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sexta-feira, setembro 04, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 57

 


57. Fevereiro de 1967. Em pleno sábado gordo de carnaval, o Olímpico derrota o Nacional pela segunda vez seguida e pelo mesmo placar (2 a 0), no campo da Colina, e se transforma no novo campeão amazonense de futebol. 

Editor de Esportes do matutino O Jornal, Celso Antônio esperava impaciente, na redação, pela foto principal da primeira página para fechar o jornal. 

Com um radinho de pilha, ele havia acompanhado a transmissão do jogo e já sabia que o primeiro gol tinha sido de Sales cobrando falta, aos 16 minutos, e o segundo, um gol de placa de Irailton, aos 18 minutos, ambos no segundo tempo. 

Dali a algum tempo, chega correndo Marivaldo Pereira, velho e cansado fotógrafo dos Diários Associados. Celso Antônio grita aliviado:

– Tudo bem, Marivaldo? Pegou o golaço do Irailton?...

– Não deu pra pegar não, seu Celso. Foi muito rápido.

– E agora? Como é que eu vou fechar o jornal sem a foto do gol do título? Porra, Marivaldo, você acabou comigo...

– Ora, seu Celso, se o goleiro que é pago para isso não pegou, eu é que tinha que pegar?!... Fala sério...

Telecoteco do Balacobaco - Canto 56

 


56. Março de 1994. O artista plástico, carnavalesco e artesão Paulo Castelo era tão magro que, se tomasse um caldo de cana, fazia sombra de canudinho. Tinha o físico de um faquir indiano em fim de carreira e vivia desafiando as leis da nutrição. 

Nas horas vagas – que eram justamente aquelas em que não estava pintando alegorias nem inventando fantasias de carnaval – dedicava-se ao próspero, embora ligeiramente clandestino, comércio de quelônios. 

Comprava tartarugas e tracajás nas bandas do rio Purus e revendia no Mercadinho da Cachoeirinha, onde os bichos faziam mais sucesso que televisão em final de novela.

Naquele ano, o Ibama resolvera acabar com a festa. Montou um posto de fiscalização nas proximidades da reserva do Abufari, em Tapauá, o maior berçário natural de tartarugas da Amazônia e, por consequência, o pior lugar do mundo para quem estivesse transportando 200 quelônios escondidos no porão de um barco. 

E foi exatamente ali que a embarcação de Paulo Castelo acabou interceptada.

Quando o barco atracou, surgiu na proa uma figura que parecia ter acabado de escapar de um campo de concentração: só de cueca samba-canção, costelas em alto-relevo e um semblante que faria qualquer médico pedir exames antes mesmo do bom-dia.

Um dos fiscais anunciou, em tom burocrático:

– Gostaríamos de subir a bordo para uma inspeção de rotina.

Paulo nem piscou.

– Por mim, tudo bem... Só acho justo avisar que tivemos um surto de cólera aqui no barco. Metade da tripulação ficou internada em Tapauá e o resto está de cama no porão. Eu também peguei essa desgraça. Tirando a diarreia que não dá trégua, a desidratação e esses quilinhos que perdi, estou me sentindo uma maravilha.

Os fiscais se entreolharam. Olharam de novo para Paulo Castelo. Olharam outra vez. O sujeito era tão magro que a história fazia todo o sentido. Se dissesse que tinha perdido quinze quilos, ninguém perguntaria de onde. Houve uma rápida reunião técnica entre os agentes do Ibama. Durou menos de um minuto.

A conclusão foi unânime: duzentas tartarugas até podiam representar um grave crime ambiental. Mas arriscar pegar vibrião colérico por causa delas já era um sacrifício que não constava no edital do concurso. Mandaram Paulo seguir viagem.

Naquele dia, as tartarugas escaparam da fiscalização graças ao melhor disfarce já inventado pela natureza: um comerciante que parecia estar morrendo havia pelo menos três semanas.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 55

 


55. O sambista Nilton Delfino Marçal, o lendário Mestre Marçal, nasceu em 1930, no bairro de Ramos, no Rio de Janeiro. Morou em São Cristóvão, Olaria, Estácio, Inhaúma e Pilares. Morreu em 1994, em Pilares, mas, como todo bom portelense, deixou o coração estacionado em Madureira, onde até os pardais parecem cantar em ritmo de samba-enredo.

Ainda menino, aprendeu a tirar som de tudo o que aparecesse pela frente: cuíca, tamborim, surdo, tarol, pandeiro... Se dessem um balde e uma colher de pau, era capaz de montar uma bateria. Durante 22 anos comandou a bateria da Portela, até que, em 1985, resolveu sair da escola. Foi aquela velha história: em escola de samba, às vezes o surdo faz menos barulho que a política.

Marçal, porém, não era homem de desafinar. Deu a volta por cima na Unidos da Tijuca e, no fim dos anos 80, gravou discos que mostraram que sua voz era tão elegante quanto sua batida. Em “Pela Sombra”, de Nelson Sargento e Nei Lopes, aconselhava: “Siga em frente sem retorno e sem parada... Vá com Deus e siga pelo acostamento...” Era um filósofo do samba. Só não imaginava que, anos depois, pisaria em Manaus carregando bagagem suficiente para abrir uma filial da Casa Colombo.

No começo da década de 1990, Bosco Saraiva, presidente de honra da Reino Unido, convidou Mestre Marçal para ministrar um seminário sobre os segredos da armação de uma bateria de escola de samba. O curso era aberto a diretores de bateria, ritmistas e pagodeiros. A programação previa apenas um fim de semana em Manaus.

Quem foi recebê-lo no aeroporto foram Bosco Saraiva e Edu do Banjo. Abraços, fotografias, tapinhas nas costas.

– Vou ali dar uma mijadinha – avisou Marçal, desaparecendo em direção ao banheiro.

Enquanto isso, Bosco e Edu pegaram os comprovantes das bagagens e foram para a esteira. A primeira mala chegou. Depois outra. Mais uma. Outra. Mais duas. Quando a esteira finalmente parou, os dois estavam empurrando três carrinhos abarrotados com oito malas. Bosco olhou para Edu com a expressão de quem acabara de descobrir que o voo era fretado pela Portela inteira.

