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sexta-feira, setembro 11, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 66

 


66. Ainda adolescentes e convencidos de que a literatura os aguardava de braços abertos – ela, porém, fingia não estar em casa –, Anibal Beça e Alexandre Otto tinham um programa semanal pouco recomendável: visitar o poeta Américo Antony, em sua casa na Rua Japurá, quase esquina da Joaquim Nabuco.

O velho “guru da Amazônia”, já beirando os 60 anos, esperava os dois como um profeta espera discípulos: ansioso para submetê-los, sem direito de defesa, à leitura de seus sonetos recém-saídos do forno da inspiração.

Educado na Inglaterra, Américo Antony era um personagem que parecia ter sido escrito por um romancista com excesso de imaginação. Fazia questão de proclamar sua ascendência indígena e jurava, com a segurança de quem tinha conhecido o sujeito pessoalmente, que seu tetravô fora o lendário tuxaua Manauí Camandry, um dos grandes chefes dos índios Manaú.

Seu único livro, “Sonetos das Flores”, trazia na capa uma advertência tão solene que intimidava até bibliotecário: os poemas deveriam ser lidos “no mais profundo silêncio”, antes que o mundo maculasse “o espelho puro das emoções do Espírito”. Era uma recomendação justa. Depois de conhecer o autor, qualquer outro ambiente também perderia um pouco da pureza.

Naqueles tempos, Antony atravessava uma fase místico-oriental particularmente intensa. Convencera-se de que era uma espécie de Gandhi caboclo. Andava completamente nu, envolto apenas por um lençol encardido, dobrado de um jeito que, na imaginação dele, lembrava um sári indiano. Passava horas desfilando pelo quintal, entoando mantras com a solenidade de quem esperava atingir o nirvana antes do almoço.

Quando os rapazes chegavam, começava um ritual litúrgico.

– Xandico, meu filho! Corra à taberna do Zé Magalhães e traga um vidro de café solúvel. Na volta, não esqueça a lata de leite condensado, a de Nescau e um bule de água fervendo. Vou preparar um cappuccino para os nossos convidados! Mas vá num pé e volte no outro!

Xandico era Alexandre da Macedônia Antony, o filho mais velho – um nome que parecia ter sido escolhido por um pai incapaz de distinguir certidão de nascimento de romance histórico.

Enquanto o rapaz cumpria a missão, Américo entregava uma xícara para um dos visitantes e iniciava a récita dos sonetos, sempre com a convicção de quem acreditava estar concorrendo ao Nobel, embora a Academia Sueca ainda ignorasse esse detalhe. Quando Xandico voltava, começava o espetáculo culinário.

Américo pegava a lata de leite condensado, soprava vigorosamente um dos furos para fazer o conteúdo descer. Junto com o leite condensado, desciam também perdigotos suficientes para enriquecer qualquer pesquisa de microbiologia. Acrescentava uma colher de café solúvel, outra de Nescau e completava a xícara com água fervendo. Mas aquilo era apenas o aquecimento. Faltava o toque do chef.

Sem demonstrar a menor hesitação, o poeta mergulhava na bebida a monumental unha do dedo mindinho – uma unha multitarefa que passava boa parte do dia prestando serviços de limpeza auricular. Com ela, mexia lentamente a mistura, enquanto continuava declamando seus sonetos como se nada de extraordinário estivesse acontecendo. Talvez porque, para ele, realmente não estivesse. Quando o cappuccino alcançava o ponto ideal – ou o ponto de não retorno, dependendo da perspectiva –, a xícara era solenemente oferecida a Anibal Beça, seu pupilo predileto. Anibal sorria com a diplomacia de um embaixador diante de uma declaração de guerra.

– Muito obrigado, mestre, mas estou de dieta. Quem sabe na próxima semana...

A bomba biológica era então transferida para Alexandre Otto, que já não podia recusar uma segunda vez sem provocar um incidente diplomático entre a poesia e a gastronomia.

Na semana seguinte, a cerimônia se repetia com rigor litúrgico. Anibal Beça jurou até o fim da vida que jamais experimentou uma única gota do lendário cappuccino do guru. Há quem acredite. E há quem também acredite que o leite condensado neutralizava os perdigotos.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 65

 

O cantor Celito Chave e o ativista social Nestor Nascimento

65. No início de 1984, Rinaldo Buzaglo, Celito Chaves, Edu do Banjo e Mestre Carlito viajaram para o Rio de Janeiro, onde foram gravar o samba-enredo do GRES Sem Compromisso. As gravações foram realizadas no estúdio Havaí, do respeitado produtor Bira Havaí, e contaram com a participação de Dominguinhos do Estácio.

Era um compacto duplo. De um lado o samba da Sem Compromisso e do outro um samba da Reino Unido, que ainda era bloco de embalo. Os músicos entraram no estúdio na segunda-feira de manhã e na terça à tarde já estavam acabando de finalizar a “bolacha”.

Na quarta-feira, Dominguinhos convidou os amazonenses para participarem de uma roda de pagode que rolaria naquela noite, na quadra do bloco carnavalesco Cacique de Ramos. Eles não se fizeram de rogado.

Por volta das sete horas da noite, o quarteto já estava descendo de um táxi na quadra do Cacique de Ramos e participando do fuá. Algumas horas depois, Mestre Carlito chamou Edu do Banjo e indagou o porquê de Celito e Rinaldo estarem discutindo tanto.

Bastante gorozado, Rinaldo dizia:

– Assim que a gente chegar em Manaus eu compro outro, meu compadre!

Mais gorozado ainda, Celito rebatia:

– Mas não é a mesma coisa, compadre, não é a mesma coisa...

– Deixa comigo, compadre! – insistia Rinaldo. – Eu vou lá na Importadora Mundial e compro um zerado, melhor do que aquele...

– Mas não vai ter nenhum valor pra mim, compadre! – contestava Celito. – Pra mim, não vai ter nenhum valor...

