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sábado, setembro 26, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 105

 

Chico Costa e Simão Pessoa no Bar do Jacó


105. Em 1984, o advogado Vilson Benayon e a engenheira florestal Simone Pessoa, na época presidente e vice-presidente do GRES Andanças de Ciganos, respectivamente, haviam contratado um carnavalesco chamado Jair Mendes que, segundo eles, fazia misérias no Festival de Parintins. Os manauaras só iriam ouvir falar em Jair Mendes, o mágico por trás dos truques dos bumbás Garantido e Caprichoso, quase dez anos depois.

O enredo da escola de 1987, “A Festa dos Deuses no Carnaval dos Ciganos”, começava nas ferozes guerreiras Amazonas, da Ásia Menor, passava pelos deuses do Monte Olimpo, pelos incas, pelos maias, pelos conquistadores espanhóis, pelo mítico reino El Dorado e acabava nas icamiabas, lá em Nhamundá. Era uma viagem só.

Com aquele jeito de quem não quer nada, Jair Mendes começou a desenhar os carros e explicar como eles se movimentariam na Avenida Djalma Batista. O estudante de engenharia Chico Costa era o responsável pelo cálculo de estrutura dos carros alegóricos do GRES Andanças de Ciganos.

O papel do Jair Mendes era criar. Chico Costa que se lascasse, calculando quantos destaques podiam caber sobre um carro alegórico e quantas rodas o carro precisaria ter para se movimentar com um mínimo de segurança.

Um dos carros (uma megaconstrução de 32 m² de base, intitulada “Monte Olimpo”) precisou de 48 rodinhas – que, na época, eram simples “rolamentos”, aquelas rodinhas de aço, cheia de esferas, usadas nas caixas de transmissão dos automóveis.

Cheio de planos interpostos onde ficariam os destaques, o “Monte Olimpo” conseguiu ser rebocado até ser posicionado ao lado do cemitério São João Batista, lugar da concentração. Como seria o segundo carro a entrar na avenida, estava tudo nos conformes.

A torcida era saber se o abre-alas, com um Pégaso se movimentando furiosamente para os dois lados e soltando fumaça pelas narinas (ninguém nunca tinha visto um troço daquele antes, cortesia do Jair Mendes!), iria conseguir entrar na avenida.

Quando o “Monte Olimpo” foi armado (Zeus estava a cinco metros do chão, Ártemis, a um metro, o restante dos deuses – Ares, Poseidon, Afrodite, Hades, Apolo, Deméter, Hermes, etc. – estavam distribuídos na base), o peso do carro alegórico simplesmente fez as rodinhas mergulharem no asfalto.

Quando a turma começou a empurrar o carro, as rodinhas continuaram presas no asfalto – a maioria dos pregos que as sustentavam na madeira optaram por desistir daquela luta inglória.

O carro conseguiu ser rebocado para o meio da rua com um terço das rodas originais – as demais ficaram enterradas no asfalto. Sem as rodinhas faltantes, aquele carro alegórico não servia mais pra porra nenhuma porque perdera a mobilidade.

O impasse era o seguinte: ou os deuses do Olimpo desciam dos pedestais e desfilavam a pé na avenida como mortais comuns, o que era simplesmente repugnante, ou o carro iria descer a avenida com ou sem rodas. Os ciganos fizeram a opção correta de o carro descer “com ou sem rodas”.

Não era uma tarefa muito fácil e a técnica precisava ser explicada em tempo real. Seria tipo carregar uma liteira. A diferença era de que a tal liteira pesava quase duas toneladas.

Cinquenta caboquinhos se apresentaram como voluntários, muitos deles de bermudas ou calção vagabundo, sem camisa e descalços. Eram os torcedores da escola de samba que moravam no Bodozal da Maués e estavam ali só para prestigiar o desfile. Nunca imaginaram descer a avenida.

Pois foram esses sujeitos humildes e extremamente solidários que levaram no muque o carro alegórico “Monte Olimpo” por toda a extensão da avenida. A cada quinze metros, um sujeito apitava. Eles colocavam a “liteira” no chão. Alguns minutos depois, dois apitos. Eles levantavam a liteira. Três apitos. Eles começavam a caminhar levando a liteira. Novo apito. Eles paravam e colocavam a liteira no chão.

Apesar dos percalços, o desfile transcorreu dentro da maior normalidade possível, com Carlinhos de Pilares dando um show de interpretação e as arquibancadas começando a entoar o grito de “é campeã! é campeã!”.

Mas aí, um coiote da pata branca, provavelmente a soldo do GRES Mocidade de Aparecida, percebeu que a porta-bandeira estava bailando com o pavilhão da Acadêmicos de Pilares, comunicou a presepada aos jurados, que se encarregaram de colocar água no chope dos ciganos, descontando dois pontos da exibição do casal.

No júri paralelo da Rede Calderaro de Comunicação, o GRES Andanças de Ciganos fez barba, cabelo e bigode, e conquistou o Estandarte de Ouro. No júri oficial, perdeu por dois pontos para a Aparecida, que também havia dado um verdadeiro show. Ainda hoje, aquele vice-campeonato da escola é considerado uma das maiores injustiças já ocorridas na história do carnaval amazonense. Choses.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 104

 

Os compositores Corumba e Venâncio

104. Junho de 1977. Empolgados com o sucesso do hit “Pandeiro É Meu Nome”, Chico da Silva e Venâncio começaram a compor febrilmente para um futuro disco do cantor parintinense que, segundo Jair Rodrigues, possuía uma das vozes mais melodiosas da nova safra de sambistas brasileiros. 

Dessa parceria saem pérolas como “Barba Azul”, “A Volta Ao Mundo em 30 Segundos”, “A Chave”, “Esquadrão do Samba”, “Amor Sem Juízo”, “Aquarela Amazonense” e “Tudo Mudou”.

Os artistas de primeira linha da gravadora Philips, como Chico Buarque de Holanda e Alcione, gravavam pelo selo “Philips”. Os artistas em início de carreira gravavam pelo selo “Polydor”. Os produtores dos dois selos, entretanto, eram os mesmos. 

Chico da Silva mostrou para os executivos da gravadora 20 sambas, para 12 serem escolhidos para o repertório do disco, e avisou que, se fosse gravar, queria que a música de trabalho do LP fosse o samba “Sufoco”, dele e de Antônio José. Ele cantou a música para os executivos ouvirem:

– Não sei se vou aturar / Esses seus abusos / Não sei se vou suportar / Os seus absurdos / Você vai embora / Por aí afora / Distribuindo sonhos / Os carinhos / Que você me prometeu... / Você me desama / E depois reclama / Quando os seus desejos / Já bem cansados / Desagradam os meus... / Não posso mais alimentar / A esse amor tão louco / Que sufoco! / Eu sei que tenho / Mil razões / Até para deixar / De lhe amar / Não, mas eu não quero / Agir assim, meu louco amor / Eu tenho mil razões / Para lhe perdoar / Por amar...

