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sexta-feira, outubro 09, 2026

Uma ópera popular a céu aberto

 


O espetáculo se abre com a entrada em cena do Apresentador, seguido pelo Levantador de Toadas e pelo agrupamento de percussão (Marujada de Guerra ou Batucada), e se encerra após a encenação do ritual. Fora isso, não há ordem fixa de encadeamento para o aparecimento dos diversos personagens e suas diferentes encenações.

Os personagens individuais, como Cunhã-Poranga, Sinhazinha da Fazenda, Boi-Bumbá, Rainha do Folclore, Pajé e Tuxauas são geralmente trazidos encarapitados em alegorias. Seu aparecimento é saudado com fogos de artifício e efeitos especiais, acompanhados por toadas específicas.

Alguns elementos, como os maravilhosos Tuxauas (chefes indígenas cujas fantasias são pequenas alegorias), adentram a cena, exibem-se e logo saem. A maior parte, contudo, permanece no local, em especial as Tribos masculinas e femininas que, com seu bailado coreografado, enchem gradualmente a arena até a plenitude.

Acontece então o ritual, principal momento da aparição do Pajé, e culminância de cada apresentação. Depois disso, o boi começa a sair da arena numa movimentação sempre circular.


Na performance, há um núcleo de sentido definido, associado ao tema da morte e da ressurreição do boi. Esse núcleo agrega-se em torno dos personagens cuja atuação acompanha a aparição do boi na arena.

O boi-bumbá, animado pelo “tripa” (quem entra dentro da carcaça do boi e desenvolve o bailado cheio de gingas e efeitos especiais), traz sempre consigo o Amo do Boi, a Sinhazinha da Fazenda, a Vaqueirada, Cazumbá, Pai Francisco e Mãe Catirina.

No entanto, os personagens indígenas relacionados ao auto original foram, aos poucos, dele se destacando e ganhando crescente importância no Festival de Parintins. É o caso da Cunhã-Poranga, dos Tuxauas, do Pajé, das Tribos femininas e masculinas, e de um novo quadro cênico, o ritual. A temática das toadas acompanhou esse processo.

Uma toada de 1992 falava do índio como “o humilde parceiro do boi”. Essa formulação não teria lugar nos dias de hoje, quando se destacam as toadas com motivos indígenas.

Ao longo da década de 1990, a ênfase gradual, porém decidida e consciente, nos elementos indígenas da trama, configurou um novo universo simbólico. Emergiu, desse modo, um novo nativismo no Boi-Bumbá de Parintins.


Ligado ao espetáculo por fortes laços, esse novo universo corresponde a um deslocamento importante. Pois o tema da morte e ressurreição, desenfatizado no conjunto do boi, como que para aí migrou.

O aspecto burlesco do folguedo é preservado em Parintins sobretudo no seio do conjunto do boi, especialmente pelos bufões Pai Francisco, Mãe Catirina e Cazumbá. O nativismo dos bumbás sobrepôs-se, entretanto, a essa abordagem cômica, como um canto trágico em louvor dos “que foram outrora os donos das terras”.

O bumbá de Parintins é, sob esse aspecto, um espetáculo ímpar. Mistura a alegria da festa à celebração emocionada da consciência da destruição de muitos povos indígenas amazônicos, afirmando, ao mesmo tempo, o valor positivo de uma identidade cabocla.

Ora, essa ênfase nativista trouxe no seu bojo uma nova abordagem do tema anual que é atualmente um grande diferenciador de estilo dos bois.

Aqui um ponto importante. É verdade que, com relação ao tratamento do tema, o Garantido faz a defesa da “tradição” e o Caprichoso assume o discurso da “inovação”. Seria, contudo, enganador alinhar a história de um boi numa direção e a do outro, na outra.

Estamos diante de uma fase particular da história dos bumbás. Em outras épocas, essas posições já estiveram invertidas. No contexto da festa, moderno e tradicional são, sobretudo, sinais de diferenciação. Designam aspectos de um processo em que a estabilização de novos padrões estéticos requer também a construção de diferenças de estilo.


O boi Garantido vem afirmando assim a sua liberdade com relação ao tratamento do tema. Em sua visão, “as pessoas têm que entender que não é uma falha, é uma característica dos bois não seguir enredos como escolas de samba”. Ou ainda: “queremos brincar de boi, não existe compromisso com tema, mas com as toadas e as figuras folclóricas. O boi-bumbá não tem preocupação com a sequência. Nossa apresentação é uma ideia livre, sem a sequência de três atos, mas que tem uma justificativa dentro do contexto do boi”, explicou Emília Faria, diretora de Arte do Garantido, ao jornal A Crítica, em julho de 1997.

O boi Caprichoso, por sua vez, vem inovando justamente na direção de uma concepção mais unitária das três apresentações. O diretor de arte Simão Assayag redigiu elaborado libreto para a apresentação de 1996, marcando a tendência com a proposta da “ópera popular cabocla”.

Entre os dois estilos, há um nítido ponto em comum: a ênfase ritual nos componentes indígenas da apresentação. O caráter amalgamado e maleável do bumbá, marcante desde suas primeiras descrições, revela-se nessa nova eleição em sua plenitude.

O boi-bumbá de Parintins é um novo e fascinante capítulo da longa história do folguedo no país. Emerge como um moderno movimento nativista que elegeu imagens indígenas como metáforas para a afirmação de uma identidade regional cabocla. Um poderoso processo ritual, através do qual a pequena cidade, e com ela toda a região Norte, como que aspira – e tem conseguido com razoável sucesso – comunicar-se com o país e com o mundo.

quinta-feira, outubro 08, 2026

A Festa dos Bois-Bumbás de Parintins

 


Para contar essa história pela enésima vez, sempre no final do mês de junho, em um palco a céu aberto, a cidade de Parintins realiza uma das maiores festas populares do Brasil, o Festival Folclórico de Parintins, mais conhecido como a Festa dos Bois-Bumbás.

Os protagonistas dessa festa xipuara são os bumbás Caprichoso (boi negro com uma estrela na testa, de cores azul e branca) e Garantido (boi branco com um coração na testa, de cores vermelha e branca), que se alternam no palco durante três noites, com o tempo de 2h30min para cada apresentação.

Mostrando ano a ano a conhecida lenda do boi-bumbá, mas com forma, concepção e enfoque diferentes e cada vez mais centrada no imaginário amazônico dos caboclos e dos indígenas, os dois bois apresentam um grandioso espetáculo cênico tendo como único objetivo a conquista do título de campeão do festival.

Parintins está situada a cerca de 420 Km de Manaus, à margem direita do rio Amazonas, em um conjunto de ilhas chamado de Tupinambarana, já quase na ilharga da fronteira com o Pará. A cidade tem apenas 120 mil habitantes e só é possível chegar à ilha de avião, depois de 50 minutos de viagem, saindo de Manaus, ou de barco, após uma viagem que pode durar entre 8 e 24 horas. Nada que desestimule os 50 mil visitantes, metade dos quais estrangeiros, que para lá se dirigem todos os anos para vibrar com o espetáculo.


