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quarta-feira, agosto 26, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 38

 


38. Outubro de 1982. Logo após realizar um grande show em São Paulo, o compositor Chico da Silva recolheu-se ao quarto do Augusta Boulevard Hotel para descansar da estafante maratona daquela noite. Estava sozinho, alegre como pinto no lixo e mais pra lá de Marrakesh do que um turista perdido no deserto sem mapa, bússola ou amor-próprio.

Diante de um espelho gigantesco que ocupava boa parte da parede, resolveu iniciar um momento de reflexão íntima. Não uma reflexão filosófica, dessas que produzem livros ou mudam a humanidade. Era um exercício de nostalgia muito mais pessoal e infinitamente menos útil. 

Completamente nu, encarou seu velho companheiro de aventuras, lhe segurou pelo pescoço, deu a velha e boa cusparada e iniciou uma espécie de cerimônia de premiação retrospectiva da própria carreira amorosa.

– Tu te lembras daquela chacrete, a Índia Potira? Rapaz, naquele dia tu estavas inspirado. Parecias o Garrincha driblando zagueiro...

Fez uma pausa respeitosa, como quem homenageia um veterano de guerra.

– E a Rose Bumbum, passista da Portela? Aquilo era uma obra pública de interesse nacional. Meu camarada, tu jogaste em nível internacional...

O discurso prosseguiu.

– E a Graça Veneno? Meu Deus do céu... Aquela noite merecia ter sido tombada pelo patrimônio histórico!

Cada lembrança era tratada como uma conquista militar. Cada romance virava uma batalha épica. Cada flerte parecia ter decidido o destino da civilização ocidental.

– E a Flavinha Terremoto? Aqueles olhos verdes... Rapaz, ali tu deste um verdadeiro espetáculo. Se existisse VAR naquela época, o lance entrava para os melhores momentos da temporada!

O compositor já se encontrava numa espécie de documentário esportivo narrado por ele mesmo.

– E a Telminha Sorriso? Ah, meu velho... Aquilo foi uma atuação de gala. Um negócio para guardar na estante junto com os troféus!

O homenageado permanecia em silêncio, naturalmente, absorvendo os elogios. Foi então que aconteceu a tragédia. Ou melhor: a sabotagem. Sem aviso prévio, sem consulta à diretoria e sem qualquer respeito pela solenidade da cerimônia, uma manifestação gasosa rompeu o silêncio do quarto. Um sonoro peido.

O compositor congelou. O clima de consagração foi destruído em segundos. Todo aquele discurso sobre glórias passadas, conquistas memoráveis e feitos lendários evaporou-se instantaneamente. Indignado com a intervenção daquele elemento que sequer havia sido convidado para a reunião, Chico apontou para baixo e disparou:

– Fica quieto aí, que tu não tens currículo, porra! Tu não tens currículo!

E assim terminou uma das mais rigorosas avaliações de desempenho já realizadas por um ser humano consigo mesmo. Com direito a elogios, retrospectiva de carreira, crise institucional e uma advertência verbal aplicada ao único funcionário da equipe que jamais havia contribuído para nenhuma conquista, mas insistia em aparecer nos momentos mais importantes.

Tecoteco do Balacobaco - Canto 37

 

Clube da Mocidade em 1978: Alfredo Tetenge, Almério Cabral dos Anjos,
Miguel Tetenge, Fabiano Babicho, Andréa Limongi, Mário Bacalhau 
e Flaviano Limongi

37. Em 1970, o coronel Jorge Teixeira chegou a Manaus para assumir o comando do Centro de Instruções de Guerra na Selva (Cigs). Como combater cobras, onças e guerrilhas na floresta evidentemente não ocupava todo o seu tempo livre, resolveu fundar também uma escola de samba: a Unidos da Selva.

A agremiação reunia militares das Forças Armadas e pagodeiros civis, uma combinação improvável que talvez só pudesse nascer na Amazônia. Era o encontro entre a disciplina dos quartéis e a filosofia do “deixa a vida me levar”, embora esta última ainda não tivesse sido oficialmente inventada.

A Unidos da Selva revolucionou o carnaval manauara. Introduziu carros alegóricos, tripés e destaques luxuosos numa época em que boa parte das escolas ainda resolvia seus problemas estruturais na base do arame, da boa vontade e das promessas a Santo Antônio. Entre 1971 e 1976, conquistou cinco títulos. Só deixou escapar o campeonato de 1975 para a Unidos de São Francisco, provavelmente porque até os generais precisam descansar de vez em quando.

A escola encerrou suas atividades em 1976 por um motivo curioso. Seu patrono, o coronel Jorge Teixeira – conhecido por todos como Teixeirão, apelido que dispensava apresentações – havia sido nomeado prefeito de Manaus. Como a Prefeitura patrocinava o carnaval, os militares concluíram que continuar vencendo todos os anos poderia parecer favorecimento.

É um dos raros casos da história brasileira em que alguém olhou para uma situação potencialmente suspeita e disse: “Melhor evitar comentários”. A prudência foi tão grande que simplesmente fecharam a escola. Hoje isso seria considerado um comportamento quase revolucionário.

Em 1975 surgiu o GRES Vitória Régia, na Praça 14 de Janeiro, resgatando a tradição da lendária Escola Mixta. A escola entrou na avenida como quem chega atrasado a uma festa e, dois anos depois, já estava empilhando títulos. De 1977 a 1980, venceu quatro carnavais seguidos e mostrou que a Praça 14 continuava produzindo campeões com a mesma facilidade com que Manaus produz calor.

Em 1977, o bloco Em Cima da Hora resolveu virar escola de samba. O nome era apropriado. Como todo brasileiro respeitável, a agremiação parecia fazer tudo no último minuto possível. Mesmo assim, estreou conquistando o vice-campeonato e deixando para trás escolas tradicionais.

Dois anos depois conquistou seu primeiro título, empatada com a Vitória Régia. Foi uma solução diplomática muito elegante para evitar discussões intermináveis em mesas de bar, embora tenha produzido discussões intermináveis em mesas de bar do mesmo jeito.

Mas nada se compara ao fenômeno chamado Mocidade Independente de Aparecida. Fundada em 1980 por dissidentes do GRES Em Cima da Hora, a escola transformou o carnaval amazonense numa espécie de monarquia constitucional. Nas primeiras trinta disputas, conquistou dezoito títulos, cinco vice-campeonatos e três terceiros lugares. Em oitenta por cento das vezes terminou entre as três melhores. Traduzindo para o português claro: durante três décadas, quem apostasse na Mocidade tinha mais chances de acertar do que um meteorologista prevendo calor em Manaus.

Para entender como era o carnaval antes do Sambódromo, vale recorrer às memórias do enciclopedista Carlos Zamith, pai do queridíssimo juiz Carlos Zamith Jr. e responsável pelo belíssimo site “Baú Velho”:

Naqueles tempos, a festa começava às quatro da tarde. Os carros conversíveis desciam e subiam a Avenida Eduardo Ribeiro carregando belas jovens fantasiadas, serpentinas, confetes e uma quantidade de elegância que hoje exigiria patrocínio internacional.