Assim que escutaram o samba, os executivos perceberam que estavam diante de uma nova obra-prima e jogaram duro:

– Meu amigo esse samba está bom demais, mas para ser gravado pela Alcione. Vai ser o carro-chefe do terceiro LP dela, que nós vamos lançar em 1978! Ou você cede esse samba pra Marrom gravar ou nós não produzimos o seu LP...

Mesmo puto da vida, Chico da Silva cedeu à pressão dos executivos.

Como prêmio de consolação, o parintinense foi autorizado a incluir a sua própria versão de “Pandeiro É Meu Nome”, no LP “Samba: quem sabe diz...”, lançado em 1977, que marcou sua estreia na indústria fonográfica. 

A versão ficou tão boa que foi incluída na trilha sonora da novela “Sem Lenço, Sem Documento”, da Rede Globo, que marcou a estreia de Bruna Lombardi na emissora. Em compensação, Chico da Silva excluiu definitivamente “Sufoco” do seu repertório. Não tem cristão no mundo que o faça cantar essa música.

Apesar desse acidente de percurso, a carreira de sambista de Chico da Silva decolou de vez. Ele gravou 12 discos, à média de um por ano, fez dezenas de aparições no programa “Fantástico”, da Rede Globo, participou de inúmeras apresentações na “Discoteca do Chacrinha” e em outros programas televisivos, fez centenas de shows do norte ao sul do país, emplacou sucessos inesquecíveis como “É Preciso Muito Amor”, “Deus Menino”, “Convite A Roberto Carlos”, “Dinorá”, “Falso Amor Sincero”, “Cantiga de Parintins”, “Açucena”, “A Lenda Dos Sete Mares do Amor” e Chalaça”, mas teve sua carreira interrompida em 1990, quando foi diagnosticado com câncer na laringe.

Para se recuperar da doença, Chico da Silva voltou a morar em Parintins. Por insistência de Paulinho Faria, José Carlos Portilho e Fred Goés, ele começou a compor toadas para os dois bois da cidade apesar de ser torcedor do Caprichoso de nascença (“Minha mãe foi uma das fundadoras do boi Caprichoso, em 1925”, explicava). O nível das toadas de boi começou a subir, com o sarrafo de qualidade das composições ficando cada dia mais alto. O Chico da Silva é danado!

Telecoteco do Balacobaco - Canto 103

 

O artista plástico Moacir Andrade

103. Fevereiro de 1945. Sábado gordo, dia do “Baile de Máscaras” no clube mais elitista da cidade. Vestido garbosamente de “black tie”, o futuro artista plástico Moacir Andrade, à época com 18 anos, estava postado no alto da escadaria do Ideal Clube que dá para o salão superior, quando sua atenção foi despertada para um casal de comerciantes portugueses que adentrava no clube conduzindo uma jovem ricamente fantasiada de dama da corte italiana. Ao lado da trinca, conversando animadamente, vinha o médico Flávio Castro, amigo de sua família.

No rosto, a garota trazia uma daquelas máscaras de porcelana típicas do carnaval de Veneza. As luvas douradas, o vestido rodado cheio de superposições, o chapéu pontiagudo na cabeça, a exuberante peruca loira e o discreto leque negro com que ela se abanava graciosamente despertaram a libido do pintor. Foi tesão à primeira vista.

Elegantemente, Moacir tirou a moça para bailar, seus pais concordaram, e durante a noite toda, até a orquestra tocar “Cidade Maravilhosa” encerrando o frege, os dois pombinhos não se desgrudaram mais. Conversaram o tempo todo, fizeram planos para o futuro, juraram amor eterno. O artista plástico ficara irremediavelmente apaixonado.

O curioso é que, com exceção de seus expressivos olhos azuis vislumbrados sob a máscara de porcelana, nenhuma parte do corpo da menina estava a mostra. Moacir não sabia se ela era branca, morena, mulata ou amarela. Mas isso era o de menos. O importante é que ele estava completamente apaixonado e disposto a se casar com a garota no dia seguinte.

Durante alguns dias, Moacir Andrade tentou inutilmente localizar o paradeiro da menina. Como ninguém era capaz de fornecer uma pista segura, ele tentou sua última cartada: foi bater no consultório de Flávio Castro. O médico demonstrou uma certa surpresa em ver aquele rapaz ainda imberbe tão empenhado assim em encontrar sua alma gêmea.

– Olha, Moacir, deixa eu te contar uma coisa. Aquela menina se chama Ariadne e seus pais são abonados comerciantes locais. Ela é filha única, fala vários idiomas, toca piano clássico e violino, é educadíssima, lindíssima e irradiava muita felicidade! – explicou o médico. – Há dois anos ela contraiu o bacilo de Hansen, ninguém sabe como. Seus pais gastaram uma fortuna com médicos do mundo todo, mas não conseguiram debelar a doença. Ela tem poucos meses de vida. Os três viajaram ontem para São Paulo e provavelmente você nunca mais vai voltar a vê-los. A Ariadne me pediu apenas para te dar um recado: que aquela noite no Baile de Máscaras do Ideal Clube foi a noite mais feliz de toda a sua vida.

Moacir Andrade quase pirou o cabeção. Realmente, ele nunca mais soube do paradeiro da garota, mas sempre que se recordava daquela noite mágica ficava visivelmente emocionado.

 

Telecoteco do Balacobaco - Canto 102

 

Marlon, Inácio, Simas, Anibal Beça e Simão Pessoa

102. Março de 1980. Por volta do meio-dia do domingo gordo de Carnaval, o contabilista Olíbio Trindade (aka “Olíbio Xiri”), acompanhado do gorducho advogado Zé Augusto, apareceu no Bar do Aristides fantasiado de uma mulher totalmente “divina maravilhosa”. 

Olíbio estava de saia rodada estampada, bustiê amarelo-canário, colares, pulseiras (“escravas”) e brincos de argola, que lhe davam um insuspeitíssimo ar de cartomante cigana. Zé Augusto estava fantasiado de melindrosa de cinema mudo, com direito a piteira e peruca Chanel.

Dali a meia hora, dois cunhados de Olíbio, Mazinho e Nilsinho Santos, também apareceram no boteco fantasiados do mesmo jeito – Mazinho de tailleur de executiva, o que incluía salto alto de 15 cm, e Nilsinho, de Carmem Miranda, com direito a turbante na cabeça com arranjos de frutas tropicais. Olíbio explicou a presepada:

– A Emamtur liberou a avenida João Alfredo pro desfile de blocos de sujos até às 17h. Uns dez amigos do Nilsinho vão se fantasiar de mulher e a gente ficou de se encontrar com eles na avenida pra zoar um pouco. Nós quatro vamos no meu carro. A gente vai estacionar ali no Boulevard Amazonas e ir andando até cair na gandaia. Você não está a fim de ir não?...

