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sexta-feira, novembro 06, 2026

O nascimento do Curral do Boi Garantido em Manaus

 

O jornalista, compositor e ativista cultural Mencius Melo

Março de 1991. Empolgados com os bons frutos colhidos pelo bumbá Caprichoso por meio do “Movimento Marujada”, os torcedores do bumbá Garantido residentes em Manaus resolveram fazer seu próprio “Bar do Boi” a partir da criação informal da associação “Amigos do Garantido”, inspirada no “Movimento Marujada”.

O principal objetivo da associação era ajudar financeiramente a Batucada do touro branco. Nos primeiros anos, por uma série de circunstâncias, o Curral do Garantido – como ficou conhecido o evento promovido pelos Amigos do Garantido – não conseguiu se firmar em um local específico, o que desagradava seus torcedores e provocava uma baixa participação popular nas apresentações do touro branco em Manaus.

O curral começou no Clube Municipal, na Av. Torquato Tapajós, depois se mudou para o ginásio do Atlético Rio Negro Clube, no centro da cidade, aí foi para o Clube Nostalgia, na Cachoeirinha, depois foi para a quadra do GRES Mocidade Independente de Aparecida, e assim por diante.

As dissidências começaram a surgir dentro do movimento porque não havia jeito de fazer o “boi do povão” virar xodó dos manauaras nem encontrar um lugar fixo para suas apresentações.

A solução foi fazer uma associação jurídica, de fato e de direito, e começar a profissionalização na divulgação e promoção dos eventos do touro branco na capital amazonense. Nascia o Movimento Amigos do Garantido (MAG), cuja direção até hoje é a responsável pelos ensaios oficiais do boi em Manaus. Entre as muitas pessoas que abraçaram a ideia, Mencius Benavraham Melo Figueiredo pode ser considerado uma peça-chave no processo.

Jornalista, compositor, produtor e militante cultural natural de Parintins, com atuação destacada em Manaus, frontman da banda de rock autoral Zona Tribal, com três décadas de estrada no cenário amazonense, apresentador, ao lado de Cid Soares, do programa “Tá Ligado”, transmitido de segunda a sexta-feira pela Rádio Difusora FM, e colaborador da Revista Cenarium, Mencius Melo é uma autêntica usina multimídia.

Recordando o início do que seria o MAG, Mencius Melo conta que em 1994 era diretor administrativo do Garantido, em Parintins, na gestão de Jair Mendes, quando aconteceu uma reunião na casa de Roseani Novo, em Manaus para tratar do assunro. Era uma tentativa de unificar os “Amigos do Garantido”.

No final de 1995, o presidente do Garantido era o vereador José Walmir e outra reunião ocorreu, desta vez em Parintins, na casa do compositor Emerson Maia, então vice-presidente do boi.

– Acertamos que Marco Aurélio Medeiros e eu tentaríamos mais uma vez dar uma cara para o Garantido, em Manaus. Nessa fase, eu já havia espalhado uma centena de convites, por iniciativa própria, na capital do Estado. Convidei até o governador Amazonino Mendes – lembra, Mencius Melo completando que em 1995 havia sido aprovado para a Ufam e estava morando em Manaus, o que facilitou os contatos, mas garante que foi com a entrada do presidente José Walmir nas articulações que houve a chancela para iniciar o Movimento.

Segundo Mencius Melo, as primeiras reuniões aconteceram na Associação dos Servidores do INCRA (Assincra), cujo presidente era Marco Aurélio Medeiros.

– Numa delas, escolhemos o nome que seria dado ao movimento. Júlio Viana estava presente e, por sugestão dele, decidimos escolher o nome “Movimento Amigos do Garantido”, o nosso MAG. Era uma homenagem ao primeiro grupo que tentou hastear a bandeira do Garantido na capital do Amazonas. Então veio o sucesso no Olímpico Clube e o resto da história todo mundo já sabe – recorda Mencius Melo.

Irmão dos compositores Tony e Inaldo Medeiros, Marco Aurélio Medeiros, ex-presidente do MAG, recorda que numa das festas que eram realizadas na quadra do GRES Aparecida, surgiu o questionamento de por que não fazer os eventos do Garantido num lugar maior.

– Nessa época, o Mencius Melo frequentava minha casa e sugeriu, depois de uma festa, que poderíamos fazer algo bem maior. Ele já tinha experiência no assunto porque idealizou e realizou o Idealizou o “Fronteira Norte Festival de Rock”, evento fundamental para projetar bandas autorais de Manaus. Participamos então, logo depois, de uma reunião com a diretoria do boi em Parintins e fizemos a proposta ao presidente José Walmir. Sugestão aceita, nós dois voltamos a Manaus e começamos a fazer convites para os torcedores do Garantido que a gente conhecia na cidade. Começamos a convidar essas pessoas para se reunir na Assincra, com cada um levando seus amigos. Já nesse encontro definimos que o nosso bar do boi seria na sexta-feira, para não competir diretamente com o Bar do Boi do Caprichoso, que acontecia no sábado – recorda.

 

O advogado Arlindo Jorge Mubarac

O nomadismo do boi da Baixa de São José em Manaus, entretanto, só teve um ponto final em 1996, por interferência direta de Arlindo Jorge Mubarac, o fundador do Bar do Bodeco, na ICA-Maceió.

Colega de setor de Arlindo Jorge no Tribunal Regional do Trabalho, o advogado Almerinho Botelho era presidente do Olímpico Clube. Arlindo era sócio do clube. Durante uma conversa informal entre os dois colegas de trabalho, Arlindo cantou a pedra:

– Porra, Almerinho, o Garantido não possui um curral fixo e vive se mudando de um lado pro outro que nem bosta n’água. Teria algum problema se os ensaios do boi fossem realizados no Parque Aquático do Olímpico Clube?

– Não vejo problema nenhum, parceiro! – explicou o advogado. – Pede pro pessoal do Garantido me procurar que eu converso com eles!

Dito e feito. Arlindo Jorge relatou sua conversa para Junior do Garantido, ele falou com o resto da galera vermelha e branca, uma comissão do touro branco foi conversar com o advogado e os ponteiros foram acertados.

No coquetel para o anúncio da nova parceria, com a presença de Zé Walmir, presidente do bumbá Garantido, foram expedidos 150 convites, mas compareceram mais de mil pessoas. Ficou acordado publicamente que o curral do Garantido funcionaria às sextas-feiras.

Naquele mesmo ano foi fundado oficialmente o Movimento Amigos do Garantido (MAG), cujo principal objetivo expresso nos estatutos seria contribuir financeiramente para a solidificação patrimonial e estrutural o bumbá Garantido. O MAG se tornou responsável pelos ensaios oficiais do boi em Manaus, incluindo a administração do curral no Olímpico Clube.

Entre os fundadores do MAG estavam Mencius Melo, Marco Aurélio Medeiros, Brito do BEA, Marconi Jucá, Pampico Bulcão, Edjander Mota, Maurício Filho, Liduína Moura, Roseani Novo, Julhão Viana, David Melo, Welciane Jacintho, Felipe Novo, Marcos Cohen, Izoney Thomé, Rivaldo Pereira, Val Batuel e Amarildo Teixeira.


No primeiro evento realizado no Olímpico Clube, o curral ficou superlotado. O touro branco havia encontrado uma vitrine à altura de suas tradições. Para surpresa de todos, os apoios surgiam naturalmente.

– Ganhamos capa de todos os jornais e um apoio da cerveja Antártica que estava em seu auge. Vendemos no primeiro evento quase 4 mil ingressos. Um número muito bom. Nesse ano, 1996, fizemos 17 eventos, todos batendo recorde de público. Um ano que tivemos os hits “Lamento de Raça” e “Vermelho”, e a presença do David Assayag vindo de Parintins. Mandamos R$ 150 mil para o nosso boi, valor que ajudou a comprar um dos galpões da Cidade Garantido, e no ano seguinte mais R$ 170 mil, que comprou outro espaço – relembra Mencius Melo.

Outro que também tem histórias para contar é o multimídia Rivaldo Pereira. Ele lembra que conheceu o artista Amarildo Teixeira quando era diretor de eventos do GRES Vitória-Régia.

Algum tempo depois, numa reunião em Parintins, Amarildo citou seu nome, numa reunião de diretoria quando estavam sugerindo pessoas para um projeto do Garantido em Manaus.

– Mencius Melo foi à minha casa e me convidou para uma reunião no clube da Assincra. Lá eu soube que a ideia era fundar um movimento para realizar eventos em Manaus. Era o ano de 1996 – recorda.

Rivaldo Pereira diz que procuraram vários locais e optaram pelo Olímpico Clube, que se tornou um marco para o Garantido na capital.

Na semana do evento, segundo ele, programaram um coquetel para 150 convidados, entretanto para surpresa geral apareceram mais de mil pessoas e logo, no primeiro ensaio o Olímpico superlotou.

– Batemos o recorde de público na cidade e já mandamos uma boa quantia em dinheiro à Parintins. Além disso, quebramos a hegemonia do contrário em Manaus e tornamos o Olímpico nossa vitrine – relembra o produtor e apresentador oficial nos palcos do MAG.

Alguns anos depois, o MAG passou a ser dirigido por duas mulheres: Izoney Thomé e Welciane Jacintho. Para a presidente Izoney Thomé, estar à frente do MAG era um desafio, mas também um prazer. Ela explicou que o MAG possui 158 voluntários associados, contudo apenas uma parte atua na organização de eventos para divulgar as cores do boi Garantido.

Izoney avalia que uma gestão feita por mulheres é diferente porque há todo um envolvimento emocional no processo, acabando por envolver todos os familiares e a diretoria termina sendo um grande grupo.

