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sábado, outubro 24, 2026

O espírito de Ezra Pound baixa em Parintins

 


O escritor, crítico literário e poeta Ezra Pound atuou como editor e impulsionador crucial das carreiras de grandes nomes como T.S. Eliot, James Joyce, Ernest Hemingway, Robert Frost e W.B. Yeats. Ele foi o principal articulador da estética modernista na poesia de língua inglesa, ajudando a romper com as estruturas rígidas e sentimentais da era vitoriana.

Ezra Pound revolucionou a tradução de textos clássicos (especialmente chineses e latinos), introduzindo a ideia de recriação crítica e poética. No Brasil, essa abordagem influenciou diretamente os poetas do movimento Concretista.

Em um de seus ensaios mais famosos, ele propôs a existência de três classes de criadores: “inventores”, os que descobrem um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo, os “mestres”, os que fazem várias combinações do processo inicial e se saem tão bem ou melhor do que os inventores, e os “diluidores”, aqueles que vieram depois e não foram capazes de realizar tão bem o trabalho.

Ezra Pound falava de literatura. Mas a gente pode usar seus argumentos para falar de música. Tomando como exemplo o baião nordestino, Luiz Gonzaga, nos anos 1940, desenvolveu uma maneira particular de tocar o baião. Ele não era bem um compositor ou um letrista (poesia mesmo quem fazia eram os seus parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas), mas Gonzagão acabou sendo respeitado como um autêntico inventor.

Um estilo musical nem sempre nasce pelas mãos de um homem só. Uma pessoa pode criar um modo diferente de tocar um ritmo (como João Gilberto e seu violão “bossa nova”), mas quase sempre há um conjunto de outras pessoas (arranjador, letrista, intérprete) que contribuem para que a “invenção” tome sua forma final.

Mozart foi um mestre que não inventou a ópera, mas suas óperas são de uma excelência que seus predecessores não tinham alcançado. Na maioria das vezes, essa fronteira entre inventor e mestre é muito pequena, pois na medida em que um músico usa um estilo pré-existente e insere nele novas combinações harmônicas, rítmicas e estruturais, há um componente de invenção e originalidade que não se pode subestimar.

Nas toadas de Parintins, um pequeno grupo de “inventores” foi decisivo para que o desenvolvimento das composições atingisse o patamar de qualidade que perdura até os dias de hoje: J. Carlos Portilho, Emerson Maia, Fred Góes, Tony Medeiros, Inaldo Medeiros, Ronaldo Barbosa e Chico da Silva.

Mas o culto ao inventor, como já ensinou o poeta, crítico literário, filósofo e escritor Antônio Cícero, irmão da cantora Marina Lima, também é frequentemente associado ao slogan “make it new”, de Ezra Pound, que pode literalmente ser traduzido por “faça-o novo” e, menos literalmente, por “faça o novo”.

Na Atenas clássica, Isócrates já dizia que o importante não é fazer o mais novo, mas o melhor. O poeta Haroldo de Campos interpreta “make it new” como uma exortação a “remastigar a herança cultural universal para nutrir o impulso: renovar”.

A injunção de Pound também deve ser entendida a partir da definição que ele próprio dá para a literatura como “news that stay news”: novas que permanecem novas, novidades que permanecem novidades.

O novo que permanece novo não é simplesmente “o novo”, mas aquilo que não envelhece. “Um clássico é um clássico”, afirma Pound, com toda razão, “porque possui um certo eterno e irreprimível frescor”.

Os poetas líricos gregos pensavam desse modo. Os poetas épicos haviam considerado as Musas – as deusas que inspiram os poetas – como filhas da Memória.

Supõe-se, às vezes, que isso representasse o reconhecimento da importância da memória e da memorização para a poesia oral.

Outra hipótese é que esse mito refletisse o fato de que os poemas épicos preservavam a memória de feitos originários da comunidade.

Os poetas líricos, porém, compreenderam que o que preservava a memória dos feitos da comunidade era a memorabilidade dos próprios poemas que cantavam tais feitos.

Para eles, o feito mais memorável de todos era, portanto, o próprio poema.

A memória da Guerra de Tróia era preservada, não tanto porque fosse, ela mesma, memorável, mas em virtude da memorabilidade do poema que a cantava, a “Ilíada”.

Nesse sentido, as Musas eram filhas da Memória porque representavam a fonte da qualidade (divina) que tornava os poemas deles – mesmo quando não tratavam dos “grandes temas”, mas apenas, por exemplo, dos seus amores – inesquecíveis, memoráveis, dotados de “eterno e irreprimível frescor”.

Foi trilhando nessa mesma senda e utilizando como matéria-prima o mesmo espírito criativo dos antigos poetas líricos da Grécia antiga que J. Carlos Portilho, Emerson Maia, os irmãos Inaldo e Tony Medeiros, Fred Góes, Ronaldo Barbosa e Chico da Silva produziram o mais bem-acabado repertório de toadas do Festival de Parintins, quase todas hoje incluídas na categoria de verdadeiros clássicos do dois-pra-lá-dois-pra-cá.

Conhecer a história de cada um deles é uma boa maneira de entender porque Parintins virou a capital cultural da Amazônia. Ninguém disse que ia ser fácil.

sexta-feira, outubro 23, 2026

A construção festiva do Bumbá Caprichoso

 


Para entender melhor o surgimento do Caprichoso no contexto do folclore de Parintins também é importante ler o livro “A Verdadeira História do Festival de Parintins”, de Raimundinho Dutra, versador tradicional do bumbá e oriundo de uma família tradicional do boi azul.

Em um de seus relatos, Raimundinho Dutra diz ter escutado de seus próprios pais que foi seu avô, o maranhense Marçal Mendes de Assunção, que trouxe as primeiras danças para Parintins, fato ocorrido em 1888.

O local de realização dos ensaios do Caprichoso, conhecido popularmente como curral, é chamado de Zeca Xibelão em homenagem ao primeiro tuxaua do boi-bumbá. Ele está localizado na parte considerada como azul da cidade.

O Bumbódromo situa-se na área central da cidade, traçando, juntamente com a catedral de Nossa Senhora do Carmo e o cemitério local, uma linha imaginária, que divide Parintins em uma metade leste e outra metade oeste. O lado leste pertence ao Caprichoso, o lado oeste, ao Garantido. Simples assim.

Como já foi visto, há muita controvérsia sobre a história do Caprichoso, uma vez que os bois de Parintins não eram associações legalmente registradas e nem possuíam ampla cobertura da imprensa até a criação do Festival.

Tudo o que se sabe atualmente foi levantado por pesquisadores a partir de entrevistas com membros das duas entidades, além de consultas a outros registros da tradição oral parintinense.

Some-se a isso o fato de que a extrema rivalidade entre os bumbás faz com que ambas as entidades busquem se afirmar como a mais antiga, o que leva seus torcedores e integrantes a defenderem teses que sugerem datas de fundação bastante remotas.


A diretoria do Caprichoso afirma, baseada em algumas versões da tradição oral, que o boi foi fundado por João Roque, Félix e Raimundo Cid, em 20 de outubro de 1913. Os três fundadores seriam irmãos, nascidos em Crato, que se mudaram para Parintins devido ao Ciclo da Borracha.

Ainda segundo esta versão, o boi recebeu esse nome devido à sugestão de um advogado, de nome José Furtado Belém, que conhecida um outro boi, de nome Caprichoso, que existia no bairro da Praça 14 de Janeiro, em Manaus.

Defensores desta tese alegam ainda que “Touro Galante” seria o apelido do Caprichoso à época. Ocorre que a própria diretoria do boi Caprichoso já entrou em contradição.

Em 2001, o então deputado estadual Zezinho Faria propôs na Assembleia Legislativa que fosse dado aos dois bois parintinenses a maior comenda de mérito cultural do Amazonas, a comenda Ruy Araújo.

O projeto foi aprovado e a cerimônia ocorreu em 7 de junho de 2001, no auditório Dom Arcângelo Cerqua, localizado em Parintins.

O Garantido foi representado por seu ex-Amo, João Batista Monteverde, filho de seu fundador.

Indicado como fundador do boi Caprichoso à ALE-AM, Luiz Gonzaga foi representado por sua viúva, a senhora Izolina Gonzaga.

A senhora Gonzaga recebeu a medalha em nome de seu ex-marido, indicando a verdadeira “paternidade” do touro negro, das cores azul e branca.


Em 2013, ano do suposto centenário dos dois bois, ocorreram algumas manifestações em Parintins, organizadas pelos descendentes vivos de Luiz Gonzaga, em que estes reivindicavam o reconhecimento de sua família como cerne da verdadeira identidade do fundador do boi Caprichoso.

Segundo a referida família, a diretoria do boi Caprichoso não prezava pela verdadeira história do boi azul, principalmente por querer “ocultar” os detalhes comprovados oralmente por inúmeras testemunhas sobre o surgimento da agremiação folclórica.

Maria Inácia Gonzaga, filha do suposto fundador, afirmou que o Caprichoso é parintinense, evidenciando ainda que Roque Cid (atualmente apontado como o fundador da agremiação pela diretoria) era o fundador do boi Galante.

“Querem colocar uma pessoa de fora para ser fundador do boi em vez de valorizar quem é da terra, isso é falta de respeito. Meu pai é parintinense, o Caprichoso nasceu em 1925, na rua Rio Branco, onde ainda moram filhos e netos de Luiz Gonzaga”, diz ela. A história é apoiada por Maria do Carmo Monteverde, filha de Lindolfo Monteverde, o fundador do Garantido.


O cantor e compositor Chico da Silva, conhecido por suas célebres toadas para os dois bois, afirmou, em 2018, durante o programa #Toadas, do site BNC, que o boi Caprichoso foi fundado em 1925, e o contrário em 1924. 

“O Garantido é de 1924 e o Caprichoso de 1925, esse é meu depoimento e vamos parar com essas outras historinhas sem fundamento”, detonou.

Os presidentes do bumbá Caprichoso, dos anos 80 em diante, foram os seguintes: Rubem Santos (1985-1988), João Andrade (1989-1992), Ray Viana (1993-1996), Joilto Azêdo (1997-2000), Dodózinho Carvalho (2001-2002), César Oliveira (2003-2005), Carmona Oliveira Filho (2006-2010), Márcia Baranda (2011-2013), Joilto Azêdo (2013-2016), Babá Tupinambá (2016-2019), Jender Lobato (2019-2023) e Rossy Amoedo (desde 2023).