Edu entrou na conversa:

– Êi, cara, o quê que tá pegando? O Ademir Batera, o Bira Presidente, o Almir Guineto e o Sereno estão ficando cada vez mais preocupados com essa discussão de vocês dois. O pessoal do pagode já até parou de tocar. O quê qui tá pegando?...

Celito, quase chorando, abriu o coração:

– Esse sacana do meu compadre esqueceu o meu violão Alhambra, modelo C10, dentro do porta-malas do táxi, Edu! Puta que pariu, Edu, aquele violão foi presente do meu falecido pai. E eu ainda disse pra esse miserável não trazer o violão, porque aqui tinha instrumentos pra todo mundo tocar...

– Mas aquele violão tinha sido afinado por mim, compadre, e eu queria tocar nele! – explicava candidamente Rinaldo. – Assim que a gente chegar em Manaus eu compro outro, meu compadre! Eu vou lá na Importadora Mundial e compro outro, igualzinho aquele! Pode deixar comigo!

– Eu sei compadre, eu sei, mas não é a mesma coisa, compadre, não é a mesma coisa... – insistia Celito. – Aquele tinha sido presente do meu velho pai...

A ladainha só terminou em Manaus três dias depois. O violão Alhambra, claro, nunca mais foi encontrado.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 64

 


64. O cantor e compositor João Nogueira estava em Manaus para uma série de apresentações no recém-inaugurado Nostalgia, novo clube de pagode de Vilson Benayon e Aloísio Jackmont, localizado na Cachoeirinha, quando resolveu fazer turismo medicinal no Mercado Adolpho Lisboa, aquele lugar onde, se procurar com jeito, você encontra desde pirarucu seco até remédio para dor de cotovelo, inveja de vizinho e azar no jogo.

A ideia partiu do sobrinho e empresário, Didu Nogueira, que sugeriu uma visita ao famoso corredor das ervas. Hipocondríaco com doutorado e sempre convencido de que carregava umas quinze doenças diferentes, João estacionou diante de uma barraca de plantas, raízes, cascas, garrafadas e promessas de cura.

O vendedor reconheceu o sambista na mesma hora.

– Ô, patrão! O senhor é o João Nogueira! Que honra! Diga aí, no que posso salvar sua vida?

João entrou no espírito da consulta.

– Meu camaradinha, o que é bom pra diabetes?

– Pata-de-vaca.

– E pra circulação?

– Jambolão. Mas também tem unha-de-gato, porangaba e stevia. Essa daí substitui o açúcar, desentope as veias, espanta o colesterol e, se bobear, ainda faz o Flamengo ganhar campeonato sem ajuda do juiz.

João gostou da conversa e resolveu fazer um check-up completo.

– E pra estômago, esôfago, azia de depois da esbórnia... O camaradinha tem alguma coisa?

O caboclo abriu um sorriso de quem tinha encontrado o cliente dos sonhos.

– Aí o senhor caiu na barraca certa! Leva mururé com quebra-pedra. Se não resolver, entra com barbatimão em jejum. Tem carapiá também. É tiro e queda. Mais alguma enfermidade?

João já estava se divertindo.

– E essa folhinha aqui?

– Espinheira-santa. Serve pra espinhela caída, inflamação, cansaço, enxaqueca, joanete... e ainda limpa a voz. Pro senhor, que vive cantando, é melhor que professor de canto.

Animado, o sambista resolveu aproveitar a promoção. Pediu um preparado para os rins, outro para o fígado, uma mistura para o estômago, duas garrafadas “preventivas”, meia dúzia de cipós e mais um punhado de folhas e raízes cujos nomes ele jamais conseguiria pronunciar: copaíba, andiroba, mirantã, uxi amarelo, açaí-branco, marapuama, amapá, quássia e pião-roxo

A pilha de pacotes já parecia enxoval de casamento. Enquanto embrulhava a compra, o erveiro olhou discretamente para Didu e comentou, em voz baixa, com a sinceridade brutal típica dos caboclos amazônicos:

– Arre, égua, patrão... esse nó-na-madeira aí tá bem avariado, num tá não? Pela compra dele, pensei que já tava encomendando a alta de São Pedro...

João ouviu a sentença, virou para o vendedor e caiu numa gargalhada tão grande que, por alguns segundos, o caboclo achou que ia precisar indicar mais uma erva: alguma que fosse boa para excesso de riso.

quarta-feira, setembro 09, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 63

 

Carrel Benevides, Silvia, Amazonino e Gilberto

63. Fevereiro de 1976. Faixa-preta de jiu-jítsu e vereador nas horas vagas, o advogado Carrel Benevides resolveu testar, no baile Despedida da Kamélia, do Olímpico Clube, se os golpes aprendidos no tatame também funcionavam ao som de marchinhas de carnaval. Funcionavam. Em poucos minutos, meia dúzia de foliões já tinha conhecido o chão de perto, e Carrel, por cortesia da Polícia Militar, conheceu a delegacia.

Quando a notícia chegou aos ouvidos do empresário Zeca Guerra e do publicitário Edgard Alecrim, também presentes no baile, os dois concluíram que aquilo era uma afronta à amizade. Resolveram libertar o companheiro na base do argumento mais usado pelos foliões depois da meia-noite: a confusão.

Entraram na delegacia distribuindo desaforos em todas as direções. Discutiram com os soldados, elevaram o tom de voz, baixaram o nível da conversa e, quando apareceu o delegado para descobrir que terremoto era aquele, ele também recebeu sua cota de carinho. O elogio mais delicado foi “gorila fascista a serviço da ditadura militar”. O restante não convém reproduzir nem em livro de humor.

O delegado, que não era adepto da liberdade de expressão naquele horário, mandou recolher os dois heróis ao xadrez.

Enquanto eram conduzidos para a cela, ainda protestando como se estivessem na tribuna da Câmara Municipal, avistaram Carrel tranquilamente ao telefone. Ele cobriu o bocal com a mão e sussurrou:

– Fiquem calmos. Estou falando com o coronel Souza. Já expliquei tudo. Daqui a pouco ele chega e tira a gente daqui.