– Porra, Edu... eu mandei passagem pra um sambista. Pelo jeito ele trouxe escondidos o Monarco, a Velha Guarda, a bateria, a ala das baianas e, se bobear, até o Paulo da Portela.

Cinco minutos depois, Mestre Marçal apareceu assobiando, tranquilo como quem voltava da padaria. Olhou para os dois imóveis ao lado da montanha de malas e perguntou:

– Ué... vocês ainda estão aí? Vamos embora.

Edu, completamente perdido, perguntou:

– Mas... e o resto do pessoal?

– Que pessoal?

– Os donos dessas malas.

Marçal olhou em volta, depois para as malas, depois para Edu.

– Que donos, rapaz? Tudo isso é meu.

Bosco quase engasgou.

– Tudo seu?

– Claro. São alguns paletozinhos...

– Mas o senhor vai ficar só dois dias em Manaus!

– Justamente.

No Hotel Imperial, enquanto quatro carregadores faziam musculação involuntária levando a bagagem para o quarto, Edu não resistiu.

– Mestre, me desculpe a curiosidade, mas pra que tanto paletó?

Marçal respondeu com a serenidade de quem explicava um teorema de Einstein.

– Meu filho, um homem elegante nunca desafia o clima.

Fez uma pausa dramática e iniciou uma verdadeira palestra de meteorologia aplicada à alfaiataria.

– Vamos imaginar que hoje à noite chova. Aí entra o azul-marinho. Mas, se der só um friozinho, eu prefiro o marrom-escuro. Amanhã de manhã, se fizer um sol bonito, vai o branco perolizado. À noite, dependendo da umidade do ar, posso escolher o cinza-grafite ou o verde-musgo. Domingo... ah, domingo é uma incógnita. Posso acordar inspirado no risca-de-giz. Mas, se o tempo abrir, quem sabe um salmão? Agora, se o céu amanhecer indeciso, aí só um quadriculado resolve. Ou então o azul-turquesa.

Bosco e Edu ouviam aquilo em silêncio, como dois alunos diante de uma aula magna da Academia Brasileira de Alfaiataria.

Marçal ainda concluiu:

– E cada terno tem seu sapato, seu cinto e sua gravata. Porque elegância não é brincadeira. O samba pode até improvisar. O figurino, nunca.

Bosco balançou a cabeça, admirado. Saiu de casa pensando que iria aprender os segredos da bateria da Portela. Acabou descobrindo que o verdadeiro mestre também era doutor em previsão do tempo... desde que o clima fosse medido em paletós.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 54

 


54. Mestre Carlito acompanhava Chico da Silva numa excursão pelo Pará, uma turnê tão extensa que, segundo a lenda, eles tocaram em todos os 5 mil garimpos de Itaituba – e ainda sobraram dois ou três barrancos reclamando que haviam sido esquecidos. 

Nas horas vagas, enquanto Chico descansava a voz ou ia prosear com os garimpeiros, Carlito se trancava com o violão para inventar um arranjo diferente para uma música inédita de Rinaldo Buzaglo. Era o tipo de sujeito que achava mais fácil encontrar um acorde diminuto do que uma vaga para estacionar no centro de Manaus.

Numa manhã de domingo, Chico resolveu disputar uma animada pelada com o pessoal do garimpo “Vai Quem Quer”, um campeonato em que o impedimento era ignorado, mas carrinho por trás valia medalha de honra ao mérito. Carlito preferiu ficar no hotel, em paz, sentado à beira da piscina, espremendo acordes dissonantes do violão enquanto o café da manhã ainda fazia efeito.

Só que paz, em garimpo, dura menos que promessa de político em época de eleição. Na mesa ao lado, dois garimpeiros que já tinham ultrapassado o limite do álcool havia algumas doses começaram uma discussão filosófica sobre futebol. De repente, um deles resolveu enriquecer o debate com argumentos de aço: puxou um revólver Taurus calibre .38 de cano longo e o depositou sobre a mesa com a delicadeza de quem serve um cafezinho. Então disparou – felizmente apenas pela boca:

– Olha, caralho, a gente não precisa ir muito longe! Isso aqui é um berro flamenguista de matar ladrão! Sou flamenguista desde que nasci e todo vascaíno que eu conheço é ladrão, corno, viado, maconheiro, filho da puta, bandido, mau-caráter, trambiqueiro, nojento, safado, vagabundo, trampolineiro, vigário, qualira e ainda tem a mãe na zona! Tenho nojo de vascaíno! Não posso ver um que já me dá vontade de passar bala! Ô raça desgraçada!

Em seguida, virou-se para Carlito, que até aquele instante só queria descobrir se a nona do acorde era maior ou menor:

– Você não concorda, parente?

Naquele momento, Mestre Carlito viveu o maior conflito moral da carreira. De um lado, mais de quarenta anos de fidelidade ao Vasco da Gama. Do outro, um flamenguista bêbado segurando um .38, claramente disposto a transformar qualquer divergência esportiva em estatística policial.

Apesar da cegueira que escondia com óculos escuros, Carlito olhou para o revólver, olhou para o sujeito e respondeu com a serenidade dos grandes diplomatas:

– Concordo plenamente, meu amigo!

Naquele domingo, o Vasco perdeu mais um torcedor por alguns minutos. Mas, em compensação, Carlito ganhou o direito de continuar vivo para torcer de novo na segunda-feira.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 53

 

O "Aranha Negra" em ação

53. Maio de 1966. O Rio Negro estava enfrentando o time carioca do São Cristóvão no Parque Amazonense e vencendo por 3 a 0, gols de Horácio, Edson Piola e Cândido.

No segundo tempo, o time carioca foi para o tudo ou nada obrigando o goleiro rionegrino Clóvis, o “Aranha Negra”, a fazer verdadeiros milagres embaixo da trave.

De repente, o lateral esquerdo Antenor dá uma voadora no atacante Aladim, do São Cristóvão, e é expulso de campo.

Reclamando barbaridade do árbitro, ele se dirige para o vestiário, quando é interceptado pelo repórter de pista Raimundo Moreira, da Rádio Baré:

– E aí, Antenor, por que é que você está saindo mais cedo de campo?...

