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segunda-feira, agosto 24, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 32

 


32. Réveillon de 2002 no Rio de Janeiro. A multidão lotava o Piscinão de Ramos para a festa da virada. Milhares de pessoas. Fogos. Música. Cerveja quente. Esperança renovada. Tudo corria dentro da normalidade prevista para uma comemoração popular brasileira. Até que alguém resolveu elogiar Jamelão. Foi aí que o problema começou. No palco, o lendário cantor se preparava para cantar quando surgiu um coro espontâneo no meio da multidão:

– Lindo e gostosão! Bonito é o Jamelão!

O coro cresceu.

– Lindo e gostosão! Bonito é o Jamelão!

Mais gente aderiu.

– Lindo e gostosão! Bonito é o Jamelão!

Qualquer artista normal teria aberto um sorriso. Alguns chorariam. Outros agradeceriam. Jamelão não era um artista normal. Jamelão parecia ter sido fabricado numa linha de montagem defeituosa, onde esqueceram de instalar o módulo responsável por receber elogios. Seu semblante fechou imediatamente. Pegou o microfone. Respirou fundo. E respondeu com a delicadeza de um fiscal da Receita cobrando imposto atrasado:

– Menos, gente! Menos! Eu disse menos!

A multidão caiu na gargalhada. E o Brasil ganhou mais uma história para a coleção. Porque Jamelão era provavelmente o único sujeito do planeta capaz de tomar uma cantada coletiva de milhares de pessoas e responder como quem está repreendendo uma turma de alunos bagunceiros.

Meses depois, quando completou 90 anos, teve início uma verdadeira epidemia de homenagens. Eis outro problema. Jamelão detestava homenagens. Na sua concepção filosófica, homenagem era uma espécie de cheque sem fundos. Todo mundo entregava. Ninguém conseguia descontar. Quando um jornalista perguntou o que ele achava das celebrações, respondeu:

– Homenagem é dinheiro no bolso. E isso eu não tenho.

Era sua maneira elegante de dizer: “Obrigado pelo carinho. Agora paguem minhas contas.”

A própria Mangueira resolveu torná-lo presidente de honra. Os dirigentes convocaram veteranos históricos da escola. Discutiram. Analisaram. Refletiram. E concluíram que o nome de Jamelão era unanimidade. Foi aclamado sem necessidade de votação. Qualquer mangueirense morreria de felicidade. Jamelão não. Ao saber da novidade, limitou-se a resmungar:

– Isso não me diz nada. Não paga meu aluguel.

A frase produziu o mesmo efeito de jogar um balde de água gelada numa festa de casamento. Mas ninguém se surpreendeu. Os mangueirenses já estavam vacinados. Conviver com Jamelão era como criar um tigre de estimação. Você sabia que existia carinho ali dentro. Só não esperava demonstrações públicas.

Enquanto outros intérpretes trocavam de escola como jogadores de futebol trocam de clube, Jamelão permaneceu décadas na Mangueira. Quando alguém elogiava sua fidelidade, ele reagia quase ofendido: “– E daí? O que tem de mais?” Era como se um sujeito escalasse o Everest descalço e depois comentasse: “Foi uma caminhadinha.” Mas o auge da lenda talvez esteja nas histórias de convivência.

Certa vez, durante uma viagem de ônibus, o pesquisador Sérgio Cabral encontrou o amigo Nei Lopes ao desembarcar.

– Dei sorte. Passei a viagem inteira conversando com Djavan – avisou Sérgio Cabral.

Nei respondeu:

– Pois eu viajei ao lado de Jamelão.

– E aí?

– Assim que o ônibus saiu, eu disse que estava morando perto da casa dele.

– E ele?

– Respondeu: “Sei.”

E foi isso. Fim da conversa. Durante horas. Jamelão conseguiu transformar uma viagem interestadual numa experiência monástica de silêncio absoluto.

Mas nada supera a história envolvendo Cauby Peixoto. Os dois estavam num estúdio. Jamelão cochilava. Cauby passou e resolveu brincar:

– Dorminhoco, hein, professor?

Jamelão abriu os olhos. Olhou para Cauby. Pensou por um segundo. E disparou:

– Posso até ser dorminhoco. Mas pelo menos sou homem. Nunca sentei em cadeira ocupada.

A frase atravessou o estúdio como um míssil terra-ar. Provavelmente até os microfones ficaram constrangidos. E o mais impressionante é que ninguém guardava mágoa. Porque por trás da casca de lixa número 80 existia um sujeito generoso, leal à Mangueira e apaixonado pelo samba.

O problema era que Deus distribuiu simpatia quando Jamelão estava ocupado cantando. Assim, passou nove décadas colecionando admiradores, homenagens, títulos, reverências e elogios. E passou as mesmas nove décadas reclamando de todos eles. Talvez porque, no fundo, ele acreditasse que aplauso é muito bonito. Mas boleto quitado é mais bonito ainda.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 31

 


31. Conversa vadia no bar “Rolo Compressor”, lá no bairro da Raiz:

– O Nacional salvou a minha vida! – falou de supetão Luiz Henrique, um fastiano raiz.

– Sério, parente?! Mas como foi isso? – questionou João Gadelha, outro fastiano roxo.

– Eu estava há oito meses em coma, desenganado pelos médicos. Foi quando uma enfermeira colocou um pequeno rádio de pilha no quarto e deixou ligado bem baixinho, para mim…

– Que história bacana! E como aquela desgraça da Vila Municipal te salvou?...

– Domingo a tarde começou um jogo no Maracanã entre Nacional e Maringá, na preliminar de Brasil e Venezuela… Ninguém por perto, tive que levantar para desligar aquela merda!

Naquele dia, o Nacional ganhou de 1 a zero do Maringá, gol do ponta-esquerda Pepeta.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 30

 


30. Conforme qualquer sambista minimamente traumatizado sabe, a alma de uma escola de samba não está no presidente, no carnavalesco nem na rainha de bateria. A alma de uma escola de samba mora no diretor de barracão, aquele cidadão que passa meses respirando tinta, solda, cola de contato e desespero enquanto tenta transformar delírios carnavalescos em objetos que não desabem antes da dispersão. O carnavalesco sonha. O diretor de barracão sofre.

