70. Em meados dos anos 1980, embalada pelo
sucesso de uma música que estourara na novela das oito da Globo, Fafá de Belém
decidiu provar que fôlego não lhe faltava. Anunciou, com toda a convicção, que
seria backing vocal de todas as escolas de samba que desfilariam na Marquês de
Sapucaí.
A imprensa
adorou a ideia. Os patrocinadores também. Formou-se uma verdadeira operação de
guerra: empresas providenciaram uma fantasia para cada escola, reservaram um
camarote para ela trocar de roupa, retocar a maquiagem e recuperar o fôlego,
além de um carro de prontidão na dispersão para levá-la, em velocidade de
Fórmula 1, até a concentração da escola seguinte.
No primeiro
dia, o plano parecia infalível. Fafá cantou na Portela, passou pela Mangueira,
deu uma paradinha na Imperatriz Leopoldinense, atravessou a Vila Isabel, fez
escala no Salgueiro e chegou à União da Ilha já vestida, maquiada, sorridente e
escoltada por um batalhão de fotógrafos, cinegrafistas e curiosos.
Na
concentração, porém, havia um pequeno detalhe que escapara aos estrategistas do
marketing: Aroldo Melodia.
Sem dar a menor
bola para aquela romaria de câmeras, ele aquecia a bateria com seu tradicional
grito de guerra:
– Segura
marimba! Olha minha bateria! Minha Ilha! Minha Ilha!
No auge dos
flashes, Fafá aproximou-se toda simpática, estendeu a mão para dividir o
microfone e cantar junto. Aroldo tirou o microfone da reta com um safanão digno
de goleiro defendendo pênalti e decretou:
– Êpa! Aqui
não, minha filha! Aqui não! Vai cantar em outra freguesia! Aqui na Ilha quem
manda sou eu!
O sorriso de
Fafá congelou mais rápido que cerveja esquecida no congelador. Percebendo o
desastre que se desenhava diante das câmeras, o presidente da escola, Jorge
Taufie, o eterno Peixinho, entrou em campo para apagar o incêndio.
– Pô, Aroldo...
é a Fafá! Pelo amor de Deus... Deixa ela dar uma palhinha no nosso samba...
Aroldo nem
piscou.
– Se tu quer
ouvir a Fafá cantar, contrata um show dela lá na quadra. Aqui, não!
Fim da
negociação.
Enquanto Fafá
procurava um buraco onde pudesse se esconder – e não encontrou nenhum na
Marquês de Sapucaí inteira –, Aroldo simplesmente retomou o serviço, como se
nada tivesse acontecido.
– Segura
marimba! Olha minha bateria! Minha Ilha! Minha Ilha!
A cantora
deixou a concentração às lágrimas, seguida pelos fotógrafos e cinegrafistas,
que haviam acabado de ganhar, de graça, a melhor imagem daquela noite.
Horas depois,
já na dispersão, Edu do Banjo resolveu cobrar explicações do amigo.
– Porra,
Aroldo... Tu cagou e mijou na cabeça da Fafá de Belém! Uma mulher daquele
tamanho! Tu não teve medo dela te dar umas porradas?
Aroldo
respondeu com a tranquilidade de quem acabara de expulsar uma estrela da Globo
do próprio microfone:
– Medo? Tive
não, cumpádi...
Fez uma pausa
calculada, abriu um sorriso maroto e arrematou:
– Com aqueles
peitões todos, o único medo que eu tive foi dela ficar muito despeitada
comigo.
Dizem que a
bateria da Ilha entrou na avenida afinadíssima. Mas quem arrancou a última
gargalhada do carnaval foi mesmo Aroldo Melodia.








