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quinta-feira, outubro 29, 2026

Ronaldo Barbosa, a usina de hits do bumbá Caprichoso

 

O compositor Ronaldo Barbosa

Fevereiro de 1991. O bafafá na ilha ainda era a súbita mudança de Chico da Silva para o Garantido. Responsável pela escolha das toadas do Caprichoso, J. Carlos Portilho aparentemente não estava muito preocupado. Aquilo era só mais um acidente de percurso, calculava. Ele mesmo estava tentando inutilmente levar seu amigo Emerson Maia para o touro negro.

Foi quando, naquele mesmo mês, Portilho recebeu em sua residência a visita de Ronaldo Barbosa. Eles se conheciam desde 1979, quando Ronaldo Barbosa passou a residir em Parintins e se tornou fã de carteirinha do touro negro.

Nascido em São José do Egito (PE), no dia 3 de outubro de 1953, em uma família de versadores e violeiros, Ronaldo Barbosa tinha estudado Antropologia, em Recife (PE), Odontologia, em Campina Grande (PB), e era funcionário concursado da Fundação Nacional dos Índios (Funai) há cinco anos, quando chegou a Parintins.

Ele passava a maior parte do tempo fazendo trabalho de campo para a instituição, por onde se aposentou depois de 35 anos de labuta diária como dentista.

Extremamente culto e bem-informado, conhecedor como poucos do lendário nativo dos ribeirinhos e dos primeiros cacicados da Amazônia indígena, músico informal nas horas vagas, Ronaldo Barbosa vinha tentando colocar algumas toadas de sua autoria no repertório do Caprichoso, sem sucesso, desde 1980.

– A batida dos bois era muito tradicional, muito ortodoxa, muito presa às origens, e as minhas toadas pediam uma batida diferente, um pouco mais tribal, por conta das inúmeras culturas indígenas que eu havia conhecido. Ao mesmo tempo, o acompanhamento tradicional das toadas era basicamente percussivo, com surdos, repinique, caixinha e palminhas, enquanto eu queria introduzir cordas, teclados e metais. Daí que foi muito difícil a gente evoluir para esse formato atual – recorda o compositor.

Naquela chamada “década perdida” do compositor, por conta dos “puristas” e “tradicionalistas” de sempre, Ronaldo Barbosa, trabalhando solitariamente em sua residência, havia feito dezenas de toadas interessantíssimas e foram algumas delas que ele apresentou para J. Carlos Portilho naquele encontro acontecido em fevereiro de 1991.

Com uma capacidade extra-sensorial para descobrir novos talentos, J. Carlos Portilho percebeu logo que estava diante de uma mina de ouro, mas não fez alarde.

Procurou a Comissão de Artes do Caprichoso, na época comandada por Simão Assayag, e cantou a pedra:

– A proposta das toadas do Ronaldo é mostrar a importância dos indígenas na nossa formação cultural. A gente sai dessa camisa de força chamada “boi-morena bela-vaqueiros” e começa a singrar por mares nunca dantes navegados. As histórias, o lendário e as culturas indígenas são exuberantes e a gente pode fazer o diabo na arena, basta ter criatividade! – explicou J. Carlos Portilho.

Aquele papo reto conquistou o coração de Simão Assayag. Como o enredo daquele ano já estava decidido, as toadas de Ronaldo Barbosa ficaram transferidas para o ano seguinte.

Elas foram a Pedra de Roseta que definiram o novo formato do festival a partir de 1992.

Uma das primeiras toadas do compositor a ser utilizada como suporte musical do ritual do Caprichoso se intitulava “Réquiem”:

– Aos que foram donos das terras / Antigos donos das penas / Eterno como sempre / Será eterno o criador / êiê, êiê, êiê… / Meu povo te chama, / Machifaro te espera / Teus símbolos sagrados / Ateiam as guerras / Assim como a canoa / O teu remar / Curiatô, Iurimágua, / Paguana / Aos que foram donos das terras / Antigos donos das penas / Eterno como sempre, / Será eterno o criador / Como voa o tempo / Nas asas das eras / Tururucari, Tururucari, Tururucari / A fogueira espera a chama / O sol beijar o teu rosto, ô,ô,ô / O vento os teus cabelos / Assim como a selva / O filho que partiu / Tururucari, Tururucari, Tururucari, ê ê ê / Curiatô, Iurimágua, Paguana.

Quer dizer, de repente os cacicados dos povos originários da Amazônia na época da chegada dos portugueses ao Brasil (Aparia, Machifaro, Aisuari, Paguana, Yurimágua, etc) eram reverenciados e referendados no Festival de Parintins pela primeira vez.

Aquilo, no Bumbódromo, funcionou como tratamento de choque.

Embalado pelas toadas de Ronaldo Barbosa, o ritual do boi Caprichoso começou a ganhar contornos épicos, se transformando na grande sensação do festival.

O Garantido sentiu o baque, mesmo tendo sido o pioneiro na celebração do ritual, mas teve que tirar um dobrado para não deixar a peteca cair de vez e voltar a reequilibrar a disputa.

A década de 1990 representou um dos melhores momentos da história do boi Caprichoso. De 1990 a 1999, ganhou seis dos dez festivais disputados, tendo faturado um tricampeonato (1994-1996) na época em que a festa de Parintins ganhava o Brasil e o mundo.

O touro negro teria conquistado o seu tetracampeonato em 1997, levando em consideração apenas a soma dos pontos dados pelos jurados à apresentação na arena.

Naquele ano, o Caprichoso contava a história dos índios Karajás, que eram peixes imortais (aruanãs) e, depois que afastaram a escuridão e contemplaram o céu pela primeira vez, se transformaram em homens mortais, por obra e graça do deus supremo Kananciuê, passando a habitar as margens do rio Araguaia.

O ritual daquele ano, com outra composição de Ronaldo Barbosa, deixou os jurados emocionados: eles nunca tinham ouvido uma toada que tinha sido praticamente escrita em “língua de índio”:

– Wandiê ê ê á á / Wandiê ê ê Karajá! / Ciê… / Kã-werá! / Kananciuê (Kananciuê) / Tatauapã (Tatauapã) / Numiá (Numiá) / Arapiá (Arapiá) / Numiá… / Sob a luz do luar / Ê ê ê ê ê ê ê ê / Nas terras de Berocã / Canaã, Canaã / Às margens do rio Araguaia / Aruanã… / Inansô-werá / Ê ê ê ê ê ê ê ê / E se fez a luz / No sopro da vida à Ciê / Ciá… Karajá! / Feiticeiro do fogo / Entoa um cantar / Hei Hei / Pra afugentar / Hei Hei / Escuridão / Feiticeiro da taba / Eleva o olhar / Hei Hei / Vem clariar ó lua / Todo o meu chão… / Numiá Arapiá / Hei Hei Hei Hei Hei!

Naquele ano, o Caprichoso também apresentou a toada “Ritmo Quente”, de Alex Pontes e Mailson Mendes, do Canto da Mata, que dava uma acelerada na toada e a transformara numa música pop capaz de tocar nas rádios e conquistar novos fãs para a festa xipuara. Foi outro divisor de águas no festival.

A derrota do Caprichoso adveio de uma penalidade de 10 pontos imposta pelos jurados ao apresentador Gil Gonçalves por ter elogiado, na arena, o governador Amazonino Mendes.

O touro negro deu a volta por cima sagrando-se campeão no ano seguinte, em 1998 – uma conquista indiscutível em que um dos fatos mais marcantes foi o cantor Arlindo Júnior ter ocupado o posto de apresentador e levantador de toadas ao mesmo tempo, e ainda ter vencido nos dois itens, repetindo o feito de Paulinho Faria, do Garantido, que também venceu em ambos os itens em 1991 e 1993.

Quer dizer, se não fosse os dois minutos de leseira baré do apresentador Gil Gonçalves, em 1997, o Caprichoso teria se sagrado pentacampeão do Festival de Bumbás de Parintins em 1998.


Algumas composições de Ronaldo Barbosa tornaram-se quase uma unanimidade na ilha, sendo reverenciadas pelas duas galeras.

Aliás, tirando alguns torcedores mais radicais do Garantido, todos os amantes da cultura popular de Parintins já ouviram e ensaiaram alguns passos da canção “Pesadelo dos Navegantes”, lançada em 1996, no disco “Criação Cabocla”:

– Alçar as velas / desaportar as caravelas / esquadras do Velho Mundo / do oceano ao rio-mar / Alçar as velas / desaportar as caravelas / cruzadas do Novo Mundo / fé, império a dilatar / O vento te leva / há ventania / às noites te envolve agonia / do grande abismo que virá / das feras das águas / que seria / pesadelo de um conto navegador / Iê, Iê / Terra à vista / atracar / Ilha das Tupinambaranas / terra dos Tupinambás / aportas nos braços do Orteiro / de joelhos e bravos guerreiros / celebrai a grande missão / com salva de tiros de morteiro.

Em 2018, no 53º Festival Folclórico de Parintins, Ronaldo comemorou 100 toadas emplacadas em discos do boi azul. “Traidor” foi a centésima canção composta por Ronaldo e está presente no disco “Sabedoria Popular: Uma Revolução Ancestral”.

Ao lado dela, outras composições do artista também foram inseridas no disco, como “Terror das Noites”, “Azulou”, “Boto romanceiro” e “Sissa: Uma história de Amor”, sendo as três últimas em parceria com o compositor Simão Assayag.

Em entrevista ao jornalista Alexandre Pequeno, Ronaldo Barbosa assegurou que suas canções não são elaboradas a toque de caixa e que não segue a temática estipulada pelo bumbá.

– Cada compositor tem uma metodologia de trabalho. No meu caso é um lance de inspiração. Não vou pelo tema e sim pela inspiração. Não faço música por encomenda, minha música é fruto exclusivamente de inspiração poética – garantiu.

Na mitologia indígena, a lenda por trás da centésima toada, como o próprio nome sugere, fala sobre um episódio de traição.

– Ualri era o discípulo amado de Jurupari, que o ensinou todos os segredos das flautas. Só que Ualri ensinou esse segredo aos não-iniciados e às mulheres. Por isso, ele recebeu a condenação que a própria canção revela: Do teu pó serás, serás, répteis a rastejar – explicou o compositor

Em junho de 2017, o Boi Caprichoso iniciou suas apresentações no Bumbódromo ao som de “Saga de um Canoeiro”, canção composta por Ronaldo e presente no disco de 1994.

– Essa foi uma música que fiz para o meu pai e diz: Já vai canoeiro, o porto distante, o teu descansar… Imaginei essa canoa que nós da Amazônia vamos navegar em nossas remadas eternas. Me emocionei muito – lembra o compositor.


No ano da centésima toada, o artista também completou 32 anos de história no Caprichoso e, para ele, a maior gratificação era ainda estar em atividade na associação.

– A recompensa disso é o respeito dos colegas, do boi executar algo que você imaginou. É de uma alegria muito grande – exulta.

