O cantor e compositor Américo Madrugada sendo entrevistado
83. Considerado por muito músico que
entende do riscado como o maior sambista brasileiro de todos os tempos, Cartola
nasceu nas Laranjeiras, mas foi na Mangueira que encontrou seu verdadeiro CEP
afetivo.
Ali fez amizade
com Carlos Cachaça e outros bambas, aprendeu que samba e malandragem eram
disciplinas complementares e arranjou emprego de servente de pedreiro.
Como vivia
levando cimento na cabeça, passou a usar um chapéu-coco. O acessório lhe rendeu
um apelido curioso: Cartola. O morro nunca foi muito preocupado com a
fidelidade aos detalhes.
Em 1928, ajudou
a fundar a Estação Primeira de Mangueira, escolheu as cores verde e rosa,
compôs o primeiro samba da escola e, dali em diante, escreveu uma coleção de
obras-primas que fariam qualquer compositor pedir aposentadoria por falta de
concorrência.
Depois
desapareceu do mapa durante mais de uma década, reaparecendo apenas em 1956,
graças ao jornalista Sérgio Porto, que o encontrou lavando carros.
Cartola voltou
ao samba, abriu o lendário Zicartola, gravou discos históricos e deixou
clássicos como “As Rosas Não Falam”, “O Mundo é um Moinho” e “Acontece”,
provando que talento, às vezes, tira férias, mas nunca pede demissão.
Em Manaus, quem
fez da obra de Cartola quase uma religião foi o cantor e compositor Américo Madrugada, um dos
fundadores da BICA (Banda Independente da Confraria do Armando).
Dono de uma voz
que parecia ter sido fabricada para acordar o bairro inteiro, Américo cultivava
outro hábito que o aproximava do mestre da Mangueira: jamais recusava uma
serenata... nem um copo de água que passarinho evita por motivos éticos.
Seu parceiro de
boemia era o advogado Sérgio Litaiff, outro devoto de Cartola e também um dos
fundadores da célebre BICA. Na real, foi ele que criou o nome da banda.
Os dois eram
figuras obrigatórias nos Bailes de Gala do Rio Negro Clube, onde se misturavam
à fina flor da sociedade com a mesma naturalidade de um pinguim numa sauna.
Foi num desses
bailes que encontraram Antônio Titia, diretor de bateria da Batucada do Rio
Negro e apaixonado pela própria noiva. Apaixonado até perceber que ela passara
boa parte da noite conversando com Américo Madrugada. Na cabeça de Titia,
aquilo só podia significar uma coisa. Na cabeça de Américo, também.
Só que eram
coisas completamente diferentes. Enquanto Titia enxergava uma irresistível
troca de olhares, Américo estava intrigado com uma enorme mancha de ketchup
instalada bem no meio do bustiê da moça, um decote tão generoso que
praticamente exigia atenção científica. Era um mal-entendido esperando apenas a
hora de explodir.
Explodiu. Antes
mesmo de a orquestra tocar “Cidade Maravilhosa”, anunciando o encerramento do
baile, Titia já havia chamado a noiva de tudo quanto era nome feio, tentado
acertar Américo, distribuído sopapos em garçons inocentes, chutado baldes de
gelo, quebrado um vidro de lança-perfume na cabeça de um segurança e
transformado o salão num ensaio geral para o fim do mundo. Acabou expulso do
clube prometendo vingança em vários idiomas, todos compostos exclusivamente por
palavrões.
Na manhã
seguinte, Sérgio Litaiff ainda tentava convencer o próprio organismo de que
ressaca não era uma doença incurável quando sua mãe entrou no quarto em estado
de calamidade pública.
– Sérgio... tem
um amigo teu lá embaixo dizendo que a vida acabou...
O advogado
levantou na velocidade permitida por meia dúzia de cibalenas com sonrisal,
lavou o rosto, escovou os dentes e desceu. Encontrou uma cena que nem o
realismo mágico latino-americano teria coragem de escrever: sua mãe, dona Maria
da Paz, evangélica fervorosa, tocava hinos num imponente piano de cauda para
espantar o demônio. Ao lado, Antônio Titia, armado apenas com uma modesta faca
de pão, fazia um drama shakespeariano. Um pescoção providencial de Sérgio resolveu
a situação antes que a faca resolvesse qualquer outra coisa.
Entre lágrimas,
Titia declarou que sua vida perdera o sentido porque Américo Madrugada havia
roubado sua noiva. Sérgio telefonou imediatamente para o acusado. Eram oito da
manhã. Américo atendeu com a voz de quem ainda estava no expediente iniciado na
noite anterior. Ao ouvir o convite, imaginou que fossem esticar a farra em
algum boteco. Chegou sorrindo.
Encontrou Titia
chorando, Maria da Paz executando um repertório completo de cânticos religiosos
e Sérgio com a expressão de um juiz tentando conciliar duas torcidas
organizadas.
– O Titia diz
que perdeu a noiva por tua culpa e está querendo se matar...
Américo ouviu
tudo em silêncio. Coçou o queixo. E anunciou a solução com a serenidade de quem
acaba de descobrir a cura da gripe:
– Então bota
esse homem no carro que eu resolvo.
Os três
seguiram até a Praça da Polícia. No cruzamento da Sete de Setembro com a
Getúlio Vargas, Américo explicou sua curiosíssima terapia de choque.
– Tá vendo os
ônibus da Ana Cássia? Eles fazem essa curva voando. Quando vier um, a gente dá
um susto nesse cabra. Ou ele cria vontade de viver... ou nunca mais reclama de
nada.
A teoria foi
colocada em prática. Quando o ônibus apareceu, Américo deu um empurrão
daqueles. O motorista freou. Antônio Titia, tomado por um súbito e até então
desconhecido amor pela própria existência, disparou numa arrancada digna de
final olímpica dos cem metros rasos. Atravessou a rua mais rápido que o...
Bolte. Correu tanto que, segundo alguns, só parou quando alcançou o quintal de
casa. Naquele instante ficou comprovado que o sujeito não queria morrer coisa
nenhuma. Queria apenas chamar atenção. Missão cumprida.
Enquanto
Antônio Titia redescobria as vantagens de continuar respirando, Américo
Madrugada e Sérgio Litaiff concluíram que um episódio tão emocionante merecia
uma comemoração. Foram imediatamente ao Café do Pina. Porque, entre os boêmios
daquela geração, havia um remédio infalível para qualquer problema. Chamava-se
“mais uma rodada”. Evoé, Momo!