Era a primeira frase sensata da noite. Pena que os dois não acreditaram nela. Continuaram reclamando até serem acomodados numa cela onde outros quarenta carnavalescos involuntários já faziam o esquenta do bloco dos encarcerados.

Meia hora depois, a porta da delegacia se abriu com pompa. Entrou o coronel Souza, impecável em sua farda de gala, acompanhado de três oficiais. Conversou reservadamente com o delegado, trocou alguns cumprimentos e, em seguida, saiu dali levando... Carrel Benevides. Só Carrel Benevides.

Zeca Guerra e Edgard Alecrim permaneceram hospedados pela Secretaria de Segurança até a Quarta-feira de Cinzas, quando finalmente ganharam a liberdade – e, de quebra, a carteirinha honorária do bloco “O Que Qui Eu Vou Dizer em Casa?”, formado exclusivamente pelos foliões que passaram o carnaval atrás das grades. Aprenderam, da maneira mais pedagógica possível, que amizade é uma virtude. Mas, antes de tentar salvar um faixa-preta, convém verificar se ele já não providenciou o próprio resgate.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 62

 

O carnavalesco Shangai metendo a mão na massa

62. Em 1989, a Reino Unido resolveu provar que nem sempre um desfile de carnaval começa na avenida. Às vezes, começa numa sessão de descarrego. O barracão da escola, na rua Duque de Caxias, parecia construído sobre um antigo cemitério indígena. 

O carnavalesco Shangai, contratado a peso de ouro da Beija-Flor de Nilópolis, já estava à beira de pedir aposentadoria por invalidez emocional. Nenhum carro alegórico ficava pronto. Quando terminavam um, quebrava o outro. Consertavam aquele, despencava uma escultura. Era um efeito dominó patrocinado pelo além.

Os diretores Adib Mamede, João Thomé, Zé Picanço e Bosco Saraiva convocaram uma reunião de emergência. Se o enredo era uma homenagem aos orixás, por que os homenageados estavam sabotando o desfile? A resposta veio de dona Ápia, mãe de santo respeitadíssima e mãe do Mestre Calama.

– Tem gente aqui muito carregada...

Silêncio.

– E muito amarrada...

Mais silêncio.

As suspeitas recaíram imediatamente sobre Adib Mamede, cuja vida social de sábado era tão movimentada que faria um sultão pedir férias, e sobre João Thomé, deputado federal, profissão que, por si só, já obriga qualquer cidadão a conviver diariamente com uma fauna de picaretas. Bosco Saraiva e Zé Picanço entraram na dança apenas por espírito de equipe.

Dias depois, os quatro apresentaram-se no terreiro para o descarrego. O Preto Velho incorporou em dona Ápia, olhou para os dirigentes e deu a primeira ordem:

– Tira a roupa, zifio...

Os quatro se entreolharam com a expressão de quem descobriu que o tratamento não era coberto pelo plano de saúde. Mas carnaval é carnaval. Pior do que pagar esse mico seria perder o desfile. Minutos depois, os dirigentes mais importantes da Reino Unido estavam completamente nus, perfilados como se posassem para um calendário beneficente.

Cada um foi colocado dentro de um círculo de pólvora e recebeu uma pequena cabaça contendo uma receita que dificilmente apareceria num programa de culinária: sangue fresco de bode e duas doses generosas de Velho Barreiro.

A recomendação era simples:

– Bebe tudo. E não vomita. Exu não gosta.

Os quatro engoliram aquilo com a mesma expressão de quem descobre que o uísque importado era, na verdade, óleo de fígado de bacalhau.

Terminada essa etapa gastronômica, receberam alguidares com água de cheiro e ervas medicinais. Quando a pólvora queimasse, deveriam despejar o banho sobre a cabeça e esfregar as ervas no corpo.

Exu riscou um fósforo. Segundos depois, quatro círculos de pólvora explodiram ao mesmo tempo. Foi menos um ritual religioso e mais uma final de campeonato de fogos de artifício. Passado o susto, veio a última etapa: o chamado “alongamento dos orixás”.

A cerimônia parecia inocente. O Preto Velho ficava de costas para o participante, os dois entrelaçavam os braços e cada um levantava o outro sobre as costas numa espécie de alongamento espiritual. Com Adib, deu certo. Com João Thomé, perfeito. Com Zé Picanço, um primor.

Chegou então a vez de Bosco Saraiva. Bosco fez sua parte com elegância e levantou o Preto Velho sem dificuldade. Quando chegou a vez do Preto Velho retribuir a gentileza...

Bem... Nem toda entidade espiritual consegue desafiar a Lei da Gravidade. O pobre guia tentou erguer Bosco, fez um esforço digno de halterofilista olímpico, tremeu da cabeça aos pés e, no segundo seguinte, os dois despencaram juntos como um piano lançado do décimo andar. Foi um estrondo. Dona Ápia quebrou um braço, machucou gravemente as pernas e Bosco saiu com o punho deslocado e a mão tão esfolada que dava para estudar anatomia sem abrir um livro.

Como tragédia pouca é bobagem, na queda eles acertaram em cheio a garrafa de Velho Barreiro. A cachaça espalhou-se pelo chão, encontrou um resto de pólvora ainda acesa e resolveu participar da gira. Uma língua de fogo subiu em direção ao congá. Velas, flores, colares, toalhas... Em poucos segundos, o altar parecia disputar um concurso de fogueira junina.

Zé Picanço colocou dona Ápia e Bosco no carro e saiu rumo ao hospital dirigindo apenas de cueca, provavelmente convencido de que aquele detalhe já não fazia a menor diferença naquela noite. Enquanto isso, Adib Mamede e João Thomé ficaram no terreiro combatendo o incêndio, sem saber se chamavam os bombeiros ou mais um orixá.