De acordo com Ronaldo Barbosa, sua história no Caprichoso começou no final dos anos 80.

– Nesse período, comecei a apresentar meus trabalhos ao boi, pois eu era da Fundação Nacional do Índio (Funai) e viajava por diversas aldeias da Amazônia. Paralelo a esse trabalho de dentista na Funai, naquela época, tenho um trabalho de antropologia muito forte. Aprendi, convivi e vivi por 20 anos nas mais diversas tribos. Não existe nenhuma região da Amazônia que eu não tenha conhecido.

De uma época onde as composições e produções musicais eram simples, Ronaldo se orgulha de ter ajudado a inserir efeitos mais elaborados, novas sonoridades e instrumentos diferenciados nas canções.

– No começo dos anos 90, trouxe uma batida de ritual que não existia em Parintins, fui o pioneiro. Vi como os índios faziam e trouxe para o Caprichoso – lembra.

Além disso, de acordo com Ronaldo, o bumbá azul inseriu pela primeira vez um teclado numa canção de sua autoria, “Fibras de Arumã”, de 1994.

Sobrevivente dos tempos heroicos de formatação do festival, ele ainda relembra com carinho de seus mestres compositores:

– Minha geração tinha bons compositores como Horácio e Heliomar Conceição, que já partiram para o além. Aprendi muito com esses poetas mais antigos do boi.

Com a centésima toada, Ronaldo se consagrou definitivamente como um dos compositores que mais emplacou canções na história do Caprichoso, mas garante que não está pensando em suspender as chuteiras.

– Pretendo continuar participando ativamente da cultura regional por muitos e muitos anos, e não canso de repetir que a própria Amazônia é minha grande fonte de inspiração poética – resume.

O compositor também assina outras grandes canções clássicas do touro negro, como “Vale do Javari”, “Gene”, “Amazônia Quaternária” e e “Catedral”, esta também em parceria com Simão Assayag. O caboco é danado.

segunda-feira, outubro 26, 2026

Emerson Maia, o eterno Xamã do Festival de Parintins

 


Filho de dona Ladir e do pecuarista Antônio Maia, um dos primeiros padrinhos do bumbá Garantido, o cantor e compositor Emerson Maia, um ano mais novo que J. Carlos Portilho, teve uma carreira musical muito parecida com a do seu amigo de adolescência.

Ainda bem pequeno, ele já se exibia em festas de colégio e reuniões. Aprendeu a tocar violão com 14 anos, mas logo trocou o instrumento pela guitarra elétrica.

Diferente de J. Carlos Portilho, que curtia MPB, Emerson Maia preferia o rock inglês (Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath) e o rockabilly norte-americano (Chuck Berry, Little Richards e Elvis Presley). Foi vocalista, tecladista e guitarrista do grupo The Glads Boys, que incendiava as noites dançantes dos clubes de Parintins nos anos 70.

Além da fazenda Remanso, Antônio Maia era comerciante (possuía uma usina de pau rosa) e político (foi presidente da Câmara Municipal de Parintins), mas seu xodó era mesmo o boi Garantido.

O Natal era muito festejado por ele, que todo ano organizava um grande almoço para a comunidade com distribuição de presentes para as crianças e a presença do touro branco sendo comandado por mestre Lindolfo Monteverde em pessoa. A mesma coisa acontecia no dia de São João.

No final dos anos 70, Emerson começou a compor músicas densas de tristeza e poesia para disputar os festivais de canção que aconteciam na região do baixo Amazonas, tendo vencido a maioria das disputas em que participou.

Foi por insistência da irmã, a médica Ednéia Ribeiro, esposa do médico Euler Ribeiro, que ele começou a fazer músicas para o Garantido. Sua primeira toada evocava a figura paterna: “Sentei junto ao pé da roseira / Lembrei minha infância, fogueira e balões / Lembrei de meu pai, meu amigo / Esperando ansioso o meu boi Garantido / Tempos que ficaram pra trás / Gente que partiu pra ficar / Mas deixaram isso bem definido / Que o boi campeão da Terra / Sempre será o boi Garantido”.

Segundo o jornalista Neuton Corrêa, no dia 6 de julho de 1979, quando Lindolfo Monteverde atravessou para a terceira margem, Emerson apareceu cedo na Baixa da Xanda. Parou na Mercearia Martins Filho, puxou uma cadeira de embalo e pediu uma cerveja.

De frente para as águas do rio Amazonas, ele afinou o violão e ensaiou os primeiros acordes para a música de despedida do amigo e mestre que estava sendo velado no curral do Garantido: “Silêncio, tudo está consumado / O nosso Amo amado / partiu e deixou o São José / A voz que sempre lhe foi fiel / Agora estronda nos bosques, nas pradarias do céu / Muito obrigado por criar boi Garantido / Hoje teu filho teu canto vai entoar / Nosso folclore sempre vai reconhecer / Foste um exemplo de caboclo / inesquecível Lindolfo”.

Essa música é considerada hoje o hino da família Monteverde, por isso sempre é tocada nos eventos nos quais a memória de Lindolfo é reverenciada.

Com a morte de Lindolfo, Emerson se transformou no levantador de toadas do Garantido até a chegada de David Assayag, em 1995. Ele também substituiu o Amo do Boi João Batista Monteverde em alguns festivais, cabendo a Paulinho Faria ser apresentador e levantador de toadas nessas ocasiões.

Alto, forte, musculoso, imponente e com o cabelo nos ombros desde os tempos da Jovem Guarda, Emerson Maia lembrava um cacique sioux e era grosso que só papel de embrulhar prego. Seu mau humor era fonte permanente de mexericos na ilha. Avesso a badalações e aos assédios dos fãs, o cantor utilizava esse artifício de sujeito turrão para se manter longe dos holofotes da mídia.

Quando se reunia com uns poucos amigos para participar de cantorias, Emerson Maia se soltava, mostrando sua verdadeira personalidade de moleque brincalhão e bem-humorado. “Quando estava com seus parceiros, ele era um poço de ternura”, recorda, divertido, o compositor Carlos Paulain. “Mas diante de estranhos se transformava no ministro da Ignorância, ficava irascível. Era um coice a cada três minutos.”


Sua trajetória como compositor do Garantido foi fabulosa e seu humor ácido era despejado em toadas de desafio que espezinhavam o Caprichoso. Uma delas: “Ano passado eu fiquei com pena do contrário / no dia da morte não tinha comida e eles brigaram / eu mandei avisar que viessem buscar / que o boi Garantido tinha comida, tinha pra dar / eles não aceitaram porque tinham vergonha na cara / pelo amor de Deus!, eles comeram capivara!”.

Sua verve lírica e sua defesa intransigente dos povos da floresta, entretanto, sempre foram o ponto alto de suas composições, como podem ser conferidas nas toadas “Já Rufou Meu Tambor”, “Campeão Lunar”, “O Índio”, “Andirá”, “Caboclo Soberano”, “Fantasia de Criança”, “Mistérios da Ilha”, “Flor de Tucumã” e “Lamento da Raça”, entre as mais de 80 pérolas que fez para seu boi de coração.

Emerson Maia ficou conhecido mundialmente quando a canção “Lamento da Raça” (“O índio chorou, o branco chorou, / todo mundo está chorando / A Amazônia está queimando / Ai, ai, que dor / Ai, ai, que horror”) foi cantada por uma brigada de incêndio de Roraima, enquanto os brigadistas combatiam um dos maiores incêndios da região. A filmagem da cena inusitada foi compartilhada na internet e viralizou rapidamente, obtendo mais de 20 milhões de acessos.

Funcionário de carreira do Banco do Brasil, Emerson Maia abandonou a carreira de bancário, na virada do terceiro milênio para cuidar dos negócios do sogro, o empresário Osmar Faria, e começou gradualmente a se afastar do Garantido. Primeiro, ele montou uma fábrica de gelo. Depois, fechou a fábrica e, no local, criou o Aldeia Iate Clube, um imenso chapéu de palha que funcionava como bar e restaurante, e que ficou conhecido como “Maloca do Jurupari” por conta do “bom-humor” do proprietário.

Mais tarde, ele fechou o bar e restaurante e no local criou a Marina Morena, a maior da ilha, com capacidade de ancoradouro para 300 barcos. Era nesse lugar bucólico que ele recebia os poucos amigos para sessões de cantorias que entravam pela madrugada.

Em 2018, ele fez a toada intitulada “A Coisa Mais Linda do Mundo”, que obteve um sucesso avassalador nos ensaios do bumbá Garantido, mas não foi tocada em nenhuma das três noite na arena durante o festival: “A coisa mais linda do mundo / é quando no mês de junho / no meu São José / em cada rosto, um sorriso / é a festa do boi Garantido / que já vai começar / a tampa da chaleira vai voar / vai ter pé-de-moleque, vai / bolinho de crueira, vai / vai ter muita cachaça / vai ter muita mulher / vou me pegar com Santo Antônio / com certeza este ano / eu sei que vou me arrumar / no meu boi-bumbá / vai ter muita toada, vai / muito verso bonito, vai / ao som da Batucada / que me faz delirar / esse é meu boi Garantido / ele é o touro mais lindo / é o rei desse lugar”.

Revoltado com o que considerou um desrespeito dos diretores do Garantido pela sua história dentro do bumbá, Emerson Maia abandonou o touro branco no mesmo ano e foi ser compositor do Caprichoso.

Emplacou duas toadas no repertório do touro negro: “Caprichoso, um canto novo de esperança” e “Fumaça de Ervas”, esta última em parceria com o filho Emersonzinho: “Vajucá, junçá, catucá / manacá, angico, aroeira, juremá / eu sou o profeta da mata / que guarda os caminhos / que levam às plantas sagradas / dos ritos antigos do povo encantado Tupi / eu sou a tribo dizimada / que vive no reino de Tanaruê / que passou pros seus filhos / seres encantados que guardam este povo sangrado / sou catimbozeiro pajé curandeiro índio brasileiro / eu sopro a fumaça de ervas / a força da planta altera / o plano do espírito / e traz os antigos de volta ao presente / pra nos ajudar / eu sou Daniel toadeiro / sou Mestre Horácio boiadeiro / sou Boi Caprichoso e trouxe pra arena / jurema sagrada pra nos ensinar / que o amor, somente o amor / pode curar (a alma, o corpo, a mente, o espírito, o mundo) / que o amor, somente o amor pode salvar / eu sopro a fumaça de ervas / os entes da mata em assembleia / ensinam pro povo que a mãe-natureza / é sagrada, devemos preservar / eu sou Caboclo Sete Flechas / sou índio guia Pena Verde / sou boi Caprichoso e trouxe pra arena / jurema sagrada pra nos ensinar”.

