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quarta-feira, setembro 09, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 63

 

Carrel Benevides, Silvia, Amazonino e Gilberto

63. Fevereiro de 1976. Faixa-preta de jiu-jítsu e vereador nas horas vagas, o advogado Carrel Benevides resolveu testar, no baile Despedida da Kamélia, do Olímpico Clube, se os golpes aprendidos no tatame também funcionavam ao som de marchinhas de carnaval. Funcionavam. Em poucos minutos, meia dúzia de foliões já tinha conhecido o chão de perto, e Carrel, por cortesia da Polícia Militar, conheceu a delegacia.

Quando a notícia chegou aos ouvidos do empresário Zeca Guerra e do publicitário Edgard Alecrim, também presentes no baile, os dois concluíram que aquilo era uma afronta à amizade. Resolveram libertar o companheiro na base do argumento mais usado pelos foliões depois da meia-noite: a confusão.

Entraram na delegacia distribuindo desaforos em todas as direções. Discutiram com os soldados, elevaram o tom de voz, baixaram o nível da conversa e, quando apareceu o delegado para descobrir que terremoto era aquele, ele também recebeu sua cota de carinho. O elogio mais delicado foi “gorila fascista a serviço da ditadura militar”. O restante não convém reproduzir nem em livro de humor.

O delegado, que não era adepto da liberdade de expressão naquele horário, mandou recolher os dois heróis ao xadrez.

Enquanto eram conduzidos para a cela, ainda protestando como se estivessem na tribuna da Câmara Municipal, avistaram Carrel tranquilamente ao telefone. Ele cobriu o bocal com a mão e sussurrou:

– Fiquem calmos. Estou falando com o coronel Souza. Já expliquei tudo. Daqui a pouco ele chega e tira a gente daqui.

Era a primeira frase sensata da noite. Pena que os dois não acreditaram nela. Continuaram reclamando até serem acomodados numa cela onde outros quarenta carnavalescos involuntários já faziam o esquenta do bloco dos encarcerados.

Meia hora depois, a porta da delegacia se abriu com pompa. Entrou o coronel Souza, impecável em sua farda de gala, acompanhado de três oficiais. Conversou reservadamente com o delegado, trocou alguns cumprimentos e, em seguida, saiu dali levando... Carrel Benevides. Só Carrel Benevides.

Zeca Guerra e Edgard Alecrim permaneceram hospedados pela Secretaria de Segurança até a Quarta-feira de Cinzas, quando finalmente ganharam a liberdade – e, de quebra, a carteirinha honorária do bloco “O Que Qui Eu Vou Dizer em Casa?”, formado exclusivamente pelos foliões que passaram o carnaval atrás das grades. Aprenderam, da maneira mais pedagógica possível, que amizade é uma virtude. Mas, antes de tentar salvar um faixa-preta, convém verificar se ele já não providenciou o próprio resgate.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 62

 

O carnavalesco Shangai metendo a mão na massa

62. Em 1989, a Reino Unido resolveu provar que nem sempre um desfile de carnaval começa na avenida. Às vezes, começa numa sessão de descarrego. O barracão da escola, na rua Duque de Caxias, parecia construído sobre um antigo cemitério indígena. 

O carnavalesco Shangai, contratado a peso de ouro da Beija-Flor de Nilópolis, já estava à beira de pedir aposentadoria por invalidez emocional. Nenhum carro alegórico ficava pronto. Quando terminavam um, quebrava o outro. Consertavam aquele, despencava uma escultura. Era um efeito dominó patrocinado pelo além.

Os diretores Adib Mamede, João Thomé, Zé Picanço e Bosco Saraiva convocaram uma reunião de emergência. Se o enredo era uma homenagem aos orixás, por que os homenageados estavam sabotando o desfile? A resposta veio de dona Ápia, mãe de santo respeitadíssima e mãe do Mestre Calama.

– Tem gente aqui muito carregada...

Silêncio.

– E muito amarrada...

Mais silêncio.

As suspeitas recaíram imediatamente sobre Adib Mamede, cuja vida social de sábado era tão movimentada que faria um sultão pedir férias, e sobre João Thomé, deputado federal, profissão que, por si só, já obriga qualquer cidadão a conviver diariamente com uma fauna de picaretas. Bosco Saraiva e Zé Picanço entraram na dança apenas por espírito de equipe.

Dias depois, os quatro apresentaram-se no terreiro para o descarrego. O Preto Velho incorporou em dona Ápia, olhou para os dirigentes e deu a primeira ordem:

– Tira a roupa, zifio...

Os quatro se entreolharam com a expressão de quem descobriu que o tratamento não era coberto pelo plano de saúde. Mas carnaval é carnaval. Pior do que pagar esse mico seria perder o desfile. Minutos depois, os dirigentes mais importantes da Reino Unido estavam completamente nus, perfilados como se posassem para um calendário beneficente.

Cada um foi colocado dentro de um círculo de pólvora e recebeu uma pequena cabaça contendo uma receita que dificilmente apareceria num programa de culinária: sangue fresco de bode e duas doses generosas de Velho Barreiro.

A recomendação era simples:

– Bebe tudo. E não vomita. Exu não gosta.

Os quatro engoliram aquilo com a mesma expressão de quem descobre que o uísque importado era, na verdade, óleo de fígado de bacalhau.

Terminada essa etapa gastronômica, receberam alguidares com água de cheiro e ervas medicinais. Quando a pólvora queimasse, deveriam despejar o banho sobre a cabeça e esfregar as ervas no corpo.

Exu riscou um fósforo. Segundos depois, quatro círculos de pólvora explodiram ao mesmo tempo. Foi menos um ritual religioso e mais uma final de campeonato de fogos de artifício. Passado o susto, veio a última etapa: o chamado “alongamento dos orixás”.

A cerimônia parecia inocente. O Preto Velho ficava de costas para o participante, os dois entrelaçavam os braços e cada um levantava o outro sobre as costas numa espécie de alongamento espiritual. Com Adib, deu certo. Com João Thomé, perfeito. Com Zé Picanço, um primor.

