13. Fevereiro de 1985. O carnaval carioca fervia, as escolas desfilavam, os sambistas sambavam e a TV Globo, sempre atenta à oportunidade de transformar qualquer imprevisto em televisão de qualidade duvidosa, colocava sua repórter Maria Lúcia Rangel no meio da avenida para colher depoimentos espontâneos – essa perigosa modalidade jornalística em que ninguém sabe o que vai sair da boca do entrevistado.
Foi então que surgiu
ela: Neuzinha Brizola. Ou melhor, uma versão de Neuzinha que parecia estar
recebendo sinais de rádio diretamente de Saturno.
Filha de Leonel
Brizola, então governador do Rio de Janeiro, cantora de rock e protagonista
frequente das colunas policiais, Neuzinha já possuía uma reputação capaz de
causar palpitações em qualquer assessor de imprensa. Naquela noite, porém,
resolveu elevar o padrão.
Maria Lúcia
aproximou o microfone da moça, que dançava com a desenvoltura de quem havia
feito um acordo particular com a gravidade.
– Essa moça
dançando aqui do meu lado é Neuzinha Brizola, que caiu no samba de maneira
total. Neuzinha, o samba é melhor que o rock?
Neuzinha
respondeu praticamente de costas, talvez porque estivesse ocupada demais
conversando com entidades invisíveis:
– É
difereeeennntee!... Tô achando lindooooo... Tô choraaaando... Tá me
emocionaaaaando...
A resposta não
esclareceu absolutamente nada, mas produziu um excelente material televisivo.
A repórter
insistiu.
– E você está
torcendo por alguma escola?
– Tô torcendo
por toooodaaaas... É difereeeennntee!... Tô achando lindooooo... Tô
choraaaando... Tá me emocionaaaaando...
Naquele
momento, qualquer jornalista experiente teria entendido que a entrevista já
havia entregue tudo o que tinha para entregar. Mas a televisão ao vivo possui
uma característica semelhante à dos filmes de terror: os personagens sempre
tomam a decisão errada.
Maria Lúcia
avançou.
– Mas tem
alguma que você gostou mais do que as outras?
–
Nãããããooooo... Tô curtindo toooodaaaas... É difereeeennntee!... Tô achando
lindooooo... Tô choraaaando... Tá me emocionaaaaando...
A essa altura,
o público já havia percebido que Neuzinha não estava exatamente respondendo
perguntas. Ela parecia funcionar como um disco arranhado movido a emoção,
repetindo as mesmas frases em loop enquanto navegava por dimensões que o
restante da humanidade desconhecia.
Em algum lugar
da transmissão, um diretor de TV provavelmente começou a esfregar as mãos.
Porque a entrevista reunia tudo que a televisão adora: celebridade,
constrangimento, imprevisibilidade e uma vítima incapaz de perceber que estava
sendo transformada em espetáculo nacional.
O resultado foi
devastador. No dia seguinte, milhões de brasileiros já tinham assistido à cena.
Neuzinha virou assunto de botequim, de escritório, de fila de banco e de mesa
de almoço. Se a intenção era apenas registrar uma foliã curtindo o carnaval, a
operação fracassou. Se a intenção era produzir uma das entrevistas mais
constrangedoras da história das transmissões carnavalescas e ainda deixar o
governador Leonel Brizola com vontade de desligar a televisão na tomada, então
foi um sucesso retumbante.
A Globo
conseguiu aquilo que todo programa de auditório sonha alcançar: encontrar uma
pessoa completamente incapaz de dar uma resposta coerente e, mesmo assim,
mantê-la no ar pelo máximo de tempo possível.
E Neuzinha, sem
querer, acabou produzindo uma obra-prima involuntária do surrealismo televisivo
brasileiro: uma entrevista inteira resumida a três frases, uma emoção
incontrolável e uma guerra sem vencedores entre o samba, o rock e a lucidez.