O querido Emerson Maia, que estava em Manaus para tratamento de uma cirrose hepática, agravada por um princípio de tuberculose, morreu na manhã de uma sexta-feira, 14 de agosto de 2020, por complicações causadas pela Covid-19. Tenho (temos) saudade.

domingo, outubro 25, 2026

O inesquecível J. Carlos Portilho, o "Periquito", um dos inventores do Festival de Parintins



O cantor e compositor José Carlos Portilho, o “Periquito”, começou a escrever poemas em 1965, quando tinha 12 anos. Aos 14 anos, começou a tocar violão e estudar canto orfeônico com as freiras italianas do Colégio N. S. do Carmo. Aos 16 anos, já disputava o 1º Festival da Canção de Parintins, em 1969, obtendo um honroso 2º lugar, com letra e música de sua autoria (“Quem Somos Nós?”).

Aos 17 anos, arrancava suspiros das adolescentes parintinenses, fosse imitando seu ídolo musical, Gianni Morandi, fosse mostrando suas próprias músicas, durante apresentações no Teatro da Paz ou em arraiais, quermesses e programas radiofônicos da cidade.

Nos anos 80, se transformou em figura carimbada nos festivais de música de Parintins, Óbidos, Santarém e Manaus, quase sempre disputando o primeiro lugar com seus amigos e conterrâneos, os também cantores e compositores Emerson Maia, Tony Medeiros e Paulinho Du Sagrado. Ao longo de sua carreira, ele escreveu mais de 350 composições musicais, incluindo 107 toadas para o boi Caprichoso.

Formado em Letras pela UERJ, com especialização em Administração Pública pela USP, J. Carlos Portilho era funcionário de carreira do Banco do Brasil e não tinha qualquer afinidade com os bumbás de Parintins. Sua praia era a MPB, de Chico Buarque, Milton Nascimento e Quinteto Violado, e a poesia de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto.

Por isso, no início de 1983, ele recebeu com surpresa um convite de seus colegas bancários – Geraldo Medeiros, Tico, Carlos Dorvan, Acinelson e Norma Medeiros – para ser compositor do boi Caprichoso. A causa era nobre: o principal compositor do touro negro, Raimundinho Dutra, estava de mudança definitiva para Manaus. O repertório do touro negro estava muito repetitivo porque se limitava às toadas feitas por Raimundinho Dutra e outros compositores da velha guarda do Caprichoso. A torcida azul e branca queria novidades. Make it new.

Aos 30 anos, J. Carlos Portilho resolveu encarar a missão com afinco e denodo. Primeiro, ele quis testar até onde iria a sua (dele) liberdade de criação. O Brasil estava convulsionado pela emenda Dante de Oliveira pedindo eleições diretas para presidente e ele fez uma toada nesse diapasão: “Alô meu povo quer votar pra presidente desta nação brasileira, / diretas já minha gente, votando pra presidente, / hoje eu me sinto orgulhoso em ser Caprichoso / quem viver verá que este é meu canto de guerra / desfraldando o azul e branco do campeão desta terra”. Mesmo em plena ditadura militar, a toada foi aprovada.

Até aquela data, as toadas dos dois bois eram exclusivamente percussivas. O compositor J. Carlos Portilho introduziu o violão e o cavaquinho no acompanhamento das novas toadas do Caprichoso para dar uma camada mais melódica às composições.

Para muita gente, aquilo soou como um anátema, uma desvirtuação das toadas feitas pelos antigos mestres (Ambrósio, Zazá, Horácio, Pitombeira, Vavazinho, Nilo Gama, Raimundinho Dutra, Nelsinho Bulcão, etc). A diretoria do Caprichoso aprovou a inovação. O “contrário” torceu o nariz.

Na sequência, J. Carlos Portilho criou um grupo musical, “Sangue Azul”, para gravar as músicas em fitas K7 e colocar na Rádio Alvorada para tocar, já que até então não eram feitos registros musicais das toadas. As músicas eram gravadas na própria residência do compositor da forma mais amadora possível. O equipamento era um aparelho 3 em 1 da Gradiente com apenas um microfone de entrada. Os oito músicos se posicionavam em torno do microfone e metiam a mão na massa.

Antes mesmo que a gravação fosse concluída, já havia na frente da casa alguns torcedores do Caprichoso montados em motocicleta – Afrânio Gonçalves, Henrique Medeiros, Márcia Baranda, Marta Medeiros – para pegar a fita no sistema vapt-vupt e levar para a Rádio Alvorada. A diretoria do Caprichoso aprovou a novidade. O “contrário” torceu o nariz.

Consciente de que seria incapaz de montar sozinho um novo repertório para o diamante negro, J. Carlos Portilho começou a frequentar os programas radiofônicos da cidade para exortar os compositores a mostrarem suas músicas no curral do Caprichoso, que era uma oportunidade única de vê-las sendo cantadas pela galera azul e branca durante o festival.

Entre os compositores que atenderam ao chamamento estavam Geraldo Brasil, Carlos Magno (mais conhecido como “Carlos Pato”), Neil Armstrong, Franco Costa, Carlos Paulain, Heliomar Conceição, Sales Santos, Hugo Levy, Lélio Lauria, Ariosto Braga e Jovelino Silva, entre outros.

Em 1984, J. Carlos Portilho soube que o boi Caprichoso havia feito uma apresentação em Maués que tinha sido um verdadeiro vexame – 80% da população da cidade torcia pelo Garantido.

Para tentar reverter a situação, o compositor fez a toada “Maués, Terra Encantada”, em que a temática indígena foi incluída pela primeira vez em uma composição: “Maués / mostra a cultura de um povo / que tens e que és / Pedaço de chão brasileiro / Terra de índios guerreiros / Sateré-Mawé / Cerêçaporanga que um dia / dos olhos negros nascia / a lenda do guaraná”. A música fez um sucesso estrondoso no festival de Parintins e em Maués, reequilibrando a divisão entre torcedores de Garantido e Caprichoso na terra do guaraná.

Em 1985, também perplexo com o falecimento prematuro do presidente Tancredo Neves, J. Carlos Portilho fez uma pungente toada sobre o infausto acontecimento intitulada “Liberdade: um canto azul e branco”: “Partiu / na certeza de quem cumpriu / Liberdade pro meu Brasil / Tancredo foste herói nacional / deixaste / um legado de paz e amor / que a todos conciliou / morreste / e ficou um sentimento civil / lutaste por causa tão nobre / no norte, no leste e no sul / recebe a homenagem do povo de azul / e hoje brilhas no infinito / reluz o Cruzeiro do Sul / recebe os aplausos do povo de azul”.

A emoção tomou conta da arena, com milhares de torcedores indo às lágrimas. A toada rendeu uma comenda de Honra ao Mérito dada ao compositor no Congresso Nacional, por D. Risoleta Neves, viúva de Tancredo.

No mesmo ano, o jornalista e músico Fred Góes retornou a Parintins depois de uma bem-sucedida carreira musical no sul do país e assumiu a direção musical do boi Garantido. Na mesma época, Paulinho Du Sagrado e Tony Medeiros haviam criado o grupo Ajuri, nos moldes do grupo Sangue Azul, mas para acompanha-los como banda de apoio nos festivais de música.

Por sugestão de Fred Goés, Paulinho Faria recrutou alguns músicos talentosos e criou o Regional Vermelho e Branco, para dar suporte melódico às toadas do Garantido e também para gravarem as toadas em fita K7, tal como o Caprichoso já vinha fazendo há dois anos.

Em 1986, J. Carlos Portilho comprou uma chácara à beira do Lago Macurany, que passou a ser o estúdio improvisado para a gravação das agora já famosas fitas K7. O grupo Sangue Azul nunca teve uma formação fixa, mas sempre contou com algumas peças chaves: Portilho, Rey Azevedo e Franco Costa nos vocais principais, Geraldo Brasil e Neil Armstrong no violão, Mauro Mendes no cavaquinho e alguns batuqueiros escolhidos a dedo na Marujada de Guerra para fazer a cozinha rítmica.

Nesse ano, Portilho e Carlos Pato compuseram “Vaquejada”, considerada um dos hinos do festival: “Este ano eu vou / erguer minha bandeira / este ano eu vou / erguer minha bandeira / Eu vou tu vais / Eu vou eu vou / Eu vou tu vais / Eu vou eu vou / Reunir meus vaqueiros / pra tocar a boiada / convidei a morena / pra ver de pertinho a minha vaqueirada / Vem ouvir urro forte / que vem lá norte / pode preparar / é meu boi Caprichoso / alegria do povo que esta pra chegar”. De quebra, durante a apresentação da toada na arena, introduziram a primeira “paradinha” na história do festival, executada com maestria pela Marujada de Guerra.

Em 1987, J. Carlos Portilho ficou abespinhado quando viu um moleque de 18 anos, deficiente visual, cantando verdadeira pérolas da MPB com uma voz firme, melodiosa e afinada, em um dos bares de Parintins. Ele não sossegou o facho enquanto não convenceu o rapaz, chamado David Assayag Neto, a ser a voz principal do grupo Sangue Azul e a tomar parte na família azul e branca.

Por essa época, o vocalista Franco Costa já estava pensando em deixar o grupo e também abandonar de vez a função de levantador oficial do boi Caprichoso. No papel de diretor musical do touro negro e selecionador oficial das toadas que seriam cantadas na arena, Portilho não pretendia deixar a peteca cair. A bela voz de David Assayag começou a ser ouvida na Rádio Alvorada pela primeira vez a partir das fitas K7 daquele ano.

Em 1988, os músicos do Sangue Azul estavam reunidos na chácara de J. Carlos Portilho para gravar as músicas daquele ano quando surgiu no local o violonista Sílvio Fernando (apelidado por Portilho de “Sílvio Camaleão”) tocando “Guantanamera” em um instrumento parecido com um cavaquinho. Impactado pela sonoridade estranha do instrumento, Portilho quis saber do que se tratava.

– É um charango boliviano do Fred Góes. Estou tomando lições dele para aprender a tocar o bicho! – explicou Camaleão.

– Pois então aprende logo, mas não fala nada pra ninguém, que nós vamos substituir o cavaquinho pelo charango nas toadas do Caprichoso! – avisou Portilho. – A sonoridade dele permite uma modulação sonora quase impossível de ser alcançada pelo cavaquinho…

Dito e feito. Naquele mesmo ano, o charango de Sílvio Camaleão era ouvido pela primeira vez na inauguração do Bumbódromo. A saraivada de críticas que o diretor musical do Caprichoso recebeu não estava no gibi. Muitos puristas atribuíram a derrota do Caprichoso naquele ano à introdução do instrumento alienígena na estrutura musical do dois-pra-lá-dois-pra-cá. A mídia só faltou crucificar o compositor. Não adiantou muita coisa. Dois anos depois, o “contrário” também introduzia o charango na brincadeira, que hoje é praticamente obrigatório.

Em 1989, J. Carlos Portilho estava saboreando um “galeto de arraial”, durante uma quermesse na Praça da Igreja Sagrado Coração de Jesus, quando ouviu um moleque de 21 anos cantando “Morena Tropicana”, de Alceu Valença.

O levantador de toadas Franco Costa já havia avisado que não entraria na arena naquele ano. O vocalista David Assayag queria continuar sendo a voz do grupo Sangue Azul, mas não queria participar do evento na arena.