No fim das contas, apesar do braço quebrado, da explosão, do incêndio, do bode, da pólvora, da cachaça, da nudez coletiva e do maior alongamento fracassado da história da Umbanda amazonense, alguma coisa realmente deu certo. Naquele ano, a Reino Unido entrou na avenida como se tivesse recebido uma bênção VIP do céu. Ganhou o carnaval com nota dez em todos os quesitos.

Depois dessa epopeia, ficou difícil saber se o título veio pelo talento da escola ou porque, depois de tanta confusão, até os santos acharam que estavam em dívida com ela.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 61

 


61. Em 1997, Beth Carvalho entrou para a história da humanidade quando a Nasa programou a música “Coisinha do Pai” para acordar um robô em Marte. Graças à engenheira brasileira Jacqueline Lyra, a Madrinha do Samba tornou-se, oficialmente, a primeira sambista interplanetária. 

Pena que, dez anos antes, ela já havia feito uma experiência semelhante em Manaus: conseguiu desaparecer da Terra antes mesmo de subir ao palco.

O palco do sumiço foi o réveillon de 1987 no Olímpico Clube. Presidente do clube, Almerinho Botelho contratou a estrela, que fez uma exigência bem terrestre: metade do cachê na assinatura do contrato e a outra metade depois do show. Negócio fechado.

No sábado do réveillon, Beth desembarcou em Manaus e hospedou-se no Tropical Hotel, onde quem cantaria seria Eliana Pittman. Às quatro da tarde, ligou para Almerinho com um pedido quase humanitário. Os músicos haviam conhecido os amplificadores Fender da Importadora Mundial e estavam apaixonados. Amor à primeira vista. Será que ele poderia adiantar o restante do cachê para que a banda não sofresse essa dor da separação?

Almerinho, homem de bom coração e pouca experiência em golpes carnavalescos, topou.

Dinheiro na mão, problema resolvido. Beth instalou-se confortavelmente à mesa do parque aquático do hotel e iniciou um massacre gastronômico. Lagostas desapareciam numa velocidade industrial. Garrafas de uísque iam tombando uma atrás da outra como integrantes de escola de samba depois da apuração.

Às onze da noite, Eliana Pittman subiu ao palco do Tropical. Beth continuava firme na missão de reduzir o estoque mundial de scotch. No Olímpico, Almerinho e o diretor Tito Magnani começaram a desconfiar que alguma coisa não estava exatamente dentro do cronograma.

Meia-noite. Fogos explodindo em Manaus inteira. O novo ano chegava pontualmente. Beth Carvalho, não. Quem salvava a festa era a bateria da Reino Unido, reforçada por Caio do Cavaco e Edu do Banjo, tocando sem a menor ideia de que aquele “esquenta” entraria para o Guinness Book.

De dez em dez minutos, o radialista Paulo José agarrava o microfone e anunciava, com um entusiasmo que só a esperança explica:

– Dentro de mais alguns minutos... a grande Madrinha do Pagode... Beeeeeth Carvaaaalho!

A essa altura, “mais alguns minutos” já era uma unidade de tempo tão elástica quanto promessa de político em ano eleitoral.

Por volta da uma da manhã apareceu um micro-ônibus trazendo os músicos da cantora. Eles mal começaram a passar o som quando caiu uma chuvinha. Foi o bastante para o empresário – completamente afogado em uísque – descobrir uma súbita vocação para engenheiro eletricista.

– O palco fica perto da piscina. Se chover mais, pode dar um curto-circuito e eletrocutar a cantora. Acho melhor cancelar...

Almerinho respondeu com a delicadeza de um estivador:

– Nem pelo caralho! Ela já recebeu até o último centavo. Se for preciso, eu trago essa mulher escoltada pela Polícia Militar!

Três da manhã. Os ritmistas da Reino Unido já tocavam por instinto. As mãos pareciam lixas. Caio do Cavaco estava sem voz. Edu do Banjo já havia arrebentado três jogos de cordas. Tinham sido contratados para um pré-show de meia hora e já estavam oferecendo uma pós-graduação em resistência física.

Quatro da manhã. Boa parte do público já tinha ido embora, convencida de que Beth Carvalho talvez estivesse se apresentando em outro planeta.

Foi então que Almerinho e Tito Magnani resolveram partir para a diplomacia amazônica. Cada um colocou um três-oitão na cintura, entrou no carro e seguiu para o Tropical Hotel disposto a convencer a cantora – nem que fosse por excesso de argumentos.

Na recepção veio a notícia que enterrou de vez o réveillon. Beth, completamente derrotada pela mistura de lagosta com uísque, passara mal, vomitara tudo o que havia ingerido desde o desembarque e fora embarcada às pressas para São Paulo por volta da meia-noite. Ou seja: enquanto Paulo José ainda anunciava “dentro de mais alguns minutos”, a atração principal já devia estar sobrevoando Brasília.

Almerinho fez o que qualquer presidente de clube faria diante de tamanho samba do crioulo doido: entrou na Justiça com uma queixa-crime por estelionato. Ganhou a causa por unanimidade. Dizem que, anos depois, Beth conseguiu acordar um robô em Marte. Em Manaus, porém, não conseguiu acordar nem a própria consciência. E nunca mais colocou os pés na cidade, sob pena de ir em cana.

terça-feira, setembro 08, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 60

 


60. A dama do samba Jovelina Pérola Negra estava com 54 anos quando morreu de enfarte, no dia 2 de novembro de 1998, Dia dos Finados, no começo da madrugada, enquanto dormia em sua casa no bairro da Pechincha, em Jacarepaguá.

Em 1992, Jovelina veio a Manaus pela primeira vez para fazer uma série de apresentações no Clube do Samba, de Aloísio Preto e Vilson Benayon. A pedido de Dominguinhos do Estácio, Edu do Banjo foi apanhá-la no aeroporto numa manhã de quinta-feira e se prontificou a ser seu cicerone na cidade. Jovelina agradeceu.

