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sexta-feira, outubro 30, 2026

Inaldo e Tony Medeiros, sangue vermelho em dose dupla

 

Os cantores e compositores Tony e Inaldo Medeiros

Filho de Wilson de Souza Cursino e Geny de Medeiros Cursino, o cantor, compositor, poeta popular, arte educador e ex-deputado estadual João Wellington de Medeiros Cursino, o “Tony Medeiros”, nasceu no dia 2 de novembro de 1964, em Parintins, sendo o caçula de uma prole de oito irmãos.

Um ano mais velho que Tony Medeiros, Inaldo Roberto de Medeiros Cursino também abraçou a carreira artística e se tornou compositor, poeta popular e arte educador. Ele foi destacado por sua mãe para ser o guardião do mais novo.

Ainda crianças, quando ambos faziam o grupo escolar, Inaldo ficou gravemente enfermo e foi reprovado pelo excesso de faltas. No ano seguinte, os dois irmãos estavam matriculados na mesma classe e assim continuaram até completar o ginásio.

Tornaram-se unha e carne, corda e caçamba, quase gêmeos univitelinos apesar da diferença de temperamento entre os dois: Inaldo, sempre muito sanguíneo, muito “bad boy”, muito “caboco brabo”, enquanto Tony sempre foi mais tranquilo e comedido, um autêntico “nice guy”.

Nascidos e criados na Rua Paes de Almeida, quase canto com a Getúlio Vargas, os irmãos Medeiros pertenciam geograficamente à área “azul” da cidade.

No período junino, o bumbá Garantido ia dançar exclusivamente no terreiro da casa de dois estivadores, Balaústre e Eduardo Engole Cobra, já que todos os demais moradores da rua torciam pelo Caprichoso.

Um dia, entretanto, para agradar o filho caçula que estava doente, o Garantido dançou no terreiro do seu Wilson Cursino. Resultado: a família inteira, que era Caprichoso, bandeou-se para o “contrário”.

– A gente começou a acompanhar o Garantido batendo lata pelas ruas, quando ainda éramos moleques – recorda Tony Medeiros. – Aí, quando ficamos adolescentes, entramos pra Batucada e tivemos a sorte de conhecer e conviver pessoalmente com a velha guarda do touro branco: Lindolfo e João Batista Monteverde, Ambrósio, Vavazinho, Braulino, Maximiliano, Nelson Baixinho... Aquilo foi uma escola de vida!

A dupla de parceiros-pra-vida-toda só experimentou um hiato de alguns anos quando Inaldo foi estudar o secundário em Campo Grande (MT), onde se formou em técnico em agropecuária, e logo depois Tony foi fazer o mesmo em João Pessoa (PB), onde estudou durante quatro anos no Conservatório de Música da Universidade Federal da Paraíba.

A veia literária dos dois irmãos começou a pulsar mais forte por influência de um tio dos meninos, Luiz Medeiros, que era poeta, cronista e escritor de baciada. Seus textos sobre a vida amazônica eram avidamente consumidos por Tony e Inaldo Medeiros. E foram aqueles textos que os formaram e informaram.

Em 1984, aos 20 anos, Tony Medeiros e Paulinho Du Sagrado criaram o Grupo Ajuri e resolveram participar do 4º Festival da Canção de Parintins. A música “Cantiga Tropical”, inspirada em um dos poemas de Luiz Medeiros, contava a história do guerreiro Ajuricaba na sua luta contra os invasores na região do rio Negro.

Eles conquistaram o primeiro lugar, mas quase perderam o prêmio porque alguns jurados cismaram que aquilo era uma toada (e era!) que destoava da MPB tradicional que se exigia nos festivais. Coisa de tradicionalistas radicais!


Naquele mesmo ano, o boi Garantido sagrou-se pentacampeão do Festival Folclórico de Parintins e Tony Medeiros fez uma toada alusiva ao fato, comparando a constelação Cruzeiro do Sul aos cinco títulos conquistados pelo touro branco. Foi a primeira toada que ele fez para seu bumbá de coração.

– Naquela época, com quatro ou cinco versos se fazia uma toada – diverte-se Inaldo Medeiros. – As 18 toadas do Garantido cabiam numa folha de papel A4. A briga era para estar ali, naquela folha...

Em 1985, Inaldo Medeiros também emplacou sua primeira toada no repertório do Garantido, intitulada “Vou Fazer do Meu Canto, a Toada Mais Bela”, ainda bastante tradicional, numa época em que o acompanhamento das toadas era totalmente percussivo.

Foi quando os dois irmãos decidiram juntar forças para compor juntos e criar novas harmonias para o festival, explorando melhor o universo indígena – uma das obsessões do caçula desde seus tempos de criança.

O resultado foi “Filhos do Sol”, uma toada que exaltava os povos originários: “Tribo dos Andirás / Tribo dos Kayapós / Tribo dos Karajás / Vamos acender a fogueira / E fazer valer o tratado de paz”.

Gravada pelo Grupo Carrapicho, tornou-se um sucesso estrondoso em nível nacional.

A parceria entre os dois deu tão certo que nunca mais foi desfeita. Para se ter uma ideia do impacto de “Filhos do Sol” para o festival de Parintins, foi a partir dessa toada que a temática indígena passou a ser parte importantíssima do espetáculo, sendo item obrigatório para ambos os bumbás na apresentação dos “Povos Indígenas”, “Tuxauas” e “Ritual”, por exemplo.

– Mas não foi fácil emplacar “Filhos do Sol” no repertório do Garantido – recorda Tony Medeiros. – Muita gente dizia: ‘Pô, Tony, esse negócio de índio não tem nada a ver com boi-bumbá...’. Foi uma briga feia, mas acabamos ganhando a queda de braço. O certo é que logo depois o Ronaldo Barbosa começou a fazer esse mesmo tipo de toada com temática indígena no Caprichoso e aí não teve mais volta. Quem ganhou com isso foi o festival!

Da pena e do talento dos dois irmãos saíram verdadeiras obras-primas como “Haximu Quer Viver” (“Na cobiça do ouro / Mataram meu povo / E roubaram meu chão / Derramaram na terra / O sangue inocente / Da minha nação”), “Espírito da Mata” (Mutawariçawa anga açú / Mutawariçawa haira angá / Ameríndio seu grito de guerra / Em defesa da terra sagrada / Que um dia Tupã lhe entregou, ô, ô, ô”), “Toada da Vaqueirada” (“A vaqueirada vem galopando / Saltitando no balanço da toada”), “Boi de Pano” (“Meu boi de pano / É cultura popular / Atravessou o oceano / Veio de longe pra cá”), “Um Canto Novo” (“A lua gira, e gira muito bem / O tempo voa, voa como ninguém / A noite dorme, dorme, dorme / Já dormiu comigo, já dormiu comigo, já dormiu comigo”), “Naiá” (“No encontro do Sol e Lua / As águas tornam-se nuas / Iluminando Naiá”) e “Asa Dura” (“Neste ano eu vou pra minha ilha meu amor / De vermelho e branco, eu vou, eu vou eu vou / Se meu amor não quiser ir / Eu vou sozinho, mas eu vou”), para só citar algumas das mais de 70 toadas feitas pela dupla – as duas últimas aqui citadas com participação do promotor público Davi Jerônimo.

É evidente que os dois irmãos também fizeram músicas, individualmente, com outros parceiros. Por exemplo, “Coração de Batuqueiro”, de Inaldo Medeiros e Marcos Lima, é quase uma espécie de hino do Garantido: “Deixa a poesia da toada te levar / Num eterno mundo de prazer / Em Parintins é tão gostoso declarar / Garantido sou feliz por ter você / O sentimento mais sublime desse povo / Surge na voz do cantador a ecoar / No toque forte, na cadência ritmada / Dos batuqueiros da Baixa / Meu touro branco vem brincar / Garra e emoção, raça e tradição / Bate mais forte o coração da Batucada / Contagiando livremente a Galera avermelhada / E o Batuqueiro é quem conduz essa magia / Traduzida em harmonia no batuque do tambor / E no compasso o coração vence o cansaço / Garantido é minha vida e meu amor / Garra e emoção, raça e tradição / Garra e emoção, raça e tradição / Garra e emoção, sangue, suor e paixão.”

Para o jornalista Wilson Nogueira, pesquisador de festas populares na Amazônia, a toada foi o item que mais se modificou ao longo dos anos. As transformações ocorreram à medida em que a brincadeira foi ganhando atenção do mercado de cultura de massas na década de 1990. Para o pesquisador, “a pressão nas bases tradicionais não estancou os testes com ritmos que distanciavam cada vez mais os bumbás de suas raízes. Criou-se, então, um novo ritmo que se aproxima das exigências que vêm do mercado com o sentimento do passado”.

Ainda na década de 90, Tony Medeiros assumiu o cargo de Amo do Boi após a saída de João Batista Monteverde, filho de Lindolfo.

– Lindolfo foi o primeiro amo do Garantido. Após a morte do Lindolfo, o João Batista assumiu o cargo. Ele acabou levando uma facada em um dos pulmões durante uma briga, e depois disso nunca mais foi mais o mesmo. Perdeu o vozeirão que tinha. Por conta disso, fui convidado pra assumir o cargo. O amo do boi era um item que carregava uma tradição muito grande e não era muito empolgante. O item “amo do boi” estava praticamente desaparecendo. Eu tirei a melodia do verso da tonalidade menor para a tonalidade maior, que é a mais animada. Eu sou o terceiro amo da história do Garantido – diz Tony Medeiros.


Ao longo de sua trajetória como cantor, Tony Medeiros participou de várias apresentações memoráveis. Em 1998, ele participou de um show no estádio Parque dos Príncipes, em Paris, na França, para comemorar os 500 anos do Brasil. Um dos convidados na plateia era o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela.

– Eu cantei duas vezes em Nova York, cantei no Parque dos Príncipes, em Paris, para mais de 120 mil pessoas. A minha geração pegou o boi e levou para o mundo. Com o tempo, a nova geração ainda vai fazer o mesmo porque a renovação é importante para manter a tradição – garante ele.

