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quinta-feira, novembro 05, 2026

Arlindo Júnior, o Pop da Selva

O cantor Arlindo Pedro da Silva Júnior nasceu no dia 20 de maio de 1968, em Manaus, filho de Arlindo Pedro da Silva e Luzia Souza e Silva. Passou a infância e a adolescência no bairro da Cachoeirinha, na área conhecida como “Bodozal da Maués”, em referência ao poluído igarapé da Cachoeirinha, que corta o bairro de leste a oeste.

Seu primeiro emprego, ainda na adolescência, aos 13 anos, foi como anunciante dos famosos “carros de peixe”, que até hoje percorrem as ruas do bairro: uma picape com uma boca-de-ferro sobre a cabine e várias caixas de isopor no bagageiro cheias de peixes, que são anunciados e vendidos à população.

Um de seus amigos na função, sete anos mais velho, era seu vizinho Paulo Davi Siza, hoje famoso como o cantor “Paulo Davi, o Chique do Brega”, do hit “Minha Pomba Linda” (17 milhões de visualizações no YouTube).

– Ele tinha uma potência de voz muito alta para um pivete de 13 anos – diverte-se Paulo Davi. – Quando as picapes se encontravam na rua, eu só faltava me esgoelar para o meu som ser ouvido enquanto ele parecia que estava conversando com amigos numa mesa de bar. O vozeirão do Arlindo era muito foda!

– Eram duas picapes: a Águia Negra, toda preta, e a Águia Branca, claro, toda branca. A gente tinha que improvisar no falatório para chamar a atenção dos moradores – explicou Arlindo Junior. – Eu mandava coisas do tipo: “Águia Negra da economia / trazendo peixe barato de manhã, de tarde, de noite / trazendo peixe barato todo dia! / Jaraqui vivo e escamado / jaraqui que ainda nem morreu / está só desmaiado! / Tucunaré açu e borboleta / quem pode, compra / quem não pode faz careta! / Matrinchã da escama fina / assada é manjar dos deuses / cozida, uma obra-prima!”. Era muito divertido, parente, papo sério!

Frequentador da quadra do GRES Andanças de Ciganos, na Cachoeirinha, Arlindo Júnior logo conquistou o presidente da escola, o advogado Vilson Benayon, e os principais diretores, os empresários Thomé Mestrinho e Adib Mamede, por conta de sua afinação e potência vocal e, aos 16 anos, já era backing vocal oficial dos levantadores de samba Carlinhos de Pilares e Nei Viana, da escola de samba tricolor, em uma série de desfiles memoráveis no carnaval amazonense. Para começar a cantar em diversos barzinhos pelas noites manauaras foi conta de multiplicar.

Aos 19 anos, ele recebeu um convite para uma apresentação especial em Parintins, no aniversário de uma debutante da cidade. Arlindo Júnior aceitou o convite, ficou encantado com a cidade dos bumbás, se apaixonou por uma das nativas locais e resolveu nunca mais voltar para Manaus. Foi quando iniciou uma proveitosa carreira-solo cantando pagode nos barzinhos de Parintins e comandando um programa diário na Rádio Alvorada.

Quem apostou no talento de Arlindo Júnior para defender as cores do Caprichoso como levantador de toadas foi o compositor J. Carlos Portilho, no ano de 1989. Até então, o cantor trabalhava no Bar Marajá Drinks, em frente ao curral do Boi Garantido, na Baixa de São José, dos jornalistas Floriano Lins e Fred Góes, e era apresentador do “Jornal da Amazônia”, na Rádio Alvorada.

Sondado pelo Caprichoso, Arlindo perguntou de Floriano, com quem morava e chamava de pai, se não havia problema em fazer um teste no boi “contrário”. Foi autorizado na hora. O jornalista Floriano Lins sempre foi uma alma boa. Aquele momento mudou para sempre a vida artística de Arlindo.

– O Periquito (apelido do compositor J. Carlos Portilho) me procurou para eu conversar com o Arlindo Júnior e convencê-lo para ir ao teste, na chácara dele, na beira do Lago Macurani, às 14h. Eu disse para ele ir, porque era importante para a carreira dele. Quando ele voltou para casa, já retornou como levantador de toadas – recorda o jornalista Floriano Lins.

O jornalista Floriano Lins na Câmara Municipal de Parintins

Floriano Lins lembra também que Arlindo Júnior gravou o clipe da toada “Saga de Um Canoeiro”, para o programa Fantástico, da Rede Globo, em plena Festa da Pesca do Peixe Liso, na comunidade São José do Paraná do Espírito Santo de Cima.

– Ele se apaixonou, encarnou a toada e fez dela a sua bandeira musical. Assumiu esse ritmo como mote da profissão e amor pra vida inteira – frisa o jornalista.

Quando o cantor entrou no Bumbódromo pela primeira vez, em 1989, ninguém da nação azul e branca sabia de quem se tratava. Mas bastou Arlindo Júnior dizer “ôiiiiiii” pra galera e liberar os rouxinóis que trazia presos na garganta a partir dos primeiros acordes da Marujada de Guerra para conquistar todo mundo.

Seu jeito brincalhão e carismático de incentivar as coreografias dos torcedores se tornou a cereja do bolo. Não deu outra. Foi batizado pelos torcedores como “Pop da Selva” e passou 15 anos defendendo o bumbá Caprichoso, como levantador, como apresentador, e como levantador e apresentador ao mesmo tempo, sempre recebendo a nota máxima dos jurados. Uma lenda!

Na carreira solo, o cantor lançou 13 discos. O primeiro álbum, “Brincando de Boi”, de 1993, era uma verdadeira homenagem ao Caprichoso. Em “Saga de um Canoeiro”, de 1994, o cantor exalta a cultura amazonense ao abordar as lendas amazônicas.

O CD “Pássaro Sonhador”, de 1996, é um dos maiores sucessos do cantor, que reúne grandes clássicos de toadas de Parintins. Além de “Pássaro Sonhador”, título da gravação, o álbum também conta com as canções “Vale do Javari”, “Índio”, “Kananciuê”, “Lagarta de Fogo”, “Canto da Mata”, “No Compasso da Emoção”, “Canto do Uirapuru”, “Rios de Promessa” e “Templo de Monan”.

Arlindo Júnior também registrou sua imensa capacidade vocal e emoção contagiante em seis discos ao vivo, sendo alguns deles gravados no Teatro Amazonas e no anfiteatro da Ponta Negra, em Manaus. Quase todas as músicas podem ser acessadas em plataformas de streaming na internet.

Com passagem pela vida política, Arlindo Júnior se elegeu vereador de Manaus em 2008, e foi representante do povo manauara na Câmara Municipal por duas legislaturas: 2009-2012 e 2013-2016.

Ele também foi presidente da Fundação Municipal de Cultura e Artes – Manauscult, durante a gestão do prefeito Amazonino Mendes (2009-2012), tendo sido um dos maiores incentivadores da Feira do Tururi, do Boi Manaus e do CarnaBoi, os três principais eventos festivos sobre a brincadeira do “dois pra lá, dois pra cá”, revitalizada pelos moradores de Parintins e enraizada em Manaus.

Em 2016, por meio de redes sociais, o cantor confirmou que estava com câncer de pleura. Na postagem, ele informou que a doença foi diagnosticada como inflamação no pulmão.

Após o primeiro turno das eleições naquele ano, quando não conseguiu ser reeleito, Arlindo Júnior voltou ao hospital porque sentia falta de ar e lá descobriu que teve um derrame pleural, ou seja, entrou água na pleura. A enfermidade inicial havia evoluído para um câncer incurável e insidioso.

Ele passou os três anos seguintes lutando contra o câncer. Descoberta inicialmente nos pulmões, a doença avançou para os ossos e também para o cérebro. Arlindo Junior fazia acompanhamento clínico e tratamento do câncer em São Paulo e Manaus.

No dia 29 de dezembro de 2019, o eterno canoeiro do Caprichoso, aos 51 anos, atravessou para a terceira margem. Ele era casado com Francilene Dourado da Silva e pai de cinco filhos.

Em nota oficial, a Associação Cultural Boi-Bumbá Caprichoso lamentou a morte do artista, considerado uma das maiores vozes do Festival de Parintins de todos os tempos:

“A Associação Cultural Boi-Bumbá Caprichoso, em nome do presidente Jender Lobato e do vice Karu Carvalho, comunica que um dos mais importantes artistas da história de nossa agremiação acabou de falecer, Arlindo Júnior.

A voz do Festival, a voz de nossa galera, a voz do lindo histórico de amor ao boi Caprichoso silencia neste mundo para cantar no mundo celestial ao lado de tantas outras estrelas azuladas. Um filme passa por nossas cabeças. Quantas vezes sua voz deu o tom para que a galera explodisse com a toada Pesadelo dos Navegantes na arena do bumbódromo? Quantas vezes seus olhos derramaram lágrimas ao entrar na arena e ver que ali estavam todos os torcedores apenas aguardando o seu sinal, para que pudessem levar o Boi Caprichoso ao título?

Na memória e no coração azulado estamos com os grandes clássicos do Festival em sua voz. É difícil escrever algo sobre alguém que esteve sempre ao nosso lado, contagiado com sua alegria, com sua linda história.

Arlindo é um dos maiores nomes do Festival de Parintins. Chegou na ilha para cantar em um aniversário, aqui se apaixonou, e não quis mais ir embora. Comandou o programa Buteco do Arlindo na Rádio Alvorada, formou sua banda de pagode, foi levantador das primeiras bandas do Boi Caprichoso. Se tornou levantador de toadas e quando o boi precisou dele também acumulou a função de apresentador. Quanto talento! Dois em um!

Arlindo foi o verdadeiro canoeiro do boi Caprichoso. Levou nosso festival para programas nacionais de televisão, foi a grande voz do boi-bumbá em Manaus na Tevelândia, apoiado pelo Movimento Marujada. Arlindo Júnior é a própria história e hoje eterniza sua memória não apenas na constelação azulada, mas no estado do Amazonas, onde foi reconhecimento pelo trabalho e dedicação à cultura popular.

Arlindo, Pop da Selva, como ficou reconhecido, sua canoa segue a atravessar o grande rio acompanhado pelo silêncio da mata. Por aqui enfrentou banzeiros nas ondas dos rios e das correntezas fez os desafios, na tua canoa partes canoeiro, teu corpo está cansado de tantas viagens e tuas mãos estão calejadas do remo a remar. De tantas remadas, o porto estava distante e realizas tua última viagem ao descansar.