– Olha, Edu, você só me deixa no hotel, que eu quero conhecer a Zona Franca e comprar uns bagulhinhos. Aí, por volta das duas da tarde, você me apanha na portaria do hotel e me leva para comer uma caldeirada de tucunaré, que já me disseram que é o máximo...

Na hora combinada, Edu do Banjo chegou ao Hotel Imperial e encontrou Jovelina Pérola Negra incorporando uma pomba-gira Cigana, mais braba que siri em lata:

– Porra, Edu, sacanagem da grossa! Puta que pariu, roubaram meu relógio de pulso aqui na Zona Franca. Foi ali naquele furdunço da Rua Marechal Deodoro. O vagabundo tinha a mão tão leve que eu nem senti. Só fui dar pela falta dele quando entrei na loja Oriente. Caralho, Edu, caralho! Aquele era um relógio de estimação que ganhei da minha madrinha quando completei 15 anos! Puta que pariu, Edu, puta que pariu! Logo eu, puta velha, malandra escovada, nascida e criada no morro da Pavuna, frequentadora de becos e quebradas desde os doze anos, dançar dessa maneira! Porra, Edu, sacanagem! Sacanagem! Ando na Baixada Fluminense há 20 anos e nunca fui assaltada, aí vim pagar um mico aqui em Manaus?! Assim não dá, porra, assim não dá... Meu relógio de estimação, Edu, caralho, roubaram meu relógio de estimação, Edu! Puta que pariu! Caralho! Buceta!

Jovelina não quis mais saber de peixada de tucunaré nem de porra nenhuma. Estava simplesmente transtornada e puta da vida. Naquela noite, a cantora foi entrevistada no programa “Clube do Samba”, do radialista Ormando Barbosa, na rádio Difusora, e repetiu a mesma história.

O radialista explicou aos ouvintes que aquele relógio não tinha valor comercial nenhum, só tinha valor sentimental, porque era um presente da madrinha já falecida de Jovelina. Quem devolvesse na portaria da rádio Difusora seria bem recompensado e nem precisaria se identificar.

O apelo do radialista, entretanto, não deu em nada. A crioula sestrosa dançou legal no seu relógio de estimação. E logo em Manaus, onde relógio de pulso é artigo de quinta categoria. Puta que pariu! Caralho! Buceta!

Telecoteco do Balacobaco - Canto 59

 


59. Nos anos 80, o jornalista Umberto Calderaro Filho criou o “Estandarte do Povo”, prêmio concedido pelo jornal A Crítica para as melhores escolas de samba de Manaus. Decisão tomada, ele passou à escolha dos jurados. Faltava o jurado para julgar “Harmonia”. 

Um dia, entra no gabinete do jornalista o empresário Gandu Dacache, um mineirinho gente boa que editava a revista Eficaz, mas não entendia nada de carnaval.

Calderaro, com seu vozeirão, gritou:

– Seu Gandu, o senhor vai ser jurado do quesito “Harmonia” do Estandarte do Povo. Está aqui a sua pasta, esteja às oito horas da noite no palanque e não me falte!

– Perfeitamente, seu Calderaro. Fico muito honrado com o seu convite, que para mim é uma ordem – devolveu o empresário.

Realizado o desfile, foram recolhidos os envelopes lacrados para serem abertos no dia seguinte, quando seriam conhecidos os vencedores. Venceu o GRES Mocidade de Aparecida.

Foi aquela festa. O Gandu lá, participando de tudo. Quando ficaram somente os jornalistas da casa, Umberto Calderaro, fazendo um sinal para os demais com uma piscada de olho, questionou Gandu:

– Seu Gandu, como é que o senhor me faz um papel desses? Deu dez pra todo mundo? Se todos os jurados fossem iguais ao senhor ia dar empate!

Gandu, na maior calma do mundo, abriu o coração:

– Seu Calderaro, o desfile correu na mais perfeita harmonia. Não houve nenhuma briga em nenhuma escola. Juro por Deus!

Foi uma gargalhada geral.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 58

 


58. Janeiro de 1996. No carnaval daquele ano, o sambista Luizinho Sá, ex-presidente do GRES Reino Unido da Liberdade, exercia o ingrato cargo de diretor de Relações Públicas da Associação do Grupo Especial das Escolas de Samba de Manaus (Ageesma). 

Entre suas atribuições estava uma missão digna de castigo divino: servir de cicerone para Priscila Pantera, a exuberante jovem eleita 1ª Princesa do Carnaval. 

Cabia a Luizinho levá-la para programas de rádio e televisão, entrevistas em jornais, inaugurações, bandas carnavalescas, camarotes, bailes e qualquer lugar onde houvesse um microfone, um fotógrafo ou um sujeito disposto a pedir uma selfie antes mesmo de existir selfie.

Priscila, além de bonita, era dona de uma voz rouca, mansa e dengosa que fazia qualquer frase soar como uma declaração de amor. Se perguntasse as horas, parecia estar fazendo uma proposta indecorosa. 

Os dois logo ficaram amigos. Luizinho vivia dando palpites sobre maquiagem, fantasia, cabelo, acessórios e outras inutilidades indispensáveis ao carnaval. A relação era tão espontânea que a menina passou a tratá-lo pelo apelido.

– Lulu.

O problema é que existia uma pessoa no mundo que detestava aquele apelido.

Tetê.

Esse era o carinhoso apelido de família de Lucicley Barbosa Sá, a diligente esposa do sambista.

Numa tarde, Luizinho foi buscar a princesa em casa para mais uma maratona de compromissos. Como também precisava levar a esposa e duas amigas, todo mundo entrou no mesmo carro.

Priscila acomodou-se no banco de trás, abriu a bolsa, puxou um espelhinho e começou a retocar o batom.

Então veio a primeira bomba.

– Lulu... Você acha que aquele biquíni douradinho ficou muito atrevido? Se você quiser, eu troco pelo prateado...

Luizinho fez de conta que não ouviu. Tetê apenas mudou discretamente de posição no banco.

Cinco minutos depois:

– Lulu... Aquela sandalinha acabou com o meu pezinho. Depois te mostro. Está cheio de calinho...