Paralelo à sua carreira de compositor, cantor e amo do bumbá Garantido, Tony Medeiros também desenvolveu uma brilhante carreira política. Técnico em agropecuária, graduado em Educação Artística com habilitação plena em música pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e pós graduado em Tecnologia da Educação, ele foi presidente da Fundação Villa Lobos, secretário de cultura e secretário especial da Prefeitura de Manaus.

Em 2010, Tony Medeiros foi eleito deputado estadual. Na ALE-AM, foi presidente da comissão de Assuntos Municipais, presidente da frente parlamentar “Pró-Cultura”, membro da comissão de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural e titular das comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional e Sustentável, Educação, Cultura e Assuntos Indígenas e de Geodiversidade, Recursos Hídricos, Minas, Gás e Energia.

Além disso, foi vice-prefeito e secretário de Cultura, Turismo e Meio Ambiente da Prefeitura de Parintins na gestão 2017-2020, tendo sido reeleito juntamente com o prefeito Frank Bi Garcia para a gestão 2021-2024.

Em 2020, com o apoio de 16.403 eleitores, Tony Medeiros retornou para a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, assumindo novamente o cargo de deputado estadual e retomando suas bandeiras nas áreas de turismo, cultura, direitos indígenas, setor primário e desenvolvimento econômico do interior.

Atualmente, ele é presidente do Conselho Municipal de Cultura da Prefeitura de Manaus.


Na madrugada do dia 17 de março de 2025, Inaldo Medeiros Cursino faleceu em sua residência, após um infarto fulminante. No dia anterior, ele havia passado na casa de sua mãe, tomou um chá com torradas e foi para casa, por volta das 20h.

No dia seguinte, por volta de 9h, o filho mais velho, Gaspar, ex-amo do Garantido, estranhou não ouvir o bom dia que lhe mandava sempre e foi até a casa dele. Inaldo estava caído, ainda com a roupa do dia anterior, já rígido.

“Perdi minha alma gêmea”, disse Tony Medeiros, que estava em Manaus quando soube do acontecimento.

“Eu me despeço de um grande amigo de jornada que vai para os braços da eternidade e deixa a sua inestimável obra como contribuição para o Boi-Bumbá, além de muitas recordações das nossas vivências em Parintins”, escreveu David Assayag.

Conhecido como “coração de batuqueiro”, Inaldo não bebia, não fumava e dormia cedo, mas era sedentário, só admitindo deslocamentos de moto ou carro.

Em 2018, ele sofreu um infarto e ficou muito mal. Desde então, rebelde, não fez os acompanhamentos médicos requeridos.

Na véspera, talvez numa premonição da própria partida, escreveu uma despedida emocionada para Jair Mendes, nas exéquias deste em Parintins. “Depois do episódio do meu enfarte agudo, meu coração ficou vulnerável a grandes emoções. Acompanhei o cortejo a distância. Jair Mendes jamais será esquecido!!! Foi em paz, tenho certeza!!!”, escreveu, na sua página do FaceBook.

Fred Góes, a alma encarnada do bumbá Garantido

 

O músico e compositor Fred Góes

Filho de Raul Góes e Lucila Rolim, o músico e compositor Frederico Daniel Paulo Rolim de Góes, mais conhecido como Fred Góes, nasceu em Parintins no dia 18 de junho de 1948. Por parte do pai, possuí descendência portuguesa e holandesa (Goes é uma cidade e município no sudoeste da Holanda, em Zuid-Beveland, na província de Zeeland). Por parte da mãe, herdou o sangue miscigenado de negros e cabocos.

Fred Góes passou a infância e o início da adolescência em Parintins, mas logo depois se mudou para Manaus, como interno da Escola Técnica Federal de Manaus, onde cursou o Ginásio Industrial Básico, com especialização em marcenaria. Disposto a ser um grande “luthier”, ele não só construiu seu primeiro violão artesanalmente, como aprendeu a tocar o instrumento sozinho.

Em 1965, aos 17 anos, Fred Góes se mudou para São Paulo na busca do velho sonho de se transformar em músico profissional e viver da própria arte.

Alguns anos depois, ele se juntou a alguns músicos latinos exilados em Sampa e formou o “Grupo Chasky”, cujos integrantes eram o próprio Fred, Guillermo Noriega, Enzo Merino, Carlitos Demutti e Oscar Segovia.

Paralelamente, Fred, Enzo, Oscar e Celsinho Ribeiro formaram o “Grupo Machitún”. Os dois grupos tocavam a chamada “música folclórica latino-americana de raiz”.

Foi o equatoriano Vicente Guillermo Noriega que ensinou Fred Góes a tocar charango, uma espécie de cavaquinho típico dos grupos musicais andinos e acompanhamento preferencial da ubíqua flauta de Pã peruana conhecida como zampoña.

Homem de mil instrumentos, Fred começou a estudar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e trabalhar como “foca” em grandes jornais como “O Diário Popular” e “Jornal de Tarde”. Entre outras façanhas, ele recebeu, juntamente com uma equipe de 35 repórteres, o Prêmio Esso de Jornalismo, pela cobertura do incêndio do Prédio Joelma.

Em fins de 1979, o visionário empresário Enrique Bergen, argentino radicado no Brasil, teve a feliz ideia de formar um grupo de música latino-americana que se sobressaísse dos padrões corriqueiros da época, quando os grupos do gênero mantinham características primordialmente folclóricas em seus repertórios e formações.

Surgia o grupo “Raíces de América”, formado por Fred Góes, Enzo Merino, Oscar Segovia, Júlio Peralta, Isabel Ribeiro, Celso Ribeiro, Tony Osanah, Mariana Avena e Willy Verdaguer.


O grupo Raíces de América nasceu praticamente junto com a gravadora Eldorado, unindo músicos encantados com a proposta de resgatar a música latina produzida na região e que falasse da vida e dos problemas latino-americanos, de um povo vivo e de cultura vibrante, sem buscar os estereótipos fáceis que reforçam a região como subdesenvolvida e eternamente bucólica e atrasada. No repertório, ao lado de composições próprias, o grupo cantava Violeta Parra, Vinicius de Moraes, Gilberto Gil, Chico Buarque e Milton Nascimento.

Em 1980, tendo a lendária Mercedes Sosa como madrinha e como diretor o famoso Flávio Rangel, o Raíces de América estreou em São Paulo um espetáculo maravilhoso que contava com performances e arranjos ricos e modernos, iluminação, figurino e cenografia elaborados especialmente para o show. As músicas eram permeadas por leitura de poemas feitas pela atriz Isabel Ribeiro, já falecida.

Durante os ensaios, Flávio Rangel sugeriu ao grupo que incluíssem no repertório dois de seus primeiros sucessos: “Guantanamera”, de José Marti, e “Disparada”, de Theo de Barros e Geraldo Vandré. Do primeiro disco, gravado com o sucesso do espetáculo, os destaques eram, além das duas canções citadas, a pastoral “El Condor Pasa”, de Daniel Robles, valorizada pela voz melancólica da cantora portenha Mariana Avena, e “Cantor de Ofício”, de A. Morelli. O sucesso de público conquistado pelo Raíces de América foi imediato.

Não custa lembrar que o início dos anos 80 foi marcado no Brasil pelos processos de reabertura política e pela reintrodução das eleições diretas, o que aproximou a proposta do grupo às demandas da população brasileira.

Um novo disco foi gravado no ano seguinte trazendo pérolas como “Los Hermanos”, de Atahualpa Yupanqui, “Volver a Los 17”, de Violeta Parra, “Guajira Para Esperança de América”, de Oswaldo Avena e Enrique Bergen, “La Ciudad”, de Enzo Merino, Oscar Segovia e Fred Góes, e “Pássaro Cativo”, de Celso Ribeiro.

Em 1982 o grupo conquistou o segundo lugar no Festival MPB Shell promovido pela Rede Globo de Televisão com a música “Fruto do Suor”, de Tony Osanah e Enrique Bergen. A canção cativou principalmente os imigrantes latinos radicados no Brasil e foi o carro-chefe do terceiro álbum do grupo também chamado “Fruto do Suor”. Além da faixa-título, o álbum continha “Pedro Nadie”, de Piero e José, “O que Será”, de Chico Buarque e “Soy Loco Por Ti América”, de Gilberto Gil e Capinam.

Com a saída das vozes de Mariana Avena e Tony Osanah, substituídos respectivamente por Lídia Tolaba e Jota Mariano, o grupo grava “Dulce América”, com destaque para as versões de “O Cio da Terra”, de Milton Nascimento e Chico Buarque, “Nada Será Como Antes”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e “Rosa de Hiroshima”, de Vinicius de Moraes e Gérson Conrad.

O cantor e compositor Zeca Bahia

Em 1985, logo após a gravação desse disco, Fred Góes deixa o grupo e começa uma nova carreira musical em companhia do músico Zeca Bahia, com quem dividia um apartamento em Sampa. 

Falecido há alguns anos, Zeca Bahia era autor de “Porto Solidão”, um sucesso estrondoso na voz do cantor Jessé (“Se um veleiro / Repousasse / Na palma da minha mão / Sopraria com sentimento / E deixaria seguir sempre / Rumo ao meu coração”).

No mesmo ano, após uma apresentação da dupla no Teatro Amazonas, os dois vão a Parintins para assistir pela primeira vez o festival (quando Fred saiu de Parintins, no início de 1965, o festival ainda não existia). 

Os dois amigos ficaram em êxtase. Zeca Bahia resolveu voltar para São Paulo, mas Fred Góes ficou em Parintins, onde montou e editou o jornal semanal “O Parintins”.

O envolvimento de Fred Góes com o “dois-pra-lá-dois-pra cá” foi paulatino e bastante comedido. Ele trazia a experiência da montagem de grandes espetáculos musicais e era dessa forma que pensava em transformar as apresentações do Garantido, mas os “tradicionalistas” não queriam saber de mudanças. A insistência do jornalista acabou prevalecendo.

Entre outras coisas, foi Fred que introduziu o charango no acompanhamento das toadas do bumbá Garantido – alguns anos depois de o Caprichoso ter feito o mesmo por Sylvio Camaleão, que havia aprendido a tocar o instrumento tomando aulas com o próprio Fred.

Fred também contribuiu decisivamente para que as letras das toadas se tornassem mais poéticas, melódicas e criativas, introduzindo a harmonização vocal nas gravações do primeiro disco do Garantido.

