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terça-feira, agosto 04, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 2

 


2. No Brasil, diferentemente de outros países onde o carnaval ainda conservava alguma aparência de ritual coletivo, a festa ganhou fama justamente por ser o momento oficial da catarse nacional. Era a época em que o povo, esmagado pelas agruras do cotidiano, saía às ruas para cantar, dançar, rir de si mesmo e esquecer, ainda que por alguns dias, que a conta do armazém continuava lá esperando. Nos antigos blocos dos “sujos” e entre mascarados de toda espécie, reinavam a irreverência, a espontaneidade e aquele humor debochado que nunca precisou de patrocínio, camarote VIP ou pulseira eletrônica para existir.

Mas, como costuma acontecer no Brasil, quando algo se torna genuinamente popular, logo aparece alguém disposto a cercá-lo com cordas, cobrar ingresso e chamar isso de evolução. Aos poucos, o carnaval foi perdendo parte de sua alma popular e adquirindo ares aristocráticos, clubísticos e seletivos. Surgiram os bailes luxuosos, frequentados por quem tinha sobrenome, dinheiro ou ambos, enquanto o povo, que havia inventado a brincadeira, passava a observá-la do lado de fora.

Hoje, o carnaval é celebrado em diversos países de tradição católica nos dias que antecedem a Quaresma. A festa gira em torno de fantasias, música, dança e uma generosa suspensão do bom senso. Seu nome tem origem controversa. Alguns estudiosos o relacionam ao latim medieval carnem levare ou carnelevarium, expressões ligadas à despedida da carne antes dos quarenta dias de abstinência quaresmal. Em outras palavras: era a última oportunidade de exagerar antes que a Igreja lembrasse aos fiéis que a diversão tinha prazo de validade.

Como toda tradição humana, o carnaval também sofre de problemas de calendário. Em Munique e na Baviera, na Alemanha, começa no Dia de Reis, em 6 de janeiro. Em Colônia e na Renânia, também na Alemanha, alguém decidiu que a festa deveria começar exatamente às 11 horas e 11 minutos do dia 11 de novembro. Afinal, se é para criar uma tradição, por que não complicar um pouco?

Na França, a celebração é mais econômica e se concentra basicamente na terça-feira gorda e na mi-carême (“meio da quaresma”). Nos Estados Unidos, especialmente em Nova Orleans, a festa se estende do Dia de Reis até o famoso Mardi Gras (foto). Já na Espanha, a quarta-feira de cinzas também entra na brincadeira, numa espécie de prorrogação carnavalesca que sugere uma dificuldade histórica em aceitar que a festa acabou.

No Brasil, até a década de 1940, sobretudo no Rio de Janeiro, o carnaval começava a ensaiar seus primeiros passos ainda em outubro, durante os festejos de Nossa Senhora da Penha. Crescia no fim do ano e explodia nos quatro dias que antecediam a Quaresma. Hoje, em cidades como Recife e Salvador, a festa se alonga tanto que às vezes parece disputar com o Natal o título de comemoração mais extensa do calendário. Dependendo do entusiasmo dos organizadores, só falta chegar ao Dia das Mães.

Entretanto, há uma ironia pouco comentada. Embora o carnaval brasileiro continue sendo vendido como a maior festa popular do planeta, apenas uma pequena parcela da população participa efetivamente dele. Na chamada época de ouro – entre o final do século 19 e os anos 1950 – a multidão não assistia ao carnaval: ela era o carnaval. Atualmente, boa parte do público ocupa o confortável papel de espectador, consumindo imagens da folia pela televisão, pelas redes sociais ou dos camarotes que transformaram a espontaneidade popular em produto premium.

Ainda assim, o carnaval brasileiro segue sendo celebrado como um dos melhores do mundo por turistas estrangeiros e por muitos brasileiros, especialmente pelos mais jovens, que nunca conheceram aquele carnaval verdadeiramente compartilhado, improvisado e democrático. É um pouco como sentir saudade de uma cidade que nunca se visitou.

Talvez ninguém tenha resumido melhor essa transformação do que o folclorista Luís da Câmara Cascudo. Segundo ele, “o carnaval de hoje é de desfile, carnaval assistido, paga-se para ver”. O carnaval de antigamente era vivido, dançado, pulado, gritado e até cutucado. O de hoje, em muitos casos, parece uma grande vitrine: de um lado, os que pagam para aparecer, do outro, os que pagam para assistir. E ambos saem convencidos de que participaram da mesma festa.

segunda-feira, agosto 03, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 1

 


1. A origem do carnaval é uma daquelas discussões que conseguem atravessar séculos sem chegar a lugar nenhum – exatamente como certas reuniões de condomínio e algumas CPIs. Até hoje, o assunto provoca debates acalorados em mesas de botequim, normalmente entre o terceiro copo de cerveja e a última porção de torresmo.

Há estudiosos que juram, de pés juntos e copo na mão, que o carnaval nasceu por volta de 10.000 a.C., quando nossos ancestrais, ainda sem Instagram, televisão ou campeonato de futebol, pintavam o corpo, cobriam o rosto e saíam dançando em grupo para espantar os espíritos responsáveis pelas colheitas ruins. Era uma espécie de bloco rural pré-histórico: sem trio elétrico, mas com bastante barro, suor e fé de que a mandioca vingasse depois de plantada.

Outros afirmam que o carnaval nasceu no Egito, na Grécia, em Roma ou em algum lugar onde havia uma combinação explosiva de divindades, vinho e pessoas sem muito compromisso com o dia seguinte. A verdade é que quase todas as civilizações antigas inventaram alguma desculpa religiosa para fazer festa. Mudava o santo, o deus ou o ídolo, mas a vontade de encher a cara permanecia rigorosamente a mesma.

Os egípcios colocam a culpa em Ísis e no touro Ápis. Os gregos empurram a responsabilidade para Dionísio, que era praticamente o secretário-geral da bebedeira. Os romanos apontam para Saturno e Baco, este último o patrono oficial dos excessos etílicos. Aparentemente, o carnaval é fruto de uma multidão de divindades que tinham como principal atribuição funcional organizar festas e liberar o povo para fazer o que normalmente seria proibido.

Os romanos, aliás, levaram a coisa muito a sério. Nas Saturnais, colocavam grandes carros em forma de navios para desfilar pelas ruas. Era o famoso carrum navalis, ancestral remoto dos carros alegóricos modernos. As Saturnais também incluíam procissões, fantasias e muita libertinagem. Em outras palavras, eram uma espécie de desfile das escolas de samba misturado com aniversário de interior, festa universitária e reunião de família onde aparece aquele tio que dança lambada depois de quatro copos.

Vieram depois as Lupercais e as Bacanais, celebrações tão animadas que, se acontecessem hoje, renderiam pelo menos três operações policiais, dois documentários e uma CPI. Na sequência, surgiu uma série de festas que, olhando de longe, parecem ter sido criadas por alguém que decidiu juntar religião, bebida, dança, fantasia e ausência de limites num único pacote promocional. Alguns autores garantem que o carnaval já existia na Antiguidade Clássica e até antes dela. As evidências são as mesmas de hoje: música alta, máscaras, comportamentos questionáveis e pessoas tomando decisões que passariam o resto do ano tentando justificar.