Portilho não sossegou o facho enquanto não convenceu o rapaz, chamado Arlindo Júnior, a fazer um teste para ser o novo levantador de toadas do Caprichoso e tomar parte na família azul e branca. O rapaz disse que ia conversar com seu pai a respeito.

Naquele ano, J. Carlos Portilho havia decidido gravar um LP em vinil do touro negro e começou a correr atrás de patrocínio. O grupo Sangue Azul estava começando as gravações na chácara do compositor quando surgiu Arlindo Júnior. Ele cantou uma ou duas toadas, mas não quis participar do disco, que acabou tendo Davi Assayag como voz principal.

Incentivado pelos músicos do Sangue Azul, Arlindo Júnior começou a frequentar os ensaios no curral do Caprichoso e, naquele mesmo ano, foi anunciado como novo levantador de toadas do bumbá. Conquistou a nação azul e branca na hora em que entrou na arena. Passou 15 anos na função. O disco “Caprichoso Alegria do Povo – Boi-bumbá de Parintins” foi lançado durante o festival. O “contrário” lançaria seu primeiro LP em vinil no ano seguinte.

Em 1991, o compositor Chico da Silva anunciou que estava deixando o boi Caprichoso para ser compositor do boi Garantido. Era a primeira vez que uma estrela de primeira grandeza mudava de time. Logo depois, o compositor Ronaldo Barbosa abandonou o boi Garantido e foi ser compositor do boi Caprichoso. Chico da Silva passou 10 anos no Garantido e depois voltou para o Caprichoso. Ronaldo Barbosa permanece no Caprichoso até hoje.

Em 1994, na véspera da gravação da fita K7 do Caprichoso, J. Carlos Portilho soube que o grupo Sangue Azul estava fazendo uma série de apresentações em Belém (PA) e que não conseguiria chegar a tempo para participar da gravação. Ele convocou novos músicos, rebatizou o grupo de “Canto da Mata” (sugestão do compositor Ronaldo Barbosa) e conduziu as sessões musicais na sua chácara.

Foi a última vez que Arlindo Júnior e David Assayag dividiram os vocais em uma série de toadas do touro negro. No ano seguinte, Davi Assayag se tornaria levantador de toadas oficial do boi Garantido.

Aquela também foi a última fita K7 do Caprichoso gravada na chácara de J. Carlos Portilho. Com a eleição do governador Amazonino Mendes naquele ano, os bumbás de Parintins passariam a receber aportes financeiros do governo estadual e de empresas multinacionais para profissionalizar o festival e transformá-lo em um megaevento turístico de categoria mundial. A fase amadorística dos bumbás havia chegado ao fim.

Também em 1995, com a entrada de Mailzon Mendes, Alex Pontes e Aluízio Brasil no grupo, o Canto da Mata seria repaginado, adquiriria personalidade própria e chegaria a gravar seis CDs com composições autorais nos 20 anos seguintes. Antes de entrarem para a banda, Mailzon e os demais integrantes fizeram parte de grupos de pagode em Parintins e cantaram em igrejas de Manaus.

Um dos diferenciais do Canto da Mata é a mistura de ritmos que foram incorporados às toadas. “Fizemos uma linha melódica mais comercial. Falamos o que acontece no nosso dia a dia, queremos deixar uma mensagem de positividade nas nossas letras. Essa fórmula deu certo”, afirma Mailzon.

Dançante e com coreografia fácil, o hit “Ritmo Quente” fez o maior sucesso nas rádios da região Norte em 1997 e é conhecido até hoje. Mailzon conta que a composição nasceu durante uma viagem de ônibus para o município de Presidente Figueiredo. “Na época, ainda era Arlindo Jr & Canto da Mata. O Alex sempre andou com um gravador no bolso e eu também. Do nada, pintou uma melodia. Na hora, todo mundo começou a cantar uma letra que não tinha nada a ver com o Ritmo Quente conhecido hoje em dia. Mais tarde, fizemos a letra definitiva, levamos ao J. Carlos Portilho e ele aprovou. A música entrou no CD do Caprichoso daquele ano”. O antigo grupo Sangue Azul foi rebatizado de Regional Azul e Branco e continuou sendo a banda de apoio do Caprichoso na arena. E nada mais seria como antes.

O compositor J. Carlos Portilho continuou sendo o diretor musical do touro negro até 2001, quando se aposentou pelo Banco do Brasil e passou a residir em Manaus. Nesse meio tempo, ele ajudou a introduzir na brincadeira o baixo elétrico (1993), teclados (1994), violinos (1996), metais (1997) e continuou sendo um dos compositores de ponta do touro branco. Não é pouca porcaria.

Infelizmente, o querido J. Carlos Portilho faleceu numa sexta-feira, dia 16 de abril de 2021, aos 69 anos, em São Paulo. Ele lutava contra a Covid-19 e as sequelas do vírus desde o dia 24 de fevereiro, quando foi diagnosticado com a doença. No dia seguinte, viajou para São Paulo e se internou no hospital São Camilo, onde foi intubado no dia 4 de março. Chegou a ser extubado no dia 8, mas submeteu-se ao mesmo procedimento três dias depois, com o agravamento do quadro, vindo a óbito. Continua presente em nossa memória e nos nossos corações.

sábado, outubro 24, 2026

O espírito de Ezra Pound baixa em Parintins

 


O escritor, crítico literário e poeta Ezra Pound atuou como editor e impulsionador crucial das carreiras de grandes nomes como T.S. Eliot, James Joyce, Ernest Hemingway, Robert Frost e W.B. Yeats. Ele foi o principal articulador da estética modernista na poesia de língua inglesa, ajudando a romper com as estruturas rígidas e sentimentais da era vitoriana.

Ezra Pound revolucionou a tradução de textos clássicos (especialmente chineses e latinos), introduzindo a ideia de recriação crítica e poética. No Brasil, essa abordagem influenciou diretamente os poetas do movimento Concretista.

Em um de seus ensaios mais famosos, ele propôs a existência de três classes de criadores: “inventores”, os que descobrem um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo, os “mestres”, os que fazem várias combinações do processo inicial e se saem tão bem ou melhor do que os inventores, e os “diluidores”, aqueles que vieram depois e não foram capazes de realizar tão bem o trabalho.

Ezra Pound falava de literatura. Mas a gente pode usar seus argumentos para falar de música. Tomando como exemplo o baião nordestino, Luiz Gonzaga, nos anos 1940, desenvolveu uma maneira particular de tocar o baião. Ele não era bem um compositor ou um letrista (poesia mesmo quem fazia eram os seus parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas), mas Gonzagão acabou sendo respeitado como um autêntico inventor.

Um estilo musical nem sempre nasce pelas mãos de um homem só. Uma pessoa pode criar um modo diferente de tocar um ritmo (como João Gilberto e seu violão “bossa nova”), mas quase sempre há um conjunto de outras pessoas (arranjador, letrista, intérprete) que contribuem para que a “invenção” tome sua forma final.

Mozart foi um mestre que não inventou a ópera, mas suas óperas são de uma excelência que seus predecessores não tinham alcançado. Na maioria das vezes, essa fronteira entre inventor e mestre é muito pequena, pois na medida em que um músico usa um estilo pré-existente e insere nele novas combinações harmônicas, rítmicas e estruturais, há um componente de invenção e originalidade que não se pode subestimar.

Nas toadas de Parintins, um pequeno grupo de “inventores” foi decisivo para que o desenvolvimento das composições atingisse o patamar de qualidade que perdura até os dias de hoje: J. Carlos Portilho, Emerson Maia, Fred Góes, Tony Medeiros, Inaldo Medeiros, Ronaldo Barbosa e Chico da Silva.

Mas o culto ao inventor, como já ensinou o poeta, crítico literário, filósofo e escritor Antônio Cícero, irmão da cantora Marina Lima, também é frequentemente associado ao slogan “make it new”, de Ezra Pound, que pode literalmente ser traduzido por “faça-o novo” e, menos literalmente, por “faça o novo”.

Na Atenas clássica, Isócrates já dizia que o importante não é fazer o mais novo, mas o melhor. O poeta Haroldo de Campos interpreta “make it new” como uma exortação a “remastigar a herança cultural universal para nutrir o impulso: renovar”.

A injunção de Pound também deve ser entendida a partir da definição que ele próprio dá para a literatura como “news that stay news”: novas que permanecem novas, novidades que permanecem novidades.

O novo que permanece novo não é simplesmente “o novo”, mas aquilo que não envelhece. “Um clássico é um clássico”, afirma Pound, com toda razão, “porque possui um certo eterno e irreprimível frescor”.

Os poetas líricos gregos pensavam desse modo. Os poetas épicos haviam considerado as Musas – as deusas que inspiram os poetas – como filhas da Memória.

Supõe-se, às vezes, que isso representasse o reconhecimento da importância da memória e da memorização para a poesia oral.

Outra hipótese é que esse mito refletisse o fato de que os poemas épicos preservavam a memória de feitos originários da comunidade.

Os poetas líricos, porém, compreenderam que o que preservava a memória dos feitos da comunidade era a memorabilidade dos próprios poemas que cantavam tais feitos.

Para eles, o feito mais memorável de todos era, portanto, o próprio poema.

A memória da Guerra de Tróia era preservada, não tanto porque fosse, ela mesma, memorável, mas em virtude da memorabilidade do poema que a cantava, a “Ilíada”.

Nesse sentido, as Musas eram filhas da Memória porque representavam a fonte da qualidade (divina) que tornava os poemas deles – mesmo quando não tratavam dos “grandes temas”, mas apenas, por exemplo, dos seus amores – inesquecíveis, memoráveis, dotados de “eterno e irreprimível frescor”.

Foi trilhando nessa mesma senda e utilizando como matéria-prima o mesmo espírito criativo dos antigos poetas líricos da Grécia antiga que J. Carlos Portilho, Emerson Maia, os irmãos Inaldo e Tony Medeiros, Fred Góes, Ronaldo Barbosa e Chico da Silva produziram o mais bem-acabado repertório de toadas do Festival de Parintins, quase todas hoje incluídas na categoria de verdadeiros clássicos do dois-pra-lá-dois-pra-cá.

Conhecer a história de cada um deles é uma boa maneira de entender porque Parintins virou a capital cultural da Amazônia. Ninguém disse que ia ser fácil.

sexta-feira, outubro 23, 2026

A construção festiva do Bumbá Caprichoso

 


Para entender melhor o surgimento do Caprichoso no contexto do folclore de Parintins também é importante ler o livro “A Verdadeira História do Festival de Parintins”, de Raimundinho Dutra, versador tradicional do bumbá e oriundo de uma família tradicional do boi azul.

Em um de seus relatos, Raimundinho Dutra diz ter escutado de seus próprios pais que foi seu avô, o maranhense Marçal Mendes de Assunção, que trouxe as primeiras danças para Parintins, fato ocorrido em 1888.