A ficha custou a cair. Era o primeiro ano que o desfile carnavalesco seria feito na avenida João Alfredo. Pelas novas regras da Emamtur, 15 blocos desfilariam no domingo, 30 blocos na segunda-feira e os cinco blocos melhores classificados desfilariam na terça-feira, antes do desfile das escolas de samba. Desses cincos sairia o campeão do carnaval na categoria.

No domingo, desfilariam os seguintes blocos: Piratas, Aiatolá, Na Folia, Morro Pede Passagem, Uirapuru, Cordão das Lavadeiras, Taboca, Liberdade, Lira de Prata, Andanças de Ciganos, Caxangá na Folia, Coroas, Sem Compromisso, Mocidade Dependente do Beco Ipixuna e Árabes na Folia.

Na segunda-feira seria a vez dos Jovens Livres na Folia, Soretumar, São Raimundo, Sinal Verde, Feijão Maravilha, Onça, Cassino Tex, Vila Nova na Folia, Portugal sem Passaporte, Papel Bordado, Belezas Naturais, Unidos da Raiz, Acadêmicos do Morro, Unidos da Cophasa, Quem São Eles, Magistral na Folia, Linguarudos, Movido a Álcool, Consulado das Puras, Cadê o Mé?, Olha Nós Aí, Pipocas, Bloco dos Sujos, As Dengosas, Topless, Olívia Pinto, Magnatas das Arábias, Embalo’s, Som Colorido e Dismac.

Eu já estava meio calibrado, mas calculei que dava tempo de desfilar no bloco dos sujos até às 17h, voltar pra Caxuxa, e participar do desfile do Andanças de Ciganos às 21h. Para completar, o Olíbio Xiri estava com uma sacola dentro do carro que ainda continha meia dúzia de perucas. Arranjar um vestido era o de menos. Perguntei do meu irmão Simas Pessoa, que bebia comigo, o que ele achava da ideia:

– Bicho, se tu fores eu também vou! – garantiu.

Cada um de nós dois colocou uma peruca na cabeça e continuamos bebendo.

Dali a pouco, surgiu no boteco o Rubens Bentes e estranhou o fato de estarmos usando perucas de mulher. Expliquei o plano. Ele já foi pegando uma peruca na sacola e colocando na cabeça. O Arlindo Jorge chegou dali a pouco, se inteirou da história e também colocou uma peruca na cabeça. O Rubens providenciou vestidos, saias e blusas de suas irmãs. Nós trocamos de roupa no próprio bar, sob o olhar de reprovação do pessoal que jogava sinuca.

Meia hora depois, Raquel, uma das irmãs do Rubens, subiu a ladeira e entrou no boteco para nos maquiar. Haja sombras, cílios postiços, pó-compacto, blush, glass, delineador e batons em cores escandalosas. 

Ela gastou metade do seu estojo da Avon, mas nos transformou em travestis de classe mundial. Compramos quatro caixas de cerveja em lata, colocamos duas em cada carro e fomos pra guerra. No carro do Arlindo Jorge, ele, Simas, eu e Rubens. No do Olíbio Xiri, ele, Mazinho, Nilsinho e Zé Augusto.

Deixamos os carros ao lado do cemitério São João Batista e assim que começamos a caminhar em direção ao fuzuê, Rubens teve uma ideia brilhante:

– Vamos protestar contra a política econômica do general Figueiredo. Em vez de jogar confete na multidão, nós vamos jogar feijão e arroz...

Nem discutimos. Entramos em uma mercearia e cada um comprou um saco de 10 kg de feijão jalo (o mais caro) e outro de arroz agulhinha perbolizado (também o mais caro). Nos juntamos a uma turma de uns vinte sujeitos também fantasiados de mulher, que estavam vindo do centro da cidade e possuíam alguns instrumentos de percussão, e adentramos a passarela do samba. Viramos amigos de infância dos sujeitos.

Desconfio de que o nosso bloco de sujos foi o que causou mais confusão interativa com a plateia. É que em vez de jogar feijão e arroz sobre a assistência, nossos novos amigos nos convenceram a dar o alimento para os interessados. A gente parava em frente a um lance da arquibancada e perguntava:

– Vocês querem feijão? Vocês querem arroz?...

Sei lá como, mas de repente apareciam vários sacos plásticos vazios estendidos pelos populares. A gente colocava uns 200 gramas de feijão e de arroz em cada um deles e prosseguíamos a caminhada. 

No meio do desfile, o nosso estoque acabou. Sem querer, havíamos distribuído 160 kg de alimentos para as pessoas carentes. Se tivessem 500 blocos iguais ao nosso, teríamos erradicado a fome naquele dia.

Por volta das 18h, retornamos pra Cachoeirinha. Quando passávamos em frente ao Cine Ypiranga, Olíbio fez sinal pra gente parar. Estacionamos os carros e fomos tomar a saideira em frente ao Clube Ypiranga, que estava ultimando os preparativos para seu carnaval daquela noite. 

Aos nos verem daquele jeito, a Turma do Pitombão, ali da Castelo Branco, foi à loucura. Muitos deles tinham vontade de fazer aquilo, mas nunca tinham tido coragem. Conversaram animadamente com a gente, querendo saber detalhes daquela experiência inédita.

Quem também já estava com a ideia de colocar um bloco de sujos na rua eram os brincantes da quadrilha Juventude na Roça, que ensaiavam na casa do Alvadir Assunção (sua esposa, Terezinha Peixoto, era a responsável pela quadrilha). 

Eles já desfilavam no bloco Andanças de Ciganos e no GRES Em Cima da Hora, de Educandos. Bastava pegar as fantasias femininas da quadrilha caipira e dar um trato, que o bloco estava pronto para desfilar. 

O folião Jucimar Barroso de Souza deu o nome do bloco: “Aluga-se Moças”. O estudante Alvatir Carolino arregimentou os brincantes: Onesmo Gomes Jr., João Jururu, Tonny e Dennys Santos, Junior Perturbado, Preto Fernando, Raimundo Pinho, etc. Dona Zoraide Mota, tia do Alvatir, remodelou as roupas femininas da quadrilha para caber na macharada.

Em 1981, a Turma da Juventude na Roça se juntou com a Turma do Pitombão (Romito, Reinaldo, Jairo Caramanho, Belisca, Gilberto, Edinho, Fonseca, Mimico, etc), todos eles fantasiados de mulher, alugaram um trio elétrico, colocaram uma Miss Simpatia em cima do trio elétrico (o fantástico Gilson Brabo, de biquíni prateado, peruca loura, coroa, cetro e faixa) e se dirigiram ao Bar do Aristides, onde já havia uns cem sujeitos fantasiados de mulher.

Nascia o bloco “Aluga-se Moças”, que desfilava pelas ruas da Caxuxa, depois se dirigia até a Av. João Alfredo, atravessava a passarela do samba de ponta a ponta e retornava para o Clube Ypiranga, numa verdadeira maratona etílica. 