Na Idade Média, a Igreja Católica ficou numa situação delicada. Não exatamente aprovava o carnaval, mas também não conseguia acabar com ele. Alguns religiosos condenavam a festa como obra do demônio. Outros preferiam fingir que não estavam vendo. Afinal, quando metade da cidade resolve sair fantasiada fazendo algazarra, é mais fácil rezar do que tentar impedir. Era mais ou menos como um pai que descobre que o filho foi para uma festa do cabide, fica indignado, mas acaba perguntando depois se a música estava boa.

Nem todos os religiosos eram tolerantes. Alguns condenavam a folia com veemência. Já o papa Paulo II resolveu adotar uma postura mais pragmática: se não pode vencer o carnaval, organize-o. No século 15, permitiu a realização do carnaval romano diante de seu próprio palácio. O programa incluía corridas de cavalos, carros alegóricos, batalhas de confete, iluminação com velas, lançamento de ovos e até corridas de corcundas. Sim, corridas de corcundas. Porque aparentemente ninguém naquela época acordava de manhã pensando: “Hoje vou criar uma atividade esportiva razoável”. Em outras palavras, era uma mistura de desfile cívico, olimpíada alternativa e programa dominical de auditório.

Com o passar do tempo, algumas dessas modalidades foram desaparecendo – talvez porque alguém finalmente percebeu que atirar ovos em desconhecidos não era exatamente um avanço civilizatório. O carnaval foi ficando menos violento, embora tenha desenvolvido uma curiosa vocação para o sombrio durante sua fase gótica. Na Alta Idade Média, por exemplo, fizeram sucesso as famosas Danças Macabras. Homens e mulheres desfilavam diante da Morte, que ouvia suas lamentações e depois os recebia com uma foice. Era um carnaval tão otimista quanto uma segunda-feira chuvosa depois do feriado.

Já o Renascimento tratou de devolver um pouco de glamour à brincadeira e mais elegância para a bagunça. Os bailes de máscaras ganharam força, especialmente na França e na Itália. Era o começo da longa tradição carnavalesca de fingir ser outra pessoa por algumas horas. Uma prática que mais tarde seria aperfeiçoada pelos políticos em período eleitoral. A ideia era simples: esconder o rosto para revelar a personalidade. Ou, em muitos casos, esconder a personalidade para não ser reconhecido no dia seguinte. No fundo, os nobres descobriram um princípio universal: quando ninguém sabe quem você é, a chance de fazer besteira aumenta consideravelmente.

Nos séculos seguintes, os bailes mascarados se espalharam pela Europa. Em Londres, um famoso baile promovido por artistas reuniu pessoas fantasiadas de grandes mestres da pintura, reis, príncipes e outras celebridades da época. Foi talvez o único carnaval da história em que alguém podia encontrar um monarca, um pintor renascentista e um aquarelista bêbado conversando civilizadamente no mesmo salão.

Assim, pouco a pouco, o carnaval deixou de ser apenas uma explosão de excessos para adquirir também uma dimensão artística. Virou desfile, espetáculo, teatro, música e fantasia. Sobreviveu a impérios, guerras, pestes, revoluções, ditaduras, crises econômicas e até a cantores desafinados puxando marchinhas. Mas, no fundo, manteve intacta sua essência milenar: reunir pessoas dispostas a esquecer os problemas da vida por alguns dias e criar outros completamente novos para resolver depois da Quarta-Feira de Cinzas.

sábado, agosto 01, 2026

Apresentação básica do Telecoteco do Balacobaco

 


Tanto telecoteco quanto balacobaco são daqueles vocábulos genuinamente brasileiros que parecem ter sido inventados depois da terceira cerveja e antes do primeiro tira-gosto. São expressões onomatopeicas criadas para reproduzir ritmos musicais e definir tudo aquilo que é animado, excelente, arretado ou simplesmente bom demais para caber num adjetivo comum. Ambas nasceram sob a tutela da boemia e cresceram soltas pelas ruas, botequins e gafieiras do Rio de Janeiro.

“Balacobaco” apareceu no início do século passado para designar uma festa de lascar, uma figura daquelas que chegam e já fazem metade da alegria do ambiente ou qualquer coisa digna de arrancar um “rapaz, isso é do balacobaco!”. A expressão ganhou passaporte para a eternidade quando Ary Barroso a transformou em samba nos anos 1930.

Já “telecoteco” nasceu da criatividade dos antigos batuqueiros de botequim, uma categoria profissional não reconhecida pelo Ministério do Trabalho, mas fundamental para a cultura nacional. Era a palavra usada para imitar a levada do samba, o repique dos tamborins e aquela batucada que faz até sujeito sem coordenação motora arriscar dois passos. Décadas depois, o termo ganhou projeção nacional pelas mãos de Oswaldo Sargentelli, portelense, botafoguense e divulgador oficial da alegria em horário comercial.

Feitos os necessários esclarecimentos etimológicos – porque até a malandragem merece rigor acadêmico de vez em quando –, posso afiançar que este “Telecoteco do Balacobaco (Histórias de Samba, Carnaval e Futebol)” é uma antologia de causos, anedotas, lembranças e exageros cuidadosamente selecionados para reproduzir o ambiente das lendárias mesas de bar de antigamente.

Daquelas em que meia dúzia de amigos se reunia para beber, conversar fiado, resolver os problemas do mundo sem jamais ser consultada para isso, contar histórias improváveis e cantar músicas com a absoluta convicção de que estavam melhores que os artistas do rádio. Naquele tempo, ninguém saía da mesa sabendo exatamente o que tinha acontecido, mas todos voltavam para casa certos de que a noite havia sido memorável. Afinal, a conversa era gratuita, a gargalhada era coletiva e a mentira bem contada ainda não pagava imposto.

Mas este e-book gratuito não surgiu por geração espontânea nem por intervenção de algum santo padroeiro dos botequins. Sua existência deve-se ao apoio do poeta, escritor, compositor e sambista Bosco Saraiva, um dos fundadores do GRES Reino Unido da Liberdade e botafoguense da mesma estirpe de Oswaldo Sargentelli – o que, convenhamos, já constitui um traço de personalidade suficientemente peculiar. Por essa razão, antes de prosseguir viagem, precisamos abrir um parêntese. E, como todo bom parêntese brasileiro, ele talvez demore um pouco mais do que o previsto para terminar.


Sim, porque há pessoas que passam pela vida ocupando cargos. E há aquelas raras que ocupam um lugar permanente no coração de um povo. Bosco Saraiva pertence a essa segunda categoria. Ao longo de sua trajetória pública, foi vereador, presidente da Câmara Municipal de Manaus, deputado estadual, deputado federal, vice-governador e superintendente da Suframa. Cargos importantes, sem dúvida. Funções que exigem liderança, coragem e compromisso. Mas quem conhece verdadeiramente Bosco Saraiva sabe que sua maior obra nunca coube em um gabinete, nem se resumiu a um mandato. Sua grande missão sempre foi defender a alma do povo.

