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sexta-feira, setembro 18, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 80

O invocado quarto-zagueiro Lúcio Preto

80. Abril de 1984. O Nacional havia contratado vários craques veteranos do futebol brasileiro (o ponta-esquerda Edu, ex-Santos, e o centroavante Dadá Maravilha, ex-Atlético Mineiro, entre outros) e estava se apresentando com todas suas estrelas no estádio Floro de Mendonça, em Itacoatiara, enfrentando o Peñarol. 

O time nacionalino entrou em campo com sua força máxima: China, Marinho Macapá, Murica, Marcão e Reginaldo; Antônio Carlos, Bendelak e Carlos Alberto Garcia; Hidalgo, Dadá Maravilha e Edu

Com dez minutos de jogo, Edu leva uma bola pra perto da bandeirinha de escanteio. O quarto-zagueiro do Peñarol Lúcio Preto avisa pro lateral-direito Tobias:

– Não vai de primeira, que ele vai te driblar! Não vai de primeira, que ele vai te driblar!

O estabanado Tobias faz que não escuta e avança em direção ao ponta-esquerda como se fosse uma vaca braba. Leva um “elástico” do Edu e passa direto pelo atacante, indo parar no alambrado. Edu está com a bola dominada, mas não tem tempo de cruzar: 

Lúcio Preto lhe acerta uma “voadora” um pouco abaixo dos joelhos e o ponta esquerda vai parar no alambrado, com bola, bandeirinha de escanteio e tudo.

– Você tá ficando doido, porra? Você tá ficando doido? – grita Edu pra Lúcio Preto, enquanto massageia a própria tíbia. – Quase que você quebrou a minha perna, seu merda!...

Lúcio Preto faz que não ouve.

Dez minutos depois, Hidalgo enfia uma bola na diagonal para Dadá Maravilha, nas costas do zagueiro Paulão. Lúcio Preto sai na cobertura e divide a bola com o centroavante. Os dois jogadores se chocam com violência e ambos caem no chão. A bola sai pela lateral do campo.

Ainda ajoelhado no gramado e massageando o tornozelo atingido pela patada de Lúcio Preto, Dario resolve provocar o zagueiro:

– Porra, compadre, pra que essa violência toda? Até parece que você não conhece o Dadá Maravilha...

Também de joelhos no gramado e sério que só cu de touro, Lúcio Preto não deixa por menos:

– Não conheço e nem quero conhecer. Eu vim do mato e vou voltar pro mato porque já respondo a dois processos por homicídio. E, se você der bobeira, eu vou quebrar as tuas duas pernas...

Antes que Dadá Maravilha abrisse a boca para fazer a tréplica, Lúcio Preto gritou para o lateral-direito Tobias, que ia passando perto dos dois.

– Ô, Tobias! Vamos jogar sério que tem mais maconha pra gente no intervalo...

Assustadíssimo, Dadá se levantou de campo ainda mancando e pediu pra ser substituído. Estava na cara que ele não tinha mais saúde (nem coragem) para enfrentar um índio homicida com a cabeça cheia de “dirijo”. O Peñarol ganhou o jogo de 2 a 0.

No final do jogo, Edu e Dadá Maravilha fizeram questão de tirar uma fotografia abraçando o zagueiro, com Lúcio Preto no meio dos dois. O centroavante cantou a pedra:

– Isso aqui não é lugar pra ti não, maluco! Vai pro sul!

Edu também incentivou o quarto-zagueiro:

– Você é um zagueiro raçudo, da escola de Moisés, Brito e Fontana, que usam a força física, mas sem deslealdade, e isso está em falta no país. Em qualquer time do sul, você ganha a posição de titular no primeiro treino!

Lúcio Preto preferiu continuar morando em Itacoatiara e defendendo o Peñarol até suspender as chuteiras em 1992.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 79

 


79. Jessé Gomes da Silva Filho, conhecido no planeta Terra como Zeca Pagodinho, nasceu em Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, onde aprendeu samba do jeito certo: em roda de botequim, cercado de mestres que sabiam mais de partido alto do que muito professor sabe de gramática.

Ainda garoto, já improvisava versos com uma facilidade que fazia parecer que rimar era uma função biológica, como respirar ou pedir mais uma cerveja. Em pouco tempo, virou um fenômeno nas rodas de partido alto, disparando estrofes na velocidade de uma metralhadora desregulada.

Em 1981, Beth Carvalho apareceu numa roda do Cacique de Ramos, ouviu aquele rapaz magricela cuspindo versos sem respirar e concluiu que ali havia ouro puro. Levou-o para gravar “Camarão que Dorme a Onda Leva”, parceria dele com Arlindo Cruz. Foi o equivalente sambístico a um jogador ser convocado direto da pelada para a Seleção.

Logo depois, a gravadora RGE reuniu quatro novatos num disco chamado “Raça Brasileira”: Jovelina Pérola Negra, Mauro Diniz, Pedrinho da Flor e Zeca Pagodinho. A ideia era apresentar quatro promessas. O disco vendeu mais de cem mil cópias e tratou de avisar que eles já tinham deixado de ser promessas.

Em 1988, Zeca iria desembarcar pela primeira vez em Manaus para um show exclusivo no Clube do Samba, na Cachoeirinha, numa noite de sábado. Exclusivo. Essa palavra durou pouco.

Quando soube da novidade, Almerinho Botelho, presidente do Olímpico Clube, resolveu que exclusividade era um conceito bastante flexível. Procurou Carlos Moutinho, empresário e um dos sócios do Clube do Samba, e perguntou se havia alguma brecha na agenda. Havia. A sexta-feira.

Carlos Moutinho explicou que bastava pagar o cachê do artista: 600 mil cruzados, divididos em duas parcelas. Almerinho entregou 300 mil na hora e saiu da reunião acreditando que tinha fechado um excelente negócio. Também acreditava em Papai Noel.

A partir daí, entrou em modo campanha eleitoral. Espalhou dez mil cartazes, colocou Kombis com alto-falantes para rodar a cidade, deu entrevistas, distribuiu releases e fez tanta propaganda que, quinze dias depois, metade de Manaus jurava que o verdadeiro show de Zeca Pagodinho seria no Olímpico. A outra metade também.

Os outros sócios do Clube do Samba (Vilson Benayon e Aluísio Brasil) perceberam que a criatura criada pela publicidade estava escapando do laboratório e resolveram melar o contrato. A discussão foi parar nas mãos do advogado Alberto Simonetti Filho, contratado por Almerinho.

Depois de muita conversa, muito bico, muita cara feia e muita matemática criativa, firmou-se um acordo: toda a divulgação passaria a ser responsabilidade do Clube do Samba.