Em 1996, com o festival de Parintins entrando no seu momento mais criativo e se transformando em referência internacional, Fred Góes dá outra tacada de mestre: junto com o também músico Sidney Resende, ele arregimenta um grupo de músicos da ilha e repagina o Regional Vermelho e Branco, o primeiro grupo do Garantido a se apresentar em shows acústicos antes e depois do festival de Parintins e o primeiro grupo a gravar um CD de toadas.

Para Fred, aquela era uma maneira legítima de os músicos permanecerem em atividade independente da sazonalidade do festival. E pelo número de “grupos de boi” que surgiu depois do Regional Vermelho e Branco, essa também foi uma iniciativa vitoriosa.

Atual presidente do touro branco, o caboco Fred Góes é pedra de responsa. Tê-lo como amigo é simplesmente uma dádiva divina.

quinta-feira, outubro 29, 2026

Ronaldo Barbosa, a usina de hits do bumbá Caprichoso

 

O compositor Ronaldo Barbosa

Fevereiro de 1991. O bafafá na ilha ainda era a súbita mudança de Chico da Silva para o Garantido. Responsável pela escolha das toadas do Caprichoso, J. Carlos Portilho aparentemente não estava muito preocupado. Aquilo era só mais um acidente de percurso, calculava. Ele mesmo estava tentando inutilmente levar seu amigo Emerson Maia para o touro negro.

Foi quando, naquele mesmo mês, Portilho recebeu em sua residência a visita de Ronaldo Barbosa. Eles se conheciam desde 1979, quando Ronaldo Barbosa passou a residir em Parintins e se tornou fã de carteirinha do touro negro.

Nascido em São José do Egito (PE), no dia 3 de outubro de 1953, em uma família de versadores e violeiros, Ronaldo Barbosa tinha estudado Antropologia, em Recife (PE), Odontologia, em Campina Grande (PB), e era funcionário concursado da Fundação Nacional dos Índios (Funai) há cinco anos, quando chegou a Parintins.

Ele passava a maior parte do tempo fazendo trabalho de campo para a instituição, por onde se aposentou depois de 35 anos de labuta diária como dentista.

Extremamente culto e bem-informado, conhecedor como poucos do lendário nativo dos ribeirinhos e dos primeiros cacicados da Amazônia indígena, músico informal nas horas vagas, Ronaldo Barbosa vinha tentando colocar algumas toadas de sua autoria no repertório do Caprichoso, sem sucesso, desde 1980.

– A batida dos bois era muito tradicional, muito ortodoxa, muito presa às origens, e as minhas toadas pediam uma batida diferente, um pouco mais tribal, por conta das inúmeras culturas indígenas que eu havia conhecido. Ao mesmo tempo, o acompanhamento tradicional das toadas era basicamente percussivo, com surdos, repinique, caixinha e palminhas, enquanto eu queria introduzir cordas, teclados e metais. Daí que foi muito difícil a gente evoluir para esse formato atual – recorda o compositor.

Naquela chamada “década perdida” do compositor, por conta dos “puristas” e “tradicionalistas” de sempre, Ronaldo Barbosa, trabalhando solitariamente em sua residência, havia feito dezenas de toadas interessantíssimas e foram algumas delas que ele apresentou para J. Carlos Portilho naquele encontro acontecido em fevereiro de 1991.

Com uma capacidade extra-sensorial para descobrir novos talentos, J. Carlos Portilho percebeu logo que estava diante de uma mina de ouro, mas não fez alarde.

Procurou a Comissão de Artes do Caprichoso, na época comandada por Simão Assayag, e cantou a pedra:

– A proposta das toadas do Ronaldo é mostrar a importância dos indígenas na nossa formação cultural. A gente sai dessa camisa de força chamada “boi-morena bela-vaqueiros” e começa a singrar por mares nunca dantes navegados. As histórias, o lendário e as culturas indígenas são exuberantes e a gente pode fazer o diabo na arena, basta ter criatividade! – explicou J. Carlos Portilho.

Aquele papo reto conquistou o coração de Simão Assayag. Como o enredo daquele ano já estava decidido, as toadas de Ronaldo Barbosa ficaram transferidas para o ano seguinte.

Elas foram a Pedra de Roseta que definiram o novo formato do festival a partir de 1992.

Uma das primeiras toadas do compositor a ser utilizada como suporte musical do ritual do Caprichoso se intitulava “Réquiem”:

– Aos que foram donos das terras / Antigos donos das penas / Eterno como sempre / Será eterno o criador / êiê, êiê, êiê… / Meu povo te chama, / Machifaro te espera / Teus símbolos sagrados / Ateiam as guerras / Assim como a canoa / O teu remar / Curiatô, Iurimágua, / Paguana / Aos que foram donos das terras / Antigos donos das penas / Eterno como sempre, / Será eterno o criador / Como voa o tempo / Nas asas das eras / Tururucari, Tururucari, Tururucari / A fogueira espera a chama / O sol beijar o teu rosto, ô,ô,ô / O vento os teus cabelos / Assim como a selva / O filho que partiu / Tururucari, Tururucari, Tururucari, ê ê ê / Curiatô, Iurimágua, Paguana.

Quer dizer, de repente os cacicados dos povos originários da Amazônia na época da chegada dos portugueses ao Brasil (Aparia, Machifaro, Aisuari, Paguana, Yurimágua, etc) eram reverenciados e referendados no Festival de Parintins pela primeira vez.

Aquilo, no Bumbódromo, funcionou como tratamento de choque.

Embalado pelas toadas de Ronaldo Barbosa, o ritual do boi Caprichoso começou a ganhar contornos épicos, se transformando na grande sensação do festival.

O Garantido sentiu o baque, mesmo tendo sido o pioneiro na celebração do ritual, mas teve que tirar um dobrado para não deixar a peteca cair de vez e voltar a reequilibrar a disputa.

A década de 1990 representou um dos melhores momentos da história do boi Caprichoso. De 1990 a 1999, ganhou seis dos dez festivais disputados, tendo faturado um tricampeonato (1994-1996) na época em que a festa de Parintins ganhava o Brasil e o mundo.

O touro negro teria conquistado o seu tetracampeonato em 1997, levando em consideração apenas a soma dos pontos dados pelos jurados à apresentação na arena.

Naquele ano, o Caprichoso contava a história dos índios Karajás, que eram peixes imortais (aruanãs) e, depois que afastaram a escuridão e contemplaram o céu pela primeira vez, se transformaram em homens mortais, por obra e graça do deus supremo Kananciuê, passando a habitar as margens do rio Araguaia.

O ritual daquele ano, com outra composição de Ronaldo Barbosa, deixou os jurados emocionados: eles nunca tinham ouvido uma toada que tinha sido praticamente escrita em “língua de índio”:

– Wandiê ê ê á á / Wandiê ê ê Karajá! / Ciê… / Kã-werá! / Kananciuê (Kananciuê) / Tatauapã (Tatauapã) / Numiá (Numiá) / Arapiá (Arapiá) / Numiá… / Sob a luz do luar / Ê ê ê ê ê ê ê ê / Nas terras de Berocã / Canaã, Canaã / Às margens do rio Araguaia / Aruanã… / Inansô-werá / Ê ê ê ê ê ê ê ê / E se fez a luz / No sopro da vida à Ciê / Ciá… Karajá! / Feiticeiro do fogo / Entoa um cantar / Hei Hei / Pra afugentar / Hei Hei / Escuridão / Feiticeiro da taba / Eleva o olhar / Hei Hei / Vem clariar ó lua / Todo o meu chão… / Numiá Arapiá / Hei Hei Hei Hei Hei!

Naquele ano, o Caprichoso também apresentou a toada “Ritmo Quente”, de Alex Pontes e Mailson Mendes, do Canto da Mata, que dava uma acelerada na toada e a transformara numa música pop capaz de tocar nas rádios e conquistar novos fãs para a festa xipuara. Foi outro divisor de águas no festival.

A derrota do Caprichoso adveio de uma penalidade de 10 pontos imposta pelos jurados ao apresentador Gil Gonçalves por ter elogiado, na arena, o governador Amazonino Mendes.

O touro negro deu a volta por cima sagrando-se campeão no ano seguinte, em 1998 – uma conquista indiscutível em que um dos fatos mais marcantes foi o cantor Arlindo Júnior ter ocupado o posto de apresentador e levantador de toadas ao mesmo tempo, e ainda ter vencido nos dois itens, repetindo o feito de Paulinho Faria, do Garantido, que também venceu em ambos os itens em 1991 e 1993.

Quer dizer, se não fosse os dois minutos de leseira baré do apresentador Gil Gonçalves, em 1997, o Caprichoso teria se sagrado pentacampeão do Festival de Bumbás de Parintins em 1998.


Algumas composições de Ronaldo Barbosa tornaram-se quase uma unanimidade na ilha, sendo reverenciadas pelas duas galeras.

Aliás, tirando alguns torcedores mais radicais do Garantido, todos os amantes da cultura popular de Parintins já ouviram e ensaiaram alguns passos da canção “Pesadelo dos Navegantes”, lançada em 1996, no disco “Criação Cabocla”:

– Alçar as velas / desaportar as caravelas / esquadras do Velho Mundo / do oceano ao rio-mar / Alçar as velas / desaportar as caravelas / cruzadas do Novo Mundo / fé, império a dilatar / O vento te leva / há ventania / às noites te envolve agonia / do grande abismo que virá / das feras das águas / que seria / pesadelo de um conto navegador / Iê, Iê / Terra à vista / atracar / Ilha das Tupinambaranas / terra dos Tupinambás / aportas nos braços do Orteiro / de joelhos e bravos guerreiros / celebrai a grande missão / com salva de tiros de morteiro.

Em 2018, no 53º Festival Folclórico de Parintins, Ronaldo comemorou 100 toadas emplacadas em discos do boi azul. “Traidor” foi a centésima canção composta por Ronaldo e está presente no disco “Sabedoria Popular: Uma Revolução Ancestral”.

Ao lado dela, outras composições do artista também foram inseridas no disco, como “Terror das Noites”, “Azulou”, “Boto romanceiro” e “Sissa: Uma história de Amor”, sendo as três últimas em parceria com o compositor Simão Assayag.