As famílias levavam cadeiras de casa para assistir ao desfile sob a sombra dos benjaminzeiros. Era uma época em que as pessoas saíam de casa carregando móveis para assistir ao carnaval e ninguém achava isso estranho. Os carros alegóricos também tinham seus patrocinadores. A cervejaria Miranda Corrêa promovia a XPTO. O J. G. Araújo distribuía saltos de borracha Coroa. A Fábrica Andrade lançava garrafas de guaraná para o público. Hoje especialistas em segurança pública provavelmente desmaiariam ao ouvir isso.

O Nacional Futebol Clube, por sua vez, apresentava carros montados sobre caminhões fumacentos que pareciam prestes a pedir aposentadoria por invalidez. Não tinham luxo, mas compensavam com alegria. E alegria, convenhamos, sempre foi uma moeda forte no carnaval.

Luiz Bertucéa, Alfredo Tetenge, José Maria Bichara, Flaviano Limongi,
Nelson Cachimbinho, Almério Cabral dos Anjos, José Barros, Pedro 
Bichara, Theomário Pinto, Flávio Augusto, Andréa Limongi e Miguel Tetenge


Entre as atrações mais aguardadas estava o grupo Clube da Mocidade. Todo ano eles apareciam com um tema mantido em segredo absoluto, como se estivessem planejando uma operação militar. Na prática, os carros eram construídos na serraria de Jackson Cabral, lá em Educandos, com a assistência de uma turma saboreando a gostosa batida de taperebá, enquanto o desembargador Luís Cabral, pai da cantora Lucinha Cabral, preparava os brincantes, exclusivamente “coroas”, quase todos antigos desportistas do futebol, basquetebol, voleibol ou mesmo ex-dirigentes esportivos. A produção artística e a produção etílica avançavam rigorosamente no mesmo ritmo.

O grupo estreou em 1953 com “Branca de Neve e os Sete Anões”. Os materiais vieram do Rio de Janeiro. Já a batida de taperebá parecia vir diretamente do paraíso dos foliões, porque desaparecia em questão de minutos. Ao longo dos anos vieram temas inesquecíveis: Cangaceiros, Ciganos, Lavadeiras, Donas de Pensão, Babuínos e o memorável “Só Deve Quem Compra”, uma sátira tão amazonense quanto genial.

Mas nada superou o tema “Maternidade”. Os participantes se fantasiaram de médicos e enfermeiras. O carro alegórico trazia berços, fraldas e mamadeiras. Até aí tudo normal. O detalhe é que as mamadeiras continham um líquido amarelo, espumoso e extremamente apreciado pelos “bebês”, que esvaziavam o conteúdo em poucos segundos.

O responsável por reabastecer as mamadeiras era Mário Bacalhau, fiscal da Prefeitura e babá oficial daquela creche etílica ambulante. Segundo os relatos, ele trabalhou mais durante aquelas duas horas de desfile do que muitos servidores públicos durante um semestre inteiro.

Em 1978, o grupo realizou seu último desfile. Os integrantes, já bastante distantes da juventude sugerida pelo nome Mocidade, decidiram encerrar a trajetória repetindo o tema da estreia: “Branca de Neve e os Sete Anões”. Era uma despedida emocionante. Alguns dos anões originais já estavam mais para aposentados do INSS do que para personagens dos Irmãos Grimm, mas isso apenas tornava tudo mais bonito.

Ao final, o prefeito Jorge Teixeira entregou medalhas de ouro aos participantes, homenageando os 25 anos de contribuição à alegria popular. Foi um reconhecimento merecido. Afinal, poucas instituições fizeram tanto pelo carnaval amazonense quanto um grupo de senhores que passava meses construindo carros alegóricos numa serraria, alimentado por taperebá fermentado e por uma convicção inabalável de que a vida fica muito melhor quando encarada com samba, fantasia e uma boa dose de irresponsabilidade criativa.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 36

 


36. A vida literária do poeta Luiz Bacellar teve um começo feliz: em 1959, ele conquistou o prêmio Olavo Bilac, da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, com aquele que seria seu livro de estreia, “Frauta de Barro”, publicado em 1963. Dez anos depois, ele lançaria seu livro mais conhecido, “Sol de Feira”, sucesso de crítica e de público.

Para homenagear o poeta, os compositores Anibal Beça e Rinaldo Buzaglo conseguiram aprovar o tema “Sol de Feira: pregão da alegria”, para ser enredo do GRES Sem Compromisso. Os dois estavam ali dando tratos à bola para fazer um samba-enredo condizente com a importância do homenageado, quando foram rudemente interrompidos pelo empresário Getúlio Lobo, presidente da escola.

Nervoso, o presidente foi logo atirando pra matar:

– O carnavalesco está exigindo que o abre-alas seja intitulado “Pregão da Alegria”, com uma alegoria de, no mínimo, seis metros de altura. Já consultei as indústrias Belgo-Mineira, Josan, Bemfixa, Lufaed e Parfix, e nenhuma delas tem condições de entregar um prego de aço inox com seis metros de comprimento... Eu quero saber onde é que a gente vai arranjar um pregão deste tamanho!

Foi um parto explicar ao presidente-prego que “pregão” é sinônimo de “leilão”.

terça-feira, agosto 25, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 35

 


35. O saudoso escrivão juramentado Hugo Leão de Castro (esse aí de cavanhaque) era tão conhecido na igualmente saudosa Ipanema pelo apelido de Hugo Bidê que havia quem jurasse, em cartório, que “Leão de Castro” era o pseudônimo. Boêmio militante e vagabundo em dedicação exclusiva, ele encarava o balcão do bar com o mesmo senso de missão que um monge encara o altar.

Na década de 1960 não havia quitinete mais animada em Ipanema que a de Hugo, escrevente de imóveis pela manhã e um dos mais instigantes boêmios durante a noite. Aqueles 25 m² lotavam. Um desavisado das leis do copo e da convivência era capaz de chamar a NASA para constatar que dois corpos podem sim ocupar o mesmo lugar no espaço.

Em uma das inúmeras festas promovidas por Hugo, ele seria batizado com o apelido que garantiria fama e o status de lenda. Preparada para alguns amigos, mais de cinquenta pessoas surgiram na feijoada. Sem ter panelas suficientes, o anfitrião aproveitou o bidê como um lugar seguro, higiênico e diametralmente perfeito para acomodar o caldo, as orelhas e afins. Nascia Hugo Bidê.

O certo é que um belo dia o fígado resolveu pedir as contas. Depois de anos trabalhando em jornada extraordinária, entrou em greve. Hugo, então, foi procurar um médico desconhecido, mas tão recomendado que parecia fazer milagres por atacado.

Seguiu o ritual da consulta como quem comparece ao confessionário. Nu, obediente, vulnerável e profundamente arrependido – não dos excessos, mas de estar ali. O doutor, uma sumidade de jaleco e cara de poucos amigos, fazia perguntas sem levantar os olhos da ficha, como se entrevistasse um sonegador do imposto de renda.

Hugo informou a idade, relembrou as doenças da infância, recitou o histórico médico da família, negou enfermidades contagiosas (silenciando prudentemente uma velha gonorreia que já tinha prescrito até da memória) e respondeu a tudo com a disciplina de um recruta diante do sargento. O médico continuava impassível. Nem um sorriso, nem um “hum-hum”, nem um resquício de solidariedade humana. Então veio a pergunta decisiva:

– O senhor bebe?