Chegou então a vez de Bosco Saraiva. Bosco fez sua parte com elegância e levantou o Preto Velho sem dificuldade. Quando chegou a vez do Preto Velho retribuir a gentileza...

Bem... Nem toda entidade espiritual consegue desafiar a Lei da Gravidade. O pobre guia tentou erguer Bosco, fez um esforço digno de halterofilista olímpico, tremeu da cabeça aos pés e, no segundo seguinte, os dois despencaram juntos como um piano lançado do décimo andar. Foi um estrondo. Dona Ápia quebrou um braço, machucou gravemente as pernas e Bosco saiu com o punho deslocado e a mão tão esfolada que dava para estudar anatomia sem abrir um livro.

Como tragédia pouca é bobagem, na queda eles acertaram em cheio a garrafa de Velho Barreiro. A cachaça espalhou-se pelo chão, encontrou um resto de pólvora ainda acesa e resolveu participar da gira. Uma língua de fogo subiu em direção ao congá. Velas, flores, colares, toalhas... Em poucos segundos, o altar parecia disputar um concurso de fogueira junina.

Zé Picanço colocou dona Ápia e Bosco no carro e saiu rumo ao hospital dirigindo apenas de cueca, provavelmente convencido de que aquele detalhe já não fazia a menor diferença naquela noite. Enquanto isso, Adib Mamede e João Thomé ficaram no terreiro combatendo o incêndio, sem saber se chamavam os bombeiros ou mais um orixá.

No fim das contas, apesar do braço quebrado, da explosão, do incêndio, do bode, da pólvora, da cachaça, da nudez coletiva e do maior alongamento fracassado da história da Umbanda amazonense, alguma coisa realmente deu certo. Naquele ano, a Reino Unido entrou na avenida como se tivesse recebido uma bênção VIP do céu. Ganhou o carnaval com nota dez em todos os quesitos.

Depois dessa epopeia, ficou difícil saber se o título veio pelo talento da escola ou porque, depois de tanta confusão, até os santos acharam que estavam em dívida com ela.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 61

 


61. Em 1997, Beth Carvalho entrou para a história da humanidade quando a Nasa programou a música “Coisinha do Pai” para acordar um robô em Marte. Graças à engenheira brasileira Jacqueline Lyra, a Madrinha do Samba tornou-se, oficialmente, a primeira sambista interplanetária. 

Pena que, dez anos antes, ela já havia feito uma experiência semelhante em Manaus: conseguiu desaparecer da Terra antes mesmo de subir ao palco.

O palco do sumiço foi o réveillon de 1987 no Olímpico Clube. Presidente do clube, Almerinho Botelho contratou a estrela, que fez uma exigência bem terrestre: metade do cachê na assinatura do contrato e a outra metade depois do show. Negócio fechado.

No sábado do réveillon, Beth desembarcou em Manaus e hospedou-se no Tropical Hotel, onde quem cantaria seria Eliana Pittman. Às quatro da tarde, ligou para Almerinho com um pedido quase humanitário. Os músicos haviam conhecido os amplificadores Fender da Importadora Mundial e estavam apaixonados. Amor à primeira vista. Será que ele poderia adiantar o restante do cachê para que a banda não sofresse essa dor da separação?

Almerinho, homem de bom coração e pouca experiência em golpes carnavalescos, topou.

Dinheiro na mão, problema resolvido. Beth instalou-se confortavelmente à mesa do parque aquático do hotel e iniciou um massacre gastronômico. Lagostas desapareciam numa velocidade industrial. Garrafas de uísque iam tombando uma atrás da outra como integrantes de escola de samba depois da apuração.

Às onze da noite, Eliana Pittman subiu ao palco do Tropical. Beth continuava firme na missão de reduzir o estoque mundial de scotch. No Olímpico, Almerinho e o diretor Tito Magnani começaram a desconfiar que alguma coisa não estava exatamente dentro do cronograma.

Meia-noite. Fogos explodindo em Manaus inteira. O novo ano chegava pontualmente. Beth Carvalho, não. Quem salvava a festa era a bateria da Reino Unido, reforçada por Caio do Cavaco e Edu do Banjo, tocando sem a menor ideia de que aquele “esquenta” entraria para o Guinness Book.

De dez em dez minutos, o radialista Paulo José agarrava o microfone e anunciava, com um entusiasmo que só a esperança explica:

– Dentro de mais alguns minutos... a grande Madrinha do Pagode... Beeeeeth Carvaaaalho!

A essa altura, “mais alguns minutos” já era uma unidade de tempo tão elástica quanto promessa de político em ano eleitoral.

Por volta da uma da manhã apareceu um micro-ônibus trazendo os músicos da cantora. Eles mal começaram a passar o som quando caiu uma chuvinha. Foi o bastante para o empresário – completamente afogado em uísque – descobrir uma súbita vocação para engenheiro eletricista.

– O palco fica perto da piscina. Se chover mais, pode dar um curto-circuito e eletrocutar a cantora. Acho melhor cancelar...

Almerinho respondeu com a delicadeza de um estivador:

– Nem pelo caralho! Ela já recebeu até o último centavo. Se for preciso, eu trago essa mulher escoltada pela Polícia Militar!

Três da manhã. Os ritmistas da Reino Unido já tocavam por instinto. As mãos pareciam lixas. Caio do Cavaco estava sem voz. Edu do Banjo já havia arrebentado três jogos de cordas. Tinham sido contratados para um pré-show de meia hora e já estavam oferecendo uma pós-graduação em resistência física.

Quatro da manhã. Boa parte do público já tinha ido embora, convencida de que Beth Carvalho talvez estivesse se apresentando em outro planeta.

Foi então que Almerinho e Tito Magnani resolveram partir para a diplomacia amazônica. Cada um colocou um três-oitão na cintura, entrou no carro e seguiu para o Tropical Hotel disposto a convencer a cantora – nem que fosse por excesso de argumentos.

Na recepção veio a notícia que enterrou de vez o réveillon. Beth, completamente derrotada pela mistura de lagosta com uísque, passara mal, vomitara tudo o que havia ingerido desde o desembarque e fora embarcada às pressas para São Paulo por volta da meia-noite. Ou seja: enquanto Paulo José ainda anunciava “dentro de mais alguns minutos”, a atração principal já devia estar sobrevoando Brasília.