As disputas acontecem no Bumbódromo, uma gigantesca arena no formato de uma cabeça de boi estilizada, dividida em partes iguais para as duas galeras “inimigas”. Com capacidade para 40 mil pessoas, o Bumbódromo é considerado a maior obra cultural e desportiva do Amazonas.

Durante a festa apenas 10% dos ingressos são vendidos, os outros 90% são gratuitos e divididos igualitariamente entre as galeras de Garantido e Caprichoso. Um belo exemplo de que a festa, apesar do gigantismo, continua sendo feita pelo povo e para o povo.

É impossível acreditar no que acontece em Parintins nesta época do ano, quando durante três dias a população da cidade simplesmente entra em estado de êxtase. A paixão dos nativos pela festa é tão intensa que as casas dos mais fanáticos são pintadas de azul ou vermelho e enfeitadas com balões, fitas e flâmulas da mesma cor, para indicar o favoritismo de quem mora ali. Muitos casais de torcidas opostas se separam para curtir a brincadeira do seu boi favorito, pelo menos durante o período do festival.


Antigamente, muitos torcedores costumavam faltar ao trabalho para aproveitar a festa – o que era uma dor de cabeça quando os três últimos dias de junho caíam no meio da semana. A solução foi adaptar a festa para uma data móvel, sempre de sexta a domingo, que às vezes pode terminar no segundo dia de julho.

Para evitar favoritismo, a cor da tinta da caneta usada pelos jurados é verde. Principal patrocinadora do evento, a Coca-Cola, cujo rótulo original é vermelho, cor dos torcedores do Garantido, entrou no ritmo da festa e fabricou uma embalagem especial em azul para também agradar os torcedores do Caprichoso. O mesmo aconteceu com as várias operadoras de celular e fábricas de cervejas que patrocinam a folia.

As torcidas colocadas em lados opostos da grande arena, cada uma exibindo as cores do seu boi favorito, são obrigadas a permanecer em silêncio quando o concorrente se apresenta, sob pena de perder pontos e quem torce por um bumbá não pronuncia o nome do outro, se referindo a ele apenas de “contrário”.

Por conta disso, mesmo com tamanho envolvimento emocional que beira à histeria, durante a apresentação de um dos bois na arena são proibidas vaias, palmas, gritos ou qualquer outra manifestação efusiva da galera do boi “contrário”. Quem veste azul não pode entrar nos domínios do Garantido e quem veste vermelho não pode entrar nos domínios do Caprichoso.

A ordem de apresentação dos bumbás é sempre definida por sorteio. O processo de seleção dos jurados é feito por meio da Escola de Jurados, implantada pelo município no ano de 2017 para dar mais transparência e credibilidade à festa, que é considerada o maior evento folclórico do Norte do Brasil. Os jurados são escolhidos de acordo com a escolaridade e o perfil indicado para os blocos de julgamento A (Comum/Musical), B (Cênico/Coreográfico) e C (Artístico).


Ao todo, são 21 itens em julgamento:

1. Apresentador – Uma espécie de Mestre de Cerimônia que faz a explicação do enredo do espetáculo.  

2. Levantador de Toadas – Cantor principal cuja voz é o fio condutor para o desenvolvimento do tema.

3. Batucada do Garantido ou Marujada de Guerra do Caprichoso – Agrupamento de percussão que fornece um referencial rítmico indispensável às toadas.

4. Ritual Indígena – Recriação de rito xamanístico dentro do contexto folclórico do boi-bumbá.

5. Porta-Estandarte – É a figura feminina que aparece como símbolo do boi.

6. Amo do Boi – O dono da fazenda, menestrel que tira versos elogiando o seu boizinho e espezinhando o boi adversário.

7. Sinhazinha da Fazenda – A filha do dono da fazenda.

8. Rainha do Folclore – Item que representa a diversidade de valores culturais da manifestação popular.

9. Cunhã-Poranga – Literalmente a “moça bonita”, guerreira e guardiã, que expressa a força da tribo por meio da sua beleza.

10. Boi-Bumbá – Verificação da evolução, coreografia e movimentos de um boi de verdade.

11. Toada – Trata-se do suporte lítero-musical do festival.

12. Pajé – Figura que representa o curandeiro, hieforante, xamã, sacerdote, ponto de equilíbrio das tribos.

13. Tribos Indígenas – Os grupos étnicos que compõem os povos indígenas do Brasil.

14. Tuxaua – Figura que representa o chefe da tribo, o personagem caboclo em sua miscigenação.

15. Figura Típica Regional – Uma homenagem às raízes da terra.

16. Alegorias – Nome das estruturas artísticas que funcionam como suporte cenográfico para a apresentação.  

17. Lenda Amazônica (ficção que ilustra a cultura dos povos da Amazônia),

18. Vaqueirada – Nome do agrupamento dos guardiões do boi.

19. Galera – Nome do elemento de apoio do espetáculo, massa humana que forma uma das maiores coreografias uníssonas do mundo.

20. Coreografia – A verificação de todos os movimentos de dança apresentados durante o espetáculo.

21. Organização do Conjunto Folclórico – Reunião de itens individuais, artísticos e coletivos embasados no conteúdo do espetáculo.

Quem obter maior pontuação na soma dos pontos de cada item, leva o título de campeão do festival.

Por enquanto, em 59 anos de Festival, o Garantido já venceu 33 vezes e o Caprichoso, 27, tendo acontecido um inacreditável empate entre os dois no ano 2000.


As apresentações, além dos elementos folclóricos do Auto do Boi-Bumbá tradicional, exaltam a cultura, a história e a riqueza amazônica, sua diversidade étnica, bem como a divulgação do conceito da preservação ambiental por meio do uso sustentável dos seus recursos e biodiversidade.

Para retratar tantos aspectos da cultura nativa, os compositores de cada bumbá preparam anualmente até 20 toadas, compostas sobre temas pré-estabelecidos pelas respectivas Comissões de Artes, como suportes musicais de uma ópera em três atos.

Em cada noite do espetáculo, tanto o Caprichoso quanto o Garantido são obrigados a apresentar pelo menos quatro grandes cenários, construídos em módulos que se completam na arena formando palcos gigantescos de até 25 metros de altura.

Neles são realizadas cada uma das encenações de Celebração Folclórica, Ritual Indígena, Figura Típica Regional e Lenda Amazônica, todas previstas em regulamento como itens de competição. 

Os bumbás funcionam apenas como fios condutores das apresentações.

quarta-feira, outubro 07, 2026

O Auto do Boi-Bumbá

 


O enredo do Auto do Boi-Bumbá, apesar dos sotaques diferenciados existentes nas várias regiões do país, é extremamente simples como todas as lendas folclóricas. Uma das histórias mais conhecidas conta que o negro Pai Francisco, um velho caipira de algum lugar do sertão, havia terminado de cultivar o seu roçado e voltara à sua palhoça para um merecido descanso ao lado de sua esposa Catirina, que se achava em adiantado estado de gestação.

