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sexta-feira, agosto 07, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 7

 


7. Com a oficialização dos desfiles, em 1935, a prefeitura resolveu adotar aquilo que durante décadas havia perseguido. É um comportamento bastante conhecido da história nacional: primeiro o poder público combate, depois regulamenta, por fim, distribui subsídios e tira fotografia ao lado.

A partir de 1952, as escolas de samba passaram a funcionar formalmente como sociedades civis, com sede, diretoria, regulamentos e eleições. O samba, que antes era tratado como caso de polícia, agora produzia atas, relatórios e assembleias. Talvez tenha sido o momento em que a burocracia finalmente aprendeu a sambar.

Os desfiles também ganharam uma estrutura cada vez mais sofisticada. Na frente vinha o abre-alas, pedindo passagem. Logo atrás, a comissão de frente, representando a diretoria e tentando convencer o público de que tudo estava sob controle.

Depois apareciam pastoras, mestre-sala, porta-bandeira, destaques, bateria, alas coreografadas e carros alegóricos. Era uma combinação improvável de ópera popular, procissão pagã, desfile militar, espetáculo teatral e reunião de condomínio. E, contra todas as probabilidades, funcionava.

Tudo girava em torno do samba-enredo, responsável por contar histórias nacionais, lendas, personagens históricos e episódios que muitos brasileiros só descobriam existir quando eram cantados por cinco mil pessoas vestidas de paetê.

Até 1932, as escolas simplesmente percorriam as ruas acompanhadas pelo povo. Então alguém teve a ideia que mudaria tudo: transformá-las em competição. Como todo brasileiro sabe, basta transformar qualquer atividade em competição para que ela deixe de ser apenas diversão e passe a ser assunto sério.

Naquele ano, o jornal Mundo Esportivo organizou o primeiro desfile na Praça Onze. Participaram dezenove escolas. A vencedora foi a Mangueira (foto). No ano seguinte, o jornal O Globo assumiu a promoção. A Mangueira venceu de novo.

Em 1934, foi criada a União Geral das Escolas de Samba. E a Mangueira venceu mais uma vez. Durante algum tempo, o campeonato das escolas de samba apresentou um formato bastante simples: várias escolas participavam e a Mangueira ganhava.

Somente em 1935 a prefeitura percebeu o enorme potencial turístico daquele espetáculo. A partir daí, o desfile deixou de ser apenas uma festa popular para se tornar um produto cultural cuidadosamente promovido.

A primeira campeã da nova fase foi a Portela, ainda usando o nome Vai Como Pode – uma expressão que resume com impressionante precisão não apenas a história daquela escola, mas talvez a própria história do Brasil.

O modelo deu tão certo que se espalhou pelo país inteiro. Quase inteiro. Salvador e o conjunto Recife-Olinda olharam para aquilo tudo e responderam algo muito próximo de: “Muito bonito, parabéns pelo regulamento, pela comissão julgadora e pela contagem de pontos. Agora saiam da frente porque o trio elétrico está passando”.

E assim o carnaval brasileiro seguiu seu destino, dividido entre duas vocações igualmente nacionais: a necessidade de organizar a festa e o desejo permanente de bagunçar qualquer organização.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 6

 


6. Na década de 1960, enquanto os ranchos agonizavam lentamente e as grandes sociedades caminhavam para o museu das boas lembranças, os blocos carnavalescos perceberam que, no Brasil, até a bagunça precisa de estatuto, diretoria e ata de fundação.

Assim nasceu, em 28 de setembro de 1965, a Federação dos Blocos Carnavalescos. A ideia era simples: organizar aquilo que havia sido criado justamente para escapar da organização. Surgiram então duas categorias.

De um lado, os blocos de enredo, que sonhavam em ser escolas de samba quando crescessem. Do outro, os blocos de empolgação, cuja principal virtude era não complicar o que já funcionava muito bem: gente cantando, bebendo, dançando e ocupando as ruas sem pedir licença a ninguém.

Entre os mais famosos estavam o Bafo de Onça (foto), o Cacique de Ramos, os Boêmios do Irajá e o Cordão do Bola Preta, sobreviventes de uma linhagem carnavalesca que sempre preferiu a alegria ao regulamento, embora acabasse inevitavelmente produzindo ambos.

O Bafo de Onça foi fundado dentro de um botequim do bairro carioca do Catumbi, em meados dos anos 1950. Seu principal fundador foi um carpinteiro e policial chamado Sebastião Maria, um sujeito que, durante os dias de carnaval, formava uma espécie de bloco do eu sozinho e costumava sair pelas ruas do bairro fantasiado de onça-pintada.

Seu Tião tinha ainda o hábito, depois de um período contrito, de começar a tomar umas biritas fortes no dia de Santos Reis. Para ele, a data marcava o fim do Natal e o início das festas de Momo. Os trabalhos só eram encerrados na Quarta-feira de Cinzas.

Ocorre que o seu Tião pegava pesado na cana, não gostava de escovar os dentes durante as festividades e acabava ficando com um hálito de carniça. Durante uma das carraspanas, amigos do Catumbi, sob a liderança do carpinteiro, resolveram criar um bloco de carnaval. Todos saíram fantasiados de onças-pintadas. O nome do bloco, claro, nasceu prontinho.

As escolas de samba, por sua vez, nasceram bem longe dos camarotes, dos patrocínios milionários e das transmissões televisivas. Surgiram nos redutos populares do Rio de Janeiro, frequentados quase exclusivamente por negros pobres que se reuniam para tocar samba, dançar e preservar costumes herdados da África.

Era uma atividade considerada suspeita pelas autoridades da época, que enxergavam crime em qualquer reunião de pessoas pobres que demonstrasse estar se divertindo demais.

A polícia reprimia. Os sambistas resistiam. A polícia voltava. Os sambistas continuavam sambando. Foi uma disputa longa, mas o samba possuía uma vantagem estratégica decisiva: era muito mais divertido.

A chegada de migrantes nordestinos ao Rio de Janeiro, no final do século 19, ajudou a dar forma e organização a esses agrupamentos. Em outras palavras, enquanto a elite discutia projetos para modernizar a cidade, o povo tratava de modernizar o carnaval.

Curiosamente, as escolas de samba nem sequer se chamavam escolas de samba. O termo só surgiu em 1928, quando Ismael Silva fundou a Deixa Falar, no Estácio. Como a sede ficava próxima de uma Escola Normal, os sambistas passaram a brincar dizendo que também eram professores. A piada pegou. Como tantas coisas no Brasil, uma das instituições culturais mais importantes do país nasceu de uma brincadeira.

Logo vieram outras escolas, como Portela, Mangueira e Unidos da Tijuca. Naquela época, porém, elas estavam muito longe dos espetáculos cinematográficos atuais.

Eram parecidas com blocos e cordões, sem grandes preocupações coreográficas, sem alegorias monumentais e, principalmente, sem a obsessão competitiva que mais tarde transformaria o desfile numa espécie de Copa do Mundo do brilho, da pluma e do isopor. Mas o crescimento foi inevitável.

Aos poucos, as escolas deixaram de ser simples agrupamentos de bairro para se transformar em organizações complexas. A partir dos anos 1960, administrar uma escola de samba já exigia habilidades equivalentes às de um executivo de multinacional. Era preciso arrecadar dinheiro, organizar eventos, contratar serviços, administrar conflitos internos, coordenar milhares de pessoas e ainda garantir que ninguém esquecesse a letra do samba-enredo na hora decisiva.

Nascia, assim, um fenômeno tipicamente brasileiro: uma manifestação popular criada para celebrar a espontaneidade que acabou exigindo planejamento estratégico, cronograma, orçamento, logística e gestão de pessoas.

Telecoteco do Balacabaco - Canto 5

 


5. Os ranchos carnavalescos começaram a surgir no Rio de Janeiro no final do século 19, embora ninguém pareça ter conseguido chegar a um acordo sobre a data exata. Há quem diga 1872, outros juram que foi em 1895 ou 1896. Como acontece com quase tudo relacionado ao carnaval, a confusão já fazia parte da festa desde o nascimento. 