Hugo respirou fundo. Sabia que aquela resposta podia definir seu destino.

– Socialmente...

O médico demorou mais do que o normal para escrever a palavra. A caneta parecia desconfiada. Temendo que o silêncio denunciasse uma fraude estatística, Hugo resolveu esclarecer:

– É que eu tenho muitos amigos.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 34

 

O lendário Palácio Rodoviário, um dos símbolos da Cachoeirinha

34. O primeiro time de futebol fundado na Cachoeirinha foi o Madureira Atlético Clube, vulgo MAC, surgido no início dos anos 40, na Rua General Glicério, na casa nº 75, de Luiz Gonzaga, que foi também seu primeiro presidente.

Nos anos seguintes, o MAC se transformaria no melhor time suburbano da cidade, tendo em sua melhor formação vários craques que depois se tornariam profissionais consagrados: Ney, Sabá Baima, Sabazinho, Barbeirinho e Lupércio; Reginaldo e Regildo; Caiado, Luiz Oneti, Paulo Oneti e Alexandre.

Apesar dos títulos conquistados, o MAC nunca teve uma sede social definitiva e desapareceu em 1965, quando seu presidente era João Franco, o “Bolaça”. Na época, o clube possuía uma sede provisória no início da Rua Borba.

Mesmo tendo surgido no dia 1º de maio de 1939, o Orion Football Clube, fundado por Antônio Altino da Silva, conhecido como “Mestre Ceará”, só começou a participar de partidas oficiais em 1942, transformando-se no grande saco de pancadas do MAC.

Sua sede provisória era na Rua Ajuricaba nº 1.140, nas imediações do curral do bumbá Corre Campo, mas depois se mudou para a Rua Borba nº 170, quando ganhou a denominação de Orion Esporte Clube, em razão de participar de várias modalidades esportivas.

O clube chegou a ter uma sede própria na Rua Borba, onde promovia bailes de serestas e de carnaval muito concorridos, mas acabou sendo extinto em 1965, quando seu presidente era Henrique Alves. A sede própria continua de pé até hoje.

O Ypiranga Futebol Clube foi fundado no dia 5 de setembro de 1942, pelos irmãos Horácio, Manoel e Osvaldo Nascimento, João Gomes, Nilo Pereira de Souza, Waldemar Alves de Lima, Waldemar Lisboa, Celso Potoqueiro e José Lázaro.

A sua sede continua até hoje no cruzamento das ruas Carvalho Leal e Barcelos, em terreno doado pela prefeitura, e seus bailes de carnaval continuam sendo os melhores do bairro. O Ypiranga foi o time da Cachoeirinha mais bem-sucedido no campeonato da segunda divisão, tendo conquistado vários títulos.

Seu primeiro campo de futebol foi encampado pela prefeitura e no local foi erguido o Palácio Rodoviário para servir de sede para o Departamento de Estradas de Rodagem do Amazonas (DER-AM). O prédio foi inaugurado em 26 de janeiro de 1960, pelo governador Gilberto Mestrinho, e a cobertura passou a funcionar também como residência oficial dos governadores do estado.

O atual presidente do Ypiranga é o professor Aldemir Martins, o “Mimico”, também responsável pela campeoníssima quadrilha caipira “Juventude na Roça”, que este ano conquistou seu 21º título no Festival Folclórico do Amazonas, coroando seus 50 anos de existência.

O Santos Futebol Clube foi fundado no dia 1º de maio de 1952 por Jorge Lima, Artur Silva, Jorge Cordeiro, Hugo, Pretinho, Gestê e Sabá. Foi o único time da Cachoeirinha que disputou o campeonato da primeira divisão, uma classe especial do futebol amador, uma vez que ainda não existia a categoria profissional.

Ele conquistou o título máximo de 1958, vencendo o Guanabara Esporte Clube por 3 a 1. Nessa partida, o time do Santos era formado por Ney, Raimundinho, Silvino, Paulo e Roberto; Melo e Tucupi; Gestê, Pretinho, Pinguim e Cacheado. Como não possuía sede própria, o Santos utilizava a sede provisória do MAC, na Rua Borba.

O Botafogo Futebol Clube foi fundado em 1955, na Rua Carvalho Leal, por Valdemar Torres, Miguel Sena, Antenor Noia, Paulo Biribá, Esteves e Boanerges. Alguns anos depois, eles adquiriram um terreno na Rua J. Carlos Antony, entre a Carvalho Leal e a Waupés (atual Castelo Branco), onde construíram sua sede social.

Apesar de participar intensamente do esporte amador, o Botafogo tinha seu foco voltado para as promoções sociais. Alguns dos melhores bailes de carnavais do bairro eram realizados em sua sede.

Nos anos 70, os sócios venderam a sede do clube e o Botafogo deixou de existir.

O Expressinho Futebol Clube foi fundado em 1962 pelo onipresente índio piratapuia Marajara e se tornou o primeiro clube de peladeiros do bairro. Entre seus atletas estavam Carlito Bezerra, Beto Folha Seca, Zeca, Laércio, Walter Oliveira (aka “Nego Walter”, primo do Carlito), Leandro, Wando, Flávio Oliveira (aka “Flávio Cupu”, irmão do Nego Walter) e Ariosto (filho da conhecida professora Maria Emília).

As reuniões noturnas à base de lamparina, já que os moleques trabalhavam ou estudavam durante o dia e na “sede” do clube ainda não havia energia elétrica, eram realizadas na casa do Carlito Bezerra, na Rua Borba, nº 350, em frente à atual quadra do GRES Andanças de Ciganos.

Quando as reuniões estavam muito chatas, um dos atletas, “distraidamente”, apagava a lamparina dando um discreto sopro na chama, o que fazia Marajara ir à loucura, tendo que encerrar prematuramente a reunião. Se fosse descoberto, o autor da façanha recebia dez bolos de palmatória e ficava suspenso duas partidas. Marajara era abusado.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 33

 


33. O carnaval de 1915 foi o mais extravagante que Manaus conheceu. A cidade inteira saiu às ruas, dançou nos clubes, invadiu cafés e se comportou como se o futuro fosse uma entidade abstrata que morava muito longe dali. Havia sete meses que a Europa estava mergulhada na Primeira Guerra Mundial, mas o manauara médio estava tão preocupado com as trincheiras da França quanto um pirarucu com a cotação da bolsa de valores de Zurique.

O povo cantava o “Maneiro-pau”, a “Cabocla de Caxangá” e a polca “Perepepê”, sucessos da época que hoje soam como senhas de acesso a um manicômio folclórico. A alegria atingiu o ápice quando desfilaram os Paladinos da Galhofa em onze carros alegóricos. Num deles seguia a jovem violonista Áurea Ramos, considerada uma das moças mais bonitas da cidade, espécie de celebridade amazonense antes de existirem celebridades amazonenses.