Para facilitar a compreensão, pense em Brasília. Todo mundo conhece Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, os gênios responsáveis pelo projeto da cidade. Numa escola de samba, eles seriam os carnavalescos: sujeitos que acordam às três da manhã com a brilhante ideia de colocar um dragão voador de quinze metros cuspindo fogo e cantando ópera.

Já Joaquim Cardozo, o engenheiro responsável pelos cálculos estruturais, seria o diretor de barracão. O homem que precisava ouvir a ideia do dragão e responder:

– Tá bom. Mas onde é que eu vou arrumar a porra do parafuso?

Sem Cardozo, Brasília seria apenas um belo conjunto de desenhos. Sem diretor de barracão, o carnaval seria uma reunião de pessoas segurando croquis e chorando.

Em meados dos anos 90, o GRES Reino Unido tinha como diretor de barracão o lendário Sabazinho, um homem que possuía a estabilidade emocional de uma panela de pressão esquecida no fogo. Sabazinho amava seus carros alegóricos mais do que a maioria das pessoas ama seus próprios filhos. Na verdade, mais do que isso: filhos crescem, respondem aos pais e dão despesas. Alegorias obedecem.

Ele tratava cada peça produzida no barracão como se fosse patrimônio artístico da humanidade. Se alguém arranhasse uma alegoria, Sabazinho reagia como se estivesse assistindo ao incêndio da Biblioteca de Alexandria.

No dia do desfile, sua delicadeza habitual desaparecia completamente. Naquelas horas, ele passava a enxergar inimigos por toda parte. Motoristas, componentes, diretores, jurados, vendedores de churrasquinho e possivelmente até o Papa eram suspeitos de alguma conspiração para destruir suas obras-primas. Só não andava armado porque a diretoria da escola, infelizmente, era contra.

Como toda escola de samba digna desse nome, a Reino Unido chegou ao desfile com apenas alguns detalhes pendentes. Entre esses detalhes estavam a pintura do último carro alegórico, a montagem de algumas alegorias e, aparentemente, a conclusão de metade do projeto. Enquanto as primeiras alas já avançavam pela Djalma Batista, o último carro ainda recebia generosas borrifadas de spray dourado.

Lá em cima, montado na alegoria como um imperador romano fiscalizando escravos, Sabazinho distribuía ordens aos berros.

Foi nesse cenário de absoluta normalidade que surgiu o recém-empossado diretor de Harmonia, delegado Petrônio Carvalho. Engomado. Alinhado. Perfumado. Parecia alguém prestes a participar de uma solenidade da Polícia Civil, não de uma operação de guerra carnavalesca.

Naquele momento havia um problema: o carro alegórico da Medusa era tão grande que não conseguia passar pelo Boulevard Amazonas porque alguns cidadãos de bem haviam estacionado seus veículos exatamente onde não deviam. A solução técnica encontrada foi a mesma que os engenheiros da Nasa provavelmente utilizam em situações semelhantes: empurrar tudo na força do ódio.

Enquanto dezenas de homens tentavam deslocar a alegoria, Sabazinho avistou Petrônio observando a cena. A reação foi imediata:

– Tu tá fazendo o quê parado aí, ô Zé-Boceta? Mete a mão nessa porra e ajuda os outros! Quer vender beleza? Vai pra praça da Prefeitura!

Petrônio ficou tão surpreso que nem teve tempo de se ofender. Apenas entrou na operação. Cinco minutos depois estava coberto de tinta dourada. De delegado elegante havia evoluído para uma espécie de estátua ambulante do Oscar.

Mas o universo ainda não havia terminado de humilhá-lo. Duzentos metros adiante surgiu novo obstáculo: um Fusca estacionado em fila dupla. O carro da Medusa não passava. A escola não podia esperar. A lógica carnavalesca entrou em ação. Sabazinho, instalado na cabeça de Perseu como um general romano em surto psicótico, passou a berrar:

– Peguem essa porra desse carro de pobre e joguem do outro lado da rua! Joguem no quinto dos infernos! A gente vai perder ponto!

A frase talvez não constasse nos manuais de trânsito, mas foi recebida com entusiasmo pelos presentes. Depois de quebrarem um vidro, destravarem a direção e realizarem procedimentos que fariam qualquer corretora de seguros entrar em colapso nervoso, cerca de vinte homens levantaram o Fusca nos braços. Entre eles estava o delegado Petrônio Carvalho.

Sim. Um delegado da Polícia Civil. Carregando um veículo alheio após participar da invasão e depredação do mesmo. Foi então que ocorreu uma rara manifestação de lucidez. Enquanto transportava o Fusca, Petrônio teve um pensamento desconfortável:

– Espera aí... Eu sou uma autoridade constituída. Passei a vida defendendo a legalidade. E neste exato momento estou participando de um sequestro coletivo de automóvel.

A iluminação foi instantânea. Largou o carro. Largou a escola. Largou o carnaval. Largou provavelmente qualquer esperança de compreender a raça humana. Montou no seu alazão e desapareceu no horizonte. Dizem que nunca mais voltou ao GRES Reino Unido. Talvez porque tenha percebido que existe uma fronteira muito tênue entre a organização de um desfile de carnaval e a prática de crimes patrimoniais em grupo. E, naquele dia, essa fronteira foi atropelada por uma Medusa dourada.

quinta-feira, agosto 20, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 29

 


29. Fevereiro de 1984. Amigos desde os tempos heroicos de Irajá, quando ainda dividiam sonhos, sambas e provavelmente algumas dívidas, Nei Viana e Zeca Pagodinho desembarcaram em Manaus para ajudar nos ensaios de Carlinhos de Pilares, puxador de samba do GRES Andanças de Ciganos. 

A missão oficial era fortalecer o samba. A missão paralela era conferir se eram verdadeiras as lendas que chegavam ao Rio de Janeiro sobre um certo Chico Padeiro, personagem cercado por um misticismo que misturava traficante, alquimista e fornecedor oficial da alegria da Cachoeirinha.

Numa noite de sábado, enquanto a quadra fervilhava de ritmistas, passistas e bebedores profissionais, Zeca Pagodinho encontrava-se numa situação delicada. Muito delicada. Mais precisamente, estava parado na esquina das ruas Parintins e Borba, do outro lado do Top Bar, aguardando o retorno de seus companheiros. Nei Viana, Carlinhos de Pilares e Mestre Roxinho haviam saído numa expedição de abastecimento e demoravam além do razoável.

