Pesquisar este blog

segunda-feira, setembro 28, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 110

 

O escritor, compositor e pesquisador Daniel Salles

110. Sambista, quando morre, vira samba, disse Chico Buarque. Mas e quando morre um carnavalesco no Carnaval ou às véspera? Ary Barroso, por exemplo, morreu no domingo de Carnaval de 1964. Em 1930, sua marchinha “Dá Nela”, cantada por Francisco Alves, ajudara a fixar o gênero. E seu samba “Camisa Amarela”, de 1939, já nasceu como a crônica mais que perfeita do tríduo. A morte de Ary foi anunciada no instante em que o Império Serrano ia adentrar a Presidente Vargas com “Aquarela Brasileira”, de Silas de Oliveira.

Nove dias depois de Ary, morreu Vicente Paiva. O nome de Vicente talvez já não diga muito para os infiéis, mas o Brasil o conhece por uma marcha de 1935 (com Nelson Barbosa) cantada todo ano, até hoje, por milhares nas ruas do Rio: “Quem não chora não mama / Segura, meu bem, a chupeta / Lugar quente é na cama / Ou então no Bola Preta”. E o território de seu outro sucesso, de 1937 (este, com Jararaca), cobre simplesmente o mundo: “Mamãe, Eu Quero”.

Benedito Lacerda também morreu no Carnaval, o de 1958. Entre tanta coisa que deixou, foi o autor (com Humberto Porto) da “Jardineira”, em 1939. E Paulo da Portela, a quem as escolas devem a pose e o garbo, morreu no domingo anterior ao Carnaval de 1949. Uma multidão o levou ao cemitério de Irajá e, no bicho daquele dia, deu a centena do seu túmulo: 2.908.

Mas nada supera em simbolismo a morte de Pixinguinha: em 1973, de repente, numa igreja em Ipanema, enquanto a poucos metros, sob chuva forte, saía a própria Banda de Ipanema. Na rua, alguém levou a notícia a Albino Pinheiro. A Banda cantou “Caprichoso” e chorou Pixinguinha de corpo presente. O acaso ajudou, mas todo o confete, serpentina, lança-perfume e o amor do mundo não pagam o que esses homens nos legaram em alegria e beleza.

Como registro final, cabe destacar o trágico falecimento de um amigo querido, Daniel Salles, aos 59 anos, na madrugada do dia 17 de novembro de 2025. Compositor, escritor, pesquisador da cultura popular e do esporte amazonense e considerado por muitos como uma das maiores referências vivas da história do carnaval de Manaus, Daniel Salles vinha enfrentando uma longa luta contra as complicações provocadas pela diabetes.

Natural de Manaus, desde muito jovem Daniel desenvolveu o gosto pelos folguedos populares, como cirandas, bois-bumbás e quadrilhas caipiras. Aos sete anos de idade anotava diversas observações em suas cadernetas sobre futebol, carnaval e curiosidades em geral. Em 1978 passou a frequentar a quadra do GRES Vitória Régia, onde em 1981 auxiliou no acabamento de um carro alegórico da escola e ainda o conduziu no desfile.

Depois desfilou em outras escolas e blocos (Sem Compromisso, Mocidade de Ipixuna, Presidente Vargas, Andanças de Ciganos, Reino Unido), sempre anotando o que achava interessante dentro dos desfiles de blocos, das batucadas e das escolas de samba. Com o tempo passou a compor sambas de enredo e hinos de clubes. Conseguiu emplacar 18 sambas de enredo, dos 45 que compôs.

Daniel Salles deixou um legado profundo que atravessa o samba, o futebol, o rádio, a literatura e a pesquisa sobre a cultura popular do Amazonas. Ele é autor do livro “É Tempo de Sambar – História do Carnaval de Manaus”, lançado em 2009, uma obra pioneira no assunto, que foi construída a partir de décadas de pesquisa e com auxílio de vários sambistas, relatando desde os primórdios do carnaval de Manaus até as manifestações no ano de 2008.

Ele também era conhecido por amigos como o “Lamartine Babo do Norte” pela capacidade de compor hinos – muitos deles para clubes amazonenses como América, Manaus FC, Amazonas FC e Princesa do Solimões – e por sua produção incansável como compositor de sambas-enredo em diversas escolas.

Pelas redes sociais, Reino Unido da Liberdade, Sem Compromisso, Boi-Bumbá Corre Campo e outras agremiações publicaram notas de pesar, reconhecendo a trajetória e a generosidade de Daniel. “Que sua luz permaneça acesa em cada lembrança”, escreveu a Reino Unido. A Sem Compromisso afirmou que o sambista “imortalizou seu nome no carnaval e no futebol amazonense”. A diretoria do Corre Campo destacou que ele “cumpriu sua missão nesta vida e agora descansa no plano espiritual”.

Daniel Salles era pai de Ellen Juliana, Rainha do GRES Reino Unido da Liberdade, e sogro do presidente Rangel Magalhães. Deixou também inúmeros amigos, discípulos, parceiros musicais e admiradores. Esse modesto e-book é dedicado a ele.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 109

 

O cantor e compositor Pedrinho Ribeiro

109. Formado em Arquitetura pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Edmilson Rodrigues foi eleito deputado estadual do Pará em 1986 e reelegeu-se em 1990. 

Em 1996, ele venceu a eleição para a Prefeitura de Belém usando como jingle de campanha a música “Vermelho”, de Chico da Silva. 

Alertado pelo compositor paraense Nilson Chaves de que deveria cobrar direitos autorais pela utilização da música, Chico da Silva embarcou para Belém no início de agosto de 1996. 

Durante dois meses, o compositor parintinense tentou, sem sucesso, ser recebido pelos dirigentes petistas. Acabou retornando para Manaus sem um tostão no bolso e se sentindo um tremendo otário, pelo mico que pagou na capital paraense. A música continuou sendo usada como jingle do PT pelos quatro anos seguintes.

Na campanha da reeleição de Edmilson, em 2000, Chico da Silva resolveu colocar os pingos nos is. Ele enviou uma procuração para o também compositor parintinense Pedrinho Ribeiro, que estava morando em Belém, lhe dando plenos poderes para entrar com uma representação criminal contra o PT, por violação dos direitos autorais.

Durante três meses, Pedrinho tentou chegar a um acordo com os dirigentes petistas, mas só conseguia ser recebido por pessoas do quinto escalão, que não tinham nenhum poder decisório. Disposto a abandonar a via diplomática e partir para a ignorância, Pedrinho deu um telefonema para Chico da Silva, que soou como um ultimato:

– Olha, compadre, os caras tão jogando duro. A única solução é você vir aqui e colocar a boca no trombone. Tem um candidato da oposição que paga até 10 mil reais para você aparecer no horário político dele dando um ralho no Edmilson. No meio artístico, todo mundo já sabe da história e acham que o PT está te sacaneando. Vem logo pra Belém ou você vai dançar de novo!...

Uma semana antes da eleição toca o telefone celular de Pedrinho, que estava caçando lebres nas quebradas de Ananindeua.

– Alô? Pedrinho Ribeiro? Aqui é Chico da Silva. Já estou na área, compadre! Acabei de chegar em Belém! – avisou o compositor.

– Onde é que você está, para que eu possa te pegar?... – pergunta Pedrinho.

– Você conhece o Hilton?... – questiona Chico, caprichando na pronúncia britânica do hotel mais famoso (e caro) da cidade.

– Conheço, claro que conheço! – garante Pedrinho, já começando a achar que Chico da Silva estava indo com muita sede ao pote.