À noite, no Ideal Clube, houve baile. Áurea subiu ao palco. Então aconteceu algo tão absurdo que parece invenção de roteirista preguiçoso: durante uma briga no salão, um sujeito fantasiado de cowboy disparou acidentalmente uma arma e a atingiu. A jovem caiu. Um cortejo formado por mascarados, palhaços, pastoras, negas-malucas e piratas carregou a moça agonizante até a Santa Casa. A cena parecia uma mistura de velório, desfile carnavalesco e surto coletivo. Mas Áurea não resistiu.

Nos meses seguintes, os poetas de Manaus fizeram o que os poetas fazem quando não podem resolver um problema: escreveram sonetos. Muitos sonetos. Sonetos suficientes para derrubar outra floresta amazônica se todos fossem impressos. O crime que chocou a capital amazonense com seus quase 100 mil habitantes nunca foi elucidado e silenciou para sempre o violino da artista prodígio no auge dos seus 18 anos.

O ano de 1915 começava melancólico. O preço da borracha despencava sob a concorrência dos seringais plantados pelos ingleses na Malásia com sementes brasileiras contrabandeadas. Em outras palavras: o sujeito roubou a muda, abriu uma filial do outro lado do planeta e ainda tomou o mercado do dono. Os seringais nativos começaram a ser abandonados e os seringueiros desempregados migraram para outros locais.

Em 1916 não houve carnaval de rua. As francesas foram embora, os cafés fecharam as portas e o mato começou a reassumir o controle da cidade, como um proprietário paciente que havia saído para almoçar e voltava para cobrar o aluguel atrasado. A efêmera Paris dos Trópicos começava a descobrir que era, antes de tudo, uma cidade amazônica cercada de floresta por todos os lados.

Foi nesse cenário que surgiram os blocos de sujos, ranchos e cordões populares. A organização era praticamente inexistente. Cada grupo saía da própria comunidade e Deus ajudava quem tentasse entender o regulamento. Entre os pioneiros estavam o Cordão das Lavadeiras, Os Linguarudos, Caboclo Suraras, Cordão das Jardineiras e o sempre ameaçador Comigo Ninguém Pode, que já parecia nome de bloco e resposta de briga ao mesmo tempo.

Na metade da Segunda Guerra Mundial, os japoneses ocuparam os seringais da Malásia e, por alguns instantes, a Amazônia voltou a acreditar que o destino lhe devia uma indenização. Getúlio Vargas organizou o Exército da Borracha e trouxe milhares de nordestinos para a floresta. Parecia o retorno do esplendor. Durou mais ou menos o tempo de um sorvete ao sol de meio-dia.

Terminada a guerra, Manaus voltou à sua tradicional vocação para a pasmaceira. Mas os blocos carnavalescos se multiplicaram numa velocidade que faria inveja a coelhos sob efeito de energético. Surgiram Vai Ser Pra Mim, Holandesas na Folia, Tá Bom Demais, Filhos de Momo, Bloco das Hawaianas, Periquitos da Madame, Garotos Infernais, Anjos de Cara Suja e dezenas de outros nomes que demonstram que o carnaval amazonense sempre tratou a coerência como mera sugestão.

As batalhas de confete no Bar Avenida, Leitaria Amazonas e Bar Americano atraíam multidões. Também começaram a surgir marchinhas de sucesso, como “Casado Não Pode”. Era uma composição revolucionária que defendia a tese de que o matrimônio era incompatível com a felicidade carnavalesca, posição científica amplamente debatida nos botequins da época.

Em 1946 surgiu a primeira escola de samba da cidade: a Escola de Samba Mixta da Praça 14 de Janeiro. Organizada nos moldes cariocas, ela dominou o carnaval local de forma tão absoluta que conquistou quinze títulos seguidos. Hoje isso seria investigado pela imprensa, pelo Ministério Público e provavelmente pela polícia científica. Outros bairros correram atrás do prejuízo e criaram suas próprias escolas. Nascia uma rivalidade que alimentaria gerações de sambistas, fofoqueiros e especialistas em reclamar da nota dos jurados.

Os desfiles daquela época tinham uma característica curiosa: eram cercados por cordas. Quem estava dentro era o folião fantasiado. Quem estava fora era a chamada “pipoca”, os descamisados que pulavam do lado de fora sonhando em participar. Era uma espécie de versão carnavalesca do condomínio fechado.

O sistema funcionou até que duas emissoras de rádio resolveram transmitir os desfiles ao vivo. O palanque foi instalado exatamente no meio da avenida, atrás do Teatro Amazonas. Assim, as escolas precisavam se dividir em dois grupos, contornar o palanque e depois tentar se reencontrar do outro lado. A ideia tinha a mesma lógica urbanística de construir uma rotatória no meio da sala de jantar. Naturalmente, a corda virou um problema insolúvel.

O estilo “cordão” foi aposentado, a Escola Mixta encerrou suas atividades e, pouco depois, veio a ditadura militar. Entre 1962 e 1970, os desfiles continuaram acontecendo na Avenida Eduardo Ribeiro, mas de maneira tão tímida que pareciam ensaios gerais de uma festa que nunca começava. O carnaval amazonense atravessava um de seus períodos mais difíceis, aguardando tempos melhores para voltar a fazer aquilo que sempre soube fazer: transformar dificuldades históricas em samba, confete e uma saudável dose de bagunça.

segunda-feira, agosto 24, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 32

 


32. Réveillon de 2002 no Rio de Janeiro. A multidão lotava o Piscinão de Ramos para a festa da virada. Milhares de pessoas. Fogos. Música. Cerveja quente. Esperança renovada. Tudo corria dentro da normalidade prevista para uma comemoração popular brasileira. Até que alguém resolveu elogiar Jamelão. Foi aí que o problema começou. No palco, o lendário cantor se preparava para cantar quando surgiu um coro espontâneo no meio da multidão:

– Lindo e gostosão! Bonito é o Jamelão!

O coro cresceu.

– Lindo e gostosão! Bonito é o Jamelão!

Mais gente aderiu.

– Lindo e gostosão! Bonito é o Jamelão!

Qualquer artista normal teria aberto um sorriso. Alguns chorariam. Outros agradeceriam. Jamelão não era um artista normal. Jamelão parecia ter sido fabricado numa linha de montagem defeituosa, onde esqueceram de instalar o módulo responsável por receber elogios. Seu semblante fechou imediatamente. Pegou o microfone. Respirou fundo. E respondeu com a delicadeza de um fiscal da Receita cobrando imposto atrasado:

– Menos, gente! Menos! Eu disse menos!

A multidão caiu na gargalhada. E o Brasil ganhou mais uma história para a coleção. Porque Jamelão era provavelmente o único sujeito do planeta capaz de tomar uma cantada coletiva de milhares de pessoas e responder como quem está repreendendo uma turma de alunos bagunceiros.

Meses depois, quando completou 90 anos, teve início uma verdadeira epidemia de homenagens. Eis outro problema. Jamelão detestava homenagens. Na sua concepção filosófica, homenagem era uma espécie de cheque sem fundos. Todo mundo entregava. Ninguém conseguia descontar. Quando um jornalista perguntou o que ele achava das celebrações, respondeu:

– Homenagem é dinheiro no bolso. E isso eu não tenho.

Era sua maneira elegante de dizer: “Obrigado pelo carinho. Agora paguem minhas contas.”

