41. O portelense João Batista Nogueira
Júnior, mais conhecido como João Nogueira, faleceu em junho de 2000, vítima de
um enfarte. Foi um dos maiores sambistas que o Brasil produziu, dono de uma voz
inconfundível, de uma malandragem elegante e de uma capacidade rara de
transformar qualquer roda de samba em patrimônio cultural da humanidade.
Carioca do
Méier, flamenguista doente, aprendeu violão com o pai, compôs clássicos gravados por gigantes da
música brasileira e deixou obras-primas como “Espelho”, “Poder da Criação”, “Nó
na Madeira” e “As Forças da Natureza”.
Na década de
1980, quando o samba começou a ser tratado pela indústria fonográfica com o
mesmo entusiasmo que um síndico dedica a um bloco de carnaval dentro do
elevador, João reagiu criando o Clube do Samba. Era praticamente uma seleção
brasileira do gênero.
Por lá
circulavam Beth Carvalho, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Clara Nunes,
Roberto Ribeiro, Zé Kéti, Nei Lopes e uma infinidade de craques. Na bateria,
nos sopros e nas cordas só havia monstros sagrados. Era mais fácil encontrar um
gênio musical naquele salão do que uma pessoa comum. E o presidente daquela
república independente do samba era justamente João Nogueira.
Pois bem. Em 1985, o fundador do Clube do Samba veio fazer um show em Manaus. Assim que chegou, ligou para seu velho amigo Altairzinho Nunes, violonista, farmacêutico e conhecedor profundo das prioridades da vida.
Altairzinho não perdeu tempo:
– João, amanhã
vai ter tambaqui assado e pagode na casa do Coracy Brasil, pai do Edu do Banjo e meu cunhado. Se você tiver disponível, faz o seguinte:
João aceitou o convite antes mesmo de ouvir o restante da frase.
No sábado, apareceu acompanhado de uma verdadeira delegação. Vieram Mané do Cavaco, Nicinho do Trombone, Cuscuz do Surdo, Dézio, Jorge Simas e outras figuras cuja simples presença já elevava o nível alcoólico médio do ambiente.
Em menos de
meia hora, a roda de samba estava instalada. Em uma hora, ninguém mais lembrava
quem era anfitrião e quem era convidado. Em duas horas, a cerveja já começava a
desaparecer numa velocidade preocupante.
Por volta das
três da tarde, surgiu o protagonista oculto desta história. Não era João
Nogueira. Não era o tambaqui. Não era o samba. Era uma pequena
pimenta-malagueta. Uma criatura vermelha, discreta e aparentemente inofensiva,
criada por Deus especificamente para testar a arrogância humana.
Enquanto
devorava uma costela monumental de tambaqui, João percebeu que alguns
amazonenses levantavam da mesa, caminhavam até uma pimenteira no fundo do
quintal, colhiam algumas malaguetas, esmagavam tudo no prato, misturavam
azeite, farofa e tucupi e comiam aquilo com a tranquilidade de quem passa
manteiga no pão. Intrigado, perguntou:
– Que pimenta é
essa?
Caio do Cavaco
explicou:
– É malagueta.
Prima da dedo-de-moça.
Fez uma pausa.
– Só que é a
prima que saiu da cadeia.
Edu do Banjo
reforçou:
– Vai com
calma, João. Isso aí não é brincadeira.
João Nogueira
ouviu os avisos com o mesmo interesse que um adolescente ouve recomendações
para estudar. Olhou para as pequenas pimentas. Depois olhou para si mesmo. Era
João Nogueira. Fundador do Clube do Samba. Parceiro de grandes compositores.
Figura respeitada em todo o país. Que perigo poderia representar um vegetal de
dois centímetros?
Tomado por essa
confiança excessiva, esmagou cinco malaguetas num pires. Cinco. Não uma. Não
duas. Cinco. Misturou azeite, farofa, tucupi e engoliu tudo de uma vez, como se
estivesse assinando um tratado de paz. Durante trinta segundos, nada aconteceu.
João chegou até a imaginar que os amazonenses estavam exagerando. Foi então que
a malagueta resolveu se apresentar formalmente.
O sambista
levantou da cadeira numa velocidade incompatível com as leis da física.
Atravessou o quintal. E mergulhou de roupa e tudo na piscina. Foi um mergulho
tão desesperado que alguns presentes cogitaram a hipótese de ele ter visto uma
sucuri. Quando emergiu, parecia um sobrevivente de desastre industrial.
– Minha boca
está pegando fogo!
Mergulho.
– Minha língua
está pegando fogo!
Outro mergulho.
– Meu beiço
está pegando fogo!
Mais um
mergulho.
– Tragam gelo!
Açúcar! Pasta de dente! Um padre! Um bombeiro! Qualquer coisa!
A cena era
emocionante. Ali estava um dos maiores nomes da história do samba brasileiro
sendo derrotado por cinco pimentas colhidas num quintal da Zona Norte de
Manaus. Nem a censura da ditadura. Nem os executivos das gravadoras. Nem os
defensores do jabá. Nem os críticos musicais. Nada havia conseguido derrubar
João Nogueira daquele jeito. Somente a malagueta.
Após alguns
minutos de negociações diplomáticas entre sua boca e o restante do organismo, a
crise finalmente começou a passar. Ainda abalado, João sentou-se novamente e
fez uma análise serena da situação. Ou pelo menos tão serena quanto alguém
recém-saído de um incêndio bucal.
– Que sufoco,
meu compadre...
Respirou fundo.
– Eu não sei o
que está ardendo mais agora: minha boca...
Nova pausa.
– ...ou o que
vai arder daqui a algumas horas.
A roda explodiu
em gargalhadas. João então revelou a razão de sua preocupação estratégica:
– Eu sofro de
hemorroidas, compadre!
Naquele
instante, todos compreenderam que a batalha estava apenas no primeiro tempo. A
guerra verdadeira ainda seria travada mais tarde. Dizem que João Nogueira
continuou amando o samba, o tambaqui, Manaus e os amigos amazonenses. Mas nunca
mais chegou perto de uma pimenta-malagueta. Porque algumas lições a vida ensina
uma única vez. E algumas professoras vêm vestidas de vermelho, medem dois
centímetros e crescem silenciosamente no fundo de um quintal.