No começo, os ranchos lembravam muito as manifestações populares do Nordeste. Formavam cortejos carregados de símbolos, estandartes e uma respeitável coleção de instrumentos que desafiavam qualquer definição acadêmica de orquestra. Violões, violas, ganzás, pratos, castanholas e algumas flautas se juntavam para acompanhar chulas de origem africana, cantadas com uma inocência que o carnaval perderia para sempre nas décadas seguintes.

Os ranchos eram os verdadeiros aristocratas da folia popular. Diferentemente das futuras escolas de samba, que fariam do batuque uma ciência exata, os ranchos apostavam na organização, na disciplina e em músicas cuidadosamente preparadas. Cada desfile trazia composições inéditas, como se os compositores passassem o ano inteiro trabalhando para que milhões de brasileiros esquecessem tudo três dias depois.

Entre 1919 e 1939, os ranchos viveram sua era de ouro. E que ouro. Fantasias luxuosas, esplendores gigantescos presos às costas dos participantes, pórticos, painéis pintados e personagens que pareciam ter escapado de uma ópera europeia perdida nos trópicos. Havia damas, cavalheiros, mestres de manobra, mestres-sala, porta-estandartes, alegorias e comissões de frente. Era praticamente um desfile militar organizado por cenógrafos, figurinistas e poetas.

Mas quem realmente gostava de exagerar eram as chamadas grandes sociedades carnavalescas. Seus carros alegóricos circulavam abarrotados de moças bonitas, deuses gregos, heróis nacionais, figuras históricas e alegorias tão grandiosas que provavelmente nem os próprios organizadores sabiam exatamente o que representavam. No encerramento, surgiam os famosos carros de crítica política, demonstrando que o brasileiro já fazia memes gigantes sobre rodas muito antes da invenção da internet.

As agremiações tinham nomes discretos e modestos, como Tenentes do Diabo, Fenianos, Pierrôs da Caverna, Kananga do Japão, Democráticos e Embaixadores. Ninguém queria parecer uma associação recreativa. O objetivo era soar como uma mistura de sociedade secreta, confraria boêmia e organização revolucionária.

O coração da festa pulsava na Avenida Rio Branco. Ali se reunia uma multidão que transformava o centro da cidade numa espécie de teatro a céu aberto. Já a classe média alta preferia se acomodar em áreas mais elegantes, próximo ao Jóquei Clube, observando a folia a uma distância segura. Afinal, carnaval era muito bonito, desde que não amassasse a roupa nem obrigasse alguém a dividir espaço com o povão.

Muitos levavam cadeiras e banquinhos para assistir aos desfiles. Era o ancestral remoto das cadeiras de praia, com a diferença de que, naquela época, o espetáculo não era o pôr do sol, mas milhares de foliões tentando superar uns aos outros em fantasia, animação e capacidade de permanecer acordados.

A segunda-feira de carnaval possuía um atrativo especial. Além dos ranchos iluminados por fogos coloridos, havia o tradicional desfile involuntário dos frequentadores do baile do Teatro Municipal. A elite saía fantasiada acreditando ser a atração principal da noite, enquanto o povo se aglomerava para observá-los como quem visita uma exposição de espécies raras.

Enquanto isso, na famosa Galeria Cruzeiro, o carnaval fervia ao som das músicas lançadas pelos teatros de revista e pelas emissoras de rádio. Era o equivalente da época às playlists virais, só que com muito mais suor e infinitamente menos algoritmos.

Com o desaparecimento gradual dos cordões, começaram a surgir os blocos carnavalescos. Menos pomposos, menos organizados e muito mais próximos daquilo que o brasileiro faz de melhor: reunir amigos, improvisar e descobrir depois como tudo vai funcionar. Alguns se estruturaram dentro das comunidades e deram origem aos blocos de samba. Outros abraçaram definitivamente o caos criativo e ficaram conhecidos como blocos de sujos.

Dos blocos de samba nasceram gigantes do carnaval carioca. O Vai Como Pode virou Portela. O Arengueiros transformou-se em Mangueira. O Prazer da Serrinha deu origem ao Império Serrano. O que prova que muitas das maiores instituições do país começaram exatamente como costumam começar as melhores ideias brasileiras: sem planejamento estratégico, sem consultoria e sem a menor noção de onde aquilo iria parar.

Já os blocos de sujos seguiram outro caminho. Deles surgiram os famosos clóvis, ou bate-bolas. Segundo os estudiosos, o nome deriva da palavra inglesa “clown”. Segundo o folião médio, deriva provavelmente da capacidade que essas figuras tinham de assustar crianças e adultos com igual eficiência.

Os clóvis lembravam antigos arlequins medievais, personagens que carregavam bastões e, em épocas menos civilizadas, bexigas cheias de urina para arremessar nos desafortunados que cruzassem seu caminho. Em outras palavras, eram a prova definitiva de que o conceito de “brincadeira carnavalesca” já foi interpretado de maneira bastante flexível ao longo da história.

Outros blocos de sujos, como os de mascarados e nega maluca, também conquistaram espaço no carnaval de rua. Eram manifestações em que a improvisação reinava absoluta, a organização era tratada como um detalhe dispensável e o improviso resolvia tudo. Ou quase tudo.

Porque, no fundo, essa talvez seja a maior invenção do carnaval brasileiro: transformar a desordem em tradição, o improviso em patrimônio cultural e a bagunça em espetáculo. E fazer isso com tanta convicção que ninguém ousa chamar de confusão. Chamamos de folia.

quinta-feira, agosto 06, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 4

 


4. Os bailes carnavalescos de antigamente eram uma verdadeira salada musical sem qualquer compromisso com a coerência. Tocava-se de tudo: polca, lundu, tango safado, samba, marchinha, frevo, jongo, cateretê e o que mais aparecesse pela frente. Ninguém parecia preocupado em saber se os ritmos combinavam entre si. O importante era cantar, pular, fazer cordão e esquecer por alguns dias que a vida real continuava esperando logo ali na quarta-feira de cinzas.

Mas nada se comparava aos famosos banhos de mar à fantasia, uma invenção que só poderia ter surgido de uma época em que as pessoas encaravam o ridículo com muito mais entusiasmo do que hoje. Entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, multidões vestiam fantasias de papel-crepom, desfilavam orgulhosamente pelas praias e, em seguida, mergulhavam no mar.

O resultado era previsível: em poucos minutos, as fantasias começavam a desmanchar e a água adquiria tonalidades que fariam qualquer órgão ambiental moderno entrar em estado de alerta máximo. Felizmente, os foliões usavam roupa de banho por baixo, evitando que o espetáculo terminasse num escândalo ainda maior do que já era.

Enquanto isso, a indústria internacional da bagunça fazia sua contribuição para o progresso do carnaval brasileiro. A França mandou a serpentina em 1892. A Espanha respondeu enviando o confete no mesmo ano. E a França, aparentemente inconformada em perder a disputa, despachou em 1903 o lança-perfume, uma engenhoca carregada de éter perfumado destinada a transformar qualquer salão de baile numa mistura de perfumaria, laboratório químico e campo experimental de paquera.

Essas três maravilhas da civilização ocidental ajudaram a impulsionar os corsos, espécie de desfile motorizado onde a elite da época descobriu que era possível exibir seus automóveis e sua animação ao mesmo tempo. Os carros conversíveis desfilavam enfeitados com bandeirolas, panos coloridos e passageiros estrategicamente acomodados em qualquer lugar disponível, inclusive sobre a capota rebaixada. As moças, sempre observadas com especial interesse pela plateia masculina, exibiam fantasias e saias que provocavam mais comentários do que muitos discursos parlamentares da época.

Nas calçadas, o povo se apertava para assistir ao espetáculo. Nos carros, os foliões travavam verdadeiras guerras de confete e serpentina. Ao final da noite, as avenidas pareciam ter sido atacadas por uma fábrica de papel enlouquecida. Quilômetros de serpentina se enroscavam nos veículos, montanhas de confete cobriam o chão e litros de lança-perfume evaporavam alegremente enquanto desconhecidos se transformavam em conhecidos, conhecidos viravam namorados e alguns namorados provavelmente viravam problemas para resolver depois do carnaval.