Os Levantadores de Toada foram os seguintes: Franco Costa (1983-1988), Arlindo Júnior (1989-1999), Renato Freitas (2000-2001), Robson Junior (2002-2004), Arlindo Júnior (2005-2006), Edilson Santana (2007-2009), David Assayag (2010-2020) e Patrick Araújo (desde 2021).

Os Apresentadores foram os seguintes: Mário Gordo e Franco Costa (1983-1986), Marcos Santos (1987-1989), Gil Gonçalves (1990-1997), Arlindo Júnior (1998-2004), Júnior Paulain (2005-2013), Arlindo Júnior (2014), Júnior Paulain (2015), Fabiano Neves (2016) e Edmundo Oran (desde 2017).

Os Amos do Boi foram os seguintes: Rey Azevedo (1984-1998), Benedito Siqueira (1999-1999), Rey Azevêdo (2000-2003), Renato Freitas (2004), Edilson Santana (2005-2006), Prince do Boi (2007-2009), Edilson Santana (2010-2013), Junior Paulain (2014), Edmundo Oran (2015-2016), Prince do Boi (2017-2024) e Caetano Medeiros (desde 2025).

Entre os principais compositores do Caprichoso estão José Carlos Portilho, Ronaldo Barbosa, Carlos Paulain, Chico da Silva, Raimundinho Dutra, Sílvio Camaleão, Mailzon Mendes, Carlos Batata, Simão Assayag, Alceo Anselmo, Paulinho Du Sagrado, Robson Júnior, Tadeu Garcia, Alex Pontes, Zezinho Cardoso, Hugo Levy, Geovane Bastos, Ademar Azevedo, Adriano Aguiar, Klinger Araújo, Ronaldo Barbosa Jr., Maurício Filho, Davi Jerônimo e Cézar Moraes.


O histórico compositor e poeta Raimundo Nonato de Jesus Dutra, conhecido como Raimundinho Dutra, faleceu na noite de domingo, 4 de maio de 2025, em Manaus, aos 94 anos.

A diretoria do bumbá Caprichoso postou nas redes sociais a seguinte Nota de Pesar:

É com profundo pesar que recebemos a notícia do falecimento de Raimundinho Dutra, um dos grandes nomes da história e da poesia do Boi Caprichoso e do Festival de Parintins.

Poeta talentoso, Raimundinho marcou gerações com sua sensibilidade e genialidade. Suas toadas, como “Aquarela do Touro Negro”, “Meu Cântico de Guerra”, “Mocidade” e “Solo Amado”, embalaram as noites de Boi de Rua e despertaram o sentimento mais genuíno de amor pelo boi da estrela na testa.

Foi ao som de suas composições que o Boi Caprichoso ganhou vida nas ruas de Parintins, nos primórdios desta manifestação popular que hoje encanta o mundo.

Sua contribuição para a preservação e valorização da nossa cultura é imensurável, e seu legado permanecerá vivo na memória de todos os azulados.

Em nome do presidente Rossy Amoedo e do vice-presidente Diego Mascarenhas, o Boi Caprichoso decreta luto oficial de três dias e se solidariza com os familiares, amigos e com toda a nação azul e branca neste momento de dor e despedida.

Obrigado por tudo, Raimundinho. Sua poesia viverá para sempre.

A construção festiva do Bumbá Garantido

 

Paulinho Faria, símbolo do touro branco

A família Faria foi a principal colaboradora do bumbá Garantido na época em que os bois de Parintins ainda não recebiam apoio financeiro de empresas privadas ou do governo e eram associados, com uma boa carga de preconceito, a uma simples festa popular para pessoas de baixa renda.

Com o suporte da Loja Jotapê, de José Pedro Faria, seus filhos Zezinho e Paulinho Faria comandaram o Garantido por cerca de duas décadas, mais especificamente dos últimos anos de Lindolfo Monteverde à frente do boi, no início da década de 70, até a chegada de investimentos externos, nos anos 90.

Nascido em 2 de janeiro de 1902, em Parintins, filho de maranhenses, o criador do Garantido, Mestre Lindolfo Monteverde, faleceu em 27 de julho de 1979, aos 77 anos.

Em 1982, foi fundada por Zezinho Faria a primeira pessoa jurídica dos bois de Parintins: a Associação Folclórica Boi Bumbá Garantido. A associação foi fundada para que a posse do terreno onde hoje é situado o Curralzinho da Baixa pudesse ser entregue pela Loja Jotapê ao Garantido, e não a uma pessoa física. A cerimônia de entrega da propriedade contou com a participação de autoridades locais da época, como o então prefeito Gláucio Gonçalves.

A gestão dos irmãos Faria é considerada, até hoje, a “Era de Ouro” do Garantido, sendo considerada a época mais vitoriosa do bumbá quando foi conquistado o único pentacampeonato da história do Festival Folclórico até hoje (1980-1984) e o primeiro título disputado no Bumbódromo, em 1988.

O Garantido venceu também o tira-teima no ano seguinte, em 1989, no festival que marcou a despedida de Zezinho Faria do comando do boi com a célebre frase: “A partir de agora, os bois já podem caminhar com suas próprias patas”, em referência ao novo formato que teria o Festival de Parintins, em que ambas as agremiações seriam patrocinadas pelo Governo do Estado e por empresas multinacionais.

Foi o fim da “Era de Ouro” do Garantido, período no qual o Boi da Baixa do São José conquistou oito dos dez títulos disputados e o início dos anos de Zé Walmir como presidente do Garantido.


A matriarca da família Faria, dona Maria Ângela, falecida em 20 de fevereiro de 2014, ficou conhecida como a eterna “Madrinha do Boi”, sendo homenageada todos os anos durante a Festa da Alvorada, com os torcedores do Garantido passando solenemente em frente à sua residência. Dona Maria Ângela morreu de causas naturais, aos 91 anos, na casa onde sempre residiu.

Considerada uma das principais personalidades da cidade, dona Maria Ângela ficou conhecida mundialmente por assumir o amor pelo boi do coração de uma maneira radical: ao pintar a casa e todos os móveis da residência com as cores vermelho e branco, transformando o local em um dos pontos turísticos da cidade.

Por conta disso, dona Maria Ângela conquistou a admiração não só de torcedores do boi vermelho e branco, mas também do “contrário”, que se inspiraram no seu exemplo para replicar a dose no bumbá Caprichoso.


O amor pelo Boi do Povão era tanto que dona Maria Ângela não admitia a entrada de nada azul, cor do Caprichoso, em sua casa: nem a piscina, também pintada de vermelho, podia ter água, senão ficava azul. A piscina permanentemente vazia era um dos charmes da residência.

O Garantido sempre teve um coração na testa, só que antes era pintado de preto. Em outubro de 1982, na inauguração da nova sede do Banco do Estado do Amazonas (BEA), onde hoje fica o Bradesco, Jair Mendes pintou um mural que exibia os dois bois de Parintins.

Dona Maria Ângela Faria, ao ver o mural, chamou Jair para pedir a ele que pintasse o coração de vermelho, pois, em suas palavras, “ficaria muito mais bonito”. O coração vermelho foi visto pela primeira vez neste mural na sede do BEA, tendo sido muito bem recebido pela galera vermelha e branca.

Ele apareceu pela primeira vez na cor vermelha na testa do Garantido no festival do ano seguinte, em 1983, ano em que o Garantido venceria o seu quarto título consecutivo que culminaria no primeiro, e até hoje inédito, pentacampeonato, consumado em 1984.


Em 1976, o filho caçula de dona Maria Ângela, Paulinho Faria, se tornou o primeiro apresentador do boi Garantido, aos 15 anos de idade, ocupando este posto por 26 anos, tendo recebido nota máxima dos jurados durante 24 festivais. Ele deixou o posto em 2002, fazendo a passagem de faixa para Israel Paulain na primeira noite de apresentação do Garantido.

Filho do compositor Carlos Paulain, Israel é também um grande vencedor em seu item, tendo recebido nota máxima dos jurados ininterruptamente desde 2006. Naquele ano, o apresentador conduziu o espetáculo sem ler o roteiro, uma inovação que foi adotada pelos dois bois a partir de então.

Os presidentes do bumbá Garantido, dos anos 70 em diante, foram os seguintes: Zezinho Faria (1978-1992), Jair Mendes (1993), Aimée Faria (1994), Ronildo Monteverde (1995-1996), Zé Walmir (1997-1998), Raul Goés (1999-2000), Antônio Andrade (2001-2002), Zé Walmir (2003-2005), Vicente Matos (2005-2009), Telo Pinto (2009-2014), Adelson Andrade (2014-2017), Fábio Cardoso (2017-2020), Antônio Andrade (2020-2023) e Fred Góes (desde 2023).

Os Levantadores de Toada foram os seguintes: Emerson Maia (1984-1990), Paulinho Faria (1991-1994), David Assayag (1995-2009), Edilson Santana (2020-2022), Márcia Siqueira (2020-2022) e Sebastião Júnior (desde 2010).

Os Apresentadores foram os seguinte: Paulinho Faria (1975-2001) e Israel Paulain (desde 2002).

Entre os principais compositores do Garantido estão Lindolfo Monteverde, Mestre Ambrósio, Venâncio, Nelson Bulcão, Vavazinho, Braulino Lima, Emerson Maia, Chico da Silva, Tadeu Garcia, Paulinho Du Sagrado, Inaldo Medeiros, Mencius Melo, Tony Medeiros, Helen Veras Filho, Demétrios Haidos, Geandro Pantoja, Cézar Moraes, Murilo Maia, Enéas Dias, Emerson Faria Maia, Ronaldo Barbosa Jr., Rafael Marupiara, Ademar Azevedo, Maurício Filho e Alfredo Campos.


O ex-apresentador do Boi Bumbá Garantido, Paulinho Faria, de 61 anos, morreu vítima da Covid-19, no dia 22 de fevereiro de 2021. Ele estava internado em um hospital particular de Manaus. Paulinho tinha sido transferido da cidade natal para continuar o tratamento contra a Covid-19 em Manaus no início de fevereiro. O corpo do ex-apresentador foi sepultado em Parintins.