Em entrevista ao jornalista Alexandre Pequeno, Ronaldo Barbosa assegurou que suas canções não são elaboradas a toque de caixa e que não segue a temática estipulada pelo bumbá.

– Cada compositor tem uma metodologia de trabalho. No meu caso é um lance de inspiração. Não vou pelo tema e sim pela inspiração. Não faço música por encomenda, minha música é fruto exclusivamente de inspiração poética – garantiu.

Na mitologia indígena, a lenda por trás da centésima toada, como o próprio nome sugere, fala sobre um episódio de traição.

– Ualri era o discípulo amado de Jurupari, que o ensinou todos os segredos das flautas. Só que Ualri ensinou esse segredo aos não-iniciados e às mulheres. Por isso, ele recebeu a condenação que a própria canção revela: Do teu pó serás, serás, répteis a rastejar – explicou o compositor

Em junho de 2017, o Boi Caprichoso iniciou suas apresentações no Bumbódromo ao som de “Saga de um Canoeiro”, canção composta por Ronaldo e presente no disco de 1994.

– Essa foi uma música que fiz para o meu pai e diz: Já vai canoeiro, o porto distante, o teu descansar… Imaginei essa canoa que nós da Amazônia vamos navegar em nossas remadas eternas. Me emocionei muito – lembra o compositor.


No ano da centésima toada, o artista também completou 32 anos de história no Caprichoso e, para ele, a maior gratificação era ainda estar em atividade na associação.

– A recompensa disso é o respeito dos colegas, do boi executar algo que você imaginou. É de uma alegria muito grande – exulta.

De acordo com Ronaldo Barbosa, sua história no Caprichoso começou no final dos anos 80.

– Nesse período, comecei a apresentar meus trabalhos ao boi, pois eu era da Fundação Nacional do Índio (Funai) e viajava por diversas aldeias da Amazônia. Paralelo a esse trabalho de dentista na Funai, naquela época, tenho um trabalho de antropologia muito forte. Aprendi, convivi e vivi por 20 anos nas mais diversas tribos. Não existe nenhuma região da Amazônia que eu não tenha conhecido.

De uma época onde as composições e produções musicais eram simples, Ronaldo se orgulha de ter ajudado a inserir efeitos mais elaborados, novas sonoridades e instrumentos diferenciados nas canções.

– No começo dos anos 90, trouxe uma batida de ritual que não existia em Parintins, fui o pioneiro. Vi como os índios faziam e trouxe para o Caprichoso – lembra.

Além disso, de acordo com Ronaldo, o bumbá azul inseriu pela primeira vez um teclado numa canção de sua autoria, “Fibras de Arumã”, de 1994.

Sobrevivente dos tempos heroicos de formatação do festival, ele ainda relembra com carinho de seus mestres compositores:

– Minha geração tinha bons compositores como Horácio e Heliomar Conceição, que já partiram para o além. Aprendi muito com esses poetas mais antigos do boi.

Com a centésima toada, Ronaldo se consagrou definitivamente como um dos compositores que mais emplacou canções na história do Caprichoso, mas garante que não está pensando em suspender as chuteiras.

– Pretendo continuar participando ativamente da cultura regional por muitos e muitos anos, e não canso de repetir que a própria Amazônia é minha grande fonte de inspiração poética – resume.

O compositor também assina outras grandes canções clássicas do touro negro, como “Vale do Javari”, “Gene”, “Amazônia Quaternária” e e “Catedral”, esta também em parceria com Simão Assayag. O caboco é danado.

segunda-feira, outubro 26, 2026

Emerson Maia, o eterno Xamã do Festival de Parintins

 


Filho de dona Ladir e do pecuarista Antônio Maia, um dos primeiros padrinhos do bumbá Garantido, o cantor e compositor Emerson Maia, um ano mais novo que J. Carlos Portilho, teve uma carreira musical muito parecida com a do seu amigo de adolescência.

Ainda bem pequeno, ele já se exibia em festas de colégio e reuniões. Aprendeu a tocar violão com 14 anos, mas logo trocou o instrumento pela guitarra elétrica.

Diferente de J. Carlos Portilho, que curtia MPB, Emerson Maia preferia o rock inglês (Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath) e o rockabilly norte-americano (Chuck Berry, Little Richards e Elvis Presley). Foi vocalista, tecladista e guitarrista do grupo The Glads Boys, que incendiava as noites dançantes dos clubes de Parintins nos anos 70.

Além da fazenda Remanso, Antônio Maia era comerciante (possuía uma usina de pau rosa) e político (foi presidente da Câmara Municipal de Parintins), mas seu xodó era mesmo o boi Garantido.

O Natal era muito festejado por ele, que todo ano organizava um grande almoço para a comunidade com distribuição de presentes para as crianças e a presença do touro branco sendo comandado por mestre Lindolfo Monteverde em pessoa. A mesma coisa acontecia no dia de São João.

No final dos anos 70, Emerson começou a compor músicas densas de tristeza e poesia para disputar os festivais de canção que aconteciam na região do baixo Amazonas, tendo vencido a maioria das disputas em que participou.

Foi por insistência da irmã, a médica Ednéia Ribeiro, esposa do médico Euler Ribeiro, que ele começou a fazer músicas para o Garantido. Sua primeira toada evocava a figura paterna: “Sentei junto ao pé da roseira / Lembrei minha infância, fogueira e balões / Lembrei de meu pai, meu amigo / Esperando ansioso o meu boi Garantido / Tempos que ficaram pra trás / Gente que partiu pra ficar / Mas deixaram isso bem definido / Que o boi campeão da Terra / Sempre será o boi Garantido”.

Segundo o jornalista Neuton Corrêa, no dia 6 de julho de 1979, quando Lindolfo Monteverde atravessou para a terceira margem, Emerson apareceu cedo na Baixa da Xanda. Parou na Mercearia Martins Filho, puxou uma cadeira de embalo e pediu uma cerveja.

De frente para as águas do rio Amazonas, ele afinou o violão e ensaiou os primeiros acordes para a música de despedida do amigo e mestre que estava sendo velado no curral do Garantido: “Silêncio, tudo está consumado / O nosso Amo amado / partiu e deixou o São José / A voz que sempre lhe foi fiel / Agora estronda nos bosques, nas pradarias do céu / Muito obrigado por criar boi Garantido / Hoje teu filho teu canto vai entoar / Nosso folclore sempre vai reconhecer / Foste um exemplo de caboclo / inesquecível Lindolfo”.

Essa música é considerada hoje o hino da família Monteverde, por isso sempre é tocada nos eventos nos quais a memória de Lindolfo é reverenciada.

Com a morte de Lindolfo, Emerson se transformou no levantador de toadas do Garantido até a chegada de David Assayag, em 1995. Ele também substituiu o Amo do Boi João Batista Monteverde em alguns festivais, cabendo a Paulinho Faria ser apresentador e levantador de toadas nessas ocasiões.

Alto, forte, musculoso, imponente e com o cabelo nos ombros desde os tempos da Jovem Guarda, Emerson Maia lembrava um cacique sioux e era grosso que só papel de embrulhar prego. Seu mau humor era fonte permanente de mexericos na ilha. Avesso a badalações e aos assédios dos fãs, o cantor utilizava esse artifício de sujeito turrão para se manter longe dos holofotes da mídia.

Quando se reunia com uns poucos amigos para participar de cantorias, Emerson Maia se soltava, mostrando sua verdadeira personalidade de moleque brincalhão e bem-humorado. “Quando estava com seus parceiros, ele era um poço de ternura”, recorda, divertido, o compositor Carlos Paulain. “Mas diante de estranhos se transformava no ministro da Ignorância, ficava irascível. Era um coice a cada três minutos.”


Sua trajetória como compositor do Garantido foi fabulosa e seu humor ácido era despejado em toadas de desafio que espezinhavam o Caprichoso. Uma delas: “Ano passado eu fiquei com pena do contrário / no dia da morte não tinha comida e eles brigaram / eu mandei avisar que viessem buscar / que o boi Garantido tinha comida, tinha pra dar / eles não aceitaram porque tinham vergonha na cara / pelo amor de Deus!, eles comeram capivara!”.

Sua verve lírica e sua defesa intransigente dos povos da floresta, entretanto, sempre foram o ponto alto de suas composições, como podem ser conferidas nas toadas “Já Rufou Meu Tambor”, “Campeão Lunar”, “O Índio”, “Andirá”, “Caboclo Soberano”, “Fantasia de Criança”, “Mistérios da Ilha”, “Flor de Tucumã” e “Lamento da Raça”, entre as mais de 80 pérolas que fez para seu boi de coração.

Emerson Maia ficou conhecido mundialmente quando a canção “Lamento da Raça” (“O índio chorou, o branco chorou, / todo mundo está chorando / A Amazônia está queimando / Ai, ai, que dor / Ai, ai, que horror”) foi cantada por uma brigada de incêndio de Roraima, enquanto os brigadistas combatiam um dos maiores incêndios da região. A filmagem da cena inusitada foi compartilhada na internet e viralizou rapidamente, obtendo mais de 20 milhões de acessos.

Funcionário de carreira do Banco do Brasil, Emerson Maia abandonou a carreira de bancário, na virada do terceiro milênio para cuidar dos negócios do sogro, o empresário Osmar Faria, e começou gradualmente a se afastar do Garantido. Primeiro, ele montou uma fábrica de gelo. Depois, fechou a fábrica e, no local, criou o Aldeia Iate Clube, um imenso chapéu de palha que funcionava como bar e restaurante, e que ficou conhecido como “Maloca do Jurupari” por conta do “bom-humor” do proprietário.

Mais tarde, ele fechou o bar e restaurante e no local criou a Marina Morena, a maior da ilha, com capacidade de ancoradouro para 300 barcos. Era nesse lugar bucólico que ele recebia os poucos amigos para sessões de cantorias que entravam pela madrugada.

