de um jeito que eu não sei dizer como é, mas que há, por aí ou, pelo menos, já houve; destelhe a casa, deixe a noite entrar e, juntos, vamos nos resfriar; espirre de lá, que eu espirro de cá... agora, cada um com a sua bombinha, inalação, inalação; lado a lado, sentemos, os dois de perfil para o ventilador; minhas mãos e as suas não são de ninguém, entendido?; se interesse por mim e pergunte o que eu sei, que eu quero exclamar, no mais puro francês: “oh!...comment allez vous? (...) de um jeito ou de outro, me tire daqui, pra Pérsia, Sibéria, pro Clube da Chave, pra Marte, Inglaterra, sem couvert, sem couvert; está vendo o retrato dos meus 20 anos? de lá para cá, cansaço, pé chato, gordura, calvície fizeram de mim essa coisa ansiosa, insegura e com sono, que pede a você, no auge do manso: você, Desossée, não saia esta noite e fique, ao meu lado, esperando que o sono me tome e me mate, me salve e me leve, por amor ao teu andar, assim seja (...)”


Aracy de Almeida foi uma de suas grandes amigas. Sabia tudo sobre Antônio Maria e, mesmo assim, como dizia brincando, continuava a gostar dele. Era desprovido de qualquer cerimônia: uma vez pediu a ela ajuda para colocar um supositório (“Já tentei todas as posições e não consegui nada.”). Em outra oportunidade, ele e Vinícius de Morais tentavam cumprir um compromisso assumido: fazer um jingle para o lançamento de um... regulador feminino. Estavam com inúmeros outros trabalhos e foram pedir ajuda a Aracy. Ela, sem pensar muito, tomando emprestada a melodia de O orvalho vem caindo, de Noel, atacou de pronto: “O ovário vem caindo...”.

Carlos Heitor Cony dizia que se o autor fosse mandado para cobrir a posse do papa, voltaria cardeal. É Cony que conta: “Um dia, Maria me telefona: – Carlos Heitor, Carlos Heitor, você nunca me enganou! Disse então que, vindo de São Paulo, viu no avião uma mulher linda lendo o livro Matéria de Memórias, de Cony. Aproximou-se, se apresentou como o autor do livro, e a mulher, uma típica leitora apaixonada, acreditou. Pintou para ela um quadro bastante dramático: era um desgraçado, que nunca tinha tido sucesso, que as mulheres o abandonavam. “– Mas, Maria...” era tudo o que o espantado Cony conseguia dizer. “– Fica tranquilo, Cony, fica tranquilo porque em seguida nós fomos pra cama. Ou melhor, você foi pra cama.” E Cony, curioso: “– E ai?” “– E aí foi que aconteceu o problema” – gargalhava Maria. “– E aí você broxou, Cony, você broxou!”

Certa ocasião, estava em cima da hora de um programa entrar no ar e, enquanto Chico Anísio e todo o elenco aguardavam ansiosos, Antônio Maria datilografava feito louco para terminar o texto a tempo. Nesse instante, entra uma senhora na redação e diz: “Olhe, eu sou da Campanha Contra o Câncer...” Preocupado em cumprir sua tarefa, sem levantar os olhos da máquina, Antônio Maria, responde: “Eu sou a favor”.

Antônio Maria costumava ir do Rio a São Paulo, em companhia de Vinícius de Moraes, para encontrar companheiros de farras. Numa dessas viagens, combinaram o encontro no apartamento de um deles e, quando chegaram ao edifício, notaram um princípio de incêndio. Da portaria, Antônio Maria telefonou: “Olha, desçam logo, mas não avisem a ninguém, porque senão vocês vão ter de dar preferência aos velhos e às crianças.”

Por causa de Elis Regina, Ronaldo Bôscoli apelidou Maria de “Eminência Parda” e “Galak”, numa gozação com a pele mulata do rival. Mas talvez não soubesse das suas dimensões: Antônio Maria media 1,85m e pesava 130 kg. Certa noite, Maria procurou Bôscoli no Beco das Garrafas, em Copacabana, para brigar. O diretor da gravadora Elenco, Aloysio de Oliveira, amigo dos dois, divertia-se com a cena, mas, quando o conflito parecia inevitável, Aloysio urinou no sapato de Maria. Este parou de discutir, os três caíram na gargalhada e foram beber juntos.

Conta Stanislaw Ponte Preta que, certa vez, Maria recebeu o pedido do diretor da TV Rio Péricles do Amaral para reescrever um texto humorístico. O programa era horrível, e a emissora mantinha outro redator só para piorar os textos. Ao saber do pedido, Maria entrou na sala do diretor com cara de mau, jogou seu texto em cima da mesa e disse: “Está aqui minha parte do programa. Eu sinto muito, mas pior do que isso eu não sei fazer”.

Em 1990, Paulo Francis escreveu que, na véspera do infarto fulminante, Maria “detonara muito” com cocaína, porque Vinicius lhe dissera que Danuza estava muito feliz na França, podendo ser vista na garupa da moto de um príncipe dinamarquês.

Em 1994, Ronaldo Bôscoli, pouco antes de morrer, também afirmou que Maria usava cocaína e mostrou que continuava ressentido com o antigo rival, tratando-o por canalhão e babaca em suas memórias (livro “Eles e Eu”). Já o cineasta Paulo César Saraceni, que em 61 convivera com Maria porque namorava Nara Leão, irmã de Danuza, escreveu em 1993, no livro “Por Dentro do Cinema Novo”: “Antônio Maria tinha fama de cheirar pó, mas nunca vi, se fazia era um profissional, discretíssimo”.