Paulinho Faria acumulou 24 vitórias no Festival Folclórico de Parintins durante 26 anos como apresentador do Garantido. Em entrevista ao Paneiro, da Rede Amazônica, em 2016, o artista comentou que foi forçado a se afastar do posto em 2001 por causa de um problema auditivo.

O prefeito de Parintins, Frank Bi Garcia, publicou uma nota de pesar em redes sociais sobre a morte do ex-apresentador.

“Filho de Dona Maria Ângela, eternizada na história como madrinha do boi vermelho e branco, Paulinho Faria marcou gerações como apresentador na Baixa do São José. Conhecido pelos improvisos e uma narrativa riquíssima, mudou a forma de se apresentar o Festival. Nossa cidade perde um ícone do seu maior patrimônio, a cultura”, comentou o prefeito.

Também em redes sociais, o Boi Bumbá Garantido publicou uma mensagem por conta do falecimento do ex-apresentador:

“Impossível não chorar com a sua perda, o Amazonas precisa te reconhecer como uma das pessoas mais importantes para o crescimento da cultura parintinense no nosso estado. Você me apresentou durante 26 anos, você era praticamente imbatível, foi o melhor apresentador da história do festival, em todos esses anos perdeu apenas uma única vez e honradamente foi para outra lenda, Arlindo Jr.

A importância de Paulinho Faria na construção do festival em seu início é algo ímpar, o carinho e o carisma com a sua galera também. O amor por mim, seu brinquedo, seu boi de pano, estará sempre guardado em meu coração.

Gostaria de relembrar a sua despedida como apresentador, em 2001, onde as duas nações em uma única voz pela primeira vez se uniram em coro por aquilo que era a sua grande marca, a contagem de abertura do meu espetáculo”.

quinta-feira, outubro 22, 2026

O surgimento dos bumbás de Parintins, segundo Marcos Santos

 

Os jornalistas e radialistas Marcos Santos e Ronaldo Tiradentes

Parintinense da gema e ex-apresentador do bumbá Caprichoso, o jornalista Marcos Santos publicou no seu portal na internet (www.portalmarcossantos.com.br) um texto esclarecedor a respeito do surgimento dos bumbás de Parintins que me parece muito mais próximo da verdade factual do que o lendário urbano disseminado pelas duas agremiações:

Quando se fala na história dos bumbás Caprichoso e Garantido, os fatos propriamente ditos quase nunca são levados em conta. A rivalidade acaba prevalecendo. Há, porém, uma linha que ninguém contesta e é nessa que vamos trafegar. Noves fora o “tapa olho” do fanatismo, há um “tronco” comum entre o azul do Caprichoso e o vermelho do Garantido que se chama Boi Galante. Fundado por jovens estivadores e pescadores parintinenses, incentivados por José Furtado Belém, influente político da época (pai do deputado estadual Júlio Belém, nome do aeroporto de Parintins), o bumbá Galante reunia os festeiros da cidade.

Lindolfo Monteverde atravessava a cidade, de sua casa, na Baixa da Xanda (Xanda era o apelido de Dona Alexandrina, mãe dele, e o local foi depois transformado em Baixa do São José), local onde ainda existe o chamado “curral tradicional” do Garantido, até a Avenida Rio Branco, para tirar versos nesse bumbá. Parintins era praticamente uma vila. Não havia ruas, só veredas para serem percorridas a pé, no meio da mata.

Para piorar, quando Lindolfo chegava ao curral do Galante, seu principal adversário, o pescador Nascimento, havia ocupado o lugar de amo e tirava os versos que eram o ponto forte do bumbá. Chegou uma hora que Lindolfo e seus companheiros – a “viagem” da Baixa à Rio Branco era feita em grupo – decidiram criar o próprio bumbá. Nascia o Garantido.

No ano seguinte, percebendo que o nome tinha apelo popular, os integrantes remanescentes do Galante decidiram mudar a denominação para Caprichoso. Estavam postos os rivais que fazem a história do Festival de Parintins.

A maior polêmica está no ano em que isso aconteceu. O Garantido comemorou o centenário de Lindolfo Monteverde em 2002, ou seja, ele nasceu em 1902. A linha oficial adotada pelo bumbá é de que a criação do mesmo ocorreu em 1913. Ora, isso significaria que Lindolfo o fundou aos 11 anos de idade. Chico da Silva, na toada “Sonho de Liberdade”, de 2002, afirma: “Boi Garantido / É histórico, é sabido / que mestre Lindolfo Monteverde / aos 18 anos de idade contigo sonhou / Boi Garantido, sonho de Lindolfo Monteverde / Do poeta a oitava maravilha / Se realizou”.

Aí tudo vira uma questão matemática: 1902 + 18 = 1920. O Galante deve ter sido fundado por volta de 1918, o Garantido em 1920 e o Caprichoso em 1921. É possível dizer, como o azul e branco é herdeiro do bumbá original, que ele é o pioneiro da cidade. Mas como o vermelho e branco foi o primeiro a adotar o nome atual, também ele pode afirmar ser o primeiro da Ilha Tupinambarana.

Logo, essa história de 1912-1913, como datas de fundação dos bumbás, é mero fanatismo, sem qualquer base histórica. O que não dá para ignorar é que, ambos, têm suas raízes em pescadores e estivadores, pessoas muito humildes, responsáveis por cultivar a semente da árvore frondosa que hoje é o Festival de Parintins.

Há ainda outros fatos que marcam a linha de tempo da festa parintinense. A Igreja Católica de Parintins está na base de tudo. Disposta a arrecadar recursos para a construção da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, imponente construção erguida na “Broadway” (trecho da Avenida Amazonas, a principal de Parintins), a Juventude Alegre Católica (JAC) criou o Festival Folclórico, em sua quadra de esportes. O local ficou pequeno e a festa “passeou” pela quadra do Ipasea, Parque das Castanholeiras e o estádio de futebol municipal Tupy Cantanhede. O bumbódromo teve a sua primeira versão em madeira.

O aeroporto da cidade ficou bem no meio da área residencial e foi transferido para o local atual. Sobrou uma área de terra imensa, sem qualquer utilização, que o prefeito de então, Gláucio Gonçalves, conseguiu matricular no patrimônio da cidade.

Gláucio ofereceu a cabeceira que dá para o lado “de cima” da cidade ao Garantido, para a construção de seu curral, enquanto o “lado de baixo” foi ofertado ao Caprichoso. Fiel à toada que diz “Nunca mudou de fazenda / nem de dono ou de curral”, o vermelho recusou.

O Caprichoso aceitou na hora a área que hoje é o curral Zeca Xibelão. Mais tarde, percebendo o erro cometido, o Garantido recebeu ajuda dos seus simpatizantes mais endinheirados e governamentais para comprar a Cidade Garantido, no local atual, onde antes funcionou a Fabriljuta, indústria de tecelagem de juta.

Em 1988, mesmo diante do ceticismo dos que achavam a obra faraônica, o governador da época, Amazonino Mendes, hoje prefeito de Manaus, construiu o Bumbódromo atual, com capacidade para 12 mil espectadores. O local recebeu mais de 30 mil pessoas e, depois da festa, os ferros retorcidos da estrutura mostraram como o Festival Folclórico de Parintins cresceu além das expectativas. Por pouco o Bumbódromo não caiu no ano da estreia.

O Garantido cultiva muito bem a memória de seu fundador, Lindolfo Monteverde. Ao Caprichoso falta um pouco mais de respeito às memórias de Boboí, dos irmãos Cid e de Luiz Gonzaga. Este, da década de 1930 até a de 1960, quando faleceu, embaixo da alegoria Dona Aurora, foi o grande responsável pela manutenção do bumbá. Tire-se o fanatismo, e o resumo da história dos bumbás é isso aí.

quarta-feira, outubro 21, 2026

O surgimento dos bumbás de Parintins, segundo Gláucio Gonçalves

 


O ex-prefeito Gláucio Bentes Gonçalves estava internado há algumas semanas no Hospital Regional Jofre Cohen, em Parintins, quando uma pneumonia provocou a falência múltipla dos órgãos e o levou a óbito, aos 83 anos, no dia 2 de dezembro de 2014.

Remanescente de uma geração de políticos que incluía Gilberto Mestrinho, José Raimundo Parente, José Lindoso, Plínio Coelho, Socorro Dutra Lindoso, Arlindo Porto, José Cardoso Dutra e José Furtado Belém, Gláucio Gonçalves iniciou sua vida pública em 1956, quando foi eleito vereador pelo PSD.

Foi duas vezes prefeito de Parintins e eleito quatro vezes deputado estadual. Atuou como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) de 1995 a 2000, por onde se aposentou. Em 2012, ele lançou o livro “Parintins nas minhas lembranças”. É dele o relato abaixo sobre o folclore da ilha:

Meu pai nos levava, eu e meus irmãos, para assistir os ensaios do Caprichoso no terreiro da casa do Antônio Bobozinho, hoje Travessa João Meirelles, com direito às bombinhas fabricadas pelo Xavier Fogueteiro. Em outros locais havia festas típicas, com muitas fogueiras, fogos e balões, danças de boi e de quadrilhas e muitas guloseimas: mungunzá, tapioca, banana assada, pé de moleque, bolo de macaxeira, sucos e refrescos de abacaxi, aluá, gengibirra etc.

Era a oportunidade para os encontros amorosos da juventude daquela época. Afinal de contas, naqueles tempos, a nossa cidade contava com poucos eventos festivos, razão porque se valorizava muito mais os poucos que existiam, sendo o mês de junho uma época das mais animadas.

Mais tarde o curral do Caprichoso passou para o terreno pertencente ao saudoso Luiz Gonzaga, na Travessa Rio Branco, nosso trajeto preferido, o que vale dizer, território do “azul e branco”, enquanto que o curral do Garantido era na tradicional “Baixa de São José”, no lado oposto da cidade.

Por essa razão, por ser bem próximo da minha casa, eu frequentava muito mais o curral do “diamante negro”, inclusive por ser local onde reuníamos com os amigos e amigas do bairro para aquelas festinhas inesquecíveis ao lado do curral do boi, sob a proteção de Zé Nossa Filho, velho guardião do boi Caprichoso, que vinha a cavalo lá do Paraná do Limão, sua antiga fazenda de gado, para não perder os ensaios de seu boi do coração.