– Pois eu estou atrás do Hilton, na Pensão Sete Sete! – anunciou Chico da Silva, sem deixar de acentuar a pronúncia britânica do hotel.

(Pra quem não conhece Belém, atrás do Hilton fica a zona do baixo meretrício da capital paraense. São pensões e hotéis de alta rotatividade, com diária de R$ 10 e troca de lençóis da cama a cada quinze dias. O renomado compositor parintinense, realmente, não estava em boa situação financeira...)

Meia hora depois Pedrinho estaciona o seu Fiat Prêmio caindo aos pedaços na Pensão 77. Chico da Silva entrou no carro e já ficou meio cabreiro, porque a porta do passageiro não fechava:

– Porra, meu procurador, mas esse seu carango aqui está pedindo pra ir pro ferro-velho... Vamos botar pra cima dos caras do PT e levantar um troco para dar uma arrumadinha nessa porcaria, tá certo?...

Pedrinho concordou. Os dirigentes do PT, não. Eles continuaram dando “barrigadas” nos dois músicos. Como a eleição era no domingo, Pedrinho tentou a última cartada. Convenceu Chico da Silva a peitar o prefeito no último comício da campanha, que seria realizado na quinta-feira, numa invasão na periferia de Belém. Chico não se fez de rogado. 

Na hora em que Edmilson chegou ao local e começou a beijar crianças, antes de subir no palanque, Chico driblou os seguranças, deu uma “gravata” no prefeito e contou seu drama, no pé do ouvido. Edmilson ficou possesso:

– Porra, Mascarenhas, que merda é essa?... Que falta de respeito é esse com o Chico da Silva?... Resolve esse problema dele agora!... Agora!!!...

Coordenador da campanha, o paranaense Eustáquio Mascarenhas, ex-militante do PCBR, pediu desculpas ao prefeito, disse que não estava sabendo de nada e marcou um encontro com o compositor para o dia seguinte, às 18h. 

Pedrinho ficou desconfiado. Reunião sobre grana numa sexta-feira, com o horário bancário encerrado, estava cheirando a nova “barrigada”.

No dia seguinte, com os principais caciques petistas reunidos em torno de uma mesa no comitê central do PT, Mascarenhas foi direto ao ponto:

– Muito bem, “seu” Chico da Silva. Quanto é que o senhor pretende receber de direitos autorais pelo uso da sua música?...

– Olha, se eu fosse entrar na Justiça contra vocês, eu ia receber de 300 a 400 mil paus, porque o PT usou minha música durante quatro anos seguidos e nunca me deu um tostão! – explicou o compositor. – Mas como eu tenho simpatia pela luta de vocês, com 60 mil a gente mata essa parada...

Mascarenhas tomou um susto. Os demais dirigentes entreolharam-se, visivelmente desnorteados. O paranaense retomou a palavra:

– Olha, “seu” Chico da Silva, infelizmente a gente só está preparado para lhe dar 10 mil reais! – anunciou o sujeito. – Mesmo porque se não fosse o PT, essa sua música não teria ficado famosa...

Ao ouvir aquilo, Chico da Silva ficou transtornado:

– Famosa por causa do PT?!! Famosa por causa do PT?!! Olha, compadre, eu sou o Chico da Silva!!! O Brasil inteiro conhece o meu trabalho! Tu conheces “Sufoco”? (Chico cantarolou um pouco) Essa música é minha e foi com ela que a Alcione ficou famosa! Tu conheces “É Preciso Muito Amor”? (Chico cantarolou um pouco) Essa é uma parceria minha com o Noca da Portela e foi gravada na França pelo Paul Mauriat! Pelo Paul Mauriat, porra! Tu conheces “Esquadrão Do Samba”? (Chico cantarolou um pouco) Foi a música do ano em uma enquete feita pelo “Fantástico”!... Antes de ser gravada pela Fafá de Belém, a música “Vermelho” já tinha virado hino do Benfica de Portugal e do Inter de Porto Alegre!

O cantor deu uma parada técnica, respirou fundo, limpou o suor da testa com um lenço e voltou a soltar os cachorros:

– Eu sou o Chico da Silva, porra, não preciso da bosta do PT para ser famoso!!! Eu sou um trabalhador e socialista igual aquele cara ali (Chico apontou para um imenso mural com a foto do Che Guevara), mas vocês são uns picaretas! Vocês dizem que vão ajudar os trabalhadores, mas estão querendo botar no meu rabo sem coar! Porra, compadre, eu vivo das minhas composições, do meu trabalho intelectual, das músicas que faço! Eu sou um trabalhador! Eu tenho família pra criar! Isso que vocês estão fazendo comigo é sacanagem, porra! Vocês estão me roubando na maior cara de pau e ficam com essa groselha de que são socialistas!

Aí, virando-se para Pedrinho, determinou:

– Vamos embora, meu procurador, que com esses picaretas não tem mais jogo!...

Pânico no bordel. A tesoureira da campanha tentou serenar os ânimos:

– Olha, Chico da Silva, a gente não tem nenhum interesse em lhe prejudicar. A gente quer usar sua música também no segundo turno. Será que não dava pra gente fechar esse acordo em R$ 30 mil?...

Com o sangue-frio de um condenado à morte enfrentando o pelotão de fuzilamento, Chico não se deu por achado:

– Eu queria que vocês me dessem licença, mas preciso discutir essa nova proposta a sós, com meu procurador...

Os dirigentes petistas saíram da sala. Pedrinho Ribeiro quase esganou o compositor:

– Porra, Chico, tu tás ficando louco? Aceita logo essa porra e vamos embora, antes que eles deem marcha-ré!... Eu estou tão liso que se jogarem um gato em cima de mim ele não se agarra... E tu deves estar muito pior do que eu!... Deixa de ser louco e segura logo essa ponteira!!!

Convencido pelo procurador, Chico embolsou a grana. Dez mil reais em espécie e dois cheques pré-datados de 10 mil. Os dois músicos voltaram para a pensão e Chico começou a arrumar a mala. Pedrinho ficou folheando uma revista Playboy, aguardando ansiosamente sua parte na “bufunfa”. Com o canto dos olhos, ele percebeu Chico da Silva separando cinco pacotes de mil reais cada.

– Bom, cinco mil não era só o que eu esperava, mas está de bom tamanho – pensou com seus botões. – Afinal de contas, eu fui o estrategista da parada.

De repente, Chico retirou um pacote de mil reais do monte. Foi como se Pedrinho tivesse recebido um murro no fígado. Ele sentiu as pernas tremerem e a vista escurecer. Ainda grogue, buscou o canto neutro do ringue.

De repente, Chico retirou outro pacote de mil reais do monte. Foi como se Pedrinho tivesse recebido um tiro à queima-roupa, no meio da lata. Ele estava esperando a extrema-unção, quando o conterrâneo se aproximou:

– Meu compadre, aqui estão três mil reais pelo seu trabalho...

Antes que Pedrinho esboçasse uma reação, Chico da Silva jogou a pá de cal:

– Esse valor corresponde à porcentagem de 10%, que é a comissão universal dos procuradores!...

Não havia como contestar aquele princípio jurídico. Pedrinho embolsou a grana e foi deixar Chico da Silva no aeroporto.

O segundo turno da eleição municipal em Belém mostrou a banalização das denúncias como instrumento de campanha. Empatados tecnicamente até às vésperas da eleição, Edmilson Rodrigues (PT) e Duciomar Costa (PSD) atacaram de forma tão brutal a idoneidade um do outro que acabaram se nivelando.

