Por Mouzar Benedito
No próximo dia 16 de agosto tem um evento muito especial em
Belo Horizonte, e quero falar dele, mas vou começar do começo, como se diz.
Era tempo de ditadura braba, governo Garrastazu Médici, em
setembro de 1971, quando fui passar uns dias na minha terra, Nova Resende.
Estava num churrasco com amigos mais velhos, chegou um conhecido e começou a
falar no ouvido de alguns deles, e todos faziam cara de espanto, ficavam
sérios.
Desconfiado, cheguei nele e cobrei: “Do que estão falando?
Quero saber também”. Ele respondeu: “Prenderam o filho do Quita. Ele é acusado
de terrorismo”.
Quita era o apelido do Dr. José Gonçalves de Rezende, nosso
conterrâneo, desembargador em Belo Horizonte. O filho dele que foi preso era o
Zé Roberto, que eu não conhecia, porque mudou-se de Nova Resende quando eu era
muito criança.
Eu sabia o que aconteceria com ele: muita tortura, talvez
até a morte na prisão. Mas minha sensação foi estranha, de orgulho. Saber que
um conterrâneo participava da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), era
guerrilheiro contra a ditadura, me deu a sensação de que minha terra tinha
motivo para orgulhar-se de um filho que não fugiu à luta.
Visitas aos presos políticos
Em 1978 tive que me mudar pro Rio de Janeiro. Em São Paulo
eu estava no que chamavam “lista negra” e não tinha como sobreviver, porque fui
demitido do Sesc por causa da participação na imprensa alternativa, e ninguém
me dava emprego. Encontrei uma prima do Zé Roberto que morava lá, a Cleuza. No
início de 1979, ela me procurou informando que abriram a possiblidade de presos
serem visitados por amigos, com um limite de três visitantes para cada um,
tinha comentado com o Zé Roberto sobre minha militância e ele queria me
conhecer. Perguntou se eu topava ir ao presídio da Rua Frei Caneca... Topei,
claro. A preocupação dela, me perguntando se topava era porque a mera visita a
presos políticos era vista como meio perigosa, já dava “ficha no Dops”, segundo
diziam.
Fiquei impressionado. Tive que passar por sete grades para
chegar à ala dos presos políticos, sendo mal-encarado em cada uma delas, e
entre a sexta e a sétima fui revistado de alto a baixo. Tive até que esvaziar
todos os bolsos, tirar o sapato e a meia para verem se tinha algum papelzinho
com qualquer recado para eles, e abrir o maço de cigarros (eu fumava, na época)
que também foi revistado com rigor... Dava mesmo para se sentir ameaçado
visitar os presos políticos.
Uma ala antes da que eu ia, ficava a dos presos pertencentes
ao Esquadrão da Morte, cujos visitantes entraram ao mesmo tempo que eu, e vi
que ninguém era revistado. Uma mulher levava com uma caixa que me disse conter
um bolo de aniversário, poderia ter armas de fogo poderosas dentro.
Havia uns 70 presos lá, e conversei não só com o Zé Roberto,
mas com vários deles. Comentei com o Zé Roberto sobre a pena que ele devia
cumprir: duas prisões perpétuas mais 69 anos de cadeia. Teria que morrer duas
vezes e ter uma terceira vida bem longa para cumprir tudo. Não fui criativo:
todo mundo falava isso, até em tom de piada.
As duas condenações à prisão perpétua foram por participação
no sequestro dos embaixadores da Alemanha, trocado por 45 companheiros que
estavam presos e sendo torturados, e da Suíça, trocado por 70 presos igualmente
vítimas de torturas.
Na hora me surgiu a ideia de fazer matérias sobre presos
políticos pro jornal Em Tempo, muito combativo, que ajudei a fundar, mas que
tinha me afastado. Entrevistei presos e fui anotando. Mas, na hora de sair, me
recomendaram que decorasse o que escrevi e queimasse o papel, porque seria
revistado com rigor na saída também. Aconteceu mesmo. Para não esquecer o que
tinha escrito, entrei num bar em frente ao presídio, pedi uma pinga, uma
cerveja e uma folha de papel de embrulho e escrevi tudo.
