Março de 1991. Empolgados com os bons frutos colhidos pelo
bumbá Caprichoso por meio do “Movimento Marujada”, os torcedores do bumbá
Garantido residentes em Manaus resolveram fazer seu próprio “Bar do Boi” a
partir da criação informal da associação “Amigos do Garantido”, inspirada no
“Movimento Marujada”.
O principal objetivo da associação era ajudar
financeiramente a Batucada do touro branco. Nos primeiros anos, por uma série
de circunstâncias, o Curral do Garantido – como ficou conhecido o evento
promovido pelos Amigos do Garantido – não conseguiu se firmar em um local
específico, o que desagradava seus torcedores e provocava uma baixa
participação popular nas apresentações do touro branco em Manaus.
O curral começou no Clube Municipal, na Av. Torquato
Tapajós, depois se mudou para o ginásio do Atlético Rio Negro Clube, no centro
da cidade, aí foi para o Clube Nostalgia, na Cachoeirinha, depois foi para a
quadra do GRES Mocidade Independente de Aparecida, e assim por diante.
As dissidências começaram a surgir dentro do movimento
porque não havia jeito de fazer o “boi do povão” virar xodó dos manauaras nem
encontrar um lugar fixo para suas apresentações.
A solução foi fazer uma associação jurídica, de fato e de
direito, e começar a profissionalização na divulgação e promoção dos eventos do
touro branco na capital amazonense. Nascia o Movimento Amigos do Garantido
(MAG), cuja direção até hoje é a responsável pelos ensaios oficiais do boi em
Manaus. Entre as muitas pessoas que abraçaram a ideia, Mencius Benavraham Melo
Figueiredo pode ser considerado uma peça-chave no processo.
Jornalista, compositor, produtor e militante cultural
natural de Parintins, com atuação destacada em Manaus, frontman da banda de
rock autoral Zona Tribal, com três décadas de estrada no cenário amazonense, apresentador,
ao lado de Cid Soares, do programa “Tá Ligado”, transmitido de segunda a
sexta-feira pela Rádio Difusora FM, e colaborador da Revista Cenarium, Mencius
Melo é uma autêntica usina multimídia.
Recordando o início do que seria o MAG, Mencius Melo conta
que em 1994 era diretor administrativo do Garantido, em Parintins, na gestão de
Jair Mendes, quando aconteceu uma reunião na casa de Roseani Novo, em Manaus
para tratar do assunro. Era uma tentativa de unificar os “Amigos do Garantido”.
No final de 1995, o presidente do Garantido era o vereador
José Walmir e outra reunião ocorreu, desta vez em Parintins, na casa do
compositor Emerson Maia, então vice-presidente do boi.
– Acertamos que Marco Aurélio Medeiros e eu tentaríamos mais
uma vez dar uma cara para o Garantido, em Manaus. Nessa fase, eu já havia
espalhado uma centena de convites, por iniciativa própria, na capital do
Estado. Convidei até o governador Amazonino Mendes – lembra, Mencius Melo completando
que em 1995 havia sido aprovado para a Ufam e estava morando em Manaus, o que
facilitou os contatos, mas garante que foi com a entrada do presidente José
Walmir nas articulações que houve a chancela para iniciar o Movimento.
Segundo Mencius Melo, as primeiras reuniões aconteceram na
Associação dos Servidores do INCRA (Assincra), cujo presidente era Marco
Aurélio Medeiros.
– Numa delas, escolhemos o nome que seria dado ao movimento.
Júlio Viana estava presente e, por sugestão dele, decidimos escolher o nome “Movimento
Amigos do Garantido”, o nosso MAG. Era uma homenagem ao primeiro grupo que
tentou hastear a bandeira do Garantido na capital do Amazonas. Então veio o
sucesso no Olímpico Clube e o resto da história todo mundo já sabe – recorda
Mencius Melo.
Irmão dos compositores Tony e Inaldo Medeiros, Marco Aurélio
Medeiros, ex-presidente do MAG, recorda que numa das festas que eram realizadas
na quadra do GRES Aparecida, surgiu o questionamento de por que não fazer os
eventos do Garantido num lugar maior.
– Nessa época, o Mencius Melo frequentava minha casa e
sugeriu, depois de uma festa, que poderíamos fazer algo bem maior. Ele já tinha
experiência no assunto porque idealizou e realizou o Idealizou o “Fronteira
Norte Festival de Rock”, evento fundamental para projetar bandas autorais de
Manaus. Participamos então, logo depois, de uma reunião com a diretoria do boi
em Parintins e fizemos a proposta ao presidente José Walmir. Sugestão aceita,
nós dois voltamos a Manaus e começamos a fazer convites para os torcedores do
Garantido que a gente conhecia na cidade. Começamos a convidar essas pessoas
para se reunir na Assincra, com cada um levando seus amigos. Já nesse encontro
definimos que o nosso bar do boi seria na sexta-feira, para não competir
diretamente com o Bar do Boi do Caprichoso, que acontecia no sábado – recorda.
