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terça-feira, agosto 11, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 13

 


13. Fevereiro de 1985. O carnaval carioca fervia, as escolas desfilavam, os sambistas sambavam e a TV Globo, sempre atenta à oportunidade de transformar qualquer imprevisto em televisão de qualidade duvidosa, colocava sua repórter Maria Lúcia Rangel no meio da avenida para colher depoimentos espontâneos – essa perigosa modalidade jornalística em que ninguém sabe o que vai sair da boca do entrevistado. 

Foi então que surgiu ela: Neuzinha Brizola. Ou melhor, uma versão de Neuzinha que parecia estar recebendo sinais de rádio diretamente de Saturno.

Filha de Leonel Brizola, então governador do Rio de Janeiro, cantora de rock e protagonista frequente das colunas policiais, Neuzinha já possuía uma reputação capaz de causar palpitações em qualquer assessor de imprensa. Naquela noite, porém, resolveu elevar o padrão.

Maria Lúcia aproximou o microfone da moça, que dançava com a desenvoltura de quem havia feito um acordo particular com a gravidade.

– Essa moça dançando aqui do meu lado é Neuzinha Brizola, que caiu no samba de maneira total. Neuzinha, o samba é melhor que o rock?

Neuzinha respondeu praticamente de costas, talvez porque estivesse ocupada demais conversando com entidades invisíveis:

– É difereeeennntee!... Tô achando lindooooo... Tô choraaaando... Tá me emocionaaaaando...

A resposta não esclareceu absolutamente nada, mas produziu um excelente material televisivo.

A repórter insistiu.

– E você está torcendo por alguma escola?

– Tô torcendo por toooodaaaas... É difereeeennntee!... Tô achando lindooooo... Tô choraaaando... Tá me emocionaaaaando...

Naquele momento, qualquer jornalista experiente teria entendido que a entrevista já havia entregue tudo o que tinha para entregar. Mas a televisão ao vivo possui uma característica semelhante à dos filmes de terror: os personagens sempre tomam a decisão errada.

Maria Lúcia avançou.

– Mas tem alguma que você gostou mais do que as outras?

– Nãããããooooo... Tô curtindo toooodaaaas... É difereeeennntee!... Tô achando lindooooo... Tô choraaaando... Tá me emocionaaaaando...

A essa altura, o público já havia percebido que Neuzinha não estava exatamente respondendo perguntas. Ela parecia funcionar como um disco arranhado movido a emoção, repetindo as mesmas frases em loop enquanto navegava por dimensões que o restante da humanidade desconhecia.

Em algum lugar da transmissão, um diretor de TV provavelmente começou a esfregar as mãos. Porque a entrevista reunia tudo que a televisão adora: celebridade, constrangimento, imprevisibilidade e uma vítima incapaz de perceber que estava sendo transformada em espetáculo nacional.

O resultado foi devastador. No dia seguinte, milhões de brasileiros já tinham assistido à cena. Neuzinha virou assunto de botequim, de escritório, de fila de banco e de mesa de almoço. Se a intenção era apenas registrar uma foliã curtindo o carnaval, a operação fracassou. Se a intenção era produzir uma das entrevistas mais constrangedoras da história das transmissões carnavalescas e ainda deixar o governador Leonel Brizola com vontade de desligar a televisão na tomada, então foi um sucesso retumbante.

A Globo conseguiu aquilo que todo programa de auditório sonha alcançar: encontrar uma pessoa completamente incapaz de dar uma resposta coerente e, mesmo assim, mantê-la no ar pelo máximo de tempo possível.

E Neuzinha, sem querer, acabou produzindo uma obra-prima involuntária do surrealismo televisivo brasileiro: uma entrevista inteira resumida a três frases, uma emoção incontrolável e uma guerra sem vencedores entre o samba, o rock e a lucidez.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 12

 


12. O jogador Dirran era a grande sensação do campeonato potiguar. Vestia a camisa do Alecrim e colecionava elogios dos cronistas esportivos. Não era exatamente o que a ciência classificaria como um protótipo de atleta olímpico: era baixinho, entroncadinho, meio “agalegado” e tinha pernas tão curtas que parecia correr sempre dentro de um raio de três metros. Mas o danado fazia gol. E, no futebol, quem faz gol ganha até licença para desafiar as leis da anatomia.

Num clássico pegando fogo contra o ABC, em 1971, o narrador Tertuliano Pinheiro, da Rádio Poti, parecia ter sido contratado pelo fã-clube oficial do atacante.

– Dirran é um craque da bola!

Cinco minutos depois:

– Dirran é a maior revelação do futebol norte-rio-grandense!

Mais alguns minutos:

– Que jogador extraordinário é Dirran!

Era Dirran pra cá, Dirran pra lá, Dirran pra cima, Dirran pra baixo. Se alguém ligasse o rádio no meio da transmissão, pensaria que o Alecrim tinha escalado onze Dirrans.

E o pior é que o narrador tinha razão. O baixinho infernizou a defesa adversária e marcou os cinco gols da vitória por 5 a 2. Cinco! E, para humilhar ainda mais os zagueiros do ABC, dois foram de cabeça. Até hoje ninguém sabe se os defensores perderam o tempo da bola ou se a gravidade resolveu tirar folga naquele domingo.

Ao final da partida, com o estádio ainda tentando entender o que havia acontecido, o repórter Djalma Correia foi atrás do herói do jogo para esclarecer uma dúvida que já atormentava os ouvintes.

– Então, Dirran, seu nome é de origem francesa? Você tem algum parente francês?

O atacante olhou para o repórter com a mesma expressão de quem descobre que alguém confundiu farinha d’água com caviar.

– Não, sinhô!

– Não?

– Não, sinhô! É que eu sou baixim. Meu apelido é Cu de Rã. Como não podia falar palavrão na rádio, eles abreviaram!

Naquele instante, caiu por terra toda a teoria da ascendência europeia, da sofisticação francesa e da genealogia aristocrática. O grande craque potiguar não era fruto de nenhuma linhagem de nobres da Provence. Era apenas um apelido de arquibancada promovido à categoria de nome artístico pelo departamento de censura da rádio.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 11

 


11. Se dona Sílvia havia perdido a fé na Polícia de Choque, outro morador da rua Dr. Martins Santana ainda acreditava que as forças da ordem eram capazes de resolver o problema dos pagodeiros do Morro da Liberdade. 

O nome dele era Franciner Pinto. Empresário respeitado, dono de uma famosa padaria da vizinhança e pai do futuro diretor de bateria Clemilton Pinto, da Mocidade Independente de Aparecida, que também foi “peara” do bumbá Garantido, de Parintins.

Mas, naquele tempo, Franciner tinha uma convicção inabalável: a culpa de tudo era do samba. Se vendia pouco pão, era o samba. Se faltava cliente, era o samba. Se queimava uma fornada de pão francês, provavelmente também era o samba. Na cabeça dele, a roda de pagode montada pelos meninos da rua já havia se transformado numa espécie de organização criminosa especializada em espantar fregueses.

Até que, num sábado particularmente barulhento, Franciner perdeu a paciência. Pegou o telefone e acionou a Polícia Militar. Dessa vez, pensou ele, a bagunça acabaria. O que ele não sabia era que São Pedro também havia resolvido participar da história. Pouco depois da denúncia, caiu sobre o Morro da Liberdade uma chuva tão forte que parecia prestação atrasada do inverno amazônico. Era água por cima. Lama por baixo. E vento vindo de todos os lados.