O nome do bloco, com aquele espetacular erro de concordância, era uma homenagem ao filme homônimo de pornochanchada estrelado por Gretchen, Rita Cadillac e Xuxa Meneghel.

Nos últimos desfiles em que participei, no final dos anos 80, o gigantismo do bloco já começava a assustar os desavisados. Eram cerca de 3 mil foliões, os homens invariavelmente fantasiados de mulheres e as mulheres fantasiadas de homens.

Apesar do grande consumo de álcool nunca houve brigas, provavelmente porque quase todos os brincantes também desfilavam no GRES Andanças de Ciganos.

O desfile do bloco, entretanto, dava muita dor de cabeça para a nossa eterna Miss Simpatia. Espada-matador juramentado em cartório, Gilson Brabo não bebia e nem fumava, mas aceitava desfilar de miss, numa boa. 

Para complicar, sua família era evangélica. Depois de quatro horas sob um sol escaldante, as marcas brancas do minúsculo sutiã e da faixa de miss em sua pele bronzeada eram uma bandeira e tanto. Gilson Brabo passava seis meses sem tirar a camisa na frente dos parentes, para não ser excomungado pelo seu “suposto” homossexualismo enrustido. Mas, no ano seguinte, se apresentava espontaneamente para passar pela mesma provação. Um santo!

Em meados dos anos 90, Arlindo Jorge Mubarac e Sici Pirangy deram um golpe de estado na agremiação informal, apearam Romito da direção do bloco e eles próprios assumiram o controle da brincadeira. 

Desde a sua fundação, era Romito que contratava o trio elétrico, convocava os brincantes e providenciava a documentação necessária para o bloco desfilar pelas ruas. Injuriado com a desfeita, Romito abandonou o barco. 

Ocorre que Sici e Arlindo não conseguiram contratar um trio elétrico, não convocaram os brincantes e nem providenciaram a documentação necessária para a zoeira ocupar as ruas da cidade. Resultado: o bloco simplesmente deixou de existir. Acontece. Cada uma.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 101

 


101. Um belo dia, o nosso maestro soberano Tom Jobim estava dormindo de bruços no sofá da casa de Vinicius, uma cobertura perto da Rua Faro, no Jardim Botânico. Testemunhas oculares e auditivas: Vinicius de Moraes, Nelsinho Mota e Marcos de Vasconcellos.

Era um comecinho de tarde, logo depois do almoço. Aí, chega um bando álacre de menininhas, todas normalistas, para lamber o poeta.

Uma delas identificou o maestro e perguntou, com unção:

– É ele? É ele?

E ajoelhou-se para a devoção, para o encaminhamento, para o êxtase.

Sem abrir os olhos, o maestro deu uma ajeitada nos fundilhos e soltou um pum no narizinho dela. Daqueles brabos.

Vinicius, Marcus e Nelsinho saíram correndo da sala.

sexta-feira, setembro 25, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 100

 

A cantora Alcione no início da carreira

100. O Cantor e compositor Francisco Ferreira da Silva, o nosso popular Chico da Silva, nasceu no dia 8 de maio de 1945, na zona rural de Parintins, na região do rio Uaicurapá, filho de Antônio Soares da Silva e Edvirgem Ferreira da Silva. 

Seu pai era cearense, descendente de portugueses e espanhóis. Sua mãe era acreana, descendente de africanos. Antônio e Edvirgem se conheceram em um seringal em Xapuri (AC), namoraram, noivaram, casaram e se mudaram para Parintins, em busca de uma vida melhor.

A mãe de Chico da Silva faleceu quando ele estava com três anos e o pai, quando ele estava com dez anos. Órfão de pai e mãe, Chico da Silva foi adotado pela professora Guajarina Nazaré Prestes, que cuidou do moleque como se fosse seu filho biológico. 

Por intermédio do bispo de Parintins, Dom Arcângelo Cérqua, Dona Guajarina soube da existência da Escola Técnica Federal de Manaus e encaminhou o filho para ser internado naquele educandário, depois que o mesmo foi aprovado no exame seletivo para ingressar na instituição. Chico da Silva cursou o Ginásio Industrial Básico, tornando-se torneiro mecânico, chegando a trabalhar em algumas oficinas de refrigeração da cidade por alguns anos.

Em 1966, em busca de uma vida melhor, Chico da Silva, aos 21 anos, viajou para São Paulo. Depois de muito peregrinar, foi admitido como torneiro mecânico na Indústria Villares, em São Bernardo dos Campos, no ABC paulista, onde se concentravam várias indústrias. 

Ele teve como companheiro de seção um torneiro mecânico da mesma idade, chamado Luís Inácio da Silva, que não tinha o dedo mínimo da mão esquerda cortado por uma prensa dois anos antes.  

Nessa época, o torneiro mecânico Luís Inácio passou a se envolver nos movimentos sindicais, levado por seu irmão José Ferreira da Silva, conhecido por Frei Chico. O torneiro mecânico Chico da Silva preferiu se aproximar do meio musical, cantando nas noites paulistas como intérprete de vários sambistas brasileiros, como Noite Ilustrada e Zé Kéti.

Quem primeiro descobriu a bonita sonoridade vocal daquele sambista amazonense foi o cantor Jair Rodrigues. Ele ficou tão empolgado que levou Elis Regina para ouvir Chico da Silva cantando no Bar do Léo. Os três ficaram amigos íntimos (Chico da Silva chegou a escrever um samba para a “Pimentinha”, intitulado “A Batuta”, em 1970, que só foi gravado em 1991, pela cantora amazonense Lucilene Castro).

Em 1956, os compositores Marcos Cavalcanti de Albuquerque, o “Venâncio”, e José do Espírito Santo, o “Corumba”, criaram o inesquecível baião “O Último Pau de Arara”, que se transformou em uma das músicas mais conhecidas do cancioneiro nordestino. 

O baião fez tanto sucesso que foi gravado por Luiz Gonzaga, Ari Lobo, Catulo de Paula, Quinteto Violado, Clara Nunes, Fagner, Maria Bethânia, Sérgio Reis, Caetano Veloso, Zé Ramalho, Teca Calazans, Gilberto Gil, Caju & Castanha, Carmélia Alves e Jair Rodrigues.

Em 1975, 20 anos depois, o cantor Jair Rodrigues apresentou Venâncio a Chico da Silva. Os dois se tornaram amigos e parceiros. Nesse mesmo ano, Alcione, a “Marrom”, havia lançado seu primeiro disco, “A Voz do Samba”, cujo carro-chefe era a música “O Surdo”, de Paulinho Resende e Totonho:

– Amigo, que ironia desta vida / Você chora na avenida / Pro meu povo se alegrar / Eu bato forte / E aqui dentro do peito uma dor / Me destrói / Mas você me entende / E diz que pancada de amor não dói / Meu surdo, parece absurdo / Mas você me escuta / Bem mais que os amigos lá do bar / Não deixa que a dor / mais lhe machuque / Pois pelo seu batuque / Eu dou fim ao meu pranto e começo a cantar / Meu surdo, bato forte no seu couro / Só escuto este teu choro / Que os aplausos vem pra consolar / Meu surdo velho amigo e companheiro / Da avenida e de terreiro /De rodas de samba e solidão / Não deixe que eu vencido de cansaço / Me descuide desse abraço / E desfaça o compasso do passo do meu coração.