No Rio de Janeiro, o corso tomava conta da Avenida Rio Branco e avançava até a Beira-Mar, Flamengo e Botafogo. Era um desfile onde a velocidade não interessava a ninguém. Afinal, o objetivo não era chegar a algum lugar, mas exibir-se pelo maior tempo possível. Como toda moda baseada na ostentação pública, o corso acabou vítima do progresso. Os carros fechados e as limusines decretaram o fim da festa motorizada. Ficou difícil jogar serpentina pela janela quando o automóvel parecia mais um cofre ambulante do que um carro de carnaval.

Restaram então as batalhas de confete, que funcionavam como uma espécie de Copa do Mundo da folia de bairro. Durante semanas, blocos e torcidas organizavam festas preparatórias, consumindo quantidades industriais de confete, serpentina e lança-perfume. As disputas envolviam canto, dança, animação e, principalmente, a eterna competição para provar que o bloco rival não passava de um bando de foliões sem ritmo e sem futuro. Muitas dessas batalhas atravessavam a madrugada e avançavam até o amanhecer.

Em alguns casos, a empolgação era tão grande que superava a dos próprios dias oficiais de carnaval. Era o Brasil mostrando mais uma vez seu talento histórico para transformar qualquer reunião de amigos, um pouco de música e uma quantidade irresponsável de papel picado numa celebração digna de entrar para a história.

quarta-feira, agosto 05, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 3

 


3. Se o carnaval brasileiro tem um avô legítimo, ele não era exatamente um cavalheiro. Chamava-se entrudo e chegou ao Brasil trazido pelos portugueses dos Açores. Era uma brincadeira tão refinada quanto uma briga de galos dentro de um chiqueiro. Grosseiro, violento, sujo e frequentemente estúpido, o entrudo consistia em jogar nos outros tudo o que estivesse ao alcance da mão: baldes de água, bisnagas, limões-de-cheiro, pó de cal, vinagre, groselha, vinho e, para os mais criativos e menos civilizados, até urina. Era uma espécie de guerra química artesanal praticada muito antes de a humanidade inventar convenções internacionais para proibir esse tipo de coisa.

Curiosamente, essa demonstração coletiva de barbárie era tolerada pelo imperador Pedro II, homem culto, poliglota e leitor compulsivo, mas aparentemente bastante compreensivo quando o assunto era ver a aristocracia trocando banhos involuntários de líquidos suspeitos nos jardins da Quinta da Boa Vista. Afinal, nada une mais uma nação do que a possibilidade de humilhar o próximo sem consequências jurídicas.

Mas seria injusto reduzir o entrudo a uma simples sucessão de grosserias. Para escravos, libertos e pobres em geral, aqueles dias representavam uma rara oportunidade de inverter, ainda que simbolicamente, as hierarquias de uma sociedade construída sobre privilégios e opressões. Durante algumas horas, a vítima de ontem podia transformar-se no algoz de hoje, armada com um balde, uma bisnaga ou qualquer recipiente que não tivesse sido lavado recentemente. O entrudo começou a perder espaço quando chegaram da Europa novidades mais elegantes, como o lança-perfume, o confete e a serpentina. Em outras palavras, a civilização finalmente descobriu que era possível importunar os outros com mais charme e menos risco de cegueira.

Durante muito tempo, especialmente no Rio de Janeiro, o carnaval também serviu para homenagear figuras populares da cidade. Entre elas destacou-se um sapateiro português chamado José Nogueira de Azevedo Paredes. Em 1846, ele resolveu sair às ruas acompanhado de zabumbas e tambores, reproduzindo costumes de sua terra natal. O resultado foi um sucesso estrondoso – literalmente. Nascia o famoso Zé-Pereira, prova de que o brasileiro sempre teve uma relação muito íntima com qualquer manifestação que produzisse barulho suficiente para acordar um bairro inteiro.

A fama do personagem cresceu tanto que acabou virando peça teatral. O povo cantava entusiasmado: “Viva o Zé-Pereira, pois que a ninguém faz mal / Viva a bebedeira nos dias de carnaval”. Uma afirmação curiosa para um desfile cuja principal característica era fazer exatamente o contrário daquilo que recomendavam os médicos, os padres e os vizinhos que queriam dormir.

No início do século 20, as zabumbas foram ganhando a companhia de pandeiros, tamborins, reco-recos, cuícas, triângulos e frigideiras. Sim, frigideiras. O brasileiro sempre demonstrou talento para transformar qualquer objeto doméstico em instrumento musical desde que isso implicasse produzir o máximo de ruído possível. Desse caldo sonoro surgiram os blocos de rua. Bastava o Zé-Pereira passar e atrás dele formava-se uma procissão profana de foliões, curiosos, desocupados e especialistas em matar o expediente. Era o embrião de uma tradição que mais tarde arrastaria multidões e patrocinadores na mesma proporção.

Por volta de 1870 apareceram os cordões carnavalescos, compostos por negros, mulatas e brancos pobres. Enquanto a elite se divertia em bailes fechados e iluminados por lustres importados, o povo inventava nas ruas a verdadeira alma do carnaval brasileiro, embalado por ritmos profundamente influenciados pelas tradições africanas que a sociedade da época fingia desprezar, mas adorava copiar quando chegava a hora da festa.

À frente dos cordões vinham enormes estandartes chamados “panos”, conduzidos com orgulho por seus porta-estandartes. No início do século 20, o número dessas agremiações chegou a duzentas. Eram nomes como Teimosos da Chama, Dália de Ouro e Destemidos do Livramento. Convenhamos: até os nomes eram mais criativos do que boa parte dos slogans publicitários que hoje tentam vender o carnaval como experiência premium.

Nos salões, quem reinava eram três personagens importados da Commedia dell’Arte italiana: Colombina, Pierrô e Arlequim. O enredo era simples e atravessou séculos sem envelhecer. Pierrô era o romântico incurável, especializado em sofrer por amor. Arlequim era o malandro debochado que tentava roubar sua namorada. E Colombina, bela, sedutora e inconstante, mantinha os dois girando em torno dela como satélites sem combustível emocional. 

Traduzindo para os dias atuais, Pierrô seria o sujeito que escreve textões de madrugada nas redes sociais, Arlequim, o amigo que reage com foguinho às fotos da namorada dele, e Colombina, a influencer que monetiza o triângulo amoroso sem assumir compromisso com nenhum dos dois. Já o rei Momo, soberano máximo da folia, nasceu inspirado nos bufos portugueses, atores especializados em fazer rir os nobres. Nada mais apropriado. Desde então, boa parte da política nacional parece ter se esforçado para honrar essa tradição teatral.

As fantasias e máscaras viveram seu auge entre o final do século 19 e meados do século 20. Havia de tudo: caveiras, diabos, morcegos, rajás, mandarins, velhos, doutores e até burros com orelhas enormes. Em muitos casos, a fantasia servia apenas para tornar visível aquilo que alguns indivíduos passavam o resto do ano tentando esconder. O declínio começou quando os custos dos tecidos e adornos dispararam. 

Aos poucos, as fantasias foram encolhendo. Primeiro por economia. Depois por praticidade. Mais tarde por causa do calor tropical. Finalmente, por uma combinação explosiva das três coisas. O resultado foi uma evolução curiosa: da indumentária elaborada do Império ao short, à bermuda, ao biquíni e, em alguns casos, a uma quantidade de tecido insuficiente para confeccionar um guardanapo.

As máscaras também enfrentaram uma história atribulada. Desde o século 17 eram proibidas e liberadas conforme o humor das autoridades. Em 1685, por exemplo, um governador determinou que negros e mulatos mascarados fossem chicoteados em praça pública, enquanto brancos mascarados seriam enviados para o exílio. Era a velha tradição colonial de distribuir castigos de acordo com a cor da pele e o tamanho da conta bancária.