O presidente do Boi-Bumbá Caprichoso, Jender Lobato decreta neste momento luto de 7 dias pelo falecimento daquele que é o maior ídolo da História do Boi Caprichoso, o Pop da Selva, Arlindo Jr. Descanse em Paz, Arlindo Jr.”

quarta-feira, novembro 04, 2026

David Assayag, um Herói do nosso tempo


O cantor David Assayag

Corria o ano de 1969, ano em que Tostão se tornou titular na Seleção Brasileira. O time verde-amarelo fez um amistoso com o Millonarios, time colombiano, em Bogotá, preparando-se para enfrentar a Colômbia pelas eliminatórias da Copa do Mundo poucos dias depois.

Era o dia 1º de agosto. Tostão, um dos maiores craques que o futebol mundial conheceu, domina a bola, mas não consegue evitar o choque com o zagueiro Castaños e machuca o olho esquerdo, para preocupação de todos os amantes do futebol-arte.

Em 24 de setembro de 1969, outro lance viria a dividir a carreira de Tostão. Jogavam Corinthians e Cruzeiro, pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, no Pacaembu, à noite. Tostão recebe o impacto de uma bola chutada pelo zagueiro Ditão de raspão no mesmo olho esquerdo e sofre descolamento de retina.

A torcida brasileira, de Norte a Sul, acompanha o drama de um craque genial. Do craque e do cidadão Eduardo Gonçalves de Andrade, às vésperas do Mundial do México 1970.

Em 2 de outubro de 1969, Tostão é submetido a uma cirurgia em Houston (Estados Unidos), pelo médico mineiro Roberto Abdalla Moura, no Hospital Metodista da cidade. Todos torciam para sua recuperação.

Um jovem de 22 anos, inteligente, culto, leitor de autores incomuns aos seus companheiros de profissão, ligado nos acontecimentos do mundo, fã do arcebispo dom Helder Câmara, preocupado com as injustiças sociais, defensor da liberdade e da democracia, temas pouco afeitos ao universo do futebol.


O técnico João Saldanha saiu da seleção e deu o lugar a Zagallo. Este não acreditava na recuperação do craque mineiro, que só foi liberado para voltar às atividades a três meses da Copa. O médico Lídio Toledo, também não. Mas, não se sabe se por feeling, pela velha estrela, por superstição, o fato é que Zagallo deu todas as chances a Tostão.

Às vésperas do embarque, o craque reassumiu seu lugar no time, ao lado de Pelé. E a dupla atuou as seis partidas da epopeia do tricampeonato mundial. No dia seguinte a cada jogo, o doutor Abdalla era personagem de uma operação sigilosa que o levava à concentração brasileira, para examinar o olho esquerdo que mais preocupava o Brasil.

Mesmo com todo risco e com desconfiança dos dirigentes, Tostão disputou a Copa de 1970 com a camisa 9 e voltou do México com seu mais importante título: tricampeão mundial. Quem não se lembra da jogada genial na partida contra a Inglaterra (então campeã mundial), quando driblou vários adversários e originou o gol da vitória, feito por Jairzinho? Fez ainda dois gols contra o Peru naquele Mundial. Boa parte da crítica europeia o apontou como o maior craque do Mundial.

Afinal, disputar uma Copa sem o talento inigualável de Tostão seria um risco muito grande. Por força de um sopro dos deuses da bola, Tostão venceu todos os obstáculos e foi ao México, onde desfilou jogo após jogo, toda a sua arte. De seus pés – e de seu cérebro – surgiram jogadas empolgantes e gols decisivos. E Tostão, que por pouco não foi à Copa, acabou-se transformando em um dos heróis da conquista do tricampeonato mundial pelo Brasil.

Nascido no dia 16 de janeiro de 1969, em Parintins, filho de Florildes (“Dona Flor”) e Henrique Assayag, David Assayag Neto ainda não tinha completado dois anos de idade quando esse drama do jogador Tostão começou a se desenrolar.

Primo por parte de pai do arquiteto Simão Assayag, David Assayag teve uma infância e adolescência igual à de todos moleques da cidade: estudando de manhã, brincando à tarde e descansando à noite. Desde os 10 anos de idade, sua voz melodiosa já era vista como uma “benção divina” e ele se esmerava em decorar as letras dos cantores de rádio que ouvia em casa.

Alto e magro para os padrões locais, David Assayag começou a cantar aos 14 anos, se arriscando por áreas menos exóticas que as toadas. Fã de Emilio Santiago, Chico Buarque e Tom Jobim, fazia shows de MPB em barzinhos da cidade. Foi quando sua vida começou a virar de ponta-cabeça, em um episódio que não gosta de lembrar.

Era para ser um dia comum e rotineiro, como todos os outros. Ele foi à escola no período vespertino, depois participou de um “rachão” de futebol com os amigos do bairro, onde machucou a cabeça ao receber uma bola chutada com força por um adversário. Além de uma dor de cabeça insuportável, nada de extraordinário aconteceu. Mais tarde jantou em casa e foi dormir. Tudo na maior normalidade possível.

Quando acordou no dia seguinte, sua visão começou a falhar, escurecendo tudo à sua volta. Fez uma bateria de exames para saber se era glaucoma, miopia ou astigmatismo. Nada. Continuou tocando a vida, tendo lapsos de visão de vez em quando, quando tudo escurecia.

Na realidade, o problema na visão de David Assayag começara alguns anos antes, quando ele, ainda criança, tomava banho com outros moleques da mesma idade no Lago do Ropoca, que ficava próximo à casa dele, e, ao mergulhar, bateu com a cabeça em um toco de árvore, submerso nas águas. Foi uma pancada de respeito.

– Foi depois desse baque que comecei a ter problemas com a visão ficando turva e apagando tudo de vez em quando. Somente alguns anos depois foi que aconteceu o acidente com a bola que levei no rosto – explicou.

Aos 18 anos, quando participava de uma excursão musical pelas noites de Belém (PA), se viu envolvido em um acidente de carro, onde machucou a cabeça mais uma vez. A dor de cabeça insuportável da adolescência retornou com força total. Não havia analgésicos que fizessem parar. Só que dessa vez foi bem mais complicado.

Um dia, já em Parintins, ao acordar, percebeu que havia ficado completamente cego. Muitos e muitos anos depois, descobriu que havia sofrido deslocamento de retina.

A retina é uma membrana muito fina, flexível e delicada que reveste a superfície interna da parte posterior do globo ocular. Nela existem receptores fotossensíveis que convertem a imagem luminosa advinda do exterior em impulsos elétricos que, através do nervo ótico, são enviados para área do cérebro em que se processa a visão.

A retina não possui nenhum elemento de fixação especial que a prenda ao globo ocular. É o vítreo, uma substância gelatinosa e transparente, situada entre ela e o cristalino, que a mantém na posição anatomicamente adequada, ou seja, em contato com outras estruturas que lhe garantem suporte e nutrição (vasos sanguíneos e nutrientes).

O descolamento de retina é uma alteração que se caracteriza pelo desprendimento dessa estrutura da superfície interna do globo ocular. Essa separação interrompe o fornecimento de nutrientes e promove a degeneração celular. Por conta disso, os oftalmologistas classificam o descolamento da retina como uma urgência médica. Se não for tratado convenientemente e depressa, pode evoluir para perda total da visão.

Foi exatamente isso que aconteceu com David Assayag. Tivesse tido os recursos financeiros de Tostão, a história seria outra. Mas o cantor era de uma família muito pobre e foi obrigado a conviver com a deficiência visual, sem se abalar, a despeito de ter feito algumas cirurgias para tentar corrigir o problema.

David Assayag iniciou sua carreira de levantador de toadas cantando no boi Caprichoso, no final dos anos 1980, mas não chegou a ser item oficial da arena, participava apenas das gravações de fitas K7 e dos ensaios no curral.

Ele foi um dos fundadores da banda Canto da Mata, que, inicialmente, era independente e bastante eclética, não estando ligada a nenhum dos bois de Parintins. Posteriormente, a banda Canto da Mata foi anexada ao Caprichoso.

– Eu tinha uma certa resistência para entrar no clima da toada, achava que aquela não era minha praia. – relembra o cantor. – Só algum tempo depois assumi a toada como meu ritmo oficial. É uma música com conteúdo, que dá a oportunidade de a gente cantar expressando nossas próprias emoções.

Em 1994, a convite do apresentador Paulinho Faria, um dos maiores fãs do cantor desde seus tempos de Caprichoso, David Assayag tornou-se o levantador oficial de toadas do boi Garantido, onde permaneceu durante 15 anos.

Na época, o cantor morava na casa do compositor J. Carlos Portilho e antes de aceitar o convite lhe consultou a respeito.

– Eu falei que por mim tudo bem, mas que a diretoria do Caprichoso iria comer meu fígado ao saber que eu tinha deixado escapar do nosso firmamento uma estrela de primeira grandeza! – recordou J. Carlos Portilho. – E dei a dica: te muda pra casa da Roseane Novo e fica escondido por lá até o anúncio oficial, que eu vou falar que estava resolvendo uns problemas em Manaus e não sabia de nada!

Com a ajuda do compositor Tadeu Garcia, do Garantido, foi realizada a “operação mudança”, em sigilo absoluto, e David Assayag ficou malocado na casa da Roseana Novo até o anúncio oficial do Garantido, uma semana depois.

Na Baixa de São José, David teve o espaço que sempre mereceu para mostrar o seu talento, ganhar fama internacional e ser reconhecido como a voz mais bonita do Amazonas, sendo batizado pela galera vermelha e branca de “Rei David”, em alusão ao personagem bíblico que derrotou o gigante Golias e foi pai de Salomão.

A sensibilidade artística de David Assayag sempre se sobressaiu frente a qualquer limitação imposta pelas contingências da vida. Como se não bastasse apenas o talento para cantar, soube usar o dom musical e o próprio carisma para abrir portas que o alçaram a episódios históricos, seja vencendo por 15 anos consecutivos como o melhor levantador de toadas do Festival Folclórico de Parintins – feito único na história da celebração tupinambarana –, seja recebendo, em 1997, das mãos do então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, a medalha de “Honra ao Mérito Cultural”, pela sua contribuição em defesa da cultura popular verdadeiramente amazônica.

Em 1996, o Garantido finalmente se firmara em Manaus, o Olímpico Clube era o point nas sextas-feiras e sua atração principal era a voz revelação do festival folclórico de Parintins. David Assayag acabara de estourar com “Vermelho”, então sucesso nacional na voz dele e de Fafá de Belém.