Para quem não lembra, Bosco Saraiva foi o autor da Lei Municipal nº 362/1996, que instituiu a meia-entrada estudantil em eventos culturais, esportivos e de lazer em Manaus. Enquanto muitos enxergavam a cultura popular apenas como festa, espetáculo ou entretenimento, Bosco Saraiva via nela algo muito maior: a memória viva de uma gente, a identidade de comunidades inteiras, a herança que liga os mais velhos aos mais jovens e impede que um povo se esqueça de quem é. Por isso, em todos os lugares por onde passou, carregou consigo uma bandeira que jamais abandonou: a valorização da cultura popular.

Foi amigo das escolas de samba quando elas precisaram de apoio. Foi parceiro dos grupos folclóricos quando lhes faltavam recursos e reconhecimento. Foi defensor das cirandas, dos bois-bumbás, das quadrilhas juninas e dos cordões de pássaros quando muitos ainda não compreendiam a dimensão cultural e social desses movimentos.

Bosco Saraiva nunca viu apenas fantasias, alegorias, tambores ou apresentações. Ele enxergava as pessoas. Enxergava os artesãos que passavam noites inteiras criando beleza com as próprias mãos. Enxergava os músicos, os costureiros, os brincantes, os mestres da cultura, os jovens que encontravam na arte um caminho de dignidade e esperança.


Talvez por isso seja tão querido. Porque sua luta nunca foi apenas por eventos ou festivais. Foi pelas pessoas que dão vida a eles. Ao longo dos anos, milhares de artistas populares encontraram nele um aliado sincero. Alguém que não aparecia apenas nos dias de festa, mas que permanecia presente nas horas difíceis, quando era preciso defender recursos, garantir espaço, conquistar respeito e preservar tradições. Sua história demonstra que a política pode ser muito mais do que disputa de poder. Pode ser instrumento de proteção daquilo que um povo tem de mais precioso: sua cultura, sua memória e sua identidade.

Hoje, quando vemos uma escola de samba desfilar com orgulho, um boi-bumbá emocionar multidões, uma quadrilha evoluir com propriedade, uma ciranda reunir gerações ou um cordão de pássaros manter viva uma tradição centenária, existe um pouco da dedicação de homens como Bosco Saraiva presente em cada canto dessa celebração.

Seu legado não está apenas nos documentos oficiais ou nos registros da vida pública. Está nos batuques que continuam ecoando, nos versos que continuam sendo cantados, nas danças que continuam sendo transmitidas de pais para filhos. Está, sobretudo, na gratidão de um povo. Porque os cargos passam. Os mandatos terminam. As homenagens um dia se encerram. Mas o amor dedicado à cultura permanece.

E permanecerá enquanto houver um tambor rufando na noite amazônica, uma bandeira tremulando na avenida, um boi entrando na arena, uma quadrilha ecoando sua sanfona, uma ciranda girando na praça ou um pássaro encantado abrindo suas asas no imaginário popular.

Nesses momentos, mesmo sem ser anunciado, Bosco Saraiva continuará presente. Como amigo, como defensor da cultura, como homem público de rara sensibilidade. E, acima de tudo, como alguém que compreendeu que preservar as tradições do povo é uma das mais nobres formas de amar sua terra e sua gente.

Esse e-book gratuito que você tem nas mãos é mais uma pequena contribuição do Bosco Saraiva para manter viva a nossa memória cultural, na medida em que sua participação foi decisiva para a publicação da obra. E é por isso, pelo dever da gratidão e da amizade, que tenho me irmanado a ele há mais de 40 anos em todas as suas lutas em prol da cultura popular. Noblesse oblige.

 

Nota da Redação: A ideia aqui será publicar diariamente cada um dos 110 causos do e-book. Mas se alguém quiser logo ler o livro inteiro, basta entrar no Portal Kandyru com KY (https://kandyru.com.br/) e acessar a categoria Boemia que o e-book está pronto para download.

Waldick Soriano, Um Ídolo em Manaus



Por José Rocha

Era um baiano que se tornou famoso na pauliceia desvairada, mas foi na Manaus de mil contrastes que encontrou um de seus públicos mais apaixonados.

Com seu estilo brega-romântico, Waldick Soriano cantou, encantou e conquistou uma legião de admiradores, tornando-se um verdadeiro ídolo dos manauaras.

Antes da fama, perambulava pelas ruas de São Paulo engraxando sapatos, sempre cantarolando. Boêmio inveterado e conquistador, acabou sendo descoberto por alguém que enxergou talento naquele engraxate.

Em 1960, gravou seu primeiro disco de vinil pela gravadora Chantecler, intitulado Quem És Tu. O lançamento passou praticamente despercebido em São Paulo. Sem sucesso, Waldick voltou à antiga rotina de engraxate.

Seis meses depois, porém, seu empresário apareceu com um paletó novinho e uma passagem aérea. A notícia era surpreendente: o disco havia estourado justamente nos cabarés de Manaus.

A partir daí nasceu uma história de amor entre o cantor e a capital amazonense. Waldick apaixonou-se pela cidade e, principalmente, pelas caboclas do pedaço. Diziam que era faixa-preta de karatê e um conquistador incorrigível.

As histórias sobre suas aventuras viraram lenda. Contavam que chegou a enfrentar o famoso lutador conhecido como Tigre da Amazônia, levando a melhor na briga e, para completar a fama de conquistador, ainda teria levado a namorada do adversário para São Paulo.

Vinha a Manaus até quatro vezes por ano. Gostava de cantar nos antigos cabarés e tornou-se uma figura querida no bairro de Educandos, onde frequentava lugares tradicionais, como a Peixaria São Francisco, o Bar São Domingos e o Cine Vitória.

Em 1963, já era um artista conhecido em todo o Brasil. Em apenas três anos de carreira havia gravado cerca de uma dúzia de discos.

Mesmo assim, jamais esqueceu a cidade que o acolheu com tanto carinho. Como prova desse afeto, gravou o LP Manaus, Meu Paraíso, cuja canção dizia em um de seus versos:

“Adeus, Manaus! Está chegando a hora da partida... Adeus, Manaus! Meu Deus, será por toda a minha vida!”

Quando Waldick não estava em Manaus, seus admiradores tratavam de manter viva a sua imagem. Os cantores Abílio Farias e Nunes Filho, considerados os “Waldicks do Amazonas”, apresentavam-se vestidos de preto, usando paletó, gravata, chapéu e óculos escuros, numa homenagem ao estilo inconfundível do ídolo.

Entre todos os seus fãs, talvez nenhum tenha sido mais dedicado do que o saudoso Jokka Loureiro, cantor, compositor e proprietário de uma peixaria em Manaus.

Jokka reuniu uma coleção impressionante de discos, fotografias e lembranças de Waldick Soriano. Os dois cultivaram uma amizade sincera. Gostavam de conversar, cantar, tomar uma boa cachaça e reviver a boemia que marcou uma época da cidade.

Eu mesmo guardo uma lembrança especial. A única vez em que vi Waldick Soriano foi no dia da final da Copa do Mundo de 1970. Eu ainda era um menino e comemorava a vitória do Brasil sobre a Itália na Avenida Eduardo Ribeiro. Foi então que avistei o cantor tomando uma birita em um bar ao lado do Teatro Amazonas. A cena ficou gravada para sempre na minha memória.