Foi um desastre. Os empresários fizeram tanta economia na propaganda que o público quase concluiu que Zeca Pagodinho tinha desistido da carreira artística para abrir uma peixaria.

No dia do show, Almerinho e Edu do Banjo foram visitar Zeca no hotel. O pagodeiro recebeu os dois já distribuindo sinceridade:

– Porra, Edu... por que vocês não falaram direto comigo? Esse Carlos Moutinho é o maior embaço...

Almerinho explicou:

– Disseram que tinham exclusividade contigo. Só cobraram teu cachê. Seiscentos paus.

Zeca quase caiu da cadeira.

– Seiscentos?! Meu show custa duzentos! Se embolsaram o resto, vão devolver.

A comissão seguiu imediatamente para o escritório de Carlos Moutinho. O clima ficou tão amistoso quanto um clássico Flamengo e Vasco aos 48 minutos do segundo tempo. Depois de muita discussão e de Zeca ameaçar cancelar os dois shows, o empresário devolveu cem mil cruzados da entrada e rasgou, ali mesmo, a duplicata da segunda parcela. Paz selada. Ou quase.

Na noite de sexta-feira, São Pedro resolveu testar a resistência da população de Manaus. Caiu um temporal daqueles que faria Noé pedir abrigo. Quem estava em casa permaneceu em casa. O Olímpico parecia mais um retiro espiritual do que um show de Zeca Pagodinho.

Pontualmente às onze da noite, o cantor subiu ao palco como se estivesse diante de um Maracanã lotado. Cantou “Manera Mané”, “Feira de Acari”, “Pisa Como Eu Pisei” e todos os sucessos do recém-lançado “Jeito Moleque”.

Na plateia, exatas 79 pessoas pagantes e 13 mesas ocupadas. Era praticamente um show personalizado.

Às duas da manhã, enquanto Almerinho fazia contas para descobrir quantos carnavais precisaria organizar para pagar aquele prejuízo, apareceu um emissário do Ecad trazendo a conta dos direitos autorais. Valor da facada: 150 mil cruzados.

Almerinho ficou tão furioso que cogitou resolver a questão com uma navalha – solução pouco recomendada, mas muito popular nas fantasias produzidas pelo desespero. Depois de longa negociação, surgiu um acordo digno de roteiro de comédia. Se Zeca aceitasse fazer uma roda de pagode só para aquela turma, a cobrança desapareceria como dinheiro em bolso de político desonesto.

Zeca topou. Mas estabeleceu suas condições, dignas de um astro internacional:

– Quero uma pizza de muçarela com catupiry... e Brahma bem gelada. Gelada mesmo. Na temperatura véu de noiva.

Pedido atendido. Com a pizza numa mão, a cerveja na outra e o cavaquinho correndo solto, Zeca comandou uma roda de samba até cinco da manhã. O representante do Ecad saiu dali mais feliz do que auditor em promoção de supermercado. E nunca mais apareceu para importunar Almerinho.

No dia seguinte, o show do Clube do Samba lotou. E Manaus adotou Zeca Pagodinho como patrimônio afetivo da cidade. Depois dessa estreia atribulada, ele virou arroz de festa nas rodas de pagode amazonenses – daqueles que ninguém reclama quando aparece de novo no prato.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 78

 


78. O rabugento Jamelão veio fazer um show em Manaus e seus empresários tiveram a brilhante ideia de levá-lo para conhecer o Carrossel da Saudade, da TV Cultura. Brilhante para eles. Para o apresentador, nem tanto.

O programa, um patrimônio afetivo da televisão amazonense, estava há quase trinta anos no ar e funcionava como um botequim de verdade: mesas espalhadas pelo estúdio, plateia tomando uma gelada, banda fixa, convidados habituais e, de vez em quando, um cantor da velha guarda que aparecia sem avisar e acabava puxando um samba. Também havia espaço para aquele cidadão que, depois do terceiro copo, jurava tocar cavaquinho melhor que o Canhoto.

Quando Jurandir Vieira bateu os olhos em Jamelão sentado discretamente numa mesa, sentiu que Deus finalmente havia resolvido turbinar sua audiência. Afinal, existia uma tradição não escrita: artista famoso que aparecesse no “boteco” tinha obrigação moral de dar uma palhinha.

O único detalhe é que ninguém havia comunicado isso ao principal interessado.

Jurandir caminhou até a mesa em estado de êxtase e começou a apresentá-lo como se estivesse anunciando a chegada do Papa ao sambódromo:

– Senhores e senhoras, temos aqui uma verdadeira enciclopédia ambulante do samba! O maior intérprete de samba-enredo da história do carnaval! Sua majestade... Jaaaaameeeelããããooooo!

Jamelão ouviu tudo com a mesma expressão de quem espera a conta do restaurante.

Jurandir esticou o microfone, sorrindo de orelha a orelha:

– Vai lá, mestre! Dá um refresco pra rapaziada!

Foi quando Jamelão, usando aquela voz que parecia ter sido temperada com lixa e uísque, respondeu:

– Refresco eu não dou, não, compadre. Vocês não me pagaram cachê. Vim assistir ao programa, não trabalhar. Quem quiser ouvir minha voz, paga primeiro. Eu vivo dela. Se não tem cachê... o papo morreu.

Foi como jogar um freezer ligado dentro do estúdio.

Jurandir ficou alguns segundos procurando alguma frase espirituosa, alguma saída elegante, qualquer coisa. Não encontrou. Restou anunciar, com um sorriso que pedia socorro:

– E... vamos para os nossos comerciais...

O intervalo salvou o apresentador, mas não o clima. Jamelão permaneceu no programa até o último minuto. Não cantou um verso, não sorriu uma vez, não moveu um músculo do rosto. Fez a única coisa que havia combinado consigo mesmo desde o início da noite: assistir ao show. De graça.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 77

 


77. De todas as brincadeiras de antigamente (bolinha, pião, cangapé, patinete, cemitério, barra-bandeira, camone boy, garrafão, perna de pau, bicicleta, celotex, etc.), a que me dá mais saudade eram as animadas partidas de futebol de caroço de tucumã nas calçadas, que comecei a disputar com 12 anos. 

Lembro que para sair em busca de tucumãs nas áreas de ocorrência natural, a gente montava verdadeiras expedições de guerra, com 15, 16 moleques dispostos a matar ou morrer. Os deslocamentos eram feitos a pé. 

Às vezes, essas expedições duravam um dia inteiro, o que deixava nossas mães à beira de um ataque de nervos. Havia perigos de todos os tipos nos rondando, de picadas de cobras a afogamentos acidentais nos inúmeros igarapés que tínhamos de atravessar (e eu nunca aprendi a nadar).