Chegaram ao final da campanha com o mesmo slogan. “Contra passado sujo, candidato limpo”, dizia Edmilson. “Contra campanha suja, candidato limpo”, respondia Duciomar.

O apelo da música “Vermelho”, de Chico da Silva, talvez tenha acabado por fazer a diferença e garantido um novo mandato ao prefeito petista.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 108

 

Glorinha Gadelha e Sivuca no Programa do Jô

108. A coisa mais fácil de acontecer entre pessoas de porre é um desentendimento. Qualquer motivo pode ser a causa da diáspora e as consequências só serão conhecidas no dia seguinte. 

Foi assim com uma discussão entre a cantora Miúcha e o agitador cultural Albino Pinheiro. Os dois discutiram e chegaram a se estranhar, por causa de um assunto que no dia seguinte ninguém lembrava.

Ao acordar, cheia de arrependimento e culpa, Miúcha resolveu ligar para Albino e colocar tudo em pratos limpos. Aconteceu que Albino tinha ido à casa do grande Sivuca, para combinar o roteiro de um show da série Seis e Meia, e deixara o telefone de onde estaria para qualquer eventualidade.

Sem saber para onde estava ligando, Miúcha telefonou para a casa do Sivuca, sendo atendida pela esposa do instrumentista, a cantora e compositora Glorinha Gadelha. Miúcha foi logo perguntando:

– O Albino está?

Do outro lado da linha, Glorinha, ciosa de sua função de fiel escudeira do marido, não se conteve diante de tamanha falta de respeito:

– Olha aqui, sua vagabunda, albino é a puta que lhe pariu!

Custou um pouco para “cair a ficha” de Miúcha, mas logo o equívoco foi esclarecido.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 107

 

João Orelhinha e Hilário Prado na Banda da Caxuxa

107. Fevereiro de 1986. O bloco de sujos “Aluga-se Moças” havia acabado de desfilar na Avenida Djalma Batista e está retornando pra Cachoeirinha através da Rua Pará, no Vieiralves. São quase 22h da noite do domingo gordo de carnaval. Cerca de 2 mil foliões fantasiados de mulheres participaram da odisseia. 

O mais animado de todos é o estudante Hilário Prado, 20 anos, boa pinta, físico de marombeiro e espada matador registrado em cartório, que, como o resto da gangue, também está morto de bêbado.

Foi o primeiro desfile de Hilário e ele se fantasiou de uma sensual dançarina de Cancan: peruca vermelha estilo Channel, vestido de cetim roxo com franjas de renda negra, cintas-ligas no modelo meias de arrastão, mitenes (luvas negras que cobrem o braço até um pouco acima do cotovelo), penacho e gargantilha. 

Como toque final, uma calcinha com bumbum falso, que continha um enchimento de espuma de nylon. A maquiagem à base de blush, rímel, cílios postiços e batom roxo ajudou a transformar Hilário em uma tremenda gata de classe mundial.

Nas proximidades da Praça Chile, em frente ao cemitério São João Batista, Hilário começa a diminuir o ritmo da caminhada e vai ficando cada vez mais distante do grosso do bloco, que segue em frente na mesma pisada.

Uns dez minutos depois, Hilário está caminhando praticamente sozinho no início da Rua Belém enquanto o trio elétrico do bloco “Aluga-se Moças”, com seus milhares de foliões, já está entrando na Avenida Castelo Branco.

Em frente ao Posto Saci, quase na entrada do Beco Celestino, um Opala quatro portas para ao lado do folião bêbado e solitário.

De repente, um braço de crioulo com a grossura do pescoço do Mike Tyson sai da janela do banco do carona, dá um tapão no bumbum da dançarina de Cancan e uma voz cavernosa quebra o silêncio da noite:

– Te prepara pra ser currada, vagabunda! Nós vamos arrombar esse teu cuzão!

Ouvindo aquilo, Hilário ficou bom do porre na mesma hora.

As portas do Opala já estavam sendo abertas para seus dez ocupantes descerem, quando ele meteu o pé na carreira. Saiu azulado em direção à Avenida Castelo Branco.

O Opala seguiu atrás, com os dez crioulões cada vez mais excitados. Aparentemente, eles estavam drogados e completamente alucinados para colocar as mãos (e outras coisas) na dançarina de bumbum empinadinho, após uma caçada infrutífera pelos bairros da cidade.

No cruzamento da Rua Belém com a Avenida Castelo Branco o sinal do semáforo estava fechado e o Opala ficou detido providencialmente atrás de um ônibus de linha.

Sem parar de correr, Hilário aproveitou a oportunidade para atravessar a Rua Belém em direção ao Colégio Estadual Márcio Nery, desceu por um beco paralelo ao muro do colégio e de lá seguiu em direção à Feira de São Francisco, margeando o igarapé da Cachoeirinha. Seu coração estava para sair pela boca.

Nesse meio tempo, Hilário foi realizando um verdadeiro strip-tease: jogou fora a peruca, o vestido de cetim, as cintas-ligas, a calcinha, as luvas, o penacho e a gargantilha. Quando chegou à Feira de São Francisco estava só de cueca de copinho e tênis All Star Converse de cano alto.

Subiu a Rua General Carneiro no maior pique, pegou a Rua Carvalho Leal à esquerda e só parou de correr quando entrou em sua casa. Estava para colocar os bofes pra fora, mas felizmente havia preservado todas as pregas.

Hilário nunca mais quis se fantasiar de travesti e andar sozinho pelas ruas desertas da Cachoeirinha durante uma noite de carnaval.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 106

 

O pagodeiro Mafu (ou seria Amado Batista?) e suas icamiabas

106. Parceria do compositor amazonense Paulo Onça com o sambista Jorge Aragão, a música “Feitio De Paixão” havia estourado em todo o Brasil e Paulo Onça se sentia o rei da cocada preta. 

A canção é uma obra-prima: “Queria o prazer do amor / Assim desejando estou / Só vou sossegar / Quando te conquistar / Botar todas cartas vou / Na mesa pra decidir / Quem sabe lutando vou conseguir / Sem conseguir, joguei búzios para tê-la sem favor / Sem conseguir, fiz feitiço para ganhar o teu amor / Sem conseguir, tomei banho de arruda pra fluir / Do corpo todo mal sem conseguir, sem conseguir”. 

O diabo é que, com exceção dos pagodeiros da cidade, ninguém sabia quem era Paulo Onça, apesar de ele já ter gravado seis CDs e feito sambas-enredo para quase todas as escolas de samba de Manaus.

No ano da gravação original, ainda saboreando o sucesso da canção nos hit parades do país, Paulo Onça resolveu conhecer o Festival de Parintins, onde participaria de uma roda de pagode no Bar Chapão em companhia de Chico da Silva. Ele convidou para acompanhá-lo na empreitada o pagodeiro Mafu, outro ilustre desconhecido fora do mundo do samba da cidade.

Como o festival cairia num final de semana, a população manauara em peso viajou para a ilha da fantasia. Paulo Onça só encontrou duas vagas em um barco de linha retardatário e assim mesmo ainda teria de viajar de “baladeira” no segundo compartimento, perto do porão de cargas.