O nomadismo do boi da Baixa de São José em Manaus,
entretanto, só teve um ponto final em 1996, por interferência direta de Arlindo
Jorge Mubarac, o fundador do Bar do Bodeco, na ICA-Maceió.
Colega de setor de Arlindo Jorge no Tribunal Regional do
Trabalho, o advogado Almerinho Botelho era presidente do Olímpico Clube.
Arlindo era sócio do clube. Durante uma conversa informal entre os dois colegas
de trabalho, Arlindo cantou a pedra:
– Porra, Almerinho, o Garantido não possui um curral fixo e
vive se mudando de um lado pro outro que nem bosta n’água. Teria algum problema
se os ensaios do boi fossem realizados no Parque Aquático do Olímpico Clube?
– Não vejo problema nenhum, parceiro! – explicou o advogado.
– Pede pro pessoal do Garantido me procurar que eu converso com eles!
Dito e feito. Arlindo Jorge relatou sua conversa para Junior
do Garantido, ele falou com o resto da galera vermelha e branca, uma comissão
do touro branco foi conversar com o advogado e os ponteiros foram acertados.
No coquetel para o anúncio da nova parceria, com a presença
de Zé Walmir, presidente do bumbá Garantido, foram expedidos 150 convites, mas
compareceram mais de mil pessoas. Ficou acordado publicamente que o curral do
Garantido funcionaria às sextas-feiras.
Naquele mesmo ano foi fundado oficialmente o Movimento
Amigos do Garantido (MAG), cujo principal objetivo expresso nos estatutos seria
contribuir financeiramente para a solidificação patrimonial e estrutural o
bumbá Garantido. O MAG se tornou responsável pelos ensaios oficiais do boi em
Manaus, incluindo a administração do curral no Olímpico Clube.
Entre os fundadores do MAG estavam Mencius Melo, Marco
Aurélio Medeiros, Brito do BEA, Marconi Jucá, Pampico Bulcão, Edjander Mota,
Maurício Filho, Liduína Moura, Roseani Novo, Julhão Viana, David Melo, Welciane
Jacintho, Felipe Novo, Marcos Cohen, Izoney Thomé, Rivaldo Pereira, Val Batuel
e Amarildo Teixeira.
No primeiro evento realizado no Olímpico Clube, o curral ficou superlotado. O touro branco havia encontrado uma vitrine à altura de suas tradições. Para surpresa de todos, os apoios surgiam naturalmente.
– Ganhamos capa de todos os jornais e um apoio da cerveja
Antártica que estava em seu auge. Vendemos no primeiro evento quase 4 mil
ingressos. Um número muito bom. Nesse ano, 1996, fizemos 17 eventos, todos
batendo recorde de público. Um ano que tivemos os hits “Lamento de Raça” e “Vermelho”,
e a presença do David Assayag vindo de Parintins. Mandamos R$ 150 mil para o
nosso boi, valor que ajudou a comprar um dos galpões da Cidade Garantido, e no
ano seguinte mais R$ 170 mil, que comprou outro espaço – relembra Mencius Melo.
Outro que também tem histórias para contar é o multimídia
Rivaldo Pereira. Ele lembra que conheceu o artista Amarildo Teixeira quando era
diretor de eventos do GRES Vitória-Régia.
Algum tempo depois, numa reunião em Parintins, Amarildo
citou seu nome, numa reunião de diretoria quando estavam sugerindo pessoas para
um projeto do Garantido em Manaus.
– Mencius Melo foi à minha casa e me convidou para uma
reunião no clube da Assincra. Lá eu soube que a ideia era fundar um movimento
para realizar eventos em Manaus. Era o ano de 1996 – recorda.
Rivaldo Pereira diz que procuraram vários locais e optaram
pelo Olímpico Clube, que se tornou um marco para o Garantido na capital.
Na semana do evento, segundo ele, programaram um coquetel
para 150 convidados, entretanto para surpresa geral apareceram mais de mil
pessoas e logo, no primeiro ensaio o Olímpico superlotou.
– Batemos o recorde de público na cidade e já mandamos uma
boa quantia em dinheiro à Parintins. Além disso, quebramos a hegemonia do
contrário em Manaus e tornamos o Olímpico nossa vitrine – relembra o produtor e
apresentador oficial nos palcos do MAG.
Alguns anos depois, o MAG passou a ser dirigido por duas
mulheres: Izoney Thomé e Welciane Jacintho. Para a presidente Izoney Thomé,
estar à frente do MAG era um desafio, mas também um prazer. Ela explicou que o
MAG possui 158 voluntários associados, contudo apenas uma parte atua na
organização de eventos para divulgar as cores do boi Garantido.
Izoney avalia que uma gestão feita por mulheres é diferente
porque há todo um envolvimento emocional no processo, acabando por envolver
todos os familiares e a diretoria termina sendo um grande grupo.
Em 2016, o MAG foi homenageado com uma placa, fincada na
Cidade Garantido, em reconhecimento ao trabalho, realizado ao longo de mais de
duas décadas pelo “Boi do Povão”. O resto é história.


