Em 2016, o MAG foi homenageado com uma placa, fincada na Cidade Garantido, em reconhecimento ao trabalho, realizado ao longo de mais de duas décadas pelo “Boi do Povão”. O resto é história.

quinta-feira, novembro 05, 2026

O nascimento do Bar do Boi Caprichoso em Manaus

 

O cidadão barbado é o saudoso Careca, no Bar do Jô, na ICA-Maceió

No início de 1987, vários parintinenses residentes em Manaus começaram a frequentar o Bar do Jô, localizado no Conjunto ICA-Maceió, nas proximidades do Colégio Leonor Mourão. Era um boteco de dimensões modestas, mas que possuía um imenso quintal paradisíaco.

Entre os primeiros frequentadores do Bar do Jô estavam Afrânio Gonçalves, Ary Cavalcante, João do Carmo, o “Careca”, Fernando, Ariosto, Asa, Arlindo Junior, Chiquinho, Laurinho, Cacá Ferreira e Dodozinho Carvalho, todos eles torcedores do bumbá Caprichoso.

No quintal do boteco, eles tocavam as toadas do touro negro e promoviam bingos, rifas e sorteios visando arrecadar recursos para futuramente adquirir instrumentos para a Marujada de Guerra.

Até então os ritmistas do touro negro utilizavam muitos instrumentos emprestados pelo GRES Vitória Régia, da Praça 14, que tinha como presidente o empresário João Braga Neto, também torcedor do Caprichoso.

Na mesma rua do Bar do Jô, distante uns 50 metros do boteco “caprichoso”, Arlindo Jorge Mubarac, um dos fundadores do GRES Andanças de Ciganos e chefe de gabinete da juíza trabalhista Lucy Stone, montou um barzinho para ser administrado por Rômulo, seu irmão caçula, que havia chegado de Santarém há pouco tempo e estava desempregado.

Infelizmente Rômulo desistiu da empreitada porque era evangélico e Arlindo Jorge foi obrigado a segurar o pião na unha. Como era conhecido no bairro da Cachoeirinha como “Bode”, Arlindo Jorge fez uma corruptela da palavra “bodega” ironizando seu próprio apelido e batizou o botequim de Bar do Bodeco.

Sem ter a menor ideia da rivalidade existente entre os bumbás de Parintins, Arlindo Jorge pintou casualmente o piso do Bar do Bodeco de “vermelhão” e rapidamente ele se transformou em ponto de encontro dos torcedores do bumbá Garantido.

Os próprios frequentadores do Bar do Jô começaram a se referir ao Bar do Bodeco como “bar do contrário” e os torcedores do touro branco compraram a ideia. Eles passaram a frequentar o boteco para tocarem as toadas de seu boi favorito. Movido pelas circunstâncias, o dono do Bar do Bodeco acabou se transformando em torcedor do Garantido.

Nesse meio tempo, o conhecido músico Sacy da Pareca também abriu um barzinho na Rua Ramos Ferreira, nas imediações da quadra do GRES Mocidade Independente de Aparecida, e liberou o espaço para os brincantes dos dois bumbás, sem nenhum tipo de favoritismo.

Se nos bares da ICA-Maceió o forrobodó rolava com instrumentistas tocando ao vivo, no bar do Sacy da Pareca quem comandava o embalo eram as fitas K7 gravadas artesanalmente em Parintins, muitas delas de excelente qualidade.

Entre os primeiros frequentadores do boteco estavam Ary Cavalcante, Laurinho, João do Carmo, o “Careca”, Afrânio, Ladico, Sucuba (irmão do futuro senador João Pedro Gonçalves) e Julhão Viana.

Foi tendo esses três botecos como epicentro que a febre do bumbás de Parintins começou a se alastrar por Manaus que nem um tsunami, a partir da propaganda boca a boca dos frequentadores habituais e dos cristãos novos convertidos para a causa.

De uma hora para outra, cerca de 200 pessoas começaram a bater ponto nessas improvisadas rodas de toadas, sempre nas tardes de sábado, e os botecos ficaram pequenos para acomodar tanta gente interessada em conhecer melhor a brincadeira do “dois pra lá, dois pra cá”. Era necessário encontrar um novo espaço.

Um dos primeiros a perceber o potencial da brincadeira dos bumbás como entretenimento de massas na capital amazonense foi João do Carmo, o “Careca”, funcionário de carreira do Ibama e pesquisador das tradições indígenas na Amazônia.

Toda noite de terça-feira, ele reunia uma parte da colônia parintinense residente em Manaus para esmiuçar o assunto. As conversas aconteciam em sua própria residência, na Rua Ramos Ferreira, no famoso “Buraco do Pinto”.

– Olha, minha gente, essa onda do bumbá de Parintins vai pegar pra valer aqui em Manaus e nós precisamos nos preparar direitinho para não perder o controle da brincadeira! – vaticinava Careca. – Nós temos tudo para transformar Manaus numa excelente vitrine para o Festival Folclórico de Parintins!

Por sugestão do anfitrião, os torcedores do Caprichoso resolveram criar uma entidade jurídica denominada “Movimento Marujada”, cujo principal objetivo expresso nos estatutos seria contribuir financeiramente para a manutenção da Marujada de Guerra do touro negro. O trabalho dos “marujeiros” seria voluntário.

Entre os fundadores do Movimento Marujada estavam Sérgio Viana, Rogério Roça, Afrânio Gonçalves, Pedro José, João do Carmo, Roberto Santiago, Patrocínio, Wallace Maia, Chiquinho Severino, Henrique Medeiros, Renato Azedo, Norma Elaine, Lene Medeiros, Ângela Garcia, Edinalda, Edna, Tio Mazinho, Varlene Cid, Beto Medeiros, Dalva Andrade, Asa, Mariano, Kaká Ferreira, Laurinho, Carlos Nery, Ariosto, Mercinha, Fernando Marinho, Zezinho Cardoso, Cabo Cecílio, Lélio Lauria e Dodozinho Carvalho.

No início de 1988, o vendedor de seguros Ademir Matias, que também era cozinheiro nas horas vagas, perdeu o emprego por causa da crise econômica deflagrada pelo Plano Bresser e resolveu se virar nos trinta arrendando o restaurante dos funcionários da Delegacia Regional do Ministério da Agricultura, localizada na Rua Maceió.

Amigo de Ademir há vários anos, Tio Mazinho descobriu que o restaurante não funcionava nos dias de sábado e sugeriu ao empresário-cozinheiro que o espaço fosse utilizado como palco da brincadeira de boi durante aquela folga semanal. A sugestão foi levada aos dirigentes da autarquia, que aprovaram a ideia.

Nascia o Bar do Boi, que tinha na linha de frente Cacá Ferreira, Rogério, Ademir, Jonas e Tio Mazinho, todos do Caprichoso. O pessoal do Garantido não quis participar oficialmente da administração do boteco, mas tinha espaço cativo nas rodas de toada. Cerca de 500 pessoas começaram a frequentar semanalmente o panavueiro.

Em meados de 1990, num incidente até hoje mal explicado, um dos seguranças do Bar do Boi matou a tiros um dos frequentadores do boteco e o assunto foi explorado à exaustão pela mídia sensacionalista. Os dirigentes da autarquia federal acabaram com o Bar do Boi na mesma hora. Os torcedores do bumbá Caprichoso ficaram sem pai nem mãe.

O Bar do Boi na Tevelândia

Para sorte deles, no início daquele mesmo ano o empresário José Azevedo, dono da TV Lar, comprou o Caiçara Clube de Campo, dos funcionários da Refinaria de Manaus (Reman, antiga Copam), para transformar na Tevelândia, o clube campestre de seus funcionários.

O contador de José Azevedo era o parintinense Wallace Maia, do Movimento Marujada. Foi ele que cantou a pedra:

– Os funcionários da TV Lar não estão nem aí para o clube, mas o “seu” José Azevedo que dar uma função social ao espaço. Formem uma comissão para falar com ele. De repente, o empresário pode ceder a Tevelândia para o Bar do Boi.

Dito e feito. O empresário deu carta branca aos dirigentes do Movimento Marujada e eles foram à luta. Por falta de manutenção, entretanto, a Tevelândia estava muito deteriorada, precisando urgentemente de reparos nas instalações elétricas e hidráulicas.

Apresentador do Caprichoso e então secretário municipal de Comunicação, o jornalista Marcos Santos cantou a pedra:

– O prefeito Artur Neto é torcedor do Caprichoso. Formem uma comissão para falar com ele. De repente, o prefeito pode dar uma força na infraestrutura do Bar do Boi.

Dito e feito. No comando da comissão estava a estudante de jornalismo Goreth Garcia. O prefeito não só garantiu uma completa reforma nas instalações da Tevelândia como também acabou conquistando o coração da estudante de jornalismo, com quem depois casou e teve um casal de filhos: Ana Carolina e Juliano Garcia do Carmo Ribeiro.

Na Tevelândia, o Bar do Boi começou a se transformar em um verdadeiro entretenimento de massas, atraindo mais de 4 mil pessoas nas tardes de sábado. Os itens oficiais do touro negro (Cunhan-Poranga, Rainha do Folclore, Porta-Estandarte, Levantador de Toadas, Amo do Boi e o próprio bumbá Caprichoso) começaram a fazer pequenas apresentações especiais durante o evento e a brincadeira foi lentamente conquistando os corações e mentes dos manauaras.

– A partir daí esse movimento não parou mais de crescer em alegria, dedicação, mobilização, voluntariado e sucesso, que até hoje são suas características, servindo inclusive de modelo para os torcedores do boi contrário, que tomaram seu exemplo e também resolveram mobilizar-se em prol de suas cores – diz o pesquisador e engenheiro de Pesca, Rogério de Jesus, um dos fundadores do Bar do Boi.

Para o então presidente do Movimento Marujada, Carlos Nery, entre as conquistas desse trabalho, além da divulgação do Caprichoso em Manaus, a renda do Bar do Boi possibilitou muitos investimentos para a execução do Boi de Arena, compra de imóvel para galpão e de instrumentos para a Marujada de Guerra.