Um dia, durante uma conversa com Venâncio, Chico da Silva tocou na ferida:

– Eu gosto muito desse samba da Marrom, compadre, mas esse papo de que o surdo chora numa roda de samba é uma tremenda cascata... O surdo é de marcação, só apanha de vez em quando! Quem se fode mesmo numa roda de samba é o pandeiro! Esse sim, apanha pra caralho! Você não acha, compadre?...

– Eu acho sim, parceiro, eu acho sim! Que tal se a gente fizesse uma música corrigindo essa injustiça e colocando na letra o ponto de vista do próprio pandeiro?...

– É por aí mesmo, compadre, é por aí mesmo!

Um mês depois, os dois compositores haviam feito “Pandeiro É Meu Nome”:

– Falaram que meu companheiro / Meu amigo surdo parece absurdo / Apanha por tudo / Ninguém canta samba / Sem ele apanhar / Não ouviram que seu companheiro / Amigo pandeiro / Também tira coco do mesmo coqueiro / Apanha sorrindo pro povo cantar / Pandeiro / Não é absurdo mas é o meu nome / Não me chamo surdo mas aguento fome / Pandeiro não come mas pode apanhar / Ao povo que vibra na força do som brasileiro / Não é só surdo nem só o pandeiro / Tem uma família tocando legal / Você cantando, tocando e batendo na gente / Passando por tudo tão indiferente / Não conhece a dor do instrumental / Batuqueiro ê, batuqueiro / Cantando samba pode bater no pandeiro.

A música foi mostrada pra Alcione, que adorou a composição e incluiu no seu terceiro disco “Pra Que Chorar”, de 1977. Puxado pelo hit instantâneo de Chico da Silva e Venâncio, o novo LP da Marrom vendeu 400 mil cópias, praticamente o dobro dos LPs anteriores.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 99

 

O advogado e ex-deputado estadual Félix Valois

99. Fevereiro de 1965. Festa de carnaval na sede da Associação Atlética Banco do Brasil, localizada nos altos de um prédio na Marechal Deodoro, a 200 metros da Chefatura de Polícia. 

De repente, começa uma grande briga no salão. A polícia intervém. Os estudantes universitários Gaia Nina, Felix Valois, Alfredo Santana e Edgard Messias, todos ligados ao “Partidão”, acabam sendo presos e levados para o “casarão” da Marechal Deodoro. 

Também ligado ao “Partidão”, o futuro médico Zé Maria Gomes Monteiro entra em ação. Enquanto o baile não era reiniciado, ele fez um discurso curto e grosso:

– Camaradas, negócio seguinte: os futuros advogados da nossa população mais carente e desassistida foram presos injustamente e só vão sair do xilindró depois que a gente molhar a mão dos gorilas que estão a serviço da ditadura militar. Hoje é sábado de carnaval e não é justo que eles passem a noite presos. Eu vou passar a sacolinha e quem quiser que ajude como puder...

Depois de meia hora, Zé Gomes já havia levantado cerca de R$ 5 mil (em valores de hoje), o salário mensal de um comissário de polícia. Com a grana na mão, ele foi até a Chefatura de Polícia. O delegado Belota era o plantonista.

Dirigindo-se a um dos policiais que estava na portaria, Zé Gomes foi peremptório:

– Avise ao delegado Belota que o doutor José Maria Gomes Monteiro está aqui na portaria e deseja falar com ele em regime de urgência urgentíssima...

Pensando tratar-se de algum figurão do governo por conta do nome imponente, o meganha apressou-se em dar o recado. Dali a cinco minutos, Zé Gomes entrou na sala do delegado.

Ele colocou a grana em cima da mesa e disparou:

– Meu queridíssimo, estimadíssimo e excelentíssimo doutor Belota. Eu trouxe um dinheirinho extra para pagar as despesas da carceragem de alguns amigos meus de comprovada boa índole, que estão detidos aqui nesta augusta delegacia há cerca de 50 minutos. Creio que esta grana é suficiente para cobrir as despesas deles por tal espaço de tempo. Agora, se não fosse abusar de sua permanente boa vontade, eu gostaria que o senhor liberasse os meninos que foram presos por causa de uma simples confusãozinha à toa na sede da AABB. E lhe prometo que eu vou me responsabilizar pessoalmente pelos futuros atos da meninada...

O delegado Belota conferiu a grana, colocou no bolso do paletó e avisou:

– Entre lá na carceragem, identifique seus amigos, leve eles embora e torça pra não ocorrerem novos tumultos ou a cobra vai fumar...

Zé Gomes foi até a carceragem, que ficava nos fundos da Chefatura, e, dirigindo-se ao carcereiro, também foi peremptório:

– Eu sou o doutor José Maria Gomes Monteiro e estou vindo do gabinete do excelentíssimo delegado doutor Belota. Ele me autorizou a liberar todo mundo...

O carcereiro, pensando tratar-se de um blefe, foi até a porta e berrou:

– Doutor Belota, é pra liberar todo mundo?

Pensando que o carcereiro estava se referindo aos comunistas detidos, o delegado gritou de volta:

– É, porra! É pra liberar todo mundo! E vê se não me enche mais o saco pelas próximas doze horas...

Zé Gomes deixou a Chefatura de Polícia em companhia de uns 80 presos, incluindo Gaia Nina, Felix Valois, Edgard Messias e Alfredo Santana.

Na Marechal Deodoro, ele falou aos ex-detidos:

– Moçada, quem liberou vocês não fui eu, mas sim o glorioso Partido Comunista Brasileiro. E agora vocês são nossos convidados para participar do baile de carnaval da AABB. Os ingressos e as bebidas são por nossa conta...

Foi uma festa.

Na segunda-feira, mais da metade dos ex-presos estava se filiando ao PCB. Deve ter sido o maior recrutamento de militantes comunistas da história do partido. 

Também, pudera. Quem não gostaria de participar de um partido pai-d’égua daquele que além de ter moral para soltar presos em pleno sábado gordo ainda bancava inesquecíveis bailes de carnaval?...

Telecoteco do Balacobaco - Canto 98

 


98. Novembro de 1968. A casa da Dona Alaíde, mãe do Luiz Pepéu, ficava em cima de um barranco de quase dois metros de altura e o terreiro da residência havia virado um campinho de futebol de dois contra dois. 

Um dia, na falta do que fazer, Pepéu pegou uma bola “casca de ovo” do tipo médio, abriu um furo minúsculo em uma das imitações de gomo e encheu a bola de pedra jacaré. 