Apesar das proibições, as máscaras sobreviveram por séculos. O brasileiro sempre teve enorme apreço pelo anonimato festivo. Talvez porque, num país acostumado a tantas desigualdades, vestir uma fantasia fosse uma das poucas formas de experimentar a liberdade de ser outra pessoa – ainda que apenas até a quarta-feira de cinzas, quando a realidade reaparecia sem máscara, sem maquiagem e sem nenhuma intenção de participar da brincadeira.

terça-feira, agosto 04, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 2

 


2. No Brasil, diferentemente de outros países onde o carnaval ainda conservava alguma aparência de ritual coletivo, a festa ganhou fama justamente por ser o momento oficial da catarse nacional. Era a época em que o povo, esmagado pelas agruras do cotidiano, saía às ruas para cantar, dançar, rir de si mesmo e esquecer, ainda que por alguns dias, que a conta do armazém continuava lá esperando. Nos antigos blocos dos “sujos” e entre mascarados de toda espécie, reinavam a irreverência, a espontaneidade e aquele humor debochado que nunca precisou de patrocínio, camarote VIP ou pulseira eletrônica para existir.

Mas, como costuma acontecer no Brasil, quando algo se torna genuinamente popular, logo aparece alguém disposto a cercá-lo com cordas, cobrar ingresso e chamar isso de evolução. Aos poucos, o carnaval foi perdendo parte de sua alma popular e adquirindo ares aristocráticos, clubísticos e seletivos. Surgiram os bailes luxuosos, frequentados por quem tinha sobrenome, dinheiro ou ambos, enquanto o povo, que havia inventado a brincadeira, passava a observá-la do lado de fora.

Hoje, o carnaval é celebrado em diversos países de tradição católica nos dias que antecedem a Quaresma. A festa gira em torno de fantasias, música, dança e uma generosa suspensão do bom senso. Seu nome tem origem controversa. Alguns estudiosos o relacionam ao latim medieval carnem levare ou carnelevarium, expressões ligadas à despedida da carne antes dos quarenta dias de abstinência quaresmal. Em outras palavras: era a última oportunidade de exagerar antes que a Igreja lembrasse aos fiéis que a diversão tinha prazo de validade.

Como toda tradição humana, o carnaval também sofre de problemas de calendário. Em Munique e na Baviera, na Alemanha, começa no Dia de Reis, em 6 de janeiro. Em Colônia e na Renânia, também na Alemanha, alguém decidiu que a festa deveria começar exatamente às 11 horas e 11 minutos do dia 11 de novembro. Afinal, se é para criar uma tradição, por que não complicar um pouco?

Na França, a celebração é mais econômica e se concentra basicamente na terça-feira gorda e na mi-carême (“meio da quaresma”). Nos Estados Unidos, especialmente em Nova Orleans, a festa se estende do Dia de Reis até o famoso Mardi Gras (foto). Já na Espanha, a quarta-feira de cinzas também entra na brincadeira, numa espécie de prorrogação carnavalesca que sugere uma dificuldade histórica em aceitar que a festa acabou.

No Brasil, até a década de 1940, sobretudo no Rio de Janeiro, o carnaval começava a ensaiar seus primeiros passos ainda em outubro, durante os festejos de Nossa Senhora da Penha. Crescia no fim do ano e explodia nos quatro dias que antecediam a Quaresma. Hoje, em cidades como Recife e Salvador, a festa se alonga tanto que às vezes parece disputar com o Natal o título de comemoração mais extensa do calendário. Dependendo do entusiasmo dos organizadores, só falta chegar ao Dia das Mães.

Entretanto, há uma ironia pouco comentada. Embora o carnaval brasileiro continue sendo vendido como a maior festa popular do planeta, apenas uma pequena parcela da população participa efetivamente dele. Na chamada época de ouro – entre o final do século 19 e os anos 1950 – a multidão não assistia ao carnaval: ela era o carnaval. Atualmente, boa parte do público ocupa o confortável papel de espectador, consumindo imagens da folia pela televisão, pelas redes sociais ou dos camarotes que transformaram a espontaneidade popular em produto premium.

Ainda assim, o carnaval brasileiro segue sendo celebrado como um dos melhores do mundo por turistas estrangeiros e por muitos brasileiros, especialmente pelos mais jovens, que nunca conheceram aquele carnaval verdadeiramente compartilhado, improvisado e democrático. É um pouco como sentir saudade de uma cidade que nunca se visitou.

Talvez ninguém tenha resumido melhor essa transformação do que o folclorista Luís da Câmara Cascudo. Segundo ele, “o carnaval de hoje é de desfile, carnaval assistido, paga-se para ver”. O carnaval de antigamente era vivido, dançado, pulado, gritado e até cutucado. O de hoje, em muitos casos, parece uma grande vitrine: de um lado, os que pagam para aparecer, do outro, os que pagam para assistir. E ambos saem convencidos de que participaram da mesma festa.

segunda-feira, agosto 03, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 1

 


1. A origem do carnaval é uma daquelas discussões que conseguem atravessar séculos sem chegar a lugar nenhum – exatamente como certas reuniões de condomínio e algumas CPIs. Até hoje, o assunto provoca debates acalorados em mesas de botequim, normalmente entre o terceiro copo de cerveja e a última porção de torresmo.

Há estudiosos que juram, de pés juntos e copo na mão, que o carnaval nasceu por volta de 10.000 a.C., quando nossos ancestrais, ainda sem Instagram, televisão ou campeonato de futebol, pintavam o corpo, cobriam o rosto e saíam dançando em grupo para espantar os espíritos responsáveis pelas colheitas ruins. Era uma espécie de bloco rural pré-histórico: sem trio elétrico, mas com bastante barro, suor e fé de que a mandioca vingasse depois de plantada.

Outros afirmam que o carnaval nasceu no Egito, na Grécia, em Roma ou em algum lugar onde havia uma combinação explosiva de divindades, vinho e pessoas sem muito compromisso com o dia seguinte. A verdade é que quase todas as civilizações antigas inventaram alguma desculpa religiosa para fazer festa. Mudava o santo, o deus ou o ídolo, mas a vontade de encher a cara permanecia rigorosamente a mesma.

Os egípcios colocam a culpa em Ísis e no touro Ápis. Os gregos empurram a responsabilidade para Dionísio, que era praticamente o secretário-geral da bebedeira. Os romanos apontam para Saturno e Baco, este último o patrono oficial dos excessos etílicos. Aparentemente, o carnaval é fruto de uma multidão de divindades que tinham como principal atribuição funcional organizar festas e liberar o povo para fazer o que normalmente seria proibido.

Os romanos, aliás, levaram a coisa muito a sério. Nas Saturnais, colocavam grandes carros em forma de navios para desfilar pelas ruas. Era o famoso carrum navalis, ancestral remoto dos carros alegóricos modernos. As Saturnais também incluíam procissões, fantasias e muita libertinagem. Em outras palavras, eram uma espécie de desfile das escolas de samba misturado com aniversário de interior, festa universitária e reunião de família onde aparece aquele tio que dança lambada depois de quatro copos.

Vieram depois as Lupercais e as Bacanais, celebrações tão animadas que, se acontecessem hoje, renderiam pelo menos três operações policiais, dois documentários e uma CPI. Na sequência, surgiu uma série de festas que, olhando de longe, parecem ter sido criadas por alguém que decidiu juntar religião, bebida, dança, fantasia e ausência de limites num único pacote promocional. Alguns autores garantem que o carnaval já existia na Antiguidade Clássica e até antes dela. As evidências são as mesmas de hoje: música alta, máscaras, comportamentos questionáveis e pessoas tomando decisões que passariam o resto do ano tentando justificar.

Na Idade Média, a Igreja Católica ficou numa situação delicada. Não exatamente aprovava o carnaval, mas também não conseguia acabar com ele. Alguns religiosos condenavam a festa como obra do demônio. Outros preferiam fingir que não estavam vendo. Afinal, quando metade da cidade resolve sair fantasiada fazendo algazarra, é mais fácil rezar do que tentar impedir. Era mais ou menos como um pai que descobre que o filho foi para uma festa do cabide, fica indignado, mas acaba perguntando depois se a música estava boa.