Para se ter uma ideia, basta lembrar que no final dos anos 60 a zona urbana da cidade terminava na Cohab-Am da Raiz, tendo como marco final o Igarapé do Crespo. Dali em diante, na direção do Japiim e Distrito Industrial, era terra de ninguém – leia-se floresta fechada. 

Pra complicar, os grandes tucumanzais nativos estavam no Morro da Liberdade, mas a mão de obra que dava para atravessar o Igarapé da Cachoeirinha por meio de catraias, ali no final da Rua Maués, desestimulava qualquer Jim das Selvas. Sem contar que os moleques de Santa Luzia costumavam receber os forasteiros na base da baladeira e tinham uma pontaria infernal.

Na minha época, o tucumã-arara era, mais ou menos, do tamanho de uma mexerica. Hoje, não passa do tamanho de um limão. Eles eram selecionados para serem atacantes. O tucumã-açu tinha o diâmetro de um pequeno ouriço de castanha. Eram selecionados para serem zagueiros (os famosos “beques”). O tucumã-piririca era pequeno, mas dava os melhores pontas e armadores. O tucumã-purupuru era a escolha certa para a linha de médios, principalmente para o volante, vulgo “cabeça de área”. O tucumã-do-mato ou tucumã-babão era escolhido apenas pela sua beleza física – fornecia bons jogadores albinos.



A fabricação dos jogadores era feita em série. Normalmente, a molecada possuía alguém que fosse bom no manejo do terçado (na nossa turma, os irmãos Popó, Zezinho e Vico, todos eles halterofilistas militantes). A gente entregava o caroço de tucumã e avisava: atacante! O sujeito posicionava o caroço em um cepo de madeira e dava uma terçadada acima da metade do coquinho. Ou então: linha média! O sujeito dava uma terçada abaixo da metade do coquinho. Ou ainda: beque! A terçadada era dada a um dedo da extremidade do coquinho.

Partíamos então pra fase de ralação. A escolha recaía nas ruas de asfalto mais recente, onde o atrito era maior. Pra retificar a base dos jogadores era mais simples: bastava calçar uma sandália japonesa, pisar em cima do botão, e sair arrastando por uns duzentos metros. Pra raspar as fibras da superfície dos caroços, não tinha jeito: era na base da ralação manual, também no asfalto.

Nessa fase, era comum alguém se entreter na tarefa e acabar ralando o dedo, que, dependendo da força aplicada nos caroços, podia expor o osso das juntas. Presenciei vários acidentes desse tipo. Somente nessa fase é que a gente descobria as imperfeições do jogador, traduzida em buracos abertos por brocas e outros inimigos naturais. 

Dependendo do grau de imperfeição (até três buracos eram admitidos), a gente ia em frente – os buracos seriam corrigidos, posteriormente, com a adição de cera proveniente de velas derretidas. Caso contrário, eles seriam sumariamente descartados.

Após a ralação, começava a fase do polimento. No início, com lixa grossa. Depois, com lixa d’água. Finalmente, com lixa fina. Quando os jogadores estivessem perfeitamente lisos, eram pintados com tinta de sapateiro e ficavam alguns dias ao sol. Mais tarde, ficavam submersos n’água – para liberar a amêndoa e absorver umidade. Só então eram engraxados, com graxa de sapateiro, e depois recebiam uma camada de carnaúba. Estavam prontos pros embates.

Com os beques, o buraco era mais embaixo. Depois que o miolo do coquinho era retirado, eles eram enterrados na terra. Em uma lata, derretíamos chumbo e depois derramávamos o chumbo quente no interior dos beques, jogando em seguida água fria para que o choque térmico solidificasse o chumbo. Algumas vezes, o beque não aguentava a parada e se quebrava. O jeito era começar tudo de novo.

Pra fabricar os goleiros, havia uma espécie de molde escavado no barro, semelhante a uma caixa de fósforos. Era só derramar o chumbo derretido ali dentro e jogar água fria. Depois de retirar o molde de chumbo do buraco, era só retificá-lo para caber dentro de uma caixa de fósforos, e depois enfeitá-lo com as cores do clube. 



As traves eram de madeira com redes de pano (normalmente voal transparente ou rendinha), tendo, nas suas dimensões, o dobro do goleiro de altura e cinco vezes o tamanho dele de largura. A bola, redonda e com desenhos imitando os gomos das bolas de verdade, era feita de cortiça ou de lã. Os jogadores eram acionados por pentes (o pente Flamengo era o favorito, mas havia pentes artesanais feitos de osso que tiravam qualquer um do sério, em termos de potência, funcionalidade e direção).

Os times eram dispostos em campo quase sempre do mesmo jeito. Os dois beques chumbados embaixo da trave, ao lado do goleiro, um volante grandão na cabeça da área, dois médios se passando por laterais, e cinco atacantes. A regra adotada era a baiana (um toque). O resto, igual ao celotex. Por exemplo, rebatida do goleiro pertence ao time que está atacando.

Aí, um dos inventores de ocasião (Heraldo Cacau ou Airton Caju, não lembro) conseguiu introduzir vários alfinetes no peito do goleiro com o chumbo ainda derretido. O goleiro ficou parecido um porco-espinho, mas encaixava qualquer bola – e quanto mais forte o chute, melhor. Tivemos de proibir a presepada. Brincadeira tem hora.

quinta-feira, setembro 17, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 76

 

O carnavalesco Shangai e Jairo de Paula Beira-mar

76. Fevereiro de 1985. Apesar de ser apenas um bloco de empolgação, o Reino Unido da Liberdade promovia animadas rodas de pagode na sua quadra improvisada nas tardes de sábado. 

Em um desses pagodes, um sujeito de bermudas, sandálias havaianas e camisa de meia sobre um dos ombros, tentou entrar na quadra da escola, mas foi barrado pelo porteiro.

O sujeito se afastou silenciosamente e ficou parado no canto da rua observando a agitação, mais perdido do que cachorro quando cai do carro de mudança. Jairo Beira-mar, que estava acompanhando a cena de dentro da quadra da escola, foi falar com o porteiro.

– Porra, Buião, eu estava só vendo o teu jeito! Por que foi que você não deixou aquele cidadão entrar? Eu não já falei que todo mundo é bem-vindo aqui na nossa escola?... – detonou Jairo Beira-mar.

– Ah, bicho, ele chegou aqui procurando por uma pessoa que nunca ouvi falar, um cara de nome invocado! – explicou o porteiro. – Eu não dei nem confiança, falei apenas que não conhecia o sujeito. Agora vê se eu tenho cara de mané pra adular macho pra entrar na quadra. Fiquei na minha. Ele não entrou porque não quis...