A bola “casca de ovo”, que recebera esse apelido por ser extremamente leve, ficou pesando uns quinze quilos. 

Ele colocou a bola no meio da Rua Parintins e ficou esperando um incauto cidadão passar.

Lá pelas tantas, surge no começo da rua o peixeiro Bacaba, vindo de mais um extenuante dia de batalha. Assim que Bacaba se aproximou da bola, Pepéu deu um grito:

– Meu amigo, dá pra você chutar essa bola de volta pra cá, pra gente continuar a nossa pelada?...

Bacaba tirou o tabuleiro da cabeça e colocou no chão. Descalçou a velha sandália japonesa. Enrolou uma das pernas da calça até o meio da canela. Tomou uns seis metros de distância (ele sabia que a bola “casca de ovo” era extremamente leve), aí saiu correndo em direção à bola feito um alucinado e meteu o pé na bola com vontade, de bico. 

A bola rolou um palmo. A unha do dedão do pé do Bacaba virou farelo. O próprio dedão do pé quebrou na mesma hora.

Pulando feito um saci e urrando de dor, Bacaba não economizou nos impropérios e ameaças:

– Eu vou te matar, seu filho da puta! Eu vou fazer picadinho de ti, seu corno velho! Eu vou enfiar minha peixeira no teu bucho, seu viado filho da puta!

Pepéu e os outros moleques, claro, saíram correndo pro quintal da residência e passaram uns três meses sem colocar os pés na rua com medo da vingança do peixeiro.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 97

 

O saudoso sambista e empresário Zé Picanço

97. Abril de 1995. Enquanto matava o tempo antes de encarar o Morro da Liberdade para mais uma edição do antológico Pagode da Resistência, o empresário Zé Picanço estacionou no Bar da Carmona, em Educandos. 

Instalou-se numa mesa estratégica, pediu uma cerveja estupidamente gelada e começou a fazer o que sabia melhor: combater a desidratação.

Nem tinha chegado à segunda garrafa quando surgiu um fantasma da adolescência: Carlos Estevão. Ele abraçou o amigo, puxou uma cadeira sem pedir licença e já desembarcou na conversa com a cara de quem vinha carregar um piano.

– Porra, Zé Picanço, graças a Deus te encontrei! Tu és um sujeito vivido, passado na casca do alho, diplomado pela Universidade da Vida. Preciso de um conselho.

O empresário fez sinal para o garçom trazer outra cerveja. Sabia que conselho de graça costuma sair caro.

– Tu ainda te lembras da Ercília, aquela passista da Batucada do Rio Negro?

– Lembro. Se lembro...

– Pois é. Estou casado com ela faz três anos. Ano passado ela entrou na Semp-Toshiba e caiu nas graças de um supervisor que é uma mãe. Todo fim de mês o cidadão aparece com um mimo: já deu tênis da Nike, pulseira da Vivara, bolsa da Arezzo, calça Fuga de Lula... Enfim, o homem tem um carinho quase corporativo pela minha esposa.

Zé Picanço apenas arqueou uma sobrancelha. Carlos Estevão prosseguiu, completamente alheio ao tamanho da encrenca:

– O problema é que mês que vem é aniversário do supervisor. A Ercília quer que eu compre um presente pra ele. O que tu achas que eu devo dar?

Zé Picanço pousou lentamente o copo sobre a mesa, respirou como um monge tibetano prestes a revelar um grande ensinamento e respondeu com a serenidade de um filósofo de botequim:

– Dá uma chifrada nele.

Carlos Estevão arregalou os olhos.

– Como é?

– Uma chifrada. Porque presente, meu amigo, ele já vem ganhando há muito tempo. E a tua cara-metade sabe disso...

Dizem que Carlos Estevão levantou da cadeira tão rápido que quase pediu impedimento ao garçom. Saiu cuspindo fogo, esbravejando contra a falta de sensibilidade do amigo e jurando nunca mais voltar àquele boteco. Meses depois, chegou a notícia inevitável: Ercília largou Carlos Estevão e foi morar justamente com o tal supervisor.

Naquele dia, ficou provado que Zé Picanço não era empresário. Era vidente. Só faltava cobrar consulta e atender de turbante.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 96

 

Nunes Pereira no alto Rio Negro

96. Agosto de 1976. O antropólogo e escritor Nunes Pereira estava de passagem por Manaus e a moçada do Clube da Madrugada o levou para uma cervejada no Bar Avenida, na Eduardo Ribeiro.

Era um começo de tarde. Estavam lá, entre outros, Arthur Engrácio, Jorge Tufic, Anísio Mello, Alencar e Silva, Guimarães de Paula, Farias de Carvalho, Antístenes Pinto, Luiz Bacellar e Ernesto Penafort, todos inebriados com a presença do grande pajé da literatura indigenista. Birita e tira-gosto dando no meio da canela. Conversas sem ter fim.

No meio da fuzarca, Nunes Pereira queixou-se pra Arthur Engrácio:

– Rapaz, estou sentindo umas cólicas da moléstia... Tenho até a impressão de que já sujei a cueca depois de soltar um “bufa”... Onde é que fica o banheiro?...

Engrácio apontou o local e o antropólogo partiu apressadamente em direção a ele.

Depois de quinze minutos, o antropólogo retornou do banheiro trazendo a cueca samba-canção na mão e, em vez de sentar-se novamente à mesa, seguiu direto para a porta do bar, por onde costumavam passar as normalistas do Instituto de Educação e as senhoras e senhoritas de nossa melhor sociedade. Os escritores ficaram intrigados.

Dali a alguns minutos, Arthur Engrácio foi ver o que estava acontecendo.

Na porta do bar, Nunes Pereira, com a cueca borrada aberta nas mãos, exibia ostensivamente o surrealista troféu às mulheres que passavam e vendia seu peixe:

– Olhem aqui, olhem aqui: vocês já viram a verônica do meu cu?...

As normalistas, as senhoras e as senhoritas, evidentemente, fugiam escandalizadas como se tivessem visto o demo em pessoa. Depois de algum tempo naquela brincadeira sacana, Nunes Pereira voltou para a mesa do bar dando gostosas gargalhadas. Quem viu a verônica garante que a mandala do antropólogo já andava meio puída. Ô raça!

quinta-feira, setembro 24, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 95

 

Os compositores Mestre Chocolate e Nonato Galúcio

95. Agosto de 1994. Atendendo a um convite do GRES Reino Unido da Liberdade, a cantora Jovelina Pérola Negra desembarcou em Manaus para um show num badalado boteco do Vieiralves, reduto da boemia fina, onde o chope era gelado e a conta sempre vinha quente.

Como toda turista que pisava na Zona Franca naquela época, Jovelina fez o ritual obrigatório: saiu às compras. Voltou carregada de sacolas, feliz da vida, exibindo uma coleção de sapatos italianos da Arezzo, todos de verniz vermelho e salto agulha, comprados na Clark's por um preço tão baixo que parecia erro de etiqueta. Levou doze pares. Afinal, quem resiste a uma pechincha internacional?