Nem todos os religiosos eram tolerantes. Alguns condenavam a folia com veemência. Já o papa Paulo II resolveu adotar uma postura mais pragmática: se não pode vencer o carnaval, organize-o. No século 15, permitiu a realização do carnaval romano diante de seu próprio palácio. O programa incluía corridas de cavalos, carros alegóricos, batalhas de confete, iluminação com velas, lançamento de ovos e até corridas de corcundas. Sim, corridas de corcundas. Porque aparentemente ninguém naquela época acordava de manhã pensando: “Hoje vou criar uma atividade esportiva razoável”. Em outras palavras, era uma mistura de desfile cívico, olimpíada alternativa e programa dominical de auditório.

Com o passar do tempo, algumas dessas modalidades foram desaparecendo – talvez porque alguém finalmente percebeu que atirar ovos em desconhecidos não era exatamente um avanço civilizatório. O carnaval foi ficando menos violento, embora tenha desenvolvido uma curiosa vocação para o sombrio durante sua fase gótica. Na Alta Idade Média, por exemplo, fizeram sucesso as famosas Danças Macabras. Homens e mulheres desfilavam diante da Morte, que ouvia suas lamentações e depois os recebia com uma foice. Era um carnaval tão otimista quanto uma segunda-feira chuvosa depois do feriado.

Já o Renascimento tratou de devolver um pouco de glamour à brincadeira e mais elegância para a bagunça. Os bailes de máscaras ganharam força, especialmente na França e na Itália. Era o começo da longa tradição carnavalesca de fingir ser outra pessoa por algumas horas. Uma prática que mais tarde seria aperfeiçoada pelos políticos em período eleitoral. A ideia era simples: esconder o rosto para revelar a personalidade. Ou, em muitos casos, esconder a personalidade para não ser reconhecido no dia seguinte. No fundo, os nobres descobriram um princípio universal: quando ninguém sabe quem você é, a chance de fazer besteira aumenta consideravelmente.

Nos séculos seguintes, os bailes mascarados se espalharam pela Europa. Em Londres, um famoso baile promovido por artistas reuniu pessoas fantasiadas de grandes mestres da pintura, reis, príncipes e outras celebridades da época. Foi talvez o único carnaval da história em que alguém podia encontrar um monarca, um pintor renascentista e um aquarelista bêbado conversando civilizadamente no mesmo salão.

Assim, pouco a pouco, o carnaval deixou de ser apenas uma explosão de excessos para adquirir também uma dimensão artística. Virou desfile, espetáculo, teatro, música e fantasia. Sobreviveu a impérios, guerras, pestes, revoluções, ditaduras, crises econômicas e até a cantores desafinados puxando marchinhas. Mas, no fundo, manteve intacta sua essência milenar: reunir pessoas dispostas a esquecer os problemas da vida por alguns dias e criar outros completamente novos para resolver depois da Quarta-Feira de Cinzas.

sábado, agosto 01, 2026

Apresentação básica do Telecoteco do Balacobaco

 


Tanto telecoteco quanto balacobaco são daqueles vocábulos genuinamente brasileiros que parecem ter sido inventados depois da terceira cerveja e antes do primeiro tira-gosto. São expressões onomatopeicas criadas para reproduzir ritmos musicais e definir tudo aquilo que é animado, excelente, arretado ou simplesmente bom demais para caber num adjetivo comum. Ambas nasceram sob a tutela da boemia e cresceram soltas pelas ruas, botequins e gafieiras do Rio de Janeiro.

“Balacobaco” apareceu no início do século passado para designar uma festa de lascar, uma figura daquelas que chegam e já fazem metade da alegria do ambiente ou qualquer coisa digna de arrancar um “rapaz, isso é do balacobaco!”. A expressão ganhou passaporte para a eternidade quando Ary Barroso a transformou em samba nos anos 1930.

Já “telecoteco” nasceu da criatividade dos antigos batuqueiros de botequim, uma categoria profissional não reconhecida pelo Ministério do Trabalho, mas fundamental para a cultura nacional. Era a palavra usada para imitar a levada do samba, o repique dos tamborins e aquela batucada que faz até sujeito sem coordenação motora arriscar dois passos. Décadas depois, o termo ganhou projeção nacional pelas mãos de Oswaldo Sargentelli, portelense, botafoguense e divulgador oficial da alegria em horário comercial.

Feitos os necessários esclarecimentos etimológicos – porque até a malandragem merece rigor acadêmico de vez em quando –, posso afiançar que este “Telecoteco do Balacobaco (Histórias de Samba, Carnaval e Futebol)” é uma antologia de causos, anedotas, lembranças e exageros cuidadosamente selecionados para reproduzir o ambiente das lendárias mesas de bar de antigamente.

Daquelas em que meia dúzia de amigos se reunia para beber, conversar fiado, resolver os problemas do mundo sem jamais ser consultada para isso, contar histórias improváveis e cantar músicas com a absoluta convicção de que estavam melhores que os artistas do rádio. Naquele tempo, ninguém saía da mesa sabendo exatamente o que tinha acontecido, mas todos voltavam para casa certos de que a noite havia sido memorável. Afinal, a conversa era gratuita, a gargalhada era coletiva e a mentira bem contada ainda não pagava imposto.

Mas este e-book gratuito não surgiu por geração espontânea nem por intervenção de algum santo padroeiro dos botequins. Sua existência deve-se ao apoio do poeta, escritor, compositor e sambista Bosco Saraiva, um dos fundadores do GRES Reino Unido da Liberdade e botafoguense da mesma estirpe de Oswaldo Sargentelli – o que, convenhamos, já constitui um traço de personalidade suficientemente peculiar. Por essa razão, antes de prosseguir viagem, precisamos abrir um parêntese. E, como todo bom parêntese brasileiro, ele talvez demore um pouco mais do que o previsto para terminar.


Sim, porque há pessoas que passam pela vida ocupando cargos. E há aquelas raras que ocupam um lugar permanente no coração de um povo. Bosco Saraiva pertence a essa segunda categoria. Ao longo de sua trajetória pública, foi vereador, presidente da Câmara Municipal de Manaus, deputado estadual, deputado federal, vice-governador e superintendente da Suframa. Cargos importantes, sem dúvida. Funções que exigem liderança, coragem e compromisso. Mas quem conhece verdadeiramente Bosco Saraiva sabe que sua maior obra nunca coube em um gabinete, nem se resumiu a um mandato. Sua grande missão sempre foi defender a alma do povo.

Para quem não lembra, Bosco Saraiva foi o autor da Lei Municipal nº 362/1996, que instituiu a meia-entrada estudantil em eventos culturais, esportivos e de lazer em Manaus. Enquanto muitos enxergavam a cultura popular apenas como festa, espetáculo ou entretenimento, Bosco Saraiva via nela algo muito maior: a memória viva de uma gente, a identidade de comunidades inteiras, a herança que liga os mais velhos aos mais jovens e impede que um povo se esqueça de quem é. Por isso, em todos os lugares por onde passou, carregou consigo uma bandeira que jamais abandonou: a valorização da cultura popular.

Foi amigo das escolas de samba quando elas precisaram de apoio. Foi parceiro dos grupos folclóricos quando lhes faltavam recursos e reconhecimento. Foi defensor das cirandas, dos bois-bumbás, das quadrilhas juninas e dos cordões de pássaros quando muitos ainda não compreendiam a dimensão cultural e social desses movimentos.

Bosco Saraiva nunca viu apenas fantasias, alegorias, tambores ou apresentações. Ele enxergava as pessoas. Enxergava os artesãos que passavam noites inteiras criando beleza com as próprias mãos. Enxergava os músicos, os costureiros, os brincantes, os mestres da cultura, os jovens que encontravam na arte um caminho de dignidade e esperança.