Jairo Beira-mar atravessou a rua e foi conversar com o cidadão.

– Meu amigo, eu sou diretor do bloco Reino Unido e queria pedir desculpas pelo ocorrido, mas se você quiser entrar na quadra pra participar do nosso pagode, fique à vontade!

– Tudo bem, bicho, tudo bem! É que eu sou do Rio de Janeiro e não conheço ninguém aqui. Quem me convidou pra esse pagode foi um amigo aqui de Manaus, o compositor Paulo Onça, mas parece que ele ainda não chegou...

– O Paulo Onça é meu amigo. Se você quiser, a gente pode esperar por ele lá dentro da quadra. Meu nome é Jairo de Paula Beira-mar!

– Tudo bem, bicho, tudo bem! Meu nome é Zeca Pagodinho!

Os dois entraram juntos na quadra e ficaram conversando até a chegada do compositor Paulo Onça, que fez uma festa quando encontrou o amigo. 

No ano seguinte, o sambista “barrado” pelo Buião estreava em disco solo, “Zeca Pagodinho”, onde emplacou os sucessos “SPC”, “Coração em Desalinho”, “Quando Eu Contar (Iaiá)”, “Judia de Mim” e “Brincadeira tem Hora”, atingindo a marca de um milhão de cópias vendidas.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 75

 

Luiz Lobão e Ronaldo Redman no Bar da Kátia

75. Junho de 1981. Jogando de meia-esquerda, Áureo Petita logo conquistou a torcida de Itacoatiara. Seu entendimento com o centroavante Índio, oriundo de Parintins, lembrava a dupla Pelé-Coutinho. O Peñarol estava fazendo uma das melhores campanhas da história, quando os dirigentes dos times da capital resolveram melar a competição.

O Fast Clube, que havia perdido de 3 a zero para o Peñarol, descobriu que Áureo Petita ainda era jogador do Náutico e que, por ser amador, não poderia disputar o campeonato de profissionais. Os pontos perdidos em campo foram reconquistados no Tribunal de Justiça Desportiva (TJD).

Áureo Petita pegou 60 dias de suspensão. Os torcedores do Peñarol ficaram revoltados. Derrotado pelo Nacional, o Peñarol teria de vencer o Rio Negro, em Itacoatiara, ou seria eliminado do quadrangular do 1º turno e o Fast, que estava fora, entraria por meio do “tapetão”. A Velha Serpa se preparou para a guerra.

Chefe da torcida do Rio Negro e eterno chefe de Segurança da Câmara Municipal de Manaus, Enédio Negreiros procurou o motorista Ronaldo Redman, irmão mais velho do Didi Redman, presidente do GRES Vitória Régia
.

– Ô, negão, tu não quer ganhar um troco?

– Pra quê? – os olhos de Redman brilharam.

– Pra dirigir o ônibus do Rio Negro até Itacoatiara!

Depois de pensar um pouco, Redman aceitou a missão, cobrou um determinado valor pela tarefa, Enédio topou e ficou de lhe passar a grana quando a delegação chegasse na Velha Serpa. O ônibus era uma “lata velha”, comprido que nem vara de bater pecado, com câmbio do tipo “alavanca suporta-sovaco”. Não desenvolvia mais de 60 km/h.

Em uma manhã de domingo, no horário combinado, Redman assumiu o cockpit da “lata velha”. Começaram a entrar no ônibus os jogadores, a comissão técnica, os dirigentes e nada do Enédio. Pelo retrovisor, Redman tentava localizar o amigo. Nada. Lá atrás, em um dos bancos, estava um galo gigantesco, de mais de dois metros de altura, usando o uniforme do clube.

Redman ficou apreensivo. Sem Enédio na parada, de quem ele iria cobrar pela viagem, já que não conhecia ninguém? Pensou em desistir. Depois, achou melhor fazer o serviço, e, quando retornasse a Manaus, se acertaria com o amigo. Os jogadores começaram a vestir o uniforme dentro do ônibus e Redman meteu o pé na estrada.

Chegaram ao estádio Floro de Mendonça dez minutos antes da partida começar. Uma multidão de torcedores do Peñarol aguardava pelo time inimigo do lado de fora do estádio, formando um imenso corredor polonês na entrada do túnel destinado aos visitantes.

Os jogadores desceram do ônibus correndo e, enquanto atravessavam o corredor polonês, iam recebendo pescoções, chutes na bunda, cusparadas, dedadas e xingamentos desmoralizantes. 



último a sair do ônibus foi o gigantesco galo carijó, andando com as pernas meio abertas por causa dos esporões de quase 20 centímetros, o que lhe dava um estranho gingado de urubu malandro.

Quando ele colocou o bico pra fora da porta, um sujeito deu-lhe um murro no meio da fuça. Foi um soco tão violento que esbagaçou o bico do galináceo. Ele caiu de cu-trancado na escada do ônibus e embicou no chão. Alguém gritou:

– Pega o galo e péla e joga na panela...

A multidão enfurecida avançou em cima do infeliz. Em vez de entrar no ônibus e trancar a porta para se proteger, o galo, ainda grogue, se levantou do chão e desembestou a correr em direção à saída da cidade, sendo perseguido por mais de cem torcedores armados de mangarás de banana, cabos de embreagem e galhos de cuieira.

No estádio, a partida era interrompida a cada cinco minutos por causa de invasão de campo. Os torcedores do Peñarol quebraram mais de 200 ovos podres na cabeça dos jogadores rionegrinos e infernizaram a vida do goleiro com morteiros de três tiros. 

O Peñarol ganhou de 2 a 1, gols do centroavante Índio e do ponta direita Erasmo para o time da casa, enquanto Raulino descontou para os visitantes.

No retorno do time, um dos dirigentes estranhou a ausência do mascote do clube, que sequer havia entrado em campo. Redman relatou o ocorrido. Pediram que ele metesse o pé na estrada para resgatar o infeliz. 

O galo carijó foi encontrado correndo na rodovia AM-010, dessa vez sendo perseguido por cachorros e crianças armadas de baladeiras já cruzando o município do Rio Preto da Eva.

Pelo buraco na cara do galináceo, onde antes havia um bico, Redman reconheceu Enédio Negreiros, pálido que nem um defunto e a ponto de colocar os bofes pela boca. 

O motorista ficou com tanta pena do galo maratonista que parou o ônibus, embarcou o galináceo, continuou dirigindo a “lata velha” até Manaus e nem cobrou pelo serviço. 