Zeca aguardava. Esperava. Suspirava. Consultava o relógio. Tornava a suspirar. O homem estava numa ansiedade capaz de envelhecer uma tartaruga. Foi então que surgiu Jacó Fernandes, caminhando tranquilamente em direção ao ensaio, duas baquetas na mão e zero preocupação na cabeça. Zeca viu nele uma luz no fim do túnel. Infelizmente, era um trem vindo na direção contrária.

– Ô, gente boa, será que você podia me fazer um favor? – perguntou.

Jacó respondeu com a cautela de quem já tinha visto muita coisa na vida:

– Depende...

– Tô querendo apertar um beise. Será que você consegue alguma coisa pra mim? De preferência do Chico Padeiro...

Ao ouvir aquele nome, Jacó quase se sentiu ofendido.

– Chico Padeiro?

Fez uma pausa dramática.

– Aquilo só vende palha, coentro e bosta de vaca, porra!

Zeca arregalou os olhos. Jacó continuou:

– Bagulho bom mesmo quem tem é o Pirarucu, lá no Bodozal da Maués.

A segurança com que ele falou era impressionante. Parecia um especialista apresentando um artigo científico num congresso internacional. Os olhos de Zeca brilharam. Finalmente encontrara uma solução. Sem hesitar, entregou cerca de 200 pilas ao emissário. Jacó guardou o dinheiro. Ajustou as baquetas. Desceu a ladeira da Rua Parintins em direção ao Bodozal da Maués e desapareceu. Como fumaça. Como miragem. Como promessa de político em ano eleitoral.

Passou uma hora. Passaram duas. Passou um tempo suficiente para um sujeito rever toda a própria existência. E nada de Jacó. Foi então que apareceu Nego Keko. Encontrou Zeca exatamente no mesmo lugar. Mesma esquina. Mesma posição. Mesma esperança. O mesmo prejuízo.

Depois de ouvir toda a história, Keko balançou a cabeça com pena. Era como um veterinário examinando um cachorro atropelado.

– Você perdeu, playboy. Você perdeu.

– Como assim?

– O cara não volta mais nem pelo caralho.

Zeca sentiu um arrepio.

– Não fala isso...

– A essa altura ele já deve estar apertando o black com a turma dele. Conheço essa raça...

O silêncio que se seguiu foi devastador. Zeca olhou para o horizonte. Olhou para a rua. Olhou para o bolso. Olhou novamente para a rua. E compreendeu. Havia sido vítima de um dos mais antigos golpes da humanidade. O famoso “vou ali e já volto”. Mordido pela indignação, resmungou:

– Caraco, mano... Eu vir lá do Rio de Janeiro pra tomar banho em Manaus...

Fez uma pausa.

– Assim é foda...

E voltou para a quadra dos Ciganos carregando apenas duas coisas: a decepção e a certeza de que Jacó Fernandes era mais rápido desaparecendo com dinheiro do que muito velocista olímpico.

Felizmente, quando tudo parecia perdido, surgiu Carlinhos de Pilares trazendo uma generosa pacoteira da famosa erva do Chico Padeiro. A paz voltou ao universo. O samba voltou a soar bonito. A vida voltou a fazer sentido.

E Zeca aprendeu uma importante lição sobre a fauna humana da Cachoeirinha: se um sujeito desconhecido disser que conhece um fornecedor melhor, primeiro exija referências. Ou, no mínimo, um fiador.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 28

 


28. Um dos maiores talentos produzidos pelo Morro da Liberdade, o compositor, ritmista e designer gráfico Jorge Halen – conhecido em todos os continentes civilizados como Mestre Chocolate – sempre teve uma vida amorosa tão tranquila quanto uma convenção de anarquistas armados.

Mulherengo desde a mais tenra infância, Chocolate era daqueles sujeitos que, ao passar por uma maternidade, já saía distribuindo piscadelas para as enfermeiras. Aos 19 anos, porém, aconteceu o impensável. Cupido, aquele delinquente reincidente que vive destruindo a vida dos outros em nome do romantismo, acertou-lhe uma flechada em cheio.

A vítima era uma passista do Morro da Liberdade cuja padaria, segundo testemunhas da época, possuía atributos arquitetônicos capazes de provocar acidentes de trânsito. Chocolate apaixonou-se imediatamente. Namorou. Noivou. Casou. Tudo em menos de seis meses. Tempo insuficiente para amadurecer um abacate, mas aparentemente suficiente para tomar decisões irreversíveis.

Para a cerimônia, escolheu pessoalmente um magnífico paletó marrom. Não era um simples paletó. Era uma entidade. Uma instituição. Uma obra de arte têxtil. Segundo o poeta Gilsinho Nogueira, a cor era “mel com areia”. Segundo o resto da humanidade, era simplesmente marrom. O traje possuía revestimento em seda chinesa, bolsos de pele de chinchila e uma aparência geral que sugeria a união estética entre um diplomata soviético e um cantor de bolero.

No dia do casamento, Chocolate estava feliz. Ridiculamente feliz. Perigosamente feliz. A lua de mel aconteceu numa pousada do Paraná do Ramos e durou mais de uma semana. Menos de um ano depois, a esposa resolveu terceirizar os serviços afetivos. Quando Chocolate descobriu que o novo ocupante da concessão amorosa era um dono de panificadora, cogitou incendiar uma padaria inteira apenas por coerência temática. Foi impedido pelos amigos Carlão, Gilsinho, Jairo, Ivan, Bosco e Luizinho, homens que passariam boa parte da vida exercendo a função de contenção de danos emocionais.

Passado algum tempo, as lágrimas secaram. As feridas cicatrizaram. E Chocolate voltou ao mercado. Conheceu outra passista. Apaixonou-se novamente. Namorou. Noivou. Casou. Tudo em menos de seis meses. Porque a experiência é uma professora excelente, mas alguns alunos faltam às aulas.