Durante cerca de quarenta anos, Waldick manteve uma relação de carinho com Manaus.

Esteve na cidade pela última vez em 2002. Em 2006, recebeu o diagnóstico de câncer de próstata e, dois anos depois, faleceu no Instituto Nacional de Câncer, no Rio de Janeiro.

Waldick Soriano partiu, mas deixou muito mais do que discos e canções. Deixou lembranças, histórias e um vínculo afetivo com Manaus que poucos artistas conseguiram construir.

Para os manauaras de sua geração, ele não foi apenas um cantor de sucesso.



Foi, acima de tudo, um ídolo que fez da cidade um dos capítulos mais marcantes de sua vida.

sexta-feira, julho 31, 2026

E-book gratuito reúne histórias bem-humoradas sobre o universo do samba, do carnaval e do futebol



Manaus ganha neste sábado, 1º de agosto, mais uma obra dedicada à preservação da memória de sua cultura popular. A partir das 15h, a quadra do GRES Reino Unido da Liberdade será palco do lançamento do e-book “Telecoteco do Balacobaco – Histórias de samba, carnaval e futebol”, do escritor Simão Pessoa. A publicação será distribuída gratuitamente ao público.

Em linhas gerais, o e-book reúne dezenas de histórias inspiradas em fatos reais que circularam durante décadas nos bastidores das rodas de samba, dos desfiles carnavalescos e dos campos de futebol. Com texto leve, irreverente e recheado de humor, a obra resgata episódios curiosos protagonizados por personagens que ajudaram a construir a história do samba em Manaus e no Brasil.

Entre os nomes que desfilam pelas páginas do livro estão ícones como Chico da Silva, Aroldo Melodia, Leci Brandão, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Mestre Marçal, Jamelão, Beth Carvalho, João Nogueira, além de sambistas, carnavalescos, dirigentes, músicos, foliões e figuras lendárias da cena cultural amazonense.

Mais do que provocar boas gargalhadas, “Telecoteco do Balacobaco” também funciona como um precioso registro da memória afetiva do carnaval e do samba. São narrativas que misturam irreverência, emoção e um olhar carinhoso sobre personagens que marcaram época, preservando histórias que normalmente sobreviveriam apenas na tradição oral.

Ao longo da obra, o leitor encontra episódios inusitados, situações improváveis e causos que parecem inventados, mas que aconteceram de verdade. O resultado é um mosaico bem-humorado da boemia, da criatividade e do espírito irreverente que sempre acompanharam o samba e o carnaval brasileiros

Segundo o autor, a proposta do livro é celebrar a alegria como patrimônio cultural. “Essas histórias mostram que o samba também é feito de encontros, improvisos, amizades, travessuras e momentos inesquecíveis. São pequenas crônicas de um Brasil bem-humorado que merece ser lembrado”, afirma Simão Pessoa.

O lançamento acontece em um cenário simbólico: a quadra da Reino Unido da Liberdade, uma das mais tradicionais escolas de samba da Amazônia, espaço que há décadas reúne gerações de sambistas e amantes do carnaval.

A entrada é gratuita, e o público poderá fazer o download do e-book sem qualquer custo, ampliando o acesso a uma obra que homenageia personagens históricos do samba e preserva um importante capítulo da cultura popular brasileira.

terça-feira, agosto 12, 2025

Ele ousou lutar...

 


Por Mouzar Benedito

No próximo dia 16 de agosto tem um evento muito especial em Belo Horizonte, e quero falar dele, mas vou começar do começo, como se diz.

Era tempo de ditadura braba, governo Garrastazu Médici, em setembro de 1971, quando fui passar uns dias na minha terra, Nova Resende. Estava num churrasco com amigos mais velhos, chegou um conhecido e começou a falar no ouvido de alguns deles, e todos faziam cara de espanto, ficavam sérios.

Desconfiado, cheguei nele e cobrei: “Do que estão falando? Quero saber também”. Ele respondeu: “Prenderam o filho do Quita. Ele é acusado de terrorismo”.

Quita era o apelido do Dr. José Gonçalves de Rezende, nosso conterrâneo, desembargador em Belo Horizonte. O filho dele que foi preso era o Zé Roberto, que eu não conhecia, porque mudou-se de Nova Resende quando eu era muito criança.

Eu sabia o que aconteceria com ele: muita tortura, talvez até a morte na prisão. Mas minha sensação foi estranha, de orgulho. Saber que um conterrâneo participava da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), era guerrilheiro contra a ditadura, me deu a sensação de que minha terra tinha motivo para orgulhar-se de um filho que não fugiu à luta.


Visitas aos presos políticos

Em 1978 tive que me mudar pro Rio de Janeiro. Em São Paulo eu estava no que chamavam “lista negra” e não tinha como sobreviver, porque fui demitido do Sesc por causa da participação na imprensa alternativa, e ninguém me dava emprego. Encontrei uma prima do Zé Roberto que morava lá, a Cleuza. No início de 1979, ela me procurou informando que abriram a possiblidade de presos serem visitados por amigos, com um limite de três visitantes para cada um, tinha comentado com o Zé Roberto sobre minha militância e ele queria me conhecer. Perguntou se eu topava ir ao presídio da Rua Frei Caneca... Topei, claro. A preocupação dela, me perguntando se topava era porque a mera visita a presos políticos era vista como meio perigosa, já dava “ficha no Dops”, segundo diziam.

Fiquei impressionado. Tive que passar por sete grades para chegar à ala dos presos políticos, sendo mal-encarado em cada uma delas, e entre a sexta e a sétima fui revistado de alto a baixo. Tive até que esvaziar todos os bolsos, tirar o sapato e a meia para verem se tinha algum papelzinho com qualquer recado para eles, e abrir o maço de cigarros (eu fumava, na época) que também foi revistado com rigor... Dava mesmo para se sentir ameaçado visitar os presos políticos.

Uma ala antes da que eu ia, ficava a dos presos pertencentes ao Esquadrão da Morte, cujos visitantes entraram ao mesmo tempo que eu, e vi que ninguém era revistado. Uma mulher levava com uma caixa que me disse conter um bolo de aniversário, poderia ter armas de fogo poderosas dentro.

Havia uns 70 presos lá, e conversei não só com o Zé Roberto, mas com vários deles. Comentei com o Zé Roberto sobre a pena que ele devia cumprir: duas prisões perpétuas mais 69 anos de cadeia. Teria que morrer duas vezes e ter uma terceira vida bem longa para cumprir tudo. Não fui criativo: todo mundo falava isso, até em tom de piada.

As duas condenações à prisão perpétua foram por participação no sequestro dos embaixadores da Alemanha, trocado por 45 companheiros que estavam presos e sendo torturados, e da Suíça, trocado por 70 presos igualmente vítimas de torturas.

Na hora me surgiu a ideia de fazer matérias sobre presos políticos pro jornal Em Tempo, muito combativo, que ajudei a fundar, mas que tinha me afastado. Entrevistei presos e fui anotando. Mas, na hora de sair, me recomendaram que decorasse o que escrevi e queimasse o papel, porque seria revistado com rigor na saída também. Aconteceu mesmo. Para não esquecer o que tinha escrito, entrei num bar em frente ao presídio, pedi uma pinga, uma cerveja e uma folha de papel de embrulho e escrevi tudo.