Luizinho seguiu dirigindo como se estivesse ouvindo a previsão do tempo. Tetê pigarreou. Duas vezes.

Mais cinco minutos.

– Lulu... Será que dava para abrir um pouquinho aquela tiara? Ela está apertando minha cabecinha...

Luizinho continuou olhando fixamente para o trânsito. Tetê já se abanava com um folheto de propaganda, embora o ar-condicionado estivesse funcionando perfeitamente.

Cinco minutos depois, a princesa respirou fundo e começou outra vez:

– Lulu...

Não conseguiu terminar.

Tetê girou no banco com a velocidade de uma porta-bandeira possuída, ajoelhou-se sobre o banco dianteiro e explodiu:

– Lulu é a minha buceta, porra! O nome do meu marido é Luizinho! Luizinho Sá! Vai chamar outro macho de Lulu na puta que pariu, sua sirigaita fuleira!

O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que dava para ouvir o pisca-alerta pensando. Antes que Tetê resolvesse explicar seu ponto de vista com um sapato de salto agulha, Luizinho encostou o carro, abriu a porta para a princesa, parou o primeiro táxi que apareceu e despachou a coitada para o restante dos compromissos.

Depois desse episódio, tomou uma sábia decisão administrativa. Passou três meses sem aparecer na sede da Ageesma. E, durante muito tempo, sempre que alguém o chamava de “Lulu”, ele tinha um reflexo involuntário: começava a acenar para o táxi mais próximo.

sexta-feira, setembro 04, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 57

 


57. Fevereiro de 1967. Em pleno sábado gordo de carnaval, o Olímpico derrota o Nacional pela segunda vez seguida e pelo mesmo placar (2 a 0), no campo da Colina, e se transforma no novo campeão amazonense de futebol. 

Editor de Esportes do matutino O Jornal, Celso Antônio esperava impaciente, na redação, pela foto principal da primeira página para fechar o jornal. 

Com um radinho de pilha, ele havia acompanhado a transmissão do jogo e já sabia que o primeiro gol tinha sido de Sales cobrando falta, aos 16 minutos, e o segundo, um gol de placa de Irailton, aos 18 minutos, ambos no segundo tempo. 

Dali a algum tempo, chega correndo Marivaldo Pereira, velho e cansado fotógrafo dos Diários Associados. Celso Antônio grita aliviado:

– Tudo bem, Marivaldo? Pegou o golaço do Irailton?...

– Não deu pra pegar não, seu Celso. Foi muito rápido.

– E agora? Como é que eu vou fechar o jornal sem a foto do gol do título? Porra, Marivaldo, você acabou comigo...

– Ora, seu Celso, se o goleiro que é pago para isso não pegou, eu é que tinha que pegar?!... Fala sério...

Telecoteco do Balacobaco - Canto 56

 


56. Março de 1994. O artista plástico, carnavalesco e artesão Paulo Castelo era tão magro que, se tomasse um caldo de cana, fazia sombra de canudinho. Tinha o físico de um faquir indiano em fim de carreira e vivia desafiando as leis da nutrição. 

Nas horas vagas – que eram justamente aquelas em que não estava pintando alegorias nem inventando fantasias de carnaval – dedicava-se ao próspero, embora ligeiramente clandestino, comércio de quelônios. 

Comprava tartarugas e tracajás nas bandas do rio Purus e revendia no Mercadinho da Cachoeirinha, onde os bichos faziam mais sucesso que televisão em final de novela.

Naquele ano, o Ibama resolvera acabar com a festa. Montou um posto de fiscalização nas proximidades da reserva do Abufari, em Tapauá, o maior berçário natural de tartarugas da Amazônia e, por consequência, o pior lugar do mundo para quem estivesse transportando 200 quelônios escondidos no porão de um barco. 

E foi exatamente ali que a embarcação de Paulo Castelo acabou interceptada.

Quando o barco atracou, surgiu na proa uma figura que parecia ter acabado de escapar de um campo de concentração: só de cueca samba-canção, costelas em alto-relevo e um semblante que faria qualquer médico pedir exames antes mesmo do bom-dia.

Um dos fiscais anunciou, em tom burocrático:

– Gostaríamos de subir a bordo para uma inspeção de rotina.

Paulo nem piscou.

– Por mim, tudo bem... Só acho justo avisar que tivemos um surto de cólera aqui no barco. Metade da tripulação ficou internada em Tapauá e o resto está de cama no porão. Eu também peguei essa desgraça. Tirando a diarreia que não dá trégua, a desidratação e esses quilinhos que perdi, estou me sentindo uma maravilha.

Os fiscais se entreolharam. Olharam de novo para Paulo Castelo. Olharam outra vez. O sujeito era tão magro que a história fazia todo o sentido. Se dissesse que tinha perdido quinze quilos, ninguém perguntaria de onde. Houve uma rápida reunião técnica entre os agentes do Ibama. Durou menos de um minuto.

A conclusão foi unânime: duzentas tartarugas até podiam representar um grave crime ambiental. Mas arriscar pegar vibrião colérico por causa delas já era um sacrifício que não constava no edital do concurso. Mandaram Paulo seguir viagem.

Naquele dia, as tartarugas escaparam da fiscalização graças ao melhor disfarce já inventado pela natureza: um comerciante que parecia estar morrendo havia pelo menos três semanas.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 55

 


55. O sambista Nilton Delfino Marçal, o lendário Mestre Marçal, nasceu em 1930, no bairro de Ramos, no Rio de Janeiro. Morou em São Cristóvão, Olaria, Estácio, Inhaúma e Pilares. Morreu em 1994, em Pilares, mas, como todo bom portelense, deixou o coração estacionado em Madureira, onde até os pardais parecem cantar em ritmo de samba-enredo.