Não posso deixar de mencionar que, nessa época, época do jaraqui, pontificava o cheiro inconfundível desse saboroso peixe assado, presença infalível no nosso cardápio, principalmente nos meses de maio a junho. Parece até que, naquele tempo, até o jaraqui assado era mais gostoso, principalmente quando temperado com pimenta, sal e limão, e vontade de saboreá-lo.

Lembro-me do fanatismo que já existia naquele tempo, em relação aos dois famosos bumbás. Os moradores do lado de baixo (lado leste) eram invariavelmente torcedores do Caprichoso, enquanto os do lado de cima (oeste) eram marcadamente Garantido.

Antes os bois se apresentavam em frente às residências, quando eram solicitados, e geralmente preparava-se uma fogueira para que os bois pudessem se apresentar em volta daquele clarão.

Os donos da casa tinham o direito de se posicionarem nos lugares mais privilegiados, para que as famílias, sempre com crianças, pudessem assistir melhor ao espetáculo. Só que antes a participação do povo era mais direta, isto é, a chamada elite não passava de mera espectadora, sem fazer parte diretamente da apresentação do boi bumbá.

Gláucio e o filho Enéas Gonçalves

Pode-se dizer que os brincantes eram todos de famílias humildes: pescadores, estivadores, operários, gente pobre da periferia, muito diferente dos dias atuais, quando sabemos da luta travada por muitos grã-finos ou grã-finas para conseguir uma vaga na “marujada de guerra” ou na “batucada vermelha e branca”. Enquanto as “cunhãs-porangas”, as “sinhazinhas”, as “rainhas do folclore”, as “porta-estandartes”, além de bonitas, geralmente eram filhas de pessoas distintas da sociedade.

Eu considero uma grande inverdade a história que não sei quem meteu no ouvido da mídia – gente que não conhecia nada dos bumbás de Parintins – que o Garantido é o boi do povão e o Caprichoso é o boi da elite. Posso garantir que isso está longe da verdade. Os dois bumbás são constituídos de grandes massas populares que dividem a cidade ao meio, inclusive as elites, se é que assim se pode chamar.

Naqueles anos de outrora me lembro de duas bravas mulheres que brincavam de boi. Não só brincavam como contribuíam com trabalho, arte e muita dedicação ao boi querido de Luiz Gonzaga: a Camé Rocha (“Camé do Bom Rapaz”, como era conhecida) e a Eurica Cid, todas duas figuras imortais do boi Caprichoso.

A primeira – a Camé – desempenhava a figura de madrinha do Touro Negro, com direito a um lugar especial na roda de brincantes, além de ser artista e estilista ao mesmo tempo, pois tanto cuidava da confecção da tradicional figura de “Dona Aurora”, quanto fazia também a indumentária da mesma, enquanto a segunda – a Eurica – tinha lugar efetivo como dançarina invisível dessa referida figura engraçada, isto é, fazia a “Dona Aurora” dançar para as multidões. Daí eu dizer que essas duas mulheres heroicas, pelo muito que contribuíram espontaneamente ao boi de Zé Nossa Filho, merecem um registro especial.

Hoje sabemos da grande disputa por um lugar de destaque em qualquer dos bumbás. Dizem até que as gatinhas, pela importância do papel que representam no boi, quase sempre conseguem bons casamentos, ou pelo menos namorados de alto nível. Mas ao tempo de Camé e Eurica não conheci outras mulheres participando diretamente das brincadeiras de boi. Elas duas, pelo que me lembro, foram as primeiras a entrar na roda do boi, cantando toadas e dançando o dois pra lá, dois pra cá.


Como o assunto ainda é boi-bumbá, vou aproveitar uma achega de meu pai, que gostava muito das festas juninas, principalmente de brincadeira de boi. Ele dizia que, naqueles tempos idos, nos encontros ocasionais de Caprichoso e Garantido pelas ruas da cidade, dava gosto assistir o espetáculo e ouvir os desafios em forma de versos.

De um lado o Feliz Cid e de outro o Lindolfo Monteverde, cada qual com maior talento, faziam o público delirar em noites memoráveis de Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal. Noites iluminadas não só pelo crepitar das fogueiras, mas também pelos versos desafiadores, sempre bem rimados, daqueles consagrados poetas-repentistas do folclore parintinense.

Se bem consigo fazer uma ilação, chego a dizer que há uma evidência bem-acentuada em torno dos dois poetas-repentistas que acabei de citar – Cid e Monteverde – o primeiro, o Feliz, era filho de cearense e o Lindolfo, pelo que tudo faz crer, era filho de maranhense, ambos, evidentemente, descendentes de nordestinos, o que vale dizer que todos dois carregavam nas veias o sangue forte do poeta repentista, o verso de desafio, animado e divertido, que alegrava as nossas noites e começava a criar na alma do povo essa grande paixão pelos dois festejados rivais, numa brincadeira bonita e sadia, cada um defendendo suas cores, sob o ritmo cadenciado das mais belas e inesquecíveis toadas.

Com relação ao boi Caprichoso eu devo contar um fato que me parece muito esclarecedor, em razão de certas dúvidas ainda existentes, no que concerne aos legítimos fundadores do famoso bumbá de Luiz Gonzaga. Senão, vejamos.

Há muitos anos, lembro-me ainda, alguns cearenses aqui residentes apresentavam o “cordão dos marujos”, apresentação folclórica trazida do sertão nordestino, em homenagem a São Benedito, evidentemente com fundamento religioso, tendo a participação de uma única mulher, a rainha do Congo, que conduzia a imagem da mãe de Jesus.

Esses “marujos”, quando se apresentavam, usavam roupas com as mesmas características das que são usadas pelos marinheiros, isto é, semelhantes também àquelas usadas antigamente pela “marujada de guerra” do boi Caprichoso. E, o mais curioso, sabem quem era o principal responsável pelo “cordão dos marujos”? Não era outro, era apenas o senhor Roque Cid, pai do amo do Caprichoso – Feliz Cid – o que vem a ser um forte argumento para se reconhecer na família Cid os verdadeiros fundadores do boi da “marujada de guerra”.

Mais tarde outro Cid veio a ser amo do Caprichoso – refiro-me ao Nascimento Cid, irmão de Feliz. Se há outros, eu não sei, mas uma coisa é certa, as evidências indicam os Cid como fundadores do Caprichoso, sendo seu primeiro amo o Feliz Cid, o qual deve ter seu nome colocado em relevo, nos anais do seu boi, assim como Lindolfo Monteverde é estrela de primeira grandeza na história e na vida do Touro Branco.


Para concluir esses registros em torno da festa dos bumbás de Parintins, devo dizer que durante o tempo em que exerci mandatos eletivos, sempre procurei me manter acima da condição de torcedor deste ou daquele boi. Aliás, esse comportamento foi adotado também pela Walkíria, minha mulher, porque quando assumi o segundo mandato de prefeito, havia um clima de profunda desconfiança, do lado do Caprichoso, com relação à prefeitura, em razão do que havia ocorrido no ano anterior.

Os torcedores do boi azul e branco acusavam o ex-prefeito, meu antecessor do segundo mandato de prefeito, de haver comprometido o resultado do julgamento. O caso se tornou tão grave que chegou ao ponto de um grupo de simpatizantes do Caprichoso tentar invadir a residência daquele ex-chefe comunal, o que não aconteceu por interferência policial.

A verdade é que o nosso festival folclórico experimentou até o estádio Tupy Cantanhede, como área de apresentação, mas o resultado foi absolutamente negativo porque causou alguns prejuízos ao futebol local: paralisação do campeonato, estrago no gramado, perfuração da área etc. Não posso deixar de registrar que nos dois mandatos de prefeito, nosso apoio foi total e efetivo ao Festival Folclórico de Parintins.

Para ser sincero, perdoem-me a falta de modéstia, mas o Festival Folclórico de Parintins ganhou dimensão maior a partir de 1983, no nosso segundo mandato de prefeito. Desde a primeira investidura no executivo municipal, sem nenhuma dúvida, não só ajudamos em termos logísticos e financeiros, como fomos incansáveis em oferecer todo tipo de estímulo e incentivo para que essa festa se tornasse cada vez mais empolgante e organizada, até chegar ao ponto em que chegou.

Primeiramente conseguimos levar o festival para a praça pública, exatamente no local onde está hoje o bumbódromo, uma vez que antes era apresentado nas quadras de esporte, de modo muito acanhado, tendo em conta o espaço reduzido para um festival que crescia a cada ano.

Muitos ainda se lembram que, como prefeito, começamos fazendo o bumbódromo todo em madeira de lei: arquibancadas, cadeiras numeradas, tablado e até camarotes com dois pisos, para autoridades e visitantes ilustres.

O crescimento desse festival, como todos sabem, foi também em função do poder de imaginação do povo parintinense, cuja vocação artística vem se manifestando aos borbotões, numa proporção extraordinária a se refletir positivamente na formação cultural de nossa gente.


Foi em 1987, naquele bumbódromo ainda de madeira, no camarote oficial, o governador Amazonino Mendes, sentado ao meu lado, sob a vibração das galeras, batendo no meu ombro, disse o seguinte (palavras que eu não esqueço): “Gláucio, eu quero te ajudar a fazer um gol de placa na tua administração. Vê qual a obra de grande vulto que possa agradar mais o povo de Parintins!”

Na mesma hora, sem deixar o compromisso esfriar, falei assim: “Governador, se o senhor me dá oportunidade de escolher essa grande obra que deseja construir em Parintins, peço-lhe que faça esse bumbódromo em concreto!”

O governador me olhou e perguntou novamente: “É isso mesmo?...” Respondi afirmativamente que sim. “Então, Gláucio, você pode anunciar à imprensa e ao povo de Parintins que vamos construir o bumbódromo definitivo e a inauguração será no festival do próximo ano de 1988!”

Foi assim que nasceu esse colossal bumbódromo, graças à grande visão do governador Amazonino Mendes, que deu a Parintins esse prêmio valioso, como maior incentivo ao nosso tradicional festival folclórico.