O local de realização dos ensaios do Caprichoso, conhecido popularmente como curral, é chamado de Zeca Xibelão em homenagem ao primeiro tuxaua do boi-bumbá. Ele está localizado na parte considerada como azul da cidade.

O Bumbódromo situa-se na área central da cidade, traçando, juntamente com a catedral de Nossa Senhora do Carmo e o cemitério local, uma linha imaginária, que divide Parintins em uma metade leste e outra metade oeste. O lado leste pertence ao Caprichoso, o lado oeste, ao Garantido. Simples assim.

Como já foi visto, há muita controvérsia sobre a história do Caprichoso, uma vez que os bois de Parintins não eram associações legalmente registradas e nem possuíam ampla cobertura da imprensa até a criação do Festival.

Tudo o que se sabe atualmente foi levantado por pesquisadores a partir de entrevistas com membros das duas entidades, além de consultas a outros registros da tradição oral parintinense.

Some-se a isso o fato de que a extrema rivalidade entre os bumbás faz com que ambas as entidades busquem se afirmar como a mais antiga, o que leva seus torcedores e integrantes a defenderem teses que sugerem datas de fundação bastante remotas.


A diretoria do Caprichoso afirma, baseada em algumas versões da tradição oral, que o boi foi fundado por João Roque, Félix e Raimundo Cid, em 20 de outubro de 1913. Os três fundadores seriam irmãos, nascidos em Crato, que se mudaram para Parintins devido ao Ciclo da Borracha.

Ainda segundo esta versão, o boi recebeu esse nome devido à sugestão de um advogado, de nome José Furtado Belém, que conhecida um outro boi, de nome Caprichoso, que existia no bairro da Praça 14 de Janeiro, em Manaus.

Defensores desta tese alegam ainda que “Touro Galante” seria o apelido do Caprichoso à época. Ocorre que a própria diretoria do boi Caprichoso já entrou em contradição.

Em 2001, o então deputado estadual Zezinho Faria propôs na Assembleia Legislativa que fosse dado aos dois bois parintinenses a maior comenda de mérito cultural do Amazonas, a comenda Ruy Araújo.

O projeto foi aprovado e a cerimônia ocorreu em 7 de junho de 2001, no auditório Dom Arcângelo Cerqua, localizado em Parintins.

O Garantido foi representado por seu ex-Amo, João Batista Monteverde, filho de seu fundador.

Indicado como fundador do boi Caprichoso à ALE-AM, Luiz Gonzaga foi representado por sua viúva, a senhora Izolina Gonzaga.

A senhora Gonzaga recebeu a medalha em nome de seu ex-marido, indicando a verdadeira “paternidade” do touro negro, das cores azul e branca.


Em 2013, ano do suposto centenário dos dois bois, ocorreram algumas manifestações em Parintins, organizadas pelos descendentes vivos de Luiz Gonzaga, em que estes reivindicavam o reconhecimento de sua família como cerne da verdadeira identidade do fundador do boi Caprichoso.

Segundo a referida família, a diretoria do boi Caprichoso não prezava pela verdadeira história do boi azul, principalmente por querer “ocultar” os detalhes comprovados oralmente por inúmeras testemunhas sobre o surgimento da agremiação folclórica.

Maria Inácia Gonzaga, filha do suposto fundador, afirmou que o Caprichoso é parintinense, evidenciando ainda que Roque Cid (atualmente apontado como o fundador da agremiação pela diretoria) era o fundador do boi Galante.

“Querem colocar uma pessoa de fora para ser fundador do boi em vez de valorizar quem é da terra, isso é falta de respeito. Meu pai é parintinense, o Caprichoso nasceu em 1925, na rua Rio Branco, onde ainda moram filhos e netos de Luiz Gonzaga”, diz ela. A história é apoiada por Maria do Carmo Monteverde, filha de Lindolfo Monteverde, o fundador do Garantido.


O cantor e compositor Chico da Silva, conhecido por suas célebres toadas para os dois bois, afirmou, em 2018, durante o programa #Toadas, do site BNC, que o boi Caprichoso foi fundado em 1925, e o contrário em 1924. 

“O Garantido é de 1924 e o Caprichoso de 1925, esse é meu depoimento e vamos parar com essas outras historinhas sem fundamento”, detonou.

Os presidentes do bumbá Caprichoso, dos anos 80 em diante, foram os seguintes: Rubem Santos (1985-1988), João Andrade (1989-1992), Ray Viana (1993-1996), Joilto Azêdo (1997-2000), Dodózinho Carvalho (2001-2002), César Oliveira (2003-2005), Carmona Oliveira Filho (2006-2010), Márcia Baranda (2011-2013), Joilto Azêdo (2013-2016), Babá Tupinambá (2016-2019), Jender Lobato (2019-2023) e Rossy Amoedo (desde 2023).

Os Levantadores de Toada foram os seguintes: Franco Costa (1983-1988), Arlindo Júnior (1989-1999), Renato Freitas (2000-2001), Robson Junior (2002-2004), Arlindo Júnior (2005-2006), Edilson Santana (2007-2009), David Assayag (2010-2020) e Patrick Araújo (desde 2021).

Os Apresentadores foram os seguintes: Mário Gordo e Franco Costa (1983-1986), Marcos Santos (1987-1989), Gil Gonçalves (1990-1997), Arlindo Júnior (1998-2004), Júnior Paulain (2005-2013), Arlindo Júnior (2014), Júnior Paulain (2015), Fabiano Neves (2016) e Edmundo Oran (desde 2017).

Os Amos do Boi foram os seguintes: Rey Azevedo (1984-1998), Benedito Siqueira (1999-1999), Rey Azevêdo (2000-2003), Renato Freitas (2004), Edilson Santana (2005-2006), Prince do Boi (2007-2009), Edilson Santana (2010-2013), Junior Paulain (2014), Edmundo Oran (2015-2016), Prince do Boi (2017-2024) e Caetano Medeiros (desde 2025).

Entre os principais compositores do Caprichoso estão José Carlos Portilho, Ronaldo Barbosa, Carlos Paulain, Chico da Silva, Raimundinho Dutra, Sílvio Camaleão, Mailzon Mendes, Carlos Batata, Simão Assayag, Alceo Anselmo, Paulinho Du Sagrado, Robson Júnior, Tadeu Garcia, Alex Pontes, Zezinho Cardoso, Hugo Levy, Geovane Bastos, Ademar Azevedo, Adriano Aguiar, Klinger Araújo, Ronaldo Barbosa Jr., Maurício Filho, Davi Jerônimo e Cézar Moraes.


O histórico compositor e poeta Raimundo Nonato de Jesus Dutra, conhecido como Raimundinho Dutra, faleceu na noite de domingo, 4 de maio de 2025, em Manaus, aos 94 anos.

A diretoria do bumbá Caprichoso postou nas redes sociais a seguinte Nota de Pesar:

É com profundo pesar que recebemos a notícia do falecimento de Raimundinho Dutra, um dos grandes nomes da história e da poesia do Boi Caprichoso e do Festival de Parintins.

Poeta talentoso, Raimundinho marcou gerações com sua sensibilidade e genialidade. Suas toadas, como “Aquarela do Touro Negro”, “Meu Cântico de Guerra”, “Mocidade” e “Solo Amado”, embalaram as noites de Boi de Rua e despertaram o sentimento mais genuíno de amor pelo boi da estrela na testa.

Foi ao som de suas composições que o Boi Caprichoso ganhou vida nas ruas de Parintins, nos primórdios desta manifestação popular que hoje encanta o mundo.

Sua contribuição para a preservação e valorização da nossa cultura é imensurável, e seu legado permanecerá vivo na memória de todos os azulados.

Em nome do presidente Rossy Amoedo e do vice-presidente Diego Mascarenhas, o Boi Caprichoso decreta luto oficial de três dias e se solidariza com os familiares, amigos e com toda a nação azul e branca neste momento de dor e despedida.

Obrigado por tudo, Raimundinho. Sua poesia viverá para sempre.

A construção festiva do Bumbá Garantido

 

Paulinho Faria, símbolo do touro branco

A família Faria foi a principal colaboradora do bumbá Garantido na época em que os bois de Parintins ainda não recebiam apoio financeiro de empresas privadas ou do governo e eram associados, com uma boa carga de preconceito, a uma simples festa popular para pessoas de baixa renda.

Com o suporte da Loja Jotapê, de José Pedro Faria, seus filhos Zezinho e Paulinho Faria comandaram o Garantido por cerca de duas décadas, mais especificamente dos últimos anos de Lindolfo Monteverde à frente do boi, no início da década de 70, até a chegada de investimentos externos, nos anos 90.

Nascido em 2 de janeiro de 1902, em Parintins, filho de maranhenses, o criador do Garantido, Mestre Lindolfo Monteverde, faleceu em 27 de julho de 1979, aos 77 anos.

Em 1982, foi fundada por Zezinho Faria a primeira pessoa jurídica dos bois de Parintins: a Associação Folclórica Boi Bumbá Garantido. A associação foi fundada para que a posse do terreno onde hoje é situado o Curralzinho da Baixa pudesse ser entregue pela Loja Jotapê ao Garantido, e não a uma pessoa física. A cerimônia de entrega da propriedade contou com a participação de autoridades locais da época, como o então prefeito Gláucio Gonçalves.

A gestão dos irmãos Faria é considerada, até hoje, a “Era de Ouro” do Garantido, sendo considerada a época mais vitoriosa do bumbá quando foi conquistado o único pentacampeonato da história do Festival Folclórico até hoje (1980-1984) e o primeiro título disputado no Bumbódromo, em 1988.

O Garantido venceu também o tira-teima no ano seguinte, em 1989, no festival que marcou a despedida de Zezinho Faria do comando do boi com a célebre frase: “A partir de agora, os bois já podem caminhar com suas próprias patas”, em referência ao novo formato que teria o Festival de Parintins, em que ambas as agremiações seriam patrocinadas pelo Governo do Estado e por empresas multinacionais.

Foi o fim da “Era de Ouro” do Garantido, período no qual o Boi da Baixa do São José conquistou oito dos dez títulos disputados e o início dos anos de Zé Walmir como presidente do Garantido.


A matriarca da família Faria, dona Maria Ângela, falecida em 20 de fevereiro de 2014, ficou conhecida como a eterna “Madrinha do Boi”, sendo homenageada todos os anos durante a Festa da Alvorada, com os torcedores do Garantido passando solenemente em frente à sua residência. Dona Maria Ângela morreu de causas naturais, aos 91 anos, na casa onde sempre residiu.

Considerada uma das principais personalidades da cidade, dona Maria Ângela ficou conhecida mundialmente por assumir o amor pelo boi do coração de uma maneira radical: ao pintar a casa e todos os móveis da residência com as cores vermelho e branco, transformando o local em um dos pontos turísticos da cidade.

Por conta disso, dona Maria Ângela conquistou a admiração não só de torcedores do boi vermelho e branco, mas também do “contrário”, que se inspiraram no seu exemplo para replicar a dose no bumbá Caprichoso.