Em dado momento, ele olha para fora de sua palhoça e vê um boi comendo sua plantação. Enfurecido e atendendo ao desejo de sua esposa de comer “língua de boi” para o futuro bebê não nascer aleijado, ele invoca o seu guia espiritual Cazumbá, pega uma velha espingarda e atira à queima-roupa no animal. Ao perceber que aquele era o boi de estimação da Sinhazinha, filha do dono da fazenda – o Amo do Boi –, Pai Francisco entra em pânico e se esconde em sua palhoça.

Sentindo falta do seu boi de estimação, o Amo chama seus vaqueiros e manda procurá-lo. Eles saem à procura do animal e encontram o boi caído na malhada (lugar sombreado, onde o gado costuma abrigar-se do inclemente sol de meio-dia), às margens de um bebedouro. Os vaqueiros voltam dando a triste notícia de que o boi está morto. O Amo manda chamar o seu rapaz de confiança para investigar quem poderia ter morto seu boi.

O jovem vaqueiro, por meio de boatos e de muito disse-me-disse, descobre que o autor da façanha foi o Pai Francisco. Enfurecido com a ação irresponsável de Pai Francisco, o Amo manda o rapaz ir prendê-lo e trazê-lo à sua presença para esclarecer o assunto. Este chega à casa do Pai Francisco para cumprir sua missão, mas é recebido à bala. O rapaz então retorna para a fazenda e conta ao seu Amo o sucedido.

Mais enfurecido ainda, o Amo manda o rapaz levar uma carta ao Diretor dos Índios, pedindo-lhe para prender Pai Francisco, Catirina e Cazumbá. O Diretor dos Índios exige um Padre para batizar seus caboclos antes de ir prender a trinca de arruaceiros, o que de fato acontece.

Preso e levado amarrado à presença do Amo, Pai Francisco confessa ser o autor da morte do boi. Compadecido da má sorte e do castigo que espera pelo Pai Francisco, um Pajé reúne seus índios para realizar uma pajelança onde pretende ressuscitar o boi, mas não obtém bons resultados.

Como último recurso, o Amo sugere ao Pai Francisco que vá procurar o Doutor da Vida, famoso curador da região, para tentar ressuscitar o boi. Chega o Doutor da Vida e constata que o boi não está morto, está apenas ferido.

Depois de aplicar um clister no animal com as mais variadas plantas medicinais da floresta, o Doutor da Vida ajuda o boi a se levantar para alegria do Amo, da Sinhazinha e de todos os vaqueiros. Ou seja, o boi “ressuscita”, dando início à grande festança de celebração do evento.

terça-feira, outubro 06, 2026

Xipuara – Histórias e Estórias da Ilha de Parintins

 

Em setembro de 2018, lancei em Manaus a 1ª edição do livro “Xipuara – Histórias e Estórias da Ilha de Parintins”, numa tiragem de 500 exemplares que rapidamente se esgotou. Não deu tempo nem de levar para Parintins.

O livro foi dedicado ao senador Omar Aziz, responsável pela apresentação, defesa e aprovação da Lei nº 13.571, de 21 de dezembro de 2017, que conferiu ao município de Parintins o título de Capital Nacional do Boi Bumbá, e ao talentoso jornalista Marcos Santos, meu ex-chefe no jornal Amazonas em Tempo, responsável pelo portal político mais influente de Manaus e reputado como a verdadeira memória viva do Festival de Parintins.


Em abril de 2025, com o apoio cultural de Beto Nicolau, do Grupo Samel, lancei uma segunda edição do livro, revisada e ampliada, numa tiragem de 1.000 exemplares. 

O livro foi lançado com razoável sucesso em Manaus e em Parintins, durante o Festival dos Bumbás do ano passado. Esta edição ainda está disponível para venda no sebo “Confraria de Livros” ou pelo e-mail simaopessoa@gmail.com. 

Abaixo transcrevo a apresentação do livro e, na medida do possível, vou disponibilizar os textos aqui neste blog na mesma sequência publicada no livro impresso. Divirtam-se. (S. P.)

Contadores de histórias, emuladores de fofocas e disseminadores de futricas fazem parte da evolução humana desde que o primeiro australopithecus começou a andar ereto em uma savana africana, há aproximadamente três milhões de anos. Desde então, a variedade de estórias, lendas, contos, fábulas, causos e anedotas que foram surgindo se expandiram em progressão geométrica.


Essas singulares manifestações culturais, que corporificam a literatura oral de uma comunidade, aparecem por todo o planeta desde que dois hominídeos pararam para conversar sobre a vida de um terceiro. 

Foi nesse contexto que ganhou destaque a figura do contador de causos, do narrador popular, aquele sujeito que ouviu ou vivenciou as histórias para recordá-las e contá-las em uma roda de bate-papo com familiares e amigos. São os causos e são as lendas, o real e o imaginário, fundindo-se dentro de uma perspectiva de zoação total.


Este livro é um pouco disso tudo, mas também tem a pretensão de ser divertido, já que seu único objetivo é fazer o leitor rir. Ou refletir. Ou tudo ao mesmo tempo agora. Traduzindo, trata-se de um convite ao leitor do tipo “procure ver o lado bom das coisas ruins”.

Sim, sei, sabemos, essa frase poderia estar em qualquer livro de autoajuda do Augusto Cury ou parecer um conselho bobo de um mestre de artes marciais saído de algum filme ruim de kung fu dos anos 70.


Mas, segundo os especialistas que estudam o humor a sério, trata-se do maior segredo para viver bem. Rir de tudo e de todos é bem melhor do que fazer dieta detox. Chá verde e salada de aspargos, aquele tio gay do brócolis, convenhamos, não tem a menor graça.

Na realidade não-virtual de agora e sempre, o homem é a palavra. O mais é circunstância. A história é a palavra. O resto é consequência. Por isso a história do homem é a história de sua palavra. É a crônica de sua linguagem. É o cotidiano do possível dizer.


Na Grécia livre de Péricles, o discurso era a palavra. Na Judéia oprimida de Cristo, o discurso era a parábola. Na Idade Média torturada de Galileu, o discurso era o silêncio. No pós-modernismo de Marshall McLuhan, o discurso era o meio – e o meio era a mensagem. Nas atuais redes sociais de Mark Zuckerberg controladas por algoritmos, o discurso é a fake news e o mais é circunstância. A cobra sucuriju começou a engolir o próprio rabo.

Esse não é, portanto, um livro descompromissado. É a garganta das pedras, a brasa adormecida que subsiste na cinza. Menino de um tempo em que havia galos, noites e quintais, cedo aprendi que, quando a estrada não dá caminho, toma-se o atalho. É o jeito de dizer, pela boca dos outros, o tornado indizível.

O humor é uma linguagem absolutamente séria, necessária, eterna. Porque seduz. Porque nos obriga a pensar. Porque desnuda a verdade. Porque mostra aos arrogantes como eles são medíocres e mostra aos medíocres como eles são arrogantes.


Folclore não é história. É a versão popular da história. As histórias do folclore vão mudando na boca do povo como as nuvens mudam na boca do vento. Isso dito, quero ressaltar que não sou propriamente o autor deste livro. No máximo, sou o datilógrafo.

As histórias não são minhas. Recolhi-as, uma a uma, aqui e ali, exatamente como me foram contadas. Mas tenho consciência de seu valor antropológico, sociológico e cultural. Porque nos fazem rir. Ou refletir.