O problema é que ela resolveu estrear justamente um deles na noite do espetáculo.

Uma hora antes do show, comentou, sem muito alarde:

– Esse sapato está me beliscando.

Ninguém deu importância. Artista reclama de tudo: do som, da luz, do camarim, da temperatura da cerveja...

Meia hora depois, porém, o sapato já tinha transformado os pés da cantora numa espécie de mapa em relevo da Cordilheira dos Andes. Eram bolhas, calos, vergões e uma expressão de dor que faria qualquer ortopedista pedir reforço.

Ela descalçou o sapato e exigiu que a produção do show providenciasse uma sandália.

Começou então uma operação de guerra. Revistaram camarins, mesas, cozinhas e até o carro de um garçom. Apareciam sandálias de todas as cores, modelos e procedências. O único detalhe era que nenhuma passava da metade do pé de Jovelina. Parecia que Manaus inteira calçava 36. A cantora perdeu a paciência.

– Eu não sou o João do Vale pra cantar descalça! Ou aparece uma sandália ou não aparece cantora!

Foi o suficiente para instalar o estado de calamidade pública. Bosco Saraiva, presidente de honra da Reino Unido, assumiu pessoalmente o comando da missão. Parecia um general procurando um doador compatível de calçados. Vasculhou o boteco inteiro, interrogou clientes, mobilizou amigos, agregados e até gente que só tinha ido ali tomar uma cervejinha em paz.

Quando o relógio marcava cinco minutos para o início do show e o público já batucava nas mesas, surgiu a salvação. Uma sandália de couro, estilo franciscana, número 44, tão surrada que parecia ter acompanhado a construção da Ponte Rio-Niterói.

Jovelina calçou. Serviu perfeitamente. Olhou para a sandália, torceu o nariz e decretou:

– A cor é meio morta, mas vai essa mesma.

As luzes se acenderam. O samba começou. E Jovelina fez um show antológico.

Quem não teve a mesma sorte foi o verdadeiro dono da sandália: o compositor Nonato Galúcio. Passou o espetáculo inteiro descalço, caminhando pelo boteco com a delicadeza de quem atravessa um campo minado, desviando de cacos de gelo, tampinhas de garrafa e, principalmente, das bitucas de cigarro que os próprios parceiros da ala de compositores da Reino Unido faziam questão de atirar debaixo da sua mesa, numa demonstração de amizade que beirava a tentativa de homicídio.

No fim das contas, Jovelina saiu de Manaus levando doze pares de sapatos novos e uma surrada sandália franciscana. Não foi pouca porcaria.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 94

 


94. Fevereiro de 1976. Mais enfeitado que jumento de cigano, Alberto Sarará entra no Bar do Oswaldo, no final da Rua Maués, procurando pelo parceiro Nelson Barreto, com quem havia combinado de irem juntos ao baile de carnaval do Beasa.

– O Nelson tomou umas cachaças ontem à noite e passou o dia com desarranjo intestinal. Acho que não vai dar pra ele ir pro baile não! – avisou Miguelito.

Crioulo parrudo, de quase dois metros, Alberto Sarará ficou mordido:

– Porra, bicho, mas vocês aqui da Cachoeirinha só vivem doentes! Nunca vi uma coisa dessas! Adoecem com tudo! Olhem pra mim, que fui criado no Bariri, na ilharga da Matinha, e nunca senti nada! Nunca fiquei gripado, nunca tive diarreia, nunca tive sarampo, nunca peguei nem frieira...

E prosseguiu a ladainha, para justificar seu vigor físico:

– É que vocês foram criados comendo barro e peixe podre aí do Igarapé do Quarenta. Só pode! Eu, não. Quando eu era guri, minha mãe colocava um prego na boca do fogão até ficar incandescente, depois colocava o prego no suco de jenipapo e dava pra eu beber, antes de dormir. Devo ser forte desse jeito porque desde pequeninho sempre tomava aquela infusão de ferro puro...

Folgado que só rolamento de carroça, o biriteiro Macarrão resolve entrar na conversa:

– Rapaz, eu bem que sempre desconfiei que esse pessoal do Bariri metido a macho toma é muito ferro desde criança... Vaprapurra, carniça!

Quase que sai porrada dentro do bar.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 93

 


93. Dona de uma elegância que fazia os jurados esquecerem até de piscar, a eterna musa do carnaval amazonense Ednelza Sahdo desfilava como porta-estandarte da Mocidade de Aparecida quando protagonizou uma das maiores demonstrações de profissionalismo da história da Avenida. Ou de teimosia. Dependendo do ponto de vista.

Naquela noite, Ednelza rodopiava com a leveza de uma bailarina do Teatro Bolshoi. Cada giro parecia calculado por um engenheiro suíço, cada sorriso parecia ensaiado diante do espelho desde o nascimento. Foi então que entrou em cena a maior inimiga da alta-costura carnavalesca: uma miserável tira de ráfia.

Não era uma ráfia qualquer. Era uma sobrevivente. Restara no asfalto depois da passagem de alguma escola de samba tão furreca que nem o caminhão da limpeza teve coragem de assumir a autoria. A danada resolveu escolher sua vítima. Enroscou-se primeiro na sandalinha de lamê de Ednelza. Depois resolveu subir de categoria. Prendeu-se no dedão do pé da porta-estandarte com a determinação de um fiscal da Receita Federal.

Ednelza tentou livrar-se da invasora sem interromper a coreografia. Girava, sambava, sorria, fazia pose, mexia discretamente o pé...

Nada. A ráfia já tinha escritura registrada no dedão.

O mestre-sala percebeu o drama. Sem perder a elegância, deu uma volta completa, ajoelhou-se diante da parceira como um cavaleiro medieval salvando sua princesa e agarrou a maldita. Pensou: “É só dar uma puxadinha...”

Foi a maior subestimação desde o Titanic dizendo que era inafundável. O mestre-sala puxou. A ráfia veio. Só que resolveu trazer um souvenir. Veio agarrada com metade da unha do dedão de Ednelza.

O sorriso da porta-estandarte congelou por um milésimo de segundo. Seu rosto desenhou uma careta capaz de resumir todas as dores da humanidade, da extração de siso ao imposto de renda. Os olhos se encheram de lágrimas. Mas apenas por um instante.

No segundo seguinte, lá estava ela novamente. Sorrindo. Girando. Sambando. Saudando os jurados como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, o dedão provavelmente já telefonava para a Associação Brasileira das Unhas pedindo intervenção imediata.

O público não percebeu. Os jurados também não. Só quem estava perto viu que, a cada giro, Ednelza travava uma silenciosa negociação entre a elegância e uma dor capaz de fazer muito marmanjão pedir aposentadoria por invalidez.