– Como fundador desse Movimento, a conquista mais emocionante para nós, foi termos sido por muito tempo os patrocinadores do funcionamento da Escolinha de Artes do Caprichoso Irmão Miguel de Pascalle. A Escolinha possibilita a perpetuação do celeiro de talentos que é Parintins – afirmou o presidente.

Para o juiz federal e fundador do Movimento Marujada, Afrânio Gonçalves, a voluntariedade era, na verdade, alimentada pelo amor que seus ilustres membros tinham pelo boi Caprichoso e Parintins.

– Era só paixão que rolava ali. Havia muita vontade de romper com os padrões culturais da época. A poesia da toada e o ritmo contagiante eram irresistíveis e cada vez mais ganhava-se adeptos, socialites, colunistas sociais e grandes empresários em uma festa até então tida por acanhada – afirma o juiz. – Quebrar paradigmas da cultura que identificavam as classes sociais mais altas de Manaus foi uma das dificuldades no Movimento ao divulgar a cultura parintinense, mas aos poucos esse público se incorporou ao MM ajudando nesse processo de socialização e sucesso do boi bumbá na capital, tudo porque também se percebeu a seriedade e a riqueza cultural do Festival de Parintins.

Arlindo Júnior, o Pop da Selva

O cantor Arlindo Pedro da Silva Júnior nasceu no dia 20 de maio de 1968, em Manaus, filho de Arlindo Pedro da Silva e Luzia Souza e Silva. Passou a infância e a adolescência no bairro da Cachoeirinha, na área conhecida como “Bodozal da Maués”, em referência ao poluído igarapé da Cachoeirinha, que corta o bairro de leste a oeste.

Seu primeiro emprego, ainda na adolescência, aos 13 anos, foi como anunciante dos famosos “carros de peixe”, que até hoje percorrem as ruas do bairro: uma picape com uma boca-de-ferro sobre a cabine e várias caixas de isopor no bagageiro cheias de peixes, que são anunciados e vendidos à população.

Um de seus amigos na função, sete anos mais velho, era seu vizinho Paulo Davi Siza, hoje famoso como o cantor “Paulo Davi, o Chique do Brega”, do hit “Minha Pomba Linda” (17 milhões de visualizações no YouTube).

– Ele tinha uma potência de voz muito alta para um pivete de 13 anos – diverte-se Paulo Davi. – Quando as picapes se encontravam na rua, eu só faltava me esgoelar para o meu som ser ouvido enquanto ele parecia que estava conversando com amigos numa mesa de bar. O vozeirão do Arlindo era muito foda!

– Eram duas picapes: a Águia Negra, toda preta, e a Águia Branca, claro, toda branca. A gente tinha que improvisar no falatório para chamar a atenção dos moradores – explicou Arlindo Junior. – Eu mandava coisas do tipo: “Águia Negra da economia / trazendo peixe barato de manhã, de tarde, de noite / trazendo peixe barato todo dia! / Jaraqui vivo e escamado / jaraqui que ainda nem morreu / está só desmaiado! / Tucunaré açu e borboleta / quem pode, compra / quem não pode faz careta! / Matrinchã da escama fina / assada é manjar dos deuses / cozida, uma obra-prima!”. Era muito divertido, parente, papo sério!

Frequentador da quadra do GRES Andanças de Ciganos, na Cachoeirinha, Arlindo Júnior logo conquistou o presidente da escola, o advogado Vilson Benayon, e os principais diretores, os empresários Thomé Mestrinho e Adib Mamede, por conta de sua afinação e potência vocal e, aos 16 anos, já era backing vocal oficial dos levantadores de samba Carlinhos de Pilares e Nei Viana, da escola de samba tricolor, em uma série de desfiles memoráveis no carnaval amazonense. Para começar a cantar em diversos barzinhos pelas noites manauaras foi conta de multiplicar.

Aos 19 anos, ele recebeu um convite para uma apresentação especial em Parintins, no aniversário de uma debutante da cidade. Arlindo Júnior aceitou o convite, ficou encantado com a cidade dos bumbás, se apaixonou por uma das nativas locais e resolveu nunca mais voltar para Manaus. Foi quando iniciou uma proveitosa carreira-solo cantando pagode nos barzinhos de Parintins e comandando um programa diário na Rádio Alvorada.

Quem apostou no talento de Arlindo Júnior para defender as cores do Caprichoso como levantador de toadas foi o compositor J. Carlos Portilho, no ano de 1989. Até então, o cantor trabalhava no Bar Marajá Drinks, em frente ao curral do Boi Garantido, na Baixa de São José, dos jornalistas Floriano Lins e Fred Góes, e era apresentador do “Jornal da Amazônia”, na Rádio Alvorada.

Sondado pelo Caprichoso, Arlindo perguntou de Floriano, com quem morava e chamava de pai, se não havia problema em fazer um teste no boi “contrário”. Foi autorizado na hora. O jornalista Floriano Lins sempre foi uma alma boa. Aquele momento mudou para sempre a vida artística de Arlindo.

– O Periquito (apelido do compositor J. Carlos Portilho) me procurou para eu conversar com o Arlindo Júnior e convencê-lo para ir ao teste, na chácara dele, na beira do Lago Macurani, às 14h. Eu disse para ele ir, porque era importante para a carreira dele. Quando ele voltou para casa, já retornou como levantador de toadas – recorda o jornalista Floriano Lins.

O jornalista Floriano Lins na Câmara Municipal de Parintins

Floriano Lins lembra também que Arlindo Júnior gravou o clipe da toada “Saga de Um Canoeiro”, para o programa Fantástico, da Rede Globo, em plena Festa da Pesca do Peixe Liso, na comunidade São José do Paraná do Espírito Santo de Cima.

– Ele se apaixonou, encarnou a toada e fez dela a sua bandeira musical. Assumiu esse ritmo como mote da profissão e amor pra vida inteira – frisa o jornalista.

Quando o cantor entrou no Bumbódromo pela primeira vez, em 1989, ninguém da nação azul e branca sabia de quem se tratava. Mas bastou Arlindo Júnior dizer “ôiiiiiii” pra galera e liberar os rouxinóis que trazia presos na garganta a partir dos primeiros acordes da Marujada de Guerra para conquistar todo mundo.

Seu jeito brincalhão e carismático de incentivar as coreografias dos torcedores se tornou a cereja do bolo. Não deu outra. Foi batizado pelos torcedores como “Pop da Selva” e passou 15 anos defendendo o bumbá Caprichoso, como levantador, como apresentador, e como levantador e apresentador ao mesmo tempo, sempre recebendo a nota máxima dos jurados. Uma lenda!

Na carreira solo, o cantor lançou 13 discos. O primeiro álbum, “Brincando de Boi”, de 1993, era uma verdadeira homenagem ao Caprichoso. Em “Saga de um Canoeiro”, de 1994, o cantor exalta a cultura amazonense ao abordar as lendas amazônicas.

O CD “Pássaro Sonhador”, de 1996, é um dos maiores sucessos do cantor, que reúne grandes clássicos de toadas de Parintins. Além de “Pássaro Sonhador”, título da gravação, o álbum também conta com as canções “Vale do Javari”, “Índio”, “Kananciuê”, “Lagarta de Fogo”, “Canto da Mata”, “No Compasso da Emoção”, “Canto do Uirapuru”, “Rios de Promessa” e “Templo de Monan”.

Arlindo Júnior também registrou sua imensa capacidade vocal e emoção contagiante em seis discos ao vivo, sendo alguns deles gravados no Teatro Amazonas e no anfiteatro da Ponta Negra, em Manaus. Quase todas as músicas podem ser acessadas em plataformas de streaming na internet.

Com passagem pela vida política, Arlindo Júnior se elegeu vereador de Manaus em 2008, e foi representante do povo manauara na Câmara Municipal por duas legislaturas: 2009-2012 e 2013-2016.

Ele também foi presidente da Fundação Municipal de Cultura e Artes – Manauscult, durante a gestão do prefeito Amazonino Mendes (2009-2012), tendo sido um dos maiores incentivadores da Feira do Tururi, do Boi Manaus e do CarnaBoi, os três principais eventos festivos sobre a brincadeira do “dois pra lá, dois pra cá”, revitalizada pelos moradores de Parintins e enraizada em Manaus.

Em 2016, por meio de redes sociais, o cantor confirmou que estava com câncer de pleura. Na postagem, ele informou que a doença foi diagnosticada como inflamação no pulmão.

Após o primeiro turno das eleições naquele ano, quando não conseguiu ser reeleito, Arlindo Júnior voltou ao hospital porque sentia falta de ar e lá descobriu que teve um derrame pleural, ou seja, entrou água na pleura. A enfermidade inicial havia evoluído para um câncer incurável e insidioso.

Ele passou os três anos seguintes lutando contra o câncer. Descoberta inicialmente nos pulmões, a doença avançou para os ossos e também para o cérebro. Arlindo Junior fazia acompanhamento clínico e tratamento do câncer em São Paulo e Manaus.

No dia 29 de dezembro de 2019, o eterno canoeiro do Caprichoso, aos 51 anos, atravessou para a terceira margem. Ele era casado com Francilene Dourado da Silva e pai de cinco filhos.

Em nota oficial, a Associação Cultural Boi-Bumbá Caprichoso lamentou a morte do artista, considerado uma das maiores vozes do Festival de Parintins de todos os tempos:

“A Associação Cultural Boi-Bumbá Caprichoso, em nome do presidente Jender Lobato e do vice Karu Carvalho, comunica que um dos mais importantes artistas da história de nossa agremiação acabou de falecer, Arlindo Júnior.

A voz do Festival, a voz de nossa galera, a voz do lindo histórico de amor ao boi Caprichoso silencia neste mundo para cantar no mundo celestial ao lado de tantas outras estrelas azuladas. Um filme passa por nossas cabeças. Quantas vezes sua voz deu o tom para que a galera explodisse com a toada Pesadelo dos Navegantes na arena do bumbódromo? Quantas vezes seus olhos derramaram lágrimas ao entrar na arena e ver que ali estavam todos os torcedores apenas aguardando o seu sinal, para que pudessem levar o Boi Caprichoso ao título?