Almerinho fez o que qualquer presidente de clube faria diante de tamanho samba do crioulo doido: entrou na Justiça com uma queixa-crime por estelionato. Ganhou a causa por unanimidade. Dizem que, anos depois, Beth conseguiu acordar um robô em Marte. Em Manaus, porém, não conseguiu acordar nem a própria consciência. E nunca mais colocou os pés na cidade, sob pena de ir em cana.

terça-feira, setembro 08, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 60

 


60. A dama do samba Jovelina Pérola Negra estava com 54 anos quando morreu de enfarte, no dia 2 de novembro de 1998, Dia dos Finados, no começo da madrugada, enquanto dormia em sua casa no bairro da Pechincha, em Jacarepaguá.

Em 1992, Jovelina veio a Manaus pela primeira vez para fazer uma série de apresentações no Clube do Samba, de Aloísio Preto e Vilson Benayon. A pedido de Dominguinhos do Estácio, Edu do Banjo foi apanhá-la no aeroporto numa manhã de quinta-feira e se prontificou a ser seu cicerone na cidade. Jovelina agradeceu.

– Olha, Edu, você só me deixa no hotel, que eu quero conhecer a Zona Franca e comprar uns bagulhinhos. Aí, por volta das duas da tarde, você me apanha na portaria do hotel e me leva para comer uma caldeirada de tucunaré, que já me disseram que é o máximo...

Na hora combinada, Edu do Banjo chegou ao Hotel Imperial e encontrou Jovelina Pérola Negra incorporando uma pomba-gira Cigana, mais braba que siri em lata:

– Porra, Edu, sacanagem da grossa! Puta que pariu, roubaram meu relógio de pulso aqui na Zona Franca. Foi ali naquele furdunço da Rua Marechal Deodoro. O vagabundo tinha a mão tão leve que eu nem senti. Só fui dar pela falta dele quando entrei na loja Oriente. Caralho, Edu, caralho! Aquele era um relógio de estimação que ganhei da minha madrinha quando completei 15 anos! Puta que pariu, Edu, puta que pariu! Logo eu, puta velha, malandra escovada, nascida e criada no morro da Pavuna, frequentadora de becos e quebradas desde os doze anos, dançar dessa maneira! Porra, Edu, sacanagem! Sacanagem! Ando na Baixada Fluminense há 20 anos e nunca fui assaltada, aí vim pagar um mico aqui em Manaus?! Assim não dá, porra, assim não dá... Meu relógio de estimação, Edu, caralho, roubaram meu relógio de estimação, Edu! Puta que pariu! Caralho! Buceta!

Jovelina não quis mais saber de peixada de tucunaré nem de porra nenhuma. Estava simplesmente transtornada e puta da vida. Naquela noite, a cantora foi entrevistada no programa “Clube do Samba”, do radialista Ormando Barbosa, na rádio Difusora, e repetiu a mesma história.

O radialista explicou aos ouvintes que aquele relógio não tinha valor comercial nenhum, só tinha valor sentimental, porque era um presente da madrinha já falecida de Jovelina. Quem devolvesse na portaria da rádio Difusora seria bem recompensado e nem precisaria se identificar.

O apelo do radialista, entretanto, não deu em nada. A crioula sestrosa dançou legal no seu relógio de estimação. E logo em Manaus, onde relógio de pulso é artigo de quinta categoria. Puta que pariu! Caralho! Buceta!

Telecoteco do Balacobaco - Canto 59

 


59. Nos anos 80, o jornalista Umberto Calderaro Filho criou o “Estandarte do Povo”, prêmio concedido pelo jornal A Crítica para as melhores escolas de samba de Manaus. Decisão tomada, ele passou à escolha dos jurados. Faltava o jurado para julgar “Harmonia”. 

Um dia, entra no gabinete do jornalista o empresário Gandu Dacache, um mineirinho gente boa que editava a revista Eficaz, mas não entendia nada de carnaval.

Calderaro, com seu vozeirão, gritou:

– Seu Gandu, o senhor vai ser jurado do quesito “Harmonia” do Estandarte do Povo. Está aqui a sua pasta, esteja às oito horas da noite no palanque e não me falte!

– Perfeitamente, seu Calderaro. Fico muito honrado com o seu convite, que para mim é uma ordem – devolveu o empresário.

Realizado o desfile, foram recolhidos os envelopes lacrados para serem abertos no dia seguinte, quando seriam conhecidos os vencedores. Venceu o GRES Mocidade de Aparecida.

Foi aquela festa. O Gandu lá, participando de tudo. Quando ficaram somente os jornalistas da casa, Umberto Calderaro, fazendo um sinal para os demais com uma piscada de olho, questionou Gandu:

– Seu Gandu, como é que o senhor me faz um papel desses? Deu dez pra todo mundo? Se todos os jurados fossem iguais ao senhor ia dar empate!

Gandu, na maior calma do mundo, abriu o coração:

– Seu Calderaro, o desfile correu na mais perfeita harmonia. Não houve nenhuma briga em nenhuma escola. Juro por Deus!

Foi uma gargalhada geral.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 58

 


58. Janeiro de 1996. No carnaval daquele ano, o sambista Luizinho Sá, ex-presidente do GRES Reino Unido da Liberdade, exercia o ingrato cargo de diretor de Relações Públicas da Associação do Grupo Especial das Escolas de Samba de Manaus (Ageesma). 

Entre suas atribuições estava uma missão digna de castigo divino: servir de cicerone para Priscila Pantera, a exuberante jovem eleita 1ª Princesa do Carnaval. 

Cabia a Luizinho levá-la para programas de rádio e televisão, entrevistas em jornais, inaugurações, bandas carnavalescas, camarotes, bailes e qualquer lugar onde houvesse um microfone, um fotógrafo ou um sujeito disposto a pedir uma selfie antes mesmo de existir selfie.

Priscila, além de bonita, era dona de uma voz rouca, mansa e dengosa que fazia qualquer frase soar como uma declaração de amor. Se perguntasse as horas, parecia estar fazendo uma proposta indecorosa. 