Em 2018, ele fez a toada intitulada “A Coisa Mais Linda do Mundo”, que obteve um sucesso avassalador nos ensaios do bumbá Garantido, mas não foi tocada em nenhuma das três noite na arena durante o festival: “A coisa mais linda do mundo / é quando no mês de junho / no meu São José / em cada rosto, um sorriso / é a festa do boi Garantido / que já vai começar / a tampa da chaleira vai voar / vai ter pé-de-moleque, vai / bolinho de crueira, vai / vai ter muita cachaça / vai ter muita mulher / vou me pegar com Santo Antônio / com certeza este ano / eu sei que vou me arrumar / no meu boi-bumbá / vai ter muita toada, vai / muito verso bonito, vai / ao som da Batucada / que me faz delirar / esse é meu boi Garantido / ele é o touro mais lindo / é o rei desse lugar”.

Revoltado com o que considerou um desrespeito dos diretores do Garantido pela sua história dentro do bumbá, Emerson Maia abandonou o touro branco no mesmo ano e foi ser compositor do Caprichoso.

Emplacou duas toadas no repertório do touro negro: “Caprichoso, um canto novo de esperança” e “Fumaça de Ervas”, esta última em parceria com o filho Emersonzinho: “Vajucá, junçá, catucá / manacá, angico, aroeira, juremá / eu sou o profeta da mata / que guarda os caminhos / que levam às plantas sagradas / dos ritos antigos do povo encantado Tupi / eu sou a tribo dizimada / que vive no reino de Tanaruê / que passou pros seus filhos / seres encantados que guardam este povo sangrado / sou catimbozeiro pajé curandeiro índio brasileiro / eu sopro a fumaça de ervas / a força da planta altera / o plano do espírito / e traz os antigos de volta ao presente / pra nos ajudar / eu sou Daniel toadeiro / sou Mestre Horácio boiadeiro / sou Boi Caprichoso e trouxe pra arena / jurema sagrada pra nos ensinar / que o amor, somente o amor / pode curar (a alma, o corpo, a mente, o espírito, o mundo) / que o amor, somente o amor pode salvar / eu sopro a fumaça de ervas / os entes da mata em assembleia / ensinam pro povo que a mãe-natureza / é sagrada, devemos preservar / eu sou Caboclo Sete Flechas / sou índio guia Pena Verde / sou boi Caprichoso e trouxe pra arena / jurema sagrada pra nos ensinar”.

O querido Emerson Maia, que estava em Manaus para tratamento de uma cirrose hepática, agravada por um princípio de tuberculose, morreu na manhã de uma sexta-feira, 14 de agosto de 2020, por complicações causadas pela Covid-19. Tenho (temos) saudade.

domingo, outubro 25, 2026

O inesquecível J. Carlos Portilho, o "Periquito", um dos inventores do Festival de Parintins



O cantor e compositor José Carlos Portilho, o “Periquito”, começou a escrever poemas em 1965, quando tinha 12 anos. Aos 14 anos, começou a tocar violão e estudar canto orfeônico com as freiras italianas do Colégio N. S. do Carmo. Aos 16 anos, já disputava o 1º Festival da Canção de Parintins, em 1969, obtendo um honroso 2º lugar, com letra e música de sua autoria (“Quem Somos Nós?”).

Aos 17 anos, arrancava suspiros das adolescentes parintinenses, fosse imitando seu ídolo musical, Gianni Morandi, fosse mostrando suas próprias músicas, durante apresentações no Teatro da Paz ou em arraiais, quermesses e programas radiofônicos da cidade.

Nos anos 80, se transformou em figura carimbada nos festivais de música de Parintins, Óbidos, Santarém e Manaus, quase sempre disputando o primeiro lugar com seus amigos e conterrâneos, os também cantores e compositores Emerson Maia, Tony Medeiros e Paulinho Du Sagrado. Ao longo de sua carreira, ele escreveu mais de 350 composições musicais, incluindo 107 toadas para o boi Caprichoso.

Formado em Letras pela UERJ, com especialização em Administração Pública pela USP, J. Carlos Portilho era funcionário de carreira do Banco do Brasil e não tinha qualquer afinidade com os bumbás de Parintins. Sua praia era a MPB, de Chico Buarque, Milton Nascimento e Quinteto Violado, e a poesia de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto.

Por isso, no início de 1983, ele recebeu com surpresa um convite de seus colegas bancários – Geraldo Medeiros, Tico, Carlos Dorvan, Acinelson e Norma Medeiros – para ser compositor do boi Caprichoso. A causa era nobre: o principal compositor do touro negro, Raimundinho Dutra, estava de mudança definitiva para Manaus. O repertório do touro negro estava muito repetitivo porque se limitava às toadas feitas por Raimundinho Dutra e outros compositores da velha guarda do Caprichoso. A torcida azul e branca queria novidades. Make it new.

Aos 30 anos, J. Carlos Portilho resolveu encarar a missão com afinco e denodo. Primeiro, ele quis testar até onde iria a sua (dele) liberdade de criação. O Brasil estava convulsionado pela emenda Dante de Oliveira pedindo eleições diretas para presidente e ele fez uma toada nesse diapasão: “Alô meu povo quer votar pra presidente desta nação brasileira, / diretas já minha gente, votando pra presidente, / hoje eu me sinto orgulhoso em ser Caprichoso / quem viver verá que este é meu canto de guerra / desfraldando o azul e branco do campeão desta terra”. Mesmo em plena ditadura militar, a toada foi aprovada.

Até aquela data, as toadas dos dois bois eram exclusivamente percussivas. O compositor J. Carlos Portilho introduziu o violão e o cavaquinho no acompanhamento das novas toadas do Caprichoso para dar uma camada mais melódica às composições.

Para muita gente, aquilo soou como um anátema, uma desvirtuação das toadas feitas pelos antigos mestres (Ambrósio, Zazá, Horácio, Pitombeira, Vavazinho, Nilo Gama, Raimundinho Dutra, Nelsinho Bulcão, etc). A diretoria do Caprichoso aprovou a inovação. O “contrário” torceu o nariz.

Na sequência, J. Carlos Portilho criou um grupo musical, “Sangue Azul”, para gravar as músicas em fitas K7 e colocar na Rádio Alvorada para tocar, já que até então não eram feitos registros musicais das toadas. As músicas eram gravadas na própria residência do compositor da forma mais amadora possível. O equipamento era um aparelho 3 em 1 da Gradiente com apenas um microfone de entrada. Os oito músicos se posicionavam em torno do microfone e metiam a mão na massa.

Antes mesmo que a gravação fosse concluída, já havia na frente da casa alguns torcedores do Caprichoso montados em motocicleta – Afrânio Gonçalves, Henrique Medeiros, Márcia Baranda, Marta Medeiros – para pegar a fita no sistema vapt-vupt e levar para a Rádio Alvorada. A diretoria do Caprichoso aprovou a novidade. O “contrário” torceu o nariz.

Consciente de que seria incapaz de montar sozinho um novo repertório para o diamante negro, J. Carlos Portilho começou a frequentar os programas radiofônicos da cidade para exortar os compositores a mostrarem suas músicas no curral do Caprichoso, que era uma oportunidade única de vê-las sendo cantadas pela galera azul e branca durante o festival.

Entre os compositores que atenderam ao chamamento estavam Geraldo Brasil, Carlos Magno (mais conhecido como “Carlos Pato”), Neil Armstrong, Franco Costa, Carlos Paulain, Heliomar Conceição, Sales Santos, Hugo Levy, Lélio Lauria, Ariosto Braga e Jovelino Silva, entre outros.

Em 1984, J. Carlos Portilho soube que o boi Caprichoso havia feito uma apresentação em Maués que tinha sido um verdadeiro vexame – 80% da população da cidade torcia pelo Garantido.

Para tentar reverter a situação, o compositor fez a toada “Maués, Terra Encantada”, em que a temática indígena foi incluída pela primeira vez em uma composição: “Maués / mostra a cultura de um povo / que tens e que és / Pedaço de chão brasileiro / Terra de índios guerreiros / Sateré-Mawé / Cerêçaporanga que um dia / dos olhos negros nascia / a lenda do guaraná”. A música fez um sucesso estrondoso no festival de Parintins e em Maués, reequilibrando a divisão entre torcedores de Garantido e Caprichoso na terra do guaraná.

Em 1985, também perplexo com o falecimento prematuro do presidente Tancredo Neves, J. Carlos Portilho fez uma pungente toada sobre o infausto acontecimento intitulada “Liberdade: um canto azul e branco”: “Partiu / na certeza de quem cumpriu / Liberdade pro meu Brasil / Tancredo foste herói nacional / deixaste / um legado de paz e amor / que a todos conciliou / morreste / e ficou um sentimento civil / lutaste por causa tão nobre / no norte, no leste e no sul / recebe a homenagem do povo de azul / e hoje brilhas no infinito / reluz o Cruzeiro do Sul / recebe os aplausos do povo de azul”.

A emoção tomou conta da arena, com milhares de torcedores indo às lágrimas. A toada rendeu uma comenda de Honra ao Mérito dada ao compositor no Congresso Nacional, por D. Risoleta Neves, viúva de Tancredo.

No mesmo ano, o jornalista e músico Fred Góes retornou a Parintins depois de uma bem-sucedida carreira musical no sul do país e assumiu a direção musical do boi Garantido. Na mesma época, Paulinho Du Sagrado e Tony Medeiros haviam criado o grupo Ajuri, nos moldes do grupo Sangue Azul, mas para acompanha-los como banda de apoio nos festivais de música.

Por sugestão de Fred Goés, Paulinho Faria recrutou alguns músicos talentosos e criou o Regional Vermelho e Branco, para dar suporte melódico às toadas do Garantido e também para gravarem as toadas em fita K7, tal como o Caprichoso já vinha fazendo há dois anos.

Em 1986, J. Carlos Portilho comprou uma chácara à beira do Lago Macurany, que passou a ser o estúdio improvisado para a gravação das agora já famosas fitas K7. O grupo Sangue Azul nunca teve uma formação fixa, mas sempre contou com algumas peças chaves: Portilho, Rey Azevedo e Franco Costa nos vocais principais, Geraldo Brasil e Neil Armstrong no violão, Mauro Mendes no cavaquinho e alguns batuqueiros escolhidos a dedo na Marujada de Guerra para fazer a cozinha rítmica.