Na memória e no coração azulado estamos com os grandes clássicos do Festival em sua voz. É difícil escrever algo sobre alguém que esteve sempre ao nosso lado, contagiado com sua alegria, com sua linda história.

Arlindo é um dos maiores nomes do Festival de Parintins. Chegou na ilha para cantar em um aniversário, aqui se apaixonou, e não quis mais ir embora. Comandou o programa Buteco do Arlindo na Rádio Alvorada, formou sua banda de pagode, foi levantador das primeiras bandas do Boi Caprichoso. Se tornou levantador de toadas e quando o boi precisou dele também acumulou a função de apresentador. Quanto talento! Dois em um!

Arlindo foi o verdadeiro canoeiro do boi Caprichoso. Levou nosso festival para programas nacionais de televisão, foi a grande voz do boi-bumbá em Manaus na Tevelândia, apoiado pelo Movimento Marujada. Arlindo Júnior é a própria história e hoje eterniza sua memória não apenas na constelação azulada, mas no estado do Amazonas, onde foi reconhecimento pelo trabalho e dedicação à cultura popular.

Arlindo, Pop da Selva, como ficou reconhecido, sua canoa segue a atravessar o grande rio acompanhado pelo silêncio da mata. Por aqui enfrentou banzeiros nas ondas dos rios e das correntezas fez os desafios, na tua canoa partes canoeiro, teu corpo está cansado de tantas viagens e tuas mãos estão calejadas do remo a remar. De tantas remadas, o porto estava distante e realizas tua última viagem ao descansar.

O presidente do Boi-Bumbá Caprichoso, Jender Lobato decreta neste momento luto de 7 dias pelo falecimento daquele que é o maior ídolo da História do Boi Caprichoso, o Pop da Selva, Arlindo Jr. Descanse em Paz, Arlindo Jr.”

quarta-feira, novembro 04, 2026

David Assayag, um Herói do nosso tempo


O cantor David Assayag

Corria o ano de 1969, ano em que Tostão se tornou titular na Seleção Brasileira. O time verde-amarelo fez um amistoso com o Millonarios, time colombiano, em Bogotá, preparando-se para enfrentar a Colômbia pelas eliminatórias da Copa do Mundo poucos dias depois.

Era o dia 1º de agosto. Tostão, um dos maiores craques que o futebol mundial conheceu, domina a bola, mas não consegue evitar o choque com o zagueiro Castaños e machuca o olho esquerdo, para preocupação de todos os amantes do futebol-arte.

Em 24 de setembro de 1969, outro lance viria a dividir a carreira de Tostão. Jogavam Corinthians e Cruzeiro, pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, no Pacaembu, à noite. Tostão recebe o impacto de uma bola chutada pelo zagueiro Ditão de raspão no mesmo olho esquerdo e sofre descolamento de retina.

A torcida brasileira, de Norte a Sul, acompanha o drama de um craque genial. Do craque e do cidadão Eduardo Gonçalves de Andrade, às vésperas do Mundial do México 1970.

Em 2 de outubro de 1969, Tostão é submetido a uma cirurgia em Houston (Estados Unidos), pelo médico mineiro Roberto Abdalla Moura, no Hospital Metodista da cidade. Todos torciam para sua recuperação.

Um jovem de 22 anos, inteligente, culto, leitor de autores incomuns aos seus companheiros de profissão, ligado nos acontecimentos do mundo, fã do arcebispo dom Helder Câmara, preocupado com as injustiças sociais, defensor da liberdade e da democracia, temas pouco afeitos ao universo do futebol.


O técnico João Saldanha saiu da seleção e deu o lugar a Zagallo. Este não acreditava na recuperação do craque mineiro, que só foi liberado para voltar às atividades a três meses da Copa. O médico Lídio Toledo, também não. Mas, não se sabe se por feeling, pela velha estrela, por superstição, o fato é que Zagallo deu todas as chances a Tostão.

Às vésperas do embarque, o craque reassumiu seu lugar no time, ao lado de Pelé. E a dupla atuou as seis partidas da epopeia do tricampeonato mundial. No dia seguinte a cada jogo, o doutor Abdalla era personagem de uma operação sigilosa que o levava à concentração brasileira, para examinar o olho esquerdo que mais preocupava o Brasil.

Mesmo com todo risco e com desconfiança dos dirigentes, Tostão disputou a Copa de 1970 com a camisa 9 e voltou do México com seu mais importante título: tricampeão mundial. Quem não se lembra da jogada genial na partida contra a Inglaterra (então campeã mundial), quando driblou vários adversários e originou o gol da vitória, feito por Jairzinho? Fez ainda dois gols contra o Peru naquele Mundial. Boa parte da crítica europeia o apontou como o maior craque do Mundial.

Afinal, disputar uma Copa sem o talento inigualável de Tostão seria um risco muito grande. Por força de um sopro dos deuses da bola, Tostão venceu todos os obstáculos e foi ao México, onde desfilou jogo após jogo, toda a sua arte. De seus pés – e de seu cérebro – surgiram jogadas empolgantes e gols decisivos. E Tostão, que por pouco não foi à Copa, acabou-se transformando em um dos heróis da conquista do tricampeonato mundial pelo Brasil.

Nascido no dia 16 de janeiro de 1969, em Parintins, filho de Florildes (“Dona Flor”) e Henrique Assayag, David Assayag Neto ainda não tinha completado dois anos de idade quando esse drama do jogador Tostão começou a se desenrolar.

Primo por parte de pai do arquiteto Simão Assayag, David Assayag teve uma infância e adolescência igual à de todos moleques da cidade: estudando de manhã, brincando à tarde e descansando à noite. Desde os 10 anos de idade, sua voz melodiosa já era vista como uma “benção divina” e ele se esmerava em decorar as letras dos cantores de rádio que ouvia em casa.

Alto e magro para os padrões locais, David Assayag começou a cantar aos 14 anos, se arriscando por áreas menos exóticas que as toadas. Fã de Emilio Santiago, Chico Buarque e Tom Jobim, fazia shows de MPB em barzinhos da cidade. Foi quando sua vida começou a virar de ponta-cabeça, em um episódio que não gosta de lembrar.

Era para ser um dia comum e rotineiro, como todos os outros. Ele foi à escola no período vespertino, depois participou de um “rachão” de futebol com os amigos do bairro, onde machucou a cabeça ao receber uma bola chutada com força por um adversário. Além de uma dor de cabeça insuportável, nada de extraordinário aconteceu. Mais tarde jantou em casa e foi dormir. Tudo na maior normalidade possível.

Quando acordou no dia seguinte, sua visão começou a falhar, escurecendo tudo à sua volta. Fez uma bateria de exames para saber se era glaucoma, miopia ou astigmatismo. Nada. Continuou tocando a vida, tendo lapsos de visão de vez em quando, quando tudo escurecia.

Na realidade, o problema na visão de David Assayag começara alguns anos antes, quando ele, ainda criança, tomava banho com outros moleques da mesma idade no Lago do Ropoca, que ficava próximo à casa dele, e, ao mergulhar, bateu com a cabeça em um toco de árvore, submerso nas águas. Foi uma pancada de respeito.

– Foi depois desse baque que comecei a ter problemas com a visão ficando turva e apagando tudo de vez em quando. Somente alguns anos depois foi que aconteceu o acidente com a bola que levei no rosto – explicou.

Aos 18 anos, quando participava de uma excursão musical pelas noites de Belém (PA), se viu envolvido em um acidente de carro, onde machucou a cabeça mais uma vez. A dor de cabeça insuportável da adolescência retornou com força total. Não havia analgésicos que fizessem parar. Só que dessa vez foi bem mais complicado.

Um dia, já em Parintins, ao acordar, percebeu que havia ficado completamente cego. Muitos e muitos anos depois, descobriu que havia sofrido deslocamento de retina.

A retina é uma membrana muito fina, flexível e delicada que reveste a superfície interna da parte posterior do globo ocular. Nela existem receptores fotossensíveis que convertem a imagem luminosa advinda do exterior em impulsos elétricos que, através do nervo ótico, são enviados para área do cérebro em que se processa a visão.

A retina não possui nenhum elemento de fixação especial que a prenda ao globo ocular. É o vítreo, uma substância gelatinosa e transparente, situada entre ela e o cristalino, que a mantém na posição anatomicamente adequada, ou seja, em contato com outras estruturas que lhe garantem suporte e nutrição (vasos sanguíneos e nutrientes).

O descolamento de retina é uma alteração que se caracteriza pelo desprendimento dessa estrutura da superfície interna do globo ocular. Essa separação interrompe o fornecimento de nutrientes e promove a degeneração celular. Por conta disso, os oftalmologistas classificam o descolamento da retina como uma urgência médica. Se não for tratado convenientemente e depressa, pode evoluir para perda total da visão.

Foi exatamente isso que aconteceu com David Assayag. Tivesse tido os recursos financeiros de Tostão, a história seria outra. Mas o cantor era de uma família muito pobre e foi obrigado a conviver com a deficiência visual, sem se abalar, a despeito de ter feito algumas cirurgias para tentar corrigir o problema.

David Assayag iniciou sua carreira de levantador de toadas cantando no boi Caprichoso, no final dos anos 1980, mas não chegou a ser item oficial da arena, participava apenas das gravações de fitas K7 e dos ensaios no curral.

Ele foi um dos fundadores da banda Canto da Mata, que, inicialmente, era independente e bastante eclética, não estando ligada a nenhum dos bois de Parintins. Posteriormente, a banda Canto da Mata foi anexada ao Caprichoso.

– Eu tinha uma certa resistência para entrar no clima da toada, achava que aquela não era minha praia. – relembra o cantor. – Só algum tempo depois assumi a toada como meu ritmo oficial. É uma música com conteúdo, que dá a oportunidade de a gente cantar expressando nossas próprias emoções.