Em casa, à noite, fiz uma matéria e mandei pro jornal,
pedindo que inventassem um pseudônimo pra mim, porque queria continuar
visitando os presos e fazer matérias com eles, e se assinasse com meu nome me
proibiriam de fazer novas visitas. Amigos gozadores me arrumaram o pseudônimo
Rezende Valadares Netto, justificando: Rezende (com z), porque sou de Nova
Resende (com s); Valadares porque Minas Gerais teve um governador fazedor de
média durante a ditadura anterior, Benedito Valadares, e brincaram que todo mineiro
era fazedor de média; e Netto, com dois tt, só pra dar um charme.
Continuei fazendo matérias e notas sobre os presos políticos
pro Em Tempo, assinando Rezende Valadares Netto, ou RVN, e retirando
clandestinamente material produzido pelos presos políticos, e também pôsteres
que produziam, para vender aqui fora e gerar uma grana para comprarem algumas
coisas que necessitavam e melhorar suas condições lá dentro.
A disposição do Em Tempo para publicar tudo sobre presos
políticos, incluindo duas listas de torturadores (participei do encaminhamento
da segunda delas pro jornal) acabou merecendo o prêmio Vladimir Herzog,
concedido pelo Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo.
Cachaça de abacaxi
A vida na cadeia é difícil e algumas coisas ajudam a aliviar
um pouco, e elas eram muito valorizadas pelos presos. Uma delas era cigarro,
que quase todas visitas levavam (eu também) e bebidas alcoólicas, totalmente
proibidas. Os presos criaram um “alambique” clandestino, feito com uma panela
de pressão, uma serpentina que saía do alto da panela e passava por dentro de
um balde de água fria. O vapor saía pela serpentina, condensava ao passar pela
água fria e pingava uma cachacinha razoável: experimentaram várias frutas e a
que deu pinga de melhor qualidade foi o abacaxi. E as visitas levavam abacaxis
para eles. Imagino que os carcereiros deviam pensar: como esses presos gostam
de abacaxi!
A fruta era esmagada e colocada num balde para fermentar. O
balde ficava escondido na cela, e quando estava na hora certa destilavam de
madrugada. Os dois melhores alambiqueiros do presídio eram o próprio Zé Roberto
e outro mineiro, o Manoel Henrique. Mineiros não negam fogo, eu brincava.
Beberiquei um pouco dessa cachaça durante as visitas.
Eles não foram anistiados
Acabei me tornando amigo de vários presos, especialmente do
Zé Roberto, que além de tudo era o conterrâneo que me dava orgulho. Eles
conversavam comigo como se eu fosse um deles, chegaram a pedir minha opinião
sobre uma greve de fome que pretendiam fazer, porque o projeto de lei da
Anistia que o então presidente, general Figueiredo, mandou ao Congresso
anistiava mais os torturadores e demais participantes da ditadura do que suas
vítimas. Respondi que não podia dizer que era a favor da greve, pois quem passaria
fome eram eles. Falar pros outros fazerem greve de fome é fácil. Mas se
fizessem, eu daria o apoio que pudesse. Fizeram, e a greve de fome durou 32
dias!!! O projeto aprovado não atendeu ao que reivindicavam, mas não tinha mais
sentido continuar.
A Anistia anistiou mesmo os torturadores e colaboradores da
ditadura, mas criou-se uma situação em que o Judiciário se viu forçado a fazer
revisão de penas absurdas ditadas pelos tribunais militares. E as penas do Zé
Roberto foram reduzidas a 15 anos de prisão. Como estava preso havia oito anos
e sete meses, pôde sair em condicional, depois de tentativas de entraves por um
juiz.
Quando ele saiu, fizeram uma festa em sua homenagem, num
apartamento no nono andar de um prédio e ele ficou quase o tempo todo na
janela, olhando a rua e o movimento lá embaixo. E me contou mais ou menos
assim: “Eu mesmo fiquei curioso por ter feito isso e concluí: passei quase nove
anos preso, só dava para olhar para cima, pelas pequenas janelas das celas; foi
a primeira vez depois desses anos que pude olhar para baixo”.
Ouvidor da polícia
Libertado, voltou para Belo Horizonte, terminou o curso de
direito interrompido desde que entrou na clandestinidade e tornou-se advogado
de movimentos populares. Quando o governador Eduardo Azeredo resolveu criar a
Ouvidoria de Política, pediu aos movimentos de Direitos Humanos que indicassem
o ouvidor. Escolheram o Zé, por unanimidade.