– Sei lá! – resmunga Antenor. – Pergunta daquele juiz filho da puta...

– Ôpa, ôpa, palavrão não! Palavrão não! – reage o repórter de pista. – Essa aqui é uma rádio familiar!

– Eu sei, eu sei! – se desculpa Antenor. – Mas eu falei juiz filho da puta no bom sentido...

O repórter de pista quase foi demitido na mesma hora pelo comentarista Luiz Saraiva, chefe da equipe esportiva da rádio.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 52

 


52. A graciosa atriz Ednelza Sahdo foi porta-bandeira da Mocidade de Aparecida desde a fundação da escola, em 1981, até pendurar o pavilhão, em 2006, quando passou a missão à neta Naruna. Durante esse quarto de século, cultivou um vício que preocupava a família mais do que dívida em cartão de crédito: fazia questão de confeccionar a própria fantasia.

Enquanto outras porta-bandeiras encomendavam seus figurinos a profissionais especializados, Ednelza encarava a empreitada como uma mistura de alta-costura, artesanato e prova de resistência.

Ela passava meses costurando lantejoulas, paetês, canutilhos e um número obsceno de pérolas, numa dedicação que faria Penélope pedir aposentadoria. E, obedecendo a uma tradição que parecia cláusula pétrea, a fantasia ficava pronta... duas horas antes do desfile. Apesar disso – ou justamente por causa disso –, colecionava notas dez.

Foi num desses carnavais que a tragédia resolveu vestir fantasia de comédia. Enquanto Ednelza bordava, em estado de transe, os últimos dois milhões de pérolas da saia rodada, a filha mais nova lançou um olhar desconfiado para a delicada sandalinha de lamê.

– Isso aí não aguenta nem um samba-enredo, quanto mais um desfile inteiro.

Tomada pelo espírito da engenharia improvisada, resolveu reforçar o calçado. Pegou dez preguinhos finos para cada lado do solado e os martelou com o entusiasmo de quem estava construindo a Ponte Rio-Niterói.

Ednelza não viu nada. Vestiu a fantasia, colocou a coroa, ajeitou o sorriso de porta-bandeira e deixou para calçar a sandália somente na concentração.

Mal começou a evoluir na avenida, sentiu uma pontada no calcanhar. Um dos pregos, cansado de viver escondido na sola, resolveu conhecer o mundo exterior. Entrou pelo pé da dona.

Ela passou a sambar na ponta do pé com uma elegância que fez muita gente acreditar que aquela coreografia fazia parte do enredo. Parecia a primeira bailarina do Teatro Bolshoi interpretando O Quebra-Nozes em ritmo de samba.

Só que a física é uma ciência cruel. Ao transferir o peso do corpo para a frente, outros quatro pregos atravessaram seus dedos. Instintivamente, Ednelza voltou a apoiar o pé inteiro no chão. Foi a vez de mais quatro pregos lhe perfurarem a planta do pé.

Naquele momento, seus pés já lembravam um porco-espinho em pleno desfile carnavalesco. Mas havia um pequeno detalhe: o jurado não podia saber. E não soube.

Sem perder o sorriso, sem deixar o pavilhão vacilar um milímetro e sem entregar o sofrimento nem por decreto, Ednelza rodopiou, cortejou o mestre-sala, cumpriu todas as evoluções e terminou o desfile como se estivesse pisando em pétalas de rosa – quando, na verdade, estava pisando em dez pregos.

Só na dispersão a cortina caiu. Com os pés ensanguentados, nem passou pela comemoração. Pegou o primeiro carro rumo ao Hospital Getúlio Vargas, onde recebeu curativos, uma injeção antitetânica e, provavelmente, o conselho médico de nunca mais aceitar serviços de engenharia doméstica em calçados de carnaval.

Passou uma semana sem conseguir andar. Mas, como todo bom sambista sabe, dor passa, troféu fica. A nota dez veio, a Mocidade de Aparecida conquistou mais um campeonato e Ednelza entrou para a história como, provavelmente, a única porta-bandeira capaz de vencer um carnaval sambando sobre um campo minado.

quarta-feira, setembro 02, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 51

 


51. O radialista Jurandir Vieira estava entrevistando o compositor Chico da Silva em seu programa na rádio Difusora e iniciou a rasgação de seda:

– Esse aqui todo mundo conhece. Além de meu amigo particular, Chico da Silva já foi um dos campeões de audiência do “Fantástico”, da rede Globo, já foi o maior compositor de jingles políticos de Manaus, já foi jogador de futebol profissional, já foi compositor da Alcione, já foi parceiro do Noca da Portela, já foi compositor do bumbá Caprichoso, já foi compositor do bumbá Garantido, já foi membro do Clube do Samba, já foi...

Tomando o microfone do radialista, Chico da Silva reagiu indignado:

– Porra, compadre, me enterra logo! Me manda logo pro cemitério São João Batista, porque pelo jeito esse seu amigo aqui já morreu e não sabe! Já foi, já foi, já foi... Já foi, um caralho! Eu sou, porra, eu sou!!!

Jurandir Vieira não sabia onde esconder a cara.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 50

 

Os foliões Marcus Pereira, Albino Pinheiro, Arthur Moreira Lima
 e Sérgio Cabral na Banda de Ipanema 

50. Há pessoas que nascem numa cidade. Albino Pinheiro nasceu no Rio de Janeiro. Parece a mesma coisa, mas não é. Morrer no Rio é uma circunstância. Nascer carioca é uma profissão. Quando Albino morreu, em 24 de junho de 1999, aos 66 anos, depois de uma longa batalha contra um câncer na medula óssea, os jornais tentaram resumir sua vida. Disseram que era procurador do Estado, pesquisador do carnaval, produtor cultural, criador da Banda de Ipanema, secretário de Turismo, boêmio. Erraram todos. Albino era carioca. E isso já dava um expediente de vinte e quatro horas por dia.