Nesse ano, Portilho e Carlos Pato compuseram “Vaquejada”, considerada um dos hinos do festival: “Este ano eu vou / erguer minha bandeira / este ano eu vou / erguer minha bandeira / Eu vou tu vais / Eu vou eu vou / Eu vou tu vais / Eu vou eu vou / Reunir meus vaqueiros / pra tocar a boiada / convidei a morena / pra ver de pertinho a minha vaqueirada / Vem ouvir urro forte / que vem lá norte / pode preparar / é meu boi Caprichoso / alegria do povo que esta pra chegar”. De quebra, durante a apresentação da toada na arena, introduziram a primeira “paradinha” na história do festival, executada com maestria pela Marujada de Guerra.

Em 1987, J. Carlos Portilho ficou abespinhado quando viu um moleque de 18 anos, deficiente visual, cantando verdadeira pérolas da MPB com uma voz firme, melodiosa e afinada, em um dos bares de Parintins. Ele não sossegou o facho enquanto não convenceu o rapaz, chamado David Assayag Neto, a ser a voz principal do grupo Sangue Azul e a tomar parte na família azul e branca.

Por essa época, o vocalista Franco Costa já estava pensando em deixar o grupo e também abandonar de vez a função de levantador oficial do boi Caprichoso. No papel de diretor musical do touro negro e selecionador oficial das toadas que seriam cantadas na arena, Portilho não pretendia deixar a peteca cair. A bela voz de David Assayag começou a ser ouvida na Rádio Alvorada pela primeira vez a partir das fitas K7 daquele ano.

Em 1988, os músicos do Sangue Azul estavam reunidos na chácara de J. Carlos Portilho para gravar as músicas daquele ano quando surgiu no local o violonista Sílvio Fernando (apelidado por Portilho de “Sílvio Camaleão”) tocando “Guantanamera” em um instrumento parecido com um cavaquinho. Impactado pela sonoridade estranha do instrumento, Portilho quis saber do que se tratava.

– É um charango boliviano do Fred Góes. Estou tomando lições dele para aprender a tocar o bicho! – explicou Camaleão.

– Pois então aprende logo, mas não fala nada pra ninguém, que nós vamos substituir o cavaquinho pelo charango nas toadas do Caprichoso! – avisou Portilho. – A sonoridade dele permite uma modulação sonora quase impossível de ser alcançada pelo cavaquinho…

Dito e feito. Naquele mesmo ano, o charango de Sílvio Camaleão era ouvido pela primeira vez na inauguração do Bumbódromo. A saraivada de críticas que o diretor musical do Caprichoso recebeu não estava no gibi. Muitos puristas atribuíram a derrota do Caprichoso naquele ano à introdução do instrumento alienígena na estrutura musical do dois-pra-lá-dois-pra-cá. A mídia só faltou crucificar o compositor. Não adiantou muita coisa. Dois anos depois, o “contrário” também introduzia o charango na brincadeira, que hoje é praticamente obrigatório.

Em 1989, J. Carlos Portilho estava saboreando um “galeto de arraial”, durante uma quermesse na Praça da Igreja Sagrado Coração de Jesus, quando ouviu um moleque de 21 anos cantando “Morena Tropicana”, de Alceu Valença.

O levantador de toadas Franco Costa já havia avisado que não entraria na arena naquele ano. O vocalista David Assayag queria continuar sendo a voz do grupo Sangue Azul, mas não queria participar do evento na arena.

Portilho não sossegou o facho enquanto não convenceu o rapaz, chamado Arlindo Júnior, a fazer um teste para ser o novo levantador de toadas do Caprichoso e tomar parte na família azul e branca. O rapaz disse que ia conversar com seu pai a respeito.

Naquele ano, J. Carlos Portilho havia decidido gravar um LP em vinil do touro negro e começou a correr atrás de patrocínio. O grupo Sangue Azul estava começando as gravações na chácara do compositor quando surgiu Arlindo Júnior. Ele cantou uma ou duas toadas, mas não quis participar do disco, que acabou tendo Davi Assayag como voz principal.

Incentivado pelos músicos do Sangue Azul, Arlindo Júnior começou a frequentar os ensaios no curral do Caprichoso e, naquele mesmo ano, foi anunciado como novo levantador de toadas do bumbá. Conquistou a nação azul e branca na hora em que entrou na arena. Passou 15 anos na função. O disco “Caprichoso Alegria do Povo – Boi-bumbá de Parintins” foi lançado durante o festival. O “contrário” lançaria seu primeiro LP em vinil no ano seguinte.

Em 1991, o compositor Chico da Silva anunciou que estava deixando o boi Caprichoso para ser compositor do boi Garantido. Era a primeira vez que uma estrela de primeira grandeza mudava de time. Logo depois, o compositor Ronaldo Barbosa abandonou o boi Garantido e foi ser compositor do boi Caprichoso. Chico da Silva passou 10 anos no Garantido e depois voltou para o Caprichoso. Ronaldo Barbosa permanece no Caprichoso até hoje.

Em 1994, na véspera da gravação da fita K7 do Caprichoso, J. Carlos Portilho soube que o grupo Sangue Azul estava fazendo uma série de apresentações em Belém (PA) e que não conseguiria chegar a tempo para participar da gravação. Ele convocou novos músicos, rebatizou o grupo de “Canto da Mata” (sugestão do compositor Ronaldo Barbosa) e conduziu as sessões musicais na sua chácara.

Foi a última vez que Arlindo Júnior e David Assayag dividiram os vocais em uma série de toadas do touro negro. No ano seguinte, Davi Assayag se tornaria levantador de toadas oficial do boi Garantido.

Aquela também foi a última fita K7 do Caprichoso gravada na chácara de J. Carlos Portilho. Com a eleição do governador Amazonino Mendes naquele ano, os bumbás de Parintins passariam a receber aportes financeiros do governo estadual e de empresas multinacionais para profissionalizar o festival e transformá-lo em um megaevento turístico de categoria mundial. A fase amadorística dos bumbás havia chegado ao fim.

Também em 1995, com a entrada de Mailzon Mendes, Alex Pontes e Aluízio Brasil no grupo, o Canto da Mata seria repaginado, adquiriria personalidade própria e chegaria a gravar seis CDs com composições autorais nos 20 anos seguintes. Antes de entrarem para a banda, Mailzon e os demais integrantes fizeram parte de grupos de pagode em Parintins e cantaram em igrejas de Manaus.

Um dos diferenciais do Canto da Mata é a mistura de ritmos que foram incorporados às toadas. “Fizemos uma linha melódica mais comercial. Falamos o que acontece no nosso dia a dia, queremos deixar uma mensagem de positividade nas nossas letras. Essa fórmula deu certo”, afirma Mailzon.

Dançante e com coreografia fácil, o hit “Ritmo Quente” fez o maior sucesso nas rádios da região Norte em 1997 e é conhecido até hoje. Mailzon conta que a composição nasceu durante uma viagem de ônibus para o município de Presidente Figueiredo. “Na época, ainda era Arlindo Jr & Canto da Mata. O Alex sempre andou com um gravador no bolso e eu também. Do nada, pintou uma melodia. Na hora, todo mundo começou a cantar uma letra que não tinha nada a ver com o Ritmo Quente conhecido hoje em dia. Mais tarde, fizemos a letra definitiva, levamos ao J. Carlos Portilho e ele aprovou. A música entrou no CD do Caprichoso daquele ano”. O antigo grupo Sangue Azul foi rebatizado de Regional Azul e Branco e continuou sendo a banda de apoio do Caprichoso na arena. E nada mais seria como antes.

O compositor J. Carlos Portilho continuou sendo o diretor musical do touro negro até 2001, quando se aposentou pelo Banco do Brasil e passou a residir em Manaus. Nesse meio tempo, ele ajudou a introduzir na brincadeira o baixo elétrico (1993), teclados (1994), violinos (1996), metais (1997) e continuou sendo um dos compositores de ponta do touro branco. Não é pouca porcaria.

Infelizmente, o querido J. Carlos Portilho faleceu numa sexta-feira, dia 16 de abril de 2021, aos 69 anos, em São Paulo. Ele lutava contra a Covid-19 e as sequelas do vírus desde o dia 24 de fevereiro, quando foi diagnosticado com a doença. No dia seguinte, viajou para São Paulo e se internou no hospital São Camilo, onde foi intubado no dia 4 de março. Chegou a ser extubado no dia 8, mas submeteu-se ao mesmo procedimento três dias depois, com o agravamento do quadro, vindo a óbito. Continua presente em nossa memória e nos nossos corações.

sábado, outubro 24, 2026

O espírito de Ezra Pound baixa em Parintins

 


O escritor, crítico literário e poeta Ezra Pound atuou como editor e impulsionador crucial das carreiras de grandes nomes como T.S. Eliot, James Joyce, Ernest Hemingway, Robert Frost e W.B. Yeats. Ele foi o principal articulador da estética modernista na poesia de língua inglesa, ajudando a romper com as estruturas rígidas e sentimentais da era vitoriana.

Ezra Pound revolucionou a tradução de textos clássicos (especialmente chineses e latinos), introduzindo a ideia de recriação crítica e poética. No Brasil, essa abordagem influenciou diretamente os poetas do movimento Concretista.

Em um de seus ensaios mais famosos, ele propôs a existência de três classes de criadores: “inventores”, os que descobrem um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo, os “mestres”, os que fazem várias combinações do processo inicial e se saem tão bem ou melhor do que os inventores, e os “diluidores”, aqueles que vieram depois e não foram capazes de realizar tão bem o trabalho.

Ezra Pound falava de literatura. Mas a gente pode usar seus argumentos para falar de música. Tomando como exemplo o baião nordestino, Luiz Gonzaga, nos anos 1940, desenvolveu uma maneira particular de tocar o baião. Ele não era bem um compositor ou um letrista (poesia mesmo quem fazia eram os seus parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas), mas Gonzagão acabou sendo respeitado como um autêntico inventor.

Um estilo musical nem sempre nasce pelas mãos de um homem só. Uma pessoa pode criar um modo diferente de tocar um ritmo (como João Gilberto e seu violão “bossa nova”), mas quase sempre há um conjunto de outras pessoas (arranjador, letrista, intérprete) que contribuem para que a “invenção” tome sua forma final.