Com tanto sucesso, era hora de fazer um registro à altura de seu talento e para isso a gravação de um show ao vivo era fundamental. O palco escolhido foi o icônico anfiteatro da praia da Ponta Negra, em Manaus.

– Foi um trabalho e tanto. O produtor Marco Mazzola esteve aqui em Manaus para produzir o álbum. Uma equipe enorme se reuniu para fazer o projeto acontecer – recordou o cantor.

O álbum “David Assayag – Ao Vivo na Ponta Negra”, é um registro obrigatório na playlist de quem admira ou curte o ritmo dos bumbás de Parintins. O álbum contém 14 faixas registradas ao vivo. Entre os clássicos, estão obras como “Apocalipse Karajá”, “Lamento de Raça”, “Um Canto Novo”, “Boi do Carmo”, “Vermelho”, “Tambores do Tempo”, “Kananciuê” e muitas outras, que fizeram história nos bois Garantido e Caprichoso.

– Lembro da voz da multidão cantando comigo, do clima de festa, da empolgação da massa. A cada toada, aplausos, gritos, gente cantando junto. Uma noite que marcou minha vida e entrou para a história da música amazonense – diz o cantor.

No final de 2009, Davi foi contratado pelo boi Caprichoso, em uma espécie de retorno às origens, o que gerou bastante polêmica e repercutiu intensamente na mídia amazonense.

Em 2012, teve sua vida contada no enredo do GRES Unidos do Alvorada, do carnaval de Manaus, e também foi um dos homenageados no enredo do GRES Grande Rio, do Rio de Janeiro, que falava sobre a superação.

Em agosto de 2019, David Assayag surpreendeu seus fãs com a notícia que poderia recuperar a visão. Dois meses depois, ele utilizou as redes sociais para anunciar que após uma série de exames não poderia realizar a cirurgia de reversão por seu quadro ser irreversível. O motivo, segundo ele, foram as primeiras cirurgias que não foram bem-sucedidas.

O procedimento cirúrgico seria realizado na cidade portuguesa de Coimbra, assistido pelo médico oftalmologista Antônio Travassos. Desde a chegada no hospital, David compartilhou com fãs e admiradores a expectativa para os exames pré-operatórios. Horas depois, ele dividiu com o público a notícia de que não mais faria o procedimento.

– Passamos mais de três horas na clínica e fizemos todos os exames relacionados à minha vista. Exames bem criteriosos. Infelizmente, não tive uma notícia muito boa. Há uns anos atrás eu fiz algumas cirurgias e, infelizmente, não foram bem-sucedidas, que vieram a danificar os olhos. E como eu passei muito tempo sem fazer tratamento nenhum, infelizmente, não teve condições de realizar o procedimento que o doutor Antônio Travassos faz – declarou David Assayag.

De maneira otimista, David afirmou que estava tranquilo e consciente de tudo.

– Quero agradecer a todas as pessoas que me ajudaram a realizar essa viagem para que eu pudesse realizar esse sonho que, infelizmente, não deu certo. Mas, a vida continua. A gente está tranquilo. Muito obrigado pelas orações, também. Tiveram muitas. Gratidão que eu nunca vou conseguir agradecer na minha vida – complementou.

No ano seguinte, David Assayag voltou ao bumbá Garantido, após um afastamento de 10 anos. E continua encantos as duas galeras com sua voz extremamente melodiosa. É um herói do nosso tempo.

sexta-feira, outubro 30, 2026

Inaldo e Tony Medeiros, sangue vermelho em dose dupla

 

Os cantores e compositores Tony e Inaldo Medeiros

Filho de Wilson de Souza Cursino e Geny de Medeiros Cursino, o cantor, compositor, poeta popular, arte educador e ex-deputado estadual João Wellington de Medeiros Cursino, o “Tony Medeiros”, nasceu no dia 2 de novembro de 1964, em Parintins, sendo o caçula de uma prole de oito irmãos.

Um ano mais velho que Tony Medeiros, Inaldo Roberto de Medeiros Cursino também abraçou a carreira artística e se tornou compositor, poeta popular e arte educador. Ele foi destacado por sua mãe para ser o guardião do mais novo.

Ainda crianças, quando ambos faziam o grupo escolar, Inaldo ficou gravemente enfermo e foi reprovado pelo excesso de faltas. No ano seguinte, os dois irmãos estavam matriculados na mesma classe e assim continuaram até completar o ginásio.

Tornaram-se unha e carne, corda e caçamba, quase gêmeos univitelinos apesar da diferença de temperamento entre os dois: Inaldo, sempre muito sanguíneo, muito “bad boy”, muito “caboco brabo”, enquanto Tony sempre foi mais tranquilo e comedido, um autêntico “nice guy”.

Nascidos e criados na Rua Paes de Almeida, quase canto com a Getúlio Vargas, os irmãos Medeiros pertenciam geograficamente à área “azul” da cidade.

No período junino, o bumbá Garantido ia dançar exclusivamente no terreiro da casa de dois estivadores, Balaústre e Eduardo Engole Cobra, já que todos os demais moradores da rua torciam pelo Caprichoso.

Um dia, entretanto, para agradar o filho caçula que estava doente, o Garantido dançou no terreiro do seu Wilson Cursino. Resultado: a família inteira, que era Caprichoso, bandeou-se para o “contrário”.

– A gente começou a acompanhar o Garantido batendo lata pelas ruas, quando ainda éramos moleques – recorda Tony Medeiros. – Aí, quando ficamos adolescentes, entramos pra Batucada e tivemos a sorte de conhecer e conviver pessoalmente com a velha guarda do touro branco: Lindolfo e João Batista Monteverde, Ambrósio, Vavazinho, Braulino, Maximiliano, Nelson Baixinho... Aquilo foi uma escola de vida!

A dupla de parceiros-pra-vida-toda só experimentou um hiato de alguns anos quando Inaldo foi estudar o secundário em Campo Grande (MT), onde se formou em técnico em agropecuária, e logo depois Tony foi fazer o mesmo em João Pessoa (PB), onde estudou durante quatro anos no Conservatório de Música da Universidade Federal da Paraíba.

A veia literária dos dois irmãos começou a pulsar mais forte por influência de um tio dos meninos, Luiz Medeiros, que era poeta, cronista e escritor de baciada. Seus textos sobre a vida amazônica eram avidamente consumidos por Tony e Inaldo Medeiros. E foram aqueles textos que os formaram e informaram.

Em 1984, aos 20 anos, Tony Medeiros e Paulinho Du Sagrado criaram o Grupo Ajuri e resolveram participar do 4º Festival da Canção de Parintins. A música “Cantiga Tropical”, inspirada em um dos poemas de Luiz Medeiros, contava a história do guerreiro Ajuricaba na sua luta contra os invasores na região do rio Negro.

Eles conquistaram o primeiro lugar, mas quase perderam o prêmio porque alguns jurados cismaram que aquilo era uma toada (e era!) que destoava da MPB tradicional que se exigia nos festivais. Coisa de tradicionalistas radicais!


Naquele mesmo ano, o boi Garantido sagrou-se pentacampeão do Festival Folclórico de Parintins e Tony Medeiros fez uma toada alusiva ao fato, comparando a constelação Cruzeiro do Sul aos cinco títulos conquistados pelo touro branco. Foi a primeira toada que ele fez para seu bumbá de coração.

– Naquela época, com quatro ou cinco versos se fazia uma toada – diverte-se Inaldo Medeiros. – As 18 toadas do Garantido cabiam numa folha de papel A4. A briga era para estar ali, naquela folha...

Em 1985, Inaldo Medeiros também emplacou sua primeira toada no repertório do Garantido, intitulada “Vou Fazer do Meu Canto, a Toada Mais Bela”, ainda bastante tradicional, numa época em que o acompanhamento das toadas era totalmente percussivo.

Foi quando os dois irmãos decidiram juntar forças para compor juntos e criar novas harmonias para o festival, explorando melhor o universo indígena – uma das obsessões do caçula desde seus tempos de criança.

O resultado foi “Filhos do Sol”, uma toada que exaltava os povos originários: “Tribo dos Andirás / Tribo dos Kayapós / Tribo dos Karajás / Vamos acender a fogueira / E fazer valer o tratado de paz”.

Gravada pelo Grupo Carrapicho, tornou-se um sucesso estrondoso em nível nacional.

A parceria entre os dois deu tão certo que nunca mais foi desfeita. Para se ter uma ideia do impacto de “Filhos do Sol” para o festival de Parintins, foi a partir dessa toada que a temática indígena passou a ser parte importantíssima do espetáculo, sendo item obrigatório para ambos os bumbás na apresentação dos “Povos Indígenas”, “Tuxauas” e “Ritual”, por exemplo.

– Mas não foi fácil emplacar “Filhos do Sol” no repertório do Garantido – recorda Tony Medeiros. – Muita gente dizia: ‘Pô, Tony, esse negócio de índio não tem nada a ver com boi-bumbá...’. Foi uma briga feia, mas acabamos ganhando a queda de braço. O certo é que logo depois o Ronaldo Barbosa começou a fazer esse mesmo tipo de toada com temática indígena no Caprichoso e aí não teve mais volta. Quem ganhou com isso foi o festival!

Da pena e do talento dos dois irmãos saíram verdadeiras obras-primas como “Haximu Quer Viver” (“Na cobiça do ouro / Mataram meu povo / E roubaram meu chão / Derramaram na terra / O sangue inocente / Da minha nação”), “Espírito da Mata” (Mutawariçawa anga açú / Mutawariçawa haira angá / Ameríndio seu grito de guerra / Em defesa da terra sagrada / Que um dia Tupã lhe entregou, ô, ô, ô”), “Toada da Vaqueirada” (“A vaqueirada vem galopando / Saltitando no balanço da toada”), “Boi de Pano” (“Meu boi de pano / É cultura popular / Atravessou o oceano / Veio de longe pra cá”), “Um Canto Novo” (“A lua gira, e gira muito bem / O tempo voa, voa como ninguém / A noite dorme, dorme, dorme / Já dormiu comigo, já dormiu comigo, já dormiu comigo”), “Naiá” (“No encontro do Sol e Lua / As águas tornam-se nuas / Iluminando Naiá”) e “Asa Dura” (“Neste ano eu vou pra minha ilha meu amor / De vermelho e branco, eu vou, eu vou eu vou / Se meu amor não quiser ir / Eu vou sozinho, mas eu vou”), para só citar algumas das mais de 70 toadas feitas pela dupla – as duas últimas aqui citadas com participação do promotor público Davi Jerônimo.