A Banda de Ipanema, fundada em 1965, foi apenas sua obra mais fotografada. O verdadeiro trabalho de Albino era muito mais ambicioso: impedir que o Rio de Janeiro esquecesse quem era. Ele fazia isso como outros respiram. O Rio era sua religião, sua obsessão e, em muitos momentos, seu estado civil. Passou a vida inteira estudando a cidade como um arqueólogo estuda uma civilização perdida. A diferença é que, enquanto o arqueólogo escava ruínas, Albino escavava botequins.

Durante décadas foi capaz de explicar, com a mesma desenvoltura, a origem de um bloco de carnaval, o melhor chope da Lapa, a genealogia de uma porta-bandeira e o nome do garçom que servia a melhor batida de maracujá da Praça Tiradentes em 1958. O Google jamais teria essa coragem.

Seu único carnaval fora do Rio aconteceu em 1959. E contra a própria vontade. Uns amigos aproveitaram que Albino estava democraticamente embriagado, colocaram-no dentro de uma caminhonete e seguiram viagem. Quando acordou, estava em Ubá, Minas Gerais. Imagine acordar em Minas durante o carnaval sendo carioca. Era como um peixe descobrir que havia dormido num deserto. Qualquer outra pessoa passaria o resto da vida reclamando do sequestro. Albino voltou agradecendo.

Porque foi justamente a bandinha de Ubá que lhe deu a ideia, seis anos depois, de criar a Banda de Ipanema. Transformou um trauma etílico numa das maiores invenções do carnaval brasileiro. Era muito Albino. Mas seu maior feito nem foi esse.

Nos anos 60, existiam dois Rios que raramente conversavam. O Rio elegante dos apartamentos de Ipanema. E o Rio dos morros, dos subúrbios, das gafieiras e das escolas de samba. Albino resolveu apresentar um ao outro. Foi uma espécie de embaixador sem gravata.

Pegava intelectuais da Zona Sul e os levava para ouvir Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Jair do Cavaquinho e tantos outros quando eles ainda eram conhecidos apenas pelo carteiro, pelo dono do botequim e pelos vizinhos. Hoje chamariam isso de intercâmbio cultural. Albino chamava de sexta-feira.

Sua biografia ajudava. Nasceu na Saúde e cresceu em Laranjeiras. Estudava no Liceu Francês, frequentava o Fluminense, mas bastava ouvir um tamborim na esquina para esquecer qualquer vocação aristocrática. Enquanto os colegas sonhavam com Copacabana, Albino sonhava com gafieiras.

Aos catorze anos já explorava a Praça Tiradentes como um antropólogo especializado em samba. Frequentava bailes onde encontrava, entre outras figuras ilustres, as empregadas de sua própria casa. Subornava todas. Não para conseguir informações. Mas para que não contassem nada ao pai. Ali começou uma carreira brilhante na diplomacia.

Quando finalmente chegou a Ipanema, entrou pela porta da frente. As famosas domingueiras de Aníbal Machado reuniam escritores, pintores, cineastas, músicos e intelectuais. Albino encontrou por lá gente como Albert Camus. O escritor francês talvez tenha explicado o absurdo da existência. Albino provavelmente respondeu indicando uma boa feijoada em Vila Isabel. Terminadas as reuniões, todos iam para o Zeppelin. Anos depois, Albino já nem aparecia tanto nas tertúlias literárias. Mas continuava rigorosamente fiel ao botequim. Cada um prestigia o patrimônio cultural que considera mais importante.

Foi também ele quem tirou os bailes pré-carnavalescos dos salões elegantes e os levou para a Estudantina e outras gafieiras. Apresentou Nelson Cavaquinho a plateias que jamais tinham ouvido falar dele. Hoje isso parece inacreditável. É como descobrir que houve um tempo em que alguém precisou apresentar Pelé ao futebol. Quando Vinicius de Moraes dizia querer ser “o branco mais preto do Brasil”, José Ramos Tinhorão encerrava a discussão: Albino não precisava querer. Já era.

Os réveillons organizados por Albino, Jaguar e Ferdy Carneiro entraram para a história. Misturavam sambistas, compositores, passistas, jornalistas, artistas, boêmios e algumas das mulheres mais bonitas do Rio. Aliás, havia um mistério que jamais foi esclarecido. Ninguém sabia onde Albino encontrava tantas mulheres bonitas. Talvez existisse uma espécie de cadastro secreto. Ou talvez elas simplesmente soubessem onde estava a melhor festa.

Sempre que algum prefeito realmente gostava do Rio – acontecimento estatisticamente raro – lembrava de chamar Albino. Ele organizava carnaval em praças, ressuscitava banhos de mar à fantasia, revitalizava a Festa da Penha, criava o Projeto Seis e Meia, ajudava a preservar o Centro Histórico e ainda encontrava tempo para transformar qualquer esquina num ponto de encontro. Parecia possuir um calendário com trinta e sete meses.

Mas toda essa intensa produção cultural jamais atrapalhou sua principal atividade. Beber chope. Durante meio século foi um dos maiores responsáveis pelo equilíbrio financeiro dos bares cariocas. Há quem diga que Albino conhecia todos os garçons do Rio. Os garçons juram que eram eles que conheciam Albino.

Na rua Almirante Saddock de Sá, onde morava, promovia festas na calçada como quem estende a sala de casa até a esquina. Cerveja. Mesas. Cadeiras. Sambistas. Vizinhos. Ninguém reclamava. Primeiro, porque era impossível ficar de mau humor numa festa organizada por Albino. Segundo, porque todos sabiam que ele possuía uma escritura afetiva daquele pedaço de Ipanema.

Sua maior frustração foi nunca ter escrito o grande livro sobre a história do Rio. Talvez nem precisasse. Albino preferiu viver o livro. Página por página. Chope por chope. Carnaval por carnaval. E deixou a impressão de que, enquanto existisse um botequim aberto, um bloco desafinado e uma roda de samba improvisada numa calçada qualquer, o Rio continuaria encontrando um jeito de parecer com Albino Pinheiro.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 49

 


49. Revelado no campo do Oratório de São Domingos Sávio, na Praça 14, o centroavante Sebastião do Socorro Araújo de Oliveira, o “Dentinho”, jogou profissionalmente pelo São Raimundo (1974-1975), Rio Negro (1976), Fast Club (1977-1978) e foi vendido para a Portuguesa de Desportos, de São Paulo, no meio do campeonato amazonense daquele ano.