Mais uma vez surgiu o lendário paletó cor de mel com areia. Mais uma vez a cerimônia foi realizada. Mais uma vez a lua de mel foi um sucesso. E mais uma vez a esposa resolveu fazer intercâmbio afetivo. Desta vez o contemplado foi um violonista de bossa nova.

Ao saber da notícia, Chocolate cogitou destruir sua coleção de discos de João Gilberto. Não por raiva do cantor. Por associação criminosa de estilo musical. Novamente os amigos intervieram. Novamente evitaram uma tragédia. Novamente recolheram os pedaços do coração do companheiro.

Depois do segundo desastre conjugal, Chocolate desenvolveu uma teoria revolucionária. Virou vegetariano. Ninguém sabe exatamente qual a relação entre alface e fidelidade matrimonial, mas ele acreditou firmemente no método. Passou a consumir apenas “brotinhos” prestes a desabrochar. Foi nessa época que um amigo resolveu casar.

Como era um homem generoso, Chocolate emprestou ao compadre seu velho paletó marrom. Sim. O mesmo. O lendário. O maldito. O cor de mel com areia. O equivalente amazônico do Anel de Sauron.

O compadre usou o traje. Casou-se. Sorriu. Posou para fotos. Foi feliz. Durante aproximadamente seis meses. Quando completou meio ano de matrimônio, tornou-se membro efetivo da Confraria Internacional de São Cornélio, padroeiro informal dos maridos surpreendidos pelos fatos. Foi aí que a situação começou a parecer estatisticamente suspeita.

Carlão Nascimento, engenheiro, juiz de futebol, sambista e estudante de parapsicologia nas horas vagas – currículo que sozinho já justificaria uma tese acadêmica –, resolveu investigar. Pediu as fotografias dos dois casamentos de Chocolate. Analisou tudo cuidadosamente. E quase teve um infarto. Com exceção do padre e de dois coroinhas, praticamente todos os homens que apareciam nas fotos haviam sido corneados em algum momento da vida. Aquilo já não era coincidência. Era uma epidemia.

Carlão passou uma semana inteira estudando o fenômeno. Fez anotações. Traçou diagramas. Levantou hipóteses. Nada fazia sentido. Até que tomou a única atitude possível diante de um problema científico dessa magnitude. Consultou Mãe Zulmira.

A respeitada líder espiritual ouviu o relato. Jogou búzios. Conversou com entidades. Consultou forças invisíveis. Fez uma auditoria completa no além. E apresentou o diagnóstico:

– Mande meu zifio jogar fora esse paletó. Esse troço atrai desgraça.

Estava encerrada a investigação. O culpado havia sido identificado. Não eram as esposas. Não eram os amantes. Não era Cupido. Era o paletó.

Convencer Chocolate a se desfazer da peça, entretanto, revelou-se tarefa quase impossível. Foi necessária uma operação conjunta. Enquanto Carlão aplicava um mata-leão digno de campeonato mundial, Bosco Saraiva segurava as pernas. Gilsinho e Ivan invadiram a residência. Localizaram o artefato. E conduziram sua execução sumária.

O paletó foi queimado no cruzamento das ruas São Pedro e Martins Santana sob circunstâncias que lembravam um exorcismo medieval. Houve pólvora. Houve cachaça. Houve galinhas pretas. Faltou apenas chamar o Vaticano. Mas funcionou. O descarrego deu certo.

Alguns anos depois, Chocolate conheceu uma mulher maravilhosa. Constituiu família. Encontrou paz. Nunca mais foi traído. Nunca mais foi corneado. E nunca mais chegou a menos de cinquenta metros de qualquer vitrine que exibisse um paletó marrom. Porque certas lições a vida ensina. Outras, ela esfrega na sua cara duas vezes. E algumas vêm forradas em seda chinesa, com bolsos de pele de chinchila e uma maldição conjugal embutida no preço.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 27

 


27. Agosto de 1982. O GRES Vitória Régia conseguiu um feito que, para a época, equivalia a contratar os Rolling Stones para tocar no quintal de casa: trazer Martinho da Vila para um show exclusivo em Manaus. Durante um mês inteiro, um carro volante percorreu a cidade anunciando o acontecimento histórico. O veículo atravessou becos, avenidas, igarapés, invasões, conjuntos habitacionais e provavelmente algumas dimensões paralelas, repetindo sem descanso:

– Grande show de Martinho da Vila! Grande show de Martinho da Vila!

A diretoria da escola fazia contas otimistas. Casa cheia. Lucro garantido. Prestígio em alta. Nada poderia dar errado. Naturalmente, tudo deu errado.

Poucas horas antes da apresentação, já instalado no hotel, Martinho da Vila chamou um assessor e comunicou uma necessidade que considerava tão importante quanto afinar os instrumentos ou testar o sistema de som. Precisava relaxar. Mais especificamente, precisava fumar um cigarro de índio.

O assessor entendeu a gravidade da situação. Afinal, havia missões impossíveis, missões suicidas e missões envolvendo artistas antes de um show. Depois de uma sequência frenética de telefonemas, surgiu um nome: Chico Padeiro. Morador da Cachoeirinha. Lenda viva. Fornecedor cuja reputação corria pela cidade com a mesma velocidade das fofocas e das contas atrasadas.

Os dois embarcaram num táxi e seguiram para a residência do mestre artesão botânico. Ao chegarem, foram recebidos pelo próprio Chico Padeiro, que os acolheu com a elegância de um sommelier francês recebendo a visita da realeza. Cumpridos os protocolos iniciais, Chico entrou na casa. Minutos depois retornou carregando uma pequena mala de couro.

Martinho observava tudo sentado numa cadeira de macarrão, dessas que transformam qualquer varanda em consultório de psicólogo. Chico pousou a mala aos seus pés. Abriu. O conteúdo era tão abundante que a mala parecia ter sido preparada para abastecer uma pequena república independente. Com humildade profissional, Chico explicou:

– Pode fazer uma presença pra saber se o produto é bom.

Era como oferecer uma colherada de sorvete ao cliente antes da compra. Martinho aprovou o procedimento. Pegou uma amostra. Preparou o finório com a precisão de um relojoeiro suíço. Acendeu. Deu uma tragada. Depois outra. Depois uma terceira, daquelas capazes de fazer um sujeito conversar amigavelmente com as cortinas da sala. Prendeu a respiração. Fechou os olhos. Esperou. E aguardou a chegada do famoso tapa da pantera. O tapa chegou. Chegou de caminhão. Chegou de carreta. Chegou acompanhado de banda de música.