O amor pelo Boi do Povão era tanto que dona Maria Ângela não admitia a entrada de nada azul, cor do Caprichoso, em sua casa: nem a piscina, também pintada de vermelho, podia ter água, senão ficava azul. A piscina permanentemente vazia era um dos charmes da residência.

O Garantido sempre teve um coração na testa, só que antes era pintado de preto. Em outubro de 1982, na inauguração da nova sede do Banco do Estado do Amazonas (BEA), onde hoje fica o Bradesco, Jair Mendes pintou um mural que exibia os dois bois de Parintins.

Dona Maria Ângela Faria, ao ver o mural, chamou Jair para pedir a ele que pintasse o coração de vermelho, pois, em suas palavras, “ficaria muito mais bonito”. O coração vermelho foi visto pela primeira vez neste mural na sede do BEA, tendo sido muito bem recebido pela galera vermelha e branca.

Ele apareceu pela primeira vez na cor vermelha na testa do Garantido no festival do ano seguinte, em 1983, ano em que o Garantido venceria o seu quarto título consecutivo que culminaria no primeiro, e até hoje inédito, pentacampeonato, consumado em 1984.


Em 1976, o filho caçula de dona Maria Ângela, Paulinho Faria, se tornou o primeiro apresentador do boi Garantido, aos 15 anos de idade, ocupando este posto por 26 anos, tendo recebido nota máxima dos jurados durante 24 festivais. Ele deixou o posto em 2002, fazendo a passagem de faixa para Israel Paulain na primeira noite de apresentação do Garantido.

Filho do compositor Carlos Paulain, Israel é também um grande vencedor em seu item, tendo recebido nota máxima dos jurados ininterruptamente desde 2006. Naquele ano, o apresentador conduziu o espetáculo sem ler o roteiro, uma inovação que foi adotada pelos dois bois a partir de então.

Os presidentes do bumbá Garantido, dos anos 70 em diante, foram os seguintes: Zezinho Faria (1978-1992), Jair Mendes (1993), Aimée Faria (1994), Ronildo Monteverde (1995-1996), Zé Walmir (1997-1998), Raul Goés (1999-2000), Antônio Andrade (2001-2002), Zé Walmir (2003-2005), Vicente Matos (2005-2009), Telo Pinto (2009-2014), Adelson Andrade (2014-2017), Fábio Cardoso (2017-2020), Antônio Andrade (2020-2023) e Fred Góes (desde 2023).

Os Levantadores de Toada foram os seguintes: Emerson Maia (1984-1990), Paulinho Faria (1991-1994), David Assayag (1995-2009), Edilson Santana (2020-2022), Márcia Siqueira (2020-2022) e Sebastião Júnior (desde 2010).

Os Apresentadores foram os seguinte: Paulinho Faria (1975-2001) e Israel Paulain (desde 2002).

Entre os principais compositores do Garantido estão Lindolfo Monteverde, Mestre Ambrósio, Venâncio, Nelson Bulcão, Vavazinho, Braulino Lima, Emerson Maia, Chico da Silva, Tadeu Garcia, Paulinho Du Sagrado, Inaldo Medeiros, Mencius Melo, Tony Medeiros, Helen Veras Filho, Demétrios Haidos, Geandro Pantoja, Cézar Moraes, Murilo Maia, Enéas Dias, Emerson Faria Maia, Ronaldo Barbosa Jr., Rafael Marupiara, Ademar Azevedo, Maurício Filho e Alfredo Campos.


O ex-apresentador do Boi Bumbá Garantido, Paulinho Faria, de 61 anos, morreu vítima da Covid-19, no dia 22 de fevereiro de 2021. Ele estava internado em um hospital particular de Manaus. Paulinho tinha sido transferido da cidade natal para continuar o tratamento contra a Covid-19 em Manaus no início de fevereiro. O corpo do ex-apresentador foi sepultado em Parintins.

Paulinho Faria acumulou 24 vitórias no Festival Folclórico de Parintins durante 26 anos como apresentador do Garantido. Em entrevista ao Paneiro, da Rede Amazônica, em 2016, o artista comentou que foi forçado a se afastar do posto em 2001 por causa de um problema auditivo.

O prefeito de Parintins, Frank Bi Garcia, publicou uma nota de pesar em redes sociais sobre a morte do ex-apresentador.

“Filho de Dona Maria Ângela, eternizada na história como madrinha do boi vermelho e branco, Paulinho Faria marcou gerações como apresentador na Baixa do São José. Conhecido pelos improvisos e uma narrativa riquíssima, mudou a forma de se apresentar o Festival. Nossa cidade perde um ícone do seu maior patrimônio, a cultura”, comentou o prefeito.

Também em redes sociais, o Boi Bumbá Garantido publicou uma mensagem por conta do falecimento do ex-apresentador:

“Impossível não chorar com a sua perda, o Amazonas precisa te reconhecer como uma das pessoas mais importantes para o crescimento da cultura parintinense no nosso estado. Você me apresentou durante 26 anos, você era praticamente imbatível, foi o melhor apresentador da história do festival, em todos esses anos perdeu apenas uma única vez e honradamente foi para outra lenda, Arlindo Jr.

A importância de Paulinho Faria na construção do festival em seu início é algo ímpar, o carinho e o carisma com a sua galera também. O amor por mim, seu brinquedo, seu boi de pano, estará sempre guardado em meu coração.

Gostaria de relembrar a sua despedida como apresentador, em 2001, onde as duas nações em uma única voz pela primeira vez se uniram em coro por aquilo que era a sua grande marca, a contagem de abertura do meu espetáculo”.

quinta-feira, outubro 22, 2026

O surgimento dos bumbás de Parintins, segundo Marcos Santos

 

Os jornalistas e radialistas Marcos Santos e Ronaldo Tiradentes

Parintinense da gema e ex-apresentador do bumbá Caprichoso, o jornalista Marcos Santos publicou no seu portal na internet (www.portalmarcossantos.com.br) um texto esclarecedor a respeito do surgimento dos bumbás de Parintins que me parece muito mais próximo da verdade factual do que o lendário urbano disseminado pelas duas agremiações:

Quando se fala na história dos bumbás Caprichoso e Garantido, os fatos propriamente ditos quase nunca são levados em conta. A rivalidade acaba prevalecendo. Há, porém, uma linha que ninguém contesta e é nessa que vamos trafegar. Noves fora o “tapa olho” do fanatismo, há um “tronco” comum entre o azul do Caprichoso e o vermelho do Garantido que se chama Boi Galante. Fundado por jovens estivadores e pescadores parintinenses, incentivados por José Furtado Belém, influente político da época (pai do deputado estadual Júlio Belém, nome do aeroporto de Parintins), o bumbá Galante reunia os festeiros da cidade.

Lindolfo Monteverde atravessava a cidade, de sua casa, na Baixa da Xanda (Xanda era o apelido de Dona Alexandrina, mãe dele, e o local foi depois transformado em Baixa do São José), local onde ainda existe o chamado “curral tradicional” do Garantido, até a Avenida Rio Branco, para tirar versos nesse bumbá. Parintins era praticamente uma vila. Não havia ruas, só veredas para serem percorridas a pé, no meio da mata.

Para piorar, quando Lindolfo chegava ao curral do Galante, seu principal adversário, o pescador Nascimento, havia ocupado o lugar de amo e tirava os versos que eram o ponto forte do bumbá. Chegou uma hora que Lindolfo e seus companheiros – a “viagem” da Baixa à Rio Branco era feita em grupo – decidiram criar o próprio bumbá. Nascia o Garantido.

No ano seguinte, percebendo que o nome tinha apelo popular, os integrantes remanescentes do Galante decidiram mudar a denominação para Caprichoso. Estavam postos os rivais que fazem a história do Festival de Parintins.

A maior polêmica está no ano em que isso aconteceu. O Garantido comemorou o centenário de Lindolfo Monteverde em 2002, ou seja, ele nasceu em 1902. A linha oficial adotada pelo bumbá é de que a criação do mesmo ocorreu em 1913. Ora, isso significaria que Lindolfo o fundou aos 11 anos de idade. Chico da Silva, na toada “Sonho de Liberdade”, de 2002, afirma: “Boi Garantido / É histórico, é sabido / que mestre Lindolfo Monteverde / aos 18 anos de idade contigo sonhou / Boi Garantido, sonho de Lindolfo Monteverde / Do poeta a oitava maravilha / Se realizou”.

Aí tudo vira uma questão matemática: 1902 + 18 = 1920. O Galante deve ter sido fundado por volta de 1918, o Garantido em 1920 e o Caprichoso em 1921. É possível dizer, como o azul e branco é herdeiro do bumbá original, que ele é o pioneiro da cidade. Mas como o vermelho e branco foi o primeiro a adotar o nome atual, também ele pode afirmar ser o primeiro da Ilha Tupinambarana.

Logo, essa história de 1912-1913, como datas de fundação dos bumbás, é mero fanatismo, sem qualquer base histórica. O que não dá para ignorar é que, ambos, têm suas raízes em pescadores e estivadores, pessoas muito humildes, responsáveis por cultivar a semente da árvore frondosa que hoje é o Festival de Parintins.

Há ainda outros fatos que marcam a linha de tempo da festa parintinense. A Igreja Católica de Parintins está na base de tudo. Disposta a arrecadar recursos para a construção da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, imponente construção erguida na “Broadway” (trecho da Avenida Amazonas, a principal de Parintins), a Juventude Alegre Católica (JAC) criou o Festival Folclórico, em sua quadra de esportes. O local ficou pequeno e a festa “passeou” pela quadra do Ipasea, Parque das Castanholeiras e o estádio de futebol municipal Tupy Cantanhede. O bumbódromo teve a sua primeira versão em madeira.

O aeroporto da cidade ficou bem no meio da área residencial e foi transferido para o local atual. Sobrou uma área de terra imensa, sem qualquer utilização, que o prefeito de então, Gláucio Gonçalves, conseguiu matricular no patrimônio da cidade.

Gláucio ofereceu a cabeceira que dá para o lado “de cima” da cidade ao Garantido, para a construção de seu curral, enquanto o “lado de baixo” foi ofertado ao Caprichoso. Fiel à toada que diz “Nunca mudou de fazenda / nem de dono ou de curral”, o vermelho recusou.

O Caprichoso aceitou na hora a área que hoje é o curral Zeca Xibelão. Mais tarde, percebendo o erro cometido, o Garantido recebeu ajuda dos seus simpatizantes mais endinheirados e governamentais para comprar a Cidade Garantido, no local atual, onde antes funcionou a Fabriljuta, indústria de tecelagem de juta.

Em 1988, mesmo diante do ceticismo dos que achavam a obra faraônica, o governador da época, Amazonino Mendes, hoje prefeito de Manaus, construiu o Bumbódromo atual, com capacidade para 12 mil espectadores. O local recebeu mais de 30 mil pessoas e, depois da festa, os ferros retorcidos da estrutura mostraram como o Festival Folclórico de Parintins cresceu além das expectativas. Por pouco o Bumbódromo não caiu no ano da estreia.