Após uma brilhante partida de estreia pela Lusa, no campo do Canindé, onde marcou três gols contra a equipe do Palmeiras, Dentinho foi entrevistado por um repórter de pista quando deixava o campo:

– O centroavante Dentinho veio lá de Manaus e já começou a mostrar serviço. Na partida de hoje, ele marcou três golaços e mostrou que vai dar muito trabalho pros goleiros adversários. Vamos conversar um pouquinho com o centroavante. Ô Dentinho! Diz aí pros ouvintes da rádio Tupi qual a razão desse apelido tão engraçado...

Exibindo os incisivos de Itu que trazia na arcada dentária, o centroavante explicou, meio rindo, no seu habitual dialeto amazônico:

– Ah... Isso foi fuleiragem lá da raça...

Até hoje o repórter de pista não entendeu a resposta. Nem os ouvintes da rádio Tupi.

Na sua segunda partida, Portuguesa e Juventus, Dentinho marcou apenas um gol na apertada vitória da Lusa por 2 a 1. Um outro repórter de pista foi entrevistá-lo:

– Vamos falar agora com o Dentinho, que veio lá de Manaus. Ô, Dentinho, foi um jogo catimbado, violento, pegado, mas a Portuguesa saiu vitoriosa. Conta aqui pros ouvintes da rádio Jovem Pan o que foi que você achou...

Sério que só cu de porco, Dentinho abriu o verbo:

– Rapaz, eu não achei porra nenhuma. Mas o lateral-esquerdo Buiu achou uma medalhinha de São Jorge ali perto da bandeirinha de escanteio. Vai lá falar com ele...

O repórter de pista ficou mudo de espanto.

No terceiro jogo da Lusa, Dentinho marcou 4 gols na goleada de 6 a 1 sobre o São Caetano e foi escolhido o melhor jogador em campo. Um repórter de pista se aproximou do centroavante para lhe dar a notícia:

– Ô, Dentinho, parabéns pela sua brilhante atuação no jogo de hoje. Os comentaristas da rádio Globo escolheram você como melhor jogador em campo e vão lhe dar um Motorádio de presente. O que você pretende fazer com o prêmio?

Dentinho nem titubeou:

– A moto eu vou vender e o rádio vou dar de presente pra mamãe...

Nunca mais os repórteres de pista quiseram entrevistar o manauara.

Mas nem só de gafes vivia o centroavante.

Em 1983, Dentinho chamou a atenção do Brasil ao marcar 42 gols no campeonato paraibano daquele ano, jogando pelo Botafogo, de João Pessoa. Com isso se tornou o maior artilheiro da competição em uma só edição, além de ser o 3º jogador com mais gols em uma edição de campeonato estadual, atrás apenas de Pelé, do Santos (que marcou 58 gols no campeonato paulista de 1958), e Ninão, do Palestra Itália (que marcou 43 gols no campeonato mineiro de 1928). O Palestra Itália depois seria rebatizado de Cruzeiro.

Naquele mesmo ano, Dentinho foi o futebolista que mais marcou gols pelo Brasil, 53 no total, se tornando o artilheiro do Brasil na temporada. Não foi pouca porcaria.

segunda-feira, agosto 31, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 48

 

O apresentador Otávio Mesquita

48. Carnaval de 1995. Naquela terça-feira gorda, a Band resolveu fazer um passeio carnavalesco pelo Brasil. O telespectador saía da Ilha Porchat, dava uma voltinha no Scala Gay, espiava o Baile da Cidade, passava pelo Vermelho e Preto e, de repente, desembarcava em Manaus como quem troca de canal sem trocar de fantasia. O comandante da folia era Otávio Mesquita, transmitindo tudo ao vivo da Ilha Porchat. Lá pelas tantas, anunciou:

– Vamos ver como está o Baile do Havaí, no Tropical Hotel, em Manaus.

Corta para Manaus. Entrou no ar um apresentador local visivelmente empenhado em convencer o Brasil de que ali acontecia o maior carnaval do hemisfério.

– A festa está pegando fogo! É o melhor carnaval da cidade! Uma animação contagiante!

Enquanto isso, as imagens conspiravam contra o texto. A câmera mostrava senhores respeitáveis praticando um samba compatível com suas taxas de colesterol, algumas dezenas de foliões que já haviam perdido qualquer compromisso com a sobriedade e uma quantidade industrial de senhoras elegantíssimas com a mesma expressão de quem esperava havia duas horas pelo prato principal de um casamento.

Era uma divergência filosófica entre áudio e vídeo. O locutor descrevia o Sambódromo. A câmera insistia num baile de condomínio. Foi então que, lá da central técnica da TV Rio Negro, o diretor de imagens avistou a atriz Gisela Prochaska sambando sobre uma mesa. Era a salvação da transmissão. Apertou o botão do ponto eletrônico e disparou para o cinegrafista:

– Enquadra na Prochaska! Enquadra na Prochaska!

Até aí, tudo certo. O problema é que o apresentador resolveu funcionar como pombo-correio. Em vez de fingir naturalidade, repetiu no ar:

– Ô Faísca, o Ediney está pedindo para você enquadrar na Prochaska.

Ao vivo. Para todo o Brasil. O cinegrafista Faísca ouviu a ordem. Só não ligou o sobrenome à atriz. Nem precisava. Naquele instante, identificou sobre uma mesa uma loura escultural usando um biquíni branco tão econômico que a Receita Federal talvez o classificasse como sonegação de tecido. Concluiu, com a segurança dos grandes incompreendidos, que aquilo era a tal “prochaska”. E enquadrou o monte pubiano da louraça. Mas enquadrou com entusiasmo. Com dedicação. Com espírito científico.

A câmera avançou em velocidade de documentário do National Geographic. Se aproximou tanto que o telespectador brasileiro ficou com a impressão de que, dali a alguns segundos, surgiria um ginecologista pedindo “mais um pouquinho para a direita”. Nunca um zoom foi tão obediente. No estúdio da Band instalou-se aquele silêncio constrangedor que dura apenas dois segundos, mas parece uma quaresma.