Porque, segundos depois, Martinho abriu os olhos e pronunciou uma das mais importantes avaliações de qualidade já registradas na história do comércio informal amazônico:

– A mala é minha.

Fez uma pausa. Olhou novamente para a mercadoria. E reforçou:

– A mala é minha!

Negócio fechado.

Enquanto isso, na quadra da Vitória Régia, milhares de pessoas aguardavam o artista. O horário passou. Mais um pouco. Mais um tanto. E nada de Martinho. Os dirigentes começaram a suar em bicas. A plateia começou a reclamar. A reclamação virou revolta. A revolta começou a flertar com o motim. Em poucos minutos, a situação exigiu a presença da Polícia de Choque para convencer a multidão de que incendiar a quadra talvez não fosse a solução mais adequada.

Na Cachoeirinha, porém, o clima era completamente diferente. Ali reinava a paz. A serenidade. A contemplação. O estado zen. Indiferente ao caos que se instalava na Praça 14, Martinho permaneceu afundado na cadeira de macarrão, apreciando a brisa da varanda e estudando com rigor científico a qualidade extraordinária do produto fornecido por Chico Padeiro.

O show foi cancelado. A escola entrou em parafuso. A polícia trabalhou. O público esbravejou. E Martinho passou a noite inteira firme em sua missão de pesquisa. Porque existem artistas que cancelam apresentações por problemas técnicos. Outros por questões de saúde. E existe o raro caso do sujeito que encontra uma varanda ventilada, uma cadeira confortável e uma mercadoria de qualidade internacional. Contra uma combinação dessas, simplesmente não há produtor cultural que dê jeito.

quarta-feira, agosto 19, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 26

 


26. O sambista Dominguinhos do Estácio desembarcaria em Manaus numa terça-feira para cumprir uma verdadeira jornada de operário do entretenimento: apresentações diárias até domingo. Tudo corria conforme o planejado até que alguém percebeu uma brecha na agenda da sexta-feira. Dominguinhos, que não tinha alergia a dinheiro, ligou imediatamente para Edu do Banjo.

– Meu camarada, não tem nenhum canto onde eu possa cantar na sexta? Levantar um troquinho? Comprar um pão com manteiga?

Edu começou a mexer os pauzinhos e conseguiu interessar a diretoria da Associação Atlética Banco do Brasil. Fechado o negócio, o show seria exclusivo para os associados da AABB. Coube a Edu vender as mesas por um preço camarada, suficiente para garantir o cachê do artista.

Entre os compradores apareceu Nailson Brito, bancário pernambucano, especialista em forró pé de serra, apreciador profissional de cachaça de cabeça e proprietário de uma confiança quase infantil na humanidade. Tão logo ouviu falar que haveria um show de um sujeito chamado Dominguinhos, comprou cinco mesas. Cinco. Vinte lugares. O homem mobilizou parentes, amigos, agregados, vizinhos e talvez até alguns transeuntes capturados na rua.

Na noite do espetáculo, Nailson era a própria personificação da felicidade. Instalou sua tropa a poucos metros do palco e aguardava ansiosamente o momento em que ouviria os primeiros acordes de sanfona. O show começou. Primeiro veio um grupo de pagode local. Depois, finalmente, surgiu Dominguinhos.

Nailson ajeitou-se na cadeira. A qualquer momento viria “Eu Só Quero um Xodó”. Não veio. O cantor abriu os trabalhos com um samba-enredo. Depois outro. Depois mais outro. A seguir mergulhou em partido-alto, samba-canção, pagode, jongo, lundu, breque, terreiro e tudo o mais que a cultura afro-brasileira havia produzido nos últimos cem anos. A sanfona não apareceu. A zabumba não apareceu. O triângulo não apareceu. “Asa Branca” continuava desaparecida.

Duas horas depois, Dominguinhos do Estácio encerrou o espetáculo sob aplausos entusiasmados da plateia. A plateia inteira. Ou quase. Nailson Brito estava sentado à mesa com a expressão de um homem que acabara de descobrir que comprou uma passagem para Recife e desembarcou em Vladivostok. Ao avistar Edu do Banjo, saiu em sua direção feito um fiscal da Receita atrás de sonegador.

– Que merda foi essa, Edu? Que merda foi essa?

Edu estranhou.

– Calma, mestre! O que aconteceu?

– Aconteceu que vocês vão devolver o dinheiro das minhas cinco mesas!

– Mas por quê?

Nailson respirou fundo para organizar a indignação.

– Porque isso foi propaganda enganosa da mais baixa categoria!

– Como assim?

– Porra, Edu! Eu trago minha família inteira pra assistir Dominguinhos e o cidadão passa duas horas cantando música que ninguém conhece!

– ...

— Não trouxe a sanfona!

– ...

– Ninguém sabe tocar zabumba!

– ...

– Ninguém sabe tocar triângulo!

– ...

– E aquele filho de uma égua ainda termina o show sem cantar “Asa Branca”!

A cada argumento, Edu sentia sua alma abandonar lentamente o corpo.

– Nailson...

– O quê?

– Acho que houve um pequeno mal-entendido.

– Pequeno?

– O Dominguinhos que você está pensando é o sanfoneiro.

– Claro!

– Esse aqui é o Dominguinhos do Estácio.

Seguiu-se um silêncio tão grande que dava para ouvir o gelo derretendo dentro dos copos. Nailson piscou algumas vezes. Olhou para o palco. Olhou para Edu. Olhou para os parentes. Olhou novamente para o palco. E finalmente compreendeu que havia comprado cinco mesas para assistir ao artista errado. Aquele talvez tenha sido o único caso documentado de um pernambucano que foi a um show de samba e saiu reclamando da ausência de sanfona. Durante semanas, a família inteira debochou dele. E com razão.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 26

 


25. Fevereiro de 1979. Sábado magro de carnaval. Tão magro que dava para contar as costelas da folia. O folião Sicy Pirangy resolveu dar uma passada no Top Bar, lá na Cachoeirinha, para conferir o movimento e quase entrou em depressão ao encontrar o estabelecimento praticamente alugado para as moscas. O bar estava mais vazio que carteira de estudante na última semana do mês.