Falecido em março de 2019, o saudoso e querido Enédio Negreiros ficou lhe devendo essa.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 74

 


74. Estou convencido ainda hoje de que até meados dos anos 70 o mais divertido e animado carnaval de Manaus não estava nas ruas, mas no circuito dos bailes de clubes, obedecendo ao seguinte rodízio: no sábado gordo, baile adulto a partir das 23h. No domingo, carnaval infantil a partir das 16h. Na segunda, folga geral – com exceção do Rio Negro (“Baile de Gala”). Na terça-feira, baile adulto a partir das 23h.

No período pré-carnavalesco (incluindo a chamada “semana magra”), os bailes ocorriam nas sextas, sábados e domingos. Os desfiles dos blocos de sujo e foliões isolados se davam no domingo gordo e na segunda-feira, a partir das 14h, sempre na Avenida Eduardo Ribeiro. As escolas de samba desfilavam na terça. A concentração dos blocos ocorria na Praça da Saudade. O percurso se iniciava na Praça do Congresso, descia a avenida, contornava o Relógio Municipal, subia a avenida e fazia a dispersão na Avenida Sete de Setembro, em direção à Avenida Getúlio Vargas.

Os bailes carnavalescos mais disputados localizavam-se no centro da cidade e eram considerados os “carnavais da elite”. As festas temáticas eram acessíveis somente aos sócios, que entravam de graça, e a quem pudesse pagar os preços exorbitantes cobrados pelas mesas ou pelos ingressos. A diversão dos jovens de origem operária era “furar” o esquema de segurança desses clubes para se divertir de graça junto com os “bacanas”.

Os bailes mais famosos ocorriam no Ideal Clube (“Baile de Máscaras”), Rio Negro (“Baile de Gala”), Bancrévea (“Vamos Pegar o Sol com as Mãos!”), Cheik (“Saara 40 Graus”), Olímpico (“Despedida da Kamélia”), Luso Sporting (“Viva o Zé-Pereira!”), União Esportiva Portuguesa (“Baile do Pierrô”) e Nacional (“Baile Azul e Branco”). No final da Quaresma, o Cheik ainda promovia um baile carnavalesco intitulado “Enterro dos Ossos”.

Nesses bailes mais elitistas, as mulheres compareciam ornamentadas de vestidos longos, plumas, lantejoulas e fantasias ricamente elaboradas, e os homens, de smoking ou camisas sociais de grife, no velho estilo “coronéis de barranco”. Claro que aqui e ali surgia um sujeito vestido de índio, pirata, mexicano, árabe, legionário, arlequim ou pierrô, mas os homens fantasiados eram uma minoria. Quem tinha obrigação de vender beleza era o mulherio. Os machos estavam ali pra pagar pelo fuzuê.

Quando a fuzarca acabava, os foliões se encontravam no Mercado Adolpho Lisboa para curar a bebedeira no famoso Mingau do Eusébio, escolhendo entre o mingau de banana verde com castanha, o mingau de crueira, feito de farinha de mandioca, e o mingau de milho branco, também conhecido como munguzá.

O artista plástico Inácio Evangelista era o decorador mais requisitado da cidade para produzir as ambientações temáticas dos clubes. Além de ser contratado exclusivo do Ideal, Rio Negro, Cheik e Nacional – e cada um deles fazia até três bailes diferentes a cada ano –, ele ainda encontrava tempo para decorar o Atlético Barés Clube (“Baile do Sapo Não Lava o Pé”), AABB (“Baile do Terror”), União Esportiva de Constantinopla (“Baile da Cidade Alta”) e Fast Club (“Baile do Rolo Compressor”).

Nos bairros, a população se divertia nos bailes carnavalescos dos clubes amadores ali existentes e nas sedes de associações sindicais e de times profissionais populares. Em Educandos, por exemplo, na União Esportiva de Constantinopla. Na Cachoeirinha, no Ypiranga, Botafogo, Cachoeirinha e no Círculo Operário. No Morro da Liberdade, no Libermorro e Olaria. No Seringal-Mirim, no Internacional (“Baile da Jardineira”). Em São Raimundo, nas sedes do São Raimundo e Sul América, e assim por diante. Havia ainda os clubes de campo, de frequência mista (Sírio-Libanês, Caiçara, Cetur, ASA, Municipal, Beasa, Cassam, AABB, etc.), que também realizavam bailes inesquecíveis.

Guardada as devidas proporções, o esquema nos bailes carnavalescos, tanto dos chamados “bailes de elite” quanto dos chamados “bailes populares”, seguia uma mesma dinâmica. Uma orquestra de metais (nome genérico dos instrumentos de sopro feito de metais), posicionada no fundo do palco, iniciava a fuzarca, na maioria das vezes, com a música “Ô Abre Alas”, aquele clássico da Chiquinha Gonzaga (“Ô abre alas, que eu quero passar / Ô abre alas, que eu quero passar / Eu sou da Lira, não posso negar / Rosa de Ouro é quem vai ganhar”).

Essa era a senha para as pessoas invadirem o salão abraçadas em dupla, trinca, quarteto ou até mesmo sozinhas. O bloco do eu-sozinho consistia em brincar o carnaval com os dois indicadores para cima, subindo e descendo na cadência dos quadris e aos gritos de “Skindô! Skindô!”. Não sei de onde veio, nem quando surgiu esse refrão, mas posso assegurar que não é uma corruptela de “skidoo”, gíria de preto americano para dar o fora, pegar o beco, sair vazado.



O cortejo dos foliões consistia em uma movimentação em círculo, obedecendo ao sentido horário – mas também havia alguns sujeitos, cheios da truaca, que preferiam brincar no sentido anti-horário, o que era sinônimo de confusão. As garotas desacompanhadas ficavam nas bordas do salão, observando aquele alegre panavueiro.

De repente, uma mão saindo do meio da turba lhe alcançava o pulso e a puxava para o salão. Se houvesse interesse recíproco, a foliona se enganchava no sujeito e ia pra guerra. Se não, ela dava um jeito de liberar o pulso das mãos do fariseu e voltava para o mesmo lugar de antes. Essas efêmeras conquistas carnavalescas se constituíam na glória (ou calvário) de qualquer moleque que buscava as folias de Momo.