Qualquer pessoa normal teria ido para casa. Mas pagodeiro não é exatamente uma pessoa normal. Ao perceber que o temporal não dava sinais de trégua, a turma tomou uma decisão estratégica de altíssimo nível intelectual: comprar uma caixa de Caninha 51.

A logística era simples. Havia apenas um copo. Um único copo. Daqueles de vidro grosso que um dia já haviam abrigado azeitonas e agora serviam à coletividade. O cidadão tomava uma lapada de cachaça, fazia uma careta capaz de assustar um curupira e passava adiante. Era praticamente um sistema cooperativo de aquecimento humano.

A chuva aumentava. A pinga circulava. E o samba melhorava. Foi nesse ambiente de elevada sofisticação cultural que surgiu um Fusca da Rádio Patrulha. Lá dentro, três policiais observavam a cena. O soldado motorista baixou um pedaço do vidro. Só um pedaço. Porque ninguém é doido de abrir a janela inteira numa tempestade daquelas. E começou a chamar um dos pagodeiros. Ninguém ouviu. Ou melhor: ouviram e fingiram que não.

O segundo soldado insistiu. Recebeu exatamente a mesma atenção que um poste recebe durante um desfile de carnaval. Então entrou em ação a autoridade máxima da viatura. O cabo. O homem ajeitou o revólver no coldre, respirou fundo, abriu a porta e mergulhou na chuva. Atravessou a rua sob o vendaval decidido a colocar ordem na situação. Não conseguiu dizer uma única palavra. Antes mesmo de abrir a boca, Jairo Beira-Mar anunciou para toda a roda:

– Ei, pessoal! Esse aqui é o cabo Macaxeira, o rei da caixinha de guerra! Traz uma pra ele mostrar serviço! E capricha na pinga porque ele é dos nossos!

O cabo foi pego tão de surpresa que não teve tempo nem de negar. Recebeu a dose. Virou. Recebeu a caixinha. Tocou. Recebeu outra dose. Virou. Recebeu aplausos. Gostou. Na terceira dose já estava sorrindo. Na quarta, já estava dando opinião sobre andamento de samba. Na quinta, provavelmente já se considerava fundador honorário do grupo. Pouco depois, Macaxeira retornou à viatura.

Os outros policiais imaginavam que finalmente viriam as prisões. As advertências. Talvez até alguma multa. Mas o cabo tinha outros planos. Chegou à janela e decretou:

– Avisa pro comando que a ocorrência foi resolvida!

– Resolvida, cabo?

– Resolvidíssima!

– E agora?

– Agora desliga esse rádio e vem pro pagode que o pessoal aqui é sangue-bom!

Os soldados não discutiram. Em menos de dois minutos, os três estavam completamente ensopados, dividindo o copo de azeitona, cantando refrão, batucando na caixinha de guerra e ajudando a transformar uma operação policial numa confraternização etílico-musical. Naquela noite, a única coisa que a Polícia Militar conseguiu reprimir foi a sobriedade.

Quanto a Franciner, observando tudo de longe, teve uma revelação dolorosa. Descobriu que existiam duas forças impossíveis de combater naquele bairro: o samba. E, claro, a cachaça. 

Depois daquele dia, nunca mais depositou grandes esperanças na polícia. Afinal, quando os agentes da lei terminam a ocorrência tocando percussão e pedindo mais uma rodada, fica difícil acreditar na eficácia do Estado.

segunda-feira, agosto 10, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 10

 


10. Na metade dos anos 70, muito antes de existirem leis de silêncio, grupos de WhatsApp de moradores indignados ou vídeos viralizando no Instagram, havia um método bem mais simples para resolver conflitos de vizinhança: reclamar para a polícia e torcer para ninguém morrer.

No Morro da Liberdade, um grupo de boêmios ilustres – Bosco Saraiva, Jairo Beira-Mar, Gilsinho Poeta, Nicéias Magalhães, Mestre Chocolate, Luizinho Sá, Ivan Oliveira e outros especialistas em transformar qualquer fim de tarde em segunda-feira de ressaca – se reunia diariamente na rua Dr. Martins Santana para uma inocente roda de samba. “Inocente”, claro, dependendo do ponto de vista. Para os sambistas, aquilo era cultura. Para os vizinhos, era poluição sonora. Para os cachorros da rua, era tortura psicológica. Mas ninguém sofria mais do que dona Sílvia.

Ela comandava a Dança Regional Milho Verde, também instalada na mesma rua. Enquanto os pagodeiros despejavam surdos, tamborins e atabaques sem piedade, dona Sílvia tentava ensaiar um grupo embalado por sanfona, zabumba e pandeiro. Era praticamente uma guerra civil musical. De um lado, o samba. Do outro, o regional. No meio, os moradores tentando descobrir qual barulho era pior.

Depois de semanas suportando aquele duelo sonoro digno de uma disputa entre dois carros de som em época de eleição, dona Sílvia perdeu a paciência. E resolveu apelar para uma instituição famosa por sua delicadeza e capacidade de diálogo: a Polícia de Choque.

Naqueles tempos de ditadura, os homens tinham um método de investigação extremamente sofisticado. Primeiro vinham as bordoadas. As perguntas, se sobrasse alguém consciente, vinham depois.

Dona Sílvia fez a denúncia convencida de que os pagodeiros finalmente conheceriam o peso do braço do Estado. Mas naquele dia o destino decidiu beber também.

Por alguma razão misteriosa – talvez inspiração divina, talvez falta de dinheiro para mais uma rodada de cachaça na rua – a turma do samba encerrou o pagode mais cedo e foi transferir suas atividades etílicas para o Bar do Beto.

Quando o caminhão da Polícia de Choque dobrou a esquina, os policiais ouviram música. Não sabiam qual música. Não queriam saber. Nem perguntaram. Viram gente tocando. Era o suficiente.

Desceram distribuindo cacete com a precisão de um temporal de inverno amazônico: atingindo todo mundo, menos quem devia. Os integrantes da Dança Regional Milho Verde foram surpreendidos por uma intervenção cultural patrocinada pelo Estado.

Sanfoneiros voaram para um lado. Pandeiros para outro. Teve gente que terminou o ensaio sabendo mais sobre defesa pessoal do que sobre folclore. A confusão foi tão grande que dona Sílvia, autora intelectual da operação, acabou desmaiando ao assistir sua própria armadilha atropelando os alvos errados.

Entre os integrantes da dança estava Brau. Inocente, puro e besta, Brau era um sujeito baixinho, animado e dono de uma corcova tão respeitável que parecia carregar um pequeno dromedário nas costas. 

Quando a pancadaria começou, ele fez o que qualquer cidadão sensato faria diante da Polícia de Choque da década de 70: correu. Correu como quem devia dinheiro para metade da cidade. Entrou por uma viela e tentou se esconder atrás de um poste. A estratégia tinha um pequeno problema. Brau ocupava mais espaço na profundidade do que na largura.

Mesmo assim, tentou. Ficou de ladinho, na ponta dos pés, acreditando que talvez a física estivesse ao seu favor. Não estava. Um policial o avistou. Sacou a arma e berrou:

– Sai de trás desse poste, porra! Senão vou dar um tiro bem no meio da tua bunda!