Em 1994, a convite do apresentador Paulinho Faria, um dos maiores fãs do cantor desde seus tempos de Caprichoso, David Assayag tornou-se o levantador oficial de toadas do boi Garantido, onde permaneceu durante 15 anos.

Na época, o cantor morava na casa do compositor J. Carlos Portilho e antes de aceitar o convite lhe consultou a respeito.

– Eu falei que por mim tudo bem, mas que a diretoria do Caprichoso iria comer meu fígado ao saber que eu tinha deixado escapar do nosso firmamento uma estrela de primeira grandeza! – recordou J. Carlos Portilho. – E dei a dica: te muda pra casa da Roseane Novo e fica escondido por lá até o anúncio oficial, que eu vou falar que estava resolvendo uns problemas em Manaus e não sabia de nada!

Com a ajuda do compositor Tadeu Garcia, do Garantido, foi realizada a “operação mudança”, em sigilo absoluto, e David Assayag ficou malocado na casa da Roseana Novo até o anúncio oficial do Garantido, uma semana depois.

Na Baixa de São José, David teve o espaço que sempre mereceu para mostrar o seu talento, ganhar fama internacional e ser reconhecido como a voz mais bonita do Amazonas, sendo batizado pela galera vermelha e branca de “Rei David”, em alusão ao personagem bíblico que derrotou o gigante Golias e foi pai de Salomão.

A sensibilidade artística de David Assayag sempre se sobressaiu frente a qualquer limitação imposta pelas contingências da vida. Como se não bastasse apenas o talento para cantar, soube usar o dom musical e o próprio carisma para abrir portas que o alçaram a episódios históricos, seja vencendo por 15 anos consecutivos como o melhor levantador de toadas do Festival Folclórico de Parintins – feito único na história da celebração tupinambarana –, seja recebendo, em 1997, das mãos do então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, a medalha de “Honra ao Mérito Cultural”, pela sua contribuição em defesa da cultura popular verdadeiramente amazônica.

Em 1996, o Garantido finalmente se firmara em Manaus, o Olímpico Clube era o point nas sextas-feiras e sua atração principal era a voz revelação do festival folclórico de Parintins. David Assayag acabara de estourar com “Vermelho”, então sucesso nacional na voz dele e de Fafá de Belém.

Com tanto sucesso, era hora de fazer um registro à altura de seu talento e para isso a gravação de um show ao vivo era fundamental. O palco escolhido foi o icônico anfiteatro da praia da Ponta Negra, em Manaus.

– Foi um trabalho e tanto. O produtor Marco Mazzola esteve aqui em Manaus para produzir o álbum. Uma equipe enorme se reuniu para fazer o projeto acontecer – recordou o cantor.

O álbum “David Assayag – Ao Vivo na Ponta Negra”, é um registro obrigatório na playlist de quem admira ou curte o ritmo dos bumbás de Parintins. O álbum contém 14 faixas registradas ao vivo. Entre os clássicos, estão obras como “Apocalipse Karajá”, “Lamento de Raça”, “Um Canto Novo”, “Boi do Carmo”, “Vermelho”, “Tambores do Tempo”, “Kananciuê” e muitas outras, que fizeram história nos bois Garantido e Caprichoso.

– Lembro da voz da multidão cantando comigo, do clima de festa, da empolgação da massa. A cada toada, aplausos, gritos, gente cantando junto. Uma noite que marcou minha vida e entrou para a história da música amazonense – diz o cantor.

No final de 2009, Davi foi contratado pelo boi Caprichoso, em uma espécie de retorno às origens, o que gerou bastante polêmica e repercutiu intensamente na mídia amazonense.

Em 2012, teve sua vida contada no enredo do GRES Unidos do Alvorada, do carnaval de Manaus, e também foi um dos homenageados no enredo do GRES Grande Rio, do Rio de Janeiro, que falava sobre a superação.

Em agosto de 2019, David Assayag surpreendeu seus fãs com a notícia que poderia recuperar a visão. Dois meses depois, ele utilizou as redes sociais para anunciar que após uma série de exames não poderia realizar a cirurgia de reversão por seu quadro ser irreversível. O motivo, segundo ele, foram as primeiras cirurgias que não foram bem-sucedidas.

O procedimento cirúrgico seria realizado na cidade portuguesa de Coimbra, assistido pelo médico oftalmologista Antônio Travassos. Desde a chegada no hospital, David compartilhou com fãs e admiradores a expectativa para os exames pré-operatórios. Horas depois, ele dividiu com o público a notícia de que não mais faria o procedimento.

– Passamos mais de três horas na clínica e fizemos todos os exames relacionados à minha vista. Exames bem criteriosos. Infelizmente, não tive uma notícia muito boa. Há uns anos atrás eu fiz algumas cirurgias e, infelizmente, não foram bem-sucedidas, que vieram a danificar os olhos. E como eu passei muito tempo sem fazer tratamento nenhum, infelizmente, não teve condições de realizar o procedimento que o doutor Antônio Travassos faz – declarou David Assayag.

De maneira otimista, David afirmou que estava tranquilo e consciente de tudo.

– Quero agradecer a todas as pessoas que me ajudaram a realizar essa viagem para que eu pudesse realizar esse sonho que, infelizmente, não deu certo. Mas, a vida continua. A gente está tranquilo. Muito obrigado pelas orações, também. Tiveram muitas. Gratidão que eu nunca vou conseguir agradecer na minha vida – complementou.

No ano seguinte, David Assayag voltou ao bumbá Garantido, após um afastamento de 10 anos. E continua encantos as duas galeras com sua voz extremamente melodiosa. É um herói do nosso tempo.

sexta-feira, outubro 30, 2026

Inaldo e Tony Medeiros, sangue vermelho em dose dupla

 

Os cantores e compositores Tony e Inaldo Medeiros

Filho de Wilson de Souza Cursino e Geny de Medeiros Cursino, o cantor, compositor, poeta popular, arte educador e ex-deputado estadual João Wellington de Medeiros Cursino, o “Tony Medeiros”, nasceu no dia 2 de novembro de 1964, em Parintins, sendo o caçula de uma prole de oito irmãos.

Um ano mais velho que Tony Medeiros, Inaldo Roberto de Medeiros Cursino também abraçou a carreira artística e se tornou compositor, poeta popular e arte educador. Ele foi destacado por sua mãe para ser o guardião do mais novo.

Ainda crianças, quando ambos faziam o grupo escolar, Inaldo ficou gravemente enfermo e foi reprovado pelo excesso de faltas. No ano seguinte, os dois irmãos estavam matriculados na mesma classe e assim continuaram até completar o ginásio.

Tornaram-se unha e carne, corda e caçamba, quase gêmeos univitelinos apesar da diferença de temperamento entre os dois: Inaldo, sempre muito sanguíneo, muito “bad boy”, muito “caboco brabo”, enquanto Tony sempre foi mais tranquilo e comedido, um autêntico “nice guy”.

Nascidos e criados na Rua Paes de Almeida, quase canto com a Getúlio Vargas, os irmãos Medeiros pertenciam geograficamente à área “azul” da cidade.

No período junino, o bumbá Garantido ia dançar exclusivamente no terreiro da casa de dois estivadores, Balaústre e Eduardo Engole Cobra, já que todos os demais moradores da rua torciam pelo Caprichoso.

Um dia, entretanto, para agradar o filho caçula que estava doente, o Garantido dançou no terreiro do seu Wilson Cursino. Resultado: a família inteira, que era Caprichoso, bandeou-se para o “contrário”.

– A gente começou a acompanhar o Garantido batendo lata pelas ruas, quando ainda éramos moleques – recorda Tony Medeiros. – Aí, quando ficamos adolescentes, entramos pra Batucada e tivemos a sorte de conhecer e conviver pessoalmente com a velha guarda do touro branco: Lindolfo e João Batista Monteverde, Ambrósio, Vavazinho, Braulino, Maximiliano, Nelson Baixinho... Aquilo foi uma escola de vida!

A dupla de parceiros-pra-vida-toda só experimentou um hiato de alguns anos quando Inaldo foi estudar o secundário em Campo Grande (MT), onde se formou em técnico em agropecuária, e logo depois Tony foi fazer o mesmo em João Pessoa (PB), onde estudou durante quatro anos no Conservatório de Música da Universidade Federal da Paraíba.

A veia literária dos dois irmãos começou a pulsar mais forte por influência de um tio dos meninos, Luiz Medeiros, que era poeta, cronista e escritor de baciada. Seus textos sobre a vida amazônica eram avidamente consumidos por Tony e Inaldo Medeiros. E foram aqueles textos que os formaram e informaram.

Em 1984, aos 20 anos, Tony Medeiros e Paulinho Du Sagrado criaram o Grupo Ajuri e resolveram participar do 4º Festival da Canção de Parintins. A música “Cantiga Tropical”, inspirada em um dos poemas de Luiz Medeiros, contava a história do guerreiro Ajuricaba na sua luta contra os invasores na região do rio Negro.

Eles conquistaram o primeiro lugar, mas quase perderam o prêmio porque alguns jurados cismaram que aquilo era uma toada (e era!) que destoava da MPB tradicional que se exigia nos festivais. Coisa de tradicionalistas radicais!


Naquele mesmo ano, o boi Garantido sagrou-se pentacampeão do Festival Folclórico de Parintins e Tony Medeiros fez uma toada alusiva ao fato, comparando a constelação Cruzeiro do Sul aos cinco títulos conquistados pelo touro branco. Foi a primeira toada que ele fez para seu bumbá de coração.

– Naquela época, com quatro ou cinco versos se fazia uma toada – diverte-se Inaldo Medeiros. – As 18 toadas do Garantido cabiam numa folha de papel A4. A briga era para estar ali, naquela folha...

Em 1985, Inaldo Medeiros também emplacou sua primeira toada no repertório do Garantido, intitulada “Vou Fazer do Meu Canto, a Toada Mais Bela”, ainda bastante tradicional, numa época em que o acompanhamento das toadas era totalmente percussivo.