O cortejo, evidentemente, se movimentava no salão de acordo com a música. Havia as marchinhas para uma evolução rápida – leia-se correria desenfreada e trombadas entre os participantes –, como “Marcha do Remador” (“Se a canoa não virar, olé, olé, olá / Eu chego lá”), “Turma do Funil” (“Chegou a Turma do Funil / Todo mundo bebe / Mas ninguém dorme no ponto”), “Alalaô” (“Alalaô ô ô ô / Mas que calor ô ô ô / Atravessamos o deserto do Saara / O sol estava ardente e queimou a nossa cara”) e a mais frenética de todas, que costumava causar quedas coletivas no salão, “Corre, corre, lambretinha” (“O vovô ia a cavalo / Para visitar vovó/ O papai de bicicleta / Pra ver mamãe, ora vejam só! / Hoje tudo está mudado / Mudou tudo, sim senhor / E eu tenho uma lambreta / Para ver o meu amor / Corre, corre, lambretinha / Pela estrada além / Corre, corre, lambretinha / Que eu vou ver meu bem”).

Havia as marchinhas para uma evolução devagar, quase parando – e aí os arranjos mistos de trincas, quartetos, quintetos ou sextetos davam vez para os casais. Quem ainda não estivesse descolado um par precisava correr contra o relógio, porque essas marchinhas começavam a ser tocadas na metade do baile. A mais clássica de todas era aquela criação genial de Zé Kéti, “Máscara Negra” (“Tanto riso, oh / Quanta alegria / Mais de mil palhaços no salão / Arlequim está chorando pelo amor da Colombina / No meio da multidão / Foi bom te ver outra vez / Tá fazendo um ano / Foi no carnaval que passou / Eu sou aquele Pierrô / Que te abraçou / Que te beijou, meu amor / A mesma máscara negra / Que esconde o teu rosto / Eu quero matar a saudade / Vou beijar-te agora / Não me leve a mal / Hoje é carnaval / Vou beijar-te agora / Não me leve a mal / Hoje é carnaval”). Era a senha para beijar a foliona recém-conquistada. Se houvesse correspondência, o sujeito havia ganho a noite. Se não, não.

Se tudo tivesse dado certo na etapa anterior (a garota não só consentira no beijo, como abrira levemente os lábios para você introduzir a língua), a próxima fase era levá-la para uma parte mais escura do clube, normalmente em corredores longes do salão, e iniciar a sessão de “acocho” (na época, era esse o nome do modernoso “ficar”), que consistia de beijos e abraços apertados. Só isso. As mais liberais ainda permitiam algumas alisadas nas coxas e alguns toques discretos no sutiã de cetim. Avançar mais do que isso era convite certo para uma tapa na cara e o fim, digamos assim, do relacionamento casual.

Os casais voltavam para o salão quando o baile já estava acabando. Os primeiros acordes de “Está chegando a hora” (“Quem parte / Leva saudades / De alguém / Que fica chorando de dor / Por isso eu não quero lembrar / Quando partiu / Meu grande amor / Ai ai ai ai / Está chegando a hora / O dia já vem raiando meu bem / E eu tenho que ir embora”) sinalizavam para os últimos beijos, abraços apertados e as juras de amor eterno. Pura balela. Na maioria das vezes, nem se sabia o nome da garota. E a possibilidade de encontrá-la novamente no carnaval seguinte era tão difícil quanto acertar na mega-sena acumulada. 

No dia seguinte, após a ressaca carnavalesca, a turma de moleques se reunia para contar vantagens sobre as conquistas efetuadas e fazer planos para os bailes do ano seguinte. Simples assim.

terça-feira, setembro 15, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 73

 


73. Aroldo Melodia fez parte do verdadeiro esquadrão de craques da União da Ilha. Era um dream team do samba. A única diferença para a seleção americana de basquete é que os americanos colecionavam medalhas, enquanto a Ilha colecionava elogios. Títulos, que é bom... nem um.

Mas ninguém tira da escola o brilho da segunda metade dos anos 70, quando ela entrou no Grupo Especial revolucionando o carnaval com uma fórmula que hoje qualquer economista aprovaria: bom, bonito e barato. 

Enquanto a Mangueira desfilava com majestade e a Beija-Flor parecia desfilar com o PIB de um país africano, a Ilha entrava na avenida com balões de gás, carrosséis de isopor, muito charme e uma alegria que não cabia no orçamento.

E no comando da bateria vocal estava Aroldo Melodia.

Foi ele quem transformou “Domingo”, em 1977, num daqueles sambas que fazem até fiscal de Imposto de Renda sorrir. Enquanto as outras escolas falavam de impérios, faraós e heróis nacionais, a Ilha resolveu homenagear o prazer supremo do trabalhador brasileiro: acordar tarde, jogar bola, tomar cerveja e não fazer absolutamente nada. 

Quando Aroldo berrava “Segura, marimba!”, a Sapucaí inteira respondia. Imagine Jamelão fazendo isso. Era mais fácil o Cristo Redentor descer do Corcovado para tocar reco-reco.

Anos depois, Antônio Carriço, presidente do GRES Sem Compromisso, tratou de importar aquele vozeirão para Manaus. Aroldo gravou o antológico samba-enredo “Hotel Casina”, virou figura carimbada das rodas de pagode e desenvolveu uma paixão avassaladora por um prato preparado por dona Englantina Nunes, tia do Edu do Banjo. Era a lendária “jardineira”.

A mistura levava jabá, carne-seca, jerimum de leite, chouriço, maxixe, quiabo, couve e mais algumas maravilhas capazes de convencer qualquer cardiologista a abandonar a profissão. Sempre que embarcava para Manaus, Aroldo telefonava antes.

– Dona Englantina, não me leve a mal, mas separe uma jardineira pra mim que eu já tô salivando...

Numa dessas viagens, Rinaldo Buzaglo foi buscá-lo no aeroporto. O voo atrasou quase duas horas por problemas técnicos em Brasília, e Aroldo desembarcou com tanta fome que já cogitava mastigar o cartão de embarque. Foram direto para a casa de dona Englantina.

A roda de pagode já comia solta, mas a famosa jardineira ainda não tinha aparecido. Para matar o tempo – e os neurônios – Aroldo e Rinaldo passaram a namorar uma garrafa de conhaque Palácio, que retribuiu o carinho com entusiasmo.

Lá pelas três da tarde, a fome já tinha virado delírio. Aroldo entrou na cozinha à procura de um copo, viu uma panela fumegando sobre o fogão e ouviu trombetas celestiais. Levantou a tampa.

– Achei!

Sem consultar ninguém, serviu um pratão monumental e atacou a comida como quem tentava recuperar todas as refeições perdidas da infância. Rinaldo estranhou o sumiço do amigo. Foi investigar. Encontrou Aroldo mastigando em estado de êxtase. Nem perguntou o que era. Pegou um prato e entrou na corrente.

Cada um repetiu mais duas vezes. Rasparam a panela com uma eficiência que faria qualquer lava-jato morrer de inveja. Depois voltaram para a roda de samba satisfeitos, embalando a barriga nas tradicionais cadeiras de macarrão.