Brau percebeu que aquele não era o momento ideal para discutir anatomia. Saiu devagar. Foi então que o policial descobriu que a suposta bunda não era bunda. Era a monumental corcova do rapaz.

O meganha ficou alguns segundos tentando reorganizar as informações dentro da cabeça. Olhou para Brau. Olhou para a corcova. Olhou novamente para Brau. E concluiu que já tinha passado vergonha suficiente por um dia. Guardou a arma e decretou:

– Vai pra casa e não te mistura mais com esse bando de arruaceiro!

Brau foi embora sem entender nada. 

Dona Sílvia também aprendeu uma lição valiosa. Depois de ver sua própria dança regional ser confundida com uma quadrilha de marginais e tomar a surra destinada aos pagodeiros, ela decidiu que talvez o samba não fosse um problema tão grande assim. Dizem que nunca mais chamou a polícia. Afinal, quando a cura é pior que a doença, o melhor remédio é comprar um par de tampões para os ouvidos.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 9

 


9. O samba brasileiro deve muito a Noel Rosa. Já os motoristas de táxi da década de 1930 talvez tenham uma opinião mais dividida. Frequentador assíduo da boemia carioca, Noel passava mais tempo em mesas de bar do que muito vereador passa em gabinete. 

Foi numa dessas intermináveis madrugadas do centro do Rio que conheceu um chofer conhecido pelo apelido de Malhado. Além de conduzir passageiros, o sujeito cultivava uma segunda profissão que ninguém havia solicitado: cantor lírico.

Malhado era daqueles artistas que confundiam profundidade com dicionário. Adorava entoar versos empolados, recheados de palavras difíceis e expressões que nem ele próprio compreendia. Quanto menos sentido fazia a letra, mais convencido ficava de sua genialidade. 

Depois de incontáveis corridas ouvindo árias improvisadas e dós de peito capazes de assustar cavalos e derrubar pombos dos postes, Noel decidiu que era hora de retribuir tanta arte com uma homenagem à altura.

Disse ao amigo que havia composto uma canção refinadíssima, perfeita para impressionar duas belas moças, filhas de um respeitável coronel de Vila Isabel. Malhado, naturalmente, acreditou na história. Afinal, a autoconfiança costuma ser a última coisa a abandonar um cantor ruim. 

Na noite marcada, os dois seguiram para a serenata. Noel posicionou-se estrategicamente do outro lado da rua, alegando que a distância valorizaria ainda mais a potência vocal do intérprete. Traduzindo: queria estar longe o suficiente para escapar correndo.

Ao som do violão, Malhado abriu o papel e começou a declamar os versos escritos por Noel: “Saí da tua alcova com o prepúcio dolorido / Deixando seu clitóris gotejante / De volúpia emurchecido / Porém, o gonococos da paixão / Aumentou o meu tesão...”

À medida que a letra avançava por territórios cada vez mais impróprios para uma janela de família, o desastre aproximava-se em velocidade recorde.

O coronel não demorou a aparecer. Surgiu na janela armado e possuído por um entusiasmo homicida raramente visto em apreciadores de serenatas.

Malhado saiu correndo como se tivesse acabado de descobrir que o diabo cobrava ingresso. Depois de algumas quadras, encontrou Noel, escondido e seguro, observando os acontecimentos à distância regulamentar.

Ofegante, quase sem conseguir falar, o cantor lamentou:

– Não entendi nada! O coronel saiu atirando!

Noel, com a cara mais séria que conseguiu improvisar, respondeu:

– Isso só prova a absoluta falta de sensibilidade artística dessa gente...

E assim terminou uma das mais refinadas críticas musicais da história brasileira: um homem correndo para salvar a pele e outro defendendo a liberdade de expressão – desde que fosse atrás de uma esquina.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 8

 


8. Quando se fala em carnaval de rua de verdade – aquele que não precisa de camarote, pulseirinha VIP nem influencer ensinando a sambar – o primeiro nome que surge é a Banda de Ipanema, a matriarca respeitável de praticamente todas as bandas carnavalescas do Brasil. 

E tudo começou em 1959, quando um grupo de boêmios cariocas foi parar em Ubá, Minas Gerais, para inaugurar um clube em pleno carnaval. Lá conheceram uma curiosa tradição local: a Banda Philarmônica Embocadura. Na frente, desfilavam sujeitos vestidos de branco e chapéu de palha que não tocavam absolutamente nada. Atrás, vinha uma banda de verdade fazendo todo o trabalho. A genialidade da ideia impressionou os visitantes. Afinal, parecia uma perfeita metáfora de muita coisa na vida pública brasileira.

De volta ao Rio, Ferdy Carneiro, Albino Pinheiro, Paulo César Saraceni, J. Rui e outros companheiros de botequim resolveram importar a brincadeira. Nascia a semente da Banda de Ipanema. Ferdy era um personagem que parecia ter sido inventado por um cronista bêbado e talentoso. Designer, jornalista, artista plástico, diretor de arte, homem de cinema, frequentador profissional de botequins e colaborador do Pasquim, definia-se como “um biscateiro qualificado”. Mineiro de nascimento e carioca por insistência, colecionava frases espirituosas e amizades com a mesma dedicação que reservava aos copos e às rodas de samba.

Em 1965, ano do quarto centenário do Rio e primeiro carnaval após o golpe militar, Ferdy, Albino Pinheiro, Jaguar e outros conspiradores da alegria fundaram oficialmente a Banda de Ipanema. O regime proibia aglomerações de mais de cinquenta pessoas. A banda respondeu reunindo cerca de dez mil. Era uma época em que até a felicidade precisava de autorização prévia.

Desde o primeiro desfile, a Banda exibe a misteriosa faixa “Yolhesman Crisbeles”. O antigo SNI passou anos tentando decifrar o enigma, convencido de que se tratava de alguma senha revolucionária. Não encontrou nada. Pela primeira vez na história, um órgão de inteligência foi derrotado por uma piada. A expressão enigmática, segundo um cordelista da Estação Pedro II da Central do Brasil, seria o grito do anjo exterminador no dia do Juízo Final.

Misturando a irreverência dos intelectuais boêmios com a alma dos blocos suburbanos, a Banda transformou-se rapidamente num fenômeno. Desfilava quinze dias antes do carnaval e arrastava multidões. Seus padrinhos e madrinhas formavam uma verdadeira seleção da cultura brasileira: de Clementina de Jesus a Cartola, de Oscar Niemeyer a Clara Nunes, de Nássara a Eneida de Morais, de Bibi Ferreira a Lúcio Rangel, de João de Barro a Leila Diniz, de Aracy de Almeida a João Nogueira, de Grande Otelo a Martinho da Vila.

As histórias acumuladas pela Banda são quase tão famosas quanto ela própria. Houve agentes do SNI infiltradas entre os foliões em busca de mensagens subversivas. Houve o escrivão juramentado Hugo Bidê desfilando de general montado num cavalo branco e tomando chope sem desmontar. Houve Tom Jobim surgindo com um tênis novinho e explicando: “Pedi a Deus um tênis novo para desfilar. Pelo menos foi isso que Ele entendeu”.