Talvez por isso seja tão querido. Porque sua luta nunca foi apenas por eventos ou festivais. Foi pelas pessoas que dão vida a eles. Ao longo dos anos, milhares de artistas populares encontraram nele um aliado sincero. Alguém que não aparecia apenas nos dias de festa, mas que permanecia presente nas horas difíceis, quando era preciso defender recursos, garantir espaço, conquistar respeito e preservar tradições. Sua história demonstra que a política pode ser muito mais do que disputa de poder. Pode ser instrumento de proteção daquilo que um povo tem de mais precioso: sua cultura, sua memória e sua identidade.

Hoje, quando vemos uma escola de samba desfilar com orgulho, um boi-bumbá emocionar multidões, uma quadrilha evoluir com propriedade, uma ciranda reunir gerações ou um cordão de pássaros manter viva uma tradição centenária, existe um pouco da dedicação de homens como Bosco Saraiva presente em cada canto dessa celebração.

Seu legado não está apenas nos documentos oficiais ou nos registros da vida pública. Está nos batuques que continuam ecoando, nos versos que continuam sendo cantados, nas danças que continuam sendo transmitidas de pais para filhos. Está, sobretudo, na gratidão de um povo. Porque os cargos passam. Os mandatos terminam. As homenagens um dia se encerram. Mas o amor dedicado à cultura permanece.

E permanecerá enquanto houver um tambor rufando na noite amazônica, uma bandeira tremulando na avenida, um boi entrando na arena, uma quadrilha ecoando sua sanfona, uma ciranda girando na praça ou um pássaro encantado abrindo suas asas no imaginário popular.

Nesses momentos, mesmo sem ser anunciado, Bosco Saraiva continuará presente. Como amigo, como defensor da cultura, como homem público de rara sensibilidade. E, acima de tudo, como alguém que compreendeu que preservar as tradições do povo é uma das mais nobres formas de amar sua terra e sua gente.

Esse e-book gratuito que você tem nas mãos é mais uma pequena contribuição do Bosco Saraiva para manter viva a nossa memória cultural, na medida em que sua participação foi decisiva para a publicação da obra. E é por isso, pelo dever da gratidão e da amizade, que tenho me irmanado a ele há mais de 40 anos em todas as suas lutas em prol da cultura popular. Noblesse oblige.

 

Nota da Redação: A ideia aqui será publicar diariamente cada um dos 110 causos do e-book. Mas se alguém quiser logo ler o livro inteiro, basta entrar no Portal Kandyru com KY (https://kandyru.com.br/) e acessar a categoria Boemia que o e-book está pronto para download.

Waldick Soriano, Um Ídolo em Manaus



Por José Rocha

Era um baiano que se tornou famoso na pauliceia desvairada, mas foi na Manaus de mil contrastes que encontrou um de seus públicos mais apaixonados.

Com seu estilo brega-romântico, Waldick Soriano cantou, encantou e conquistou uma legião de admiradores, tornando-se um verdadeiro ídolo dos manauaras.

Antes da fama, perambulava pelas ruas de São Paulo engraxando sapatos, sempre cantarolando. Boêmio inveterado e conquistador, acabou sendo descoberto por alguém que enxergou talento naquele engraxate.

Em 1960, gravou seu primeiro disco de vinil pela gravadora Chantecler, intitulado Quem És Tu. O lançamento passou praticamente despercebido em São Paulo. Sem sucesso, Waldick voltou à antiga rotina de engraxate.

Seis meses depois, porém, seu empresário apareceu com um paletó novinho e uma passagem aérea. A notícia era surpreendente: o disco havia estourado justamente nos cabarés de Manaus.

A partir daí nasceu uma história de amor entre o cantor e a capital amazonense. Waldick apaixonou-se pela cidade e, principalmente, pelas caboclas do pedaço. Diziam que era faixa-preta de karatê e um conquistador incorrigível.

As histórias sobre suas aventuras viraram lenda. Contavam que chegou a enfrentar o famoso lutador conhecido como Tigre da Amazônia, levando a melhor na briga e, para completar a fama de conquistador, ainda teria levado a namorada do adversário para São Paulo.

Vinha a Manaus até quatro vezes por ano. Gostava de cantar nos antigos cabarés e tornou-se uma figura querida no bairro de Educandos, onde frequentava lugares tradicionais, como a Peixaria São Francisco, o Bar São Domingos e o Cine Vitória.

Em 1963, já era um artista conhecido em todo o Brasil. Em apenas três anos de carreira havia gravado cerca de uma dúzia de discos.

Mesmo assim, jamais esqueceu a cidade que o acolheu com tanto carinho. Como prova desse afeto, gravou o LP Manaus, Meu Paraíso, cuja canção dizia em um de seus versos:

“Adeus, Manaus! Está chegando a hora da partida... Adeus, Manaus! Meu Deus, será por toda a minha vida!”

Quando Waldick não estava em Manaus, seus admiradores tratavam de manter viva a sua imagem. Os cantores Abílio Farias e Nunes Filho, considerados os “Waldicks do Amazonas”, apresentavam-se vestidos de preto, usando paletó, gravata, chapéu e óculos escuros, numa homenagem ao estilo inconfundível do ídolo.

Entre todos os seus fãs, talvez nenhum tenha sido mais dedicado do que o saudoso Jokka Loureiro, cantor, compositor e proprietário de uma peixaria em Manaus.

Jokka reuniu uma coleção impressionante de discos, fotografias e lembranças de Waldick Soriano. Os dois cultivaram uma amizade sincera. Gostavam de conversar, cantar, tomar uma boa cachaça e reviver a boemia que marcou uma época da cidade.

Eu mesmo guardo uma lembrança especial. A única vez em que vi Waldick Soriano foi no dia da final da Copa do Mundo de 1970. Eu ainda era um menino e comemorava a vitória do Brasil sobre a Itália na Avenida Eduardo Ribeiro. Foi então que avistei o cantor tomando uma birita em um bar ao lado do Teatro Amazonas. A cena ficou gravada para sempre na minha memória.

Durante cerca de quarenta anos, Waldick manteve uma relação de carinho com Manaus.

Esteve na cidade pela última vez em 2002. Em 2006, recebeu o diagnóstico de câncer de próstata e, dois anos depois, faleceu no Instituto Nacional de Câncer, no Rio de Janeiro.

Waldick Soriano partiu, mas deixou muito mais do que discos e canções. Deixou lembranças, histórias e um vínculo afetivo com Manaus que poucos artistas conseguiram construir.

Para os manauaras de sua geração, ele não foi apenas um cantor de sucesso.



Foi, acima de tudo, um ídolo que fez da cidade um dos capítulos mais marcantes de sua vida.

sexta-feira, julho 31, 2026

E-book gratuito reúne histórias bem-humoradas sobre o universo do samba, do carnaval e do futebol



Manaus ganha neste sábado, 1º de agosto, mais uma obra dedicada à preservação da memória de sua cultura popular. A partir das 15h, a quadra do GRES Reino Unido da Liberdade será palco do lançamento do e-book “Telecoteco do Balacobaco – Histórias de samba, carnaval e futebol”, do escritor Simão Pessoa. A publicação será distribuída gratuitamente ao público.

Em linhas gerais, o e-book reúne dezenas de histórias inspiradas em fatos reais que circularam durante décadas nos bastidores das rodas de samba, dos desfiles carnavalescos e dos campos de futebol. Com texto leve, irreverente e recheado de humor, a obra resgata episódios curiosos protagonizados por personagens que ajudaram a construir a história do samba em Manaus e no Brasil.

Entre os nomes que desfilam pelas páginas do livro estão ícones como Chico da Silva, Aroldo Melodia, Leci Brandão, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Mestre Marçal, Jamelão, Beth Carvalho, João Nogueira, além de sambistas, carnavalescos, dirigentes, músicos, foliões e figuras lendárias da cena cultural amazonense.

Mais do que provocar boas gargalhadas, “Telecoteco do Balacobaco” também funciona como um precioso registro da memória afetiva do carnaval e do samba. São narrativas que misturam irreverência, emoção e um olhar carinhoso sobre personagens que marcaram época, preservando histórias que normalmente sobreviveriam apenas na tradição oral.