Foi quando os dois irmãos decidiram juntar forças para compor juntos e criar novas harmonias para o festival, explorando melhor o universo indígena – uma das obsessões do caçula desde seus tempos de criança.

O resultado foi “Filhos do Sol”, uma toada que exaltava os povos originários: “Tribo dos Andirás / Tribo dos Kayapós / Tribo dos Karajás / Vamos acender a fogueira / E fazer valer o tratado de paz”.

Gravada pelo Grupo Carrapicho, tornou-se um sucesso estrondoso em nível nacional.

A parceria entre os dois deu tão certo que nunca mais foi desfeita. Para se ter uma ideia do impacto de “Filhos do Sol” para o festival de Parintins, foi a partir dessa toada que a temática indígena passou a ser parte importantíssima do espetáculo, sendo item obrigatório para ambos os bumbás na apresentação dos “Povos Indígenas”, “Tuxauas” e “Ritual”, por exemplo.

– Mas não foi fácil emplacar “Filhos do Sol” no repertório do Garantido – recorda Tony Medeiros. – Muita gente dizia: ‘Pô, Tony, esse negócio de índio não tem nada a ver com boi-bumbá...’. Foi uma briga feia, mas acabamos ganhando a queda de braço. O certo é que logo depois o Ronaldo Barbosa começou a fazer esse mesmo tipo de toada com temática indígena no Caprichoso e aí não teve mais volta. Quem ganhou com isso foi o festival!

Da pena e do talento dos dois irmãos saíram verdadeiras obras-primas como “Haximu Quer Viver” (“Na cobiça do ouro / Mataram meu povo / E roubaram meu chão / Derramaram na terra / O sangue inocente / Da minha nação”), “Espírito da Mata” (Mutawariçawa anga açú / Mutawariçawa haira angá / Ameríndio seu grito de guerra / Em defesa da terra sagrada / Que um dia Tupã lhe entregou, ô, ô, ô”), “Toada da Vaqueirada” (“A vaqueirada vem galopando / Saltitando no balanço da toada”), “Boi de Pano” (“Meu boi de pano / É cultura popular / Atravessou o oceano / Veio de longe pra cá”), “Um Canto Novo” (“A lua gira, e gira muito bem / O tempo voa, voa como ninguém / A noite dorme, dorme, dorme / Já dormiu comigo, já dormiu comigo, já dormiu comigo”), “Naiá” (“No encontro do Sol e Lua / As águas tornam-se nuas / Iluminando Naiá”) e “Asa Dura” (“Neste ano eu vou pra minha ilha meu amor / De vermelho e branco, eu vou, eu vou eu vou / Se meu amor não quiser ir / Eu vou sozinho, mas eu vou”), para só citar algumas das mais de 70 toadas feitas pela dupla – as duas últimas aqui citadas com participação do promotor público Davi Jerônimo.

É evidente que os dois irmãos também fizeram músicas, individualmente, com outros parceiros. Por exemplo, “Coração de Batuqueiro”, de Inaldo Medeiros e Marcos Lima, é quase uma espécie de hino do Garantido: “Deixa a poesia da toada te levar / Num eterno mundo de prazer / Em Parintins é tão gostoso declarar / Garantido sou feliz por ter você / O sentimento mais sublime desse povo / Surge na voz do cantador a ecoar / No toque forte, na cadência ritmada / Dos batuqueiros da Baixa / Meu touro branco vem brincar / Garra e emoção, raça e tradição / Bate mais forte o coração da Batucada / Contagiando livremente a Galera avermelhada / E o Batuqueiro é quem conduz essa magia / Traduzida em harmonia no batuque do tambor / E no compasso o coração vence o cansaço / Garantido é minha vida e meu amor / Garra e emoção, raça e tradição / Garra e emoção, raça e tradição / Garra e emoção, sangue, suor e paixão.”

Para o jornalista Wilson Nogueira, pesquisador de festas populares na Amazônia, a toada foi o item que mais se modificou ao longo dos anos. As transformações ocorreram à medida em que a brincadeira foi ganhando atenção do mercado de cultura de massas na década de 1990. Para o pesquisador, “a pressão nas bases tradicionais não estancou os testes com ritmos que distanciavam cada vez mais os bumbás de suas raízes. Criou-se, então, um novo ritmo que se aproxima das exigências que vêm do mercado com o sentimento do passado”.

Ainda na década de 90, Tony Medeiros assumiu o cargo de Amo do Boi após a saída de João Batista Monteverde, filho de Lindolfo.

– Lindolfo foi o primeiro amo do Garantido. Após a morte do Lindolfo, o João Batista assumiu o cargo. Ele acabou levando uma facada em um dos pulmões durante uma briga, e depois disso nunca mais foi mais o mesmo. Perdeu o vozeirão que tinha. Por conta disso, fui convidado pra assumir o cargo. O amo do boi era um item que carregava uma tradição muito grande e não era muito empolgante. O item “amo do boi” estava praticamente desaparecendo. Eu tirei a melodia do verso da tonalidade menor para a tonalidade maior, que é a mais animada. Eu sou o terceiro amo da história do Garantido – diz Tony Medeiros.


Ao longo de sua trajetória como cantor, Tony Medeiros participou de várias apresentações memoráveis. Em 1998, ele participou de um show no estádio Parque dos Príncipes, em Paris, na França, para comemorar os 500 anos do Brasil. Um dos convidados na plateia era o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela.

– Eu cantei duas vezes em Nova York, cantei no Parque dos Príncipes, em Paris, para mais de 120 mil pessoas. A minha geração pegou o boi e levou para o mundo. Com o tempo, a nova geração ainda vai fazer o mesmo porque a renovação é importante para manter a tradição – garante ele.

Paralelo à sua carreira de compositor, cantor e amo do bumbá Garantido, Tony Medeiros também desenvolveu uma brilhante carreira política. Técnico em agropecuária, graduado em Educação Artística com habilitação plena em música pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e pós graduado em Tecnologia da Educação, ele foi presidente da Fundação Villa Lobos, secretário de cultura e secretário especial da Prefeitura de Manaus.

Em 2010, Tony Medeiros foi eleito deputado estadual. Na ALE-AM, foi presidente da comissão de Assuntos Municipais, presidente da frente parlamentar “Pró-Cultura”, membro da comissão de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural e titular das comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional e Sustentável, Educação, Cultura e Assuntos Indígenas e de Geodiversidade, Recursos Hídricos, Minas, Gás e Energia.

Além disso, foi vice-prefeito e secretário de Cultura, Turismo e Meio Ambiente da Prefeitura de Parintins na gestão 2017-2020, tendo sido reeleito juntamente com o prefeito Frank Bi Garcia para a gestão 2021-2024.

Em 2020, com o apoio de 16.403 eleitores, Tony Medeiros retornou para a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, assumindo novamente o cargo de deputado estadual e retomando suas bandeiras nas áreas de turismo, cultura, direitos indígenas, setor primário e desenvolvimento econômico do interior.

Atualmente, ele é presidente do Conselho Municipal de Cultura da Prefeitura de Manaus.


Na madrugada do dia 17 de março de 2025, Inaldo Medeiros Cursino faleceu em sua residência, após um infarto fulminante. No dia anterior, ele havia passado na casa de sua mãe, tomou um chá com torradas e foi para casa, por volta das 20h.

No dia seguinte, por volta de 9h, o filho mais velho, Gaspar, ex-amo do Garantido, estranhou não ouvir o bom dia que lhe mandava sempre e foi até a casa dele. Inaldo estava caído, ainda com a roupa do dia anterior, já rígido.

“Perdi minha alma gêmea”, disse Tony Medeiros, que estava em Manaus quando soube do acontecimento.

“Eu me despeço de um grande amigo de jornada que vai para os braços da eternidade e deixa a sua inestimável obra como contribuição para o Boi-Bumbá, além de muitas recordações das nossas vivências em Parintins”, escreveu David Assayag.

Conhecido como “coração de batuqueiro”, Inaldo não bebia, não fumava e dormia cedo, mas era sedentário, só admitindo deslocamentos de moto ou carro.

Em 2018, ele sofreu um infarto e ficou muito mal. Desde então, rebelde, não fez os acompanhamentos médicos requeridos.

Na véspera, talvez numa premonição da própria partida, escreveu uma despedida emocionada para Jair Mendes, nas exéquias deste em Parintins. “Depois do episódio do meu enfarte agudo, meu coração ficou vulnerável a grandes emoções. Acompanhei o cortejo a distância. Jair Mendes jamais será esquecido!!! Foi em paz, tenho certeza!!!”, escreveu, na sua página do FaceBook.

Fred Góes, a alma encarnada do bumbá Garantido

 

O músico e compositor Fred Góes

Filho de Raul Góes e Lucila Rolim, o músico e compositor Frederico Daniel Paulo Rolim de Góes, mais conhecido como Fred Góes, nasceu em Parintins no dia 18 de junho de 1948. Por parte do pai, possuí descendência portuguesa e holandesa (Goes é uma cidade e município no sudoeste da Holanda, em Zuid-Beveland, na província de Zeeland). Por parte da mãe, herdou o sangue miscigenado de negros e cabocos.

Fred Góes passou a infância e o início da adolescência em Parintins, mas logo depois se mudou para Manaus, como interno da Escola Técnica Federal de Manaus, onde cursou o Ginásio Industrial Básico, com especialização em marcenaria. Disposto a ser um grande “luthier”, ele não só construiu seu primeiro violão artesanalmente, como aprendeu a tocar o instrumento sozinho.

Em 1965, aos 17 anos, Fred Góes se mudou para São Paulo na busca do velho sonho de se transformar em músico profissional e viver da própria arte.

Alguns anos depois, ele se juntou a alguns músicos latinos exilados em Sampa e formou o “Grupo Chasky”, cujos integrantes eram o próprio Fred, Guillermo Noriega, Enzo Merino, Carlitos Demutti e Oscar Segovia.