Casos interessantes se passaram durante o desfile da banda, como o da reaproximação de João Saldanha e sua mulher Teresa, refazendo um casamento desfeito havia alguns meses. João Saldanha ia sempre de fraque e bermuda e um rodo que empunhava como se fosse estandarte. Uma das alas mais interessantes foi a Ala das Escrotas da Banda, machões vestidos de mulher, composta, dentre outros boêmios e intelectuais, pelo crítico Alex Viany e o também crítico e letrista Sérgio Cabral, que depois abandonou a ala para sair com a sua camisa do Vasco.

O músico Rildo Hora, em parceria com Sérgio Cabral, compôs “Banda de Ipanema”, onde ressaltam o espírito do bloco genuinamente carioca: “Vem a Banda de Ipanema / Espalhando alegria / Quero a minha voz / Dentro do coral / Viva a vida e morra a morte / E a moçada de Ipanema / Botou na rua seu carnaval”.

Mas o maior legado da Banda talvez tenha sido outro. No primeiro desfile, uma faixa trazia os dizeres: “Uma banda em cada bairro”. Parecia uma utopia de botequim. Não era. A ideia se espalhou pelo Rio, depois pelo Brasil. Em pouco tempo surgiram dezenas de bandas inspiradas no exemplo de Ipanema.

A Banda não apenas ressuscitou o carnaval de rua. Provou que a alegria organizada podia ser mais poderosa que a burocracia, mais persistente que a repressão e muito mais divertida que qualquer autoridade de plantão. Afinal, enquanto os governos passavam, os foliões continuavam desfilando.

sexta-feira, agosto 07, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 7

 


7. Com a oficialização dos desfiles, em 1935, a prefeitura resolveu adotar aquilo que durante décadas havia perseguido. É um comportamento bastante conhecido da história nacional: primeiro o poder público combate, depois regulamenta, por fim, distribui subsídios e tira fotografia ao lado.

A partir de 1952, as escolas de samba passaram a funcionar formalmente como sociedades civis, com sede, diretoria, regulamentos e eleições. O samba, que antes era tratado como caso de polícia, agora produzia atas, relatórios e assembleias. Talvez tenha sido o momento em que a burocracia finalmente aprendeu a sambar.

Os desfiles também ganharam uma estrutura cada vez mais sofisticada. Na frente vinha o abre-alas, pedindo passagem. Logo atrás, a comissão de frente, representando a diretoria e tentando convencer o público de que tudo estava sob controle.

Depois apareciam pastoras, mestre-sala, porta-bandeira, destaques, bateria, alas coreografadas e carros alegóricos. Era uma combinação improvável de ópera popular, procissão pagã, desfile militar, espetáculo teatral e reunião de condomínio. E, contra todas as probabilidades, funcionava.

Tudo girava em torno do samba-enredo, responsável por contar histórias nacionais, lendas, personagens históricos e episódios que muitos brasileiros só descobriam existir quando eram cantados por cinco mil pessoas vestidas de paetê.

Até 1932, as escolas simplesmente percorriam as ruas acompanhadas pelo povo. Então alguém teve a ideia que mudaria tudo: transformá-las em competição. Como todo brasileiro sabe, basta transformar qualquer atividade em competição para que ela deixe de ser apenas diversão e passe a ser assunto sério.

Naquele ano, o jornal Mundo Esportivo organizou o primeiro desfile na Praça Onze. Participaram dezenove escolas. A vencedora foi a Mangueira (foto). No ano seguinte, o jornal O Globo assumiu a promoção. A Mangueira venceu de novo.

Em 1934, foi criada a União Geral das Escolas de Samba. E a Mangueira venceu mais uma vez. Durante algum tempo, o campeonato das escolas de samba apresentou um formato bastante simples: várias escolas participavam e a Mangueira ganhava.

Somente em 1935 a prefeitura percebeu o enorme potencial turístico daquele espetáculo. A partir daí, o desfile deixou de ser apenas uma festa popular para se tornar um produto cultural cuidadosamente promovido.

A primeira campeã da nova fase foi a Portela, ainda usando o nome Vai Como Pode – uma expressão que resume com impressionante precisão não apenas a história daquela escola, mas talvez a própria história do Brasil.

O modelo deu tão certo que se espalhou pelo país inteiro. Quase inteiro. Salvador e o conjunto Recife-Olinda olharam para aquilo tudo e responderam algo muito próximo de: “Muito bonito, parabéns pelo regulamento, pela comissão julgadora e pela contagem de pontos. Agora saiam da frente porque o trio elétrico está passando”.

E assim o carnaval brasileiro seguiu seu destino, dividido entre duas vocações igualmente nacionais: a necessidade de organizar a festa e o desejo permanente de bagunçar qualquer organização.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 6

 


6. Na década de 1960, enquanto os ranchos agonizavam lentamente e as grandes sociedades caminhavam para o museu das boas lembranças, os blocos carnavalescos perceberam que, no Brasil, até a bagunça precisa de estatuto, diretoria e ata de fundação.

Assim nasceu, em 28 de setembro de 1965, a Federação dos Blocos Carnavalescos. A ideia era simples: organizar aquilo que havia sido criado justamente para escapar da organização. Surgiram então duas categorias.

De um lado, os blocos de enredo, que sonhavam em ser escolas de samba quando crescessem. Do outro, os blocos de empolgação, cuja principal virtude era não complicar o que já funcionava muito bem: gente cantando, bebendo, dançando e ocupando as ruas sem pedir licença a ninguém.

Entre os mais famosos estavam o Bafo de Onça (foto), o Cacique de Ramos, os Boêmios do Irajá e o Cordão do Bola Preta, sobreviventes de uma linhagem carnavalesca que sempre preferiu a alegria ao regulamento, embora acabasse inevitavelmente produzindo ambos.

O Bafo de Onça foi fundado dentro de um botequim do bairro carioca do Catumbi, em meados dos anos 1950. Seu principal fundador foi um carpinteiro e policial chamado Sebastião Maria, um sujeito que, durante os dias de carnaval, formava uma espécie de bloco do eu sozinho e costumava sair pelas ruas do bairro fantasiado de onça-pintada.

Seu Tião tinha ainda o hábito, depois de um período contrito, de começar a tomar umas biritas fortes no dia de Santos Reis. Para ele, a data marcava o fim do Natal e o início das festas de Momo. Os trabalhos só eram encerrados na Quarta-feira de Cinzas.

Ocorre que o seu Tião pegava pesado na cana, não gostava de escovar os dentes durante as festividades e acabava ficando com um hálito de carniça. Durante uma das carraspanas, amigos do Catumbi, sob a liderança do carpinteiro, resolveram criar um bloco de carnaval. Todos saíram fantasiados de onças-pintadas. O nome do bloco, claro, nasceu prontinho.

As escolas de samba, por sua vez, nasceram bem longe dos camarotes, dos patrocínios milionários e das transmissões televisivas. Surgiram nos redutos populares do Rio de Janeiro, frequentados quase exclusivamente por negros pobres que se reuniam para tocar samba, dançar e preservar costumes herdados da África.

Era uma atividade considerada suspeita pelas autoridades da época, que enxergavam crime em qualquer reunião de pessoas pobres que demonstrasse estar se divertindo demais.

A polícia reprimia. Os sambistas resistiam. A polícia voltava. Os sambistas continuavam sambando. Foi uma disputa longa, mas o samba possuía uma vantagem estratégica decisiva: era muito mais divertido.