É evidente que os dois irmãos também fizeram músicas, individualmente, com outros parceiros. Por exemplo, “Coração de Batuqueiro”, de Inaldo Medeiros e Marcos Lima, é quase uma espécie de hino do Garantido: “Deixa a poesia da toada te levar / Num eterno mundo de prazer / Em Parintins é tão gostoso declarar / Garantido sou feliz por ter você / O sentimento mais sublime desse povo / Surge na voz do cantador a ecoar / No toque forte, na cadência ritmada / Dos batuqueiros da Baixa / Meu touro branco vem brincar / Garra e emoção, raça e tradição / Bate mais forte o coração da Batucada / Contagiando livremente a Galera avermelhada / E o Batuqueiro é quem conduz essa magia / Traduzida em harmonia no batuque do tambor / E no compasso o coração vence o cansaço / Garantido é minha vida e meu amor / Garra e emoção, raça e tradição / Garra e emoção, raça e tradição / Garra e emoção, sangue, suor e paixão.”

Para o jornalista Wilson Nogueira, pesquisador de festas populares na Amazônia, a toada foi o item que mais se modificou ao longo dos anos. As transformações ocorreram à medida em que a brincadeira foi ganhando atenção do mercado de cultura de massas na década de 1990. Para o pesquisador, “a pressão nas bases tradicionais não estancou os testes com ritmos que distanciavam cada vez mais os bumbás de suas raízes. Criou-se, então, um novo ritmo que se aproxima das exigências que vêm do mercado com o sentimento do passado”.

Ainda na década de 90, Tony Medeiros assumiu o cargo de Amo do Boi após a saída de João Batista Monteverde, filho de Lindolfo.

– Lindolfo foi o primeiro amo do Garantido. Após a morte do Lindolfo, o João Batista assumiu o cargo. Ele acabou levando uma facada em um dos pulmões durante uma briga, e depois disso nunca mais foi mais o mesmo. Perdeu o vozeirão que tinha. Por conta disso, fui convidado pra assumir o cargo. O amo do boi era um item que carregava uma tradição muito grande e não era muito empolgante. O item “amo do boi” estava praticamente desaparecendo. Eu tirei a melodia do verso da tonalidade menor para a tonalidade maior, que é a mais animada. Eu sou o terceiro amo da história do Garantido – diz Tony Medeiros.


Ao longo de sua trajetória como cantor, Tony Medeiros participou de várias apresentações memoráveis. Em 1998, ele participou de um show no estádio Parque dos Príncipes, em Paris, na França, para comemorar os 500 anos do Brasil. Um dos convidados na plateia era o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela.

– Eu cantei duas vezes em Nova York, cantei no Parque dos Príncipes, em Paris, para mais de 120 mil pessoas. A minha geração pegou o boi e levou para o mundo. Com o tempo, a nova geração ainda vai fazer o mesmo porque a renovação é importante para manter a tradição – garante ele.

Paralelo à sua carreira de compositor, cantor e amo do bumbá Garantido, Tony Medeiros também desenvolveu uma brilhante carreira política. Técnico em agropecuária, graduado em Educação Artística com habilitação plena em música pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e pós graduado em Tecnologia da Educação, ele foi presidente da Fundação Villa Lobos, secretário de cultura e secretário especial da Prefeitura de Manaus.

Em 2010, Tony Medeiros foi eleito deputado estadual. Na ALE-AM, foi presidente da comissão de Assuntos Municipais, presidente da frente parlamentar “Pró-Cultura”, membro da comissão de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural e titular das comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional e Sustentável, Educação, Cultura e Assuntos Indígenas e de Geodiversidade, Recursos Hídricos, Minas, Gás e Energia.

Além disso, foi vice-prefeito e secretário de Cultura, Turismo e Meio Ambiente da Prefeitura de Parintins na gestão 2017-2020, tendo sido reeleito juntamente com o prefeito Frank Bi Garcia para a gestão 2021-2024.

Em 2020, com o apoio de 16.403 eleitores, Tony Medeiros retornou para a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, assumindo novamente o cargo de deputado estadual e retomando suas bandeiras nas áreas de turismo, cultura, direitos indígenas, setor primário e desenvolvimento econômico do interior.

Atualmente, ele é presidente do Conselho Municipal de Cultura da Prefeitura de Manaus.


Na madrugada do dia 17 de março de 2025, Inaldo Medeiros Cursino faleceu em sua residência, após um infarto fulminante. No dia anterior, ele havia passado na casa de sua mãe, tomou um chá com torradas e foi para casa, por volta das 20h.

No dia seguinte, por volta de 9h, o filho mais velho, Gaspar, ex-amo do Garantido, estranhou não ouvir o bom dia que lhe mandava sempre e foi até a casa dele. Inaldo estava caído, ainda com a roupa do dia anterior, já rígido.

“Perdi minha alma gêmea”, disse Tony Medeiros, que estava em Manaus quando soube do acontecimento.

“Eu me despeço de um grande amigo de jornada que vai para os braços da eternidade e deixa a sua inestimável obra como contribuição para o Boi-Bumbá, além de muitas recordações das nossas vivências em Parintins”, escreveu David Assayag.

Conhecido como “coração de batuqueiro”, Inaldo não bebia, não fumava e dormia cedo, mas era sedentário, só admitindo deslocamentos de moto ou carro.

Em 2018, ele sofreu um infarto e ficou muito mal. Desde então, rebelde, não fez os acompanhamentos médicos requeridos.

Na véspera, talvez numa premonição da própria partida, escreveu uma despedida emocionada para Jair Mendes, nas exéquias deste em Parintins. “Depois do episódio do meu enfarte agudo, meu coração ficou vulnerável a grandes emoções. Acompanhei o cortejo a distância. Jair Mendes jamais será esquecido!!! Foi em paz, tenho certeza!!!”, escreveu, na sua página do FaceBook.

Fred Góes, a alma encarnada do bumbá Garantido

 

O músico e compositor Fred Góes

Filho de Raul Góes e Lucila Rolim, o músico e compositor Frederico Daniel Paulo Rolim de Góes, mais conhecido como Fred Góes, nasceu em Parintins no dia 18 de junho de 1948. Por parte do pai, possuí descendência portuguesa e holandesa (Goes é uma cidade e município no sudoeste da Holanda, em Zuid-Beveland, na província de Zeeland). Por parte da mãe, herdou o sangue miscigenado de negros e cabocos.

Fred Góes passou a infância e o início da adolescência em Parintins, mas logo depois se mudou para Manaus, como interno da Escola Técnica Federal de Manaus, onde cursou o Ginásio Industrial Básico, com especialização em marcenaria. Disposto a ser um grande “luthier”, ele não só construiu seu primeiro violão artesanalmente, como aprendeu a tocar o instrumento sozinho.

Em 1965, aos 17 anos, Fred Góes se mudou para São Paulo na busca do velho sonho de se transformar em músico profissional e viver da própria arte.

Alguns anos depois, ele se juntou a alguns músicos latinos exilados em Sampa e formou o “Grupo Chasky”, cujos integrantes eram o próprio Fred, Guillermo Noriega, Enzo Merino, Carlitos Demutti e Oscar Segovia.

Paralelamente, Fred, Enzo, Oscar e Celsinho Ribeiro formaram o “Grupo Machitún”. Os dois grupos tocavam a chamada “música folclórica latino-americana de raiz”.

Foi o equatoriano Vicente Guillermo Noriega que ensinou Fred Góes a tocar charango, uma espécie de cavaquinho típico dos grupos musicais andinos e acompanhamento preferencial da ubíqua flauta de Pã peruana conhecida como zampoña.

Homem de mil instrumentos, Fred começou a estudar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e trabalhar como “foca” em grandes jornais como “O Diário Popular” e “Jornal de Tarde”. Entre outras façanhas, ele recebeu, juntamente com uma equipe de 35 repórteres, o Prêmio Esso de Jornalismo, pela cobertura do incêndio do Prédio Joelma.

Em fins de 1979, o visionário empresário Enrique Bergen, argentino radicado no Brasil, teve a feliz ideia de formar um grupo de música latino-americana que se sobressaísse dos padrões corriqueiros da época, quando os grupos do gênero mantinham características primordialmente folclóricas em seus repertórios e formações.

Surgia o grupo “Raíces de América”, formado por Fred Góes, Enzo Merino, Oscar Segovia, Júlio Peralta, Isabel Ribeiro, Celso Ribeiro, Tony Osanah, Mariana Avena e Willy Verdaguer.


O grupo Raíces de América nasceu praticamente junto com a gravadora Eldorado, unindo músicos encantados com a proposta de resgatar a música latina produzida na região e que falasse da vida e dos problemas latino-americanos, de um povo vivo e de cultura vibrante, sem buscar os estereótipos fáceis que reforçam a região como subdesenvolvida e eternamente bucólica e atrasada. No repertório, ao lado de composições próprias, o grupo cantava Violeta Parra, Vinicius de Moraes, Gilberto Gil, Chico Buarque e Milton Nascimento.

Em 1980, tendo a lendária Mercedes Sosa como madrinha e como diretor o famoso Flávio Rangel, o Raíces de América estreou em São Paulo um espetáculo maravilhoso que contava com performances e arranjos ricos e modernos, iluminação, figurino e cenografia elaborados especialmente para o show. As músicas eram permeadas por leitura de poemas feitas pela atriz Isabel Ribeiro, já falecida.

Durante os ensaios, Flávio Rangel sugeriu ao grupo que incluíssem no repertório dois de seus primeiros sucessos: “Guantanamera”, de José Marti, e “Disparada”, de Theo de Barros e Geraldo Vandré. Do primeiro disco, gravado com o sucesso do espetáculo, os destaques eram, além das duas canções citadas, a pastoral “El Condor Pasa”, de Daniel Robles, valorizada pela voz melancólica da cantora portenha Mariana Avena, e “Cantor de Ofício”, de A. Morelli. O sucesso de público conquistado pelo Raíces de América foi imediato.

Não custa lembrar que o início dos anos 80 foi marcado no Brasil pelos processos de reabertura política e pela reintrodução das eleições diretas, o que aproximou a proposta do grupo às demandas da população brasileira.