Paralelamente, Fred, Enzo, Oscar e Celsinho Ribeiro formaram o “Grupo Machitún”. Os dois grupos tocavam a chamada “música folclórica latino-americana de raiz”.

Foi o equatoriano Vicente Guillermo Noriega que ensinou Fred Góes a tocar charango, uma espécie de cavaquinho típico dos grupos musicais andinos e acompanhamento preferencial da ubíqua flauta de Pã peruana conhecida como zampoña.

Homem de mil instrumentos, Fred começou a estudar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e trabalhar como “foca” em grandes jornais como “O Diário Popular” e “Jornal de Tarde”. Entre outras façanhas, ele recebeu, juntamente com uma equipe de 35 repórteres, o Prêmio Esso de Jornalismo, pela cobertura do incêndio do Prédio Joelma.

Em fins de 1979, o visionário empresário Enrique Bergen, argentino radicado no Brasil, teve a feliz ideia de formar um grupo de música latino-americana que se sobressaísse dos padrões corriqueiros da época, quando os grupos do gênero mantinham características primordialmente folclóricas em seus repertórios e formações.

Surgia o grupo “Raíces de América”, formado por Fred Góes, Enzo Merino, Oscar Segovia, Júlio Peralta, Isabel Ribeiro, Celso Ribeiro, Tony Osanah, Mariana Avena e Willy Verdaguer.


O grupo Raíces de América nasceu praticamente junto com a gravadora Eldorado, unindo músicos encantados com a proposta de resgatar a música latina produzida na região e que falasse da vida e dos problemas latino-americanos, de um povo vivo e de cultura vibrante, sem buscar os estereótipos fáceis que reforçam a região como subdesenvolvida e eternamente bucólica e atrasada. No repertório, ao lado de composições próprias, o grupo cantava Violeta Parra, Vinicius de Moraes, Gilberto Gil, Chico Buarque e Milton Nascimento.

Em 1980, tendo a lendária Mercedes Sosa como madrinha e como diretor o famoso Flávio Rangel, o Raíces de América estreou em São Paulo um espetáculo maravilhoso que contava com performances e arranjos ricos e modernos, iluminação, figurino e cenografia elaborados especialmente para o show. As músicas eram permeadas por leitura de poemas feitas pela atriz Isabel Ribeiro, já falecida.

Durante os ensaios, Flávio Rangel sugeriu ao grupo que incluíssem no repertório dois de seus primeiros sucessos: “Guantanamera”, de José Marti, e “Disparada”, de Theo de Barros e Geraldo Vandré. Do primeiro disco, gravado com o sucesso do espetáculo, os destaques eram, além das duas canções citadas, a pastoral “El Condor Pasa”, de Daniel Robles, valorizada pela voz melancólica da cantora portenha Mariana Avena, e “Cantor de Ofício”, de A. Morelli. O sucesso de público conquistado pelo Raíces de América foi imediato.

Não custa lembrar que o início dos anos 80 foi marcado no Brasil pelos processos de reabertura política e pela reintrodução das eleições diretas, o que aproximou a proposta do grupo às demandas da população brasileira.

Um novo disco foi gravado no ano seguinte trazendo pérolas como “Los Hermanos”, de Atahualpa Yupanqui, “Volver a Los 17”, de Violeta Parra, “Guajira Para Esperança de América”, de Oswaldo Avena e Enrique Bergen, “La Ciudad”, de Enzo Merino, Oscar Segovia e Fred Góes, e “Pássaro Cativo”, de Celso Ribeiro.

Em 1982 o grupo conquistou o segundo lugar no Festival MPB Shell promovido pela Rede Globo de Televisão com a música “Fruto do Suor”, de Tony Osanah e Enrique Bergen. A canção cativou principalmente os imigrantes latinos radicados no Brasil e foi o carro-chefe do terceiro álbum do grupo também chamado “Fruto do Suor”. Além da faixa-título, o álbum continha “Pedro Nadie”, de Piero e José, “O que Será”, de Chico Buarque e “Soy Loco Por Ti América”, de Gilberto Gil e Capinam.

Com a saída das vozes de Mariana Avena e Tony Osanah, substituídos respectivamente por Lídia Tolaba e Jota Mariano, o grupo grava “Dulce América”, com destaque para as versões de “O Cio da Terra”, de Milton Nascimento e Chico Buarque, “Nada Será Como Antes”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e “Rosa de Hiroshima”, de Vinicius de Moraes e Gérson Conrad.

O cantor e compositor Zeca Bahia

Em 1985, logo após a gravação desse disco, Fred Góes deixa o grupo e começa uma nova carreira musical em companhia do músico Zeca Bahia, com quem dividia um apartamento em Sampa. 

Falecido há alguns anos, Zeca Bahia era autor de “Porto Solidão”, um sucesso estrondoso na voz do cantor Jessé (“Se um veleiro / Repousasse / Na palma da minha mão / Sopraria com sentimento / E deixaria seguir sempre / Rumo ao meu coração”).

No mesmo ano, após uma apresentação da dupla no Teatro Amazonas, os dois vão a Parintins para assistir pela primeira vez o festival (quando Fred saiu de Parintins, no início de 1965, o festival ainda não existia). 

Os dois amigos ficaram em êxtase. Zeca Bahia resolveu voltar para São Paulo, mas Fred Góes ficou em Parintins, onde montou e editou o jornal semanal “O Parintins”.

O envolvimento de Fred Góes com o “dois-pra-lá-dois-pra cá” foi paulatino e bastante comedido. Ele trazia a experiência da montagem de grandes espetáculos musicais e era dessa forma que pensava em transformar as apresentações do Garantido, mas os “tradicionalistas” não queriam saber de mudanças. A insistência do jornalista acabou prevalecendo.

Entre outras coisas, foi Fred que introduziu o charango no acompanhamento das toadas do bumbá Garantido – alguns anos depois de o Caprichoso ter feito o mesmo por Sylvio Camaleão, que havia aprendido a tocar o instrumento tomando aulas com o próprio Fred.

Fred também contribuiu decisivamente para que as letras das toadas se tornassem mais poéticas, melódicas e criativas, introduzindo a harmonização vocal nas gravações do primeiro disco do Garantido.

Em 1996, com o festival de Parintins entrando no seu momento mais criativo e se transformando em referência internacional, Fred Góes dá outra tacada de mestre: junto com o também músico Sidney Resende, ele arregimenta um grupo de músicos da ilha e repagina o Regional Vermelho e Branco, o primeiro grupo do Garantido a se apresentar em shows acústicos antes e depois do festival de Parintins e o primeiro grupo a gravar um CD de toadas.

Para Fred, aquela era uma maneira legítima de os músicos permanecerem em atividade independente da sazonalidade do festival. E pelo número de “grupos de boi” que surgiu depois do Regional Vermelho e Branco, essa também foi uma iniciativa vitoriosa.

Atual presidente do touro branco, o caboco Fred Góes é pedra de responsa. Tê-lo como amigo é simplesmente uma dádiva divina.

quinta-feira, outubro 29, 2026

Ronaldo Barbosa, a usina de hits do bumbá Caprichoso

 

O compositor Ronaldo Barbosa

Fevereiro de 1991. O bafafá na ilha ainda era a súbita mudança de Chico da Silva para o Garantido. Responsável pela escolha das toadas do Caprichoso, J. Carlos Portilho aparentemente não estava muito preocupado. Aquilo era só mais um acidente de percurso, calculava. Ele mesmo estava tentando inutilmente levar seu amigo Emerson Maia para o touro negro.

Foi quando, naquele mesmo mês, Portilho recebeu em sua residência a visita de Ronaldo Barbosa. Eles se conheciam desde 1979, quando Ronaldo Barbosa passou a residir em Parintins e se tornou fã de carteirinha do touro negro.

Nascido em São José do Egito (PE), no dia 3 de outubro de 1953, em uma família de versadores e violeiros, Ronaldo Barbosa tinha estudado Antropologia, em Recife (PE), Odontologia, em Campina Grande (PB), e era funcionário concursado da Fundação Nacional dos Índios (Funai) há cinco anos, quando chegou a Parintins.

Ele passava a maior parte do tempo fazendo trabalho de campo para a instituição, por onde se aposentou depois de 35 anos de labuta diária como dentista.

Extremamente culto e bem-informado, conhecedor como poucos do lendário nativo dos ribeirinhos e dos primeiros cacicados da Amazônia indígena, músico informal nas horas vagas, Ronaldo Barbosa vinha tentando colocar algumas toadas de sua autoria no repertório do Caprichoso, sem sucesso, desde 1980.

– A batida dos bois era muito tradicional, muito ortodoxa, muito presa às origens, e as minhas toadas pediam uma batida diferente, um pouco mais tribal, por conta das inúmeras culturas indígenas que eu havia conhecido. Ao mesmo tempo, o acompanhamento tradicional das toadas era basicamente percussivo, com surdos, repinique, caixinha e palminhas, enquanto eu queria introduzir cordas, teclados e metais. Daí que foi muito difícil a gente evoluir para esse formato atual – recorda o compositor.

Naquela chamada “década perdida” do compositor, por conta dos “puristas” e “tradicionalistas” de sempre, Ronaldo Barbosa, trabalhando solitariamente em sua residência, havia feito dezenas de toadas interessantíssimas e foram algumas delas que ele apresentou para J. Carlos Portilho naquele encontro acontecido em fevereiro de 1991.

Com uma capacidade extra-sensorial para descobrir novos talentos, J. Carlos Portilho percebeu logo que estava diante de uma mina de ouro, mas não fez alarde.

Procurou a Comissão de Artes do Caprichoso, na época comandada por Simão Assayag, e cantou a pedra:

– A proposta das toadas do Ronaldo é mostrar a importância dos indígenas na nossa formação cultural. A gente sai dessa camisa de força chamada “boi-morena bela-vaqueiros” e começa a singrar por mares nunca dantes navegados. As histórias, o lendário e as culturas indígenas são exuberantes e a gente pode fazer o diabo na arena, basta ter criatividade! – explicou J. Carlos Portilho.