Num canto, sentados com cara de quem tinha acabado de receber uma ordem de despejo da própria dignidade, estavam Zeca Boy e Luiz Lobão.

Os dois conversavam baixinho, cultivando aquela expressão melancólica típica de quem possui muitos sonhos e exatamente nenhum tostão. Sicy chegou chegando:

– Cadê o resto da turma, porra?

– Foi todo mundo pro baile de carnaval no Clube Municipal! – respondeu Zeca Boy.

– E vocês ficaram plantados aqui por quê?

Luiz Lobão suspirou fundo:

– Porque, se jogarem um gato em cima da gente, ele escorrega. Estamos mais lisos que muçum ensebado.

Sicy abriu um sorriso daqueles que normalmente antecedem uma tragédia.

– É só isso? Seus problemas acabaram. Venham comigo!

A frase, que em qualquer filme sério seria seguida de uma solução milagrosa, naquele caso era apenas o prenúncio de uma picaretagem de alto nível. Ele parou um táxi que passava pela rua. Era um fusquinha, daqueles que rodavam Manaus inteira tossindo fumaça e sobrevivendo apenas pela força da fé. Os três embarcaram.

– Meu compadre, Clube Municipal, na Torquato Tapajós! – ordenou Sicy.

O taxista sorriu por dentro. Finalmente uma corrida decente naquela noite. E lá foram eles.

Naquele tempo, a Torquato Tapajós parecia cenário de filme de faroeste produzido com orçamento de merenda escolar. Era mato de um lado, mato do outro e uma escuridão tão profunda que até os vaga-lumes andavam com medo. Quando chegaram às proximidades da Estrada do Aeroclube, Sicy bateu no ombro do motorista.

– Meu amigo, sem querer abusar da sua boa vontade, mas o senhor pode parar um instantinho aqui?

O motorista, alma pura e inocente, freou o carro. Foi o erro da noite. Sicy então bateu no ombro de Zeca Boy e anunciou:

– Daqui pra frente é com vocês dois, bonitões!

Antes que qualquer cérebro presente processasse aquela informação, ele já havia acionado a maçaneta, aberto a porta e desaparecido na escuridão com a velocidade de um atleta olímpico fugindo de um agiota. O taxista levou alguns segundos para entender o golpe. Tempo mais que suficiente para Zeca Boy e Luiz Lobão concluírem que permanecer no veículo seria uma decisão financeiramente desaconselhável. Abriram a porta e partiram atrás de Sicy numa fuga tão sincronizada que parecia ensaio de escola de samba.

Quando o motorista finalmente percebeu que tinha sido promovido de trabalhador honesto a patrocinador involuntário do transporte carnavalesco, os três já estavam evaporados no matagal. Furioso, o sujeito desceu do carro munido de uma lanterna e um revólver. Fez uma busca rápida pela região e ainda disparou alguns tiros na direção do escuro. Mas procurar Sicy Pirangy no mato àquela altura era como tentar capturar fumaça usando uma peneira. O xexo já tinha sido aplicado com sucesso.

Minutos depois, já dentro do Clube Municipal, Zeca Boy e Luiz Lobão encontraram o mentor da operação e foram logo cobrando explicações:

– Porra, bicho! Quase que a gente leva uns tiros por tua causa!

Sicy deu de ombros, com a serenidade de um monge tibetano especializado em calotes coletivos.

– Tá bom, bonitões, mas vocês queriam que eu fizesse o quê? Eu também tô mais liso que muçum besuntado de óleo Johnson, carálio!

E os três seguiram para o baile como se nada tivesse acontecido. Porque naquela época havia duas certezas absolutas: ninguém tinha dinheiro e todo mundo tinha coragem. E porque, no fim das contas, o que se leva da vida é a vida que se leva – desde que o táxi fique para trás.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 24

 


24. Apaixonado por samba desde os tempos em que ainda tinha cartilagens intactas, o delegado Petrônio Carvalho passou por várias escolas de samba. Começou na Vitória Régia, fez estágio na Sem Compromisso e acabou criando raízes na Reino Unido quando descobriu que um de seus subordinados na Polícia Civil, o investigador Jairo Beira-mar, era diretor de bateria da escola.

Petrônio sonhava tocar tamborim. O problema é que sonhar e saber tocar são duas coisas completamente diferentes. Depois de ouvi-lo executar alguns improvisos involuntários que ofendiam a teoria musical, a prática musical e possivelmente a própria humanidade, Jairo tomou uma decisão estratégica:

– Tu vai tocar caixa de guerra.

Era um cargo mais seguro para todos os envolvidos.

Em 1989, a Reino Unido preparava-se para desfilar com o enredo “Axé Mãe Preta”. A concentração acontecia ao lado do cemitério São João Batista, um local que, por coincidência, combinava perfeitamente com o destino de alguns ritmistas que desafinassem durante o desfile.

Jairo organizou a bateria com a precisão de um comandante militar. Caixas aqui. Surdos ali. Tamborins no meio. Cuícas acolá. Tudo perfeitamente alinhado. Aquela bateria não parecia uma escola de samba. Parecia uma operação da OTAN. Foi então que surgiu um problema.

A escola anterior, a Barelândia, resolveu protestar por alguma razão insondável e simplesmente não saía da avenida. Jairo foi verificar o que estava acontecendo. Ausentou-se por cerca de vinte minutos. Vinte. Quando voltou, encontrou um cenário que o faria questionar todas as suas escolhas de vida. A bateria havia deixado de existir. No lugar dela havia uma gigantesca roda de pagode.

O delegado Petrônio Carvalho presidia os trabalhos como um maestro do caos. Garrafas de cachaça circulavam de mão em mão. Passistas sambavam. Curiosos tocavam instrumentos da escola. Gente que nunca tinha visto um surdo na vida estava batucando nele com entusiasmo. A concentração parecia menos uma preparação para desfile e mais um churrasco clandestino financiado por alguma facção especializada em samba.

Jairo quase sofreu uma parada cardíaca. Aos gritos, começou a expulsar intrusos, recolher instrumentos e reorganizar os ritmistas. Alguns componentes já apresentavam um nível de embriaguez que os impedia de distinguir um repique de uma geladeira. Mesmo assim, o diretor seguiu firme. A disciplina precisava ser restaurada.