Mozart foi um mestre que não inventou a ópera, mas suas óperas são de uma excelência que seus predecessores não tinham alcançado. Na maioria das vezes, essa fronteira entre inventor e mestre é muito pequena, pois na medida em que um músico usa um estilo pré-existente e insere nele novas combinações harmônicas, rítmicas e estruturais, há um componente de invenção e originalidade que não se pode subestimar.

Nas toadas de Parintins, um pequeno grupo de “inventores” foi decisivo para que o desenvolvimento das composições atingisse o patamar de qualidade que perdura até os dias de hoje: J. Carlos Portilho, Emerson Maia, Fred Góes, Tony Medeiros, Inaldo Medeiros, Ronaldo Barbosa e Chico da Silva.

Mas o culto ao inventor, como já ensinou o poeta, crítico literário, filósofo e escritor Antônio Cícero, irmão da cantora Marina Lima, também é frequentemente associado ao slogan “make it new”, de Ezra Pound, que pode literalmente ser traduzido por “faça-o novo” e, menos literalmente, por “faça o novo”.

Na Atenas clássica, Isócrates já dizia que o importante não é fazer o mais novo, mas o melhor. O poeta Haroldo de Campos interpreta “make it new” como uma exortação a “remastigar a herança cultural universal para nutrir o impulso: renovar”.

A injunção de Pound também deve ser entendida a partir da definição que ele próprio dá para a literatura como “news that stay news”: novas que permanecem novas, novidades que permanecem novidades.

O novo que permanece novo não é simplesmente “o novo”, mas aquilo que não envelhece. “Um clássico é um clássico”, afirma Pound, com toda razão, “porque possui um certo eterno e irreprimível frescor”.

Os poetas líricos gregos pensavam desse modo. Os poetas épicos haviam considerado as Musas – as deusas que inspiram os poetas – como filhas da Memória.

Supõe-se, às vezes, que isso representasse o reconhecimento da importância da memória e da memorização para a poesia oral.

Outra hipótese é que esse mito refletisse o fato de que os poemas épicos preservavam a memória de feitos originários da comunidade.

Os poetas líricos, porém, compreenderam que o que preservava a memória dos feitos da comunidade era a memorabilidade dos próprios poemas que cantavam tais feitos.

Para eles, o feito mais memorável de todos era, portanto, o próprio poema.

A memória da Guerra de Tróia era preservada, não tanto porque fosse, ela mesma, memorável, mas em virtude da memorabilidade do poema que a cantava, a “Ilíada”.

Nesse sentido, as Musas eram filhas da Memória porque representavam a fonte da qualidade (divina) que tornava os poemas deles – mesmo quando não tratavam dos “grandes temas”, mas apenas, por exemplo, dos seus amores – inesquecíveis, memoráveis, dotados de “eterno e irreprimível frescor”.

Foi trilhando nessa mesma senda e utilizando como matéria-prima o mesmo espírito criativo dos antigos poetas líricos da Grécia antiga que J. Carlos Portilho, Emerson Maia, os irmãos Inaldo e Tony Medeiros, Fred Góes, Ronaldo Barbosa e Chico da Silva produziram o mais bem-acabado repertório de toadas do Festival de Parintins, quase todas hoje incluídas na categoria de verdadeiros clássicos do dois-pra-lá-dois-pra-cá.

Conhecer a história de cada um deles é uma boa maneira de entender porque Parintins virou a capital cultural da Amazônia. Ninguém disse que ia ser fácil.

sexta-feira, outubro 23, 2026

A construção festiva do Bumbá Caprichoso

 


Para entender melhor o surgimento do Caprichoso no contexto do folclore de Parintins também é importante ler o livro “A Verdadeira História do Festival de Parintins”, de Raimundinho Dutra, versador tradicional do bumbá e oriundo de uma família tradicional do boi azul.

Em um de seus relatos, Raimundinho Dutra diz ter escutado de seus próprios pais que foi seu avô, o maranhense Marçal Mendes de Assunção, que trouxe as primeiras danças para Parintins, fato ocorrido em 1888.

O local de realização dos ensaios do Caprichoso, conhecido popularmente como curral, é chamado de Zeca Xibelão em homenagem ao primeiro tuxaua do boi-bumbá. Ele está localizado na parte considerada como azul da cidade.

O Bumbódromo situa-se na área central da cidade, traçando, juntamente com a catedral de Nossa Senhora do Carmo e o cemitério local, uma linha imaginária, que divide Parintins em uma metade leste e outra metade oeste. O lado leste pertence ao Caprichoso, o lado oeste, ao Garantido. Simples assim.

Como já foi visto, há muita controvérsia sobre a história do Caprichoso, uma vez que os bois de Parintins não eram associações legalmente registradas e nem possuíam ampla cobertura da imprensa até a criação do Festival.

Tudo o que se sabe atualmente foi levantado por pesquisadores a partir de entrevistas com membros das duas entidades, além de consultas a outros registros da tradição oral parintinense.

Some-se a isso o fato de que a extrema rivalidade entre os bumbás faz com que ambas as entidades busquem se afirmar como a mais antiga, o que leva seus torcedores e integrantes a defenderem teses que sugerem datas de fundação bastante remotas.


A diretoria do Caprichoso afirma, baseada em algumas versões da tradição oral, que o boi foi fundado por João Roque, Félix e Raimundo Cid, em 20 de outubro de 1913. Os três fundadores seriam irmãos, nascidos em Crato, que se mudaram para Parintins devido ao Ciclo da Borracha.

Ainda segundo esta versão, o boi recebeu esse nome devido à sugestão de um advogado, de nome José Furtado Belém, que conhecida um outro boi, de nome Caprichoso, que existia no bairro da Praça 14 de Janeiro, em Manaus.

Defensores desta tese alegam ainda que “Touro Galante” seria o apelido do Caprichoso à época. Ocorre que a própria diretoria do boi Caprichoso já entrou em contradição.

Em 2001, o então deputado estadual Zezinho Faria propôs na Assembleia Legislativa que fosse dado aos dois bois parintinenses a maior comenda de mérito cultural do Amazonas, a comenda Ruy Araújo.

O projeto foi aprovado e a cerimônia ocorreu em 7 de junho de 2001, no auditório Dom Arcângelo Cerqua, localizado em Parintins.

O Garantido foi representado por seu ex-Amo, João Batista Monteverde, filho de seu fundador.

Indicado como fundador do boi Caprichoso à ALE-AM, Luiz Gonzaga foi representado por sua viúva, a senhora Izolina Gonzaga.

A senhora Gonzaga recebeu a medalha em nome de seu ex-marido, indicando a verdadeira “paternidade” do touro negro, das cores azul e branca.


Em 2013, ano do suposto centenário dos dois bois, ocorreram algumas manifestações em Parintins, organizadas pelos descendentes vivos de Luiz Gonzaga, em que estes reivindicavam o reconhecimento de sua família como cerne da verdadeira identidade do fundador do boi Caprichoso.

Segundo a referida família, a diretoria do boi Caprichoso não prezava pela verdadeira história do boi azul, principalmente por querer “ocultar” os detalhes comprovados oralmente por inúmeras testemunhas sobre o surgimento da agremiação folclórica.

Maria Inácia Gonzaga, filha do suposto fundador, afirmou que o Caprichoso é parintinense, evidenciando ainda que Roque Cid (atualmente apontado como o fundador da agremiação pela diretoria) era o fundador do boi Galante.

“Querem colocar uma pessoa de fora para ser fundador do boi em vez de valorizar quem é da terra, isso é falta de respeito. Meu pai é parintinense, o Caprichoso nasceu em 1925, na rua Rio Branco, onde ainda moram filhos e netos de Luiz Gonzaga”, diz ela. A história é apoiada por Maria do Carmo Monteverde, filha de Lindolfo Monteverde, o fundador do Garantido.


O cantor e compositor Chico da Silva, conhecido por suas célebres toadas para os dois bois, afirmou, em 2018, durante o programa #Toadas, do site BNC, que o boi Caprichoso foi fundado em 1925, e o contrário em 1924. 

“O Garantido é de 1924 e o Caprichoso de 1925, esse é meu depoimento e vamos parar com essas outras historinhas sem fundamento”, detonou.

Os presidentes do bumbá Caprichoso, dos anos 80 em diante, foram os seguintes: Rubem Santos (1985-1988), João Andrade (1989-1992), Ray Viana (1993-1996), Joilto Azêdo (1997-2000), Dodózinho Carvalho (2001-2002), César Oliveira (2003-2005), Carmona Oliveira Filho (2006-2010), Márcia Baranda (2011-2013), Joilto Azêdo (2013-2016), Babá Tupinambá (2016-2019), Jender Lobato (2019-2023) e Rossy Amoedo (desde 2023).

Os Levantadores de Toada foram os seguintes: Franco Costa (1983-1988), Arlindo Júnior (1989-1999), Renato Freitas (2000-2001), Robson Junior (2002-2004), Arlindo Júnior (2005-2006), Edilson Santana (2007-2009), David Assayag (2010-2020) e Patrick Araújo (desde 2021).

Os Apresentadores foram os seguintes: Mário Gordo e Franco Costa (1983-1986), Marcos Santos (1987-1989), Gil Gonçalves (1990-1997), Arlindo Júnior (1998-2004), Júnior Paulain (2005-2013), Arlindo Júnior (2014), Júnior Paulain (2015), Fabiano Neves (2016) e Edmundo Oran (desde 2017).

Os Amos do Boi foram os seguintes: Rey Azevedo (1984-1998), Benedito Siqueira (1999-1999), Rey Azevêdo (2000-2003), Renato Freitas (2004), Edilson Santana (2005-2006), Prince do Boi (2007-2009), Edilson Santana (2010-2013), Junior Paulain (2014), Edmundo Oran (2015-2016), Prince do Boi (2017-2024) e Caetano Medeiros (desde 2025).

Entre os principais compositores do Caprichoso estão José Carlos Portilho, Ronaldo Barbosa, Carlos Paulain, Chico da Silva, Raimundinho Dutra, Sílvio Camaleão, Mailzon Mendes, Carlos Batata, Simão Assayag, Alceo Anselmo, Paulinho Du Sagrado, Robson Júnior, Tadeu Garcia, Alex Pontes, Zezinho Cardoso, Hugo Levy, Geovane Bastos, Ademar Azevedo, Adriano Aguiar, Klinger Araújo, Ronaldo Barbosa Jr., Maurício Filho, Davi Jerônimo e Cézar Moraes.