Os dois logo ficaram amigos. Luizinho vivia dando palpites sobre maquiagem, fantasia, cabelo, acessórios e outras inutilidades indispensáveis ao carnaval. A relação era tão espontânea que a menina passou a tratá-lo pelo apelido.

– Lulu.

O problema é que existia uma pessoa no mundo que detestava aquele apelido.

Tetê.

Esse era o carinhoso apelido de família de Lucicley Barbosa Sá, a diligente esposa do sambista.

Numa tarde, Luizinho foi buscar a princesa em casa para mais uma maratona de compromissos. Como também precisava levar a esposa e duas amigas, todo mundo entrou no mesmo carro.

Priscila acomodou-se no banco de trás, abriu a bolsa, puxou um espelhinho e começou a retocar o batom.

Então veio a primeira bomba.

– Lulu... Você acha que aquele biquíni douradinho ficou muito atrevido? Se você quiser, eu troco pelo prateado...

Luizinho fez de conta que não ouviu. Tetê apenas mudou discretamente de posição no banco.

Cinco minutos depois:

– Lulu... Aquela sandalinha acabou com o meu pezinho. Depois te mostro. Está cheio de calinho...

Luizinho seguiu dirigindo como se estivesse ouvindo a previsão do tempo. Tetê pigarreou. Duas vezes.

Mais cinco minutos.

– Lulu... Será que dava para abrir um pouquinho aquela tiara? Ela está apertando minha cabecinha...

Luizinho continuou olhando fixamente para o trânsito. Tetê já se abanava com um folheto de propaganda, embora o ar-condicionado estivesse funcionando perfeitamente.

Cinco minutos depois, a princesa respirou fundo e começou outra vez:

– Lulu...

Não conseguiu terminar.

Tetê girou no banco com a velocidade de uma porta-bandeira possuída, ajoelhou-se sobre o banco dianteiro e explodiu:

– Lulu é a minha buceta, porra! O nome do meu marido é Luizinho! Luizinho Sá! Vai chamar outro macho de Lulu na puta que pariu, sua sirigaita fuleira!

O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que dava para ouvir o pisca-alerta pensando. Antes que Tetê resolvesse explicar seu ponto de vista com um sapato de salto agulha, Luizinho encostou o carro, abriu a porta para a princesa, parou o primeiro táxi que apareceu e despachou a coitada para o restante dos compromissos.

Depois desse episódio, tomou uma sábia decisão administrativa. Passou três meses sem aparecer na sede da Ageesma. E, durante muito tempo, sempre que alguém o chamava de “Lulu”, ele tinha um reflexo involuntário: começava a acenar para o táxi mais próximo.

sexta-feira, setembro 04, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 57

 


57. Fevereiro de 1967. Em pleno sábado gordo de carnaval, o Olímpico derrota o Nacional pela segunda vez seguida e pelo mesmo placar (2 a 0), no campo da Colina, e se transforma no novo campeão amazonense de futebol. 

Editor de Esportes do matutino O Jornal, Celso Antônio esperava impaciente, na redação, pela foto principal da primeira página para fechar o jornal. 

Com um radinho de pilha, ele havia acompanhado a transmissão do jogo e já sabia que o primeiro gol tinha sido de Sales cobrando falta, aos 16 minutos, e o segundo, um gol de placa de Irailton, aos 18 minutos, ambos no segundo tempo. 

Dali a algum tempo, chega correndo Marivaldo Pereira, velho e cansado fotógrafo dos Diários Associados. Celso Antônio grita aliviado:

– Tudo bem, Marivaldo? Pegou o golaço do Irailton?...

– Não deu pra pegar não, seu Celso. Foi muito rápido.

– E agora? Como é que eu vou fechar o jornal sem a foto do gol do título? Porra, Marivaldo, você acabou comigo...

– Ora, seu Celso, se o goleiro que é pago para isso não pegou, eu é que tinha que pegar?!... Fala sério...

Telecoteco do Balacobaco - Canto 56

 


56. Março de 1994. O artista plástico, carnavalesco e artesão Paulo Castelo era tão magro que, se tomasse um caldo de cana, fazia sombra de canudinho. Tinha o físico de um faquir indiano em fim de carreira e vivia desafiando as leis da nutrição. 

Nas horas vagas – que eram justamente aquelas em que não estava pintando alegorias nem inventando fantasias de carnaval – dedicava-se ao próspero, embora ligeiramente clandestino, comércio de quelônios. 

Comprava tartarugas e tracajás nas bandas do rio Purus e revendia no Mercadinho da Cachoeirinha, onde os bichos faziam mais sucesso que televisão em final de novela.

Naquele ano, o Ibama resolvera acabar com a festa. Montou um posto de fiscalização nas proximidades da reserva do Abufari, em Tapauá, o maior berçário natural de tartarugas da Amazônia e, por consequência, o pior lugar do mundo para quem estivesse transportando 200 quelônios escondidos no porão de um barco. 

E foi exatamente ali que a embarcação de Paulo Castelo acabou interceptada.

Quando o barco atracou, surgiu na proa uma figura que parecia ter acabado de escapar de um campo de concentração: só de cueca samba-canção, costelas em alto-relevo e um semblante que faria qualquer médico pedir exames antes mesmo do bom-dia.

Um dos fiscais anunciou, em tom burocrático:

– Gostaríamos de subir a bordo para uma inspeção de rotina.

Paulo nem piscou.

– Por mim, tudo bem... Só acho justo avisar que tivemos um surto de cólera aqui no barco. Metade da tripulação ficou internada em Tapauá e o resto está de cama no porão. Eu também peguei essa desgraça. Tirando a diarreia que não dá trégua, a desidratação e esses quilinhos que perdi, estou me sentindo uma maravilha.

Os fiscais se entreolharam. Olharam de novo para Paulo Castelo. Olharam outra vez. O sujeito era tão magro que a história fazia todo o sentido. Se dissesse que tinha perdido quinze quilos, ninguém perguntaria de onde. Houve uma rápida reunião técnica entre os agentes do Ibama. Durou menos de um minuto.