Invocado com aquele negócio de dormir de rede no meio da pobreza, o compositor foi conversar com o dono do barco. O sujeito estava na cabine de comando, verificando alguns instrumentos. Paulo Onça entreabriu a porta e foi direto ao assunto:

– Meu amigo, eu sou o famoso compositor Paulo Onça, coautor da música “Feitio De Paixão”, gravada pelo também famoso Jorge Aragão, e gostaria de receber um tratamento diferenciado. Será que não dava para você descolar um camarote com ar-condicionado pra eu viajar com um pouco mais de conforto?...

O sujeito olhou para o compositor como se estivesse vendo um marciano pela primeira vez, cuspiu o tabaco que estava mascando num cesto de lixo, olhou o relógio de pulso, sacudiu uma cordinha dando três badaladas em um sino (indicativo de que o barco ia partir) e aí, sem dar uma palavra, fechou a porta na cara do sambista e a trancou por dentro com um ferrolho. Paulo Onça ficou puto.

Na fila do jantar, que começou a ser servido às 7 horas da noite, o compositor percebeu duas meninas cochichando e apontando pra ele. Paulo Onça estufou o peito e ficou todo posudo. Finalmente alguém havia reconhecido o seu talento. Alguém, não. Duas pessoas. Aliás, duas meninas mortas de gostosas. Ele colocou o prato na mesa e ficou aguardando a abordagem.

Com o canto do olho, Paulo Onça percebeu as gatinhas se aproximando. Estufou mais ainda o peito. Mas, de repente, as meninas passaram por ele e foram direto aonde estava o pagodeiro Mafu, na outra ponta da mesa. Coincidentemente, o pagodeiro estava na fila do jantar atrás do compositor na hora em que as meninas começaram a xavecar. Paulo Onça ficou tão nervoso que quase se engasgou com uma espinha de jaraqui frito servido no jantar.

A morena, que era a mais espevitada e saliente das duas, interpelou o pagodeiro:

– A minha amiga aqui quer saber se você é o Amado Batista...

Com o sangue-frio de um piloto da Al Qaeda se aproximando das torres gêmeas, Mafu não deixou por menos:

– Sou sim, minha filha, sou sim. Mas não espalha, senão aglomera...

Os rostos das duas meninas se iluminaram.

A morena se aproximou do ouvido de Mafu e sussurrou:

– Quando o senhor terminar de jantar, vá lá em cima, na área de lazer, que tem umas pessoas que vão adorar lhe conhecer...

Não deu outra. Quinze minutos depois, enquanto Paulo Onça, conformado, se ajeitava na “baladeira” para começar a dormir, Mafu subiu sorrateiramente para a área de lazer do barco. Seis meninas o aguardavam ansiosamente numa mesa repleta de tira-gosto e biritas.

O suposto Amado Batista foi tratado como um rei. Cada uma delas queria ser mais hospitaleira do que a outra. E o melhor é que ele nem precisaria exercitar seus dotes vocais. Cientes de que o cantor estava viajando “incógnito”, nenhuma delas estava disposta a compartilhar aquele segredo com o restante do barco.

Resultado: o pagodeiro Mafu, quer dizer, o cantor brega Amado Batista foi praticamente obrigado a passar o rodo nas seis meninas, algumas inclusive mais de uma vez.

Nas 24 horas que duraram a viagem, ele comeu do bom e do melhor sem gastar um tostão, dormiu num espaçoso camarote com ar-condicionado na companhia de seis mulheres e não desceu ao porão nem pra visitar o amigo Paulo Onça.

E tudo isso sem jamais ter tido uma única música gravada pelo Jorge Aragão...

sábado, setembro 26, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 105

 

Chico Costa e Simão Pessoa no Bar do Jacó


105. Em 1984, o advogado Vilson Benayon e a engenheira florestal Simone Pessoa, na época presidente e vice-presidente do GRES Andanças de Ciganos, respectivamente, haviam contratado um carnavalesco chamado Jair Mendes que, segundo eles, fazia misérias no Festival de Parintins. Os manauaras só iriam ouvir falar em Jair Mendes, o mágico por trás dos truques dos bumbás Garantido e Caprichoso, quase dez anos depois.

O enredo da escola de 1987, “A Festa dos Deuses no Carnaval dos Ciganos”, começava nas ferozes guerreiras Amazonas, da Ásia Menor, passava pelos deuses do Monte Olimpo, pelos incas, pelos maias, pelos conquistadores espanhóis, pelo mítico reino El Dorado e acabava nas icamiabas, lá em Nhamundá. Era uma viagem só.

Com aquele jeito de quem não quer nada, Jair Mendes começou a desenhar os carros e explicar como eles se movimentariam na Avenida Djalma Batista. O estudante de engenharia Chico Costa era o responsável pelo cálculo de estrutura dos carros alegóricos do GRES Andanças de Ciganos.

O papel do Jair Mendes era criar. Chico Costa que se lascasse, calculando quantos destaques podiam caber sobre um carro alegórico e quantas rodas o carro precisaria ter para se movimentar com um mínimo de segurança.

Um dos carros (uma megaconstrução de 32 m² de base, intitulada “Monte Olimpo”) precisou de 48 rodinhas – que, na época, eram simples “rolamentos”, aquelas rodinhas de aço, cheia de esferas, usadas nas caixas de transmissão dos automóveis.

Cheio de planos interpostos onde ficariam os destaques, o “Monte Olimpo” conseguiu ser rebocado até ser posicionado ao lado do cemitério São João Batista, lugar da concentração. Como seria o segundo carro a entrar na avenida, estava tudo nos conformes.

A torcida era saber se o abre-alas, com um Pégaso se movimentando furiosamente para os dois lados e soltando fumaça pelas narinas (ninguém nunca tinha visto um troço daquele antes, cortesia do Jair Mendes!), iria conseguir entrar na avenida.

Quando o “Monte Olimpo” foi armado (Zeus estava a cinco metros do chão, Ártemis, a um metro, o restante dos deuses – Ares, Poseidon, Afrodite, Hades, Apolo, Deméter, Hermes, etc. – estavam distribuídos na base), o peso do carro alegórico simplesmente fez as rodinhas mergulharem no asfalto.

Quando a turma começou a empurrar o carro, as rodinhas continuaram presas no asfalto – a maioria dos pregos que as sustentavam na madeira optaram por desistir daquela luta inglória.

O carro conseguiu ser rebocado para o meio da rua com um terço das rodas originais – as demais ficaram enterradas no asfalto. Sem as rodinhas faltantes, aquele carro alegórico não servia mais pra porra nenhuma porque perdera a mobilidade.

O impasse era o seguinte: ou os deuses do Olimpo desciam dos pedestais e desfilavam a pé na avenida como mortais comuns, o que era simplesmente repugnante, ou o carro iria descer a avenida com ou sem rodas. Os ciganos fizeram a opção correta de o carro descer “com ou sem rodas”.

Não era uma tarefa muito fácil e a técnica precisava ser explicada em tempo real. Seria tipo carregar uma liteira. A diferença era de que a tal liteira pesava quase duas toneladas.

Cinquenta caboquinhos se apresentaram como voluntários, muitos deles de bermudas ou calção vagabundo, sem camisa e descalços. Eram os torcedores da escola de samba que moravam no Bodozal da Maués e estavam ali só para prestigiar o desfile. Nunca imaginaram descer a avenida.

Pois foram esses sujeitos humildes e extremamente solidários que levaram no muque o carro alegórico “Monte Olimpo” por toda a extensão da avenida. A cada quinze metros, um sujeito apitava. Eles colocavam a “liteira” no chão. Alguns minutos depois, dois apitos. Eles levantavam a liteira. Três apitos. Eles começavam a caminhar levando a liteira. Novo apito. Eles paravam e colocavam a liteira no chão.