E Jairo possuía um método pedagógico extremamente simples. Quem errava, apanhava. Sua famosa baqueta de pau-ferro não era exatamente uma baqueta. Era um argumento. Parecia um taco de beisebol produzido para resolver conflitos trabalhistas.

Quando a escola entrou na Djalma Batista, Petrônio recebeu a primeira correção técnica.

CRACK!

A baquetada atingiu o ombro.

– Toca direito, porra! Se não quiser tocar, corre pro mato! Isso aqui é sério!

Petrônio ficou indignado. Durante anos interrogara criminosos perigosos. Prendera traficantes. Investigara homicídios. Jamais imaginara que seria esculachado em público por um subordinado diante de milhares de testemunhas. Mas permaneceu calado. Naquele ambiente, claramente Jairo era a autoridade máxima.

Antes de chegar à Tevelândia, o delegado já havia recebido tantas baquetadas corretivas que começou a suspeitar de que não participava de um desfile. Participava de uma sessão de tortura temática. Cada erro de ritmo era seguido por um novo golpe.

CRACK!

– Presta atenção!

CRACK!

– Tá atravessando!

CRACK!

– Quer me matar do coração?

Ao final do desfile, enquanto os componentes choravam emocionados, se abraçavam e comemoravam a apresentação histórica da Reino Unido, Petrônio procurou o diretor de bateria. Seu aspecto físico lembrava um sobrevivente de acidente ferroviário.

– Porra, Jairo... eu nunca apanhei tanto nem do meu pai.

– Mas melhorou o ritmo.

– Melhorou uma ova. Ano que vem me arranja um cargo na Harmonia. Não quero mais saber dessa bateria furiosa. Estou indo agora falar com o massagista Dico Paiva porque acho que meu ombro está quebrado.

A escola acabou campeã. A bateria foi elogiada. Jairo ficou feliz. Já Petrônio passou o resto da noite descobrindo músculos cuja existência desconhecia. Na segunda-feira apareceu na delegacia usando tipoia. A clavícula havia pedido exoneração.

Naturalmente os colegas quiseram saber o que havia acontecido. Petrônio, homem experiente e preocupado com sua reputação, respondeu com toda a dignidade possível:

– Estava perseguindo uns bandidos no Puraquequara. Me distraí e levei uma queda durante a operação.

Os investigadores ouviram a história com respeito. Era uma narrativa heroica. Uma demonstração de bravura policial. Um relato digno de filme de ação. Foi então que alguém perguntou a Jairo Beira-mar se aquilo era verdade.

Sem piscar, sem rir e sem demonstrar qualquer sinal de remorso, o investigador confirmou:

– Foi exatamente isso.

E naquele momento nasceu talvez o primeiro caso da história da Polícia Civil em que uma lesão corporal provocada por uma caixa de guerra foi oficialmente registrada como acidente em serviço durante perseguição a criminosos. O inquérito jamais esclareceu quantas das fraturas do delegado foram causadas pelo combate ao crime e quantas foram causadas pela Bateria Furiosa da Reino Unido. Mas quem conhecia Jairo Beira-mar sempre teve suas suspeitas.

terça-feira, agosto 18, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 23

 


23. Numa modorrenta tarde de sábado, alguns amigos estão aboletados no Bar do Cardeal, na Rua Ipixuna, esperando para assistir um jogo de futebol pela tevê. Depois de quase uma grade de cerveja, eles começam a discutir sobre qual seria o maior pássaro da Amazônia.

Acostumado a passar mais tempo no mato do que na cidade, o grande passarinheiro Décio Mechinha é taxativo:

– De todas as aves que conheço, a cigana é o maio pássaro da região!

– Cigana? Você está maluco! – avisa Zé Bolota, renomado pescador da região de Autazes. – O maguari é bem maior do que qualquer cigana...

– E o gavião-real? O gavião-real é bem maior do que qualquer maguari! – diz Paulo Sérgio, funcionário do Inpa.

O partideiro Beto Mão-de-vaca entra na conversa:

– Vocês estão mesmo por fora! O maior pássaro da Amazônia é o periquito roxo...

 – Periquito roxo?! – reage Décio Mechinha.

– Exato! – confirma Beto, peremptório. – Eu tô comendo um há quase 40 anos e ainda não acabei...

Marido da negona Greicimar Meireles, ex-passista do GRES Unidos da Selva, Beto Mão-de-vaca quase foi expulso da mesa.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 22

 


22. O ano de 1964 resolveu testar a resistência emocional do brasileiro. Além dos terremotos políticos que sacudiram o país, o Brasil perdeu, no dia 9 de fevereiro, uma de suas figuras mais extraordinárias: Ary Evangelista Barroso. Compositor, letrista, autor de teatro de revista, animador de auditório, locutor esportivo, ex-vereador, flamenguista fanático, boêmio profissional e rabugento em dedicação exclusiva, Ary parecia ter vivido umas quatro encarnações na mesma vida. Seu currículo era tão extenso que, se fosse apresentado hoje no LinkedIn, o sistema acusaria excesso de caracteres.

Além do talento monumental, Ary Barroso cultivava com esmero a fama de mal-humorado. Não era um defeito, era praticamente um hobby. Uma de suas birras era com o jornalista e compositor Antônio Maria, com quem mantinha uma rivalidade alimentada por aquilo que artistas costumam chamar de “divergência estética” e o resto da humanidade chama simplesmente de vaidade.

Ary insistia que a música brasileira mais conhecida no mundo era sua imortal “Aquarela do Brasil”: “Brasil, meu Brasil brasileiro...”. Antônio Maria retrucava que a canção mais famosa era sua melancólica “Ninguém Me Ama”: “Ninguém me ama, ninguém me quer...”. A discussão, basicamente, resumia-se a dois sujeitos brilhantes disputando quem tinha produzido o maior chiclete da história da música nacional. O certo é que se tornaram inimigos figadais.

Quando Ary foi internado com cirrose terminal, justamente em pleno Carnaval – época em que até a morte costuma pedir licença para passar –, os amigos convenceram Antônio Maria de que não ficava bem deixar o velho desafeto partir sem uma reconciliação.

