60. A dama do samba Jovelina Pérola Negra
estava com 54 anos quando morreu de enfarte, no dia 2 de novembro de 1998, Dia
dos Finados, no começo da madrugada, enquanto dormia em sua casa no bairro da
Pechincha, em Jacarepaguá.
Em 1992,
Jovelina veio a Manaus pela primeira vez para fazer uma série de apresentações
no Clube do Samba, de Aloísio Preto e Vilson Benayon. A pedido de Dominguinhos
do Estácio, Edu do Banjo foi apanhá-la no aeroporto numa manhã de quinta-feira
e se prontificou a ser seu cicerone na cidade. Jovelina agradeceu.
– Olha, Edu,
você só me deixa no hotel, que eu quero conhecer a Zona Franca e comprar uns
bagulhinhos. Aí, por volta das duas da tarde, você me apanha na portaria do
hotel e me leva para comer uma caldeirada de tucunaré, que já me disseram que é
o máximo...
Na hora
combinada, Edu do Banjo chegou ao Hotel Imperial e encontrou Jovelina Pérola
Negra incorporando uma pomba-gira Cigana, mais braba que siri em lata:
– Porra, Edu,
sacanagem da grossa! Puta que pariu, roubaram meu relógio de pulso aqui na Zona
Franca. Foi ali naquele furdunço da Rua Marechal Deodoro. O vagabundo tinha a
mão tão leve que eu nem senti. Só fui dar pela falta dele quando entrei na loja
Oriente. Caralho, Edu, caralho! Aquele era um relógio de estimação que ganhei
da minha madrinha quando completei 15 anos! Puta que pariu, Edu, puta que
pariu! Logo eu, puta velha, malandra escovada, nascida e criada no morro da
Pavuna, frequentadora de becos e quebradas desde os doze anos, dançar dessa
maneira! Porra, Edu, sacanagem! Sacanagem! Ando na Baixada Fluminense há 20
anos e nunca fui assaltada, aí vim pagar um mico aqui em Manaus?! Assim não dá,
porra, assim não dá... Meu relógio de estimação, Edu, caralho, roubaram meu
relógio de estimação, Edu! Puta que pariu! Caralho! Buceta!
Jovelina não
quis mais saber de peixada de tucunaré nem de porra nenhuma. Estava
simplesmente transtornada e puta da vida. Naquela noite, a cantora foi
entrevistada no programa “Clube do Samba”, do radialista Ormando Barbosa, na
rádio Difusora, e repetiu a mesma história.
O radialista
explicou aos ouvintes que aquele relógio não tinha valor comercial nenhum, só
tinha valor sentimental, porque era um presente da madrinha já falecida de
Jovelina. Quem devolvesse na portaria da rádio Difusora seria bem recompensado
e nem precisaria se identificar.
O apelo do
radialista, entretanto, não deu em nada. A crioula sestrosa dançou legal no seu
relógio de estimação. E logo em Manaus, onde relógio de pulso é artigo de
quinta categoria. Puta que pariu! Caralho! Buceta!