A maioria dos causos me foi contada no esquema “face-to-face”, em mesas de botecos. Outros, desconfio que tomei ciência ouvindo indiscretamente a conversa de terceiros e depois checando a história com alguma fonte confiável. Alguns deles me foram enviados por e-mail, messenger ou whatsapp.


De qualquer forma, se há inverdades faraônicas ou discrepâncias farisaicas, debitem na conta desse vosso cronista aprendiz, que adora enfeitar um maracá. 

Sim, incréus, a nossa memória seletiva é um editor de textos sem eira nem beira, fazer o que? Só espero que vocês se divirtam tanto quanto eu mesmo me diverti recordando essas histórias. There is it. É isso aí.

segunda-feira, setembro 28, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 110

 

O escritor, compositor e pesquisador Daniel Salles

110. Sambista, quando morre, vira samba, disse Chico Buarque. Mas e quando morre um carnavalesco no Carnaval ou às véspera? Ary Barroso, por exemplo, morreu no domingo de Carnaval de 1964. Em 1930, sua marchinha “Dá Nela”, cantada por Francisco Alves, ajudara a fixar o gênero. E seu samba “Camisa Amarela”, de 1939, já nasceu como a crônica mais que perfeita do tríduo. A morte de Ary foi anunciada no instante em que o Império Serrano ia adentrar a Presidente Vargas com “Aquarela Brasileira”, de Silas de Oliveira.

Nove dias depois de Ary, morreu Vicente Paiva. O nome de Vicente talvez já não diga muito para os infiéis, mas o Brasil o conhece por uma marcha de 1935 (com Nelson Barbosa) cantada todo ano, até hoje, por milhares nas ruas do Rio: “Quem não chora não mama / Segura, meu bem, a chupeta / Lugar quente é na cama / Ou então no Bola Preta”. E o território de seu outro sucesso, de 1937 (este, com Jararaca), cobre simplesmente o mundo: “Mamãe, Eu Quero”.

Benedito Lacerda também morreu no Carnaval, o de 1958. Entre tanta coisa que deixou, foi o autor (com Humberto Porto) da “Jardineira”, em 1939. E Paulo da Portela, a quem as escolas devem a pose e o garbo, morreu no domingo anterior ao Carnaval de 1949. Uma multidão o levou ao cemitério de Irajá e, no bicho daquele dia, deu a centena do seu túmulo: 2.908.

Mas nada supera em simbolismo a morte de Pixinguinha: em 1973, de repente, numa igreja em Ipanema, enquanto a poucos metros, sob chuva forte, saía a própria Banda de Ipanema. Na rua, alguém levou a notícia a Albino Pinheiro. A Banda cantou “Caprichoso” e chorou Pixinguinha de corpo presente. O acaso ajudou, mas todo o confete, serpentina, lança-perfume e o amor do mundo não pagam o que esses homens nos legaram em alegria e beleza.

Como registro final, cabe destacar o trágico falecimento de um amigo querido, Daniel Salles, aos 59 anos, na madrugada do dia 17 de novembro de 2025. Compositor, escritor, pesquisador da cultura popular e do esporte amazonense e considerado por muitos como uma das maiores referências vivas da história do carnaval de Manaus, Daniel Salles vinha enfrentando uma longa luta contra as complicações provocadas pela diabetes.

Natural de Manaus, desde muito jovem Daniel desenvolveu o gosto pelos folguedos populares, como cirandas, bois-bumbás e quadrilhas caipiras. Aos sete anos de idade anotava diversas observações em suas cadernetas sobre futebol, carnaval e curiosidades em geral. Em 1978 passou a frequentar a quadra do GRES Vitória Régia, onde em 1981 auxiliou no acabamento de um carro alegórico da escola e ainda o conduziu no desfile.

Depois desfilou em outras escolas e blocos (Sem Compromisso, Mocidade de Ipixuna, Presidente Vargas, Andanças de Ciganos, Reino Unido), sempre anotando o que achava interessante dentro dos desfiles de blocos, das batucadas e das escolas de samba. Com o tempo passou a compor sambas de enredo e hinos de clubes. Conseguiu emplacar 18 sambas de enredo, dos 45 que compôs.

Daniel Salles deixou um legado profundo que atravessa o samba, o futebol, o rádio, a literatura e a pesquisa sobre a cultura popular do Amazonas. Ele é autor do livro “É Tempo de Sambar – História do Carnaval de Manaus”, lançado em 2009, uma obra pioneira no assunto, que foi construída a partir de décadas de pesquisa e com auxílio de vários sambistas, relatando desde os primórdios do carnaval de Manaus até as manifestações no ano de 2008.

Ele também era conhecido por amigos como o “Lamartine Babo do Norte” pela capacidade de compor hinos – muitos deles para clubes amazonenses como América, Manaus FC, Amazonas FC e Princesa do Solimões – e por sua produção incansável como compositor de sambas-enredo em diversas escolas.

Pelas redes sociais, Reino Unido da Liberdade, Sem Compromisso, Boi-Bumbá Corre Campo e outras agremiações publicaram notas de pesar, reconhecendo a trajetória e a generosidade de Daniel. “Que sua luz permaneça acesa em cada lembrança”, escreveu a Reino Unido. A Sem Compromisso afirmou que o sambista “imortalizou seu nome no carnaval e no futebol amazonense”. A diretoria do Corre Campo destacou que ele “cumpriu sua missão nesta vida e agora descansa no plano espiritual”.

Daniel Salles era pai de Ellen Juliana, Rainha do GRES Reino Unido da Liberdade, e sogro do presidente Rangel Magalhães. Deixou também inúmeros amigos, discípulos, parceiros musicais e admiradores. Esse modesto e-book é dedicado a ele.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 109

 

O cantor e compositor Pedrinho Ribeiro

109. Formado em Arquitetura pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Edmilson Rodrigues foi eleito deputado estadual do Pará em 1986 e reelegeu-se em 1990. 

Em 1996, ele venceu a eleição para a Prefeitura de Belém usando como jingle de campanha a música “Vermelho”, de Chico da Silva. 

Alertado pelo compositor paraense Nilson Chaves de que deveria cobrar direitos autorais pela utilização da música, Chico da Silva embarcou para Belém no início de agosto de 1996. 

Durante dois meses, o compositor parintinense tentou, sem sucesso, ser recebido pelos dirigentes petistas. Acabou retornando para Manaus sem um tostão no bolso e se sentindo um tremendo otário, pelo mico que pagou na capital paraense. A música continuou sendo usada como jingle do PT pelos quatro anos seguintes.

Na campanha da reeleição de Edmilson, em 2000, Chico da Silva resolveu colocar os pingos nos is. Ele enviou uma procuração para o também compositor parintinense Pedrinho Ribeiro, que estava morando em Belém, lhe dando plenos poderes para entrar com uma representação criminal contra o PT, por violação dos direitos autorais.