Dez minutos depois, dona Englantina anunciou:

– Gente, a jardineira tá na mesa!

Aroldo levantou a mão, educadamente.

– Muito obrigado, minha santa, mas eu e o Rinaldo já almoçamos. Aliás, tava um espetáculo! Comemos até demais. Se botar mais um grão de arroz aqui dentro, explode tudo.

Dona Englantina franziu a testa.

– Almoçaram... onde?

– Na panela que tava no fogão.

A cozinheira caminhou lentamente até a cozinha. Levantou a tampa. Olhou para o fundo da panela. Ficou branca. Voltou para a sala sem saber se ria ou chamava um veterinário.

– Pelo amor de Deus... vocês comeram a comida das minhas duas pastoras alemãs!

Silêncio absoluto. Aroldo e Rinaldo se entreolharam. A tal iguaria era um refinado picadinho de arroz, carne de cabeça, bobó e uma generosa porção de ração Friskies cuidadosamente misturada para convencer as cachorras de que aquilo era alta gastronomia. Os dois haviam limpado a panela como se estivessem avaliando um restaurante cinco estrelas.

Dizem que Aroldo nunca mais perguntou qual era o ingrediente secreto da jardineira. E Rinaldo, durante muitos anos, sempre que ouvia alguém elogiar sua disposição física, respondia, muito sério:

– Deve ser o Friskies. Tem vitamina que a gente nem imagina...

Telecoteco do Balacobaco - Canto 72

 


72. Junho de 1978. O Brasil vai disputar o terceiro lugar da Copa do Mundo contra a Itália, no Monumental de Núñez, em Buenos Aires. 

Na Rua Itacoatiara, entre as ruas Urucará e Maués, arma-se um evento quase tão importante quanto a partida: umas 30 criaturas resolvem assistir ao jogo na casa do seu Albino Maia, pai do ex-centroavante Manuel Augusto, levando cerveja, tira-gosto e uma quantidade de morteiros suficiente para comemorar a independência de um país de médio porte.

Entre os convocados da torcida estavam Sadok, Amélia, Sici Pirangy, Soraya, Manuel Augusto, Socorrinha Macedo, Carlos Barriga, Fátima, Antídio Weil, Betinha, Cleber Weil, Albino Filho e Maria Angélica.

Sentado solenemente em sua cadeira de rodas, o velho Albino lançou a única profecia daquela tarde:

– Se forem soltar foguete, façam isso lá no quintal!

Ninguém deu bola. Afinal, brasileiro só respeita previsão do tempo quando chove.

Cláudio Coutinho escalou Leão, Nelinho, Oscar, Amaral, Rodrigues Neto, Batista, Toninho Cerezo, Jorge Mendonça, Gil, Roberto Dinamite e Dirceu. Aos 37 minutos do primeiro tempo, Franco Causio subiu sozinho e meteu de cabeça: Itália, 1 a 0. A sala mergulhou num silêncio tão profundo que dava para ouvir um mosquito pedir licença para pousar. Parecia velório de parente rico.

No intervalo, Coutinho resolveu abandonar a diplomacia. Sacou Toninho Cerezo, colocou Rivelino. Tirou Gil, entrou Reinaldo. O Brasil voltou possuído. Aos 18 minutos, Nelinho acertou um chute tão improvável que até hoje o goleiro italiano deve jurar que a bola fez baliza no meio do caminho. Em vez de cruzar, ela resolveu entrar. Gol do Brasil.

A sala virou um réveillon fora de época. O pessoal nem esperou chegar ao quintal: começou a disparar foguete pela própria janela da sala. Seu Albino apenas respirou fundo. Havia percebido que sua recomendação acabara de entrar para a história das sugestões ignoradas.

Dez minutos depois, Rivelino levantou na área. Roberto Dinamite tentou dominar no peito, mas a bola escapuliu como sabonete em banho de cadeia. Antes que alguém entendesse o lance, Dirceu emendou um voleio cinematográfico. Golaço. Brasil 2 a 1.

A casa entrou em estado de insanidade coletiva. Tinha gente abraçando desconhecido, beijando rádio, prometendo pagar promessa e jurando que Coutinho era um gênio incompreendido. Foi então que Socorrinha Macedo decidiu colaborar com a festa.

Aproximou-se da janela, acendeu um morteiro de três tiros, mas, na hora H, foi dominada por um ataque fulminante de nervosismo. As mãos começaram a tremer, ela largou o artefato no meio da sala e mergulhou atrás do sofá com a velocidade de um recruta ouvindo “granada”.

O resto foi pura seleção natural. Metade dos presentes saiu pela janela sem consultar altura nem gravidade. A outra metade disparou rumo ao quintal. Até seu Albino, na cadeira de rodas, bateu todos os recordes mundiais de velocidade. Dizem que, por alguns segundos, Ayrton Senna teria dificuldade para alcançá-lo.

Os três estampidos sacudiram a casa inteira. A fumaça tomou conta da sala, os cachorros da vizinhança entraram em greve de latidos e os vizinhos tiveram certeza de que a Terceira Guerra Mundial havia começado na Rua Itacoatiara.

Quando a fumaça baixou, ninguém tinha perdido um dedo, uma orelha ou a compostura – esta última já havia sido perdida bem antes do apito inicial. No fim das contas, o Brasil conquistou o terceiro lugar da Copa. E Socorrinha Macedo escapou de ser excomungada, deserdada e proibida de acender até vela de aniversário pelo resto da vida.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 71

 


71. Fevereiro de 1978. Durante o tríduo momesco, o quarto-zagueiro Lúcio Preto, só de sacanagem, tinha o hábito de parar seu fusquinha do outro lado da rua, diante do Bar do Caxuxa, na Rua J. Carlos Antony, e gritava a plenos pulmões:

– Caxuxa, cadê as bolinhas?! Hoje é dia de desfile dos Ciganos e eu preciso ficar ligado. Separa umas dez bolinhas de preludim, pervetim e desbutal, que daqui a pouco eu venho pegar...

Aí, engatava uma marcha no carro e ia embora.

Servindo uma multidão de gente com suas batidas, Selmo Nogueira, evidentemente, não sabia onde se esconder, com medo de os clientes começarem a suspeitar que ele vendia anfetaminas no mercado negro. As insinuações do jogador iam acabar atraindo a Polícia Federal para o boteco.

Um dia, Selmo resolveu se vingar. Ele transformou em pó quatro pílulas de lacto-purga, colocou numa “vidreta” e foi se encontrar com o Lúcio Preto no Top Bar, onde funcionava o QG informal do bloco Andanças de Ciganos.