A própria Mangueira resolveu torná-lo presidente de honra. Os dirigentes convocaram veteranos históricos da escola. Discutiram. Analisaram. Refletiram. E concluíram que o nome de Jamelão era unanimidade. Foi aclamado sem necessidade de votação. Qualquer mangueirense morreria de felicidade. Jamelão não. Ao saber da novidade, limitou-se a resmungar:

– Isso não me diz nada. Não paga meu aluguel.

A frase produziu o mesmo efeito de jogar um balde de água gelada numa festa de casamento. Mas ninguém se surpreendeu. Os mangueirenses já estavam vacinados. Conviver com Jamelão era como criar um tigre de estimação. Você sabia que existia carinho ali dentro. Só não esperava demonstrações públicas.

Enquanto outros intérpretes trocavam de escola como jogadores de futebol trocam de clube, Jamelão permaneceu décadas na Mangueira. Quando alguém elogiava sua fidelidade, ele reagia quase ofendido: “– E daí? O que tem de mais?” Era como se um sujeito escalasse o Everest descalço e depois comentasse: “Foi uma caminhadinha.” Mas o auge da lenda talvez esteja nas histórias de convivência.

Certa vez, durante uma viagem de ônibus, o pesquisador Sérgio Cabral encontrou o amigo Nei Lopes ao desembarcar.

– Dei sorte. Passei a viagem inteira conversando com Djavan – avisou Sérgio Cabral.

Nei respondeu:

– Pois eu viajei ao lado de Jamelão.

– E aí?

– Assim que o ônibus saiu, eu disse que estava morando perto da casa dele.

– E ele?

– Respondeu: “Sei.”

E foi isso. Fim da conversa. Durante horas. Jamelão conseguiu transformar uma viagem interestadual numa experiência monástica de silêncio absoluto.

Mas nada supera a história envolvendo Cauby Peixoto. Os dois estavam num estúdio. Jamelão cochilava. Cauby passou e resolveu brincar:

– Dorminhoco, hein, professor?

Jamelão abriu os olhos. Olhou para Cauby. Pensou por um segundo. E disparou:

– Posso até ser dorminhoco. Mas pelo menos sou homem. Nunca sentei em cadeira ocupada.

A frase atravessou o estúdio como um míssil terra-ar. Provavelmente até os microfones ficaram constrangidos. E o mais impressionante é que ninguém guardava mágoa. Porque por trás da casca de lixa número 80 existia um sujeito generoso, leal à Mangueira e apaixonado pelo samba.

O problema era que Deus distribuiu simpatia quando Jamelão estava ocupado cantando. Assim, passou nove décadas colecionando admiradores, homenagens, títulos, reverências e elogios. E passou as mesmas nove décadas reclamando de todos eles. Talvez porque, no fundo, ele acreditasse que aplauso é muito bonito. Mas boleto quitado é mais bonito ainda.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 31

 


31. Conversa vadia no bar “Rolo Compressor”, lá no bairro da Raiz:

– O Nacional salvou a minha vida! – falou de supetão Luiz Henrique, um fastiano raiz.

– Sério, parente?! Mas como foi isso? – questionou João Gadelha, outro fastiano roxo.

– Eu estava há oito meses em coma, desenganado pelos médicos. Foi quando uma enfermeira colocou um pequeno rádio de pilha no quarto e deixou ligado bem baixinho, para mim…

– Que história bacana! E como aquela desgraça da Vila Municipal te salvou?...

– Domingo a tarde começou um jogo no Maracanã entre Nacional e Maringá, na preliminar de Brasil e Venezuela… Ninguém por perto, tive que levantar para desligar aquela merda!

Naquele dia, o Nacional ganhou de 1 a zero do Maringá, gol do ponta-esquerda Pepeta.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 30

 


30. Conforme qualquer sambista minimamente traumatizado sabe, a alma de uma escola de samba não está no presidente, no carnavalesco nem na rainha de bateria. A alma de uma escola de samba mora no diretor de barracão, aquele cidadão que passa meses respirando tinta, solda, cola de contato e desespero enquanto tenta transformar delírios carnavalescos em objetos que não desabem antes da dispersão. O carnavalesco sonha. O diretor de barracão sofre.

Para facilitar a compreensão, pense em Brasília. Todo mundo conhece Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, os gênios responsáveis pelo projeto da cidade. Numa escola de samba, eles seriam os carnavalescos: sujeitos que acordam às três da manhã com a brilhante ideia de colocar um dragão voador de quinze metros cuspindo fogo e cantando ópera.

Já Joaquim Cardozo, o engenheiro responsável pelos cálculos estruturais, seria o diretor de barracão. O homem que precisava ouvir a ideia do dragão e responder:

– Tá bom. Mas onde é que eu vou arrumar a porra do parafuso?

Sem Cardozo, Brasília seria apenas um belo conjunto de desenhos. Sem diretor de barracão, o carnaval seria uma reunião de pessoas segurando croquis e chorando.

Em meados dos anos 90, o GRES Reino Unido tinha como diretor de barracão o lendário Sabazinho, um homem que possuía a estabilidade emocional de uma panela de pressão esquecida no fogo. Sabazinho amava seus carros alegóricos mais do que a maioria das pessoas ama seus próprios filhos. Na verdade, mais do que isso: filhos crescem, respondem aos pais e dão despesas. Alegorias obedecem.

Ele tratava cada peça produzida no barracão como se fosse patrimônio artístico da humanidade. Se alguém arranhasse uma alegoria, Sabazinho reagia como se estivesse assistindo ao incêndio da Biblioteca de Alexandria.

No dia do desfile, sua delicadeza habitual desaparecia completamente. Naquelas horas, ele passava a enxergar inimigos por toda parte. Motoristas, componentes, diretores, jurados, vendedores de churrasquinho e possivelmente até o Papa eram suspeitos de alguma conspiração para destruir suas obras-primas. Só não andava armado porque a diretoria da escola, infelizmente, era contra.

Como toda escola de samba digna desse nome, a Reino Unido chegou ao desfile com apenas alguns detalhes pendentes. Entre esses detalhes estavam a pintura do último carro alegórico, a montagem de algumas alegorias e, aparentemente, a conclusão de metade do projeto. Enquanto as primeiras alas já avançavam pela Djalma Batista, o último carro ainda recebia generosas borrifadas de spray dourado.

Lá em cima, montado na alegoria como um imperador romano fiscalizando escravos, Sabazinho distribuía ordens aos berros.

Foi nesse cenário de absoluta normalidade que surgiu o recém-empossado diretor de Harmonia, delegado Petrônio Carvalho. Engomado. Alinhado. Perfumado. Parecia alguém prestes a participar de uma solenidade da Polícia Civil, não de uma operação de guerra carnavalesca.

Naquele momento havia um problema: o carro alegórico da Medusa era tão grande que não conseguia passar pelo Boulevard Amazonas porque alguns cidadãos de bem haviam estacionado seus veículos exatamente onde não deviam. A solução técnica encontrada foi a mesma que os engenheiros da Nasa provavelmente utilizam em situações semelhantes: empurrar tudo na força do ódio.