Depois disso é evidente que o Festival Folclórico se agigantou ganhando a dimensão dos dias atuais, e essa grandiosa obra começou a ser naturalmente divulgada pelo Brasil e pelo mundo, com destaque para a vocação artística e cultural deste povo.

É verdade que esse projeto governamental, pela sua relevância política e social, muito me envaideceu por ter tido o privilégio de ver essa obra imponente edificada na minha administração, que acabou de ser coroada de extraordinário êxito, tendo em vista o “gol de placa” que ficou na história. Desse modo ficou o governador com sua vontade política plenamente concretizada, e eu com meu sonho transformado em realidade.

O compromisso foi tão sério e inarredável que dentro do prazo previsto o novo bumbódromo foi festivamente inaugurado, sob o ritmo contagiante das toadas, exatamente no dia 28 de junho de 1988, cuja solenidade presidida evidentemente pelo governador Amazonino Mendes contou naturalmente com a presença de convidados ilustres, além da multidão que não se cansava de aplaudir o grande artífice dessa obra monumental. Parintins, com certeza, muito deve ao insigne governador Amazonino Mendes. Entre tantas obras importantes que aqui realizou, o bumbódromo pontifica entre as maiores.

Quando concluí meu último mandato de prefeito, quando se acabaram as desconfianças, isto é, depois que demonstramos total isenção e seriedade no trato com as agremiações folclóricas, a Walkíria voltou a torcer pelo Garantido, seu boi de preferência, e eu pelo Caprichoso, dos meus tempos de juventude, muito embora reconheça que no Garantido sempre tive excelentes amigos, a começar pelo saudoso Lindolfo Monteverde e sua família, com os quais eu sempre mantive o melhor relacionamento.

Os meus filhos também são divididos entre Caprichoso e Garantido, por isso torcem cada qual pelo seu boi de preferência, com total liberdade e o melhor espírito democrático, o que, graças a Deus, tem nos permitido a melhor harmonia familiar. Os vitoriosos respeitam os que perderam e tudo acaba em paz, felizmente.

Essa questão de preferência de boi-bumbá, nas famílias, aqui em Parintins, é um fato interessante e muito comum. Aliás, foi isso que deu motivo ao sempre inspirado compositor Chico da Silva a compor uma bela toada denominada “Meu boi faz pirraça”.

Eis a toada, que eu considero uma das obras-primas desse talentoso compositor parintinense: “Meu amor faz pirraça / da minha cachaça / e do meu boi-bumbá. / Meu amor é contrário / e no mês de junho / se manda pra lá. / Eu confesso que sinto / uma grande tristeza / na separação. / Só meu boi Caprichoso / derrama alegria / no meu coração. / Além do mais / meu amor vai voltar / e depois do folclore / talvez não demore / pra gente casar. / Meu grande amor / vai me perdoar / hoje o boi Caprichoso / bonito e formoso / tomou seu lugar. / É boi, é boi, é boi-bumbá / que me leva pra lá e pra cá / É boi, é boi, é boi-bumbá / que me leva pra lá e pra cá”.

Mas, ao falar nas coisas boas dos nossos bumbás, não posso deixar de registrar uma comovente surpresa que o boi Garantido me fez. Isso aconteceu no último ano do meu primeiro mandato de prefeito, em 1972.

O Lindolfo levou o Touro Branco para se apresentar em frente à minha casa, na Rua Furtado Belém. Sem que ninguém imaginasse, o velho Lindolfo, fundador e amo imortal do boi Garantido, em forma de homenagem, “levantou” a seguinte toada, denominada “Despedida”.

Aqui está a toada que emocionou a mim e minha família, e continua emocionando todas as vezes que a recordamos: “Último ano de governo / nosso prefeito vai embora / Ele trabalhou pelo progresso / desta terra / já deixou seu nome / gravado na História / Ele trabalhou pela cidade / Ele trabalhou pelo interior / grande trabalho / Prefeito Gláucio deixou”.

O que até hoje me comove é a forma espontânea e sincera dessa homenagem, o que me causou uma grata surpresa, além de tocar profundamente na minha vaidade de prefeito, que tudo fez pensando no melhor para este município. À nação vermelha e branca eu confesso minha gratidão, minhas saudades e minhas recordações imorredouras.


Falo agora do primeiro ano do meu segundo mandato de prefeito. O Edu Costa como vice-prefeito foi nomeado por mim para presidir a comissão encarregada do festival folclórico desse ano de 1983. Tive de viajar a Manaus para tratar assuntos do município.

No meu retorno encontro a confusão formada. O Caprichoso, pelo seu presidente Geraldo Medeiros, não quis aceitar o Edu na presidência dessa comissão. Alegava-se que o vice-prefeito era ou continuava simpático ao Garantido.

Acontece que eu e Edu havíamos acabado de sair de uma eleição vitoriosa. Não tinha como deixar de prestigiar o companheiro que se mostrava tão entusiasmado em presidir a comissão. Não tive como atender o apelo que me foi enviado. Paciência! Se ele, o Edu, não encontrou uma saída honrosa, muito menos eu, seu companheiro de campanha.

Hoje, com mais experiência, certamente teria adotado um “modus vivendi” e tudo teria sido resolvido sem desdobramentos. Mas o certo que o Caprichoso, nesse ano, não participou do festival oficial, o que foi, para muitos, profundamente lamentável.

E daí o que fazer?... Não podíamos realizar o festival só com o Garantido, apesar de seu grande valor e prestígio junto à comunidade, mas, na verdade, essa disputa é tradicional e sem um dos dois rivais o festival esfria.

E para amenizar o prejuízo com a ausência do Touro Negro, eu e minha equipe reunimos e tomamos a decisão de procurar imediatamente os responsáveis pelo boi Campineiro, que havia se apresentado no ano anterior. Como era de se esperar, esse pessoal se encontrava totalmente desmotivado, pelas dificuldades naturais, visto que não é fácil se organizar um boi para disputar com o Garantido, num tempo relativamente curto. Mas a nossa vontade foi tão forte que conseguimos superar aquele problema sem tanta dificuldade.

Conversamos com um dos donos do Campineiro, meu compadre Camoca, o qual se prontificou em nos ajudar na reorganização daquele bumbá. Foi feita a eleição para a presidência do boi. O eleito foi o Carlos Lima, à época funcionário da Fundação Sesp, que assumiu em seguida o comando do Boi do Palmares.

Com isso começou a crescer o entusiasmo pelo Campineiro, que iniciou seus ensaios com muita animação, e assim os demais preparativos, ao ponto de se apresentar à altura daquela disputa, durante as noites programadas no calendário do festival.

É justo e necessário que se registre a importância do boi Campineiro no Festival Folclórico de 1983, nesta cidade de Parintins. Valeu o grande esforço e sacrifício do meu amigo Carlos Lima, do meu compadre Camoca, de dona Dilce Cansanção e de tantos outros folcloristas e artistas do boi esmeraldino, que muito contribuíram para que aquele festival fosse realizado com sucesso.


O engraçado de tudo isso é que mandei contratar o cantor parintinense Chico da Silva, que nesse tempo morava no Rio de Janeiro, para vir alegrar ainda mais as nossas festas folclóricas. Não digo nada, o Chico chegou, me procurou na prefeitura e tudo ficou certo para que ele fosse a grande vedete da primeira noite.

Qual minha surpresa, chegou a hora da apresentação do Chico e cadê você? Ninguém sabia dar notícia do cantor. Mais tarde, entretanto, fomos saber que o Chico da Silva, fantasiado de tuxaua, estava infiltrado numa tribo do Caprichoso, no Parque das Castanholeiras, onde o “diamante negro” fazia sua apresentação. Já imaginaram?...

Exatamente, nesse ano, o consagrado boi de Feliz Cid, por alguma incompreensão, não quis participar do festival oficial.

No dia seguinte me aparece o Chico, com cara de ressaca, para me pedir desculpas: “Mano velho, você vai me desculpar, mas eu não resisti à vontade de sair no meu boi de coração. Há vários anos que eu não via o bailado do meu boi”.

O que eu podia fazer diante do desabafo de um conterrâneo saudoso de sua terra e de seu boi? Tive de desculpar o Chico. E só não fiquei mais aborrecido porque o boi Campineiro, nessa noite, se apresentou impecável, razão dos muitos aplausos da multidão que se fez presente naquela praça de apresentação folclórica.

Para ser bem justo, já que falo no Campineiro, tenho por dever de justiça e gratidão dizer que o pessoal do Garantido, quando soube da decisão do Caprichoso de não participar da disputa, para me tranquilizar, foi ao meu encontro dizendo que tudo seria feito para a beleza da festa não ser sacrificada.

E foi exatamente o que aconteceu. A festa foi linda, o Garantido foi belo, o Campineiro foi surpreendente, mas sabe-se, por experiência própria, ser muito difícil a ausência de um dos bois de nossa tradição folclórica. Que isso nunca mais aconteça!

terça-feira, outubro 20, 2026

O surgimento dos bumbás de Parintins, segundo Tonzinho Saunier

 

O escritor e folclorista Tonzinho Saunier

Nascido na localidade de Santa Marta, no município de Barreirinha, no dia 8 de julho de 1932, Antônio Pacífico Siqueira Saunier, o saudoso Tonzinho Saunier, faleceu em Parintins, em 1999, aos 67 anos, alguns anos depois de ter recebido o título de “Cidadão Honorário de Parintins”.

Poeta, historiador, folclorista e antropólogo autodidata, ele dedicou grande parte de sua vida à cultura amazônica, divulgando suas descobertas em mais de 300 crônicas e contos, abordando lendas e mitos. Publicou vários livros e hoje empresta seu nome à Biblioteca Municipal de Parintins.

Considerado o maior historiador do município, Tonzinho Saunier era um profundo conhecedor da vida do caboclo ribeirinho com quem viveu e conviveu durante suas inúmeras andanças pela floresta. Em um de seus livros, o já citado “Parintins: Memória dos Acontecimentos Históricos”, ele dá a sua versão sobre o surgimento dos bumbás:

O folclore de Parintins iniciou, certamente, com os primeiros habitantes de nossa ilha: maués, sapopés, mundurucus, parintins, parintintins, pataruanas, paraueris, paravianas, tupinambás, tupinambaranas e uapixanas. As principais festas eram as danças da tucandeira ou tocandira, dos maués e mundurucus. Os maués celebravam como festa nupcial e os mundurucus como sinal de emancipação e robustecimento de provas. Os mundurucus também tinham a festa da vitória, onde exibiam a cabeça do inimigo enfeitada de plumas.