Em casa, à noite, fiz uma matéria e mandei pro jornal, pedindo que inventassem um pseudônimo pra mim, porque queria continuar visitando os presos e fazer matérias com eles, e se assinasse com meu nome me proibiriam de fazer novas visitas. Amigos gozadores me arrumaram o pseudônimo Rezende Valadares Netto, justificando: Rezende (com z), porque sou de Nova Resende (com s); Valadares porque Minas Gerais teve um governador fazedor de média durante a ditadura anterior, Benedito Valadares, e brincaram que todo mineiro era fazedor de média; e Netto, com dois tt, só pra dar um charme.

Continuei fazendo matérias e notas sobre os presos políticos pro Em Tempo, assinando Rezende Valadares Netto, ou RVN, e retirando clandestinamente material produzido pelos presos políticos, e também pôsteres que produziam, para vender aqui fora e gerar uma grana para comprarem algumas coisas que necessitavam e melhorar suas condições lá dentro.

A disposição do Em Tempo para publicar tudo sobre presos políticos, incluindo duas listas de torturadores (participei do encaminhamento da segunda delas pro jornal) acabou merecendo o prêmio Vladimir Herzog, concedido pelo Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo.

Cachaça de abacaxi

A vida na cadeia é difícil e algumas coisas ajudam a aliviar um pouco, e elas eram muito valorizadas pelos presos. Uma delas era cigarro, que quase todas visitas levavam (eu também) e bebidas alcoólicas, totalmente proibidas. Os presos criaram um “alambique” clandestino, feito com uma panela de pressão, uma serpentina que saía do alto da panela e passava por dentro de um balde de água fria. O vapor saía pela serpentina, condensava ao passar pela água fria e pingava uma cachacinha razoável: experimentaram várias frutas e a que deu pinga de melhor qualidade foi o abacaxi. E as visitas levavam abacaxis para eles. Imagino que os carcereiros deviam pensar: como esses presos gostam de abacaxi!

A fruta era esmagada e colocada num balde para fermentar. O balde ficava escondido na cela, e quando estava na hora certa destilavam de madrugada. Os dois melhores alambiqueiros do presídio eram o próprio Zé Roberto e outro mineiro, o Manoel Henrique. Mineiros não negam fogo, eu brincava. Beberiquei um pouco dessa cachaça durante as visitas.


Eles não foram anistiados

Acabei me tornando amigo de vários presos, especialmente do Zé Roberto, que além de tudo era o conterrâneo que me dava orgulho. Eles conversavam comigo como se eu fosse um deles, chegaram a pedir minha opinião sobre uma greve de fome que pretendiam fazer, porque o projeto de lei da Anistia que o então presidente, general Figueiredo, mandou ao Congresso anistiava mais os torturadores e demais participantes da ditadura do que suas vítimas. Respondi que não podia dizer que era a favor da greve, pois quem passaria fome eram eles. Falar pros outros fazerem greve de fome é fácil. Mas se fizessem, eu daria o apoio que pudesse. Fizeram, e a greve de fome durou 32 dias!!! O projeto aprovado não atendeu ao que reivindicavam, mas não tinha mais sentido continuar.

A Anistia anistiou mesmo os torturadores e colaboradores da ditadura, mas criou-se uma situação em que o Judiciário se viu forçado a fazer revisão de penas absurdas ditadas pelos tribunais militares. E as penas do Zé Roberto foram reduzidas a 15 anos de prisão. Como estava preso havia oito anos e sete meses, pôde sair em condicional, depois de tentativas de entraves por um juiz.

Quando ele saiu, fizeram uma festa em sua homenagem, num apartamento no nono andar de um prédio e ele ficou quase o tempo todo na janela, olhando a rua e o movimento lá embaixo. E me contou mais ou menos assim: “Eu mesmo fiquei curioso por ter feito isso e concluí: passei quase nove anos preso, só dava para olhar para cima, pelas pequenas janelas das celas; foi a primeira vez depois desses anos que pude olhar para baixo”.

Ouvidor da polícia

Libertado, voltou para Belo Horizonte, terminou o curso de direito interrompido desde que entrou na clandestinidade e tornou-se advogado de movimentos populares. Quando o governador Eduardo Azeredo resolveu criar a Ouvidoria de Política, pediu aos movimentos de Direitos Humanos que indicassem o ouvidor. Escolheram o Zé, por unanimidade.

Antes que fosse nomeado, a cúpula da PM do estado foi falar com o governador, pedindo que não o nomeasse porque, segundo ela mesma, ele foi muito torturado e “poderia querer se vingar da polícia”.  O governador pediu então que indicassem outra pessoa, mas os movimentos de Direitos Humanos se negaram: “Se não for ele, não indicamos ninguém”. E Azeredo acabou cedendo. Zé Roberto não se vingou da polícia, mas foi um ouvidor eficaz, dedicado integralmente a apurar crimes cometidos por ela. Logo de cara apareceu um jovem morto perto do aeroporto da Pampulha e a PM informou que era resultado de uma briga de quadrilhas.

Mas o Zé Roberto viu o cadáver e não aceitou essa versão: o jovem tinha muitos sinais de tortura e ele sabia bem o que era isso, pois foi barbaramente torturado durante 30 dias quando foi preso. Acabou descobrindo que o rapaz foi torturado até morrer.

Ele largou tudo para dedicar-se integralmente à Ouvidoria.

 


O livro “Ousar Lutar”

Um dia, conversando numa mesa de bar de BH, estávamos ele, a mulher, Beatriz, e o casal amigo Virgílio e Laura. Na época, o Zé era muito convidado para fazer palestras sobre a resistência à ditadura.

Quando ele foi ao banheiro, o Virgílio me disse que estava tentando convencer o Zé a escrever um livro sobre sua história, não para posar de herói, mas para que as novas gerações entendessem como é que podia jovens em plena fase de “aproveitar a vida” entrarem para uma luta com pouquíssimas chances de vitória e muitas de ser preso, torturado e morto, ou exilado. Ele não queria escrever, achava que podia ser mal interpretado.

Falei: “Deixa comigo...”. Quando o Zé voltou do banheiro, falei com ele: “Você tem dois filhos pequenos e um jovem do primeiro casamento, de antes de ser preso. Este último sabe bem da sua história, mas os dois pequenos, quando estiverem crescidos podem não entender direito e devem passar por provocações sobre você ter participado de sequestros e ter sido preso, e precisarão entender que os sequestros e outras ações tinham um sentido muito diferente do que podem querer lhe atribuir”. E concluí: “Você devia escrever um livro contando tudo. Se achar que não ficou bom, guarde os originais para os seus filhos...”.

Ele me respondeu: “Se você escrever comigo, eu topo”. Pronto! Eu não poderia me negar, e topei. Escrevemos. O título escolhido por ele foi “Ousar Lutar – Memórias da guerrilha que vivi”. “Ousar lutar, ousar vencer!” era o lema da VPR.