Enquanto dezenas de homens tentavam deslocar a alegoria, Sabazinho avistou Petrônio observando a cena. A reação foi imediata:

– Tu tá fazendo o quê parado aí, ô Zé-Boceta? Mete a mão nessa porra e ajuda os outros! Quer vender beleza? Vai pra praça da Prefeitura!

Petrônio ficou tão surpreso que nem teve tempo de se ofender. Apenas entrou na operação. Cinco minutos depois estava coberto de tinta dourada. De delegado elegante havia evoluído para uma espécie de estátua ambulante do Oscar.

Mas o universo ainda não havia terminado de humilhá-lo. Duzentos metros adiante surgiu novo obstáculo: um Fusca estacionado em fila dupla. O carro da Medusa não passava. A escola não podia esperar. A lógica carnavalesca entrou em ação. Sabazinho, instalado na cabeça de Perseu como um general romano em surto psicótico, passou a berrar:

– Peguem essa porra desse carro de pobre e joguem do outro lado da rua! Joguem no quinto dos infernos! A gente vai perder ponto!

A frase talvez não constasse nos manuais de trânsito, mas foi recebida com entusiasmo pelos presentes. Depois de quebrarem um vidro, destravarem a direção e realizarem procedimentos que fariam qualquer corretora de seguros entrar em colapso nervoso, cerca de vinte homens levantaram o Fusca nos braços. Entre eles estava o delegado Petrônio Carvalho.

Sim. Um delegado da Polícia Civil. Carregando um veículo alheio após participar da invasão e depredação do mesmo. Foi então que ocorreu uma rara manifestação de lucidez. Enquanto transportava o Fusca, Petrônio teve um pensamento desconfortável:

– Espera aí... Eu sou uma autoridade constituída. Passei a vida defendendo a legalidade. E neste exato momento estou participando de um sequestro coletivo de automóvel.

A iluminação foi instantânea. Largou o carro. Largou a escola. Largou o carnaval. Largou provavelmente qualquer esperança de compreender a raça humana. Montou no seu alazão e desapareceu no horizonte. Dizem que nunca mais voltou ao GRES Reino Unido. Talvez porque tenha percebido que existe uma fronteira muito tênue entre a organização de um desfile de carnaval e a prática de crimes patrimoniais em grupo. E, naquele dia, essa fronteira foi atropelada por uma Medusa dourada.

quinta-feira, agosto 20, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 29

 


29. Fevereiro de 1984. Amigos desde os tempos heroicos de Irajá, quando ainda dividiam sonhos, sambas e provavelmente algumas dívidas, Nei Viana e Zeca Pagodinho desembarcaram em Manaus para ajudar nos ensaios de Carlinhos de Pilares, puxador de samba do GRES Andanças de Ciganos. 

A missão oficial era fortalecer o samba. A missão paralela era conferir se eram verdadeiras as lendas que chegavam ao Rio de Janeiro sobre um certo Chico Padeiro, personagem cercado por um misticismo que misturava traficante, alquimista e fornecedor oficial da alegria da Cachoeirinha.

Numa noite de sábado, enquanto a quadra fervilhava de ritmistas, passistas e bebedores profissionais, Zeca Pagodinho encontrava-se numa situação delicada. Muito delicada. Mais precisamente, estava parado na esquina das ruas Parintins e Borba, do outro lado do Top Bar, aguardando o retorno de seus companheiros. Nei Viana, Carlinhos de Pilares e Mestre Roxinho haviam saído numa expedição de abastecimento e demoravam além do razoável.

Zeca aguardava. Esperava. Suspirava. Consultava o relógio. Tornava a suspirar. O homem estava numa ansiedade capaz de envelhecer uma tartaruga. Foi então que surgiu Jacó Fernandes, caminhando tranquilamente em direção ao ensaio, duas baquetas na mão e zero preocupação na cabeça. Zeca viu nele uma luz no fim do túnel. Infelizmente, era um trem vindo na direção contrária.

– Ô, gente boa, será que você podia me fazer um favor? – perguntou.

Jacó respondeu com a cautela de quem já tinha visto muita coisa na vida:

– Depende...

– Tô querendo apertar um beise. Será que você consegue alguma coisa pra mim? De preferência do Chico Padeiro...

Ao ouvir aquele nome, Jacó quase se sentiu ofendido.

– Chico Padeiro?

Fez uma pausa dramática.

– Aquilo só vende palha, coentro e bosta de vaca, porra!

Zeca arregalou os olhos. Jacó continuou:

– Bagulho bom mesmo quem tem é o Pirarucu, lá no Bodozal da Maués.

A segurança com que ele falou era impressionante. Parecia um especialista apresentando um artigo científico num congresso internacional. Os olhos de Zeca brilharam. Finalmente encontrara uma solução. Sem hesitar, entregou cerca de 200 pilas ao emissário. Jacó guardou o dinheiro. Ajustou as baquetas. Desceu a ladeira da Rua Parintins em direção ao Bodozal da Maués e desapareceu. Como fumaça. Como miragem. Como promessa de político em ano eleitoral.

Passou uma hora. Passaram duas. Passou um tempo suficiente para um sujeito rever toda a própria existência. E nada de Jacó. Foi então que apareceu Nego Keko. Encontrou Zeca exatamente no mesmo lugar. Mesma esquina. Mesma posição. Mesma esperança. O mesmo prejuízo.

Depois de ouvir toda a história, Keko balançou a cabeça com pena. Era como um veterinário examinando um cachorro atropelado.

– Você perdeu, playboy. Você perdeu.

– Como assim?

– O cara não volta mais nem pelo caralho.

Zeca sentiu um arrepio.

– Não fala isso...

– A essa altura ele já deve estar apertando o black com a turma dele. Conheço essa raça...

O silêncio que se seguiu foi devastador. Zeca olhou para o horizonte. Olhou para a rua. Olhou para o bolso. Olhou novamente para a rua. E compreendeu. Havia sido vítima de um dos mais antigos golpes da humanidade. O famoso “vou ali e já volto”. Mordido pela indignação, resmungou:

– Caraco, mano... Eu vir lá do Rio de Janeiro pra tomar banho em Manaus...

Fez uma pausa.

– Assim é foda...

E voltou para a quadra dos Ciganos carregando apenas duas coisas: a decepção e a certeza de que Jacó Fernandes era mais rápido desaparecendo com dinheiro do que muito velocista olímpico.

Felizmente, quando tudo parecia perdido, surgiu Carlinhos de Pilares trazendo uma generosa pacoteira da famosa erva do Chico Padeiro. A paz voltou ao universo. O samba voltou a soar bonito. A vida voltou a fazer sentido.

E Zeca aprendeu uma importante lição sobre a fauna humana da Cachoeirinha: se um sujeito desconhecido disser que conhece um fornecedor melhor, primeiro exija referências. Ou, no mínimo, um fiador.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 28

 


28. Um dos maiores talentos produzidos pelo Morro da Liberdade, o compositor, ritmista e designer gráfico Jorge Halen – conhecido em todos os continentes civilizados como Mestre Chocolate – sempre teve uma vida amorosa tão tranquila quanto uma convenção de anarquistas armados.