A conclusão foi unânime: duzentas tartarugas até podiam representar um grave crime ambiental. Mas arriscar pegar vibrião colérico por causa delas já era um sacrifício que não constava no edital do concurso. Mandaram Paulo seguir viagem.

Naquele dia, as tartarugas escaparam da fiscalização graças ao melhor disfarce já inventado pela natureza: um comerciante que parecia estar morrendo havia pelo menos três semanas.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 55

 


55. O sambista Nilton Delfino Marçal, o lendário Mestre Marçal, nasceu em 1930, no bairro de Ramos, no Rio de Janeiro. Morou em São Cristóvão, Olaria, Estácio, Inhaúma e Pilares. Morreu em 1994, em Pilares, mas, como todo bom portelense, deixou o coração estacionado em Madureira, onde até os pardais parecem cantar em ritmo de samba-enredo.

Ainda menino, aprendeu a tirar som de tudo o que aparecesse pela frente: cuíca, tamborim, surdo, tarol, pandeiro... Se dessem um balde e uma colher de pau, era capaz de montar uma bateria. Durante 22 anos comandou a bateria da Portela, até que, em 1985, resolveu sair da escola. Foi aquela velha história: em escola de samba, às vezes o surdo faz menos barulho que a política.

Marçal, porém, não era homem de desafinar. Deu a volta por cima na Unidos da Tijuca e, no fim dos anos 80, gravou discos que mostraram que sua voz era tão elegante quanto sua batida. Em “Pela Sombra”, de Nelson Sargento e Nei Lopes, aconselhava: “Siga em frente sem retorno e sem parada... Vá com Deus e siga pelo acostamento...” Era um filósofo do samba. Só não imaginava que, anos depois, pisaria em Manaus carregando bagagem suficiente para abrir uma filial da Casa Colombo.

No começo da década de 1990, Bosco Saraiva, presidente de honra da Reino Unido, convidou Mestre Marçal para ministrar um seminário sobre os segredos da armação de uma bateria de escola de samba. O curso era aberto a diretores de bateria, ritmistas e pagodeiros. A programação previa apenas um fim de semana em Manaus.

Quem foi recebê-lo no aeroporto foram Bosco Saraiva e Edu do Banjo. Abraços, fotografias, tapinhas nas costas.

– Vou ali dar uma mijadinha – avisou Marçal, desaparecendo em direção ao banheiro.

Enquanto isso, Bosco e Edu pegaram os comprovantes das bagagens e foram para a esteira. A primeira mala chegou. Depois outra. Mais uma. Outra. Mais duas. Quando a esteira finalmente parou, os dois estavam empurrando três carrinhos abarrotados com oito malas. Bosco olhou para Edu com a expressão de quem acabara de descobrir que o voo era fretado pela Portela inteira.

– Porra, Edu... eu mandei passagem pra um sambista. Pelo jeito ele trouxe escondidos o Monarco, a Velha Guarda, a bateria, a ala das baianas e, se bobear, até o Paulo da Portela.

Cinco minutos depois, Mestre Marçal apareceu assobiando, tranquilo como quem voltava da padaria. Olhou para os dois imóveis ao lado da montanha de malas e perguntou:

– Ué... vocês ainda estão aí? Vamos embora.

Edu, completamente perdido, perguntou:

– Mas... e o resto do pessoal?

– Que pessoal?

– Os donos dessas malas.

Marçal olhou em volta, depois para as malas, depois para Edu.

– Que donos, rapaz? Tudo isso é meu.

Bosco quase engasgou.

– Tudo seu?

– Claro. São alguns paletozinhos...

– Mas o senhor vai ficar só dois dias em Manaus!

– Justamente.

No Hotel Imperial, enquanto quatro carregadores faziam musculação involuntária levando a bagagem para o quarto, Edu não resistiu.

– Mestre, me desculpe a curiosidade, mas pra que tanto paletó?

Marçal respondeu com a serenidade de quem explicava um teorema de Einstein.

– Meu filho, um homem elegante nunca desafia o clima.

Fez uma pausa dramática e iniciou uma verdadeira palestra de meteorologia aplicada à alfaiataria.

– Vamos imaginar que hoje à noite chova. Aí entra o azul-marinho. Mas, se der só um friozinho, eu prefiro o marrom-escuro. Amanhã de manhã, se fizer um sol bonito, vai o branco perolizado. À noite, dependendo da umidade do ar, posso escolher o cinza-grafite ou o verde-musgo. Domingo... ah, domingo é uma incógnita. Posso acordar inspirado no risca-de-giz. Mas, se o tempo abrir, quem sabe um salmão? Agora, se o céu amanhecer indeciso, aí só um quadriculado resolve. Ou então o azul-turquesa.

Bosco e Edu ouviam aquilo em silêncio, como dois alunos diante de uma aula magna da Academia Brasileira de Alfaiataria.

Marçal ainda concluiu:

– E cada terno tem seu sapato, seu cinto e sua gravata. Porque elegância não é brincadeira. O samba pode até improvisar. O figurino, nunca.

Bosco balançou a cabeça, admirado. Saiu de casa pensando que iria aprender os segredos da bateria da Portela. Acabou descobrindo que o verdadeiro mestre também era doutor em previsão do tempo... desde que o clima fosse medido em paletós.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 54

 


54. Mestre Carlito acompanhava Chico da Silva numa excursão pelo Pará, uma turnê tão extensa que, segundo a lenda, eles tocaram em todos os 5 mil garimpos de Itaituba – e ainda sobraram dois ou três barrancos reclamando que haviam sido esquecidos. 

Nas horas vagas, enquanto Chico descansava a voz ou ia prosear com os garimpeiros, Carlito se trancava com o violão para inventar um arranjo diferente para uma música inédita de Rinaldo Buzaglo. Era o tipo de sujeito que achava mais fácil encontrar um acorde diminuto do que uma vaga para estacionar no centro de Manaus.