É sabido que o folclore indígena decantava a natureza com tudo nela existente: os pássaros, os animais, as árvores, as plantas medicinais e ervas aromáticas, e a imaginação criou os monstros das florestas e das águas: jurupari, juma, mapinguari, curupira, yara, acâuera-de-fogo, cobra-grande, tapirayauara e tantos outros seres misteriosos e encantados, como o neguinho do campo-grande e o bicho folharal.

Em 1859, o médico alemão Robert Cristian Avé-Lallemant, em viagem científica pelo rio Amazonas, chegou a Parintins (à época Vila Bela) e andou por seus vários recantos. Era o dia de São João e uma “preguiça” especialmente bela e genuinamente patriarcal era oferecida à gente de Vila Bela. O boi-bumbá (herança nordestina de nossos antepassados) adveio com os nordestinos em fins do século XIX e começo do século XX.

Entre 1910 e 1912, surgiu o boi Diamantino, do piauiense Ramalhete. Em 1913, surge o boi Caprichoso, trazido de Manaus pelo Sr. Emídio Vieira e em 1915, o boi Fita Verde do Aninga, do Sr. Izídio Passarinho, e em 1920, o boi Garantido, criado pelo poeta popular e folclorista Lindolfo Monteverde.

Nas décadas de 30 a 60, os bumbás, cordões de pássaros e de peixes, as pastorinhas, dançavam nas residências ou à frente delas e andavam pelas ruas deleitando o povo, que os acompanhava. Ficaram famosos à época, os cordões de pássaros: o rouxinol do Florival Telegrafista, o bem-te-vi e a gaivota do Venâncio, e o guará do Sr. Justiniano Seixas. O tangará marcou época na década de 50. Os cordões de peixes: do Uaicurapá, veio o tambaqui (peixe de carne saborosa da Amazônia), que era conduzido espetado por uma menina que vestia roupas coloridas. Houve, ainda, os bumbás mirins: Tira Teima, do Gêco, e o Dois de Ouro do Nego, do Alcides Seixas.

No período carnavalesco, apareceram a Barca Misteriosa, do Sr. Raimundo Almada, e o Cordão do Bode, do barbeiro João Lobo. Outra brincadeira que animou o povão foi o Vaso de Guerra e o Navio Fortaleza, que alegravam as noites com seus encontros e “batalhas navais”, com fogos de artifício e ronqueiras (artefatos pirotécnicos formados por um cano de ferro, preso a um cepo e cheio de pólvora, o qual produz grande detonação quando se lhe inflama a escova). Depois das “batalhas”, todos se confraternizavam na festa do fogueteiro.

A Grande Enciclopédia da Amazônia, de Carlos Roque, editada nos anos 60 registra: Garantido: boi-bumbá da cidade de Parintins, Estado do Amazonas. Dos mais tradicionais, tendo-se inclusive exibido em Manaus no festival do folclore; Caprichoso: boi-bumbá dos mais tradicionais de Parintins, Estado do Amazonas; Tira-Fama: boi-bumbá da cidade de Parintins, Estado do Amazonas; Mina-de-Ouro: boi-bumbá do distrito de Parananema, município de Parintins, Estado do Amazonas.


As pastorinhas, mesmo em declínio, ainda aparecem vindas principalmente do interior, e as quadrilhas, por serem festas populares, exibem-se no Bumbódromo, na abertura do Festival Folclórico.

O Folclore do Boi-Bumbá – O Festival Folclórico de Parintins tem seu ponto culminante nas apresentações dos bumbás Garantido e Caprichoso, todos os anos nos dias 28, 29 e 30 de junho. É conhecido internacionalmente e, durante o mês de junho, chegam a Parintins visitantes de todo o mundo, atraídos pela beleza e magnificência do nosso festival. Chegam ministros de Estado, políticos de todo o Brasil, artistas famosos, escritores, poetas e a imprensa escrita, falada e televisionada de todo o mundo, que transmitem imagens, publicam matérias jornalísticas com fotos e anunciam fatos e novidades do folclore da Ilha Tupinambarana.

O Festival Folclórico iniciou em 1966, na quadra da JAC (Juventude Alegre Católica), até 1975. Do 1º Festival ao 9º, na JAC da Praça da Catedral de Nossa Senhora do Carmo. O 10º Festival, na JAC da Rua Jonathas Pedrosa. O 11º e 12º, na quadra da CCE (Comissão Central de Esportes), no Parque das Castanholeiras. O 13º na JAC da Avenida Amazonas. O 14º no CCE-Castanholeiras. O 15º, 16º e 17º no Estádio de Futebol Tupy Cantanhede. 0 18º no Tabladão do Povo (antigo aeroporto). Do 19º ao 22º, no Tabladão do Povo, cujo nome foi mudado para Anfiteatro Messias Augusto. Do 23º Festival (ano de 1988) em diante, o Festival de Parintins passou para o Bumbódromo.

Obra monumental do governador Amazonino Mendes, o Bumbódromo foi construído na gestão do ex-prefeito Gláucio Bentes Gonçalves. Sua área é de 10 mil m², com capacidade para 50 mil pessoas. Estrutura em forma de uma cabeça de boi estilizada, mista de ferro e concreto pré-moldado. Foi inaugurado em 1988, no 23º Festival. O complexo tem ainda pronto-socorro, 18 salas de aula, biblioteca, lanchonete e outros compartimentos. Concorrem ao Festival, os bumbás Garantido e Caprichoso, com quatro mil brincantes cada um, apresentando figuras típicas regionais, alegorias com danças amazônicas, danças e tribos indígenas.

Os preparativos para o Festival Folclórico iniciam-se no mês de abril. Concorrem 22 itens para o julgamento do campeão anual. São eles: apresentador, levantador de todas, batucada, ritual, porta-estandarte, amo do boi, sinhazinha da fazenda, rainha do folclore, cunhã-poranga (do tupi: mulher bonita), boi-bumbá (evolução), toada (letra e música), pajé, tribos indígenas masculinas, tribos indígenas femininas, tuxaua luxo, tuxaua originalidade, figuras típicas regionais, alegorias, lenda amazônica, vaqueirada, galera (torcida) e coreografia, organização, animação e conjunto folclórico.

Para o julgamento são convidados seis jurados, de preferência folcloristas e artistas plásticos de três estados do Brasil, sendo dois jurados de cada estado, que chegam a Parintins até o dia 27 de junho e ficam sob vigilância dos fiscais dos bumbás até o dia 30 de junho. Em cada dia de julgamento são sorteados três jurados. 

Dia 1º de julho é feriado e são abertas as urnas e contados os pontos, na presença das autoridades do município e dos fiscais dos bumbás. O vencedor sai em passeata, mas somente dentro de seu território. O domínio do Caprichoso é da Praça Eduardo Ribeiro a leste, até o fim da ilha. O domínio do Garantido é da mesma praça a oeste, até o fim da ilha. Durante as apresentações no Bumbódromo, a galera do Caprichoso fica em silêncio absoluto quando o Garantido se apresenta, acontecendo o mesmo na exibição do Caprichoso.


O Caprichoso “nasceu” em Manaus, em 1912 e foi trazido a Parintins, em 1913, pelo Sr. Emídio Rodrigues Vieira. Foram seus iniciadores Boboí, Luiz Gonzaga, José Leocádio, Emílio Silva, os irmãos Cid (Raimundo, Pedro e Félix, cearenses, naturais de Crato) e tantos outros. Uma versão aponta que quem trouxe o Caprichoso foi o coronel José Furtado Belém, quando visitou a Praça 14, onde o boi se apresentava, em 1913. 

Já outra versão diz que o Caprichoso foi fundado em março de 1925. É um boi preto e suas cores são azul e branco. Possui uma estrela na testa, que foi introduzida no ano de 1996. Seus currais situaram-se em diversos lugares: primeiramente na Travessa Rio Branco, depois foi para o Aninga e, posteriormente, se mudou para a Travessa Cordovil, permanecendo ali por muitos anos. Hoje, seu curral definitivo situa-se na Rua Gomes de Castro, nas proximidades do bairro de Palmares.

Garantido – No dia 21 de junho de 1970, estive com Betinho Mendes na casa de Lindolfo Monteverde, o cantador maior do folclore do boi-bumbá da ilha. Era o 5º Festival Folclórico de Parintins, havendo festa no curral do Garantido. Fazíamos uma pesquisa que publicamos no jornal A Tribuna em 28 de junho. Mestre Lindolfo sentou-se entre mim e Betinho, juntamente com dona Antônia, sua esposa, e passou a nos contar a história do Garantido. 

Estas foram as palavras de Mestre Lindolfo: “Eu tinha dezoito anos em 1920, quando botei, pela primeira vez, o novilho que completa este ano 50 anos de existência e por isso estou alegre. O Garantido sucedeu ao boi Fita Verde, do meu compadre Izídio Passarinho, do Aninga.”

O Garantido exibiu-se pela primeira vez com 40 figuras: cantadores, caboclos, vaqueiros, pajé, Bicho Folharal, Pai Francisco, Mãe Catirina, Dona Maria e o Padre. Fundado em junho de 1920 (o dia não foi registrado). É branco e suas cores são o vermelho e o branco. Possui um coração na testa, que foi introduzido desde a sua fundação. Seu curral situava-se na Rua Lindolfo Monteverde, na baixa de São José. Atualmente, situa-se na Estrada Odovaldo Novo, nas antigas dependências da extinta Fabril Junta, carinhosamente denominada Cidade Garantido.

Campineiro – Surgiu em 1977, no bairro de Palmares. No ano seguinte, disputou com o Garantido o título do 13º Festival, conseguindo o 2º lugar. Em 1983, disputou também com o Garantido, conseguindo a mesma colocação. Depois dessa competição, desapareceu. Suas cores eram verde-esmeralda e branco, e teve toadas que marcaram sua ligeira passagem pela ilha.