Contatei a Boitempo, editora que eu achava mais apropriada para a publicação, ela topou publicar e entregamos os originais. No dia em que o livro entraria na gráfica, há 25 anos, em agosto do ano 2000, ele teve um infarto e morreu. Tristeza imensa.

Ele era tão querido por sua luta e sua integridade que o lançamento foi um grande acontecimento, com direito a uma atividade na sede da OAB e um público enorme. Para se ter ideia, foram vendidos 460 exemplares do livro.

 

Homenagem dia 16

O amigo Virgílio me telefonou recentemente para informar que foi organizada uma atividade homenageando o Zé Roberto, no aniversário dos 25 anos de sua morte.

Vai ser no Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania, de Belo Horizonte, dia 16 próximo, a partir das 16h. Terá, entre outras coisas, a presença dos seus filhos, a exibição de um filme sobre os presos, falas de companheiros de prisão e de pessoas que estavam presas e torturadas e saíram em troca de embaixadores sequestrados, leitura de trechos do nosso livro...

Eu gostaria de ir e levar uma relíquia: quando terminávamos de escrever o livro, sugeri que ele fizesse uma pinga de abacaxi como as que fazia no presídio, para os presentes beberem no lançamento. Ele fez um garrafão. No lançamento do livro, a Beatriz, sua viúva, levou a bebida e sobrou um pouquinho, que ela me deu e eu trouxe para São Paulo, mas nunca tive coragem de acabar com ela. Seria uma ocasião apropriada para bebermos o que resta. 

Mas não vai dar. Questões de saúde me impedem de viajar, mandei uns pequenos vídeos que gravei lembrando dele, com saudade. No dia da homenagem vou beber aqui uma dose da cachaça feita por ele. Um brinde ao grande amigo que não fugiu à luta!

segunda-feira, agosto 11, 2025

Mais Pá, Pow, e menos viadagem!

 


Via e-mail, o mano Jorge Durão, lá de Dunedin, na Nova Zelândia, manda um papo reto:

– Porra, poeta, sacanagem deixar de postar aqui, depois de 3 milhões de pessoas (não são robôs da Tailândia dando like em redes sociais, te orienta!) te prestigiarem. Como é que fico?!

Tento ser diplomático. Biritamos tanto discutindo literatura em alguns dos botecos mais sórdidos de Manaus que seria uma sacanagem eu não responder a essa dedada nos olhos.

– Mano velho, estou com um site chamado “Kandyru com KY” e, de vez em quando, posto algumas abobrinhas interessantes por lá! Entra nele e se diverte...

Ele devolve a oferta com uma declaração de guerra:

– Teuku, mano! Teuku, mano! Já fui no site! Muito afrescalhamento pra quem quer te ler! Porrada de compartimentos, boemia aqui, literatura ali, vai tumanuku... Aqui é diferente: é pá, pow e a lebre está morta!... Não precisa abrir portas secretas, invocar Harry Porter (ou Carlos Castañeda) e outras bobagens... Se oriente!

O sacana está certo. Sou um filho da puta. Foi aqui que consegui 3 milhões de views. Não posso tratar como um patinho feio. Até porque parte da minha história foi contada nesses posts.

Se não bastasse isso, lá, onde o Jorge Durão, a Marília e os dois moleques (Heitor e Enéas) estão morando há alguns anos, também deu muitas coisas boas.

Pra quem não sabe, Dunedin, na Ilha Sul da Nova Zelândia, foi o epicentro de uma cena musical indie vibrante e influente na década de 1980, com bandas como The Clean, The Chills e The Verlaines, muitas delas associadas à Flying Nun Records.

O “som de Dunedin”, caracterizado por vocais monótonos, guitarras jangly e uma estética lo-fi, ganhou reconhecimento internacional, especialmente nas rádios universitárias.

A Flying Nun Records também ajudou a impulsionar a música indie neozelandesa para o cenário global, influenciando bandas como Pavement, Dinosaur Jr. e Neutral Milk Hotel.

Não é pouca porcaria. Sem contar que lá tem muita gata linda! Do tamanho do meu sapato. De leve...

quinta-feira, janeiro 02, 2025

Adeus, 2024, Alô, 2025!

 Aniversário da minha sobrinha Thandra Sena, no dia 31, só com a presença de parentes (tias, primos, filhos, sobrinhos e netos). É gente pra dedéu... Vai vendo...





















segunda-feira, agosto 05, 2024

 



Por Mouzar Benedito

Li a notícia da morte do cineasta José Mojica Marins, conhecido aqui como Zé do Caixão, e no exterior como Coffin Joe, e isso me provocou algumas lembranças.

Lá pelo final dos anos 1960, eu tinha o hábito de frequentar um restaurante que servia uma ótima paella (por favor, leitores, a pronúncia espanhola é paelha – paeja é pronúncia argentina). Era rico? Nadinha. Era funcionário público e ganhava pouco. Mas na época dava para traçar com alguma regularidade essa comida que hoje custa muito caro.

O restaurante a que me refiro, de cozinha espanhola, chamava-se “Bosque de Viena”. Nada a ver, né? E se o nome austríaco destoava, a música ao vivo também: nada de flamenco ou algo parecido, era música latino-americana, executada por paraguaios exilados em São Paulo, fugindo da ditadura de Stroessner.

Localizado na rua Vitória, na região conhecida como “Boca do Lixo”, no centro de São Paulo, o “Bosque de Viena” era bem barateiro, e frequentado por gente meio dura como eu e também por jornalistas e artistas, entre eles o Zé do Caixão. Vi muitas vezes lá o Zé do Caixão. Nunca conversei com ele, mas olhava curioso suas unhas enormes, imaginando a dificuldade dele para certas tarefas, como tomar banho e limpar-se no banheiro.

Bom, antes de ir para outro assunto sobre ele, esclareço para jovens de hoje que talvez nem tenham ouvido falar da “Boca do Lixo”. Tinha esse apelido por ser área de “baixa prostituição”. Havia também uma área de “alta prostituição”, com prostitutas de “alto nível”, funcionando em boates frequentadas por empresários. Localizada no entorno da rua General Jardim, era chamada de “Boca do Luxo”.

Agora um assunto que parece não ter nada a ver com estas lembranças: a Volkswagen lançou um carro muito bom, mas todo “quadrado”. Não era como uma Kombi, era como um carro comum, com partes mais baixas na frente (do motor) e atrás (porta-malas). Só que era todo com linhas retas, com vidros da frente e de trás descendo em 90 graus, e não inclinados. Logo foi apelidado de Zé do Caixão e acabou tendo a produção interrompida porque poucos o compravam, por causa do apelido.

Aí chego em mais uma história.

Quando a profissão de jornalista foi legalizada e passou-se a exigir diploma para seu exercício, havia muitos jornalistas sem curso nenhum. Para esses, deram dois anos para se legalizarem, pedirem o registro profissional no Ministério do Trabalho. Mas muitos deles não levaram a sério essa exigência achando que a lei não pegaria. Mas pegou. Aí os jornais deram ultimato: ou arrumam um diploma ou serão demitidos. Como não dava para “arrumar” um diploma assim de repente, tiveram a opção de fazer o curso de jornalismo e não serem demitidos porque estavam se legalizando.

A Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero foi a mais procurada por esses profissionais já experientes. Motivo? Tinha fama de ser boa, mas o principal é que nela o curso durava apenas três anos, enquanto em outras faculdades durava quatro anos.

Em 1974, eu não era jornalista ainda, mas queria ser, especialmente por causa da imprensa alternativa. Era, para mim, a oportunidade de ter uma profissão que ao mesmo tempo era possibilidade de militância contra a ditadura.

Foi muito interessante. Convivi lá com jornalistas já experientes e competentes, mas também tinha umas figurinhas difíceis. Por exemplo: Roberto Nunes Morgado, que já era juiz de futebol e, amalucado nas arbitragens, homossexual assumido, ficou conhecido como “Pantera Cor de Rosa”.

Algumas coisas que ele fez ficaram famosas, como a expulsão da PM que fazia a segurança em um jogo. Mostrou cartão vermelho para os policiais. E houve um jogo em que apitou sem entrar em campo, correndo pela lateral. Depois disso, se me lembro bem, ele foi afastado das arbitragens. Sei com certeza que uma vez pediram exame de sanidade mental dele, por causa de coisas como essas.

Jogadores de futebol, tinha alguns, inclusive de times da primeira divisão, como o Lance, atacante do Corinthians, e um defensor do Palmeira cujo nome não me lembro.

E mais: tinha também um assessor do Zé do Caixão. Mas não era só assessor, participava das filmagens. Já tentei muito me lembrar o nome desse jornalista, mas não consegui.

Numa segunda-feira, em 1976 ou 77, ele chegou à faculdade todo cheio de curativos. Curiosos, perguntamos a ele o que tinha acontecido.

Contou que o Zé do Caixão gostava de dar o maior realismo possível aos seus filmes. As atrizes tinham que ser treinadas para deixar aranhas andando de verdade nos seus corpos, por exemplo. Cenas com cobra, eram com cobras de verdade. E cenas nos cemitérios tinham que ser filmadas de acordo com o que apareceria nos filmes. Então, para uma sequência que se passava à meia-noite de uma sexta-feira, teria que filmar à meia-noite, na sexta-feira. Dessa vez, levou sua equipe para filmar algumas cenas com mulheres nuas em cima de túmulos, dentro do cemitério da cidade de Americana. Na sexta-feira, claro. E as filmagens começariam à meia-noite, com um relógio dando as devidas badaladas.

Acontece que um padre da cidade reuniu um bando de beatas e beatos armados de porretes e, quando ia chegando a meia-noite, essa turma invadiu o cemitério e desceu o porrete em todo mundo. Mulheres, assessores, ninguém escapou das porretadas. Toda a equipe foi parar no hospital.

Nosso colega não teve ossos quebrados, mas seu rosto ficou cheio de esparadrapos. O resto do corpo, segundo ele (que não mostrou) também.

quinta-feira, janeiro 11, 2024

De volta ao meu pardieiro


 Voltando aqui nessa parada. Faz um bocado de tempo, né não? A verdade é bem simples: como perdi uma plêiade de amigos queridos durante o governo autoritário da besta genocida (toc, toc, toc, mangalô três vezes!), tomei a decisão de parar de escrever em blogs, portais e redes sociais. Era uma maneira de protestar silenciosamente contra o pior governo do país desde a redemocratização. Decidi que só voltaria a escrever após um ano de um novo governo democrático. Estou cumprindo essa promessa agora.

Ah, antes que eu me esqueça: votei no Ciro Gomes no primeiro turno. No segundo turno, nem apareci na zona eleitoral. Estou pouco me lixando para bolsonaristas e petistas, mas é forçoso admitir que o Ninefingers é mais democrático que a besta-fera (toc, toc, toc, mangalô três vezes!), que nos desgovernou durante quatro anos. Como em 2026 – seu eu sobreviver a tanto, o que não acredito – já estarei com 70 anos, estarei desobrigado de votar. E posso morrer tranquilo: meu último voto para presidente foi embalado pela esperança de um país melhor. Se o povo não entendeu isso, foda-se o povo!



Nos longínquos anos 80, meu querido amigo Edilson Martins publicou pela Codecri (a editora do Pasquim) um livro emblemático intitulado “Nossos Índios, Nossos Mortos”, que fez a cabeça dos leitores da minha geração. Eu vou me limitar a escrever o nome dos meus índios, dos meus mortos, nessa triste pandemia de que fomos vítimas pelo descaso de um completo amoral. A ressurreição desse blog vai para eles, onde e como estiverem:

 


Antônio Diniz (livreiro, parceiro em alguns livros e meu cunhado). Lucio Preto (quarto zagueiro do Sancol, Atlântica e Penarol, de Itacoatiara). Selmo Nogueira (o famoso Caxuxa, das batidas inimagináveis e inesquecíveis da velha Cachoeirinha). Sandoval Amazonas (engenheiro civil, amigo de infância). Robson Franco (jornalista, parceiro em projetos memoráveis). Ivancy Wilkens (campeão amazonense de jiu-jitsu, cria do Reyson Gracie, marido na minha diarista Paula). Roberto Augusto (radialista e jornalista brilhante). Roberto Dinamite (figura de proa do GRES Reino Unido da Liberdade). Antonio Carlos (o “Bem-te-vi”, ex-presidente do bumbá Corre Campo). Marco Aurélio (o rei da sinuca, vascaíno fanático, conhecido como “Pezão”). Sebastião Ferreira (o “Sabá”, parceiro de dominó no Bar da Júlia). Sandro Barçal (professor universitário, marxista confesso e parceiro de gandaia durante mais de 30 anos).

 


Francisco Costa (o “Chico Cavalinho”, engenheiro civil, fundador do GRES Andanças de Ciganos). Miquéias Fernandes (advogado, ex-deputado estadual). José Fernandes (advogado, ex-prefeito de Manaus). Rosa Fernandes (professora, irmã dos outros dois). Ernando Carvalho (o “Papagaio”, figura emblemática do Bar do Armando). Rubem Dário (empresário, primo da minha ex-mulher Dinari Guimarães). Valtinho Almeida (amigo de infância, irmão do “Maraca”). Igson Andrade (o “Bolão”, partideiro de responsa da Praça 14 de Janeiro). Olíbio Trindade (o “Xiri”, contador, primeiro treinador do Murrinhas do Egito). Mário Almeida (empresário, primo do Valtinho). Orlando Almeida (empresário, irmão do goleiro Orlando Mão-de-Onça, primo do Valtinho e do Mário). Arnaldo Fimose (violonista do grupo Pró-Álcool). Caramuru Borges (velho amigo do Pai Simão, desde a época de Santarém, e pai dos queridos Paulo, Zanata e Marcos).

 


Emerson Maia (compositor parintinense do Garantido – “o índio chorou...” – e roqueiro de respeito). Klinger Araújo (cantor parintinense do Caprichoso e piadista em tempo integral). Nonato Lopes (advogado, ex-prefeito de Iranduba). Lourdes Lopes (professora, ex-vereadora, irmã do Nonato). Harrison Almeida (o “Cachito”, zagueiro do Inútil, campeão do torneio início do Peladão em 1975). José Montanha (o simpático e marrento garçom do Bar do Armando). José Rosha (jornalista e cartunista, meu parceiro no Suplemento JC). Luiz Fernando Nicolau (médico, ex-deputado federal). Abelardo Sampaio (o “Belo”, meu primo querido). Cosme Bittencourt (o “Comendador”, meu parceiro de birita e conversas sobre a beat generation). Américo Loureiro (ex-vereador, dono do JAP, o primeiro campeão do Peladão). Homero Diniz (funcionário público, primeiro campeão amazonense de dominó, em parceria com meu primo Giovani Bandeira.)