A Mocidade de Aparecida conquistou mais um campeonato. E a verdadeira campeã da noite foi Ednelza Sahdo. Porque vencer desfile é difícil. Agora, desfilar sorrindo depois de perder metade da unha do dedão do pé em pleno Sambódromo... isso já entra na categoria das coisas que só acontecem com porta-estandarte de escola de samba. Ou com quem fez um pacto solene de jamais deixar uma mísera ráfia estragar um título.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 92

 


92. O ano era 1934. O cantor e compositor Carlos Alberto Ferreira Braga, mais conhecido como “Braguinha” ou “João de Barro”, propôs ao seu amigo Noel Rosa em uma mesa do Café Papagaio a composição de uma música que lembrasse o ritmo das pastorinhas que desfilavam na Vila Isabel, na noite de Santo Reis. Pegaram papel e lápis e começaram o rascunho de uma música chamada “Linda Pequena”.

Braguinha não ficou muito satisfeito com o resultado de “Linda Pequena” interpretada por João Petra de Barros, pois a canção não virou sucesso popular.

Em 1937, depois da morte de Noel Rosa, Braguinha resolveu mudar alguns detalhes na letra, em uma verdadeira reciclagem musical: “moreninhas” virou “pastorinhas”, “pequena” virou “pastora” e “pequena que tens a cor morena” por “morena da cor de Madalena”.

O título também foi trocado por “As Pastorinhas”. A nova marchinha foi gravada no final de 1937 por Silvio Caldas e alcançou grande sucesso, sendo a campeã do concurso de músicas de carnaval do Rio de Janeiro, em 1938.

Braguinha era estudante de arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes e adotou o pseudônimo “João de Barro”, um pássaro arquiteto, para esconder o ofício de compositor de seu rígido pai, que não gostava de ver o nome da família circulando no ambiente da música popular, ainda muito mal visto na época.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 91

 


91. Oriundo de uma família de nove irmãos, todos batizados com nomes iniciados pela letra “C” – provavelmente para o pai economizar na encomenda dos monogramas –, Cyro Monteiro nasceu no subúrbio carioca do Rocha.

Seu pai, dentista e funcionário público, era conhecido como “Capitão Monteiro”, título que talvez viesse da antiga Guarda Nacional ou, quem sabe, da habilidade de comandar nove filhos sem pedir reforço ao Exército.

A vocação artística corria no sangue da família. Cyro era sobrinho do lendário pianista Nonô (Romualdo Peixoto), o célebre “Chopin do samba”, um dos músicos mais requisitados do Rio de Janeiro, que ensaiava na casa dos Monteiros ao lado de Sílvio Caldas.

Como se não bastasse, os primos atendiam pelos nomes de Cauby, Araken, Andyara, Aracy e Moacyr Peixoto. Era praticamente um festival de talentos com buffet liberado.

Como cantor, Cyro revolucionou o samba com seu jeito sincopado de brincar com as sílabas, sempre acompanhado da inseparável caixinha de fósforos, que transformava em instrumento de percussão.

Também foi um pioneiro na arte de colecionar amigos. Se existisse rede social naquela época, teria mais seguidores do que o Flamengo em dia de título.

Vinícius de Moraes resumiu bem o fenômeno na contracapa do LP Senhor Samba, lançado em 1961: “Cyro é um grande abraço em toda a humanidade.” E não era exagero. Havia gente que queria cantar como Cyro, viver como Cyro e, principalmente, ser convidada para almoçar com Cyro.

Sua voz ajudou a eternizar sambas de Geraldo Pereira e influenciou intérpretes como Roberto Silva. Já o apelido “Formigão”, dado pelo parceiro Eratóstenes Frazão, permanece envolto em mistério.

Uns diziam que era pela paixão incontrolável por doces. Outros juravam que era por causa de uma verruga escura na testa. Há ainda uma terceira hipótese, nunca confirmada: ele farejava açúcar a três quarteirões de distância.

Outra marca registrada era o fanatismo pelo Flamengo. Sempre que um amigo tinha um filho, Cyro aparecia com uma camisa rubro-negra para o recém-nascido. O bebê nem sabia abrir os olhos e já era inscrito no campeonato carioca.

A ousadia inspirou Chico Buarque, tricolor convicto, a escrever o divertido “Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita para virar casaca de neném”, dedicado à pequena Sílvia, sua filha com Marieta Severo, numa tentativa desesperada de salvar a criança da “influência flamenguista”.

Vinícius também eternizou a amizade entre Nonô e Cyro no célebre Samba da Bênção: “Você, sobrinho de Nonô.”

Mas, se existia um assunto no qual Cyro era unanimidade absoluta, era a gastronomia. O homem não fazia refeição, promovia uma intervenção militar no prato.

Todo sábado, chovesse canivete, granizo ou piano de cauda, dona Zica preparava sua lendária feijoada em regime de boca livre. A casa de Cartola virava uma espécie de ONU do samba: compositores, cantores, boêmios e amigos apareciam para tomar batida de maracujá, cantar até perder a voz e atacar uma feijoada capaz de reconciliar famílias brigadas há gerações.

Cyro, naturalmente, era o primeiro a chegar. Não por ansiedade. Era estratégia militar. Enquanto o resto da turma ainda discutia política, futebol e a última malandragem do bairro, ele já fazia o aquecimento gastronômico: um torresminho aqui, uma costelinha ali, um pedacinho de lombo acolá, uma cerveja para abrir o apetite, outra para confirmar a abertura e uma batidinha de maracujá para garantir que ainda existia espaço.

Quando a feijoada finalmente foi servida, por volta das quatro da tarde, o Formigão atacou três pratos monumentais. Não pratos comuns. Eram porções que fariam um estivador pedir intervalo.

Meia hora depois, resolveu ir ao banheiro aliviar o excesso de cerveja. No corredor, porém, começou a suar frio. Empalideceu. Encostou na parede. Fechou os olhos. A cena era digna de filme de suspense. Um dos convidados passou por ali, viu o estado do sambista e entrou em pânico.

– Corre! O Formigão tá passando mal!

Em segundos, instalou-se o tradicional “barata-voa”. Gente correndo para um lado, gente pedindo água, gente sugerindo médico, benzedeira, padre e, dependendo do grau do desespero, até técnico do Flamengo.

Dona Zica gelou. Imagine a manchete do dia seguinte: “Cyro Monteiro morre depois de comer feijoada de dona Zica.” Aquilo seria o fim da reputação culinária da anfitriã.

Sem perder tempo, correu ao quintal, colheu um punhado de ervas que só ela sabia identificar, preparou um chá tão forte que provavelmente ressuscitava até sambista desafinado e voltou às pressas.

– Toma, Formigão... bebe isso aqui. Vai levantar novinho em folha.

Fez-se silêncio. Todos prenderam a respiração. Cyro pegou a xícara fumegante, olhou para dona Zica, olhou para os amigos aflitos e perguntou, com a maior serenidade do mundo:

– Mas não tem nem uma bolachinha recheada para acompanhar?!