Um novo disco foi gravado no ano seguinte trazendo pérolas como “Los Hermanos”, de Atahualpa Yupanqui, “Volver a Los 17”, de Violeta Parra, “Guajira Para Esperança de América”, de Oswaldo Avena e Enrique Bergen, “La Ciudad”, de Enzo Merino, Oscar Segovia e Fred Góes, e “Pássaro Cativo”, de Celso Ribeiro.

Em 1982 o grupo conquistou o segundo lugar no Festival MPB Shell promovido pela Rede Globo de Televisão com a música “Fruto do Suor”, de Tony Osanah e Enrique Bergen. A canção cativou principalmente os imigrantes latinos radicados no Brasil e foi o carro-chefe do terceiro álbum do grupo também chamado “Fruto do Suor”. Além da faixa-título, o álbum continha “Pedro Nadie”, de Piero e José, “O que Será”, de Chico Buarque e “Soy Loco Por Ti América”, de Gilberto Gil e Capinam.

Com a saída das vozes de Mariana Avena e Tony Osanah, substituídos respectivamente por Lídia Tolaba e Jota Mariano, o grupo grava “Dulce América”, com destaque para as versões de “O Cio da Terra”, de Milton Nascimento e Chico Buarque, “Nada Será Como Antes”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e “Rosa de Hiroshima”, de Vinicius de Moraes e Gérson Conrad.

O cantor e compositor Zeca Bahia

Em 1985, logo após a gravação desse disco, Fred Góes deixa o grupo e começa uma nova carreira musical em companhia do músico Zeca Bahia, com quem dividia um apartamento em Sampa. 

Falecido há alguns anos, Zeca Bahia era autor de “Porto Solidão”, um sucesso estrondoso na voz do cantor Jessé (“Se um veleiro / Repousasse / Na palma da minha mão / Sopraria com sentimento / E deixaria seguir sempre / Rumo ao meu coração”).

No mesmo ano, após uma apresentação da dupla no Teatro Amazonas, os dois vão a Parintins para assistir pela primeira vez o festival (quando Fred saiu de Parintins, no início de 1965, o festival ainda não existia). 

Os dois amigos ficaram em êxtase. Zeca Bahia resolveu voltar para São Paulo, mas Fred Góes ficou em Parintins, onde montou e editou o jornal semanal “O Parintins”.

O envolvimento de Fred Góes com o “dois-pra-lá-dois-pra cá” foi paulatino e bastante comedido. Ele trazia a experiência da montagem de grandes espetáculos musicais e era dessa forma que pensava em transformar as apresentações do Garantido, mas os “tradicionalistas” não queriam saber de mudanças. A insistência do jornalista acabou prevalecendo.

Entre outras coisas, foi Fred que introduziu o charango no acompanhamento das toadas do bumbá Garantido – alguns anos depois de o Caprichoso ter feito o mesmo por Sylvio Camaleão, que havia aprendido a tocar o instrumento tomando aulas com o próprio Fred.

Fred também contribuiu decisivamente para que as letras das toadas se tornassem mais poéticas, melódicas e criativas, introduzindo a harmonização vocal nas gravações do primeiro disco do Garantido.

Em 1996, com o festival de Parintins entrando no seu momento mais criativo e se transformando em referência internacional, Fred Góes dá outra tacada de mestre: junto com o também músico Sidney Resende, ele arregimenta um grupo de músicos da ilha e repagina o Regional Vermelho e Branco, o primeiro grupo do Garantido a se apresentar em shows acústicos antes e depois do festival de Parintins e o primeiro grupo a gravar um CD de toadas.

Para Fred, aquela era uma maneira legítima de os músicos permanecerem em atividade independente da sazonalidade do festival. E pelo número de “grupos de boi” que surgiu depois do Regional Vermelho e Branco, essa também foi uma iniciativa vitoriosa.

Atual presidente do touro branco, o caboco Fred Góes é pedra de responsa. Tê-lo como amigo é simplesmente uma dádiva divina.

quinta-feira, outubro 29, 2026

Ronaldo Barbosa, a usina de hits do bumbá Caprichoso

 

O compositor Ronaldo Barbosa

Fevereiro de 1991. O bafafá na ilha ainda era a súbita mudança de Chico da Silva para o Garantido. Responsável pela escolha das toadas do Caprichoso, J. Carlos Portilho aparentemente não estava muito preocupado. Aquilo era só mais um acidente de percurso, calculava. Ele mesmo estava tentando inutilmente levar seu amigo Emerson Maia para o touro negro.

Foi quando, naquele mesmo mês, Portilho recebeu em sua residência a visita de Ronaldo Barbosa. Eles se conheciam desde 1979, quando Ronaldo Barbosa passou a residir em Parintins e se tornou fã de carteirinha do touro negro.

Nascido em São José do Egito (PE), no dia 3 de outubro de 1953, em uma família de versadores e violeiros, Ronaldo Barbosa tinha estudado Antropologia, em Recife (PE), Odontologia, em Campina Grande (PB), e era funcionário concursado da Fundação Nacional dos Índios (Funai) há cinco anos, quando chegou a Parintins.

Ele passava a maior parte do tempo fazendo trabalho de campo para a instituição, por onde se aposentou depois de 35 anos de labuta diária como dentista.

Extremamente culto e bem-informado, conhecedor como poucos do lendário nativo dos ribeirinhos e dos primeiros cacicados da Amazônia indígena, músico informal nas horas vagas, Ronaldo Barbosa vinha tentando colocar algumas toadas de sua autoria no repertório do Caprichoso, sem sucesso, desde 1980.

– A batida dos bois era muito tradicional, muito ortodoxa, muito presa às origens, e as minhas toadas pediam uma batida diferente, um pouco mais tribal, por conta das inúmeras culturas indígenas que eu havia conhecido. Ao mesmo tempo, o acompanhamento tradicional das toadas era basicamente percussivo, com surdos, repinique, caixinha e palminhas, enquanto eu queria introduzir cordas, teclados e metais. Daí que foi muito difícil a gente evoluir para esse formato atual – recorda o compositor.

Naquela chamada “década perdida” do compositor, por conta dos “puristas” e “tradicionalistas” de sempre, Ronaldo Barbosa, trabalhando solitariamente em sua residência, havia feito dezenas de toadas interessantíssimas e foram algumas delas que ele apresentou para J. Carlos Portilho naquele encontro acontecido em fevereiro de 1991.

Com uma capacidade extra-sensorial para descobrir novos talentos, J. Carlos Portilho percebeu logo que estava diante de uma mina de ouro, mas não fez alarde.

Procurou a Comissão de Artes do Caprichoso, na época comandada por Simão Assayag, e cantou a pedra:

– A proposta das toadas do Ronaldo é mostrar a importância dos indígenas na nossa formação cultural. A gente sai dessa camisa de força chamada “boi-morena bela-vaqueiros” e começa a singrar por mares nunca dantes navegados. As histórias, o lendário e as culturas indígenas são exuberantes e a gente pode fazer o diabo na arena, basta ter criatividade! – explicou J. Carlos Portilho.

Aquele papo reto conquistou o coração de Simão Assayag. Como o enredo daquele ano já estava decidido, as toadas de Ronaldo Barbosa ficaram transferidas para o ano seguinte.

Elas foram a Pedra de Roseta que definiram o novo formato do festival a partir de 1992.

Uma das primeiras toadas do compositor a ser utilizada como suporte musical do ritual do Caprichoso se intitulava “Réquiem”:

– Aos que foram donos das terras / Antigos donos das penas / Eterno como sempre / Será eterno o criador / êiê, êiê, êiê… / Meu povo te chama, / Machifaro te espera / Teus símbolos sagrados / Ateiam as guerras / Assim como a canoa / O teu remar / Curiatô, Iurimágua, / Paguana / Aos que foram donos das terras / Antigos donos das penas / Eterno como sempre, / Será eterno o criador / Como voa o tempo / Nas asas das eras / Tururucari, Tururucari, Tururucari / A fogueira espera a chama / O sol beijar o teu rosto, ô,ô,ô / O vento os teus cabelos / Assim como a selva / O filho que partiu / Tururucari, Tururucari, Tururucari, ê ê ê / Curiatô, Iurimágua, Paguana.

Quer dizer, de repente os cacicados dos povos originários da Amazônia na época da chegada dos portugueses ao Brasil (Aparia, Machifaro, Aisuari, Paguana, Yurimágua, etc) eram reverenciados e referendados no Festival de Parintins pela primeira vez.

Aquilo, no Bumbódromo, funcionou como tratamento de choque.

Embalado pelas toadas de Ronaldo Barbosa, o ritual do boi Caprichoso começou a ganhar contornos épicos, se transformando na grande sensação do festival.

O Garantido sentiu o baque, mesmo tendo sido o pioneiro na celebração do ritual, mas teve que tirar um dobrado para não deixar a peteca cair de vez e voltar a reequilibrar a disputa.

A década de 1990 representou um dos melhores momentos da história do boi Caprichoso. De 1990 a 1999, ganhou seis dos dez festivais disputados, tendo faturado um tricampeonato (1994-1996) na época em que a festa de Parintins ganhava o Brasil e o mundo.

O touro negro teria conquistado o seu tetracampeonato em 1997, levando em consideração apenas a soma dos pontos dados pelos jurados à apresentação na arena.

Naquele ano, o Caprichoso contava a história dos índios Karajás, que eram peixes imortais (aruanãs) e, depois que afastaram a escuridão e contemplaram o céu pela primeira vez, se transformaram em homens mortais, por obra e graça do deus supremo Kananciuê, passando a habitar as margens do rio Araguaia.

O ritual daquele ano, com outra composição de Ronaldo Barbosa, deixou os jurados emocionados: eles nunca tinham ouvido uma toada que tinha sido praticamente escrita em “língua de índio”:

– Wandiê ê ê á á / Wandiê ê ê Karajá! / Ciê… / Kã-werá! / Kananciuê (Kananciuê) / Tatauapã (Tatauapã) / Numiá (Numiá) / Arapiá (Arapiá) / Numiá… / Sob a luz do luar / Ê ê ê ê ê ê ê ê / Nas terras de Berocã / Canaã, Canaã / Às margens do rio Araguaia / Aruanã… / Inansô-werá / Ê ê ê ê ê ê ê ê / E se fez a luz / No sopro da vida à Ciê / Ciá… Karajá! / Feiticeiro do fogo / Entoa um cantar / Hei Hei / Pra afugentar / Hei Hei / Escuridão / Feiticeiro da taba / Eleva o olhar / Hei Hei / Vem clariar ó lua / Todo o meu chão… / Numiá Arapiá / Hei Hei Hei Hei Hei!