Numa manhã de domingo, Chico resolveu disputar uma animada pelada com o pessoal do garimpo “Vai Quem Quer”, um campeonato em que o impedimento era ignorado, mas carrinho por trás valia medalha de honra ao mérito. Carlito preferiu ficar no hotel, em paz, sentado à beira da piscina, espremendo acordes dissonantes do violão enquanto o café da manhã ainda fazia efeito.

Só que paz, em garimpo, dura menos que promessa de político em época de eleição. Na mesa ao lado, dois garimpeiros que já tinham ultrapassado o limite do álcool havia algumas doses começaram uma discussão filosófica sobre futebol. De repente, um deles resolveu enriquecer o debate com argumentos de aço: puxou um revólver Taurus calibre .38 de cano longo e o depositou sobre a mesa com a delicadeza de quem serve um cafezinho. Então disparou – felizmente apenas pela boca:

– Olha, caralho, a gente não precisa ir muito longe! Isso aqui é um berro flamenguista de matar ladrão! Sou flamenguista desde que nasci e todo vascaíno que eu conheço é ladrão, corno, viado, maconheiro, filho da puta, bandido, mau-caráter, trambiqueiro, nojento, safado, vagabundo, trampolineiro, vigário, qualira e ainda tem a mãe na zona! Tenho nojo de vascaíno! Não posso ver um que já me dá vontade de passar bala! Ô raça desgraçada!

Em seguida, virou-se para Carlito, que até aquele instante só queria descobrir se a nona do acorde era maior ou menor:

– Você não concorda, parente?

Naquele momento, Mestre Carlito viveu o maior conflito moral da carreira. De um lado, mais de quarenta anos de fidelidade ao Vasco da Gama. Do outro, um flamenguista bêbado segurando um .38, claramente disposto a transformar qualquer divergência esportiva em estatística policial.

Apesar da cegueira que escondia com óculos escuros, Carlito olhou para o revólver, olhou para o sujeito e respondeu com a serenidade dos grandes diplomatas:

– Concordo plenamente, meu amigo!

Naquele domingo, o Vasco perdeu mais um torcedor por alguns minutos. Mas, em compensação, Carlito ganhou o direito de continuar vivo para torcer de novo na segunda-feira.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 53

 

O "Aranha Negra" em ação

53. Maio de 1966. O Rio Negro estava enfrentando o time carioca do São Cristóvão no Parque Amazonense e vencendo por 3 a 0, gols de Horácio, Edson Piola e Cândido.

No segundo tempo, o time carioca foi para o tudo ou nada obrigando o goleiro rionegrino Clóvis, o “Aranha Negra”, a fazer verdadeiros milagres embaixo da trave.

De repente, o lateral esquerdo Antenor dá uma voadora no atacante Aladim, do São Cristóvão, e é expulso de campo.

Reclamando barbaridade do árbitro, ele se dirige para o vestiário, quando é interceptado pelo repórter de pista Raimundo Moreira, da Rádio Baré:

– E aí, Antenor, por que é que você está saindo mais cedo de campo?...

– Sei lá! – resmunga Antenor. – Pergunta daquele juiz filho da puta...

– Ôpa, ôpa, palavrão não! Palavrão não! – reage o repórter de pista. – Essa aqui é uma rádio familiar!

– Eu sei, eu sei! – se desculpa Antenor. – Mas eu falei juiz filho da puta no bom sentido...

O repórter de pista quase foi demitido na mesma hora pelo comentarista Luiz Saraiva, chefe da equipe esportiva da rádio.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 52

 


52. A graciosa atriz Ednelza Sahdo foi porta-bandeira da Mocidade de Aparecida desde a fundação da escola, em 1981, até pendurar o pavilhão, em 2006, quando passou a missão à neta Naruna. Durante esse quarto de século, cultivou um vício que preocupava a família mais do que dívida em cartão de crédito: fazia questão de confeccionar a própria fantasia.

Enquanto outras porta-bandeiras encomendavam seus figurinos a profissionais especializados, Ednelza encarava a empreitada como uma mistura de alta-costura, artesanato e prova de resistência.

Ela passava meses costurando lantejoulas, paetês, canutilhos e um número obsceno de pérolas, numa dedicação que faria Penélope pedir aposentadoria. E, obedecendo a uma tradição que parecia cláusula pétrea, a fantasia ficava pronta... duas horas antes do desfile. Apesar disso – ou justamente por causa disso –, colecionava notas dez.

Foi num desses carnavais que a tragédia resolveu vestir fantasia de comédia. Enquanto Ednelza bordava, em estado de transe, os últimos dois milhões de pérolas da saia rodada, a filha mais nova lançou um olhar desconfiado para a delicada sandalinha de lamê.

– Isso aí não aguenta nem um samba-enredo, quanto mais um desfile inteiro.

Tomada pelo espírito da engenharia improvisada, resolveu reforçar o calçado. Pegou dez preguinhos finos para cada lado do solado e os martelou com o entusiasmo de quem estava construindo a Ponte Rio-Niterói.

Ednelza não viu nada. Vestiu a fantasia, colocou a coroa, ajeitou o sorriso de porta-bandeira e deixou para calçar a sandália somente na concentração.

Mal começou a evoluir na avenida, sentiu uma pontada no calcanhar. Um dos pregos, cansado de viver escondido na sola, resolveu conhecer o mundo exterior. Entrou pelo pé da dona.

Ela passou a sambar na ponta do pé com uma elegância que fez muita gente acreditar que aquela coreografia fazia parte do enredo. Parecia a primeira bailarina do Teatro Bolshoi interpretando O Quebra-Nozes em ritmo de samba.

Só que a física é uma ciência cruel. Ao transferir o peso do corpo para a frente, outros quatro pregos atravessaram seus dedos. Instintivamente, Ednelza voltou a apoiar o pé inteiro no chão. Foi a vez de mais quatro pregos lhe perfurarem a planta do pé.

Naquele momento, seus pés já lembravam um porco-espinho em pleno desfile carnavalesco. Mas havia um pequeno detalhe: o jurado não podia saber. E não soube.

Sem perder o sorriso, sem deixar o pavilhão vacilar um milímetro e sem entregar o sofrimento nem por decreto, Ednelza rodopiou, cortejou o mestre-sala, cumpriu todas as evoluções e terminou o desfile como se estivesse pisando em pétalas de rosa – quando, na verdade, estava pisando em dez pregos.