Mulherengo desde a mais tenra infância, Chocolate era daqueles sujeitos que, ao passar por uma maternidade, já saía distribuindo piscadelas para as enfermeiras. Aos 19 anos, porém, aconteceu o impensável. Cupido, aquele delinquente reincidente que vive destruindo a vida dos outros em nome do romantismo, acertou-lhe uma flechada em cheio.

A vítima era uma passista do Morro da Liberdade cuja padaria, segundo testemunhas da época, possuía atributos arquitetônicos capazes de provocar acidentes de trânsito. Chocolate apaixonou-se imediatamente. Namorou. Noivou. Casou. Tudo em menos de seis meses. Tempo insuficiente para amadurecer um abacate, mas aparentemente suficiente para tomar decisões irreversíveis.

Para a cerimônia, escolheu pessoalmente um magnífico paletó marrom. Não era um simples paletó. Era uma entidade. Uma instituição. Uma obra de arte têxtil. Segundo o poeta Gilsinho Nogueira, a cor era “mel com areia”. Segundo o resto da humanidade, era simplesmente marrom. O traje possuía revestimento em seda chinesa, bolsos de pele de chinchila e uma aparência geral que sugeria a união estética entre um diplomata soviético e um cantor de bolero.

No dia do casamento, Chocolate estava feliz. Ridiculamente feliz. Perigosamente feliz. A lua de mel aconteceu numa pousada do Paraná do Ramos e durou mais de uma semana. Menos de um ano depois, a esposa resolveu terceirizar os serviços afetivos. Quando Chocolate descobriu que o novo ocupante da concessão amorosa era um dono de panificadora, cogitou incendiar uma padaria inteira apenas por coerência temática. Foi impedido pelos amigos Carlão, Gilsinho, Jairo, Ivan, Bosco e Luizinho, homens que passariam boa parte da vida exercendo a função de contenção de danos emocionais.

Passado algum tempo, as lágrimas secaram. As feridas cicatrizaram. E Chocolate voltou ao mercado. Conheceu outra passista. Apaixonou-se novamente. Namorou. Noivou. Casou. Tudo em menos de seis meses. Porque a experiência é uma professora excelente, mas alguns alunos faltam às aulas.

Mais uma vez surgiu o lendário paletó cor de mel com areia. Mais uma vez a cerimônia foi realizada. Mais uma vez a lua de mel foi um sucesso. E mais uma vez a esposa resolveu fazer intercâmbio afetivo. Desta vez o contemplado foi um violonista de bossa nova.

Ao saber da notícia, Chocolate cogitou destruir sua coleção de discos de João Gilberto. Não por raiva do cantor. Por associação criminosa de estilo musical. Novamente os amigos intervieram. Novamente evitaram uma tragédia. Novamente recolheram os pedaços do coração do companheiro.

Depois do segundo desastre conjugal, Chocolate desenvolveu uma teoria revolucionária. Virou vegetariano. Ninguém sabe exatamente qual a relação entre alface e fidelidade matrimonial, mas ele acreditou firmemente no método. Passou a consumir apenas “brotinhos” prestes a desabrochar. Foi nessa época que um amigo resolveu casar.

Como era um homem generoso, Chocolate emprestou ao compadre seu velho paletó marrom. Sim. O mesmo. O lendário. O maldito. O cor de mel com areia. O equivalente amazônico do Anel de Sauron.

O compadre usou o traje. Casou-se. Sorriu. Posou para fotos. Foi feliz. Durante aproximadamente seis meses. Quando completou meio ano de matrimônio, tornou-se membro efetivo da Confraria Internacional de São Cornélio, padroeiro informal dos maridos surpreendidos pelos fatos. Foi aí que a situação começou a parecer estatisticamente suspeita.

Carlão Nascimento, engenheiro, juiz de futebol, sambista e estudante de parapsicologia nas horas vagas – currículo que sozinho já justificaria uma tese acadêmica –, resolveu investigar. Pediu as fotografias dos dois casamentos de Chocolate. Analisou tudo cuidadosamente. E quase teve um infarto. Com exceção do padre e de dois coroinhas, praticamente todos os homens que apareciam nas fotos haviam sido corneados em algum momento da vida. Aquilo já não era coincidência. Era uma epidemia.

Carlão passou uma semana inteira estudando o fenômeno. Fez anotações. Traçou diagramas. Levantou hipóteses. Nada fazia sentido. Até que tomou a única atitude possível diante de um problema científico dessa magnitude. Consultou Mãe Zulmira.

A respeitada líder espiritual ouviu o relato. Jogou búzios. Conversou com entidades. Consultou forças invisíveis. Fez uma auditoria completa no além. E apresentou o diagnóstico:

– Mande meu zifio jogar fora esse paletó. Esse troço atrai desgraça.

Estava encerrada a investigação. O culpado havia sido identificado. Não eram as esposas. Não eram os amantes. Não era Cupido. Era o paletó.

Convencer Chocolate a se desfazer da peça, entretanto, revelou-se tarefa quase impossível. Foi necessária uma operação conjunta. Enquanto Carlão aplicava um mata-leão digno de campeonato mundial, Bosco Saraiva segurava as pernas. Gilsinho e Ivan invadiram a residência. Localizaram o artefato. E conduziram sua execução sumária.

O paletó foi queimado no cruzamento das ruas São Pedro e Martins Santana sob circunstâncias que lembravam um exorcismo medieval. Houve pólvora. Houve cachaça. Houve galinhas pretas. Faltou apenas chamar o Vaticano. Mas funcionou. O descarrego deu certo.

Alguns anos depois, Chocolate conheceu uma mulher maravilhosa. Constituiu família. Encontrou paz. Nunca mais foi traído. Nunca mais foi corneado. E nunca mais chegou a menos de cinquenta metros de qualquer vitrine que exibisse um paletó marrom. Porque certas lições a vida ensina. Outras, ela esfrega na sua cara duas vezes. E algumas vêm forradas em seda chinesa, com bolsos de pele de chinchila e uma maldição conjugal embutida no preço.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 27

 


27. Agosto de 1982. O GRES Vitória Régia conseguiu um feito que, para a época, equivalia a contratar os Rolling Stones para tocar no quintal de casa: trazer Martinho da Vila para um show exclusivo em Manaus. Durante um mês inteiro, um carro volante percorreu a cidade anunciando o acontecimento histórico. O veículo atravessou becos, avenidas, igarapés, invasões, conjuntos habitacionais e provavelmente algumas dimensões paralelas, repetindo sem descanso:

– Grande show de Martinho da Vila! Grande show de Martinho da Vila!

A diretoria da escola fazia contas otimistas. Casa cheia. Lucro garantido. Prestígio em alta. Nada poderia dar errado. Naturalmente, tudo deu errado.

Poucas horas antes da apresentação, já instalado no hotel, Martinho da Vila chamou um assessor e comunicou uma necessidade que considerava tão importante quanto afinar os instrumentos ou testar o sistema de som. Precisava relaxar. Mais especificamente, precisava fumar um cigarro de índio.

O assessor entendeu a gravidade da situação. Afinal, havia missões impossíveis, missões suicidas e missões envolvendo artistas antes de um show. Depois de uma sequência frenética de telefonemas, surgiu um nome: Chico Padeiro. Morador da Cachoeirinha. Lenda viva. Fornecedor cuja reputação corria pela cidade com a mesma velocidade das fofocas e das contas atrasadas.