Ao longo da obra, o leitor encontra episódios inusitados, situações improváveis e causos que parecem inventados, mas que aconteceram de verdade. O resultado é um mosaico bem-humorado da boemia, da criatividade e do espírito irreverente que sempre acompanharam o samba e o carnaval brasileiros

Segundo o autor, a proposta do livro é celebrar a alegria como patrimônio cultural. “Essas histórias mostram que o samba também é feito de encontros, improvisos, amizades, travessuras e momentos inesquecíveis. São pequenas crônicas de um Brasil bem-humorado que merece ser lembrado”, afirma Simão Pessoa.

O lançamento acontece em um cenário simbólico: a quadra da Reino Unido da Liberdade, uma das mais tradicionais escolas de samba da Amazônia, espaço que há décadas reúne gerações de sambistas e amantes do carnaval.

A entrada é gratuita, e o público poderá fazer o download do e-book sem qualquer custo, ampliando o acesso a uma obra que homenageia personagens históricos do samba e preserva um importante capítulo da cultura popular brasileira.

terça-feira, agosto 12, 2025

Ele ousou lutar...

 


Por Mouzar Benedito

No próximo dia 16 de agosto tem um evento muito especial em Belo Horizonte, e quero falar dele, mas vou começar do começo, como se diz.

Era tempo de ditadura braba, governo Garrastazu Médici, em setembro de 1971, quando fui passar uns dias na minha terra, Nova Resende. Estava num churrasco com amigos mais velhos, chegou um conhecido e começou a falar no ouvido de alguns deles, e todos faziam cara de espanto, ficavam sérios.

Desconfiado, cheguei nele e cobrei: “Do que estão falando? Quero saber também”. Ele respondeu: “Prenderam o filho do Quita. Ele é acusado de terrorismo”.

Quita era o apelido do Dr. José Gonçalves de Rezende, nosso conterrâneo, desembargador em Belo Horizonte. O filho dele que foi preso era o Zé Roberto, que eu não conhecia, porque mudou-se de Nova Resende quando eu era muito criança.

Eu sabia o que aconteceria com ele: muita tortura, talvez até a morte na prisão. Mas minha sensação foi estranha, de orgulho. Saber que um conterrâneo participava da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), era guerrilheiro contra a ditadura, me deu a sensação de que minha terra tinha motivo para orgulhar-se de um filho que não fugiu à luta.


Visitas aos presos políticos

Em 1978 tive que me mudar pro Rio de Janeiro. Em São Paulo eu estava no que chamavam “lista negra” e não tinha como sobreviver, porque fui demitido do Sesc por causa da participação na imprensa alternativa, e ninguém me dava emprego. Encontrei uma prima do Zé Roberto que morava lá, a Cleuza. No início de 1979, ela me procurou informando que abriram a possiblidade de presos serem visitados por amigos, com um limite de três visitantes para cada um, tinha comentado com o Zé Roberto sobre minha militância e ele queria me conhecer. Perguntou se eu topava ir ao presídio da Rua Frei Caneca... Topei, claro. A preocupação dela, me perguntando se topava era porque a mera visita a presos políticos era vista como meio perigosa, já dava “ficha no Dops”, segundo diziam.

Fiquei impressionado. Tive que passar por sete grades para chegar à ala dos presos políticos, sendo mal-encarado em cada uma delas, e entre a sexta e a sétima fui revistado de alto a baixo. Tive até que esvaziar todos os bolsos, tirar o sapato e a meia para verem se tinha algum papelzinho com qualquer recado para eles, e abrir o maço de cigarros (eu fumava, na época) que também foi revistado com rigor... Dava mesmo para se sentir ameaçado visitar os presos políticos.

Uma ala antes da que eu ia, ficava a dos presos pertencentes ao Esquadrão da Morte, cujos visitantes entraram ao mesmo tempo que eu, e vi que ninguém era revistado. Uma mulher levava com uma caixa que me disse conter um bolo de aniversário, poderia ter armas de fogo poderosas dentro.

Havia uns 70 presos lá, e conversei não só com o Zé Roberto, mas com vários deles. Comentei com o Zé Roberto sobre a pena que ele devia cumprir: duas prisões perpétuas mais 69 anos de cadeia. Teria que morrer duas vezes e ter uma terceira vida bem longa para cumprir tudo. Não fui criativo: todo mundo falava isso, até em tom de piada.

As duas condenações à prisão perpétua foram por participação no sequestro dos embaixadores da Alemanha, trocado por 45 companheiros que estavam presos e sendo torturados, e da Suíça, trocado por 70 presos igualmente vítimas de torturas.

Na hora me surgiu a ideia de fazer matérias sobre presos políticos pro jornal Em Tempo, muito combativo, que ajudei a fundar, mas que tinha me afastado. Entrevistei presos e fui anotando. Mas, na hora de sair, me recomendaram que decorasse o que escrevi e queimasse o papel, porque seria revistado com rigor na saída também. Aconteceu mesmo. Para não esquecer o que tinha escrito, entrei num bar em frente ao presídio, pedi uma pinga, uma cerveja e uma folha de papel de embrulho e escrevi tudo.

Em casa, à noite, fiz uma matéria e mandei pro jornal, pedindo que inventassem um pseudônimo pra mim, porque queria continuar visitando os presos e fazer matérias com eles, e se assinasse com meu nome me proibiriam de fazer novas visitas. Amigos gozadores me arrumaram o pseudônimo Rezende Valadares Netto, justificando: Rezende (com z), porque sou de Nova Resende (com s); Valadares porque Minas Gerais teve um governador fazedor de média durante a ditadura anterior, Benedito Valadares, e brincaram que todo mineiro era fazedor de média; e Netto, com dois tt, só pra dar um charme.

Continuei fazendo matérias e notas sobre os presos políticos pro Em Tempo, assinando Rezende Valadares Netto, ou RVN, e retirando clandestinamente material produzido pelos presos políticos, e também pôsteres que produziam, para vender aqui fora e gerar uma grana para comprarem algumas coisas que necessitavam e melhorar suas condições lá dentro.

A disposição do Em Tempo para publicar tudo sobre presos políticos, incluindo duas listas de torturadores (participei do encaminhamento da segunda delas pro jornal) acabou merecendo o prêmio Vladimir Herzog, concedido pelo Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo.

Cachaça de abacaxi

A vida na cadeia é difícil e algumas coisas ajudam a aliviar um pouco, e elas eram muito valorizadas pelos presos. Uma delas era cigarro, que quase todas visitas levavam (eu também) e bebidas alcoólicas, totalmente proibidas. Os presos criaram um “alambique” clandestino, feito com uma panela de pressão, uma serpentina que saía do alto da panela e passava por dentro de um balde de água fria. O vapor saía pela serpentina, condensava ao passar pela água fria e pingava uma cachacinha razoável: experimentaram várias frutas e a que deu pinga de melhor qualidade foi o abacaxi. E as visitas levavam abacaxis para eles. Imagino que os carcereiros deviam pensar: como esses presos gostam de abacaxi!

A fruta era esmagada e colocada num balde para fermentar. O balde ficava escondido na cela, e quando estava na hora certa destilavam de madrugada. Os dois melhores alambiqueiros do presídio eram o próprio Zé Roberto e outro mineiro, o Manoel Henrique. Mineiros não negam fogo, eu brincava. Beberiquei um pouco dessa cachaça durante as visitas.


Eles não foram anistiados

Acabei me tornando amigo de vários presos, especialmente do Zé Roberto, que além de tudo era o conterrâneo que me dava orgulho. Eles conversavam comigo como se eu fosse um deles, chegaram a pedir minha opinião sobre uma greve de fome que pretendiam fazer, porque o projeto de lei da Anistia que o então presidente, general Figueiredo, mandou ao Congresso anistiava mais os torturadores e demais participantes da ditadura do que suas vítimas. Respondi que não podia dizer que era a favor da greve, pois quem passaria fome eram eles. Falar pros outros fazerem greve de fome é fácil. Mas se fizessem, eu daria o apoio que pudesse. Fizeram, e a greve de fome durou 32 dias!!! O projeto aprovado não atendeu ao que reivindicavam, mas não tinha mais sentido continuar.