O histórico compositor e poeta Raimundo Nonato de Jesus Dutra, conhecido como Raimundinho Dutra, faleceu na noite de domingo, 4 de maio de 2025, em Manaus, aos 94 anos.

A diretoria do bumbá Caprichoso postou nas redes sociais a seguinte Nota de Pesar:

É com profundo pesar que recebemos a notícia do falecimento de Raimundinho Dutra, um dos grandes nomes da história e da poesia do Boi Caprichoso e do Festival de Parintins.

Poeta talentoso, Raimundinho marcou gerações com sua sensibilidade e genialidade. Suas toadas, como “Aquarela do Touro Negro”, “Meu Cântico de Guerra”, “Mocidade” e “Solo Amado”, embalaram as noites de Boi de Rua e despertaram o sentimento mais genuíno de amor pelo boi da estrela na testa.

Foi ao som de suas composições que o Boi Caprichoso ganhou vida nas ruas de Parintins, nos primórdios desta manifestação popular que hoje encanta o mundo.

Sua contribuição para a preservação e valorização da nossa cultura é imensurável, e seu legado permanecerá vivo na memória de todos os azulados.

Em nome do presidente Rossy Amoedo e do vice-presidente Diego Mascarenhas, o Boi Caprichoso decreta luto oficial de três dias e se solidariza com os familiares, amigos e com toda a nação azul e branca neste momento de dor e despedida.

Obrigado por tudo, Raimundinho. Sua poesia viverá para sempre.

A construção festiva do Bumbá Garantido

 

Paulinho Faria, símbolo do touro branco

A família Faria foi a principal colaboradora do bumbá Garantido na época em que os bois de Parintins ainda não recebiam apoio financeiro de empresas privadas ou do governo e eram associados, com uma boa carga de preconceito, a uma simples festa popular para pessoas de baixa renda.

Com o suporte da Loja Jotapê, de José Pedro Faria, seus filhos Zezinho e Paulinho Faria comandaram o Garantido por cerca de duas décadas, mais especificamente dos últimos anos de Lindolfo Monteverde à frente do boi, no início da década de 70, até a chegada de investimentos externos, nos anos 90.

Nascido em 2 de janeiro de 1902, em Parintins, filho de maranhenses, o criador do Garantido, Mestre Lindolfo Monteverde, faleceu em 27 de julho de 1979, aos 77 anos.

Em 1982, foi fundada por Zezinho Faria a primeira pessoa jurídica dos bois de Parintins: a Associação Folclórica Boi Bumbá Garantido. A associação foi fundada para que a posse do terreno onde hoje é situado o Curralzinho da Baixa pudesse ser entregue pela Loja Jotapê ao Garantido, e não a uma pessoa física. A cerimônia de entrega da propriedade contou com a participação de autoridades locais da época, como o então prefeito Gláucio Gonçalves.

A gestão dos irmãos Faria é considerada, até hoje, a “Era de Ouro” do Garantido, sendo considerada a época mais vitoriosa do bumbá quando foi conquistado o único pentacampeonato da história do Festival Folclórico até hoje (1980-1984) e o primeiro título disputado no Bumbódromo, em 1988.

O Garantido venceu também o tira-teima no ano seguinte, em 1989, no festival que marcou a despedida de Zezinho Faria do comando do boi com a célebre frase: “A partir de agora, os bois já podem caminhar com suas próprias patas”, em referência ao novo formato que teria o Festival de Parintins, em que ambas as agremiações seriam patrocinadas pelo Governo do Estado e por empresas multinacionais.

Foi o fim da “Era de Ouro” do Garantido, período no qual o Boi da Baixa do São José conquistou oito dos dez títulos disputados e o início dos anos de Zé Walmir como presidente do Garantido.


A matriarca da família Faria, dona Maria Ângela, falecida em 20 de fevereiro de 2014, ficou conhecida como a eterna “Madrinha do Boi”, sendo homenageada todos os anos durante a Festa da Alvorada, com os torcedores do Garantido passando solenemente em frente à sua residência. Dona Maria Ângela morreu de causas naturais, aos 91 anos, na casa onde sempre residiu.

Considerada uma das principais personalidades da cidade, dona Maria Ângela ficou conhecida mundialmente por assumir o amor pelo boi do coração de uma maneira radical: ao pintar a casa e todos os móveis da residência com as cores vermelho e branco, transformando o local em um dos pontos turísticos da cidade.

Por conta disso, dona Maria Ângela conquistou a admiração não só de torcedores do boi vermelho e branco, mas também do “contrário”, que se inspiraram no seu exemplo para replicar a dose no bumbá Caprichoso.


O amor pelo Boi do Povão era tanto que dona Maria Ângela não admitia a entrada de nada azul, cor do Caprichoso, em sua casa: nem a piscina, também pintada de vermelho, podia ter água, senão ficava azul. A piscina permanentemente vazia era um dos charmes da residência.

O Garantido sempre teve um coração na testa, só que antes era pintado de preto. Em outubro de 1982, na inauguração da nova sede do Banco do Estado do Amazonas (BEA), onde hoje fica o Bradesco, Jair Mendes pintou um mural que exibia os dois bois de Parintins.

Dona Maria Ângela Faria, ao ver o mural, chamou Jair para pedir a ele que pintasse o coração de vermelho, pois, em suas palavras, “ficaria muito mais bonito”. O coração vermelho foi visto pela primeira vez neste mural na sede do BEA, tendo sido muito bem recebido pela galera vermelha e branca.

Ele apareceu pela primeira vez na cor vermelha na testa do Garantido no festival do ano seguinte, em 1983, ano em que o Garantido venceria o seu quarto título consecutivo que culminaria no primeiro, e até hoje inédito, pentacampeonato, consumado em 1984.


Em 1976, o filho caçula de dona Maria Ângela, Paulinho Faria, se tornou o primeiro apresentador do boi Garantido, aos 15 anos de idade, ocupando este posto por 26 anos, tendo recebido nota máxima dos jurados durante 24 festivais. Ele deixou o posto em 2002, fazendo a passagem de faixa para Israel Paulain na primeira noite de apresentação do Garantido.

Filho do compositor Carlos Paulain, Israel é também um grande vencedor em seu item, tendo recebido nota máxima dos jurados ininterruptamente desde 2006. Naquele ano, o apresentador conduziu o espetáculo sem ler o roteiro, uma inovação que foi adotada pelos dois bois a partir de então.

Os presidentes do bumbá Garantido, dos anos 70 em diante, foram os seguintes: Zezinho Faria (1978-1992), Jair Mendes (1993), Aimée Faria (1994), Ronildo Monteverde (1995-1996), Zé Walmir (1997-1998), Raul Goés (1999-2000), Antônio Andrade (2001-2002), Zé Walmir (2003-2005), Vicente Matos (2005-2009), Telo Pinto (2009-2014), Adelson Andrade (2014-2017), Fábio Cardoso (2017-2020), Antônio Andrade (2020-2023) e Fred Góes (desde 2023).

Os Levantadores de Toada foram os seguintes: Emerson Maia (1984-1990), Paulinho Faria (1991-1994), David Assayag (1995-2009), Edilson Santana (2020-2022), Márcia Siqueira (2020-2022) e Sebastião Júnior (desde 2010).

Os Apresentadores foram os seguinte: Paulinho Faria (1975-2001) e Israel Paulain (desde 2002).

Entre os principais compositores do Garantido estão Lindolfo Monteverde, Mestre Ambrósio, Venâncio, Nelson Bulcão, Vavazinho, Braulino Lima, Emerson Maia, Chico da Silva, Tadeu Garcia, Paulinho Du Sagrado, Inaldo Medeiros, Mencius Melo, Tony Medeiros, Helen Veras Filho, Demétrios Haidos, Geandro Pantoja, Cézar Moraes, Murilo Maia, Enéas Dias, Emerson Faria Maia, Ronaldo Barbosa Jr., Rafael Marupiara, Ademar Azevedo, Maurício Filho e Alfredo Campos.


O ex-apresentador do Boi Bumbá Garantido, Paulinho Faria, de 61 anos, morreu vítima da Covid-19, no dia 22 de fevereiro de 2021. Ele estava internado em um hospital particular de Manaus. Paulinho tinha sido transferido da cidade natal para continuar o tratamento contra a Covid-19 em Manaus no início de fevereiro. O corpo do ex-apresentador foi sepultado em Parintins.

Paulinho Faria acumulou 24 vitórias no Festival Folclórico de Parintins durante 26 anos como apresentador do Garantido. Em entrevista ao Paneiro, da Rede Amazônica, em 2016, o artista comentou que foi forçado a se afastar do posto em 2001 por causa de um problema auditivo.

O prefeito de Parintins, Frank Bi Garcia, publicou uma nota de pesar em redes sociais sobre a morte do ex-apresentador.

“Filho de Dona Maria Ângela, eternizada na história como madrinha do boi vermelho e branco, Paulinho Faria marcou gerações como apresentador na Baixa do São José. Conhecido pelos improvisos e uma narrativa riquíssima, mudou a forma de se apresentar o Festival. Nossa cidade perde um ícone do seu maior patrimônio, a cultura”, comentou o prefeito.

Também em redes sociais, o Boi Bumbá Garantido publicou uma mensagem por conta do falecimento do ex-apresentador:

“Impossível não chorar com a sua perda, o Amazonas precisa te reconhecer como uma das pessoas mais importantes para o crescimento da cultura parintinense no nosso estado. Você me apresentou durante 26 anos, você era praticamente imbatível, foi o melhor apresentador da história do festival, em todos esses anos perdeu apenas uma única vez e honradamente foi para outra lenda, Arlindo Jr.

A importância de Paulinho Faria na construção do festival em seu início é algo ímpar, o carinho e o carisma com a sua galera também. O amor por mim, seu brinquedo, seu boi de pano, estará sempre guardado em meu coração.

Gostaria de relembrar a sua despedida como apresentador, em 2001, onde as duas nações em uma única voz pela primeira vez se uniram em coro por aquilo que era a sua grande marca, a contagem de abertura do meu espetáculo”.