Durante três meses, Pedrinho tentou chegar a um acordo com os dirigentes petistas, mas só conseguia ser recebido por pessoas do quinto escalão, que não tinham nenhum poder decisório. Disposto a abandonar a via diplomática e partir para a ignorância, Pedrinho deu um telefonema para Chico da Silva, que soou como um ultimato:

– Olha, compadre, os caras tão jogando duro. A única solução é você vir aqui e colocar a boca no trombone. Tem um candidato da oposição que paga até 10 mil reais para você aparecer no horário político dele dando um ralho no Edmilson. No meio artístico, todo mundo já sabe da história e acham que o PT está te sacaneando. Vem logo pra Belém ou você vai dançar de novo!...

Uma semana antes da eleição toca o telefone celular de Pedrinho, que estava caçando lebres nas quebradas de Ananindeua.

– Alô? Pedrinho Ribeiro? Aqui é Chico da Silva. Já estou na área, compadre! Acabei de chegar em Belém! – avisou o compositor.

– Onde é que você está, para que eu possa te pegar?... – pergunta Pedrinho.

– Você conhece o Hilton?... – questiona Chico, caprichando na pronúncia britânica do hotel mais famoso (e caro) da cidade.

– Conheço, claro que conheço! – garante Pedrinho, já começando a achar que Chico da Silva estava indo com muita sede ao pote.

– Pois eu estou atrás do Hilton, na Pensão Sete Sete! – anunciou Chico da Silva, sem deixar de acentuar a pronúncia britânica do hotel.

(Pra quem não conhece Belém, atrás do Hilton fica a zona do baixo meretrício da capital paraense. São pensões e hotéis de alta rotatividade, com diária de R$ 10 e troca de lençóis da cama a cada quinze dias. O renomado compositor parintinense, realmente, não estava em boa situação financeira...)

Meia hora depois Pedrinho estaciona o seu Fiat Prêmio caindo aos pedaços na Pensão 77. Chico da Silva entrou no carro e já ficou meio cabreiro, porque a porta do passageiro não fechava:

– Porra, meu procurador, mas esse seu carango aqui está pedindo pra ir pro ferro-velho... Vamos botar pra cima dos caras do PT e levantar um troco para dar uma arrumadinha nessa porcaria, tá certo?...

Pedrinho concordou. Os dirigentes do PT, não. Eles continuaram dando “barrigadas” nos dois músicos. Como a eleição era no domingo, Pedrinho tentou a última cartada. Convenceu Chico da Silva a peitar o prefeito no último comício da campanha, que seria realizado na quinta-feira, numa invasão na periferia de Belém. Chico não se fez de rogado. 

Na hora em que Edmilson chegou ao local e começou a beijar crianças, antes de subir no palanque, Chico driblou os seguranças, deu uma “gravata” no prefeito e contou seu drama, no pé do ouvido. Edmilson ficou possesso:

– Porra, Mascarenhas, que merda é essa?... Que falta de respeito é esse com o Chico da Silva?... Resolve esse problema dele agora!... Agora!!!...

Coordenador da campanha, o paranaense Eustáquio Mascarenhas, ex-militante do PCBR, pediu desculpas ao prefeito, disse que não estava sabendo de nada e marcou um encontro com o compositor para o dia seguinte, às 18h. 

Pedrinho ficou desconfiado. Reunião sobre grana numa sexta-feira, com o horário bancário encerrado, estava cheirando a nova “barrigada”.

No dia seguinte, com os principais caciques petistas reunidos em torno de uma mesa no comitê central do PT, Mascarenhas foi direto ao ponto:

– Muito bem, “seu” Chico da Silva. Quanto é que o senhor pretende receber de direitos autorais pelo uso da sua música?...

– Olha, se eu fosse entrar na Justiça contra vocês, eu ia receber de 300 a 400 mil paus, porque o PT usou minha música durante quatro anos seguidos e nunca me deu um tostão! – explicou o compositor. – Mas como eu tenho simpatia pela luta de vocês, com 60 mil a gente mata essa parada...

Mascarenhas tomou um susto. Os demais dirigentes entreolharam-se, visivelmente desnorteados. O paranaense retomou a palavra:

– Olha, “seu” Chico da Silva, infelizmente a gente só está preparado para lhe dar 10 mil reais! – anunciou o sujeito. – Mesmo porque se não fosse o PT, essa sua música não teria ficado famosa...

Ao ouvir aquilo, Chico da Silva ficou transtornado:

– Famosa por causa do PT?!! Famosa por causa do PT?!! Olha, compadre, eu sou o Chico da Silva!!! O Brasil inteiro conhece o meu trabalho! Tu conheces “Sufoco”? (Chico cantarolou um pouco) Essa música é minha e foi com ela que a Alcione ficou famosa! Tu conheces “É Preciso Muito Amor”? (Chico cantarolou um pouco) Essa é uma parceria minha com o Noca da Portela e foi gravada na França pelo Paul Mauriat! Pelo Paul Mauriat, porra! Tu conheces “Esquadrão Do Samba”? (Chico cantarolou um pouco) Foi a música do ano em uma enquete feita pelo “Fantástico”!... Antes de ser gravada pela Fafá de Belém, a música “Vermelho” já tinha virado hino do Benfica de Portugal e do Inter de Porto Alegre!

O cantor deu uma parada técnica, respirou fundo, limpou o suor da testa com um lenço e voltou a soltar os cachorros:

– Eu sou o Chico da Silva, porra, não preciso da bosta do PT para ser famoso!!! Eu sou um trabalhador e socialista igual aquele cara ali (Chico apontou para um imenso mural com a foto do Che Guevara), mas vocês são uns picaretas! Vocês dizem que vão ajudar os trabalhadores, mas estão querendo botar no meu rabo sem coar! Porra, compadre, eu vivo das minhas composições, do meu trabalho intelectual, das músicas que faço! Eu sou um trabalhador! Eu tenho família pra criar! Isso que vocês estão fazendo comigo é sacanagem, porra! Vocês estão me roubando na maior cara de pau e ficam com essa groselha de que são socialistas!

Aí, virando-se para Pedrinho, determinou:

– Vamos embora, meu procurador, que com esses picaretas não tem mais jogo!...

Pânico no bordel. A tesoureira da campanha tentou serenar os ânimos:

– Olha, Chico da Silva, a gente não tem nenhum interesse em lhe prejudicar. A gente quer usar sua música também no segundo turno. Será que não dava pra gente fechar esse acordo em R$ 30 mil?...

Com o sangue-frio de um condenado à morte enfrentando o pelotão de fuzilamento, Chico não se deu por achado:

– Eu queria que vocês me dessem licença, mas preciso discutir essa nova proposta a sós, com meu procurador...

Os dirigentes petistas saíram da sala. Pedrinho Ribeiro quase esganou o compositor:

– Porra, Chico, tu tás ficando louco? Aceita logo essa porra e vamos embora, antes que eles deem marcha-ré!... Eu estou tão liso que se jogarem um gato em cima de mim ele não se agarra... E tu deves estar muito pior do que eu!... Deixa de ser louco e segura logo essa ponteira!!!

Convencido pelo procurador, Chico embolsou a grana. Dez mil reais em espécie e dois cheques pré-datados de 10 mil. Os dois músicos voltaram para a pensão e Chico começou a arrumar a mala. Pedrinho ficou folheando uma revista Playboy, aguardando ansiosamente sua parte na “bufunfa”. Com o canto dos olhos, ele percebeu Chico da Silva separando cinco pacotes de mil reais cada.