A chegada de migrantes nordestinos ao Rio de Janeiro, no final do século 19, ajudou a dar forma e organização a esses agrupamentos. Em outras palavras, enquanto a elite discutia projetos para modernizar a cidade, o povo tratava de modernizar o carnaval.

Curiosamente, as escolas de samba nem sequer se chamavam escolas de samba. O termo só surgiu em 1928, quando Ismael Silva fundou a Deixa Falar, no Estácio. Como a sede ficava próxima de uma Escola Normal, os sambistas passaram a brincar dizendo que também eram professores. A piada pegou. Como tantas coisas no Brasil, uma das instituições culturais mais importantes do país nasceu de uma brincadeira.

Logo vieram outras escolas, como Portela, Mangueira e Unidos da Tijuca. Naquela época, porém, elas estavam muito longe dos espetáculos cinematográficos atuais.

Eram parecidas com blocos e cordões, sem grandes preocupações coreográficas, sem alegorias monumentais e, principalmente, sem a obsessão competitiva que mais tarde transformaria o desfile numa espécie de Copa do Mundo do brilho, da pluma e do isopor. Mas o crescimento foi inevitável.

Aos poucos, as escolas deixaram de ser simples agrupamentos de bairro para se transformar em organizações complexas. A partir dos anos 1960, administrar uma escola de samba já exigia habilidades equivalentes às de um executivo de multinacional. Era preciso arrecadar dinheiro, organizar eventos, contratar serviços, administrar conflitos internos, coordenar milhares de pessoas e ainda garantir que ninguém esquecesse a letra do samba-enredo na hora decisiva.

Nascia, assim, um fenômeno tipicamente brasileiro: uma manifestação popular criada para celebrar a espontaneidade que acabou exigindo planejamento estratégico, cronograma, orçamento, logística e gestão de pessoas.

Telecoteco do Balacabaco - Canto 5

 


5. Os ranchos carnavalescos começaram a surgir no Rio de Janeiro no final do século 19, embora ninguém pareça ter conseguido chegar a um acordo sobre a data exata. Há quem diga 1872, outros juram que foi em 1895 ou 1896. Como acontece com quase tudo relacionado ao carnaval, a confusão já fazia parte da festa desde o nascimento. 

No começo, os ranchos lembravam muito as manifestações populares do Nordeste. Formavam cortejos carregados de símbolos, estandartes e uma respeitável coleção de instrumentos que desafiavam qualquer definição acadêmica de orquestra. Violões, violas, ganzás, pratos, castanholas e algumas flautas se juntavam para acompanhar chulas de origem africana, cantadas com uma inocência que o carnaval perderia para sempre nas décadas seguintes.

Os ranchos eram os verdadeiros aristocratas da folia popular. Diferentemente das futuras escolas de samba, que fariam do batuque uma ciência exata, os ranchos apostavam na organização, na disciplina e em músicas cuidadosamente preparadas. Cada desfile trazia composições inéditas, como se os compositores passassem o ano inteiro trabalhando para que milhões de brasileiros esquecessem tudo três dias depois.

Entre 1919 e 1939, os ranchos viveram sua era de ouro. E que ouro. Fantasias luxuosas, esplendores gigantescos presos às costas dos participantes, pórticos, painéis pintados e personagens que pareciam ter escapado de uma ópera europeia perdida nos trópicos. Havia damas, cavalheiros, mestres de manobra, mestres-sala, porta-estandartes, alegorias e comissões de frente. Era praticamente um desfile militar organizado por cenógrafos, figurinistas e poetas.

Mas quem realmente gostava de exagerar eram as chamadas grandes sociedades carnavalescas. Seus carros alegóricos circulavam abarrotados de moças bonitas, deuses gregos, heróis nacionais, figuras históricas e alegorias tão grandiosas que provavelmente nem os próprios organizadores sabiam exatamente o que representavam. No encerramento, surgiam os famosos carros de crítica política, demonstrando que o brasileiro já fazia memes gigantes sobre rodas muito antes da invenção da internet.

As agremiações tinham nomes discretos e modestos, como Tenentes do Diabo, Fenianos, Pierrôs da Caverna, Kananga do Japão, Democráticos e Embaixadores. Ninguém queria parecer uma associação recreativa. O objetivo era soar como uma mistura de sociedade secreta, confraria boêmia e organização revolucionária.

O coração da festa pulsava na Avenida Rio Branco. Ali se reunia uma multidão que transformava o centro da cidade numa espécie de teatro a céu aberto. Já a classe média alta preferia se acomodar em áreas mais elegantes, próximo ao Jóquei Clube, observando a folia a uma distância segura. Afinal, carnaval era muito bonito, desde que não amassasse a roupa nem obrigasse alguém a dividir espaço com o povão.

Muitos levavam cadeiras e banquinhos para assistir aos desfiles. Era o ancestral remoto das cadeiras de praia, com a diferença de que, naquela época, o espetáculo não era o pôr do sol, mas milhares de foliões tentando superar uns aos outros em fantasia, animação e capacidade de permanecer acordados.

A segunda-feira de carnaval possuía um atrativo especial. Além dos ranchos iluminados por fogos coloridos, havia o tradicional desfile involuntário dos frequentadores do baile do Teatro Municipal. A elite saía fantasiada acreditando ser a atração principal da noite, enquanto o povo se aglomerava para observá-los como quem visita uma exposição de espécies raras.

Enquanto isso, na famosa Galeria Cruzeiro, o carnaval fervia ao som das músicas lançadas pelos teatros de revista e pelas emissoras de rádio. Era o equivalente da época às playlists virais, só que com muito mais suor e infinitamente menos algoritmos.

Com o desaparecimento gradual dos cordões, começaram a surgir os blocos carnavalescos. Menos pomposos, menos organizados e muito mais próximos daquilo que o brasileiro faz de melhor: reunir amigos, improvisar e descobrir depois como tudo vai funcionar. Alguns se estruturaram dentro das comunidades e deram origem aos blocos de samba. Outros abraçaram definitivamente o caos criativo e ficaram conhecidos como blocos de sujos.

Dos blocos de samba nasceram gigantes do carnaval carioca. O Vai Como Pode virou Portela. O Arengueiros transformou-se em Mangueira. O Prazer da Serrinha deu origem ao Império Serrano. O que prova que muitas das maiores instituições do país começaram exatamente como costumam começar as melhores ideias brasileiras: sem planejamento estratégico, sem consultoria e sem a menor noção de onde aquilo iria parar.

Já os blocos de sujos seguiram outro caminho. Deles surgiram os famosos clóvis, ou bate-bolas. Segundo os estudiosos, o nome deriva da palavra inglesa “clown”. Segundo o folião médio, deriva provavelmente da capacidade que essas figuras tinham de assustar crianças e adultos com igual eficiência.

Os clóvis lembravam antigos arlequins medievais, personagens que carregavam bastões e, em épocas menos civilizadas, bexigas cheias de urina para arremessar nos desafortunados que cruzassem seu caminho. Em outras palavras, eram a prova definitiva de que o conceito de “brincadeira carnavalesca” já foi interpretado de maneira bastante flexível ao longo da história.

Outros blocos de sujos, como os de mascarados e nega maluca, também conquistaram espaço no carnaval de rua. Eram manifestações em que a improvisação reinava absoluta, a organização era tratada como um detalhe dispensável e o improviso resolvia tudo. Ou quase tudo.