– Estou com uma mercadoria nova pra você, mas ela precisa ser diluída. Me consegue uma Fanta laranja! – avisou Selmo para o quarto-zagueiro.

Sem suspeitar de nada, Lúcio Preto lhe passou uma garrafa de refrigerante. Selmo preparou a poção mágica e devolveu ao jogador. Antes de engatar o carro, avisou:

– Se precisar de mais, me dá um toque, mas não faz muita propaganda para não encher o meu bar de malucos, tá legal?...

Lucio Preto tomou a mistureba de uma golada só.

Meia hora depois, Afonso Libório, irmão de Selmo Nogueira, chegou ao Bar do Caxuxa desesperado:

– Êi, bicho, que porra foi que você deu pro Lúcio Preto?... Com cinco minutos, ele saiu correndo para o banheiro do Aristides e ainda não saiu de lá até agora... Faz duas horas que ele está sentado no vaso sanitário, só resmungando e gritando um monte de palavrões...

Naquele ano, Lúcio Preto não desfilou pelo bloco Andanças de Ciganos. Em compensação, também nunca mais confiou nas “bolinhas” do Bar do Caxuxa.

segunda-feira, setembro 14, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 70

 


70. Em meados dos anos 1980, embalada pelo sucesso de uma música que estourara na novela das oito da Globo, Fafá de Belém decidiu provar que fôlego não lhe faltava. Anunciou, com toda a convicção, que seria backing vocal de todas as escolas de samba que desfilariam na Marquês de Sapucaí.

A imprensa adorou a ideia. Os patrocinadores também. Formou-se uma verdadeira operação de guerra: empresas providenciaram uma fantasia para cada escola, reservaram um camarote para ela trocar de roupa, retocar a maquiagem e recuperar o fôlego, além de um carro de prontidão na dispersão para levá-la, em velocidade de Fórmula 1, até a concentração da escola seguinte.

No primeiro dia, o plano parecia infalível. Fafá cantou na Portela, passou pela Mangueira, deu uma paradinha na Imperatriz Leopoldinense, atravessou a Vila Isabel, fez escala no Salgueiro e chegou à União da Ilha já vestida, maquiada, sorridente e escoltada por um batalhão de fotógrafos, cinegrafistas e curiosos.

Na concentração, porém, havia um pequeno detalhe que escapara aos estrategistas do marketing: Aroldo Melodia.

Sem dar a menor bola para aquela romaria de câmeras, ele aquecia a bateria com seu tradicional grito de guerra:

– Segura marimba! Olha minha bateria! Minha Ilha! Minha Ilha!

No auge dos flashes, Fafá aproximou-se toda simpática, estendeu a mão para dividir o microfone e cantar junto. Aroldo tirou o microfone da reta com um safanão digno de goleiro defendendo pênalti e decretou:

– Êpa! Aqui não, minha filha! Aqui não! Vai cantar em outra freguesia! Aqui na Ilha quem manda sou eu!

O sorriso de Fafá congelou mais rápido que cerveja esquecida no congelador. Percebendo o desastre que se desenhava diante das câmeras, o presidente da escola, Jorge Taufie, o eterno Peixinho, entrou em campo para apagar o incêndio.

– Pô, Aroldo... é a Fafá! Pelo amor de Deus... Deixa ela dar uma palhinha no nosso samba...

Aroldo nem piscou.

– Se tu quer ouvir a Fafá cantar, contrata um show dela lá na quadra. Aqui, não!

Fim da negociação.

Enquanto Fafá procurava um buraco onde pudesse se esconder – e não encontrou nenhum na Marquês de Sapucaí inteira –, Aroldo simplesmente retomou o serviço, como se nada tivesse acontecido.

– Segura marimba! Olha minha bateria! Minha Ilha! Minha Ilha!

A cantora deixou a concentração às lágrimas, seguida pelos fotógrafos e cinegrafistas, que haviam acabado de ganhar, de graça, a melhor imagem daquela noite.

Horas depois, já na dispersão, Edu do Banjo resolveu cobrar explicações do amigo.

– Porra, Aroldo... Tu cagou e mijou na cabeça da Fafá de Belém! Uma mulher daquele tamanho! Tu não teve medo dela te dar umas porradas?

Aroldo respondeu com a tranquilidade de quem acabara de expulsar uma estrela da Globo do próprio microfone:

– Medo? Tive não, cumpádi...

Fez uma pausa calculada, abriu um sorriso maroto e arrematou:

– Com aqueles peitões todos, o único medo que eu tive foi dela ficar muito despeitada comigo.

Dizem que a bateria da Ilha entrou na avenida afinadíssima. Mas quem arrancou a última gargalhada do carnaval foi mesmo Aroldo Melodia.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 69

 


69. Fevereiro de 1978. Baile de Carnaval no Balneário Cetur, considerado um dos mais animados da cidade. No meio do fuzuê, o comerciante Luiz Paulo, fantasiado de tirolês, deixa sua esposa Ana Rita, fantasiada de odalisca, plantada sozinha na mesa e some no meio da multidão. 

A odalisca fica injuriada e começa a beber tudo a que tem direito. Com quinze minutos, ela já está doidaça e começa a detonar o marido:

– Aquele Luiz Paulo é um safado! Nem sei onde estou com a cabeça que também não saio por aí e me agarro com o primeiro macho que aparecer...

O pessoal da mesa ao lado, vendo a qualidade da mercadoria, começa a dar corda na odalisca.

– É, só mesmo sendo muito safado pra deixar uma mulher linda como você sozinha aí na mesa... – diz um pierrô.

– Aquele cretino vai ver uma coisa, aquele cretino vai ver uma coisa! – repete a odalisca, cada vez mais bêbada e injuriada.

– Homem não presta, minha amiga, eles são todos iguais! – insiste uma colombina.

Nesse momento chega o marido, que é interpelado rispidamente pela odalisca:

– Onde tu andavas, cachorro? Já faz uma hora que você saiu pra fazer xixi!

A turma do lado apura os ouvidos para acompanhar a discussão do casal, prevendo detalhes interessante.

– Eu fui fumar um cigarro lá fora! – informa o marido, sem muita convicção.

– Mentira! Garanto que tu tava era se esfregando em alguma vagabunda por aí, seu cretino! Eu te conheço, seu escroto! Tu tava mesmo era se agarrando com alguma sirigaita, seu filho da puta! E depois, quando chega em casa, ainda quer bundinha... Taqui pra ti! (e exibiu um majestoso cotoco)

A turma da mesa ao lado caiu na maior gargalhada. O comerciante riu amarelo e depois sumiu de novo no meio da multidão.