O Garantido cultiva muito bem a memória de seu fundador, Lindolfo Monteverde. Ao Caprichoso falta um pouco mais de respeito às memórias de Boboí, dos irmãos Cid e de Luiz Gonzaga. Este, da década de 1930 até a de 1960, quando faleceu, embaixo da alegoria Dona Aurora, foi o grande responsável pela manutenção do bumbá. Tire-se o fanatismo, e o resumo da história dos bumbás é isso aí.

quarta-feira, outubro 21, 2026

O surgimento dos bumbás de Parintins, segundo Gláucio Gonçalves

 


O ex-prefeito Gláucio Bentes Gonçalves estava internado há algumas semanas no Hospital Regional Jofre Cohen, em Parintins, quando uma pneumonia provocou a falência múltipla dos órgãos e o levou a óbito, aos 83 anos, no dia 2 de dezembro de 2014.

Remanescente de uma geração de políticos que incluía Gilberto Mestrinho, José Raimundo Parente, José Lindoso, Plínio Coelho, Socorro Dutra Lindoso, Arlindo Porto, José Cardoso Dutra e José Furtado Belém, Gláucio Gonçalves iniciou sua vida pública em 1956, quando foi eleito vereador pelo PSD.

Foi duas vezes prefeito de Parintins e eleito quatro vezes deputado estadual. Atuou como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) de 1995 a 2000, por onde se aposentou. Em 2012, ele lançou o livro “Parintins nas minhas lembranças”. É dele o relato abaixo sobre o folclore da ilha:

Meu pai nos levava, eu e meus irmãos, para assistir os ensaios do Caprichoso no terreiro da casa do Antônio Bobozinho, hoje Travessa João Meirelles, com direito às bombinhas fabricadas pelo Xavier Fogueteiro. Em outros locais havia festas típicas, com muitas fogueiras, fogos e balões, danças de boi e de quadrilhas e muitas guloseimas: mungunzá, tapioca, banana assada, pé de moleque, bolo de macaxeira, sucos e refrescos de abacaxi, aluá, gengibirra etc.

Era a oportunidade para os encontros amorosos da juventude daquela época. Afinal de contas, naqueles tempos, a nossa cidade contava com poucos eventos festivos, razão porque se valorizava muito mais os poucos que existiam, sendo o mês de junho uma época das mais animadas.

Mais tarde o curral do Caprichoso passou para o terreno pertencente ao saudoso Luiz Gonzaga, na Travessa Rio Branco, nosso trajeto preferido, o que vale dizer, território do “azul e branco”, enquanto que o curral do Garantido era na tradicional “Baixa de São José”, no lado oposto da cidade.

Por essa razão, por ser bem próximo da minha casa, eu frequentava muito mais o curral do “diamante negro”, inclusive por ser local onde reuníamos com os amigos e amigas do bairro para aquelas festinhas inesquecíveis ao lado do curral do boi, sob a proteção de Zé Nossa Filho, velho guardião do boi Caprichoso, que vinha a cavalo lá do Paraná do Limão, sua antiga fazenda de gado, para não perder os ensaios de seu boi do coração.

Não posso deixar de mencionar que, nessa época, época do jaraqui, pontificava o cheiro inconfundível desse saboroso peixe assado, presença infalível no nosso cardápio, principalmente nos meses de maio a junho. Parece até que, naquele tempo, até o jaraqui assado era mais gostoso, principalmente quando temperado com pimenta, sal e limão, e vontade de saboreá-lo.

Lembro-me do fanatismo que já existia naquele tempo, em relação aos dois famosos bumbás. Os moradores do lado de baixo (lado leste) eram invariavelmente torcedores do Caprichoso, enquanto os do lado de cima (oeste) eram marcadamente Garantido.

Antes os bois se apresentavam em frente às residências, quando eram solicitados, e geralmente preparava-se uma fogueira para que os bois pudessem se apresentar em volta daquele clarão.

Os donos da casa tinham o direito de se posicionarem nos lugares mais privilegiados, para que as famílias, sempre com crianças, pudessem assistir melhor ao espetáculo. Só que antes a participação do povo era mais direta, isto é, a chamada elite não passava de mera espectadora, sem fazer parte diretamente da apresentação do boi bumbá.

Gláucio e o filho Enéas Gonçalves

Pode-se dizer que os brincantes eram todos de famílias humildes: pescadores, estivadores, operários, gente pobre da periferia, muito diferente dos dias atuais, quando sabemos da luta travada por muitos grã-finos ou grã-finas para conseguir uma vaga na “marujada de guerra” ou na “batucada vermelha e branca”. Enquanto as “cunhãs-porangas”, as “sinhazinhas”, as “rainhas do folclore”, as “porta-estandartes”, além de bonitas, geralmente eram filhas de pessoas distintas da sociedade.

Eu considero uma grande inverdade a história que não sei quem meteu no ouvido da mídia – gente que não conhecia nada dos bumbás de Parintins – que o Garantido é o boi do povão e o Caprichoso é o boi da elite. Posso garantir que isso está longe da verdade. Os dois bumbás são constituídos de grandes massas populares que dividem a cidade ao meio, inclusive as elites, se é que assim se pode chamar.

Naqueles anos de outrora me lembro de duas bravas mulheres que brincavam de boi. Não só brincavam como contribuíam com trabalho, arte e muita dedicação ao boi querido de Luiz Gonzaga: a Camé Rocha (“Camé do Bom Rapaz”, como era conhecida) e a Eurica Cid, todas duas figuras imortais do boi Caprichoso.

A primeira – a Camé – desempenhava a figura de madrinha do Touro Negro, com direito a um lugar especial na roda de brincantes, além de ser artista e estilista ao mesmo tempo, pois tanto cuidava da confecção da tradicional figura de “Dona Aurora”, quanto fazia também a indumentária da mesma, enquanto a segunda – a Eurica – tinha lugar efetivo como dançarina invisível dessa referida figura engraçada, isto é, fazia a “Dona Aurora” dançar para as multidões. Daí eu dizer que essas duas mulheres heroicas, pelo muito que contribuíram espontaneamente ao boi de Zé Nossa Filho, merecem um registro especial.

Hoje sabemos da grande disputa por um lugar de destaque em qualquer dos bumbás. Dizem até que as gatinhas, pela importância do papel que representam no boi, quase sempre conseguem bons casamentos, ou pelo menos namorados de alto nível. Mas ao tempo de Camé e Eurica não conheci outras mulheres participando diretamente das brincadeiras de boi. Elas duas, pelo que me lembro, foram as primeiras a entrar na roda do boi, cantando toadas e dançando o dois pra lá, dois pra cá.


Como o assunto ainda é boi-bumbá, vou aproveitar uma achega de meu pai, que gostava muito das festas juninas, principalmente de brincadeira de boi. Ele dizia que, naqueles tempos idos, nos encontros ocasionais de Caprichoso e Garantido pelas ruas da cidade, dava gosto assistir o espetáculo e ouvir os desafios em forma de versos.

De um lado o Feliz Cid e de outro o Lindolfo Monteverde, cada qual com maior talento, faziam o público delirar em noites memoráveis de Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal. Noites iluminadas não só pelo crepitar das fogueiras, mas também pelos versos desafiadores, sempre bem rimados, daqueles consagrados poetas-repentistas do folclore parintinense.

Se bem consigo fazer uma ilação, chego a dizer que há uma evidência bem-acentuada em torno dos dois poetas-repentistas que acabei de citar – Cid e Monteverde – o primeiro, o Feliz, era filho de cearense e o Lindolfo, pelo que tudo faz crer, era filho de maranhense, ambos, evidentemente, descendentes de nordestinos, o que vale dizer que todos dois carregavam nas veias o sangue forte do poeta repentista, o verso de desafio, animado e divertido, que alegrava as nossas noites e começava a criar na alma do povo essa grande paixão pelos dois festejados rivais, numa brincadeira bonita e sadia, cada um defendendo suas cores, sob o ritmo cadenciado das mais belas e inesquecíveis toadas.

Com relação ao boi Caprichoso eu devo contar um fato que me parece muito esclarecedor, em razão de certas dúvidas ainda existentes, no que concerne aos legítimos fundadores do famoso bumbá de Luiz Gonzaga. Senão, vejamos.

Há muitos anos, lembro-me ainda, alguns cearenses aqui residentes apresentavam o “cordão dos marujos”, apresentação folclórica trazida do sertão nordestino, em homenagem a São Benedito, evidentemente com fundamento religioso, tendo a participação de uma única mulher, a rainha do Congo, que conduzia a imagem da mãe de Jesus.

Esses “marujos”, quando se apresentavam, usavam roupas com as mesmas características das que são usadas pelos marinheiros, isto é, semelhantes também àquelas usadas antigamente pela “marujada de guerra” do boi Caprichoso. E, o mais curioso, sabem quem era o principal responsável pelo “cordão dos marujos”? Não era outro, era apenas o senhor Roque Cid, pai do amo do Caprichoso – Feliz Cid – o que vem a ser um forte argumento para se reconhecer na família Cid os verdadeiros fundadores do boi da “marujada de guerra”.

Mais tarde outro Cid veio a ser amo do Caprichoso – refiro-me ao Nascimento Cid, irmão de Feliz. Se há outros, eu não sei, mas uma coisa é certa, as evidências indicam os Cid como fundadores do Caprichoso, sendo seu primeiro amo o Feliz Cid, o qual deve ter seu nome colocado em relevo, nos anais do seu boi, assim como Lindolfo Monteverde é estrela de primeira grandeza na história e na vida do Touro Branco.


Para concluir esses registros em torno da festa dos bumbás de Parintins, devo dizer que durante o tempo em que exerci mandatos eletivos, sempre procurei me manter acima da condição de torcedor deste ou daquele boi. Aliás, esse comportamento foi adotado também pela Walkíria, minha mulher, porque quando assumi o segundo mandato de prefeito, havia um clima de profunda desconfiança, do lado do Caprichoso, com relação à prefeitura, em razão do que havia ocorrido no ano anterior.

Os torcedores do boi azul e branco acusavam o ex-prefeito, meu antecessor do segundo mandato de prefeito, de haver comprometido o resultado do julgamento. O caso se tornou tão grave que chegou ao ponto de um grupo de simpatizantes do Caprichoso tentar invadir a residência daquele ex-chefe comunal, o que não aconteceu por interferência policial.

A verdade é que o nosso festival folclórico experimentou até o estádio Tupy Cantanhede, como área de apresentação, mas o resultado foi absolutamente negativo porque causou alguns prejuízos ao futebol local: paralisação do campeonato, estrago no gramado, perfuração da área etc. Não posso deixar de registrar que nos dois mandatos de prefeito, nosso apoio foi total e efetivo ao Festival Folclórico de Parintins.