Otávio Mesquita, tentando salvar a transmissão com o improviso de quem tentava apagar um incêndio usando um copo d’água, comentou:

– É... realmente o negócio em Manaus está pegando fogo...

Fez uma pausa. Olhou novamente para o monitor. E concluiu:

– Tem cada Prochaska que vou te contar...

A essa altura, metade do Brasil ria. A outra metade procurava entender por que a atriz havia mudado tanto de fisionomia. O cinegrafista Faísca, porém, descobriu no dia seguinte que existe uma diferença importante entre interpretar uma ordem e reinventá-la. Foi demitido.

Entrou para a história da televisão brasileira como o único cinegrafista que levou ao pé da letra um comando técnico e acabou produzindo, em rede nacional, o mais famoso close equivocado do carnaval amazonense.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 47

 

O cantor e compositor Rinaldo Buzaglo

47. Outubro de 1986. Morador do conjunto Beverly Hills, o violonista Altairzinho Nunes tinha um pastor alemão chamado Ringo, que ganhou esse nome porque era tão ou mais violento quanto o famoso pistoleiro do cinema: o cão não perdoava, matava! E matava qualquer coisa que tivesse vida própria e entrasse em seu raio de ação. Quando a fera estava solta no quintal, até os familiares do violonista mantinham uma distância prudente.

Num determinado domingo, Mestre Carlito e Rinaldo Buzaglo estavam enchendo a cara no boteco de um posto de gasolina, próximo do conjunto Santos Dumont, quando bateu uma saudade inexplicável do Altairzinho.

– Vamos fazer uma serenata pro Altairzinho, compadre? – propôs Rinaldo.

– Só se for agora! – devolveu Mestre Carlito.

Eram quase cinco horas da manhã de segunda-feira. Pra lá de Marrakesh, os dois entraram no fusquinha de Rinaldo e rumaram para o conjunto Beverly Hills.

Lá chegando, pularam o muro da casa. Mestre Carlito retirou a gaita do bolso, se agachou embaixo da janela de Altairzinho e começou os primeiros acordes de “Diamante cor-de-rosa”. Na sequência, Rinaldo entrou com o violão.

Ouvindo aquilo, Altairzinho abriu a janela e acendeu a luz externa da residência, com o coração apreensivo: se Ringo escutasse aquilo iria estraçalhar os “invasores”. Ele quase caiu pra trás, com a cena.

Ainda agachado, Mestre Carlito tentava afastar as patas de Ringo dos seus ombros com uma das mãos – enquanto o cão insistia em lhe lamber o rosto – e com a outra mão livre continuava soprando a gaita.

Para Altairzinho só havia uma explicação: no fundo, no fundo, o seu pastor alemão nutria um desejo secreto de ser guia de deficiente visual. E se Mestre Carlito não fosse cego, com certeza teria saído correndo diante da aparição daquele famigerado cachorro.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 46

 


46. Outubro de 1976. Em jogo válido pelo Campeonato Brasileiro, o Rio Negro, de Manaus, estava enfrentando o Paysandu, em Belém (PA), e perdendo de 2 a 0, gols de Fefeu e Roberto Bacuri, em pleno estádio do adversário.. 

A torcida do “Papão da Curuzu”, cada vez mais histérica e alucinada, não parava de arremessar bagaço de laranja nas costas do treinador rionegrino. 

Na maior tranquilidade, o técnico Gerson Santos devolvia os bagaços para os torcedores, jogando por cima de seu ombro, sem olhar pra trás.

O volante Dilson, que estava no banco, não resistiu:

– Qualé, professor? Dando munição para o inimigo...

Imperturbável, Gerson continuou na sua inglória tarefa, mas deu uma dica importante:

– Se acabarem os bagaços de laranja, eles vão jogar pedras, garrafas, tijolos, pilhas, tudo que encontrarem pela frente...

sexta-feira, agosto 28, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 45

 


45. Abril de 2002. O bar da Dona Jura, em O Clone, preparava-se para receber um convidado que parecia ter saído do departamento de criação do próprio Rio de Janeiro. Um homem movido a ziriguidum, telecoteco, balacobaco, borogodó e outras palavras que o dicionário jamais conseguiu explicar, mas qualquer sambista entendia perfeitamente. Era Oswaldo Sargentelli, o homem das mulatas que não estavam no mapa.

Se o Cristo Redentor resolvesse descer do Corcovado para tomar uma cerveja na Lapa, provavelmente encontraria Sargentelli sentado na primeira mesa, cercado de amigos, mulatas, músicos e meia dúzia de histórias que ninguém acreditaria se não tivesse acontecido.

Sambista, radialista, apresentador, empresário, animador, boêmio e, acima de tudo, “mulatólogo” – profissão criada por ele mesmo porque nenhuma outra era capaz de descrever exatamente o que fazia. Hoje a palavra certamente provocaria um inquérito nas redes sociais. Naquela época rendia aplausos, manchetes e casas lotadas.

Sobrinho do famoso compositor Lamartine Babo (seu pai biológico era Leopoldo de Azeredo Babo, irmão de Lamartine), carioca da Lapa, ele nasceu em 8 de dezembro de 1924. Foi criado pela mãe, Maria Amélia, já que o pai desapareceu da história antes mesmo de resolver registrá-lo. Talvez por isso Oswaldo tenha aprendido cedo que, na vida, era preciso fazer barulho para ser notado. E fazia. Desde menino gostava de microfone como criança gosta de sorvete. Apresentava festinhas escolares, imitava locutores e narrava acontecimentos que ninguém havia pedido para serem narrados.

Nos anos 40 foi a São Paulo com uns tios ligados ao teatro. Assistiu ao tenor italiano Tito Schipa cantando a ópera Vivere e decidiu que seria cantor. Participou do programa de calouros de Ary Barroso, ganhou o concurso e voltou para casa convencido de que o destino finalmente lhe abrira a porta. O destino, porém, era carioca. Abriu a porta, mas era a porta errada. A carreira de cantor durou menos que promessa de político em ano eleitoral. Sargentelli formou-se em Contabilidade, trabalhou na Aeronáutica, passou pela Ultragaz e parecia condenado a uma vida respeitavelmente sem graça. Ainda bem que desistiu dela.