Apesar dos percalços, o desfile transcorreu dentro da maior normalidade possível, com Carlinhos de Pilares dando um show de interpretação e as arquibancadas começando a entoar o grito de “é campeã! é campeã!”.

Mas aí, um coiote da pata branca, provavelmente a soldo do GRES Mocidade de Aparecida, percebeu que a porta-bandeira estava bailando com o pavilhão da Acadêmicos de Pilares, comunicou a presepada aos jurados, que se encarregaram de colocar água no chope dos ciganos, descontando dois pontos da exibição do casal.

No júri paralelo da Rede Calderaro de Comunicação, o GRES Andanças de Ciganos fez barba, cabelo e bigode, e conquistou o Estandarte de Ouro. No júri oficial, perdeu por dois pontos para a Aparecida, que também havia dado um verdadeiro show. Ainda hoje, aquele vice-campeonato da escola é considerado uma das maiores injustiças já ocorridas na história do carnaval amazonense. Choses.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 104

 

Os compositores Corumba e Venâncio

104. Junho de 1977. Empolgados com o sucesso do hit “Pandeiro É Meu Nome”, Chico da Silva e Venâncio começaram a compor febrilmente para um futuro disco do cantor parintinense que, segundo Jair Rodrigues, possuía uma das vozes mais melodiosas da nova safra de sambistas brasileiros. 

Dessa parceria saem pérolas como “Barba Azul”, “A Volta Ao Mundo em 30 Segundos”, “A Chave”, “Esquadrão do Samba”, “Amor Sem Juízo”, “Aquarela Amazonense” e “Tudo Mudou”.

Os artistas de primeira linha da gravadora Philips, como Chico Buarque de Holanda e Alcione, gravavam pelo selo “Philips”. Os artistas em início de carreira gravavam pelo selo “Polydor”. Os produtores dos dois selos, entretanto, eram os mesmos. 

Chico da Silva mostrou para os executivos da gravadora 20 sambas, para 12 serem escolhidos para o repertório do disco, e avisou que, se fosse gravar, queria que a música de trabalho do LP fosse o samba “Sufoco”, dele e de Antônio José. Ele cantou a música para os executivos ouvirem:

– Não sei se vou aturar / Esses seus abusos / Não sei se vou suportar / Os seus absurdos / Você vai embora / Por aí afora / Distribuindo sonhos / Os carinhos / Que você me prometeu... / Você me desama / E depois reclama / Quando os seus desejos / Já bem cansados / Desagradam os meus... / Não posso mais alimentar / A esse amor tão louco / Que sufoco! / Eu sei que tenho / Mil razões / Até para deixar / De lhe amar / Não, mas eu não quero / Agir assim, meu louco amor / Eu tenho mil razões / Para lhe perdoar / Por amar...

Assim que escutaram o samba, os executivos perceberam que estavam diante de uma nova obra-prima e jogaram duro:

– Meu amigo esse samba está bom demais, mas para ser gravado pela Alcione. Vai ser o carro-chefe do terceiro LP dela, que nós vamos lançar em 1978! Ou você cede esse samba pra Marrom gravar ou nós não produzimos o seu LP...

Mesmo puto da vida, Chico da Silva cedeu à pressão dos executivos.

Como prêmio de consolação, o parintinense foi autorizado a incluir a sua própria versão de “Pandeiro É Meu Nome”, no LP “Samba: quem sabe diz...”, lançado em 1977, que marcou sua estreia na indústria fonográfica. 

A versão ficou tão boa que foi incluída na trilha sonora da novela “Sem Lenço, Sem Documento”, da Rede Globo, que marcou a estreia de Bruna Lombardi na emissora. Em compensação, Chico da Silva excluiu definitivamente “Sufoco” do seu repertório. Não tem cristão no mundo que o faça cantar essa música.

Apesar desse acidente de percurso, a carreira de sambista de Chico da Silva decolou de vez. Ele gravou 12 discos, à média de um por ano, fez dezenas de aparições no programa “Fantástico”, da Rede Globo, participou de inúmeras apresentações na “Discoteca do Chacrinha” e em outros programas televisivos, fez centenas de shows do norte ao sul do país, emplacou sucessos inesquecíveis como “É Preciso Muito Amor”, “Deus Menino”, “Convite A Roberto Carlos”, “Dinorá”, “Falso Amor Sincero”, “Cantiga de Parintins”, “Açucena”, “A Lenda Dos Sete Mares do Amor” e Chalaça”, mas teve sua carreira interrompida em 1990, quando foi diagnosticado com câncer na laringe.

Para se recuperar da doença, Chico da Silva voltou a morar em Parintins. Por insistência de Paulinho Faria, José Carlos Portilho e Fred Goés, ele começou a compor toadas para os dois bois da cidade apesar de ser torcedor do Caprichoso de nascença (“Minha mãe foi uma das fundadoras do boi Caprichoso, em 1925”, explicava). O nível das toadas de boi começou a subir, com o sarrafo de qualidade das composições ficando cada dia mais alto. O Chico da Silva é danado!

Telecoteco do Balacobaco - Canto 103

 

O artista plástico Moacir Andrade

103. Fevereiro de 1945. Sábado gordo, dia do “Baile de Máscaras” no clube mais elitista da cidade. Vestido garbosamente de “black tie”, o futuro artista plástico Moacir Andrade, à época com 18 anos, estava postado no alto da escadaria do Ideal Clube que dá para o salão superior, quando sua atenção foi despertada para um casal de comerciantes portugueses que adentrava no clube conduzindo uma jovem ricamente fantasiada de dama da corte italiana. Ao lado da trinca, conversando animadamente, vinha o médico Flávio Castro, amigo de sua família.

No rosto, a garota trazia uma daquelas máscaras de porcelana típicas do carnaval de Veneza. As luvas douradas, o vestido rodado cheio de superposições, o chapéu pontiagudo na cabeça, a exuberante peruca loira e o discreto leque negro com que ela se abanava graciosamente despertaram a libido do pintor. Foi tesão à primeira vista.

Elegantemente, Moacir tirou a moça para bailar, seus pais concordaram, e durante a noite toda, até a orquestra tocar “Cidade Maravilhosa” encerrando o frege, os dois pombinhos não se desgrudaram mais. Conversaram o tempo todo, fizeram planos para o futuro, juraram amor eterno. O artista plástico ficara irremediavelmente apaixonado.

O curioso é que, com exceção de seus expressivos olhos azuis vislumbrados sob a máscara de porcelana, nenhuma parte do corpo da menina estava a mostra. Moacir não sabia se ela era branca, morena, mulata ou amarela. Mas isso era o de menos. O importante é que ele estava completamente apaixonado e disposto a se casar com a garota no dia seguinte.

Durante alguns dias, Moacir Andrade tentou inutilmente localizar o paradeiro da menina. Como ninguém era capaz de fornecer uma pista segura, ele tentou sua última cartada: foi bater no consultório de Flávio Castro. O médico demonstrou uma certa surpresa em ver aquele rapaz ainda imberbe tão empenhado assim em encontrar sua alma gêmea.