– Bom, cinco mil não era só o que eu esperava, mas está de bom tamanho – pensou com seus botões. – Afinal de contas, eu fui o estrategista da parada.

De repente, Chico retirou um pacote de mil reais do monte. Foi como se Pedrinho tivesse recebido um murro no fígado. Ele sentiu as pernas tremerem e a vista escurecer. Ainda grogue, buscou o canto neutro do ringue.

De repente, Chico retirou outro pacote de mil reais do monte. Foi como se Pedrinho tivesse recebido um tiro à queima-roupa, no meio da lata. Ele estava esperando a extrema-unção, quando o conterrâneo se aproximou:

– Meu compadre, aqui estão três mil reais pelo seu trabalho...

Antes que Pedrinho esboçasse uma reação, Chico da Silva jogou a pá de cal:

– Esse valor corresponde à porcentagem de 10%, que é a comissão universal dos procuradores!...

Não havia como contestar aquele princípio jurídico. Pedrinho embolsou a grana e foi deixar Chico da Silva no aeroporto.

O segundo turno da eleição municipal em Belém mostrou a banalização das denúncias como instrumento de campanha. Empatados tecnicamente até às vésperas da eleição, Edmilson Rodrigues (PT) e Duciomar Costa (PSD) atacaram de forma tão brutal a idoneidade um do outro que acabaram se nivelando.

Chegaram ao final da campanha com o mesmo slogan. “Contra passado sujo, candidato limpo”, dizia Edmilson. “Contra campanha suja, candidato limpo”, respondia Duciomar.

O apelo da música “Vermelho”, de Chico da Silva, talvez tenha acabado por fazer a diferença e garantido um novo mandato ao prefeito petista.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 108

 

Glorinha Gadelha e Sivuca no Programa do Jô

108. A coisa mais fácil de acontecer entre pessoas de porre é um desentendimento. Qualquer motivo pode ser a causa da diáspora e as consequências só serão conhecidas no dia seguinte. 

Foi assim com uma discussão entre a cantora Miúcha e o agitador cultural Albino Pinheiro. Os dois discutiram e chegaram a se estranhar, por causa de um assunto que no dia seguinte ninguém lembrava.

Ao acordar, cheia de arrependimento e culpa, Miúcha resolveu ligar para Albino e colocar tudo em pratos limpos. Aconteceu que Albino tinha ido à casa do grande Sivuca, para combinar o roteiro de um show da série Seis e Meia, e deixara o telefone de onde estaria para qualquer eventualidade.

Sem saber para onde estava ligando, Miúcha telefonou para a casa do Sivuca, sendo atendida pela esposa do instrumentista, a cantora e compositora Glorinha Gadelha. Miúcha foi logo perguntando:

– O Albino está?

Do outro lado da linha, Glorinha, ciosa de sua função de fiel escudeira do marido, não se conteve diante de tamanha falta de respeito:

– Olha aqui, sua vagabunda, albino é a puta que lhe pariu!

Custou um pouco para “cair a ficha” de Miúcha, mas logo o equívoco foi esclarecido.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 107

 

João Orelhinha e Hilário Prado na Banda da Caxuxa

107. Fevereiro de 1986. O bloco de sujos “Aluga-se Moças” havia acabado de desfilar na Avenida Djalma Batista e está retornando pra Cachoeirinha através da Rua Pará, no Vieiralves. São quase 22h da noite do domingo gordo de carnaval. Cerca de 2 mil foliões fantasiados de mulheres participaram da odisseia. 

O mais animado de todos é o estudante Hilário Prado, 20 anos, boa pinta, físico de marombeiro e espada matador registrado em cartório, que, como o resto da gangue, também está morto de bêbado.

Foi o primeiro desfile de Hilário e ele se fantasiou de uma sensual dançarina de Cancan: peruca vermelha estilo Channel, vestido de cetim roxo com franjas de renda negra, cintas-ligas no modelo meias de arrastão, mitenes (luvas negras que cobrem o braço até um pouco acima do cotovelo), penacho e gargantilha. 

Como toque final, uma calcinha com bumbum falso, que continha um enchimento de espuma de nylon. A maquiagem à base de blush, rímel, cílios postiços e batom roxo ajudou a transformar Hilário em uma tremenda gata de classe mundial.

Nas proximidades da Praça Chile, em frente ao cemitério São João Batista, Hilário começa a diminuir o ritmo da caminhada e vai ficando cada vez mais distante do grosso do bloco, que segue em frente na mesma pisada.

Uns dez minutos depois, Hilário está caminhando praticamente sozinho no início da Rua Belém enquanto o trio elétrico do bloco “Aluga-se Moças”, com seus milhares de foliões, já está entrando na Avenida Castelo Branco.

Em frente ao Posto Saci, quase na entrada do Beco Celestino, um Opala quatro portas para ao lado do folião bêbado e solitário.

De repente, um braço de crioulo com a grossura do pescoço do Mike Tyson sai da janela do banco do carona, dá um tapão no bumbum da dançarina de Cancan e uma voz cavernosa quebra o silêncio da noite:

– Te prepara pra ser currada, vagabunda! Nós vamos arrombar esse teu cuzão!

Ouvindo aquilo, Hilário ficou bom do porre na mesma hora.

As portas do Opala já estavam sendo abertas para seus dez ocupantes descerem, quando ele meteu o pé na carreira. Saiu azulado em direção à Avenida Castelo Branco.

O Opala seguiu atrás, com os dez crioulões cada vez mais excitados. Aparentemente, eles estavam drogados e completamente alucinados para colocar as mãos (e outras coisas) na dançarina de bumbum empinadinho, após uma caçada infrutífera pelos bairros da cidade.

No cruzamento da Rua Belém com a Avenida Castelo Branco o sinal do semáforo estava fechado e o Opala ficou detido providencialmente atrás de um ônibus de linha.

Sem parar de correr, Hilário aproveitou a oportunidade para atravessar a Rua Belém em direção ao Colégio Estadual Márcio Nery, desceu por um beco paralelo ao muro do colégio e de lá seguiu em direção à Feira de São Francisco, margeando o igarapé da Cachoeirinha. Seu coração estava para sair pela boca.

Nesse meio tempo, Hilário foi realizando um verdadeiro strip-tease: jogou fora a peruca, o vestido de cetim, as cintas-ligas, a calcinha, as luvas, o penacho e a gargantilha. Quando chegou à Feira de São Francisco estava só de cueca de copinho e tênis All Star Converse de cano alto.

Subiu a Rua General Carneiro no maior pique, pegou a Rua Carvalho Leal à esquerda e só parou de correr quando entrou em sua casa. Estava para colocar os bofes pra fora, mas felizmente havia preservado todas as pregas.

Hilário nunca mais quis se fantasiar de travesti e andar sozinho pelas ruas desertas da Cachoeirinha durante uma noite de carnaval.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 106

 

O pagodeiro Mafu (ou seria Amado Batista?) e suas icamiabas

106. Parceria do compositor amazonense Paulo Onça com o sambista Jorge Aragão, a música “Feitio De Paixão” havia estourado em todo o Brasil e Paulo Onça se sentia o rei da cocada preta. 