A Anistia anistiou mesmo os torturadores e colaboradores da ditadura, mas criou-se uma situação em que o Judiciário se viu forçado a fazer revisão de penas absurdas ditadas pelos tribunais militares. E as penas do Zé Roberto foram reduzidas a 15 anos de prisão. Como estava preso havia oito anos e sete meses, pôde sair em condicional, depois de tentativas de entraves por um juiz.

Quando ele saiu, fizeram uma festa em sua homenagem, num apartamento no nono andar de um prédio e ele ficou quase o tempo todo na janela, olhando a rua e o movimento lá embaixo. E me contou mais ou menos assim: “Eu mesmo fiquei curioso por ter feito isso e concluí: passei quase nove anos preso, só dava para olhar para cima, pelas pequenas janelas das celas; foi a primeira vez depois desses anos que pude olhar para baixo”.

Ouvidor da polícia

Libertado, voltou para Belo Horizonte, terminou o curso de direito interrompido desde que entrou na clandestinidade e tornou-se advogado de movimentos populares. Quando o governador Eduardo Azeredo resolveu criar a Ouvidoria de Política, pediu aos movimentos de Direitos Humanos que indicassem o ouvidor. Escolheram o Zé, por unanimidade.

Antes que fosse nomeado, a cúpula da PM do estado foi falar com o governador, pedindo que não o nomeasse porque, segundo ela mesma, ele foi muito torturado e “poderia querer se vingar da polícia”.  O governador pediu então que indicassem outra pessoa, mas os movimentos de Direitos Humanos se negaram: “Se não for ele, não indicamos ninguém”. E Azeredo acabou cedendo. Zé Roberto não se vingou da polícia, mas foi um ouvidor eficaz, dedicado integralmente a apurar crimes cometidos por ela. Logo de cara apareceu um jovem morto perto do aeroporto da Pampulha e a PM informou que era resultado de uma briga de quadrilhas.

Mas o Zé Roberto viu o cadáver e não aceitou essa versão: o jovem tinha muitos sinais de tortura e ele sabia bem o que era isso, pois foi barbaramente torturado durante 30 dias quando foi preso. Acabou descobrindo que o rapaz foi torturado até morrer.

Ele largou tudo para dedicar-se integralmente à Ouvidoria.

 


O livro “Ousar Lutar”

Um dia, conversando numa mesa de bar de BH, estávamos ele, a mulher, Beatriz, e o casal amigo Virgílio e Laura. Na época, o Zé era muito convidado para fazer palestras sobre a resistência à ditadura.

Quando ele foi ao banheiro, o Virgílio me disse que estava tentando convencer o Zé a escrever um livro sobre sua história, não para posar de herói, mas para que as novas gerações entendessem como é que podia jovens em plena fase de “aproveitar a vida” entrarem para uma luta com pouquíssimas chances de vitória e muitas de ser preso, torturado e morto, ou exilado. Ele não queria escrever, achava que podia ser mal interpretado.

Falei: “Deixa comigo...”. Quando o Zé voltou do banheiro, falei com ele: “Você tem dois filhos pequenos e um jovem do primeiro casamento, de antes de ser preso. Este último sabe bem da sua história, mas os dois pequenos, quando estiverem crescidos podem não entender direito e devem passar por provocações sobre você ter participado de sequestros e ter sido preso, e precisarão entender que os sequestros e outras ações tinham um sentido muito diferente do que podem querer lhe atribuir”. E concluí: “Você devia escrever um livro contando tudo. Se achar que não ficou bom, guarde os originais para os seus filhos...”.

Ele me respondeu: “Se você escrever comigo, eu topo”. Pronto! Eu não poderia me negar, e topei. Escrevemos. O título escolhido por ele foi “Ousar Lutar – Memórias da guerrilha que vivi”. “Ousar lutar, ousar vencer!” era o lema da VPR.

Contatei a Boitempo, editora que eu achava mais apropriada para a publicação, ela topou publicar e entregamos os originais. No dia em que o livro entraria na gráfica, há 25 anos, em agosto do ano 2000, ele teve um infarto e morreu. Tristeza imensa.

Ele era tão querido por sua luta e sua integridade que o lançamento foi um grande acontecimento, com direito a uma atividade na sede da OAB e um público enorme. Para se ter ideia, foram vendidos 460 exemplares do livro.

 

Homenagem dia 16

O amigo Virgílio me telefonou recentemente para informar que foi organizada uma atividade homenageando o Zé Roberto, no aniversário dos 25 anos de sua morte.

Vai ser no Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania, de Belo Horizonte, dia 16 próximo, a partir das 16h. Terá, entre outras coisas, a presença dos seus filhos, a exibição de um filme sobre os presos, falas de companheiros de prisão e de pessoas que estavam presas e torturadas e saíram em troca de embaixadores sequestrados, leitura de trechos do nosso livro...

Eu gostaria de ir e levar uma relíquia: quando terminávamos de escrever o livro, sugeri que ele fizesse uma pinga de abacaxi como as que fazia no presídio, para os presentes beberem no lançamento. Ele fez um garrafão. No lançamento do livro, a Beatriz, sua viúva, levou a bebida e sobrou um pouquinho, que ela me deu e eu trouxe para São Paulo, mas nunca tive coragem de acabar com ela. Seria uma ocasião apropriada para bebermos o que resta. 

Mas não vai dar. Questões de saúde me impedem de viajar, mandei uns pequenos vídeos que gravei lembrando dele, com saudade. No dia da homenagem vou beber aqui uma dose da cachaça feita por ele. Um brinde ao grande amigo que não fugiu à luta!

segunda-feira, agosto 11, 2025

Mais Pá, Pow, e menos viadagem!

 


Via e-mail, o mano Jorge Durão, lá de Dunedin, na Nova Zelândia, manda um papo reto:

– Porra, poeta, sacanagem deixar de postar aqui, depois de 3 milhões de pessoas (não são robôs da Tailândia dando like em redes sociais, te orienta!) te prestigiarem. Como é que fico?!

Tento ser diplomático. Biritamos tanto discutindo literatura em alguns dos botecos mais sórdidos de Manaus que seria uma sacanagem eu não responder a essa dedada nos olhos.

– Mano velho, estou com um site chamado “Kandyru com KY” e, de vez em quando, posto algumas abobrinhas interessantes por lá! Entra nele e se diverte...

Ele devolve a oferta com uma declaração de guerra:

– Teuku, mano! Teuku, mano! Já fui no site! Muito afrescalhamento pra quem quer te ler! Porrada de compartimentos, boemia aqui, literatura ali, vai tumanuku... Aqui é diferente: é pá, pow e a lebre está morta!... Não precisa abrir portas secretas, invocar Harry Porter (ou Carlos Castañeda) e outras bobagens... Se oriente!

O sacana está certo. Sou um filho da puta. Foi aqui que consegui 3 milhões de views. Não posso tratar como um patinho feio. Até porque parte da minha história foi contada nesses posts.

Se não bastasse isso, lá, onde o Jorge Durão, a Marília e os dois moleques (Heitor e Enéas) estão morando há alguns anos, também deu muitas coisas boas.

Pra quem não sabe, Dunedin, na Ilha Sul da Nova Zelândia, foi o epicentro de uma cena musical indie vibrante e influente na década de 1980, com bandas como The Clean, The Chills e The Verlaines, muitas delas associadas à Flying Nun Records.

O “som de Dunedin”, caracterizado por vocais monótonos, guitarras jangly e uma estética lo-fi, ganhou reconhecimento internacional, especialmente nas rádios universitárias.

A Flying Nun Records também ajudou a impulsionar a música indie neozelandesa para o cenário global, influenciando bandas como Pavement, Dinosaur Jr. e Neutral Milk Hotel.

Não é pouca porcaria. Sem contar que lá tem muita gata linda! Do tamanho do meu sapato. De leve...

quinta-feira, janeiro 02, 2025

Adeus, 2024, Alô, 2025!

 Aniversário da minha sobrinha Thandra Sena, no dia 31, só com a presença de parentes (tias, primos, filhos, sobrinhos e netos). É gente pra dedéu... Vai vendo...