– Olha, Moacir, deixa eu te contar uma coisa. Aquela menina se chama Ariadne e seus pais são abonados comerciantes locais. Ela é filha única, fala vários idiomas, toca piano clássico e violino, é educadíssima, lindíssima e irradiava muita felicidade! – explicou o médico. – Há dois anos ela contraiu o bacilo de Hansen, ninguém sabe como. Seus pais gastaram uma fortuna com médicos do mundo todo, mas não conseguiram debelar a doença. Ela tem poucos meses de vida. Os três viajaram ontem para São Paulo e provavelmente você nunca mais vai voltar a vê-los. A Ariadne me pediu apenas para te dar um recado: que aquela noite no Baile de Máscaras do Ideal Clube foi a noite mais feliz de toda a sua vida.

Moacir Andrade quase pirou o cabeção. Realmente, ele nunca mais soube do paradeiro da garota, mas sempre que se recordava daquela noite mágica ficava visivelmente emocionado.

 

Telecoteco do Balacobaco - Canto 102

 

Marlon, Inácio, Simas, Anibal Beça e Simão Pessoa

102. Março de 1980. Por volta do meio-dia do domingo gordo de Carnaval, o contabilista Olíbio Trindade (aka “Olíbio Xiri”), acompanhado do gorducho advogado Zé Augusto, apareceu no Bar do Aristides fantasiado de uma mulher totalmente “divina maravilhosa”. 

Olíbio estava de saia rodada estampada, bustiê amarelo-canário, colares, pulseiras (“escravas”) e brincos de argola, que lhe davam um insuspeitíssimo ar de cartomante cigana. Zé Augusto estava fantasiado de melindrosa de cinema mudo, com direito a piteira e peruca Chanel.

Dali a meia hora, dois cunhados de Olíbio, Mazinho e Nilsinho Santos, também apareceram no boteco fantasiados do mesmo jeito – Mazinho de tailleur de executiva, o que incluía salto alto de 15 cm, e Nilsinho, de Carmem Miranda, com direito a turbante na cabeça com arranjos de frutas tropicais. Olíbio explicou a presepada:

– A Emamtur liberou a avenida João Alfredo pro desfile de blocos de sujos até às 17h. Uns dez amigos do Nilsinho vão se fantasiar de mulher e a gente ficou de se encontrar com eles na avenida pra zoar um pouco. Nós quatro vamos no meu carro. A gente vai estacionar ali no Boulevard Amazonas e ir andando até cair na gandaia. Você não está a fim de ir não?...

A ficha custou a cair. Era o primeiro ano que o desfile carnavalesco seria feito na avenida João Alfredo. Pelas novas regras da Emamtur, 15 blocos desfilariam no domingo, 30 blocos na segunda-feira e os cinco blocos melhores classificados desfilariam na terça-feira, antes do desfile das escolas de samba. Desses cincos sairia o campeão do carnaval na categoria.

No domingo, desfilariam os seguintes blocos: Piratas, Aiatolá, Na Folia, Morro Pede Passagem, Uirapuru, Cordão das Lavadeiras, Taboca, Liberdade, Lira de Prata, Andanças de Ciganos, Caxangá na Folia, Coroas, Sem Compromisso, Mocidade Dependente do Beco Ipixuna e Árabes na Folia.

Na segunda-feira seria a vez dos Jovens Livres na Folia, Soretumar, São Raimundo, Sinal Verde, Feijão Maravilha, Onça, Cassino Tex, Vila Nova na Folia, Portugal sem Passaporte, Papel Bordado, Belezas Naturais, Unidos da Raiz, Acadêmicos do Morro, Unidos da Cophasa, Quem São Eles, Magistral na Folia, Linguarudos, Movido a Álcool, Consulado das Puras, Cadê o Mé?, Olha Nós Aí, Pipocas, Bloco dos Sujos, As Dengosas, Topless, Olívia Pinto, Magnatas das Arábias, Embalo’s, Som Colorido e Dismac.

Eu já estava meio calibrado, mas calculei que dava tempo de desfilar no bloco dos sujos até às 17h, voltar pra Caxuxa, e participar do desfile do Andanças de Ciganos às 21h. Para completar, o Olíbio Xiri estava com uma sacola dentro do carro que ainda continha meia dúzia de perucas. Arranjar um vestido era o de menos. Perguntei do meu irmão Simas Pessoa, que bebia comigo, o que ele achava da ideia:

– Bicho, se tu fores eu também vou! – garantiu.

Cada um de nós dois colocou uma peruca na cabeça e continuamos bebendo.

Dali a pouco, surgiu no boteco o Rubens Bentes e estranhou o fato de estarmos usando perucas de mulher. Expliquei o plano. Ele já foi pegando uma peruca na sacola e colocando na cabeça. O Arlindo Jorge chegou dali a pouco, se inteirou da história e também colocou uma peruca na cabeça. O Rubens providenciou vestidos, saias e blusas de suas irmãs. Nós trocamos de roupa no próprio bar, sob o olhar de reprovação do pessoal que jogava sinuca.

Meia hora depois, Raquel, uma das irmãs do Rubens, subiu a ladeira e entrou no boteco para nos maquiar. Haja sombras, cílios postiços, pó-compacto, blush, glass, delineador e batons em cores escandalosas. 

Ela gastou metade do seu estojo da Avon, mas nos transformou em travestis de classe mundial. Compramos quatro caixas de cerveja em lata, colocamos duas em cada carro e fomos pra guerra. No carro do Arlindo Jorge, ele, Simas, eu e Rubens. No do Olíbio Xiri, ele, Mazinho, Nilsinho e Zé Augusto.

Deixamos os carros ao lado do cemitério São João Batista e assim que começamos a caminhar em direção ao fuzuê, Rubens teve uma ideia brilhante:

– Vamos protestar contra a política econômica do general Figueiredo. Em vez de jogar confete na multidão, nós vamos jogar feijão e arroz...

Nem discutimos. Entramos em uma mercearia e cada um comprou um saco de 10 kg de feijão jalo (o mais caro) e outro de arroz agulhinha perbolizado (também o mais caro). Nos juntamos a uma turma de uns vinte sujeitos também fantasiados de mulher, que estavam vindo do centro da cidade e possuíam alguns instrumentos de percussão, e adentramos a passarela do samba. Viramos amigos de infância dos sujeitos.

Desconfio de que o nosso bloco de sujos foi o que causou mais confusão interativa com a plateia. É que em vez de jogar feijão e arroz sobre a assistência, nossos novos amigos nos convenceram a dar o alimento para os interessados. A gente parava em frente a um lance da arquibancada e perguntava:

– Vocês querem feijão? Vocês querem arroz?...

Sei lá como, mas de repente apareciam vários sacos plásticos vazios estendidos pelos populares. A gente colocava uns 200 gramas de feijão e de arroz em cada um deles e prosseguíamos a caminhada. 

No meio do desfile, o nosso estoque acabou. Sem querer, havíamos distribuído 160 kg de alimentos para as pessoas carentes. Se tivessem 500 blocos iguais ao nosso, teríamos erradicado a fome naquele dia.

Por volta das 18h, retornamos pra Cachoeirinha. Quando passávamos em frente ao Cine Ypiranga, Olíbio fez sinal pra gente parar. Estacionamos os carros e fomos tomar a saideira em frente ao Clube Ypiranga, que estava ultimando os preparativos para seu carnaval daquela noite. 

Aos nos verem daquele jeito, a Turma do Pitombão, ali da Castelo Branco, foi à loucura. Muitos deles tinham vontade de fazer aquilo, mas nunca tinham tido coragem. Conversaram animadamente com a gente, querendo saber detalhes daquela experiência inédita.