A canção é uma obra-prima: “Queria o prazer do amor / Assim desejando estou / Só vou sossegar / Quando te conquistar / Botar todas cartas vou / Na mesa pra decidir / Quem sabe lutando vou conseguir / Sem conseguir, joguei búzios para tê-la sem favor / Sem conseguir, fiz feitiço para ganhar o teu amor / Sem conseguir, tomei banho de arruda pra fluir / Do corpo todo mal sem conseguir, sem conseguir”. 

O diabo é que, com exceção dos pagodeiros da cidade, ninguém sabia quem era Paulo Onça, apesar de ele já ter gravado seis CDs e feito sambas-enredo para quase todas as escolas de samba de Manaus.

No ano da gravação original, ainda saboreando o sucesso da canção nos hit parades do país, Paulo Onça resolveu conhecer o Festival de Parintins, onde participaria de uma roda de pagode no Bar Chapão em companhia de Chico da Silva. Ele convidou para acompanhá-lo na empreitada o pagodeiro Mafu, outro ilustre desconhecido fora do mundo do samba da cidade.

Como o festival cairia num final de semana, a população manauara em peso viajou para a ilha da fantasia. Paulo Onça só encontrou duas vagas em um barco de linha retardatário e assim mesmo ainda teria de viajar de “baladeira” no segundo compartimento, perto do porão de cargas.

Invocado com aquele negócio de dormir de rede no meio da pobreza, o compositor foi conversar com o dono do barco. O sujeito estava na cabine de comando, verificando alguns instrumentos. Paulo Onça entreabriu a porta e foi direto ao assunto:

– Meu amigo, eu sou o famoso compositor Paulo Onça, coautor da música “Feitio De Paixão”, gravada pelo também famoso Jorge Aragão, e gostaria de receber um tratamento diferenciado. Será que não dava para você descolar um camarote com ar-condicionado pra eu viajar com um pouco mais de conforto?...

O sujeito olhou para o compositor como se estivesse vendo um marciano pela primeira vez, cuspiu o tabaco que estava mascando num cesto de lixo, olhou o relógio de pulso, sacudiu uma cordinha dando três badaladas em um sino (indicativo de que o barco ia partir) e aí, sem dar uma palavra, fechou a porta na cara do sambista e a trancou por dentro com um ferrolho. Paulo Onça ficou puto.

Na fila do jantar, que começou a ser servido às 7 horas da noite, o compositor percebeu duas meninas cochichando e apontando pra ele. Paulo Onça estufou o peito e ficou todo posudo. Finalmente alguém havia reconhecido o seu talento. Alguém, não. Duas pessoas. Aliás, duas meninas mortas de gostosas. Ele colocou o prato na mesa e ficou aguardando a abordagem.

Com o canto do olho, Paulo Onça percebeu as gatinhas se aproximando. Estufou mais ainda o peito. Mas, de repente, as meninas passaram por ele e foram direto aonde estava o pagodeiro Mafu, na outra ponta da mesa. Coincidentemente, o pagodeiro estava na fila do jantar atrás do compositor na hora em que as meninas começaram a xavecar. Paulo Onça ficou tão nervoso que quase se engasgou com uma espinha de jaraqui frito servido no jantar.

A morena, que era a mais espevitada e saliente das duas, interpelou o pagodeiro:

– A minha amiga aqui quer saber se você é o Amado Batista...

Com o sangue-frio de um piloto da Al Qaeda se aproximando das torres gêmeas, Mafu não deixou por menos:

– Sou sim, minha filha, sou sim. Mas não espalha, senão aglomera...

Os rostos das duas meninas se iluminaram.

A morena se aproximou do ouvido de Mafu e sussurrou:

– Quando o senhor terminar de jantar, vá lá em cima, na área de lazer, que tem umas pessoas que vão adorar lhe conhecer...

Não deu outra. Quinze minutos depois, enquanto Paulo Onça, conformado, se ajeitava na “baladeira” para começar a dormir, Mafu subiu sorrateiramente para a área de lazer do barco. Seis meninas o aguardavam ansiosamente numa mesa repleta de tira-gosto e biritas.

O suposto Amado Batista foi tratado como um rei. Cada uma delas queria ser mais hospitaleira do que a outra. E o melhor é que ele nem precisaria exercitar seus dotes vocais. Cientes de que o cantor estava viajando “incógnito”, nenhuma delas estava disposta a compartilhar aquele segredo com o restante do barco.

Resultado: o pagodeiro Mafu, quer dizer, o cantor brega Amado Batista foi praticamente obrigado a passar o rodo nas seis meninas, algumas inclusive mais de uma vez.

Nas 24 horas que duraram a viagem, ele comeu do bom e do melhor sem gastar um tostão, dormiu num espaçoso camarote com ar-condicionado na companhia de seis mulheres e não desceu ao porão nem pra visitar o amigo Paulo Onça.

E tudo isso sem jamais ter tido uma única música gravada pelo Jorge Aragão...

sábado, setembro 26, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 105

 

Chico Costa e Simão Pessoa no Bar do Jacó


105. Em 1984, o advogado Vilson Benayon e a engenheira florestal Simone Pessoa, na época presidente e vice-presidente do GRES Andanças de Ciganos, respectivamente, haviam contratado um carnavalesco chamado Jair Mendes que, segundo eles, fazia misérias no Festival de Parintins. Os manauaras só iriam ouvir falar em Jair Mendes, o mágico por trás dos truques dos bumbás Garantido e Caprichoso, quase dez anos depois.

O enredo da escola de 1987, “A Festa dos Deuses no Carnaval dos Ciganos”, começava nas ferozes guerreiras Amazonas, da Ásia Menor, passava pelos deuses do Monte Olimpo, pelos incas, pelos maias, pelos conquistadores espanhóis, pelo mítico reino El Dorado e acabava nas icamiabas, lá em Nhamundá. Era uma viagem só.

Com aquele jeito de quem não quer nada, Jair Mendes começou a desenhar os carros e explicar como eles se movimentariam na Avenida Djalma Batista. O estudante de engenharia Chico Costa era o responsável pelo cálculo de estrutura dos carros alegóricos do GRES Andanças de Ciganos.

O papel do Jair Mendes era criar. Chico Costa que se lascasse, calculando quantos destaques podiam caber sobre um carro alegórico e quantas rodas o carro precisaria ter para se movimentar com um mínimo de segurança.

Um dos carros (uma megaconstrução de 32 m² de base, intitulada “Monte Olimpo”) precisou de 48 rodinhas – que, na época, eram simples “rolamentos”, aquelas rodinhas de aço, cheia de esferas, usadas nas caixas de transmissão dos automóveis.

Cheio de planos interpostos onde ficariam os destaques, o “Monte Olimpo” conseguiu ser rebocado até ser posicionado ao lado do cemitério São João Batista, lugar da concentração. Como seria o segundo carro a entrar na avenida, estava tudo nos conformes.