Porque, no fundo, essa talvez seja a maior invenção do carnaval brasileiro: transformar a desordem em tradição, o improviso em patrimônio cultural e a bagunça em espetáculo. E fazer isso com tanta convicção que ninguém ousa chamar de confusão. Chamamos de folia.

quinta-feira, agosto 06, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 4

 


4. Os bailes carnavalescos de antigamente eram uma verdadeira salada musical sem qualquer compromisso com a coerência. Tocava-se de tudo: polca, lundu, tango safado, samba, marchinha, frevo, jongo, cateretê e o que mais aparecesse pela frente. Ninguém parecia preocupado em saber se os ritmos combinavam entre si. O importante era cantar, pular, fazer cordão e esquecer por alguns dias que a vida real continuava esperando logo ali na quarta-feira de cinzas.

Mas nada se comparava aos famosos banhos de mar à fantasia, uma invenção que só poderia ter surgido de uma época em que as pessoas encaravam o ridículo com muito mais entusiasmo do que hoje. Entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, multidões vestiam fantasias de papel-crepom, desfilavam orgulhosamente pelas praias e, em seguida, mergulhavam no mar.

O resultado era previsível: em poucos minutos, as fantasias começavam a desmanchar e a água adquiria tonalidades que fariam qualquer órgão ambiental moderno entrar em estado de alerta máximo. Felizmente, os foliões usavam roupa de banho por baixo, evitando que o espetáculo terminasse num escândalo ainda maior do que já era.

Enquanto isso, a indústria internacional da bagunça fazia sua contribuição para o progresso do carnaval brasileiro. A França mandou a serpentina em 1892. A Espanha respondeu enviando o confete no mesmo ano. E a França, aparentemente inconformada em perder a disputa, despachou em 1903 o lança-perfume, uma engenhoca carregada de éter perfumado destinada a transformar qualquer salão de baile numa mistura de perfumaria, laboratório químico e campo experimental de paquera.

Essas três maravilhas da civilização ocidental ajudaram a impulsionar os corsos, espécie de desfile motorizado onde a elite da época descobriu que era possível exibir seus automóveis e sua animação ao mesmo tempo. Os carros conversíveis desfilavam enfeitados com bandeirolas, panos coloridos e passageiros estrategicamente acomodados em qualquer lugar disponível, inclusive sobre a capota rebaixada. As moças, sempre observadas com especial interesse pela plateia masculina, exibiam fantasias e saias que provocavam mais comentários do que muitos discursos parlamentares da época.

Nas calçadas, o povo se apertava para assistir ao espetáculo. Nos carros, os foliões travavam verdadeiras guerras de confete e serpentina. Ao final da noite, as avenidas pareciam ter sido atacadas por uma fábrica de papel enlouquecida. Quilômetros de serpentina se enroscavam nos veículos, montanhas de confete cobriam o chão e litros de lança-perfume evaporavam alegremente enquanto desconhecidos se transformavam em conhecidos, conhecidos viravam namorados e alguns namorados provavelmente viravam problemas para resolver depois do carnaval.

No Rio de Janeiro, o corso tomava conta da Avenida Rio Branco e avançava até a Beira-Mar, Flamengo e Botafogo. Era um desfile onde a velocidade não interessava a ninguém. Afinal, o objetivo não era chegar a algum lugar, mas exibir-se pelo maior tempo possível. Como toda moda baseada na ostentação pública, o corso acabou vítima do progresso. Os carros fechados e as limusines decretaram o fim da festa motorizada. Ficou difícil jogar serpentina pela janela quando o automóvel parecia mais um cofre ambulante do que um carro de carnaval.

Restaram então as batalhas de confete, que funcionavam como uma espécie de Copa do Mundo da folia de bairro. Durante semanas, blocos e torcidas organizavam festas preparatórias, consumindo quantidades industriais de confete, serpentina e lança-perfume. As disputas envolviam canto, dança, animação e, principalmente, a eterna competição para provar que o bloco rival não passava de um bando de foliões sem ritmo e sem futuro. Muitas dessas batalhas atravessavam a madrugada e avançavam até o amanhecer.

Em alguns casos, a empolgação era tão grande que superava a dos próprios dias oficiais de carnaval. Era o Brasil mostrando mais uma vez seu talento histórico para transformar qualquer reunião de amigos, um pouco de música e uma quantidade irresponsável de papel picado numa celebração digna de entrar para a história.

quarta-feira, agosto 05, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 3

 


3. Se o carnaval brasileiro tem um avô legítimo, ele não era exatamente um cavalheiro. Chamava-se entrudo e chegou ao Brasil trazido pelos portugueses dos Açores. Era uma brincadeira tão refinada quanto uma briga de galos dentro de um chiqueiro. Grosseiro, violento, sujo e frequentemente estúpido, o entrudo consistia em jogar nos outros tudo o que estivesse ao alcance da mão: baldes de água, bisnagas, limões-de-cheiro, pó de cal, vinagre, groselha, vinho e, para os mais criativos e menos civilizados, até urina. Era uma espécie de guerra química artesanal praticada muito antes de a humanidade inventar convenções internacionais para proibir esse tipo de coisa.

Curiosamente, essa demonstração coletiva de barbárie era tolerada pelo imperador Pedro II, homem culto, poliglota e leitor compulsivo, mas aparentemente bastante compreensivo quando o assunto era ver a aristocracia trocando banhos involuntários de líquidos suspeitos nos jardins da Quinta da Boa Vista. Afinal, nada une mais uma nação do que a possibilidade de humilhar o próximo sem consequências jurídicas.

Mas seria injusto reduzir o entrudo a uma simples sucessão de grosserias. Para escravos, libertos e pobres em geral, aqueles dias representavam uma rara oportunidade de inverter, ainda que simbolicamente, as hierarquias de uma sociedade construída sobre privilégios e opressões. Durante algumas horas, a vítima de ontem podia transformar-se no algoz de hoje, armada com um balde, uma bisnaga ou qualquer recipiente que não tivesse sido lavado recentemente. O entrudo começou a perder espaço quando chegaram da Europa novidades mais elegantes, como o lança-perfume, o confete e a serpentina. Em outras palavras, a civilização finalmente descobriu que era possível importunar os outros com mais charme e menos risco de cegueira.

Durante muito tempo, especialmente no Rio de Janeiro, o carnaval também serviu para homenagear figuras populares da cidade. Entre elas destacou-se um sapateiro português chamado José Nogueira de Azevedo Paredes. Em 1846, ele resolveu sair às ruas acompanhado de zabumbas e tambores, reproduzindo costumes de sua terra natal. O resultado foi um sucesso estrondoso – literalmente. Nascia o famoso Zé-Pereira, prova de que o brasileiro sempre teve uma relação muito íntima com qualquer manifestação que produzisse barulho suficiente para acordar um bairro inteiro.

A fama do personagem cresceu tanto que acabou virando peça teatral. O povo cantava entusiasmado: “Viva o Zé-Pereira, pois que a ninguém faz mal / Viva a bebedeira nos dias de carnaval”. Uma afirmação curiosa para um desfile cuja principal característica era fazer exatamente o contrário daquilo que recomendavam os médicos, os padres e os vizinhos que queriam dormir.