Os dois embarcaram num táxi e seguiram para a residência do mestre artesão botânico. Ao chegarem, foram recebidos pelo próprio Chico Padeiro, que os acolheu com a elegância de um sommelier francês recebendo a visita da realeza. Cumpridos os protocolos iniciais, Chico entrou na casa. Minutos depois retornou carregando uma pequena mala de couro.

Martinho observava tudo sentado numa cadeira de macarrão, dessas que transformam qualquer varanda em consultório de psicólogo. Chico pousou a mala aos seus pés. Abriu. O conteúdo era tão abundante que a mala parecia ter sido preparada para abastecer uma pequena república independente. Com humildade profissional, Chico explicou:

– Pode fazer uma presença pra saber se o produto é bom.

Era como oferecer uma colherada de sorvete ao cliente antes da compra. Martinho aprovou o procedimento. Pegou uma amostra. Preparou o finório com a precisão de um relojoeiro suíço. Acendeu. Deu uma tragada. Depois outra. Depois uma terceira, daquelas capazes de fazer um sujeito conversar amigavelmente com as cortinas da sala. Prendeu a respiração. Fechou os olhos. Esperou. E aguardou a chegada do famoso tapa da pantera. O tapa chegou. Chegou de caminhão. Chegou de carreta. Chegou acompanhado de banda de música.

Porque, segundos depois, Martinho abriu os olhos e pronunciou uma das mais importantes avaliações de qualidade já registradas na história do comércio informal amazônico:

– A mala é minha.

Fez uma pausa. Olhou novamente para a mercadoria. E reforçou:

– A mala é minha!

Negócio fechado.

Enquanto isso, na quadra da Vitória Régia, milhares de pessoas aguardavam o artista. O horário passou. Mais um pouco. Mais um tanto. E nada de Martinho. Os dirigentes começaram a suar em bicas. A plateia começou a reclamar. A reclamação virou revolta. A revolta começou a flertar com o motim. Em poucos minutos, a situação exigiu a presença da Polícia de Choque para convencer a multidão de que incendiar a quadra talvez não fosse a solução mais adequada.

Na Cachoeirinha, porém, o clima era completamente diferente. Ali reinava a paz. A serenidade. A contemplação. O estado zen. Indiferente ao caos que se instalava na Praça 14, Martinho permaneceu afundado na cadeira de macarrão, apreciando a brisa da varanda e estudando com rigor científico a qualidade extraordinária do produto fornecido por Chico Padeiro.

O show foi cancelado. A escola entrou em parafuso. A polícia trabalhou. O público esbravejou. E Martinho passou a noite inteira firme em sua missão de pesquisa. Porque existem artistas que cancelam apresentações por problemas técnicos. Outros por questões de saúde. E existe o raro caso do sujeito que encontra uma varanda ventilada, uma cadeira confortável e uma mercadoria de qualidade internacional. Contra uma combinação dessas, simplesmente não há produtor cultural que dê jeito.

quarta-feira, agosto 19, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 26

 


26. O sambista Dominguinhos do Estácio desembarcaria em Manaus numa terça-feira para cumprir uma verdadeira jornada de operário do entretenimento: apresentações diárias até domingo. Tudo corria conforme o planejado até que alguém percebeu uma brecha na agenda da sexta-feira. Dominguinhos, que não tinha alergia a dinheiro, ligou imediatamente para Edu do Banjo.

– Meu camarada, não tem nenhum canto onde eu possa cantar na sexta? Levantar um troquinho? Comprar um pão com manteiga?

Edu começou a mexer os pauzinhos e conseguiu interessar a diretoria da Associação Atlética Banco do Brasil. Fechado o negócio, o show seria exclusivo para os associados da AABB. Coube a Edu vender as mesas por um preço camarada, suficiente para garantir o cachê do artista.

Entre os compradores apareceu Nailson Brito, bancário pernambucano, especialista em forró pé de serra, apreciador profissional de cachaça de cabeça e proprietário de uma confiança quase infantil na humanidade. Tão logo ouviu falar que haveria um show de um sujeito chamado Dominguinhos, comprou cinco mesas. Cinco. Vinte lugares. O homem mobilizou parentes, amigos, agregados, vizinhos e talvez até alguns transeuntes capturados na rua.

Na noite do espetáculo, Nailson era a própria personificação da felicidade. Instalou sua tropa a poucos metros do palco e aguardava ansiosamente o momento em que ouviria os primeiros acordes de sanfona. O show começou. Primeiro veio um grupo de pagode local. Depois, finalmente, surgiu Dominguinhos.

Nailson ajeitou-se na cadeira. A qualquer momento viria “Eu Só Quero um Xodó”. Não veio. O cantor abriu os trabalhos com um samba-enredo. Depois outro. Depois mais outro. A seguir mergulhou em partido-alto, samba-canção, pagode, jongo, lundu, breque, terreiro e tudo o mais que a cultura afro-brasileira havia produzido nos últimos cem anos. A sanfona não apareceu. A zabumba não apareceu. O triângulo não apareceu. “Asa Branca” continuava desaparecida.

Duas horas depois, Dominguinhos do Estácio encerrou o espetáculo sob aplausos entusiasmados da plateia. A plateia inteira. Ou quase. Nailson Brito estava sentado à mesa com a expressão de um homem que acabara de descobrir que comprou uma passagem para Recife e desembarcou em Vladivostok. Ao avistar Edu do Banjo, saiu em sua direção feito um fiscal da Receita atrás de sonegador.

– Que merda foi essa, Edu? Que merda foi essa?

Edu estranhou.

– Calma, mestre! O que aconteceu?

– Aconteceu que vocês vão devolver o dinheiro das minhas cinco mesas!

– Mas por quê?

Nailson respirou fundo para organizar a indignação.

– Porque isso foi propaganda enganosa da mais baixa categoria!

– Como assim?

– Porra, Edu! Eu trago minha família inteira pra assistir Dominguinhos e o cidadão passa duas horas cantando música que ninguém conhece!

– ...

— Não trouxe a sanfona!

– ...

– Ninguém sabe tocar zabumba!

– ...

– Ninguém sabe tocar triângulo!

– ...

– E aquele filho de uma égua ainda termina o show sem cantar “Asa Branca”!

A cada argumento, Edu sentia sua alma abandonar lentamente o corpo.

– Nailson...

– O quê?

– Acho que houve um pequeno mal-entendido.

– Pequeno?

– O Dominguinhos que você está pensando é o sanfoneiro.

– Claro!

– Esse aqui é o Dominguinhos do Estácio.

Seguiu-se um silêncio tão grande que dava para ouvir o gelo derretendo dentro dos copos. Nailson piscou algumas vezes. Olhou para o palco. Olhou para Edu. Olhou para os parentes. Olhou novamente para o palco. E finalmente compreendeu que havia comprado cinco mesas para assistir ao artista errado. Aquele talvez tenha sido o único caso documentado de um pernambucano que foi a um show de samba e saiu reclamando da ausência de sanfona. Durante semanas, a família inteira debochou dele. E com razão.