Naquele ano, o Caprichoso também apresentou a toada “Ritmo Quente”, de Alex Pontes e Mailson Mendes, do Canto da Mata, que dava uma acelerada na toada e a transformara numa música pop capaz de tocar nas rádios e conquistar novos fãs para a festa xipuara. Foi outro divisor de águas no festival.

A derrota do Caprichoso adveio de uma penalidade de 10 pontos imposta pelos jurados ao apresentador Gil Gonçalves por ter elogiado, na arena, o governador Amazonino Mendes.

O touro negro deu a volta por cima sagrando-se campeão no ano seguinte, em 1998 – uma conquista indiscutível em que um dos fatos mais marcantes foi o cantor Arlindo Júnior ter ocupado o posto de apresentador e levantador de toadas ao mesmo tempo, e ainda ter vencido nos dois itens, repetindo o feito de Paulinho Faria, do Garantido, que também venceu em ambos os itens em 1991 e 1993.

Quer dizer, se não fosse os dois minutos de leseira baré do apresentador Gil Gonçalves, em 1997, o Caprichoso teria se sagrado pentacampeão do Festival de Bumbás de Parintins em 1998.


Algumas composições de Ronaldo Barbosa tornaram-se quase uma unanimidade na ilha, sendo reverenciadas pelas duas galeras.

Aliás, tirando alguns torcedores mais radicais do Garantido, todos os amantes da cultura popular de Parintins já ouviram e ensaiaram alguns passos da canção “Pesadelo dos Navegantes”, lançada em 1996, no disco “Criação Cabocla”:

– Alçar as velas / desaportar as caravelas / esquadras do Velho Mundo / do oceano ao rio-mar / Alçar as velas / desaportar as caravelas / cruzadas do Novo Mundo / fé, império a dilatar / O vento te leva / há ventania / às noites te envolve agonia / do grande abismo que virá / das feras das águas / que seria / pesadelo de um conto navegador / Iê, Iê / Terra à vista / atracar / Ilha das Tupinambaranas / terra dos Tupinambás / aportas nos braços do Orteiro / de joelhos e bravos guerreiros / celebrai a grande missão / com salva de tiros de morteiro.

Em 2018, no 53º Festival Folclórico de Parintins, Ronaldo comemorou 100 toadas emplacadas em discos do boi azul. “Traidor” foi a centésima canção composta por Ronaldo e está presente no disco “Sabedoria Popular: Uma Revolução Ancestral”.

Ao lado dela, outras composições do artista também foram inseridas no disco, como “Terror das Noites”, “Azulou”, “Boto romanceiro” e “Sissa: Uma história de Amor”, sendo as três últimas em parceria com o compositor Simão Assayag.

Em entrevista ao jornalista Alexandre Pequeno, Ronaldo Barbosa assegurou que suas canções não são elaboradas a toque de caixa e que não segue a temática estipulada pelo bumbá.

– Cada compositor tem uma metodologia de trabalho. No meu caso é um lance de inspiração. Não vou pelo tema e sim pela inspiração. Não faço música por encomenda, minha música é fruto exclusivamente de inspiração poética – garantiu.

Na mitologia indígena, a lenda por trás da centésima toada, como o próprio nome sugere, fala sobre um episódio de traição.

– Ualri era o discípulo amado de Jurupari, que o ensinou todos os segredos das flautas. Só que Ualri ensinou esse segredo aos não-iniciados e às mulheres. Por isso, ele recebeu a condenação que a própria canção revela: Do teu pó serás, serás, répteis a rastejar – explicou o compositor

Em junho de 2017, o Boi Caprichoso iniciou suas apresentações no Bumbódromo ao som de “Saga de um Canoeiro”, canção composta por Ronaldo e presente no disco de 1994.

– Essa foi uma música que fiz para o meu pai e diz: Já vai canoeiro, o porto distante, o teu descansar… Imaginei essa canoa que nós da Amazônia vamos navegar em nossas remadas eternas. Me emocionei muito – lembra o compositor.


No ano da centésima toada, o artista também completou 32 anos de história no Caprichoso e, para ele, a maior gratificação era ainda estar em atividade na associação.

– A recompensa disso é o respeito dos colegas, do boi executar algo que você imaginou. É de uma alegria muito grande – exulta.

De acordo com Ronaldo Barbosa, sua história no Caprichoso começou no final dos anos 80.

– Nesse período, comecei a apresentar meus trabalhos ao boi, pois eu era da Fundação Nacional do Índio (Funai) e viajava por diversas aldeias da Amazônia. Paralelo a esse trabalho de dentista na Funai, naquela época, tenho um trabalho de antropologia muito forte. Aprendi, convivi e vivi por 20 anos nas mais diversas tribos. Não existe nenhuma região da Amazônia que eu não tenha conhecido.

De uma época onde as composições e produções musicais eram simples, Ronaldo se orgulha de ter ajudado a inserir efeitos mais elaborados, novas sonoridades e instrumentos diferenciados nas canções.

– No começo dos anos 90, trouxe uma batida de ritual que não existia em Parintins, fui o pioneiro. Vi como os índios faziam e trouxe para o Caprichoso – lembra.

Além disso, de acordo com Ronaldo, o bumbá azul inseriu pela primeira vez um teclado numa canção de sua autoria, “Fibras de Arumã”, de 1994.

Sobrevivente dos tempos heroicos de formatação do festival, ele ainda relembra com carinho de seus mestres compositores:

– Minha geração tinha bons compositores como Horácio e Heliomar Conceição, que já partiram para o além. Aprendi muito com esses poetas mais antigos do boi.

Com a centésima toada, Ronaldo se consagrou definitivamente como um dos compositores que mais emplacou canções na história do Caprichoso, mas garante que não está pensando em suspender as chuteiras.

– Pretendo continuar participando ativamente da cultura regional por muitos e muitos anos, e não canso de repetir que a própria Amazônia é minha grande fonte de inspiração poética – resume.

O compositor também assina outras grandes canções clássicas do touro negro, como “Vale do Javari”, “Gene”, “Amazônia Quaternária” e e “Catedral”, esta também em parceria com Simão Assayag. O caboco é danado.

segunda-feira, outubro 26, 2026

Emerson Maia, o eterno Xamã do Festival de Parintins

 


Filho de dona Ladir e do pecuarista Antônio Maia, um dos primeiros padrinhos do bumbá Garantido, o cantor e compositor Emerson Maia, um ano mais novo que J. Carlos Portilho, teve uma carreira musical muito parecida com a do seu amigo de adolescência.

Ainda bem pequeno, ele já se exibia em festas de colégio e reuniões. Aprendeu a tocar violão com 14 anos, mas logo trocou o instrumento pela guitarra elétrica.

Diferente de J. Carlos Portilho, que curtia MPB, Emerson Maia preferia o rock inglês (Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath) e o rockabilly norte-americano (Chuck Berry, Little Richards e Elvis Presley). Foi vocalista, tecladista e guitarrista do grupo The Glads Boys, que incendiava as noites dançantes dos clubes de Parintins nos anos 70.

Além da fazenda Remanso, Antônio Maia era comerciante (possuía uma usina de pau rosa) e político (foi presidente da Câmara Municipal de Parintins), mas seu xodó era mesmo o boi Garantido.

O Natal era muito festejado por ele, que todo ano organizava um grande almoço para a comunidade com distribuição de presentes para as crianças e a presença do touro branco sendo comandado por mestre Lindolfo Monteverde em pessoa. A mesma coisa acontecia no dia de São João.

No final dos anos 70, Emerson começou a compor músicas densas de tristeza e poesia para disputar os festivais de canção que aconteciam na região do baixo Amazonas, tendo vencido a maioria das disputas em que participou.

Foi por insistência da irmã, a médica Ednéia Ribeiro, esposa do médico Euler Ribeiro, que ele começou a fazer músicas para o Garantido. Sua primeira toada evocava a figura paterna: “Sentei junto ao pé da roseira / Lembrei minha infância, fogueira e balões / Lembrei de meu pai, meu amigo / Esperando ansioso o meu boi Garantido / Tempos que ficaram pra trás / Gente que partiu pra ficar / Mas deixaram isso bem definido / Que o boi campeão da Terra / Sempre será o boi Garantido”.

Segundo o jornalista Neuton Corrêa, no dia 6 de julho de 1979, quando Lindolfo Monteverde atravessou para a terceira margem, Emerson apareceu cedo na Baixa da Xanda. Parou na Mercearia Martins Filho, puxou uma cadeira de embalo e pediu uma cerveja.

De frente para as águas do rio Amazonas, ele afinou o violão e ensaiou os primeiros acordes para a música de despedida do amigo e mestre que estava sendo velado no curral do Garantido: “Silêncio, tudo está consumado / O nosso Amo amado / partiu e deixou o São José / A voz que sempre lhe foi fiel / Agora estronda nos bosques, nas pradarias do céu / Muito obrigado por criar boi Garantido / Hoje teu filho teu canto vai entoar / Nosso folclore sempre vai reconhecer / Foste um exemplo de caboclo / inesquecível Lindolfo”.

Essa música é considerada hoje o hino da família Monteverde, por isso sempre é tocada nos eventos nos quais a memória de Lindolfo é reverenciada.

Com a morte de Lindolfo, Emerson se transformou no levantador de toadas do Garantido até a chegada de David Assayag, em 1995. Ele também substituiu o Amo do Boi João Batista Monteverde em alguns festivais, cabendo a Paulinho Faria ser apresentador e levantador de toadas nessas ocasiões.

Alto, forte, musculoso, imponente e com o cabelo nos ombros desde os tempos da Jovem Guarda, Emerson Maia lembrava um cacique sioux e era grosso que só papel de embrulhar prego. Seu mau humor era fonte permanente de mexericos na ilha. Avesso a badalações e aos assédios dos fãs, o cantor utilizava esse artifício de sujeito turrão para se manter longe dos holofotes da mídia.

Quando se reunia com uns poucos amigos para participar de cantorias, Emerson Maia se soltava, mostrando sua verdadeira personalidade de moleque brincalhão e bem-humorado. “Quando estava com seus parceiros, ele era um poço de ternura”, recorda, divertido, o compositor Carlos Paulain. “Mas diante de estranhos se transformava no ministro da Ignorância, ficava irascível. Era um coice a cada três minutos.”


