105. Em 1984, o advogado Vilson Benayon e a engenheira florestal Simone Pessoa, na época presidente e vice-presidente do GRES Andanças de Ciganos, respectivamente, haviam contratado um carnavalesco chamado Jair Mendes que, segundo eles, fazia misérias no Festival de Parintins. Os manauaras só iriam ouvir falar em Jair Mendes, o mágico por trás dos truques dos bumbás Garantido e Caprichoso, quase dez anos depois.
O enredo da
escola de 1987, “A Festa dos Deuses no Carnaval dos Ciganos”, começava nas
ferozes guerreiras Amazonas, da Ásia Menor, passava pelos deuses do Monte
Olimpo, pelos incas, pelos maias, pelos conquistadores espanhóis, pelo mítico
reino El Dorado e acabava nas icamiabas, lá em Nhamundá. Era uma viagem só.
Com aquele
jeito de quem não quer nada, Jair Mendes começou a desenhar os carros e
explicar como eles se movimentariam na Avenida Djalma Batista. O estudante de
engenharia Chico Costa era o responsável pelo cálculo de estrutura dos carros
alegóricos do GRES Andanças de Ciganos.
O papel do Jair
Mendes era criar. Chico Costa que se lascasse, calculando quantos destaques
podiam caber sobre um carro alegórico e quantas rodas o carro precisaria ter para
se movimentar com um mínimo de segurança.
Um dos carros
(uma megaconstrução de 32 m² de base, intitulada “Monte Olimpo”) precisou de 48
rodinhas – que, na época, eram simples “rolamentos”, aquelas rodinhas de aço,
cheia de esferas, usadas nas caixas de transmissão dos automóveis.
Cheio de planos interpostos onde ficariam os destaques, o “Monte Olimpo” conseguiu ser rebocado até ser posicionado ao lado do cemitério São João Batista, lugar da concentração. Como seria o segundo carro a entrar na avenida, estava tudo nos conformes.
A torcida era
saber se o abre-alas, com um Pégaso se movimentando furiosamente para os dois
lados e soltando fumaça pelas narinas (ninguém nunca tinha visto um troço
daquele antes, cortesia do Jair Mendes!), iria conseguir entrar na avenida.
Quando o “Monte
Olimpo” foi armado (Zeus estava a cinco metros do chão, Ártemis, a um metro, o
restante dos deuses – Ares, Poseidon, Afrodite, Hades, Apolo, Deméter, Hermes,
etc. – estavam distribuídos na base), o peso do carro alegórico simplesmente
fez as rodinhas mergulharem no asfalto.
Quando a turma
começou a empurrar o carro, as rodinhas continuaram presas no asfalto – a
maioria dos pregos que as sustentavam na madeira optaram por desistir daquela
luta inglória.
O carro
conseguiu ser rebocado para o meio da rua com um terço das rodas originais – as
demais ficaram enterradas no asfalto. Sem as rodinhas faltantes, aquele carro
alegórico não servia mais pra porra nenhuma porque perdera a mobilidade.
O impasse era o
seguinte: ou os deuses do Olimpo desciam dos pedestais e desfilavam a pé na
avenida como mortais comuns, o que era simplesmente repugnante, ou o carro iria
descer a avenida com ou sem rodas. Os ciganos fizeram a opção correta de o
carro descer “com ou sem rodas”.
Não era uma
tarefa muito fácil e a técnica precisava ser explicada em tempo real. Seria
tipo carregar uma liteira. A diferença era de que a tal liteira pesava quase
duas toneladas.
Cinquenta
caboquinhos se apresentaram como voluntários, muitos deles de bermudas ou
calção vagabundo, sem camisa e descalços. Eram os torcedores da escola de samba
que moravam no Bodozal da Maués e estavam ali só para prestigiar o desfile.
Nunca imaginaram descer a avenida.
Pois foram
esses sujeitos humildes e extremamente solidários que levaram no muque o carro
alegórico “Monte Olimpo” por toda a extensão da avenida. A cada quinze metros,
um sujeito apitava. Eles colocavam a “liteira” no chão. Alguns minutos depois,
dois apitos. Eles levantavam a liteira. Três apitos. Eles começavam a caminhar
levando a liteira. Novo apito. Eles paravam e colocavam a liteira no chão.
Apesar dos
percalços, o desfile transcorreu dentro da maior normalidade possível, com
Carlinhos de Pilares dando um show de interpretação e as arquibancadas
começando a entoar o grito de “é campeã! é campeã!”.
Mas aí, um
coiote da pata branca, provavelmente a soldo do GRES Mocidade de Aparecida,
percebeu que a porta-bandeira estava bailando com o pavilhão da Acadêmicos de
Pilares, comunicou a presepada aos jurados, que se encarregaram de colocar água
no chope dos ciganos, descontando dois pontos da exibição do casal.
No júri
paralelo da Rede Calderaro de Comunicação, o GRES Andanças de Ciganos fez
barba, cabelo e bigode, e conquistou o Estandarte de Ouro. No júri oficial,
perdeu por dois pontos para a Aparecida, que também havia dado um verdadeiro
show. Ainda hoje, aquele vice-campeonato da escola é considerado uma das
maiores injustiças já ocorridas na história do carnaval amazonense. Choses.












