O espetáculo se abre com a entrada em cena do Apresentador,
seguido pelo Levantador de Toadas e pelo agrupamento de percussão (Marujada de
Guerra ou Batucada), e se encerra após a encenação do ritual. Fora isso, não há
ordem fixa de encadeamento para o aparecimento dos diversos personagens e suas
diferentes encenações.
Os personagens individuais, como Cunhã-Poranga, Sinhazinha
da Fazenda, Boi-Bumbá, Rainha do Folclore, Pajé e Tuxauas são geralmente
trazidos encarapitados em alegorias. Seu aparecimento é saudado com fogos de
artifício e efeitos especiais, acompanhados por toadas específicas.
Alguns elementos, como os maravilhosos Tuxauas (chefes
indígenas cujas fantasias são pequenas alegorias), adentram a cena, exibem-se e
logo saem. A maior parte, contudo, permanece no local, em especial as Tribos
masculinas e femininas que, com seu bailado coreografado, enchem gradualmente a
arena até a plenitude.
Acontece então o ritual, principal momento da aparição do Pajé,
e culminância de cada apresentação. Depois disso, o boi começa a sair da arena
numa movimentação sempre circular.
Na performance, há um núcleo de sentido definido, associado ao tema da morte e da ressurreição do boi. Esse núcleo agrega-se em torno dos personagens cuja atuação acompanha a aparição do boi na arena.
O boi-bumbá, animado pelo “tripa” (quem entra dentro da
carcaça do boi e desenvolve o bailado cheio de gingas e efeitos especiais),
traz sempre consigo o Amo do Boi, a Sinhazinha da Fazenda, a Vaqueirada,
Cazumbá, Pai Francisco e Mãe Catirina.
No entanto, os personagens indígenas relacionados ao auto
original foram, aos poucos, dele se destacando e ganhando crescente importância
no Festival de Parintins. É o caso da Cunhã-Poranga, dos Tuxauas, do Pajé, das Tribos
femininas e masculinas, e de um novo quadro cênico, o ritual. A temática das
toadas acompanhou esse processo.
Uma toada de 1992 falava do índio como “o humilde parceiro
do boi”. Essa formulação não teria lugar nos dias de hoje, quando se destacam
as toadas com motivos indígenas.
Ao longo da década de 1990, a ênfase gradual, porém decidida
e consciente, nos elementos indígenas da trama, configurou um novo universo
simbólico. Emergiu, desse modo, um novo nativismo no Boi-Bumbá de Parintins.
Ligado ao espetáculo por fortes laços, esse novo universo corresponde a um deslocamento importante. Pois o tema da morte e ressurreição, desenfatizado no conjunto do boi, como que para aí migrou.
O aspecto burlesco do folguedo é preservado em Parintins
sobretudo no seio do conjunto do boi, especialmente pelos bufões Pai Francisco,
Mãe Catirina e Cazumbá. O nativismo dos bumbás sobrepôs-se, entretanto, a essa
abordagem cômica, como um canto trágico em louvor dos “que foram outrora os
donos das terras”.
O bumbá de Parintins é, sob esse aspecto, um espetáculo
ímpar. Mistura a alegria da festa à celebração emocionada da consciência da
destruição de muitos povos indígenas amazônicos, afirmando, ao mesmo tempo, o
valor positivo de uma identidade cabocla.
Ora, essa ênfase nativista trouxe no seu bojo uma nova
abordagem do tema anual que é atualmente um grande diferenciador de estilo dos
bois.
Aqui um ponto importante. É verdade que, com relação ao
tratamento do tema, o Garantido faz a defesa da “tradição” e o Caprichoso
assume o discurso da “inovação”. Seria, contudo, enganador alinhar a história
de um boi numa direção e a do outro, na outra.
Estamos diante de uma fase particular da história dos
bumbás. Em outras épocas, essas posições já estiveram invertidas. No contexto
da festa, moderno e tradicional são, sobretudo, sinais de diferenciação.
Designam aspectos de um processo em que a estabilização de novos padrões
estéticos requer também a construção de diferenças de estilo.
O boi Garantido vem afirmando assim a sua liberdade com relação ao tratamento do tema. Em sua visão, “as pessoas têm que entender que não é uma falha, é uma característica dos bois não seguir enredos como escolas de samba”. Ou ainda: “queremos brincar de boi, não existe compromisso com tema, mas com as toadas e as figuras folclóricas. O boi-bumbá não tem preocupação com a sequência. Nossa apresentação é uma ideia livre, sem a sequência de três atos, mas que tem uma justificativa dentro do contexto do boi”, explicou Emília Faria, diretora de Arte do Garantido, ao jornal A Crítica, em julho de 1997.
O boi Caprichoso, por sua vez, vem inovando justamente na
direção de uma concepção mais unitária das três apresentações. O diretor de
arte Simão Assayag redigiu elaborado libreto para a apresentação de 1996,
marcando a tendência com a proposta da “ópera popular cabocla”.
Entre os dois estilos, há um nítido ponto em comum: a ênfase
ritual nos componentes indígenas da apresentação. O caráter amalgamado e
maleável do bumbá, marcante desde suas primeiras descrições, revela-se nessa
nova eleição em sua plenitude.
O boi-bumbá de Parintins é um novo e fascinante capítulo da
longa história do folguedo no país. Emerge como um moderno movimento nativista
que elegeu imagens indígenas como metáforas para a afirmação de uma identidade
regional cabocla. Um poderoso processo ritual, através do qual a pequena
cidade, e com ela toda a região Norte, como que aspira – e tem conseguido com
razoável sucesso – comunicar-se com o país e com o mundo.




