Ainda menino, aprendeu a tirar som de tudo o que aparecesse pela frente: cuíca, tamborim, surdo, tarol, pandeiro... Se dessem um balde e uma colher de pau, era capaz de montar uma bateria. Durante 22 anos comandou a bateria da Portela, até que, em 1985, resolveu sair da escola. Foi aquela velha história: em escola de samba, às vezes o surdo faz menos barulho que a política.

Marçal, porém, não era homem de desafinar. Deu a volta por cima na Unidos da Tijuca e, no fim dos anos 80, gravou discos que mostraram que sua voz era tão elegante quanto sua batida. Em “Pela Sombra”, de Nelson Sargento e Nei Lopes, aconselhava: “Siga em frente sem retorno e sem parada... Vá com Deus e siga pelo acostamento...” Era um filósofo do samba. Só não imaginava que, anos depois, pisaria em Manaus carregando bagagem suficiente para abrir uma filial da Casa Colombo.

No começo da década de 1990, Bosco Saraiva, presidente de honra da Reino Unido, convidou Mestre Marçal para ministrar um seminário sobre os segredos da armação de uma bateria de escola de samba. O curso era aberto a diretores de bateria, ritmistas e pagodeiros. A programação previa apenas um fim de semana em Manaus.

Quem foi recebê-lo no aeroporto foram Bosco Saraiva e Edu do Banjo. Abraços, fotografias, tapinhas nas costas.

– Vou ali dar uma mijadinha – avisou Marçal, desaparecendo em direção ao banheiro.

Enquanto isso, Bosco e Edu pegaram os comprovantes das bagagens e foram para a esteira. A primeira mala chegou. Depois outra. Mais uma. Outra. Mais duas. Quando a esteira finalmente parou, os dois estavam empurrando três carrinhos abarrotados com oito malas. Bosco olhou para Edu com a expressão de quem acabara de descobrir que o voo era fretado pela Portela inteira.

– Porra, Edu... eu mandei passagem pra um sambista. Pelo jeito ele trouxe escondidos o Monarco, a Velha Guarda, a bateria, a ala das baianas e, se bobear, até o Paulo da Portela.

Cinco minutos depois, Mestre Marçal apareceu assobiando, tranquilo como quem voltava da padaria. Olhou para os dois imóveis ao lado da montanha de malas e perguntou:

– Ué... vocês ainda estão aí? Vamos embora.

Edu, completamente perdido, perguntou:

– Mas... e o resto do pessoal?

– Que pessoal?

– Os donos dessas malas.

Marçal olhou em volta, depois para as malas, depois para Edu.

– Que donos, rapaz? Tudo isso é meu.

Bosco quase engasgou.

– Tudo seu?

– Claro. São alguns paletozinhos...

– Mas o senhor vai ficar só dois dias em Manaus!

– Justamente.

No Hotel Imperial, enquanto quatro carregadores faziam musculação involuntária levando a bagagem para o quarto, Edu não resistiu.

– Mestre, me desculpe a curiosidade, mas pra que tanto paletó?

Marçal respondeu com a serenidade de quem explicava um teorema de Einstein.

– Meu filho, um homem elegante nunca desafia o clima.

Fez uma pausa dramática e iniciou uma verdadeira palestra de meteorologia aplicada à alfaiataria.

– Vamos imaginar que hoje à noite chova. Aí entra o azul-marinho. Mas, se der só um friozinho, eu prefiro o marrom-escuro. Amanhã de manhã, se fizer um sol bonito, vai o branco perolizado. À noite, dependendo da umidade do ar, posso escolher o cinza-grafite ou o verde-musgo. Domingo... ah, domingo é uma incógnita. Posso acordar inspirado no risca-de-giz. Mas, se o tempo abrir, quem sabe um salmão? Agora, se o céu amanhecer indeciso, aí só um quadriculado resolve. Ou então o azul-turquesa.

Bosco e Edu ouviam aquilo em silêncio, como dois alunos diante de uma aula magna da Academia Brasileira de Alfaiataria.

Marçal ainda concluiu:

– E cada terno tem seu sapato, seu cinto e sua gravata. Porque elegância não é brincadeira. O samba pode até improvisar. O figurino, nunca.

Bosco balançou a cabeça, admirado. Saiu de casa pensando que iria aprender os segredos da bateria da Portela. Acabou descobrindo que o verdadeiro mestre também era doutor em previsão do tempo... desde que o clima fosse medido em paletós.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 54

 


54. Mestre Carlito acompanhava Chico da Silva numa excursão pelo Pará, uma turnê tão extensa que, segundo a lenda, eles tocaram em todos os 5 mil garimpos de Itaituba – e ainda sobraram dois ou três barrancos reclamando que haviam sido esquecidos. 

Nas horas vagas, enquanto Chico descansava a voz ou ia prosear com os garimpeiros, Carlito se trancava com o violão para inventar um arranjo diferente para uma música inédita de Rinaldo Buzaglo. Era o tipo de sujeito que achava mais fácil encontrar um acorde diminuto do que uma vaga para estacionar no centro de Manaus.

Numa manhã de domingo, Chico resolveu disputar uma animada pelada com o pessoal do garimpo “Vai Quem Quer”, um campeonato em que o impedimento era ignorado, mas carrinho por trás valia medalha de honra ao mérito. Carlito preferiu ficar no hotel, em paz, sentado à beira da piscina, espremendo acordes dissonantes do violão enquanto o café da manhã ainda fazia efeito.

Só que paz, em garimpo, dura menos que promessa de político em época de eleição. Na mesa ao lado, dois garimpeiros que já tinham ultrapassado o limite do álcool havia algumas doses começaram uma discussão filosófica sobre futebol. De repente, um deles resolveu enriquecer o debate com argumentos de aço: puxou um revólver Taurus calibre .38 de cano longo e o depositou sobre a mesa com a delicadeza de quem serve um cafezinho. Então disparou – felizmente apenas pela boca:

– Olha, caralho, a gente não precisa ir muito longe! Isso aqui é um berro flamenguista de matar ladrão! Sou flamenguista desde que nasci e todo vascaíno que eu conheço é ladrão, corno, viado, maconheiro, filho da puta, bandido, mau-caráter, trambiqueiro, nojento, safado, vagabundo, trampolineiro, vigário, qualira e ainda tem a mãe na zona! Tenho nojo de vascaíno! Não posso ver um que já me dá vontade de passar bala! Ô raça desgraçada!