No dia 15 novembro de 1964, Vinicius de Moraes publicou a crônica “Morrer num Bar”, escrita no dia da morte do amigo:

“Aí está, meu Maria... Acabou. Acabou o seu eterno sofrimento e acabou o meu sofrimento por sua causa. Na madrugada de 15 de outubro em que, em frente aos pinheirais destas montanhas queridas, eu me sento à máquina para lhe dar este até-sempre, seu imenso coração, que a vida e a incontinência já haviam uma vez rompido de dentro, como uma flor de sangue, não resistiu mais à sua grande e suicida vocação para morrer.

Acabou, meu Maria. Você pode descansar em sua terra, sem mais amores e sem mais saudades, despojado do fardo de sua carne e bem aconchegado no seu sono. Acabou o desespero com que você tomava conta de tudo o que amava demais: o crescimento harmonioso de seus filhos, o bem-estar de suas mulheres e a terrível sobrevivência de um poeta que foi o seu melhor personagem e o seu maior amigo. Acabou a sua sede, a sua fome, a sua cólera. Acabou a sua dieta. Aqui, parado em frente a estas montanhas onde, há trinta anos atrás, descobri maravilhado que eu tinha uma voz para o canto mais alto da poesia, e para onde, neste mesmo hoje, você deveria chamar porque (dizia o recado) não aguentava mais de saudades – aprendo, sem galicismo e sem espanto, a sua morte.

Quando a caseira subiu a alegre ladeirinha que traz ao meu chalé para me chamar ao telefone – eram nove da manhã – eu me vesti rápido dizendo comigo mesmo: “É o Maria!” E ao descer correndo para a pensão fazia planos: “Porei o Maria no quarto de solteiro ao lado, de modo a podermos bater grandes papos e rir muito, como gostamos…” E ainda a caminho fiquei pensando: “Será que Itatiaia não é muito alto para o coração dele?...” Mas você, há uma semana – quando pela primeira e última vez estivemos juntos depois de minha chegada da Europa, numa noitada de alma aberta – me tinha tranquilizado tanto que eu achei melhor não me preocupar. Eu sabia que seu peito ia explodir um dia, meu Maria, pois por mais forte e largo que fosse, a morte era o seu guia.

Outra noite, pelo telefone, ao perguntar eu se você estava cuidando de sua saúde, você me interpelou: “Você tem medo de morrer, Poesia?” “Medo normal, meu Maria”, respondi. “Pois olhe: eu não tenho nenhum” retorquiu você sem qualquer bravata na voz. “Só queria que não doesse demais, como na primeira crise. Aquela dor, Poesia, desmoraliza.”

Mas como eu descesse – dizia – para atender à sua chamada, e atravessasse o salão da casa-grande, e entrando na cabine ouvisse (como há 14 anos atrás ouvi a voz materna) a voz paternal de meu sogro que me falava, preparando-me: “Você sabe, Antônio Maria está muito mal...” e eu instantaneamente soubesse... – justo como naquela época soube também, quando a voz materna, em sinistras espirais metálicas, me disse do Rio para Los Angeles: “Sabe, meu filho, seu pai está muito mal...”, o nosso encontro marcado deu-se numa dimensão nova, entre o mundo e a eternidade: eu aqui; você... onde, meu Maria? – onde?

Ah, que dor! Agora correm-me as lágrimas, e eu choro embaçando a vista do teclado onde escrevo estas palavras que nem sei o que querem dizer...

Há uma semana apenas conversamos tanto, não é, meu Maria? Você ainda não conhecia minha mulher, foi tão carinhoso com ela... Tomamos uma garrafa de Five Stars no Château, depois fomos até o Jirau e terminamos no Bossa Nova. Eu ainda disse: “Você pode estar bebendo e comendo desse jeito?” “Por que, Poesia? Não há de ser nada... Qualquer dia eu vou morrer é assim mesmo, num bar...”

Eu só espero que não tenha doído muito, meu Maria. Que tenha sido como eu sempre desejei que fosse: rápido e sem som. Mas é uma pena enorme. Você tinha prometido à minha mulher, a pedido dela, que recomeçaria hoje, nesta quinta-feira do seu recesso, no seu “Jornal de Antônio Maria” o seu “Romance dos pequenos anúncios”, que foi uma de suas melhores invenções jornalísticas e onde eu era personagem cotidiano: você sempre a querer fazer de mim, meu pobre Maria, o herói que eu não sou...

Mas por outro lado, sei lá... Você disse nessa noite, à minha mulher e a mim, que nem podia pensar na ideia de sobreviver às pessoas que mais amava no mundo: sua mãe, seus dois filhos, suas irmãs e este seu poeta. “E Rubem Braga...”, acrescentou você depois, brincando com ternura, “Eu não queria estar aí para ler quanta besteira se ia escrever sobre o Braguinha...”

Não irei ao seu enterro, meu Maria. Daria tudo para ter estado ao seu lado na hora, para lhe dar a mão e recolher seu último olhar de desespero, de maldição para esta vida a que você nunca negou nada e o fez sofrer tanto. Daqui a pouco o sino da casa-grande tocará para o almoço. Verei minha mulher descer, triste de eu lhe ter dito (porque ela dorme ainda, meu Maria...) e de me deixar assim sozinho, sentado à máquina de escrever, com a sua morte enorme dentro de mim.”