Só na dispersão a cortina caiu. Com os pés ensanguentados, nem passou pela comemoração. Pegou o primeiro carro rumo ao Hospital Getúlio Vargas, onde recebeu curativos, uma injeção antitetânica e, provavelmente, o conselho médico de nunca mais aceitar serviços de engenharia doméstica em calçados de carnaval.

Passou uma semana sem conseguir andar. Mas, como todo bom sambista sabe, dor passa, troféu fica. A nota dez veio, a Mocidade de Aparecida conquistou mais um campeonato e Ednelza entrou para a história como, provavelmente, a única porta-bandeira capaz de vencer um carnaval sambando sobre um campo minado.

quarta-feira, setembro 02, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 51

 


51. O radialista Jurandir Vieira estava entrevistando o compositor Chico da Silva em seu programa na rádio Difusora e iniciou a rasgação de seda:

– Esse aqui todo mundo conhece. Além de meu amigo particular, Chico da Silva já foi um dos campeões de audiência do “Fantástico”, da rede Globo, já foi o maior compositor de jingles políticos de Manaus, já foi jogador de futebol profissional, já foi compositor da Alcione, já foi parceiro do Noca da Portela, já foi compositor do bumbá Caprichoso, já foi compositor do bumbá Garantido, já foi membro do Clube do Samba, já foi...

Tomando o microfone do radialista, Chico da Silva reagiu indignado:

– Porra, compadre, me enterra logo! Me manda logo pro cemitério São João Batista, porque pelo jeito esse seu amigo aqui já morreu e não sabe! Já foi, já foi, já foi... Já foi, um caralho! Eu sou, porra, eu sou!!!

Jurandir Vieira não sabia onde esconder a cara.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 50

 

Os foliões Marcus Pereira, Albino Pinheiro, Arthur Moreira Lima
 e Sérgio Cabral na Banda de Ipanema 

50. Há pessoas que nascem numa cidade. Albino Pinheiro nasceu no Rio de Janeiro. Parece a mesma coisa, mas não é. Morrer no Rio é uma circunstância. Nascer carioca é uma profissão. Quando Albino morreu, em 24 de junho de 1999, aos 66 anos, depois de uma longa batalha contra um câncer na medula óssea, os jornais tentaram resumir sua vida. Disseram que era procurador do Estado, pesquisador do carnaval, produtor cultural, criador da Banda de Ipanema, secretário de Turismo, boêmio. Erraram todos. Albino era carioca. E isso já dava um expediente de vinte e quatro horas por dia.

A Banda de Ipanema, fundada em 1965, foi apenas sua obra mais fotografada. O verdadeiro trabalho de Albino era muito mais ambicioso: impedir que o Rio de Janeiro esquecesse quem era. Ele fazia isso como outros respiram. O Rio era sua religião, sua obsessão e, em muitos momentos, seu estado civil. Passou a vida inteira estudando a cidade como um arqueólogo estuda uma civilização perdida. A diferença é que, enquanto o arqueólogo escava ruínas, Albino escavava botequins.

Durante décadas foi capaz de explicar, com a mesma desenvoltura, a origem de um bloco de carnaval, o melhor chope da Lapa, a genealogia de uma porta-bandeira e o nome do garçom que servia a melhor batida de maracujá da Praça Tiradentes em 1958. O Google jamais teria essa coragem.

Seu único carnaval fora do Rio aconteceu em 1959. E contra a própria vontade. Uns amigos aproveitaram que Albino estava democraticamente embriagado, colocaram-no dentro de uma caminhonete e seguiram viagem. Quando acordou, estava em Ubá, Minas Gerais. Imagine acordar em Minas durante o carnaval sendo carioca. Era como um peixe descobrir que havia dormido num deserto. Qualquer outra pessoa passaria o resto da vida reclamando do sequestro. Albino voltou agradecendo.

Porque foi justamente a bandinha de Ubá que lhe deu a ideia, seis anos depois, de criar a Banda de Ipanema. Transformou um trauma etílico numa das maiores invenções do carnaval brasileiro. Era muito Albino. Mas seu maior feito nem foi esse.

Nos anos 60, existiam dois Rios que raramente conversavam. O Rio elegante dos apartamentos de Ipanema. E o Rio dos morros, dos subúrbios, das gafieiras e das escolas de samba. Albino resolveu apresentar um ao outro. Foi uma espécie de embaixador sem gravata.

Pegava intelectuais da Zona Sul e os levava para ouvir Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Jair do Cavaquinho e tantos outros quando eles ainda eram conhecidos apenas pelo carteiro, pelo dono do botequim e pelos vizinhos. Hoje chamariam isso de intercâmbio cultural. Albino chamava de sexta-feira.

Sua biografia ajudava. Nasceu na Saúde e cresceu em Laranjeiras. Estudava no Liceu Francês, frequentava o Fluminense, mas bastava ouvir um tamborim na esquina para esquecer qualquer vocação aristocrática. Enquanto os colegas sonhavam com Copacabana, Albino sonhava com gafieiras.

Aos catorze anos já explorava a Praça Tiradentes como um antropólogo especializado em samba. Frequentava bailes onde encontrava, entre outras figuras ilustres, as empregadas de sua própria casa. Subornava todas. Não para conseguir informações. Mas para que não contassem nada ao pai. Ali começou uma carreira brilhante na diplomacia.

Quando finalmente chegou a Ipanema, entrou pela porta da frente. As famosas domingueiras de Aníbal Machado reuniam escritores, pintores, cineastas, músicos e intelectuais. Albino encontrou por lá gente como Albert Camus. O escritor francês talvez tenha explicado o absurdo da existência. Albino provavelmente respondeu indicando uma boa feijoada em Vila Isabel. Terminadas as reuniões, todos iam para o Zeppelin. Anos depois, Albino já nem aparecia tanto nas tertúlias literárias. Mas continuava rigorosamente fiel ao botequim. Cada um prestigia o patrimônio cultural que considera mais importante.