Sua trajetória como compositor do Garantido foi fabulosa e seu humor ácido era despejado em toadas de desafio que espezinhavam o Caprichoso. Uma delas: “Ano passado eu fiquei com pena do contrário / no dia da morte não tinha comida e eles brigaram / eu mandei avisar que viessem buscar / que o boi Garantido tinha comida, tinha pra dar / eles não aceitaram porque tinham vergonha na cara / pelo amor de Deus!, eles comeram capivara!”.

Sua verve lírica e sua defesa intransigente dos povos da floresta, entretanto, sempre foram o ponto alto de suas composições, como podem ser conferidas nas toadas “Já Rufou Meu Tambor”, “Campeão Lunar”, “O Índio”, “Andirá”, “Caboclo Soberano”, “Fantasia de Criança”, “Mistérios da Ilha”, “Flor de Tucumã” e “Lamento da Raça”, entre as mais de 80 pérolas que fez para seu boi de coração.

Emerson Maia ficou conhecido mundialmente quando a canção “Lamento da Raça” (“O índio chorou, o branco chorou, / todo mundo está chorando / A Amazônia está queimando / Ai, ai, que dor / Ai, ai, que horror”) foi cantada por uma brigada de incêndio de Roraima, enquanto os brigadistas combatiam um dos maiores incêndios da região. A filmagem da cena inusitada foi compartilhada na internet e viralizou rapidamente, obtendo mais de 20 milhões de acessos.

Funcionário de carreira do Banco do Brasil, Emerson Maia abandonou a carreira de bancário, na virada do terceiro milênio para cuidar dos negócios do sogro, o empresário Osmar Faria, e começou gradualmente a se afastar do Garantido. Primeiro, ele montou uma fábrica de gelo. Depois, fechou a fábrica e, no local, criou o Aldeia Iate Clube, um imenso chapéu de palha que funcionava como bar e restaurante, e que ficou conhecido como “Maloca do Jurupari” por conta do “bom-humor” do proprietário.

Mais tarde, ele fechou o bar e restaurante e no local criou a Marina Morena, a maior da ilha, com capacidade de ancoradouro para 300 barcos. Era nesse lugar bucólico que ele recebia os poucos amigos para sessões de cantorias que entravam pela madrugada.

Em 2018, ele fez a toada intitulada “A Coisa Mais Linda do Mundo”, que obteve um sucesso avassalador nos ensaios do bumbá Garantido, mas não foi tocada em nenhuma das três noite na arena durante o festival: “A coisa mais linda do mundo / é quando no mês de junho / no meu São José / em cada rosto, um sorriso / é a festa do boi Garantido / que já vai começar / a tampa da chaleira vai voar / vai ter pé-de-moleque, vai / bolinho de crueira, vai / vai ter muita cachaça / vai ter muita mulher / vou me pegar com Santo Antônio / com certeza este ano / eu sei que vou me arrumar / no meu boi-bumbá / vai ter muita toada, vai / muito verso bonito, vai / ao som da Batucada / que me faz delirar / esse é meu boi Garantido / ele é o touro mais lindo / é o rei desse lugar”.

Revoltado com o que considerou um desrespeito dos diretores do Garantido pela sua história dentro do bumbá, Emerson Maia abandonou o touro branco no mesmo ano e foi ser compositor do Caprichoso.

Emplacou duas toadas no repertório do touro negro: “Caprichoso, um canto novo de esperança” e “Fumaça de Ervas”, esta última em parceria com o filho Emersonzinho: “Vajucá, junçá, catucá / manacá, angico, aroeira, juremá / eu sou o profeta da mata / que guarda os caminhos / que levam às plantas sagradas / dos ritos antigos do povo encantado Tupi / eu sou a tribo dizimada / que vive no reino de Tanaruê / que passou pros seus filhos / seres encantados que guardam este povo sangrado / sou catimbozeiro pajé curandeiro índio brasileiro / eu sopro a fumaça de ervas / a força da planta altera / o plano do espírito / e traz os antigos de volta ao presente / pra nos ajudar / eu sou Daniel toadeiro / sou Mestre Horácio boiadeiro / sou Boi Caprichoso e trouxe pra arena / jurema sagrada pra nos ensinar / que o amor, somente o amor / pode curar (a alma, o corpo, a mente, o espírito, o mundo) / que o amor, somente o amor pode salvar / eu sopro a fumaça de ervas / os entes da mata em assembleia / ensinam pro povo que a mãe-natureza / é sagrada, devemos preservar / eu sou Caboclo Sete Flechas / sou índio guia Pena Verde / sou boi Caprichoso e trouxe pra arena / jurema sagrada pra nos ensinar”.

O querido Emerson Maia, que estava em Manaus para tratamento de uma cirrose hepática, agravada por um princípio de tuberculose, morreu na manhã de uma sexta-feira, 14 de agosto de 2020, por complicações causadas pela Covid-19. Tenho (temos) saudade.

domingo, outubro 25, 2026

O inesquecível J. Carlos Portilho, o "Periquito", um dos inventores do Festival de Parintins



O cantor e compositor José Carlos Portilho, o “Periquito”, começou a escrever poemas em 1965, quando tinha 12 anos. Aos 14 anos, começou a tocar violão e estudar canto orfeônico com as freiras italianas do Colégio N. S. do Carmo. Aos 16 anos, já disputava o 1º Festival da Canção de Parintins, em 1969, obtendo um honroso 2º lugar, com letra e música de sua autoria (“Quem Somos Nós?”).

Aos 17 anos, arrancava suspiros das adolescentes parintinenses, fosse imitando seu ídolo musical, Gianni Morandi, fosse mostrando suas próprias músicas, durante apresentações no Teatro da Paz ou em arraiais, quermesses e programas radiofônicos da cidade.

Nos anos 80, se transformou em figura carimbada nos festivais de música de Parintins, Óbidos, Santarém e Manaus, quase sempre disputando o primeiro lugar com seus amigos e conterrâneos, os também cantores e compositores Emerson Maia, Tony Medeiros e Paulinho Du Sagrado. Ao longo de sua carreira, ele escreveu mais de 350 composições musicais, incluindo 107 toadas para o boi Caprichoso.

Formado em Letras pela UERJ, com especialização em Administração Pública pela USP, J. Carlos Portilho era funcionário de carreira do Banco do Brasil e não tinha qualquer afinidade com os bumbás de Parintins. Sua praia era a MPB, de Chico Buarque, Milton Nascimento e Quinteto Violado, e a poesia de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto.

Por isso, no início de 1983, ele recebeu com surpresa um convite de seus colegas bancários – Geraldo Medeiros, Tico, Carlos Dorvan, Acinelson e Norma Medeiros – para ser compositor do boi Caprichoso. A causa era nobre: o principal compositor do touro negro, Raimundinho Dutra, estava de mudança definitiva para Manaus. O repertório do touro negro estava muito repetitivo porque se limitava às toadas feitas por Raimundinho Dutra e outros compositores da velha guarda do Caprichoso. A torcida azul e branca queria novidades. Make it new.

Aos 30 anos, J. Carlos Portilho resolveu encarar a missão com afinco e denodo. Primeiro, ele quis testar até onde iria a sua (dele) liberdade de criação. O Brasil estava convulsionado pela emenda Dante de Oliveira pedindo eleições diretas para presidente e ele fez uma toada nesse diapasão: “Alô meu povo quer votar pra presidente desta nação brasileira, / diretas já minha gente, votando pra presidente, / hoje eu me sinto orgulhoso em ser Caprichoso / quem viver verá que este é meu canto de guerra / desfraldando o azul e branco do campeão desta terra”. Mesmo em plena ditadura militar, a toada foi aprovada.

Até aquela data, as toadas dos dois bois eram exclusivamente percussivas. O compositor J. Carlos Portilho introduziu o violão e o cavaquinho no acompanhamento das novas toadas do Caprichoso para dar uma camada mais melódica às composições.

Para muita gente, aquilo soou como um anátema, uma desvirtuação das toadas feitas pelos antigos mestres (Ambrósio, Zazá, Horácio, Pitombeira, Vavazinho, Nilo Gama, Raimundinho Dutra, Nelsinho Bulcão, etc). A diretoria do Caprichoso aprovou a inovação. O “contrário” torceu o nariz.

Na sequência, J. Carlos Portilho criou um grupo musical, “Sangue Azul”, para gravar as músicas em fitas K7 e colocar na Rádio Alvorada para tocar, já que até então não eram feitos registros musicais das toadas. As músicas eram gravadas na própria residência do compositor da forma mais amadora possível. O equipamento era um aparelho 3 em 1 da Gradiente com apenas um microfone de entrada. Os oito músicos se posicionavam em torno do microfone e metiam a mão na massa.

Antes mesmo que a gravação fosse concluída, já havia na frente da casa alguns torcedores do Caprichoso montados em motocicleta – Afrânio Gonçalves, Henrique Medeiros, Márcia Baranda, Marta Medeiros – para pegar a fita no sistema vapt-vupt e levar para a Rádio Alvorada. A diretoria do Caprichoso aprovou a novidade. O “contrário” torceu o nariz.

Consciente de que seria incapaz de montar sozinho um novo repertório para o diamante negro, J. Carlos Portilho começou a frequentar os programas radiofônicos da cidade para exortar os compositores a mostrarem suas músicas no curral do Caprichoso, que era uma oportunidade única de vê-las sendo cantadas pela galera azul e branca durante o festival.

Entre os compositores que atenderam ao chamamento estavam Geraldo Brasil, Carlos Magno (mais conhecido como “Carlos Pato”), Neil Armstrong, Franco Costa, Carlos Paulain, Heliomar Conceição, Sales Santos, Hugo Levy, Lélio Lauria, Ariosto Braga e Jovelino Silva, entre outros.

Em 1984, J. Carlos Portilho soube que o boi Caprichoso havia feito uma apresentação em Maués que tinha sido um verdadeiro vexame – 80% da população da cidade torcia pelo Garantido.

Para tentar reverter a situação, o compositor fez a toada “Maués, Terra Encantada”, em que a temática indígena foi incluída pela primeira vez em uma composição: “Maués / mostra a cultura de um povo / que tens e que és / Pedaço de chão brasileiro / Terra de índios guerreiros / Sateré-Mawé / Cerêçaporanga que um dia / dos olhos negros nascia / a lenda do guaraná”. A música fez um sucesso estrondoso no festival de Parintins e em Maués, reequilibrando a divisão entre torcedores de Garantido e Caprichoso na terra do guaraná.