No início do século 20, as zabumbas foram ganhando a companhia de pandeiros, tamborins, reco-recos, cuícas, triângulos e frigideiras. Sim, frigideiras. O brasileiro sempre demonstrou talento para transformar qualquer objeto doméstico em instrumento musical desde que isso implicasse produzir o máximo de ruído possível. Desse caldo sonoro surgiram os blocos de rua. Bastava o Zé-Pereira passar e atrás dele formava-se uma procissão profana de foliões, curiosos, desocupados e especialistas em matar o expediente. Era o embrião de uma tradição que mais tarde arrastaria multidões e patrocinadores na mesma proporção.

Por volta de 1870 apareceram os cordões carnavalescos, compostos por negros, mulatas e brancos pobres. Enquanto a elite se divertia em bailes fechados e iluminados por lustres importados, o povo inventava nas ruas a verdadeira alma do carnaval brasileiro, embalado por ritmos profundamente influenciados pelas tradições africanas que a sociedade da época fingia desprezar, mas adorava copiar quando chegava a hora da festa.

À frente dos cordões vinham enormes estandartes chamados “panos”, conduzidos com orgulho por seus porta-estandartes. No início do século 20, o número dessas agremiações chegou a duzentas. Eram nomes como Teimosos da Chama, Dália de Ouro e Destemidos do Livramento. Convenhamos: até os nomes eram mais criativos do que boa parte dos slogans publicitários que hoje tentam vender o carnaval como experiência premium.

Nos salões, quem reinava eram três personagens importados da Commedia dell’Arte italiana: Colombina, Pierrô e Arlequim. O enredo era simples e atravessou séculos sem envelhecer. Pierrô era o romântico incurável, especializado em sofrer por amor. Arlequim era o malandro debochado que tentava roubar sua namorada. E Colombina, bela, sedutora e inconstante, mantinha os dois girando em torno dela como satélites sem combustível emocional. 

Traduzindo para os dias atuais, Pierrô seria o sujeito que escreve textões de madrugada nas redes sociais, Arlequim, o amigo que reage com foguinho às fotos da namorada dele, e Colombina, a influencer que monetiza o triângulo amoroso sem assumir compromisso com nenhum dos dois. Já o rei Momo, soberano máximo da folia, nasceu inspirado nos bufos portugueses, atores especializados em fazer rir os nobres. Nada mais apropriado. Desde então, boa parte da política nacional parece ter se esforçado para honrar essa tradição teatral.

As fantasias e máscaras viveram seu auge entre o final do século 19 e meados do século 20. Havia de tudo: caveiras, diabos, morcegos, rajás, mandarins, velhos, doutores e até burros com orelhas enormes. Em muitos casos, a fantasia servia apenas para tornar visível aquilo que alguns indivíduos passavam o resto do ano tentando esconder. O declínio começou quando os custos dos tecidos e adornos dispararam. 

Aos poucos, as fantasias foram encolhendo. Primeiro por economia. Depois por praticidade. Mais tarde por causa do calor tropical. Finalmente, por uma combinação explosiva das três coisas. O resultado foi uma evolução curiosa: da indumentária elaborada do Império ao short, à bermuda, ao biquíni e, em alguns casos, a uma quantidade de tecido insuficiente para confeccionar um guardanapo.

As máscaras também enfrentaram uma história atribulada. Desde o século 17 eram proibidas e liberadas conforme o humor das autoridades. Em 1685, por exemplo, um governador determinou que negros e mulatos mascarados fossem chicoteados em praça pública, enquanto brancos mascarados seriam enviados para o exílio. Era a velha tradição colonial de distribuir castigos de acordo com a cor da pele e o tamanho da conta bancária.

Apesar das proibições, as máscaras sobreviveram por séculos. O brasileiro sempre teve enorme apreço pelo anonimato festivo. Talvez porque, num país acostumado a tantas desigualdades, vestir uma fantasia fosse uma das poucas formas de experimentar a liberdade de ser outra pessoa – ainda que apenas até a quarta-feira de cinzas, quando a realidade reaparecia sem máscara, sem maquiagem e sem nenhuma intenção de participar da brincadeira.

terça-feira, agosto 04, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 2

 


2. No Brasil, diferentemente de outros países onde o carnaval ainda conservava alguma aparência de ritual coletivo, a festa ganhou fama justamente por ser o momento oficial da catarse nacional. Era a época em que o povo, esmagado pelas agruras do cotidiano, saía às ruas para cantar, dançar, rir de si mesmo e esquecer, ainda que por alguns dias, que a conta do armazém continuava lá esperando. Nos antigos blocos dos “sujos” e entre mascarados de toda espécie, reinavam a irreverência, a espontaneidade e aquele humor debochado que nunca precisou de patrocínio, camarote VIP ou pulseira eletrônica para existir.

Mas, como costuma acontecer no Brasil, quando algo se torna genuinamente popular, logo aparece alguém disposto a cercá-lo com cordas, cobrar ingresso e chamar isso de evolução. Aos poucos, o carnaval foi perdendo parte de sua alma popular e adquirindo ares aristocráticos, clubísticos e seletivos. Surgiram os bailes luxuosos, frequentados por quem tinha sobrenome, dinheiro ou ambos, enquanto o povo, que havia inventado a brincadeira, passava a observá-la do lado de fora.

Hoje, o carnaval é celebrado em diversos países de tradição católica nos dias que antecedem a Quaresma. A festa gira em torno de fantasias, música, dança e uma generosa suspensão do bom senso. Seu nome tem origem controversa. Alguns estudiosos o relacionam ao latim medieval carnem levare ou carnelevarium, expressões ligadas à despedida da carne antes dos quarenta dias de abstinência quaresmal. Em outras palavras: era a última oportunidade de exagerar antes que a Igreja lembrasse aos fiéis que a diversão tinha prazo de validade.

Como toda tradição humana, o carnaval também sofre de problemas de calendário. Em Munique e na Baviera, na Alemanha, começa no Dia de Reis, em 6 de janeiro. Em Colônia e na Renânia, também na Alemanha, alguém decidiu que a festa deveria começar exatamente às 11 horas e 11 minutos do dia 11 de novembro. Afinal, se é para criar uma tradição, por que não complicar um pouco?

Na França, a celebração é mais econômica e se concentra basicamente na terça-feira gorda e na mi-carême (“meio da quaresma”). Nos Estados Unidos, especialmente em Nova Orleans, a festa se estende do Dia de Reis até o famoso Mardi Gras (foto). Já na Espanha, a quarta-feira de cinzas também entra na brincadeira, numa espécie de prorrogação carnavalesca que sugere uma dificuldade histórica em aceitar que a festa acabou.

No Brasil, até a década de 1940, sobretudo no Rio de Janeiro, o carnaval começava a ensaiar seus primeiros passos ainda em outubro, durante os festejos de Nossa Senhora da Penha. Crescia no fim do ano e explodia nos quatro dias que antecediam a Quaresma. Hoje, em cidades como Recife e Salvador, a festa se alonga tanto que às vezes parece disputar com o Natal o título de comemoração mais extensa do calendário. Dependendo do entusiasmo dos organizadores, só falta chegar ao Dia das Mães.