Quem também já estava com a ideia de colocar um bloco de sujos na rua eram os brincantes da quadrilha Juventude na Roça, que ensaiavam na casa do Alvadir Assunção (sua esposa, Terezinha Peixoto, era a responsável pela quadrilha). 

Eles já desfilavam no bloco Andanças de Ciganos e no GRES Em Cima da Hora, de Educandos. Bastava pegar as fantasias femininas da quadrilha caipira e dar um trato, que o bloco estava pronto para desfilar. 

O folião Jucimar Barroso de Souza deu o nome do bloco: “Aluga-se Moças”. O estudante Alvatir Carolino arregimentou os brincantes: Onesmo Gomes Jr., João Jururu, Tonny e Dennys Santos, Junior Perturbado, Preto Fernando, Raimundo Pinho, etc. Dona Zoraide Mota, tia do Alvatir, remodelou as roupas femininas da quadrilha para caber na macharada.

Em 1981, a Turma da Juventude na Roça se juntou com a Turma do Pitombão (Romito, Reinaldo, Jairo Caramanho, Belisca, Gilberto, Edinho, Fonseca, Mimico, etc), todos eles fantasiados de mulher, alugaram um trio elétrico, colocaram uma Miss Simpatia em cima do trio elétrico (o fantástico Gilson Brabo, de biquíni prateado, peruca loura, coroa, cetro e faixa) e se dirigiram ao Bar do Aristides, onde já havia uns cem sujeitos fantasiados de mulher.

Nascia o bloco “Aluga-se Moças”, que desfilava pelas ruas da Caxuxa, depois se dirigia até a Av. João Alfredo, atravessava a passarela do samba de ponta a ponta e retornava para o Clube Ypiranga, numa verdadeira maratona etílica. 


O nome do bloco, com aquele espetacular erro de concordância, era uma homenagem ao filme homônimo de pornochanchada estrelado por Gretchen, Rita Cadillac e Xuxa Meneghel.

Nos últimos desfiles em que participei, no final dos anos 80, o gigantismo do bloco já começava a assustar os desavisados. Eram cerca de 3 mil foliões, os homens invariavelmente fantasiados de mulheres e as mulheres fantasiadas de homens.

Apesar do grande consumo de álcool nunca houve brigas, provavelmente porque quase todos os brincantes também desfilavam no GRES Andanças de Ciganos.

O desfile do bloco, entretanto, dava muita dor de cabeça para a nossa eterna Miss Simpatia. Espada-matador juramentado em cartório, Gilson Brabo não bebia e nem fumava, mas aceitava desfilar de miss, numa boa. 

Para complicar, sua família era evangélica. Depois de quatro horas sob um sol escaldante, as marcas brancas do minúsculo sutiã e da faixa de miss em sua pele bronzeada eram uma bandeira e tanto. Gilson Brabo passava seis meses sem tirar a camisa na frente dos parentes, para não ser excomungado pelo seu “suposto” homossexualismo enrustido. Mas, no ano seguinte, se apresentava espontaneamente para passar pela mesma provação. Um santo!

Em meados dos anos 90, Arlindo Jorge Mubarac e Sici Pirangy deram um golpe de estado na agremiação informal, apearam Romito da direção do bloco e eles próprios assumiram o controle da brincadeira. 

Desde a sua fundação, era Romito que contratava o trio elétrico, convocava os brincantes e providenciava a documentação necessária para o bloco desfilar pelas ruas. Injuriado com a desfeita, Romito abandonou o barco. 

Ocorre que Sici e Arlindo não conseguiram contratar um trio elétrico, não convocaram os brincantes e nem providenciaram a documentação necessária para a zoeira ocupar as ruas da cidade. Resultado: o bloco simplesmente deixou de existir. Acontece. Cada uma.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 101

 


101. Um belo dia, o nosso maestro soberano Tom Jobim estava dormindo de bruços no sofá da casa de Vinicius, uma cobertura perto da Rua Faro, no Jardim Botânico. Testemunhas oculares e auditivas: Vinicius de Moraes, Nelsinho Mota e Marcos de Vasconcellos.

Era um comecinho de tarde, logo depois do almoço. Aí, chega um bando álacre de menininhas, todas normalistas, para lamber o poeta.

Uma delas identificou o maestro e perguntou, com unção:

– É ele? É ele?

E ajoelhou-se para a devoção, para o encaminhamento, para o êxtase.

Sem abrir os olhos, o maestro deu uma ajeitada nos fundilhos e soltou um pum no narizinho dela. Daqueles brabos.

Vinicius, Marcus e Nelsinho saíram correndo da sala.

sexta-feira, setembro 25, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 100

 

A cantora Alcione no início da carreira

100. O Cantor e compositor Francisco Ferreira da Silva, o nosso popular Chico da Silva, nasceu no dia 8 de maio de 1945, na zona rural de Parintins, na região do rio Uaicurapá, filho de Antônio Soares da Silva e Edvirgem Ferreira da Silva. 

Seu pai era cearense, descendente de portugueses e espanhóis. Sua mãe era acreana, descendente de africanos. Antônio e Edvirgem se conheceram em um seringal em Xapuri (AC), namoraram, noivaram, casaram e se mudaram para Parintins, em busca de uma vida melhor.

A mãe de Chico da Silva faleceu quando ele estava com três anos e o pai, quando ele estava com dez anos. Órfão de pai e mãe, Chico da Silva foi adotado pela professora Guajarina Nazaré Prestes, que cuidou do moleque como se fosse seu filho biológico. 

Por intermédio do bispo de Parintins, Dom Arcângelo Cérqua, Dona Guajarina soube da existência da Escola Técnica Federal de Manaus e encaminhou o filho para ser internado naquele educandário, depois que o mesmo foi aprovado no exame seletivo para ingressar na instituição. Chico da Silva cursou o Ginásio Industrial Básico, tornando-se torneiro mecânico, chegando a trabalhar em algumas oficinas de refrigeração da cidade por alguns anos.

Em 1966, em busca de uma vida melhor, Chico da Silva, aos 21 anos, viajou para São Paulo. Depois de muito peregrinar, foi admitido como torneiro mecânico na Indústria Villares, em São Bernardo dos Campos, no ABC paulista, onde se concentravam várias indústrias. 

Ele teve como companheiro de seção um torneiro mecânico da mesma idade, chamado Luís Inácio da Silva, que não tinha o dedo mínimo da mão esquerda cortado por uma prensa dois anos antes.  

Nessa época, o torneiro mecânico Luís Inácio passou a se envolver nos movimentos sindicais, levado por seu irmão José Ferreira da Silva, conhecido por Frei Chico. O torneiro mecânico Chico da Silva preferiu se aproximar do meio musical, cantando nas noites paulistas como intérprete de vários sambistas brasileiros, como Noite Ilustrada e Zé Kéti.

Quem primeiro descobriu a bonita sonoridade vocal daquele sambista amazonense foi o cantor Jair Rodrigues. Ele ficou tão empolgado que levou Elis Regina para ouvir Chico da Silva cantando no Bar do Léo. Os três ficaram amigos íntimos (Chico da Silva chegou a escrever um samba para a “Pimentinha”, intitulado “A Batuta”, em 1970, que só foi gravado em 1991, pela cantora amazonense Lucilene Castro).

Em 1956, os compositores Marcos Cavalcanti de Albuquerque, o “Venâncio”, e José do Espírito Santo, o “Corumba”, criaram o inesquecível baião “O Último Pau de Arara”, que se transformou em uma das músicas mais conhecidas do cancioneiro nordestino. 

