66. Ainda adolescentes e convencidos de que
a literatura os aguardava de braços abertos – ela, porém, fingia não estar em
casa –, Anibal Beça e Alexandre Otto tinham um programa semanal pouco
recomendável: visitar o poeta Américo Antony, em sua casa na Rua Japurá, quase
esquina da Joaquim Nabuco.
O velho “guru
da Amazônia”, já beirando os 60 anos, esperava os dois como um profeta espera
discípulos: ansioso para submetê-los, sem direito de defesa, à leitura de seus
sonetos recém-saídos do forno da inspiração.
Educado na
Inglaterra, Américo Antony era um personagem que parecia ter sido escrito por
um romancista com excesso de imaginação. Fazia questão de proclamar sua
ascendência indígena e jurava, com a segurança de quem tinha conhecido o
sujeito pessoalmente, que seu tetravô fora o lendário tuxaua Manauí Camandry,
um dos grandes chefes dos índios Manaú.
Seu único
livro, “Sonetos das Flores”, trazia na capa uma advertência tão solene que
intimidava até bibliotecário: os poemas deveriam ser lidos “no mais profundo
silêncio”, antes que o mundo maculasse “o espelho puro das emoções do
Espírito”. Era uma recomendação justa. Depois de conhecer o autor, qualquer
outro ambiente também perderia um pouco da pureza.
Naqueles
tempos, Antony atravessava uma fase místico-oriental particularmente intensa.
Convencera-se de que era uma espécie de Gandhi caboclo. Andava completamente
nu, envolto apenas por um lençol encardido, dobrado de um jeito que, na
imaginação dele, lembrava um sári indiano. Passava horas desfilando pelo
quintal, entoando mantras com a solenidade de quem esperava atingir o nirvana
antes do almoço.
Quando os
rapazes chegavam, começava um ritual litúrgico.
– Xandico, meu
filho! Corra à taberna do Zé Magalhães e traga um vidro de café solúvel. Na
volta, não esqueça a lata de leite condensado, a de Nescau e um bule de água
fervendo. Vou preparar um cappuccino para os nossos convidados! Mas vá num pé e
volte no outro!
Xandico era
Alexandre da Macedônia Antony, o filho mais velho – um nome que parecia ter
sido escolhido por um pai incapaz de distinguir certidão de nascimento de
romance histórico.
Enquanto o
rapaz cumpria a missão, Américo entregava uma xícara para um dos visitantes e
iniciava a récita dos sonetos, sempre com a convicção de quem acreditava estar
concorrendo ao Nobel, embora a Academia Sueca ainda ignorasse esse detalhe. Quando
Xandico voltava, começava o espetáculo culinário.
Américo pegava
a lata de leite condensado, soprava vigorosamente um dos furos para fazer o
conteúdo descer. Junto com o leite condensado, desciam também perdigotos
suficientes para enriquecer qualquer pesquisa de microbiologia. Acrescentava
uma colher de café solúvel, outra de Nescau e completava a xícara com água
fervendo. Mas aquilo era apenas o aquecimento. Faltava o toque do chef.
Sem demonstrar
a menor hesitação, o poeta mergulhava na bebida a monumental unha do dedo
mindinho – uma unha multitarefa que passava boa parte do dia prestando serviços
de limpeza auricular. Com ela, mexia lentamente a mistura, enquanto continuava
declamando seus sonetos como se nada de extraordinário estivesse acontecendo.
Talvez porque, para ele, realmente não estivesse. Quando o cappuccino alcançava
o ponto ideal – ou o ponto de não retorno, dependendo da perspectiva –, a
xícara era solenemente oferecida a Anibal Beça, seu pupilo predileto. Anibal
sorria com a diplomacia de um embaixador diante de uma declaração de guerra.
– Muito
obrigado, mestre, mas estou de dieta. Quem sabe na próxima semana...
A bomba
biológica era então transferida para Alexandre Otto, que já não podia recusar
uma segunda vez sem provocar um incidente diplomático entre a poesia e a
gastronomia.
Na semana
seguinte, a cerimônia se repetia com rigor litúrgico. Anibal Beça jurou até o
fim da vida que jamais experimentou uma única gota do lendário cappuccino do
guru. Há quem acredite. E há quem também acredite que o leite condensado
neutralizava os perdigotos.