Aquele papo reto conquistou o coração de Simão Assayag. Como o enredo daquele ano já estava decidido, as toadas de Ronaldo Barbosa ficaram transferidas para o ano seguinte.

Elas foram a Pedra de Roseta que definiram o novo formato do festival a partir de 1992.

Uma das primeiras toadas do compositor a ser utilizada como suporte musical do ritual do Caprichoso se intitulava “Réquiem”:

– Aos que foram donos das terras / Antigos donos das penas / Eterno como sempre / Será eterno o criador / êiê, êiê, êiê… / Meu povo te chama, / Machifaro te espera / Teus símbolos sagrados / Ateiam as guerras / Assim como a canoa / O teu remar / Curiatô, Iurimágua, / Paguana / Aos que foram donos das terras / Antigos donos das penas / Eterno como sempre, / Será eterno o criador / Como voa o tempo / Nas asas das eras / Tururucari, Tururucari, Tururucari / A fogueira espera a chama / O sol beijar o teu rosto, ô,ô,ô / O vento os teus cabelos / Assim como a selva / O filho que partiu / Tururucari, Tururucari, Tururucari, ê ê ê / Curiatô, Iurimágua, Paguana.

Quer dizer, de repente os cacicados dos povos originários da Amazônia na época da chegada dos portugueses ao Brasil (Aparia, Machifaro, Aisuari, Paguana, Yurimágua, etc) eram reverenciados e referendados no Festival de Parintins pela primeira vez.

Aquilo, no Bumbódromo, funcionou como tratamento de choque.

Embalado pelas toadas de Ronaldo Barbosa, o ritual do boi Caprichoso começou a ganhar contornos épicos, se transformando na grande sensação do festival.

O Garantido sentiu o baque, mesmo tendo sido o pioneiro na celebração do ritual, mas teve que tirar um dobrado para não deixar a peteca cair de vez e voltar a reequilibrar a disputa.

A década de 1990 representou um dos melhores momentos da história do boi Caprichoso. De 1990 a 1999, ganhou seis dos dez festivais disputados, tendo faturado um tricampeonato (1994-1996) na época em que a festa de Parintins ganhava o Brasil e o mundo.

O touro negro teria conquistado o seu tetracampeonato em 1997, levando em consideração apenas a soma dos pontos dados pelos jurados à apresentação na arena.

Naquele ano, o Caprichoso contava a história dos índios Karajás, que eram peixes imortais (aruanãs) e, depois que afastaram a escuridão e contemplaram o céu pela primeira vez, se transformaram em homens mortais, por obra e graça do deus supremo Kananciuê, passando a habitar as margens do rio Araguaia.

O ritual daquele ano, com outra composição de Ronaldo Barbosa, deixou os jurados emocionados: eles nunca tinham ouvido uma toada que tinha sido praticamente escrita em “língua de índio”:

– Wandiê ê ê á á / Wandiê ê ê Karajá! / Ciê… / Kã-werá! / Kananciuê (Kananciuê) / Tatauapã (Tatauapã) / Numiá (Numiá) / Arapiá (Arapiá) / Numiá… / Sob a luz do luar / Ê ê ê ê ê ê ê ê / Nas terras de Berocã / Canaã, Canaã / Às margens do rio Araguaia / Aruanã… / Inansô-werá / Ê ê ê ê ê ê ê ê / E se fez a luz / No sopro da vida à Ciê / Ciá… Karajá! / Feiticeiro do fogo / Entoa um cantar / Hei Hei / Pra afugentar / Hei Hei / Escuridão / Feiticeiro da taba / Eleva o olhar / Hei Hei / Vem clariar ó lua / Todo o meu chão… / Numiá Arapiá / Hei Hei Hei Hei Hei!

Naquele ano, o Caprichoso também apresentou a toada “Ritmo Quente”, de Alex Pontes e Mailson Mendes, do Canto da Mata, que dava uma acelerada na toada e a transformara numa música pop capaz de tocar nas rádios e conquistar novos fãs para a festa xipuara. Foi outro divisor de águas no festival.

A derrota do Caprichoso adveio de uma penalidade de 10 pontos imposta pelos jurados ao apresentador Gil Gonçalves por ter elogiado, na arena, o governador Amazonino Mendes.

O touro negro deu a volta por cima sagrando-se campeão no ano seguinte, em 1998 – uma conquista indiscutível em que um dos fatos mais marcantes foi o cantor Arlindo Júnior ter ocupado o posto de apresentador e levantador de toadas ao mesmo tempo, e ainda ter vencido nos dois itens, repetindo o feito de Paulinho Faria, do Garantido, que também venceu em ambos os itens em 1991 e 1993.

Quer dizer, se não fosse os dois minutos de leseira baré do apresentador Gil Gonçalves, em 1997, o Caprichoso teria se sagrado pentacampeão do Festival de Bumbás de Parintins em 1998.


Algumas composições de Ronaldo Barbosa tornaram-se quase uma unanimidade na ilha, sendo reverenciadas pelas duas galeras.

Aliás, tirando alguns torcedores mais radicais do Garantido, todos os amantes da cultura popular de Parintins já ouviram e ensaiaram alguns passos da canção “Pesadelo dos Navegantes”, lançada em 1996, no disco “Criação Cabocla”:

– Alçar as velas / desaportar as caravelas / esquadras do Velho Mundo / do oceano ao rio-mar / Alçar as velas / desaportar as caravelas / cruzadas do Novo Mundo / fé, império a dilatar / O vento te leva / há ventania / às noites te envolve agonia / do grande abismo que virá / das feras das águas / que seria / pesadelo de um conto navegador / Iê, Iê / Terra à vista / atracar / Ilha das Tupinambaranas / terra dos Tupinambás / aportas nos braços do Orteiro / de joelhos e bravos guerreiros / celebrai a grande missão / com salva de tiros de morteiro.

Em 2018, no 53º Festival Folclórico de Parintins, Ronaldo comemorou 100 toadas emplacadas em discos do boi azul. “Traidor” foi a centésima canção composta por Ronaldo e está presente no disco “Sabedoria Popular: Uma Revolução Ancestral”.

Ao lado dela, outras composições do artista também foram inseridas no disco, como “Terror das Noites”, “Azulou”, “Boto romanceiro” e “Sissa: Uma história de Amor”, sendo as três últimas em parceria com o compositor Simão Assayag.

Em entrevista ao jornalista Alexandre Pequeno, Ronaldo Barbosa assegurou que suas canções não são elaboradas a toque de caixa e que não segue a temática estipulada pelo bumbá.

– Cada compositor tem uma metodologia de trabalho. No meu caso é um lance de inspiração. Não vou pelo tema e sim pela inspiração. Não faço música por encomenda, minha música é fruto exclusivamente de inspiração poética – garantiu.

Na mitologia indígena, a lenda por trás da centésima toada, como o próprio nome sugere, fala sobre um episódio de traição.

– Ualri era o discípulo amado de Jurupari, que o ensinou todos os segredos das flautas. Só que Ualri ensinou esse segredo aos não-iniciados e às mulheres. Por isso, ele recebeu a condenação que a própria canção revela: Do teu pó serás, serás, répteis a rastejar – explicou o compositor

Em junho de 2017, o Boi Caprichoso iniciou suas apresentações no Bumbódromo ao som de “Saga de um Canoeiro”, canção composta por Ronaldo e presente no disco de 1994.

– Essa foi uma música que fiz para o meu pai e diz: Já vai canoeiro, o porto distante, o teu descansar… Imaginei essa canoa que nós da Amazônia vamos navegar em nossas remadas eternas. Me emocionei muito – lembra o compositor.


No ano da centésima toada, o artista também completou 32 anos de história no Caprichoso e, para ele, a maior gratificação era ainda estar em atividade na associação.

– A recompensa disso é o respeito dos colegas, do boi executar algo que você imaginou. É de uma alegria muito grande – exulta.

De acordo com Ronaldo Barbosa, sua história no Caprichoso começou no final dos anos 80.

– Nesse período, comecei a apresentar meus trabalhos ao boi, pois eu era da Fundação Nacional do Índio (Funai) e viajava por diversas aldeias da Amazônia. Paralelo a esse trabalho de dentista na Funai, naquela época, tenho um trabalho de antropologia muito forte. Aprendi, convivi e vivi por 20 anos nas mais diversas tribos. Não existe nenhuma região da Amazônia que eu não tenha conhecido.

De uma época onde as composições e produções musicais eram simples, Ronaldo se orgulha de ter ajudado a inserir efeitos mais elaborados, novas sonoridades e instrumentos diferenciados nas canções.

– No começo dos anos 90, trouxe uma batida de ritual que não existia em Parintins, fui o pioneiro. Vi como os índios faziam e trouxe para o Caprichoso – lembra.

Além disso, de acordo com Ronaldo, o bumbá azul inseriu pela primeira vez um teclado numa canção de sua autoria, “Fibras de Arumã”, de 1994.

Sobrevivente dos tempos heroicos de formatação do festival, ele ainda relembra com carinho de seus mestres compositores:

– Minha geração tinha bons compositores como Horácio e Heliomar Conceição, que já partiram para o além. Aprendi muito com esses poetas mais antigos do boi.

Com a centésima toada, Ronaldo se consagrou definitivamente como um dos compositores que mais emplacou canções na história do Caprichoso, mas garante que não está pensando em suspender as chuteiras.

– Pretendo continuar participando ativamente da cultura regional por muitos e muitos anos, e não canso de repetir que a própria Amazônia é minha grande fonte de inspiração poética – resume.

O compositor também assina outras grandes canções clássicas do touro negro, como “Vale do Javari”, “Gene”, “Amazônia Quaternária” e e “Catedral”, esta também em parceria com Simão Assayag. O caboco é danado.