A torcida era saber se o abre-alas, com um Pégaso se movimentando furiosamente para os dois lados e soltando fumaça pelas narinas (ninguém nunca tinha visto um troço daquele antes, cortesia do Jair Mendes!), iria conseguir entrar na avenida.

Quando o “Monte Olimpo” foi armado (Zeus estava a cinco metros do chão, Ártemis, a um metro, o restante dos deuses – Ares, Poseidon, Afrodite, Hades, Apolo, Deméter, Hermes, etc. – estavam distribuídos na base), o peso do carro alegórico simplesmente fez as rodinhas mergulharem no asfalto.

Quando a turma começou a empurrar o carro, as rodinhas continuaram presas no asfalto – a maioria dos pregos que as sustentavam na madeira optaram por desistir daquela luta inglória.

O carro conseguiu ser rebocado para o meio da rua com um terço das rodas originais – as demais ficaram enterradas no asfalto. Sem as rodinhas faltantes, aquele carro alegórico não servia mais pra porra nenhuma porque perdera a mobilidade.

O impasse era o seguinte: ou os deuses do Olimpo desciam dos pedestais e desfilavam a pé na avenida como mortais comuns, o que era simplesmente repugnante, ou o carro iria descer a avenida com ou sem rodas. Os ciganos fizeram a opção correta de o carro descer “com ou sem rodas”.

Não era uma tarefa muito fácil e a técnica precisava ser explicada em tempo real. Seria tipo carregar uma liteira. A diferença era de que a tal liteira pesava quase duas toneladas.

Cinquenta caboquinhos se apresentaram como voluntários, muitos deles de bermudas ou calção vagabundo, sem camisa e descalços. Eram os torcedores da escola de samba que moravam no Bodozal da Maués e estavam ali só para prestigiar o desfile. Nunca imaginaram descer a avenida.

Pois foram esses sujeitos humildes e extremamente solidários que levaram no muque o carro alegórico “Monte Olimpo” por toda a extensão da avenida. A cada quinze metros, um sujeito apitava. Eles colocavam a “liteira” no chão. Alguns minutos depois, dois apitos. Eles levantavam a liteira. Três apitos. Eles começavam a caminhar levando a liteira. Novo apito. Eles paravam e colocavam a liteira no chão.

Apesar dos percalços, o desfile transcorreu dentro da maior normalidade possível, com Carlinhos de Pilares dando um show de interpretação e as arquibancadas começando a entoar o grito de “é campeã! é campeã!”.

Mas aí, um coiote da pata branca, provavelmente a soldo do GRES Mocidade de Aparecida, percebeu que a porta-bandeira estava bailando com o pavilhão da Acadêmicos de Pilares, comunicou a presepada aos jurados, que se encarregaram de colocar água no chope dos ciganos, descontando dois pontos da exibição do casal.

No júri paralelo da Rede Calderaro de Comunicação, o GRES Andanças de Ciganos fez barba, cabelo e bigode, e conquistou o Estandarte de Ouro. No júri oficial, perdeu por dois pontos para a Aparecida, que também havia dado um verdadeiro show. Ainda hoje, aquele vice-campeonato da escola é considerado uma das maiores injustiças já ocorridas na história do carnaval amazonense. Choses.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 104

 

Os compositores Corumba e Venâncio

104. Junho de 1977. Empolgados com o sucesso do hit “Pandeiro É Meu Nome”, Chico da Silva e Venâncio começaram a compor febrilmente para um futuro disco do cantor parintinense que, segundo Jair Rodrigues, possuía uma das vozes mais melodiosas da nova safra de sambistas brasileiros. 

Dessa parceria saem pérolas como “Barba Azul”, “A Volta Ao Mundo em 30 Segundos”, “A Chave”, “Esquadrão do Samba”, “Amor Sem Juízo”, “Aquarela Amazonense” e “Tudo Mudou”.

Os artistas de primeira linha da gravadora Philips, como Chico Buarque de Holanda e Alcione, gravavam pelo selo “Philips”. Os artistas em início de carreira gravavam pelo selo “Polydor”. Os produtores dos dois selos, entretanto, eram os mesmos. 

Chico da Silva mostrou para os executivos da gravadora 20 sambas, para 12 serem escolhidos para o repertório do disco, e avisou que, se fosse gravar, queria que a música de trabalho do LP fosse o samba “Sufoco”, dele e de Antônio José. Ele cantou a música para os executivos ouvirem:

– Não sei se vou aturar / Esses seus abusos / Não sei se vou suportar / Os seus absurdos / Você vai embora / Por aí afora / Distribuindo sonhos / Os carinhos / Que você me prometeu... / Você me desama / E depois reclama / Quando os seus desejos / Já bem cansados / Desagradam os meus... / Não posso mais alimentar / A esse amor tão louco / Que sufoco! / Eu sei que tenho / Mil razões / Até para deixar / De lhe amar / Não, mas eu não quero / Agir assim, meu louco amor / Eu tenho mil razões / Para lhe perdoar / Por amar...

Assim que escutaram o samba, os executivos perceberam que estavam diante de uma nova obra-prima e jogaram duro:

– Meu amigo esse samba está bom demais, mas para ser gravado pela Alcione. Vai ser o carro-chefe do terceiro LP dela, que nós vamos lançar em 1978! Ou você cede esse samba pra Marrom gravar ou nós não produzimos o seu LP...

Mesmo puto da vida, Chico da Silva cedeu à pressão dos executivos.

Como prêmio de consolação, o parintinense foi autorizado a incluir a sua própria versão de “Pandeiro É Meu Nome”, no LP “Samba: quem sabe diz...”, lançado em 1977, que marcou sua estreia na indústria fonográfica. 

A versão ficou tão boa que foi incluída na trilha sonora da novela “Sem Lenço, Sem Documento”, da Rede Globo, que marcou a estreia de Bruna Lombardi na emissora. Em compensação, Chico da Silva excluiu definitivamente “Sufoco” do seu repertório. Não tem cristão no mundo que o faça cantar essa música.

Apesar desse acidente de percurso, a carreira de sambista de Chico da Silva decolou de vez. Ele gravou 12 discos, à média de um por ano, fez dezenas de aparições no programa “Fantástico”, da Rede Globo, participou de inúmeras apresentações na “Discoteca do Chacrinha” e em outros programas televisivos, fez centenas de shows do norte ao sul do país, emplacou sucessos inesquecíveis como “É Preciso Muito Amor”, “Deus Menino”, “Convite A Roberto Carlos”, “Dinorá”, “Falso Amor Sincero”, “Cantiga de Parintins”, “Açucena”, “A Lenda Dos Sete Mares do Amor” e Chalaça”, mas teve sua carreira interrompida em 1990, quando foi diagnosticado com câncer na laringe.

Para se recuperar da doença, Chico da Silva voltou a morar em Parintins. Por insistência de Paulinho Faria, José Carlos Portilho e Fred Goés, ele começou a compor toadas para os dois bois da cidade apesar de ser torcedor do Caprichoso de nascença (“Minha mãe foi uma das fundadoras do boi Caprichoso, em 1925”, explicava). O nível das toadas de boi começou a subir, com o sarrafo de qualidade das composições ficando cada dia mais alto. O Chico da Silva é danado!