Em 1948 estreou como locutor da Rádio Clube do Brasil. A voz grave era tão marcante que, se anunciasse um apagão, metade da cidade apagaria a luz por educação. Passou pela Rádio Mauá, Rádio Guanabara, Rádio Nacional e fez de tudo um pouco: apresentou programas de samba, narrou futebol e distribuiu opiniões com a mesma elegância com que distribuía bordões.

Na televisão virou figura obrigatória. Seu programa Preto no Branco era tão temido que alguns convidados provavelmente prefeririam enfrentar uma extração de dente sem anestesia. Sargentelli fazia perguntas como quem aplicava interrogatório da Polícia Federal.

Veio 1964. O golpe militar cassou seu espaço na televisão e no rádio. Foi um daqueles casos raros em que o destino empurra o sujeito escada abaixo e ele descobre que havia um elevador esperando no térreo.



Sem poder trabalhar na comunicação, resolveu organizar espetáculos de samba. Com mulatas. Era a combinação perfeita. Sargentelli entendia de samba. As mulatas entendiam de palco. E os turistas entendiam que valia cada centavo do ingresso.

Em pouco tempo inaugurou a Sambão, depois a lendária Sucata, ao lado de Ricardo Amaral, e mais tarde a Oba-Oba. Eram casas tão badaladas que, se você aparecesse sem reserva, tinha mais chance de conseguir audiência com o Papa do que uma mesa perto do palco.

Mas seria injusto imaginar que Sargentelli só descobriu o samba quando descobriu as mulatas. Muito antes disso ele já era figurinha fácil nos botequins da Tijuca e de Vila Isabel. Convivia com Jamelão, Monsueto, Elizeth Cardoso e tantos outros que qualquer mesa em que sentasse acabava parecendo uma reunião extraordinária da Academia Brasileira do Samba.

Suas frases também eram patrimônio nacional. Gostava de dizer que expressões como telecoteco, balacobaco, ziriguidum e borogodó não eram invenções suas. Apenas recolhia aquilo que o povo produzia espontaneamente nas calçadas, nos botequins e nas rodas de samba. Era uma espécie de IBGE da malandragem carioca.

Quando perguntaram o que era música brasileira de verdade, respondeu sem pestanejar: era batuque, era chorinho, era lamento sertanejo, era samba de telecoteco. O resto podia até ser música, mas precisava pedir visto para entrar.

No auge da fama, mantinha cerca de quarenta mulatas contratadas. Quarenta. Era praticamente um batalhão. E havia disciplina militar. As dançarinas não podiam conversar com clientes, aceitar bilhetes nem criar intimidade com o público. Um bilhetinho recebido significava demissão sumária. Se o garçom servisse de pombo-correio, os dois iam para a rua.

Sargentelli administrava suas boates com a severidade de um diretor de colégio interno e a animação de um mestre-sala depois de três caipirinhas. Acusaram-no diversas vezes de facilitar a prostituição. Negou sempre. Dizia que suas casas vendiam espetáculo, não companhia.

Em abril de 2002, o destino resolveu escrever seu último roteiro. Convidado para participar de O Clone, Sargentelli foi homenageado justamente por Solange Couto, uma das mulatas que ajudara a lançar décadas antes. A vida parecia fechar um círculo perfeito. Mas resolveu colocar um ponto-final antes do último aplauso.

Durante as gravações sofreu um infarto fulminante e morreu aos 77 anos. O Botafogo perdeu um torcedor apaixonado. A Portela perdeu um admirador de carteirinha. O samba perdeu um dos seus maiores divulgadores. E o dicionário brasileiro ficou perigosamente ameaçado de nunca mais ganhar palavras como telecoteco, balacobaco, ziriguidum e borogodó pronunciadas com tanta convicção. Porque Sargentelli não era apenas um personagem do samba. Era um carioca em estado de exagero.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 44

 

O cantor e compositor Mauro Diniz

44. No início dos anos 90, Bosco Saraiva resolveu expandir os domínios da Reino Unido. Abriu uma filial da escola de samba no Olímpico Clube, graças a um convênio com o presidente Almerinho Botelho. Para inaugurar o novo reduto do samba, anunciou duas atrações de respeito: Mauro Diniz e Quinho da Ilha. Era como prometer Pelé e Garrincha para uma pelada de bairro.

Mauro Diniz vinha com pedigree. Nascido em Oswaldo Cruz, praticamente aprendeu a andar no terreiro da Portela. Aos quatro anos, já ficava entre as pernas do pai, o lendário Monarco, arrancando acordes do cavaquinho e suspiros dos bambas da Velha-Guarda. Aos oito, já compunha samba-enredo para bloco carnavalesco e ganhara da mãe, Thereza, um violão. Enquanto outras crianças brincavam de pique-esconde, Mauro fazia estágio supervisionado na Portela.

Quinho da Ilha não carregava um sobrenome tão pesado quanto Mauro, mas, em 1989, explodira com “Festa Profana”, o samba-enredo da União da Ilha que levou a escola a um histórico terceiro lugar. Naquele ano, até quem odiava carnaval andava pela rua cantarolando: “Eu vou tomar um porre de felicidade...”. O Brasil inteiro sabia o refrão. Alguns nem sabiam o nome do presidente da República, mas sabiam o samba inteiro.

No dia da chegada, Bosco e Almerinho foram ao aeroporto receber as estrelas. Só que as estrelas resolveram não comparecer. Bosco telefonou para Mauro Diniz.

– Meu irmão, estou derrubado. Quarenta graus de febre. Mas fique tranquilo. Para não furar, mandei meu pai.

Mandou o pai. Como quem diz: “Não consegui levar o Roberto Carlos, mas estou enviando dona Laura.”

Bosco saiu pelo aeroporto até encontrar Monarco, completamente perdido entre as esteiras de bagagem, olhando para um lado e para o outro como quem procurava a Portela no Eduardo Gomes. Bosco se apresentou, chamou Almerinho para conhecer Monarco e respirou aliviado. Metade do prejuízo estava resolvida. Faltava a outra metade. Ligou para Quinho.