Antes que fosse nomeado, a cúpula da PM do estado foi falar
com o governador, pedindo que não o nomeasse porque, segundo ela mesma, ele foi
muito torturado e “poderia querer se vingar da polícia”. O governador pediu então que indicassem outra
pessoa, mas os movimentos de Direitos Humanos se negaram: “Se não for ele, não
indicamos ninguém”. E Azeredo acabou cedendo. Zé Roberto não se vingou da
polícia, mas foi um ouvidor eficaz, dedicado integralmente a apurar crimes
cometidos por ela. Logo de cara apareceu um jovem morto perto do aeroporto da
Pampulha e a PM informou que era resultado de uma briga de quadrilhas.
Mas o Zé Roberto viu o cadáver e não aceitou essa versão: o
jovem tinha muitos sinais de tortura e ele sabia bem o que era isso, pois foi
barbaramente torturado durante 30 dias quando foi preso. Acabou descobrindo que
o rapaz foi torturado até morrer.
Ele largou tudo para dedicar-se integralmente à Ouvidoria.
O livro “Ousar Lutar”
Um dia, conversando numa mesa de bar de BH, estávamos ele, a
mulher, Beatriz, e o casal amigo Virgílio e Laura. Na época, o Zé era muito
convidado para fazer palestras sobre a resistência à ditadura.
Quando ele foi ao banheiro, o Virgílio me disse que estava
tentando convencer o Zé a escrever um livro sobre sua história, não para posar
de herói, mas para que as novas gerações entendessem como é que podia jovens em
plena fase de “aproveitar a vida” entrarem para uma luta com pouquíssimas
chances de vitória e muitas de ser preso, torturado e morto, ou exilado. Ele
não queria escrever, achava que podia ser mal interpretado.
Falei: “Deixa comigo...”. Quando o Zé voltou do banheiro,
falei com ele: “Você tem dois filhos pequenos e um jovem do primeiro casamento,
de antes de ser preso. Este último sabe bem da sua história, mas os dois
pequenos, quando estiverem crescidos podem não entender direito e devem passar
por provocações sobre você ter participado de sequestros e ter sido preso, e
precisarão entender que os sequestros e outras ações tinham um sentido muito
diferente do que podem querer lhe atribuir”. E concluí: “Você devia escrever um
livro contando tudo. Se achar que não ficou bom, guarde os originais para os
seus filhos...”.
Ele me respondeu: “Se você escrever comigo, eu topo”.
Pronto! Eu não poderia me negar, e topei. Escrevemos. O título escolhido por
ele foi “Ousar Lutar – Memórias da guerrilha que vivi”. “Ousar lutar, ousar
vencer!” era o lema da VPR.
Contatei a Boitempo, editora que eu achava mais apropriada
para a publicação, ela topou publicar e entregamos os originais. No dia em que
o livro entraria na gráfica, há 25 anos, em agosto do ano 2000, ele teve um
infarto e morreu. Tristeza imensa.
Ele era tão querido por sua luta e sua integridade que o
lançamento foi um grande acontecimento, com direito a uma atividade na sede da
OAB e um público enorme. Para se ter ideia, foram vendidos 460 exemplares do
livro.
Homenagem dia 16
O amigo Virgílio me telefonou recentemente para informar que
foi organizada uma atividade homenageando o Zé Roberto, no aniversário dos 25
anos de sua morte.
Vai ser no Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e
Cidadania, de Belo Horizonte, dia 16 próximo, a partir das 16h. Terá, entre
outras coisas, a presença dos seus filhos, a exibição de um filme sobre os
presos, falas de companheiros de prisão e de pessoas que estavam presas e
torturadas e saíram em troca de embaixadores sequestrados, leitura de trechos
do nosso livro...
Eu gostaria de ir e levar uma relíquia: quando terminávamos
de escrever o livro, sugeri que ele fizesse uma pinga de abacaxi como as que
fazia no presídio, para os presentes beberem no lançamento. Ele fez um
garrafão. No lançamento do livro, a Beatriz, sua viúva, levou a bebida e sobrou
um pouquinho, que ela me deu e eu trouxe para São Paulo, mas nunca tive coragem
de acabar com ela. Seria uma ocasião apropriada para bebermos o que resta.
Mas
não vai dar. Questões de saúde me impedem de viajar, mandei uns pequenos vídeos
que gravei lembrando dele, com saudade. No dia da homenagem vou beber aqui uma
dose da cachaça feita por ele. Um brinde ao grande amigo que não fugiu à luta!