Garranchoso – Boi-mirim do Colégio Nossa Senhora do Carmo. Tem as cores vermelho, azul e branco, sendo que um lado do boi é branco e o outro é preto. Um fato curioso foi ter sido cedido para servir de Caprichoso para os índios maués do rio Andirá.

segunda-feira, outubro 19, 2026

O surgimento dos bumbás de Parintins, segundo Jonas Santos

 

Marcinaldo Santos, Zémaria Gonçalves e Jonas Santos

Hoje é ponto pacífico e indiscutível saber que a carnavalização antropofágica dos bois de Parintins foi realizada por Jair Mendes, mas descobrir como os bumbás surgiram na Ilha da Fantasia são outros quinhentos.

Existem diversas histórias desencontradas sobre a origem de Garantido e Caprichoso sem que até hoje se possa aferir qual delas é realmente a verdadeira.

No livro “Boi Campineiro – A História do Festival de Parintins que não foi contada”, lançado em 2013, o jornalista Jonas Santos elenca algumas delas:

O boi-bumbá de Parintins é herança dos nordestinos e chegou ao Amazonas, provavelmente, no final do século 19. Os migrantes teriam se mudado para cá motivados pelo apogeu no primeiro Ciclo da Borracha, entre 1870 a 1910.

Oficialmente, Caprichoso e Garantido completarão seus centenários em 2013. Entretanto, são vários os autores que divergem sobre as datas de fundação dos bois e também diversos agentes sociais contam versões díspares relacionadas à introdução e evolução da brincadeira folclórica em Parintins.

No livro “Parintins: Memória dos Acontecimentos Históricos”, publicado em 2003, pela editora Valer, o historiador-maior de Parintins, o saudoso Tonzinho Saunier, discorda do ano de fundação do Garantido, 1913, e diz que o boi do povão completará, neste ano, 92 anos e não 100, conforme afirmam dirigentes do boi da Baixa do São José.

Para a família de Lindolfo essa narrativa do historiador estaria equivocada. “Nós estamos emocionados em resgatar a história do meu avô, que quando ainda menino criara o boi Garantido”, disse Cleomara Monteverde, neta do criador e presidente da associação que leva o nome do avô.

A principal contestação de apoiadores da tese de Tonzinho estaria na data de nascimento do mestre Monteverde, uma vez que Lindolfo, nesse caso, criara o Garantido aos 11 anos, conforme relato assegurado pela própria família do fundador. A discussão também se debruça sobre uma toada de Tadeu Garcia e Chico da Silva, que fala sobre um sonho do mestre.

Antes da versão oficial, os relatos de contemporâneos na Baixa era de que a gênese do boi de Lindolfo tem iniciação nos seus 18 anos de idade. Isso teria ocorrido após o retorno dele do Exército e em decorrência de uma grave doença que, outrora, foi acometido. Saunier morreu em 1999.

 

Sobre o Caprichoso, Tonzinho Saunier também questiona não somente a data de criação do boi, mas quem teria sido o seu criador. O mais afamado poeta, historiador e antropólogo de Parintins não ousa afirmar quem seria “o pai da criança”. Para debater o tema, Saunier levanta vários questionamentos. A primeira hipótese é de que o Caprichoso nasceu na Praça 14 de Janeiro, em Manaus, em 1912, e que no ano seguinte Emídio Rodrigues Vieira levou o folguedo para desenvolver a brincadeira na Ilha. Portanto, Emídio seria o fundador.

Na segunda versão, o criador do Caprichoso seria José Furtado Belém, que no ano de 1913 assistiu a uma apresentação do touro negro, na Praça 14 de Janeiro, em Manaus. Ele gostou da brincadeira e foi quem teria levado o boi para Parintins. José Furtado Belém era parintinense, de grande articulação política e chegou a ocupar o cargo de vice-governador do Amazonas, em 1911, segundo relatos de Tonzinho em sua obra.

Por fim, o historiador diz que a data de criação do boi azul e branco aconteceu em 1925, data confirmada também pelos familiares de Luiz Gonzaga Azêdo, que ainda hoje discordam e protestam que o fundador oficial do Caprichoso seja Roque Cid. Para a família, o criador foi Luiz Gonzaga. Os Gonzaga asseguram ainda que em 2013 o bumbá completaria 88 anos.

Para Simão Assayag, de acordo com publicação em 1995, o Caprichoso chegou a Parintins conduzido pelas mãos de José Furtado Belém, em 1913, e que ao chegar à Ilha o seu Emídio Rodrigues Vieira tornou-se o primeiro dono. Simão relata ainda que o boi Galante, criado também em 1913, é que foi o primeiro adversário do Garantido.

Por conta de uma contenda entre os organizadores, Emídio se afasta da brincadeira e Roque e Tomaz Cid criam um novo boi, ainda nesse mesmo ano, o qual batizam com o nome de Caprichoso. Outra variante, contada por Assayag, é que os bois Garantido e Caprichoso teriam nascido de dissidências. Não se sabe ao certo se foi do primeiro ou do segundo, respectivamente.

Tonzinho dedicou sua vida à pesquisa, a colher documentos, registros históricos, peças arqueológicas e a estudar o folclore parintinense. Apesar de seus anos afins de investigação, porém, não há um desfecho com embasamento científico a respeito desse tema.

Para fechar a conta, em mais uma suposição, Tonzinho atesta que os iniciadores do Caprichoso, em Parintins, no ano de 1913, foram Boboí, Luiz Gonzaga, José Leocádio, Emílio Silva e os irmãos Cid: Raimundo, Pedro e Félix, que vieram do Crato, cidade do interior do Ceará. O historiador não cita Roque Cid.

No livro “Boi Garantido de Lindolfo”, de Dé Monteverde, neto de Lindolfo Monteverde, fundador do Garantido, em coautoria com João Batista Monteverde, filho do criador do boi, o autor também refuta a tese de Saunier e defende que o primeiro boi é o Garantido, criado em 1913, com curuatá, uma espécie de flor de palmeira inajá e seus chifres confeccionados com uma forquilha de madeira revestidos de folhas e flores vermelhas.

De acordo com o que descreve Dé, nesse mesmo ano, Alexandrina Silva, a “dona Xanda”, mãe do menino Lindolfo, ajudou o filho a construir o Garantido utilizando a cabeça de um boi de carne, talas de inajá e como enchimento do corpo se serviu de folha de bananeira e samambaia. “Dona Xanda construiu o boi Garantido mais real. Lindolfo Monteverde criou o boi Garantido em 13 de junho de 1913 com a idade de 11 anos”, diz um trecho do livro.

O Garantido é todo branco e traz um coração na testa. As cores de sua bandeira são o vermelho e branco. Seu primeiro curral ainda está situado na Avenida Vicente Reis (hoje Avenida Lindolfo Monteverde). Em 1995, o boi mudou-se para a Cidade Garantido, localizada na rodovia Odovaldo Novo, bairro São José, onde funciona atualmente seu escritório e acontecem os ensaios e eventos do boi.

Em 1999, a folclorista e historiadora Odineia Andrade, diretora do Departamento Cultural do Caprichoso, em entrevista concedida à TV Amazonas, engrossou o debate ao dizer que o Caprichoso também era de 1920 e que, portanto, em 2013 completaria 92 anos. Mais adiante, porém, as pesquisas da historiadora desembocaram para o registro de que os irmãos Cid foram os fundadores do Diamante Negro, como é chamado o Caprichoso, e que, assim, em 2013 completaria seu centenário. O seu nascimento aconteceu no Esconde.

No centenário do Caprichoso, a versão oficial, fundamentada em pesquisa do Instituto Memorial de Parintins, e que a atual diretoria da agremiação tem embasamento, é de que o cearense Roque Cid foi o primeiro fundador do boi, em 1913, caindo por terra todas as demais aspirações para esse feito. A pesquisa vai mais além e diz que Félix Cid era filho de Roque e ocupava o cargo de amo do Caprichoso.

Ao ressignificar a história do bumbá, o resultado da investigação rememora a mesma designação de Odineia: a de que o nascedouro do touro negro é o bairro do Esconde. Atualmente, o curral do boi está localizado na Rua Gomes de Castro, Centro. O boi é preto, com barra branca e possui uma estrela na testa. As cores do seu pavilhão são o azul e branco.

O apagamento da identidade visual e sociocultural do Campineiro fragmentou no decurso de décadas a memória, a oralidade e a história do boi-bumbá. No âmbito do processo cultural, personagens que protagonizaram a brincadeira também divergem sobre a data de fundação do Campineiro e quem foi o seu criador.


O atual presidente da agremiação, Eduardo Paixão de Souza, 62, afirma que o seu boi-bumbá é o mais velho de Parintins e que seu ano de criação é datado de 1890, na comunidade do Aninga.

Ele diz ainda que seu pai, Emídio Souza, com 18 anos à época, iniciou o folguedo. “Foi a família Andrade, aqui da comunidade, que colocou a brincadeira (em 1890) e o meu pai fundou o boi em 1913”, diz. Na conta de Eduardo, o Campineiro completa em 2013 seus 123 anos.

Saunier não afere a data como verdadeira. Para o historiador, o boi Campineiro “surgiu em 1977, no bairro de Palmares”. Paulinho Faria, ex-apresentador do boi Garantido, discorda. Sem mencionar uma data exata, ele diz que o Campineiro é praticamente da mesma época do vermelho e do azul. “Eu era bem pequeno, mas eu lembro que o Campineiro já brincava boi. Tinha o Garantido e o contrário, mas ele já brincava. O Campineiro é um boi antigo, apesar de não ter vivido tanto tempo”, afirma Paulinho.

O próprio Paulinho, que guarda memórias e peças das histórias dos festivais de muitos tempos, não imaginava que o boi Campineiro ainda sobrevivesse, apesar da exclusão a qual foi relegado, e se mostrou surpreso quando interrogado acerca da situação de resiliência sociocultural a qual o verde e amarelo do Aninga passa há inúmeros anos.

O “dono do Campineiro”, Carlos Leocádio da Silva, o “Camoca”, 63 anos, conta outra versão para o surgimento do folguedo. Ele não sabe precisar a data, mas credita que a fundação do Campineiro tem alternância entre os anos 1913 a 1915. “O Campineiro só é um pouquinho mais novo que o Caprichoso. Tem quase a mesma idade”, afirmou.