– Rapaz, o presidente da escola proibiu minha viagem. Mas não se preocupe. Mandei meu irmão.

Bosco gelou.

– Seu... irmão?

– Isso. Zinho da Ilha. Mesma voz. Mesmo repertório.

Quando desligou o telefone, Bosco teve a impressão de ouvir uma gargalhada do destino. Saiu pelo aeroporto procurando Zinho e encontrou um cidadão que lembrava uma mistura de Reginaldo Rossi com fiscal do Detran aposentado. O sujeito sorriu, estendeu a mão e confirmou:

– Sou eu mesmo. Zinho da Ilha.

Bosco preferiu não fazer perguntas. Quem faz pergunta demais acaba ouvindo resposta.

À noite, antes do espetáculo, Bosco parecia pai de noiva esperando a cerimônia começar. Andava de um lado para outro repetindo as instruções ao apresentador Ivan Oliveira.

– Ivan, explica direitinho. Diz que Mauro ficou doente, mas veio o Monarco. Fala que ele é uma lenda viva. Capricha nos adjetivos.

Nem precisava exagerar. Monarco dispensava apresentações. Era um dos maiores compositores da Portela, autor de clássicos gravados por Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Clara Nunes. Qualquer roda de samba ficava pequena perto dele. O problema era o outro.

Bosco olhava para Zinho como quem observa uma bomba-relógio tentando adivinhar em qual segundo ela explode. Ivan, mais otimista do que responsável, tranquilizou o amigo:

– Relaxa, chefe. A gente apaga um pouco as luzes. Se ele tiver mesmo a voz parecida com a do irmão, ninguém percebe.

Fez uma pausa.

– Até porque eu nunca vi o Quinho pessoalmente...

Era um plano tão sólido quanto guardar dinheiro em saco de papel. Monarco abriu o show. Cantou, encantou, distribuiu elegância e mostrou por que era um monumento do samba. Quando terminou, saiu aplaudidíssimo.

Entrou Zinho. Nos primeiros trinta segundos, a plateia ainda alimentava alguma esperança. No primeiro minuto, começou a desconfiar. No segundo, já queria o dinheiro de volta. A única característica realmente parecida com a do irmão era que, em qualquer música – qualquer uma – Zinho encontrava um jeito de encaixar um estridente:

– Ê, ê, ê, ê, ê... minha Ilha! Minha Ilha!

Podia ser Cartola, Nelson Cavaquinho ou até “Parabéns pra Você”. Em algum momento aparecia a Ilha. De resto, era um desastre de dimensões geológicas. O homem desafinava em tons ainda não catalogados pela ciência. Parecia conhecer o samba apenas por fotografia. Cantava como quem tinha aprendido o repertório no táxi, vindo do aeroporto.

Quando o show terminou, Bosco e Almerinho descobriram que a plateia amazonense pode até perdoar um desafino, mas não perdoa propaganda enganosa. Escaparam do linchamento porque correram mais do que os seguranças.

No dia seguinte, a filial da Reino Unido fechou as portas. Durou menos que dieta vegana começada na segunda-feira. E o Olímpico Clube – que os mais antigos ainda insistiam em chamar de Clube dos Cinco Aros – levou anos para convencer o público de que, dali em diante, quando anunciasse um artista, seria exatamente aquele artista que subiria ao palco.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 43

 


43. Os sambistas Zeca Pagodinho e Jovelina Pérola Negra estavam fazendo um show em Cascadura, subúrbio carioca, mas ela estava meio agoniada porque não tinha dinheiro para voltar pra casa e o cachê só seria pago no dia seguinte. O cantor sugeriu que ela pegasse uma grana adiantada no caixa. O rapaz da bilheteria lhe deu a importância solicitada e cantou a pedra:

– Dona Jovelina, estou lhe dando esse valor em consideração ao Zeca Pagodinho, mas depois vou descontar tudinho no seu borderô...

A cantora subiu nas tamancas:

– Me respeita, vagabundo, que eu nem te conheço direito... Se nem o meu marido colocou no meu borderô, não vai ser você que vai colocar! Se oriente, moleque, e se dê tenência que eu sou uma mulher direita e não gosto desse tipo de putaria! Vai descontar no borderô da puta que pariu!

Foi um cu de touro pro Zeca Pagodinho explicar pra cantora que borderô não era sinônimo de buzanfã.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 42

 

O radialista F. Cavalcante e o DJ Beto Balanço

42. Fevereiro de 1980. Naquela noite, o Olímpico Clube estava realizando o seu badalado Baile do Havaí. A venda de mesas havia se esgotado com um mês de antecedência. Só entrava individualmente quem tivesse convite autenticado pelo presidente do clube. Sem convite, nem o Papa João Paulo II, o polonês Karol Józef Wojtyła, teria acesso ao panavueiro.

Chega Francisco Cavalcante, simples e tranquilo. Meteu a mão no bolso da camisa, tinha esquecido o convite. Procurou, não achou. Foi entrando, o porteiro barrou:

– Sem convite, não entra.

– Sou o radialista F. Cavalcante, faço o programa radiofônico “E Éramos Todos Jovens”, de segunda a sábado, na rádio Difusora, e o baile mensal “For Making Love”, no Juventus, de Santo Antônio, com mesas liberadas.  Devo ter esquecido o convite no estúdio da rádio...

– Se o senhor é o F. Cavalcante, eu sou o rei do Sião, meu amigo! Sem convite, não entra nem pelo caralho!

F. Cavalcante deu meia volta, ficou esperando.

Chega o advogado Ari de Castro Filho, presidente do clube.

– Meu querido radialista, que bom que você veio. Vamos entrar.

– Não posso. Esqueci o convite.

– E daí? Quem disse que você não podia entrar?

– O rei do Sião, aquele senhor simpático que está logo ali...

Ari ficou puto da vida e deu uma espinafrada básica no rei do Sião por não ter reconhecido o radialista mais famoso de Manaus. Entraram os dois.