O baião fez tanto sucesso que foi gravado por Luiz Gonzaga, Ari Lobo, Catulo de Paula, Quinteto Violado, Clara Nunes, Fagner, Maria Bethânia, Sérgio Reis, Caetano Veloso, Zé Ramalho, Teca Calazans, Gilberto Gil, Caju & Castanha, Carmélia Alves e Jair Rodrigues.

Em 1975, 20 anos depois, o cantor Jair Rodrigues apresentou Venâncio a Chico da Silva. Os dois se tornaram amigos e parceiros. Nesse mesmo ano, Alcione, a “Marrom”, havia lançado seu primeiro disco, “A Voz do Samba”, cujo carro-chefe era a música “O Surdo”, de Paulinho Resende e Totonho:

– Amigo, que ironia desta vida / Você chora na avenida / Pro meu povo se alegrar / Eu bato forte / E aqui dentro do peito uma dor / Me destrói / Mas você me entende / E diz que pancada de amor não dói / Meu surdo, parece absurdo / Mas você me escuta / Bem mais que os amigos lá do bar / Não deixa que a dor / mais lhe machuque / Pois pelo seu batuque / Eu dou fim ao meu pranto e começo a cantar / Meu surdo, bato forte no seu couro / Só escuto este teu choro / Que os aplausos vem pra consolar / Meu surdo velho amigo e companheiro / Da avenida e de terreiro /De rodas de samba e solidão / Não deixe que eu vencido de cansaço / Me descuide desse abraço / E desfaça o compasso do passo do meu coração.

Um dia, durante uma conversa com Venâncio, Chico da Silva tocou na ferida:

– Eu gosto muito desse samba da Marrom, compadre, mas esse papo de que o surdo chora numa roda de samba é uma tremenda cascata... O surdo é de marcação, só apanha de vez em quando! Quem se fode mesmo numa roda de samba é o pandeiro! Esse sim, apanha pra caralho! Você não acha, compadre?...

– Eu acho sim, parceiro, eu acho sim! Que tal se a gente fizesse uma música corrigindo essa injustiça e colocando na letra o ponto de vista do próprio pandeiro?...

– É por aí mesmo, compadre, é por aí mesmo!

Um mês depois, os dois compositores haviam feito “Pandeiro É Meu Nome”:

– Falaram que meu companheiro / Meu amigo surdo parece absurdo / Apanha por tudo / Ninguém canta samba / Sem ele apanhar / Não ouviram que seu companheiro / Amigo pandeiro / Também tira coco do mesmo coqueiro / Apanha sorrindo pro povo cantar / Pandeiro / Não é absurdo mas é o meu nome / Não me chamo surdo mas aguento fome / Pandeiro não come mas pode apanhar / Ao povo que vibra na força do som brasileiro / Não é só surdo nem só o pandeiro / Tem uma família tocando legal / Você cantando, tocando e batendo na gente / Passando por tudo tão indiferente / Não conhece a dor do instrumental / Batuqueiro ê, batuqueiro / Cantando samba pode bater no pandeiro.

A música foi mostrada pra Alcione, que adorou a composição e incluiu no seu terceiro disco “Pra Que Chorar”, de 1977. Puxado pelo hit instantâneo de Chico da Silva e Venâncio, o novo LP da Marrom vendeu 400 mil cópias, praticamente o dobro dos LPs anteriores.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 99

 

O advogado e ex-deputado estadual Félix Valois

99. Fevereiro de 1965. Festa de carnaval na sede da Associação Atlética Banco do Brasil, localizada nos altos de um prédio na Marechal Deodoro, a 200 metros da Chefatura de Polícia. 

De repente, começa uma grande briga no salão. A polícia intervém. Os estudantes universitários Gaia Nina, Felix Valois, Alfredo Santana e Edgard Messias, todos ligados ao “Partidão”, acabam sendo presos e levados para o “casarão” da Marechal Deodoro. 

Também ligado ao “Partidão”, o futuro médico Zé Maria Gomes Monteiro entra em ação. Enquanto o baile não era reiniciado, ele fez um discurso curto e grosso:

– Camaradas, negócio seguinte: os futuros advogados da nossa população mais carente e desassistida foram presos injustamente e só vão sair do xilindró depois que a gente molhar a mão dos gorilas que estão a serviço da ditadura militar. Hoje é sábado de carnaval e não é justo que eles passem a noite presos. Eu vou passar a sacolinha e quem quiser que ajude como puder...

Depois de meia hora, Zé Gomes já havia levantado cerca de R$ 5 mil (em valores de hoje), o salário mensal de um comissário de polícia. Com a grana na mão, ele foi até a Chefatura de Polícia. O delegado Belota era o plantonista.

Dirigindo-se a um dos policiais que estava na portaria, Zé Gomes foi peremptório:

– Avise ao delegado Belota que o doutor José Maria Gomes Monteiro está aqui na portaria e deseja falar com ele em regime de urgência urgentíssima...

Pensando tratar-se de algum figurão do governo por conta do nome imponente, o meganha apressou-se em dar o recado. Dali a cinco minutos, Zé Gomes entrou na sala do delegado.

Ele colocou a grana em cima da mesa e disparou:

– Meu queridíssimo, estimadíssimo e excelentíssimo doutor Belota. Eu trouxe um dinheirinho extra para pagar as despesas da carceragem de alguns amigos meus de comprovada boa índole, que estão detidos aqui nesta augusta delegacia há cerca de 50 minutos. Creio que esta grana é suficiente para cobrir as despesas deles por tal espaço de tempo. Agora, se não fosse abusar de sua permanente boa vontade, eu gostaria que o senhor liberasse os meninos que foram presos por causa de uma simples confusãozinha à toa na sede da AABB. E lhe prometo que eu vou me responsabilizar pessoalmente pelos futuros atos da meninada...

O delegado Belota conferiu a grana, colocou no bolso do paletó e avisou:

– Entre lá na carceragem, identifique seus amigos, leve eles embora e torça pra não ocorrerem novos tumultos ou a cobra vai fumar...

Zé Gomes foi até a carceragem, que ficava nos fundos da Chefatura, e, dirigindo-se ao carcereiro, também foi peremptório:

– Eu sou o doutor José Maria Gomes Monteiro e estou vindo do gabinete do excelentíssimo delegado doutor Belota. Ele me autorizou a liberar todo mundo...

O carcereiro, pensando tratar-se de um blefe, foi até a porta e berrou:

– Doutor Belota, é pra liberar todo mundo?

Pensando que o carcereiro estava se referindo aos comunistas detidos, o delegado gritou de volta:

– É, porra! É pra liberar todo mundo! E vê se não me enche mais o saco pelas próximas doze horas...

Zé Gomes deixou a Chefatura de Polícia em companhia de uns 80 presos, incluindo Gaia Nina, Felix Valois, Edgard Messias e Alfredo Santana.

Na Marechal Deodoro, ele falou aos ex-detidos:

– Moçada, quem liberou vocês não fui eu, mas sim o glorioso Partido Comunista Brasileiro. E agora vocês são nossos convidados para participar do baile de carnaval da AABB. Os ingressos e as bebidas são por nossa conta...

Foi uma festa.

Na segunda-feira, mais da metade dos ex-presos estava se filiando ao PCB. Deve ter sido o maior recrutamento de militantes comunistas da história do partido. 

Também, pudera. Quem não gostaria de participar de um partido pai-d’égua daquele que além de ter moral para soltar presos em pleno sábado gordo ainda bancava inesquecíveis bailes de carnaval?...