Entretanto, há uma ironia pouco comentada. Embora o carnaval brasileiro continue sendo vendido como a maior festa popular do planeta, apenas uma pequena parcela da população participa efetivamente dele. Na chamada época de ouro – entre o final do século 19 e os anos 1950 – a multidão não assistia ao carnaval: ela era o carnaval. Atualmente, boa parte do público ocupa o confortável papel de espectador, consumindo imagens da folia pela televisão, pelas redes sociais ou dos camarotes que transformaram a espontaneidade popular em produto premium.

Ainda assim, o carnaval brasileiro segue sendo celebrado como um dos melhores do mundo por turistas estrangeiros e por muitos brasileiros, especialmente pelos mais jovens, que nunca conheceram aquele carnaval verdadeiramente compartilhado, improvisado e democrático. É um pouco como sentir saudade de uma cidade que nunca se visitou.

Talvez ninguém tenha resumido melhor essa transformação do que o folclorista Luís da Câmara Cascudo. Segundo ele, “o carnaval de hoje é de desfile, carnaval assistido, paga-se para ver”. O carnaval de antigamente era vivido, dançado, pulado, gritado e até cutucado. O de hoje, em muitos casos, parece uma grande vitrine: de um lado, os que pagam para aparecer, do outro, os que pagam para assistir. E ambos saem convencidos de que participaram da mesma festa.

segunda-feira, agosto 03, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 1

 


1. A origem do carnaval é uma daquelas discussões que conseguem atravessar séculos sem chegar a lugar nenhum – exatamente como certas reuniões de condomínio e algumas CPIs. Até hoje, o assunto provoca debates acalorados em mesas de botequim, normalmente entre o terceiro copo de cerveja e a última porção de torresmo.

Há estudiosos que juram, de pés juntos e copo na mão, que o carnaval nasceu por volta de 10.000 a.C., quando nossos ancestrais, ainda sem Instagram, televisão ou campeonato de futebol, pintavam o corpo, cobriam o rosto e saíam dançando em grupo para espantar os espíritos responsáveis pelas colheitas ruins. Era uma espécie de bloco rural pré-histórico: sem trio elétrico, mas com bastante barro, suor e fé de que a mandioca vingasse depois de plantada.

Outros afirmam que o carnaval nasceu no Egito, na Grécia, em Roma ou em algum lugar onde havia uma combinação explosiva de divindades, vinho e pessoas sem muito compromisso com o dia seguinte. A verdade é que quase todas as civilizações antigas inventaram alguma desculpa religiosa para fazer festa. Mudava o santo, o deus ou o ídolo, mas a vontade de encher a cara permanecia rigorosamente a mesma.

Os egípcios colocam a culpa em Ísis e no touro Ápis. Os gregos empurram a responsabilidade para Dionísio, que era praticamente o secretário-geral da bebedeira. Os romanos apontam para Saturno e Baco, este último o patrono oficial dos excessos etílicos. Aparentemente, o carnaval é fruto de uma multidão de divindades que tinham como principal atribuição funcional organizar festas e liberar o povo para fazer o que normalmente seria proibido.

Os romanos, aliás, levaram a coisa muito a sério. Nas Saturnais, colocavam grandes carros em forma de navios para desfilar pelas ruas. Era o famoso carrum navalis, ancestral remoto dos carros alegóricos modernos. As Saturnais também incluíam procissões, fantasias e muita libertinagem. Em outras palavras, eram uma espécie de desfile das escolas de samba misturado com aniversário de interior, festa universitária e reunião de família onde aparece aquele tio que dança lambada depois de quatro copos.

Vieram depois as Lupercais e as Bacanais, celebrações tão animadas que, se acontecessem hoje, renderiam pelo menos três operações policiais, dois documentários e uma CPI. Na sequência, surgiu uma série de festas que, olhando de longe, parecem ter sido criadas por alguém que decidiu juntar religião, bebida, dança, fantasia e ausência de limites num único pacote promocional. Alguns autores garantem que o carnaval já existia na Antiguidade Clássica e até antes dela. As evidências são as mesmas de hoje: música alta, máscaras, comportamentos questionáveis e pessoas tomando decisões que passariam o resto do ano tentando justificar.

Na Idade Média, a Igreja Católica ficou numa situação delicada. Não exatamente aprovava o carnaval, mas também não conseguia acabar com ele. Alguns religiosos condenavam a festa como obra do demônio. Outros preferiam fingir que não estavam vendo. Afinal, quando metade da cidade resolve sair fantasiada fazendo algazarra, é mais fácil rezar do que tentar impedir. Era mais ou menos como um pai que descobre que o filho foi para uma festa do cabide, fica indignado, mas acaba perguntando depois se a música estava boa.

Nem todos os religiosos eram tolerantes. Alguns condenavam a folia com veemência. Já o papa Paulo II resolveu adotar uma postura mais pragmática: se não pode vencer o carnaval, organize-o. No século 15, permitiu a realização do carnaval romano diante de seu próprio palácio. O programa incluía corridas de cavalos, carros alegóricos, batalhas de confete, iluminação com velas, lançamento de ovos e até corridas de corcundas. Sim, corridas de corcundas. Porque aparentemente ninguém naquela época acordava de manhã pensando: “Hoje vou criar uma atividade esportiva razoável”. Em outras palavras, era uma mistura de desfile cívico, olimpíada alternativa e programa dominical de auditório.

Com o passar do tempo, algumas dessas modalidades foram desaparecendo – talvez porque alguém finalmente percebeu que atirar ovos em desconhecidos não era exatamente um avanço civilizatório. O carnaval foi ficando menos violento, embora tenha desenvolvido uma curiosa vocação para o sombrio durante sua fase gótica. Na Alta Idade Média, por exemplo, fizeram sucesso as famosas Danças Macabras. Homens e mulheres desfilavam diante da Morte, que ouvia suas lamentações e depois os recebia com uma foice. Era um carnaval tão otimista quanto uma segunda-feira chuvosa depois do feriado.

Já o Renascimento tratou de devolver um pouco de glamour à brincadeira e mais elegância para a bagunça. Os bailes de máscaras ganharam força, especialmente na França e na Itália. Era o começo da longa tradição carnavalesca de fingir ser outra pessoa por algumas horas. Uma prática que mais tarde seria aperfeiçoada pelos políticos em período eleitoral. A ideia era simples: esconder o rosto para revelar a personalidade. Ou, em muitos casos, esconder a personalidade para não ser reconhecido no dia seguinte. No fundo, os nobres descobriram um princípio universal: quando ninguém sabe quem você é, a chance de fazer besteira aumenta consideravelmente.

Nos séculos seguintes, os bailes mascarados se espalharam pela Europa. Em Londres, um famoso baile promovido por artistas reuniu pessoas fantasiadas de grandes mestres da pintura, reis, príncipes e outras celebridades da época. Foi talvez o único carnaval da história em que alguém podia encontrar um monarca, um pintor renascentista e um aquarelista bêbado conversando civilizadamente no mesmo salão.

Assim, pouco a pouco, o carnaval deixou de ser apenas uma explosão de excessos para adquirir também uma dimensão artística. Virou desfile, espetáculo, teatro, música e fantasia. Sobreviveu a impérios, guerras, pestes, revoluções, ditaduras, crises econômicas e até a cantores desafinados puxando marchinhas. Mas, no fundo, manteve intacta sua essência milenar: reunir pessoas dispostas a esquecer os problemas da vida por alguns dias e criar outros completamente novos para resolver depois da Quarta-Feira de Cinzas.