Em seguida, virou-se para Carlito, que até aquele instante só queria descobrir se a nona do acorde era maior ou menor:

– Você não concorda, parente?

Naquele momento, Mestre Carlito viveu o maior conflito moral da carreira. De um lado, mais de quarenta anos de fidelidade ao Vasco da Gama. Do outro, um flamenguista bêbado segurando um .38, claramente disposto a transformar qualquer divergência esportiva em estatística policial.

Apesar da cegueira que escondia com óculos escuros, Carlito olhou para o revólver, olhou para o sujeito e respondeu com a serenidade dos grandes diplomatas:

– Concordo plenamente, meu amigo!

Naquele domingo, o Vasco perdeu mais um torcedor por alguns minutos. Mas, em compensação, Carlito ganhou o direito de continuar vivo para torcer de novo na segunda-feira.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 53

 

O "Aranha Negra" em ação

53. Maio de 1966. O Rio Negro estava enfrentando o time carioca do São Cristóvão no Parque Amazonense e vencendo por 3 a 0, gols de Horácio, Edson Piola e Cândido.

No segundo tempo, o time carioca foi para o tudo ou nada obrigando o goleiro rionegrino Clóvis, o “Aranha Negra”, a fazer verdadeiros milagres embaixo da trave.

De repente, o lateral esquerdo Antenor dá uma voadora no atacante Aladim, do São Cristóvão, e é expulso de campo.

Reclamando barbaridade do árbitro, ele se dirige para o vestiário, quando é interceptado pelo repórter de pista Raimundo Moreira, da Rádio Baré:

– E aí, Antenor, por que é que você está saindo mais cedo de campo?...

– Sei lá! – resmunga Antenor. – Pergunta daquele juiz filho da puta...

– Ôpa, ôpa, palavrão não! Palavrão não! – reage o repórter de pista. – Essa aqui é uma rádio familiar!

– Eu sei, eu sei! – se desculpa Antenor. – Mas eu falei juiz filho da puta no bom sentido...

O repórter de pista quase foi demitido na mesma hora pelo comentarista Luiz Saraiva, chefe da equipe esportiva da rádio.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 52

 


52. A graciosa atriz Ednelza Sahdo foi porta-bandeira da Mocidade de Aparecida desde a fundação da escola, em 1981, até pendurar o pavilhão, em 2006, quando passou a missão à neta Naruna. Durante esse quarto de século, cultivou um vício que preocupava a família mais do que dívida em cartão de crédito: fazia questão de confeccionar a própria fantasia.

Enquanto outras porta-bandeiras encomendavam seus figurinos a profissionais especializados, Ednelza encarava a empreitada como uma mistura de alta-costura, artesanato e prova de resistência.

Ela passava meses costurando lantejoulas, paetês, canutilhos e um número obsceno de pérolas, numa dedicação que faria Penélope pedir aposentadoria. E, obedecendo a uma tradição que parecia cláusula pétrea, a fantasia ficava pronta... duas horas antes do desfile. Apesar disso – ou justamente por causa disso –, colecionava notas dez.

Foi num desses carnavais que a tragédia resolveu vestir fantasia de comédia. Enquanto Ednelza bordava, em estado de transe, os últimos dois milhões de pérolas da saia rodada, a filha mais nova lançou um olhar desconfiado para a delicada sandalinha de lamê.

– Isso aí não aguenta nem um samba-enredo, quanto mais um desfile inteiro.

Tomada pelo espírito da engenharia improvisada, resolveu reforçar o calçado. Pegou dez preguinhos finos para cada lado do solado e os martelou com o entusiasmo de quem estava construindo a Ponte Rio-Niterói.

Ednelza não viu nada. Vestiu a fantasia, colocou a coroa, ajeitou o sorriso de porta-bandeira e deixou para calçar a sandália somente na concentração.

Mal começou a evoluir na avenida, sentiu uma pontada no calcanhar. Um dos pregos, cansado de viver escondido na sola, resolveu conhecer o mundo exterior. Entrou pelo pé da dona.

Ela passou a sambar na ponta do pé com uma elegância que fez muita gente acreditar que aquela coreografia fazia parte do enredo. Parecia a primeira bailarina do Teatro Bolshoi interpretando O Quebra-Nozes em ritmo de samba.

Só que a física é uma ciência cruel. Ao transferir o peso do corpo para a frente, outros quatro pregos atravessaram seus dedos. Instintivamente, Ednelza voltou a apoiar o pé inteiro no chão. Foi a vez de mais quatro pregos lhe perfurarem a planta do pé.

Naquele momento, seus pés já lembravam um porco-espinho em pleno desfile carnavalesco. Mas havia um pequeno detalhe: o jurado não podia saber. E não soube.

Sem perder o sorriso, sem deixar o pavilhão vacilar um milímetro e sem entregar o sofrimento nem por decreto, Ednelza rodopiou, cortejou o mestre-sala, cumpriu todas as evoluções e terminou o desfile como se estivesse pisando em pétalas de rosa – quando, na verdade, estava pisando em dez pregos.

Só na dispersão a cortina caiu. Com os pés ensanguentados, nem passou pela comemoração. Pegou o primeiro carro rumo ao Hospital Getúlio Vargas, onde recebeu curativos, uma injeção antitetânica e, provavelmente, o conselho médico de nunca mais aceitar serviços de engenharia doméstica em calçados de carnaval.

Passou uma semana sem conseguir andar. Mas, como todo bom sambista sabe, dor passa, troféu fica. A nota dez veio, a Mocidade de Aparecida conquistou mais um campeonato e Ednelza entrou para a história como, provavelmente, a única porta-bandeira capaz de vencer um carnaval sambando sobre um campo minado.