Para ser sincero, perdoem-me a falta de modéstia, mas o Festival Folclórico de Parintins ganhou dimensão maior a partir de 1983, no nosso segundo mandato de prefeito. Desde a primeira investidura no executivo municipal, sem nenhuma dúvida, não só ajudamos em termos logísticos e financeiros, como fomos incansáveis em oferecer todo tipo de estímulo e incentivo para que essa festa se tornasse cada vez mais empolgante e organizada, até chegar ao ponto em que chegou.

Primeiramente conseguimos levar o festival para a praça pública, exatamente no local onde está hoje o bumbódromo, uma vez que antes era apresentado nas quadras de esporte, de modo muito acanhado, tendo em conta o espaço reduzido para um festival que crescia a cada ano.

Muitos ainda se lembram que, como prefeito, começamos fazendo o bumbódromo todo em madeira de lei: arquibancadas, cadeiras numeradas, tablado e até camarotes com dois pisos, para autoridades e visitantes ilustres.

O crescimento desse festival, como todos sabem, foi também em função do poder de imaginação do povo parintinense, cuja vocação artística vem se manifestando aos borbotões, numa proporção extraordinária a se refletir positivamente na formação cultural de nossa gente.


Foi em 1987, naquele bumbódromo ainda de madeira, no camarote oficial, o governador Amazonino Mendes, sentado ao meu lado, sob a vibração das galeras, batendo no meu ombro, disse o seguinte (palavras que eu não esqueço): “Gláucio, eu quero te ajudar a fazer um gol de placa na tua administração. Vê qual a obra de grande vulto que possa agradar mais o povo de Parintins!”

Na mesma hora, sem deixar o compromisso esfriar, falei assim: “Governador, se o senhor me dá oportunidade de escolher essa grande obra que deseja construir em Parintins, peço-lhe que faça esse bumbódromo em concreto!”

O governador me olhou e perguntou novamente: “É isso mesmo?...” Respondi afirmativamente que sim. “Então, Gláucio, você pode anunciar à imprensa e ao povo de Parintins que vamos construir o bumbódromo definitivo e a inauguração será no festival do próximo ano de 1988!”

Foi assim que nasceu esse colossal bumbódromo, graças à grande visão do governador Amazonino Mendes, que deu a Parintins esse prêmio valioso, como maior incentivo ao nosso tradicional festival folclórico.

Depois disso é evidente que o Festival Folclórico se agigantou ganhando a dimensão dos dias atuais, e essa grandiosa obra começou a ser naturalmente divulgada pelo Brasil e pelo mundo, com destaque para a vocação artística e cultural deste povo.

É verdade que esse projeto governamental, pela sua relevância política e social, muito me envaideceu por ter tido o privilégio de ver essa obra imponente edificada na minha administração, que acabou de ser coroada de extraordinário êxito, tendo em vista o “gol de placa” que ficou na história. Desse modo ficou o governador com sua vontade política plenamente concretizada, e eu com meu sonho transformado em realidade.

O compromisso foi tão sério e inarredável que dentro do prazo previsto o novo bumbódromo foi festivamente inaugurado, sob o ritmo contagiante das toadas, exatamente no dia 28 de junho de 1988, cuja solenidade presidida evidentemente pelo governador Amazonino Mendes contou naturalmente com a presença de convidados ilustres, além da multidão que não se cansava de aplaudir o grande artífice dessa obra monumental. Parintins, com certeza, muito deve ao insigne governador Amazonino Mendes. Entre tantas obras importantes que aqui realizou, o bumbódromo pontifica entre as maiores.

Quando concluí meu último mandato de prefeito, quando se acabaram as desconfianças, isto é, depois que demonstramos total isenção e seriedade no trato com as agremiações folclóricas, a Walkíria voltou a torcer pelo Garantido, seu boi de preferência, e eu pelo Caprichoso, dos meus tempos de juventude, muito embora reconheça que no Garantido sempre tive excelentes amigos, a começar pelo saudoso Lindolfo Monteverde e sua família, com os quais eu sempre mantive o melhor relacionamento.

Os meus filhos também são divididos entre Caprichoso e Garantido, por isso torcem cada qual pelo seu boi de preferência, com total liberdade e o melhor espírito democrático, o que, graças a Deus, tem nos permitido a melhor harmonia familiar. Os vitoriosos respeitam os que perderam e tudo acaba em paz, felizmente.

Essa questão de preferência de boi-bumbá, nas famílias, aqui em Parintins, é um fato interessante e muito comum. Aliás, foi isso que deu motivo ao sempre inspirado compositor Chico da Silva a compor uma bela toada denominada “Meu boi faz pirraça”.

Eis a toada, que eu considero uma das obras-primas desse talentoso compositor parintinense: “Meu amor faz pirraça / da minha cachaça / e do meu boi-bumbá. / Meu amor é contrário / e no mês de junho / se manda pra lá. / Eu confesso que sinto / uma grande tristeza / na separação. / Só meu boi Caprichoso / derrama alegria / no meu coração. / Além do mais / meu amor vai voltar / e depois do folclore / talvez não demore / pra gente casar. / Meu grande amor / vai me perdoar / hoje o boi Caprichoso / bonito e formoso / tomou seu lugar. / É boi, é boi, é boi-bumbá / que me leva pra lá e pra cá / É boi, é boi, é boi-bumbá / que me leva pra lá e pra cá”.

Mas, ao falar nas coisas boas dos nossos bumbás, não posso deixar de registrar uma comovente surpresa que o boi Garantido me fez. Isso aconteceu no último ano do meu primeiro mandato de prefeito, em 1972.

O Lindolfo levou o Touro Branco para se apresentar em frente à minha casa, na Rua Furtado Belém. Sem que ninguém imaginasse, o velho Lindolfo, fundador e amo imortal do boi Garantido, em forma de homenagem, “levantou” a seguinte toada, denominada “Despedida”.

Aqui está a toada que emocionou a mim e minha família, e continua emocionando todas as vezes que a recordamos: “Último ano de governo / nosso prefeito vai embora / Ele trabalhou pelo progresso / desta terra / já deixou seu nome / gravado na História / Ele trabalhou pela cidade / Ele trabalhou pelo interior / grande trabalho / Prefeito Gláucio deixou”.

O que até hoje me comove é a forma espontânea e sincera dessa homenagem, o que me causou uma grata surpresa, além de tocar profundamente na minha vaidade de prefeito, que tudo fez pensando no melhor para este município. À nação vermelha e branca eu confesso minha gratidão, minhas saudades e minhas recordações imorredouras.


Falo agora do primeiro ano do meu segundo mandato de prefeito. O Edu Costa como vice-prefeito foi nomeado por mim para presidir a comissão encarregada do festival folclórico desse ano de 1983. Tive de viajar a Manaus para tratar assuntos do município.

No meu retorno encontro a confusão formada. O Caprichoso, pelo seu presidente Geraldo Medeiros, não quis aceitar o Edu na presidência dessa comissão. Alegava-se que o vice-prefeito era ou continuava simpático ao Garantido.

Acontece que eu e Edu havíamos acabado de sair de uma eleição vitoriosa. Não tinha como deixar de prestigiar o companheiro que se mostrava tão entusiasmado em presidir a comissão. Não tive como atender o apelo que me foi enviado. Paciência! Se ele, o Edu, não encontrou uma saída honrosa, muito menos eu, seu companheiro de campanha.

Hoje, com mais experiência, certamente teria adotado um “modus vivendi” e tudo teria sido resolvido sem desdobramentos. Mas o certo que o Caprichoso, nesse ano, não participou do festival oficial, o que foi, para muitos, profundamente lamentável.

E daí o que fazer?... Não podíamos realizar o festival só com o Garantido, apesar de seu grande valor e prestígio junto à comunidade, mas, na verdade, essa disputa é tradicional e sem um dos dois rivais o festival esfria.

E para amenizar o prejuízo com a ausência do Touro Negro, eu e minha equipe reunimos e tomamos a decisão de procurar imediatamente os responsáveis pelo boi Campineiro, que havia se apresentado no ano anterior. Como era de se esperar, esse pessoal se encontrava totalmente desmotivado, pelas dificuldades naturais, visto que não é fácil se organizar um boi para disputar com o Garantido, num tempo relativamente curto. Mas a nossa vontade foi tão forte que conseguimos superar aquele problema sem tanta dificuldade.

Conversamos com um dos donos do Campineiro, meu compadre Camoca, o qual se prontificou em nos ajudar na reorganização daquele bumbá. Foi feita a eleição para a presidência do boi. O eleito foi o Carlos Lima, à época funcionário da Fundação Sesp, que assumiu em seguida o comando do Boi do Palmares.

Com isso começou a crescer o entusiasmo pelo Campineiro, que iniciou seus ensaios com muita animação, e assim os demais preparativos, ao ponto de se apresentar à altura daquela disputa, durante as noites programadas no calendário do festival.

É justo e necessário que se registre a importância do boi Campineiro no Festival Folclórico de 1983, nesta cidade de Parintins. Valeu o grande esforço e sacrifício do meu amigo Carlos Lima, do meu compadre Camoca, de dona Dilce Cansanção e de tantos outros folcloristas e artistas do boi esmeraldino, que muito contribuíram para que aquele festival fosse realizado com sucesso.


O engraçado de tudo isso é que mandei contratar o cantor parintinense Chico da Silva, que nesse tempo morava no Rio de Janeiro, para vir alegrar ainda mais as nossas festas folclóricas. Não digo nada, o Chico chegou, me procurou na prefeitura e tudo ficou certo para que ele fosse a grande vedete da primeira noite.

Qual minha surpresa, chegou a hora da apresentação do Chico e cadê você? Ninguém sabia dar notícia do cantor. Mais tarde, entretanto, fomos saber que o Chico da Silva, fantasiado de tuxaua, estava infiltrado numa tribo do Caprichoso, no Parque das Castanholeiras, onde o “diamante negro” fazia sua apresentação. Já imaginaram?...

Exatamente, nesse ano, o consagrado boi de Feliz Cid, por alguma incompreensão, não quis participar do festival oficial.

No dia seguinte me aparece o Chico, com cara de ressaca, para me pedir desculpas: “Mano velho, você vai me desculpar, mas eu não resisti à vontade de sair no meu boi de coração. Há vários anos que eu não via o bailado do meu boi”.

O que eu podia fazer diante do desabafo de um conterrâneo saudoso de sua terra e de seu boi? Tive de desculpar o Chico. E só não fiquei mais aborrecido porque o boi Campineiro, nessa noite, se apresentou impecável, razão dos muitos aplausos da multidão que se fez presente naquela praça de apresentação folclórica.

Para ser bem justo, já que falo no Campineiro, tenho por dever de justiça e gratidão dizer que o pessoal do Garantido, quando soube da decisão do Caprichoso de não participar da disputa, para me tranquilizar, foi ao meu encontro dizendo que tudo seria feito para a beleza da festa não ser sacrificada.

E foi exatamente o que aconteceu. A festa foi linda, o Garantido foi belo, o Campineiro foi surpreendente, mas sabe-se, por experiência própria, ser muito difícil a ausência de um dos bois de nossa tradição folclórica. Que isso nunca mais aconteça!