Maria concordou e foi ao hospital. O encontro foi emocionante. Abraços, lágrimas, lembranças. Parecia o último capítulo de uma novela das oito. Com a voz já enfraquecida, Ary fez um pedido insólito:

– Maria, canta para mim Aquarela do Brasil.

Comovido, Antônio Maria puxou uma caixa de fósforos para marcar o ritmo e cantou a música inteira, sem errar uma sílaba. Ary ouviu tudo com expressão agradecida. Quando terminou, resolveu retribuir a gentileza:

– Agora pede para eu cantar Ninguém Me Ama.

– Não, Ary, deixa pra lá...

– Pede, Maria.

– Não precisa...

– Pede!

– Está bem. Canta pra mim Ninguém Me Ama.

Ary então disparou sua derradeira obra-prima de mau humor:

– Não sei a letra.

Antônio Maria explodiu:

– Não sabe porque é um canalha!

Ary respondeu sem perder o ritmo:

– E você é um cafetão.

Pronto. Em poucos segundos, a emocionante reconciliação transformou-se novamente numa briga de botequim de altíssimo nível intelectual. Os dois compositores morreram sem fazer as pazes. O Brasil perdeu dois gênios. E a implicância entre eles sobreviveu até o último acorde, provando que certas amizades são tão profundas que nem a morte consegue impedir uma boa discussão.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 21

 

Meu irmão Simas Pessoa e meu primo Cazuza

21. Quando eu era criança, por volta dos nove anos de idade, meu grande ídolo no futebol era meu primo José Alberto Régis Batista, o Cazuza, seis anos mais velho do que eu, com quem dividia um quarto na casa da tia Maria, irmã do meu pai, ali na Rua Parintins, entre a Rua Waupés e a General Glicério, na divisa com a Praça 14. No campinho de várzea ao lado de nossa casa, cujas partidas eu acompanhava da janela, o Cazuza costumava infernizar as zagas adversárias com dribles desconcertantes, cabeçadas fulminantes e chutes indefensáveis. Quando eu crescesse, queria ser como ele. O campinho hoje pertence ao Edson da Rivera.

Em 1965, faltando duas semanas para o início do campeonato amazonense juvenil, o técnico Rubem Correia foi chamado para montar e dirigir a equipe juvenil do Olímpico. No jogo de estreia, o Olímpico perdeu do Nacional de 3 a 1. No jogo seguinte, nova derrota para o América por 1 a 0. Os dirigentes do Clube dos Cinco Aros ficaram cabreiros. Rubem Correia, que antes já havia treinado o Botafogo e o Ypiranga, da Cachoeirinha, resolveu garimpar novos talentos entre os peladeiros da cidade para reforçar seu elenco. No campo do Oratório Domingos Sávio descobriu Wandi, Mário Bacuri e Cazuza. No campo do Labor descobriu Orlando e Bioca. No campo do Peñarol descobriu Pompeia e Zequinha. Montou um timaço.

Aos 16 anos, Cazuza começou a jogar de centroavante no juvenil do Olímpico Clube. Foi tricampeão (1965, 1966 e 1967) e três vezes artilheiro do campeonato amazonense, jogando ao lado dos moleques já citados e de outros grandes craques como o goleiro Iraúna Jacob (hoje um conceituado médico cirurgião), o lateral direito Calderaro (hoje professor de Educação Física) e o armador Mário Simões (hoje engenheiro civil). Tenho absoluta certeza de que Cazuza seria um dos melhores jogadores profissionais do Amazonas se não tivesse tido sua brilhante carreira interrompida abruptamente aos 21 anos, quando um estúpido zagueiro, após um drible desconcertante, arrebentou maldosamente sua perna direita. A história se passou mais ou menos assim.

Em 1971, Cazuza e Mário Bacuri aceitaram um convite do time profissional misto do São Raimundo para participarem de dois amistosos contra times de Santarém (PA). Como eram apenas aspirantes do Olímpico Clube, não viram nenhum inconveniente em aceitar o convite e se mandaram para a Princesinha do Tapajós. O São Raimundo venceu as duas partidas graças ao quatro gols de Cazuza e um de Mário Bacuri. Na volta, os dois aspirantes foram cortados do time juvenil do Olímpico e proibidos de participar de qualquer competição profissional ou amadora.

Os dirigentes do São Raimundo compraram a briga, apelaram pra Justiça Desportiva, fizeram o diabo a quatro. Mário Bacuri e Cazuza foram contratados pelo São Raimundo e conquistaram o direito de disputar o campeonato profissional. Como o centroavante titular do “Tufão da Colina” era o famoso artilheiro Santarém, Cazuza aceitou jogar na ponta direita.

Sua estreia profissional, por coincidência, ocorreu contra o Olímpico Clube. O quarto-zagueiro Dirley ficou encarregado de marcá-lo. Lá pelas tantas, Mário Bacuri tocou para Augusto e este lançou uma bola pro Cazuza, meio na dividida. O zagueiro do Olímpico correu pra disputa. Cazuza chegou primeiro, de costas para o zagueiro, e deu um leve “tapa” na bola, para aplicar o conhecido drible “rabo de vaca”, uma de suas especialidades.

Quando girou o corpo pra pegar a bola do outro lado, sentiu uma dor paralisante da cintura pra baixo. O zagueiro Dirley havia entrado de joelho na parte posterior de sua coxa direita e seu pé ficara preso na grama sob a chuteira do adversário. O ponta-direita caiu no chão, gritando de dor. O massagista do São Raimundo entrou em campo e Cazuza saiu de maca.

Cinco minutos depois, aparentemente recomposto, Cazuza entrou em campo para recomeçar a partida. Não deu nem cinco passos. A dor paralisante voltou e ele desabou no chão pela segunda vez. Saiu de campo direto para o hospital. Diagnóstico: rompimento dos meniscos internos e externos.

Como estávamos na pré-história do futebol amazonense e não havia nenhum cirurgião especializado em medicina esportiva disponível para operá-lo, sua perna foi apenas imobilizada com gesso e tratada a banhos de luz. Nunca mais o atleta recuperou sua mobilidade. Sua carreira profissional foi interrompida por aquele acidente de percurso.