Camoca foi quem comandou o Campineiro a partir do ano de 1980 e ficou por cerca de dez anos à frente da agremiação. Ele também difere da argumentação de que o pai de Eduardo Paixão é o criador do boi do Aninga.

Leocádio diz o que verdadeiro fundador do Campineiro é o pai dele, Leovino Leocádio da Costa. “Foi meu pai o fundador, mas antes de passar para a minha responsabilidade o boi ficou com o seu Emídio Calota, lá mesmo na comunidade do Aninga”, assegura.

A decisão de retirar o Campineiro do Festival de Parintins partiu das diretorias do Garantido e do Caprichoso. “Eles não queriam que outro boi estragasse a festa deles, principalmente, com a ajuda oferecida pelo Governo para a produção do festival”, afirmou.

Outro fator que levou o Campineiro a deixar o Festival foi a própria torcida. “O detalhe é que o Campineiro disputava o Festival, mas não tinha torcida. As pessoas que organizavam o Campineiro eram um misto de torcedores do Garantido e Caprichoso”, contou Jonas Santos.

sexta-feira, outubro 16, 2026

Um gênio chamado Jair Mendes

 


A carnavalização antropofágica ocorrida nos bumbás de Parintins tem uma data precisa e um gênio que não saiu da lâmpada de Aladdin, mas da Baixa de São José, como primeiro e único responsável por esta guinada radical: o artista plástico Jair Belém Mendes. Ele nasceu em Parintins, em 12 de junho de 1942, e desde criança já integrava o grupo de brincantes do boi Garantido no papel de índio das tribos do bumbá.

– Sempre fui fanático pelo touro branco. Aqui cada pessoa torce por um boi desde menino e como eu morava na parte de cima da cidade torcia pelo Garantido – diz ele. – Quando eu tinha uns 15 anos, seu Lindolfo Monteverde, que era muito amigo do meu pai, sabendo que eu gostava muito de desenhar e de pintar, me convidou para que eu fosse ajudar a pintar as alegorias do boi Garantido. Naquele tempo, o boi era feito de pau e de cipó, sendo que a cabeça era uma caveira de boi de verdade. A armação era forrada de capim, com um pano por cima imitando o couro. Pesava uma tonelada. Para ser tripa do boi a pessoa precisava ter muita força, tinha que ser um verdadeiro Sansão, Maciste ou Hércules.

No início de 1978, Jair Mendes, que desde o ano anterior era responsável pelas alegorias do bumbá exibidas na arena, falou para Lindolfo Monteverde que seria capaz de criar um boi mais leve, com armação em espuma, o que facilitaria o bailado do “tripa” durante a brincadeira, além de dotar a armação de movimentos semelhantes aos de um boi de verdade. Apesar de meio cismado com a conversa, Lindolfo deu sinal verde para Jair Mendes colocar em prática aquela sua ideia mirabolante.

A tarefa foi executada em absoluto sigilo. Além de Jair e Lindolfo, somente o apresentador do Garantido, Paulinho Faria, sabia o que estava acontecendo. De madrugada, Paulinho Faria colocava Jair Mendes em uma picape e os dois iam visitar os pastos de gado na zona rural do município. Paulinho iluminava a boiada com os faróis do carro e Jair Mendes começava a desenhar, buscando encontrar o maior realismo possível entre aqueles bois de carne e osso e o bumbá de pano que surgira na sua imaginação, se esmerando em reproduzir com precisão as proporções anatômicas dos animais.

Em uma dessas incursões – sempre feitas de madrugada, para ninguém ficar sabendo! –, Jair Mendes se deparou com um boi nelore, de pelagem cinza-clara e vassoura da cauda preta, que tinha na testa uma marca de nascença parecendo um coração, exatamente igual à marca tradicional do bumbá Garantido. O boi ficou olhando fixamente para o artista plástico por alguns minutos, aí mexeu a cabeça para um lado, depois para o outro e, na sequência, baixou a cabeça e disparou para o meio da boiada, até se perder de vista. Jair Mendes conta que os movimentos de cabeça daquele nelore foram como uma epifania.

Do ponto de vista filosófico, a epifania significa uma sensação profunda de realização, no sentido de compreender a essência das coisas. Ou seja, a sensação de considerar algo como solucionado, esclarecido ou completo. Jair Mendes agora já sabia como o seu boi de pano iria movimentar a cabeça. O resto era o de menos.

Ele e Paulinho Faria, com um gravadorzinho na mão, ainda passaram mais dois dias de campana nos pastos da zona rural, esperando que um boi urrasse, até que conseguiram gravar o urro de um zebu. Nem mesmo Paulinho Faria sabia o que Jair Mendes estava tramando. Só sabia que para evitar qualquer imprevisto, o próprio Jair Mendes já havia combinado com Lindolfo Monteverde que ele, Jair, seria o “tripa” do novo boi.

 

João Batista Monteverde, Jair Mendes, Edu Costa e Paulinho Faria

Até hoje, o ex-apresentador Paulinho Faria se lembra daquela noite mágica do dia 28 de junho de 1978, quando o boi Garantido surpreendeu o festival de Parintins e fez a brincadeira tradicional atingir um novo patamar de qualidade, dando início a uma evolução permanente que dura até os dias de hoje:

– Eu chamei a atenção da galera e dos jurados para a entrada do boi, que entrou bonito como nunca. Aí eu dizia: Atenção, galera, para esse momento… Olhe para o olho do Garantido. Aí o olho piscava. Agora, galera, olhe para rabo… Aí o rabo balançava, como se estivesse espantando as moscas… Depois ele começou a mexer a boca, a orelha… Parecia mesmo um boi de verdade… A partir daí, meu amigo, a galera foi ao delírio… Era menino, mulher, velho, todo mundo emocionado, a gente chorava e ria ao mesmo tempo. Era muita emoção. Neste ano, o Caprichoso não voltou mais na segunda noite. Nós disputamos o resto do festival com o bumbá Campineiro. De repente, quando o Garantido encerrou sua apresentação e já ia saindo, eu disse: Acho que está faltando alguma coisa, galera! Atenção, galera vermelha e branca! Aí o boi urrou, que foi aquela nossa gravação, e começou a mexer a cabeça, a dançar com a Sinhazinha da Fazenda e se movimentar todo, de um jeito que ninguém nunca tinha visto antes… A galera foi à loucura! Não tinha mais jeito, ninguém ia superar aquele nosso bumbá…. Foi por isso que o contrário não voltou mais na noite seguinte. Aquilo tinha sido uma idéia fantástica desenvolvida pelo Jair, porque o Garantido fez de tudo nessa noite, só faltou voar. O Jair Mendes saiu consagrado do tablado!

Chamado até hoje de “Hans Donner do Boi”, Jair Mendes, a partir dessa noite histórica, conferiu vida às alegorias gigantescas e se transformou em avatar dessa nova arte parintinense, que fez do festival dos bumbás um dos mais bonitos espetáculos visuais do planeta.

Um artigo de jornal do arquivo particular de Paulinho Farias, de 1984, de autor desconhecido, fala de Jair Mendes como “um homem introvertido, cuja humildade chega às vezes até a irritar seus próprios amigos. Mas ele é mais do que isso: os efeitos especiais que ele faz para as alegorias são indescritíveis. Este ano apresentou a lenda do boto, representou o por do sol com chuvas e trovoadas, além do pescador tarrafeando, numa sequência de movimentos de arte fantástica que só o Festival de Parintins oferece.”

O mestre Jair Mendes sabe bem de sua importância para o crescimento exponencial do festival e tem boas lembranças daqueles tempos pioneiros:

– Naquela época tinha um seriado na TV que se chamava “O Homem de Seis Milhões de Dólares”. A série era sobre o ciborgue Steve Austin, interpretado pelo ator Lee Majors, que era chamado de “homem biônico”. Como um boi articulado também era uma novidade jamais vista em Parintins, o povo começou a chamar o Garantido de “boi biônico”, porque ele mexia as orelhas, balançava a cabeça e o rabo, comia capim, pintava e bordava. A partir daí eu comecei a introduzir coisas novas nas apresentações do boi. A primeira alegoria com movimentos foi feita em 1979 e representava a Iara, a Mãe-D’água, com a participação da minha filha. Cada vez mais eu ia encaixando estas coisas, figuras engraçadas, lendas indígenas, cobra grande, bicho folharal, negrinho do campo grande, que hoje não tem mais, então cada ano era uma inovação e eu era o único artista que fazia estas coisas em Parintins, de dar movimentos quases reais às alegorias. O boi Caprichoso só começou a se mexer em 1986 porque, aproveitando um desentendimento com a diretoria do Garantido, eu fui para o Caprichoso. Foi aí que o boi passou a se mexer também. Quando saí do Garantido, deixei lá o Vandir, que era meu ajudante, que ficou tomando conta do Garantido. No boi Caprichoso, quem me ajudava era o Juarez Lima. Hoje, nos dois bois, quem não foi meu discípulo foi discípulo do meu discípulo. Você vê que naquela época não tinha artista, só era eu, e hoje Parintins está empestada de artistas. Hoje nós somos referência no Brasil, fazemos o carnaval do Rio de Janeiro, São Paulo, Manaus, as cirandas de Manacapuru, os peixes ornamentais de Barcelos, os botos de Alter do Chão, conquistamos nosso espaço e tudo graças a este festival de Parintins.


N. R.: O mestre Jair Mendes faleceu no dia 15 de março de 2025, no Hospital Delphina Aziz, em Manaus, onde estava internado há alguns dias. Ele tinha 82 anos e era diabético.

Em reconhecimento ao seu legado, o Boi Garantido inaugurou, em abril de 2023, o “Espaço Mestre Jair Mendes” no curral Lindolfo Monteverde, homenageando sua trajetória e influência na cultura parintinense.

Jair também dá seu nome à Medalha do Mérito Cultural na cidade de Parintins.

Em 2023 foi homenageado pelo bumbá vermelho e branco durante a apresentação do tema “Garantido por toda vida”.

O atual prefeito de Parintins, Mateus Assayag, prestou homenagem ao artista em sua rede social.

“Seu legado permanecerá vivo na história e no coração de todos que celebram e valorizam a cultura amazônica, especialmente entre nossos artistas parintinenses”, afirmou Assayag.