 


José Roberto Pinheiro (o “Mestre Pinheiro”, fotógrafo, enciclopédia viva da MPB, meu parceiro nas marchinhas da BICA). Luiz Wagner (o “Vavá das Candongas”, empresário, fundador da Bhanda da Bhaixa da Hégua). Marquinhos Barbosa (dançarino de disco music, xerocópia do John Travolta). Raimundo Nonato (o “Pirulito”, eterna Catirina do bumbá Corre Campo, pai do poeta Celestino Neto, o “Lé”.) Izinha Toscano (jornalista, filha do saudoso músico Afonso Toscano). Agnaldo Oliveira Jr. (jornalista premiado). Danyelle Costa (baixista da banda Roxie). Nelson Pilão (partideiro de responsa). Olinda Mattos (irmã dos queridos Titílio e Orlando Carioca). Kayro Robson (partideiro de responsa). Raimundo Noronha (o “Mangará”, fundador do GRES Reino Unido da Liberdade). José Gadelha (advogado). Milton Matos (pagodeiro do grupo Couro Velho). Aldemir Cardoso (empresário, dono das lojas Arsenal).

 


Gilmar Barbosa (o “Gil da Liberdade”, empresário, fundador do GRES Reino Unido da Liberdade). João Sabino Neto (médico cardiologista, parceiro de birita). Arnoldo Carneiro (amigo de infância, irmão do Argemiro). Mário Gilson (professor do IFAM e meu parceiro de aprontos). Francisco Chagas (o “Chaguinha”, advogado, sindicalista, meu companheiro dos tempos de Sharp do Brasil, nos anos 70). Wandinho Manaus (o coração pulsante do GRES Mocidade do Coroado). Wellington Redman (jornalista, coaching, a alegria em pessoa, sobrinho do Didi Redman). Ari Aleixo (empresário, filho da saudosa Otalina Aleixo). Ana Aleixo (advogada, irmã do Ari). Albino Aleixo (advogado, irmão do Ari e da Rosa). Lúcio Bahia (cantador das noites manauaras). José Malheiros (auditor da Sefaz). Victor Hugo (procurador do Estado). Saulo Almeida (auditor da Sefaz). Gilson Ferreira (auditor da Receita Federal).

 


José Alberto (o “Cazuza”, meu primo, tricampeão e três vezes artilheiro estadual pelo Olímpico Clube, no campeonato juvenil de 66-68). Godofredo Gomes (amigo de infância, meu vizinho, pai do DJ Adriano Flashback). Sulamita Farias (empresária, amiga querida dos tempos do Ida Nelson). Kiko Ribeiro (advogado, irmão do ex-prefeito Manuel Ribeiro). Margareth Magalhães (médica, minha companheira de classe no Ida Nelson). Silvia Moraes (irmã do querido Gonzaga do Arsenal). Julio Reciños (médico, vocalista do grupo Conexão Latina). Nilson Torres (empresário, ex-centroavante do Murrinhas do Egito). Carlos Araújo (poeta e agitador cultural, criador da coletânea “Poetatu”). Marcus Cavalcante (advogado, ex-vereador, irmão do Adelson da Ciranda). Armandinho Pascarelli (cantor e compositor do GRES Andanças de Ciganos, irmão do Filica). Joaquim Barros (funcionário público, concunhado do meu irmão Simas).

 


Ricardo Pinheiro (o “Ricardão”, primeiro puxador de samba dos Ciganos). Nádia Lacerda (amiga de infância, esposa do Carlos Lacerda). Ramiro Araújo (ex-prefeito do Careiro da Várzea). Tito Magnani (empresário, diretor do Olímpico Clube). Fernando Monteiro (empresário, um dos herdeiros do grupo S. Monteiro). Mário Uchoa (empresário parintinense, a gentileza em pessoa). Carlos Alonso (engenheiro, ex-presidente do CREA). Enéas Gonçalves (advogado, radialista, ex-prefeito de Parintins). Zé Olhão (eletricista, meu parceiro de birita no Bar do Pedrão). Renê Pessoa (fundador da Quadrilha Junina Sete Quedas). Hilberto Cruz (um dos donos da HM Calçados, meu amigo dos tempos de Philco). Luiz Carlos Barreto (engenheiro, colega de classe na ETFA). Paulo Monte (antropólogo e professor universitário). Luiz Cláudio Dias (o “Macalé”, meu médico urologista, dono de uma risada desconcertante). Lauro Goiaba (ex-jogador profissional do Nacional). Geraldo Dantas (empresário, amigo dos tempos de Ida Nelson). Menandro Tapajós (médico, parceiro de canaviais da pesada).

 


Francisco Cruz (o “Chicão”, ex-procurador geral do MPC, meu parceiro no livro “Amor de BICA”). Rosivaldo Ferreira (publicitário, dono da produtora Proclipe). Marcos Assayag (empresário, irmão do Davi Assayag). Zezinho Corrêa (vocalista da Banda Carrapicho). Ananias Filho (vencedor 18 vezes seguidas, como melhor marcador de quadrilhas pela Juventude na Roça). Paulinho Farias (o eterno amo do bumbá Garantido). Joelson Castro (baixista da banda Randy Kapa). Jander Souza (meu DJ favorito no Canto do Fuxico). Luiz Prado (o “Lula”, funcionário público, irmão do querido Hilário). Marco Gomes (poeta, escritor, fundador – comigo e Arnaldo Garcez – do coletivo anarquista “Gens da Selva”, que agitou a cidade durante duas décadas). Helvécio Nogueira (o “Mamão”, melhor contador de causos portugueses da história).  João Carlos Weil (o “Bazam”, irmão do querido Antídio Weil).

Bom, esses são os meus “principais”, gente com quem eu conversava, discutia, bebia, ria, chorava, xingava, reclamava, amaldiçoava, essas coisas, sem nunca chegarmos às vias de fato. Era muito, muito divertido. Nunca mais voltar a vê-los deve ser carma ou maldição. Vida que segue. Fazer o que?

Recordando a Princesinha do Mar

 


Por Rubem Braga


1. Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.

2. Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.

3. Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniqüidades e de tua malícia.

4. Sem Leme, quem te governará? Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas.

6. Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão.

6. E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.

7. E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska.

8. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.

9. Ai daqueles que dormem em leitos de pau-marfim nas câmaras refrigeradas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.

10. Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.

11. Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.

12. Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.}

13. Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.

14. E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.

15. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?

16. Antes de te perder eu agravarei s tua demência — ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.

17. E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará.

18. E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas.

19. Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.

20. A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis — tudo passará.

21. Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.

22. Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!

Rio, janeiro, 1958


(texto extraído do livro “Ai de ti, Copacabana”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 99)