Em 1985, também perplexo com o falecimento prematuro do presidente Tancredo Neves, J. Carlos Portilho fez uma pungente toada sobre o infausto acontecimento intitulada “Liberdade: um canto azul e branco”: “Partiu / na certeza de quem cumpriu / Liberdade pro meu Brasil / Tancredo foste herói nacional / deixaste / um legado de paz e amor / que a todos conciliou / morreste / e ficou um sentimento civil / lutaste por causa tão nobre / no norte, no leste e no sul / recebe a homenagem do povo de azul / e hoje brilhas no infinito / reluz o Cruzeiro do Sul / recebe os aplausos do povo de azul”.

A emoção tomou conta da arena, com milhares de torcedores indo às lágrimas. A toada rendeu uma comenda de Honra ao Mérito dada ao compositor no Congresso Nacional, por D. Risoleta Neves, viúva de Tancredo.

No mesmo ano, o jornalista e músico Fred Góes retornou a Parintins depois de uma bem-sucedida carreira musical no sul do país e assumiu a direção musical do boi Garantido. Na mesma época, Paulinho Du Sagrado e Tony Medeiros haviam criado o grupo Ajuri, nos moldes do grupo Sangue Azul, mas para acompanha-los como banda de apoio nos festivais de música.

Por sugestão de Fred Goés, Paulinho Faria recrutou alguns músicos talentosos e criou o Regional Vermelho e Branco, para dar suporte melódico às toadas do Garantido e também para gravarem as toadas em fita K7, tal como o Caprichoso já vinha fazendo há dois anos.

Em 1986, J. Carlos Portilho comprou uma chácara à beira do Lago Macurany, que passou a ser o estúdio improvisado para a gravação das agora já famosas fitas K7. O grupo Sangue Azul nunca teve uma formação fixa, mas sempre contou com algumas peças chaves: Portilho, Rey Azevedo e Franco Costa nos vocais principais, Geraldo Brasil e Neil Armstrong no violão, Mauro Mendes no cavaquinho e alguns batuqueiros escolhidos a dedo na Marujada de Guerra para fazer a cozinha rítmica.

Nesse ano, Portilho e Carlos Pato compuseram “Vaquejada”, considerada um dos hinos do festival: “Este ano eu vou / erguer minha bandeira / este ano eu vou / erguer minha bandeira / Eu vou tu vais / Eu vou eu vou / Eu vou tu vais / Eu vou eu vou / Reunir meus vaqueiros / pra tocar a boiada / convidei a morena / pra ver de pertinho a minha vaqueirada / Vem ouvir urro forte / que vem lá norte / pode preparar / é meu boi Caprichoso / alegria do povo que esta pra chegar”. De quebra, durante a apresentação da toada na arena, introduziram a primeira “paradinha” na história do festival, executada com maestria pela Marujada de Guerra.

Em 1987, J. Carlos Portilho ficou abespinhado quando viu um moleque de 18 anos, deficiente visual, cantando verdadeira pérolas da MPB com uma voz firme, melodiosa e afinada, em um dos bares de Parintins. Ele não sossegou o facho enquanto não convenceu o rapaz, chamado David Assayag Neto, a ser a voz principal do grupo Sangue Azul e a tomar parte na família azul e branca.

Por essa época, o vocalista Franco Costa já estava pensando em deixar o grupo e também abandonar de vez a função de levantador oficial do boi Caprichoso. No papel de diretor musical do touro negro e selecionador oficial das toadas que seriam cantadas na arena, Portilho não pretendia deixar a peteca cair. A bela voz de David Assayag começou a ser ouvida na Rádio Alvorada pela primeira vez a partir das fitas K7 daquele ano.

Em 1988, os músicos do Sangue Azul estavam reunidos na chácara de J. Carlos Portilho para gravar as músicas daquele ano quando surgiu no local o violonista Sílvio Fernando (apelidado por Portilho de “Sílvio Camaleão”) tocando “Guantanamera” em um instrumento parecido com um cavaquinho. Impactado pela sonoridade estranha do instrumento, Portilho quis saber do que se tratava.

– É um charango boliviano do Fred Góes. Estou tomando lições dele para aprender a tocar o bicho! – explicou Camaleão.

– Pois então aprende logo, mas não fala nada pra ninguém, que nós vamos substituir o cavaquinho pelo charango nas toadas do Caprichoso! – avisou Portilho. – A sonoridade dele permite uma modulação sonora quase impossível de ser alcançada pelo cavaquinho…

Dito e feito. Naquele mesmo ano, o charango de Sílvio Camaleão era ouvido pela primeira vez na inauguração do Bumbódromo. A saraivada de críticas que o diretor musical do Caprichoso recebeu não estava no gibi. Muitos puristas atribuíram a derrota do Caprichoso naquele ano à introdução do instrumento alienígena na estrutura musical do dois-pra-lá-dois-pra-cá. A mídia só faltou crucificar o compositor. Não adiantou muita coisa. Dois anos depois, o “contrário” também introduzia o charango na brincadeira, que hoje é praticamente obrigatório.

Em 1989, J. Carlos Portilho estava saboreando um “galeto de arraial”, durante uma quermesse na Praça da Igreja Sagrado Coração de Jesus, quando ouviu um moleque de 21 anos cantando “Morena Tropicana”, de Alceu Valença.

O levantador de toadas Franco Costa já havia avisado que não entraria na arena naquele ano. O vocalista David Assayag queria continuar sendo a voz do grupo Sangue Azul, mas não queria participar do evento na arena.

Portilho não sossegou o facho enquanto não convenceu o rapaz, chamado Arlindo Júnior, a fazer um teste para ser o novo levantador de toadas do Caprichoso e tomar parte na família azul e branca. O rapaz disse que ia conversar com seu pai a respeito.

Naquele ano, J. Carlos Portilho havia decidido gravar um LP em vinil do touro negro e começou a correr atrás de patrocínio. O grupo Sangue Azul estava começando as gravações na chácara do compositor quando surgiu Arlindo Júnior. Ele cantou uma ou duas toadas, mas não quis participar do disco, que acabou tendo Davi Assayag como voz principal.

Incentivado pelos músicos do Sangue Azul, Arlindo Júnior começou a frequentar os ensaios no curral do Caprichoso e, naquele mesmo ano, foi anunciado como novo levantador de toadas do bumbá. Conquistou a nação azul e branca na hora em que entrou na arena. Passou 15 anos na função. O disco “Caprichoso Alegria do Povo – Boi-bumbá de Parintins” foi lançado durante o festival. O “contrário” lançaria seu primeiro LP em vinil no ano seguinte.

Em 1991, o compositor Chico da Silva anunciou que estava deixando o boi Caprichoso para ser compositor do boi Garantido. Era a primeira vez que uma estrela de primeira grandeza mudava de time. Logo depois, o compositor Ronaldo Barbosa abandonou o boi Garantido e foi ser compositor do boi Caprichoso. Chico da Silva passou 10 anos no Garantido e depois voltou para o Caprichoso. Ronaldo Barbosa permanece no Caprichoso até hoje.

Em 1994, na véspera da gravação da fita K7 do Caprichoso, J. Carlos Portilho soube que o grupo Sangue Azul estava fazendo uma série de apresentações em Belém (PA) e que não conseguiria chegar a tempo para participar da gravação. Ele convocou novos músicos, rebatizou o grupo de “Canto da Mata” (sugestão do compositor Ronaldo Barbosa) e conduziu as sessões musicais na sua chácara.

Foi a última vez que Arlindo Júnior e David Assayag dividiram os vocais em uma série de toadas do touro negro. No ano seguinte, Davi Assayag se tornaria levantador de toadas oficial do boi Garantido.

Aquela também foi a última fita K7 do Caprichoso gravada na chácara de J. Carlos Portilho. Com a eleição do governador Amazonino Mendes naquele ano, os bumbás de Parintins passariam a receber aportes financeiros do governo estadual e de empresas multinacionais para profissionalizar o festival e transformá-lo em um megaevento turístico de categoria mundial. A fase amadorística dos bumbás havia chegado ao fim.

Também em 1995, com a entrada de Mailzon Mendes, Alex Pontes e Aluízio Brasil no grupo, o Canto da Mata seria repaginado, adquiriria personalidade própria e chegaria a gravar seis CDs com composições autorais nos 20 anos seguintes. Antes de entrarem para a banda, Mailzon e os demais integrantes fizeram parte de grupos de pagode em Parintins e cantaram em igrejas de Manaus.

Um dos diferenciais do Canto da Mata é a mistura de ritmos que foram incorporados às toadas. “Fizemos uma linha melódica mais comercial. Falamos o que acontece no nosso dia a dia, queremos deixar uma mensagem de positividade nas nossas letras. Essa fórmula deu certo”, afirma Mailzon.

Dançante e com coreografia fácil, o hit “Ritmo Quente” fez o maior sucesso nas rádios da região Norte em 1997 e é conhecido até hoje. Mailzon conta que a composição nasceu durante uma viagem de ônibus para o município de Presidente Figueiredo. “Na época, ainda era Arlindo Jr & Canto da Mata. O Alex sempre andou com um gravador no bolso e eu também. Do nada, pintou uma melodia. Na hora, todo mundo começou a cantar uma letra que não tinha nada a ver com o Ritmo Quente conhecido hoje em dia. Mais tarde, fizemos a letra definitiva, levamos ao J. Carlos Portilho e ele aprovou. A música entrou no CD do Caprichoso daquele ano”. O antigo grupo Sangue Azul foi rebatizado de Regional Azul e Branco e continuou sendo a banda de apoio do Caprichoso na arena. E nada mais seria como antes.

O compositor J. Carlos Portilho continuou sendo o diretor musical do touro negro até 2001, quando se aposentou pelo Banco do Brasil e passou a residir em Manaus. Nesse meio tempo, ele ajudou a introduzir na brincadeira o baixo elétrico (1993), teclados (1994), violinos (1996), metais (1997) e continuou sendo um dos compositores de ponta do touro branco. Não é pouca porcaria.

Infelizmente, o querido J. Carlos Portilho faleceu numa sexta-feira, dia 16 de abril de 2021, aos 69 anos, em São Paulo. Ele lutava contra a Covid-19 e as sequelas do vírus desde o dia 24 de fevereiro, quando foi diagnosticado com a doença. No dia seguinte, viajou para São Paulo e se internou no hospital São Camilo, onde foi intubado no dia 4 de março. Chegou a ser extubado no dia 8, mas submeteu-se ao mesmo procedimento três dias depois, com o agravamento do quadro, vindo a óbito. Continua presente em nossa memória e nos nossos corações.