Foi também ele quem tirou os bailes pré-carnavalescos dos salões elegantes e os levou para a Estudantina e outras gafieiras. Apresentou Nelson Cavaquinho a plateias que jamais tinham ouvido falar dele. Hoje isso parece inacreditável. É como descobrir que houve um tempo em que alguém precisou apresentar Pelé ao futebol. Quando Vinicius de Moraes dizia querer ser “o branco mais preto do Brasil”, José Ramos Tinhorão encerrava a discussão: Albino não precisava querer. Já era.

Os réveillons organizados por Albino, Jaguar e Ferdy Carneiro entraram para a história. Misturavam sambistas, compositores, passistas, jornalistas, artistas, boêmios e algumas das mulheres mais bonitas do Rio. Aliás, havia um mistério que jamais foi esclarecido. Ninguém sabia onde Albino encontrava tantas mulheres bonitas. Talvez existisse uma espécie de cadastro secreto. Ou talvez elas simplesmente soubessem onde estava a melhor festa.

Sempre que algum prefeito realmente gostava do Rio – acontecimento estatisticamente raro – lembrava de chamar Albino. Ele organizava carnaval em praças, ressuscitava banhos de mar à fantasia, revitalizava a Festa da Penha, criava o Projeto Seis e Meia, ajudava a preservar o Centro Histórico e ainda encontrava tempo para transformar qualquer esquina num ponto de encontro. Parecia possuir um calendário com trinta e sete meses.

Mas toda essa intensa produção cultural jamais atrapalhou sua principal atividade. Beber chope. Durante meio século foi um dos maiores responsáveis pelo equilíbrio financeiro dos bares cariocas. Há quem diga que Albino conhecia todos os garçons do Rio. Os garçons juram que eram eles que conheciam Albino.

Na rua Almirante Saddock de Sá, onde morava, promovia festas na calçada como quem estende a sala de casa até a esquina. Cerveja. Mesas. Cadeiras. Sambistas. Vizinhos. Ninguém reclamava. Primeiro, porque era impossível ficar de mau humor numa festa organizada por Albino. Segundo, porque todos sabiam que ele possuía uma escritura afetiva daquele pedaço de Ipanema.

Sua maior frustração foi nunca ter escrito o grande livro sobre a história do Rio. Talvez nem precisasse. Albino preferiu viver o livro. Página por página. Chope por chope. Carnaval por carnaval. E deixou a impressão de que, enquanto existisse um botequim aberto, um bloco desafinado e uma roda de samba improvisada numa calçada qualquer, o Rio continuaria encontrando um jeito de parecer com Albino Pinheiro.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 49

 


49. Revelado no campo do Oratório de São Domingos Sávio, na Praça 14, o centroavante Sebastião do Socorro Araújo de Oliveira, o “Dentinho”, jogou profissionalmente pelo São Raimundo (1974-1975), Rio Negro (1976), Fast Club (1977-1978) e foi vendido para a Portuguesa de Desportos, de São Paulo, no meio do campeonato amazonense daquele ano.

Após uma brilhante partida de estreia pela Lusa, no campo do Canindé, onde marcou três gols contra a equipe do Palmeiras, Dentinho foi entrevistado por um repórter de pista quando deixava o campo:

– O centroavante Dentinho veio lá de Manaus e já começou a mostrar serviço. Na partida de hoje, ele marcou três golaços e mostrou que vai dar muito trabalho pros goleiros adversários. Vamos conversar um pouquinho com o centroavante. Ô Dentinho! Diz aí pros ouvintes da rádio Tupi qual a razão desse apelido tão engraçado...

Exibindo os incisivos de Itu que trazia na arcada dentária, o centroavante explicou, meio rindo, no seu habitual dialeto amazônico:

– Ah... Isso foi fuleiragem lá da raça...

Até hoje o repórter de pista não entendeu a resposta. Nem os ouvintes da rádio Tupi.

Na sua segunda partida, Portuguesa e Juventus, Dentinho marcou apenas um gol na apertada vitória da Lusa por 2 a 1. Um outro repórter de pista foi entrevistá-lo:

– Vamos falar agora com o Dentinho, que veio lá de Manaus. Ô, Dentinho, foi um jogo catimbado, violento, pegado, mas a Portuguesa saiu vitoriosa. Conta aqui pros ouvintes da rádio Jovem Pan o que foi que você achou...

Sério que só cu de porco, Dentinho abriu o verbo:

– Rapaz, eu não achei porra nenhuma. Mas o lateral-esquerdo Buiu achou uma medalhinha de São Jorge ali perto da bandeirinha de escanteio. Vai lá falar com ele...

O repórter de pista ficou mudo de espanto.

No terceiro jogo da Lusa, Dentinho marcou 4 gols na goleada de 6 a 1 sobre o São Caetano e foi escolhido o melhor jogador em campo. Um repórter de pista se aproximou do centroavante para lhe dar a notícia:

– Ô, Dentinho, parabéns pela sua brilhante atuação no jogo de hoje. Os comentaristas da rádio Globo escolheram você como melhor jogador em campo e vão lhe dar um Motorádio de presente. O que você pretende fazer com o prêmio?

Dentinho nem titubeou:

– A moto eu vou vender e o rádio vou dar de presente pra mamãe...

Nunca mais os repórteres de pista quiseram entrevistar o manauara.

Mas nem só de gafes vivia o centroavante.

Em 1983, Dentinho chamou a atenção do Brasil ao marcar 42 gols no campeonato paraibano daquele ano, jogando pelo Botafogo, de João Pessoa. Com isso se tornou o maior artilheiro da competição em uma só edição, além de ser o 3º jogador com mais gols em uma edição de campeonato estadual, atrás apenas de Pelé, do Santos (que marcou 58 gols no campeonato paulista de 1958), e Ninão, do Palestra Itália (que marcou 43 gols no campeonato mineiro de 1928). O Palestra Itália depois seria rebatizado de Cruzeiro.

Naquele mesmo ano, Dentinho foi o futebolista que mais marcou gols pelo Brasil, 53 no total, se tornando o artilheiro do Brasil na temporada. Não foi pouca porcaria.