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sexta-feira, setembro 25, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 100

 

A cantora Alcione no início da carreira

100. O Cantor e compositor Francisco Ferreira da Silva, o nosso popular Chico da Silva, nasceu no dia 8 de maio de 1945, na zona rural de Parintins, na região do rio Uaicurapá, filho de Antônio Soares da Silva e Edvirgem Ferreira da Silva. 

Seu pai era cearense, descendente de portugueses e espanhóis. Sua mãe era acreana, descendente de africanos. Antônio e Edvirgem se conheceram em um seringal em Xapuri (AC), namoraram, noivaram, casaram e se mudaram para Parintins, em busca de uma vida melhor.

A mãe de Chico da Silva faleceu quando ele estava com três anos e o pai, quando ele estava com dez anos. Órfão de pai e mãe, Chico da Silva foi adotado pela professora Guajarina Nazaré Prestes, que cuidou do moleque como se fosse seu filho biológico. 

Por intermédio do bispo de Parintins, Dom Arcângelo Cérqua, Dona Guajarina soube da existência da Escola Técnica Federal de Manaus e encaminhou o filho para ser internado naquele educandário, depois que o mesmo foi aprovado no exame seletivo para ingressar na instituição. Chico da Silva cursou o Ginásio Industrial Básico, tornando-se torneiro mecânico, chegando a trabalhar em algumas oficinas de refrigeração da cidade por alguns anos.

Em 1966, em busca de uma vida melhor, Chico da Silva, aos 21 anos, viajou para São Paulo. Depois de muito peregrinar, foi admitido como torneiro mecânico na Indústria Villares, em São Bernardo dos Campos, no ABC paulista, onde se concentravam várias indústrias. 

Ele teve como companheiro de seção um torneiro mecânico da mesma idade, chamado Luís Inácio da Silva, que não tinha o dedo mínimo da mão esquerda cortado por uma prensa dois anos antes.  

Nessa época, o torneiro mecânico Luís Inácio passou a se envolver nos movimentos sindicais, levado por seu irmão José Ferreira da Silva, conhecido por Frei Chico. O torneiro mecânico Chico da Silva preferiu se aproximar do meio musical, cantando nas noites paulistas como intérprete de vários sambistas brasileiros, como Noite Ilustrada e Zé Kéti.

Quem primeiro descobriu a bonita sonoridade vocal daquele sambista amazonense foi o cantor Jair Rodrigues. Ele ficou tão empolgado que levou Elis Regina para ouvir Chico da Silva cantando no Bar do Léo. Os três ficaram amigos íntimos (Chico da Silva chegou a escrever um samba para a “Pimentinha”, intitulado “A Batuta”, em 1970, que só foi gravado em 1991, pela cantora amazonense Lucilene Castro).

Em 1956, os compositores Marcos Cavalcanti de Albuquerque, o “Venâncio”, e José do Espírito Santo, o “Curumba”, criaram o inesquecível baião “Último Pau de Arara”, que se transformou em uma das músicas mais conhecidas do cancioneiro nordestino. O baião fez tanto sucesso que foi gravado por Luiz Gonzaga, Ari Lobo, Catulo de Paula, Quinteto Violado, Clara Nunes, Fagner, Maria Bethânia, Sérgio Reis, Caetano Veloso, Zé Ramalho, Teca Calazans, Gilberto Gil, Caju & Castanha, Carmélia Alves e Jair Rodrigues.

Em 1975, 20 anos depois, o cantor Jair Rodrigues apresentou Venâncio a Chico da Silva. Os dois se tornaram amigos e parceiros. Nesse mesmo ano, Alcione, a “Marrom”, havia lançado seu primeiro disco, “A Voz do Samba”, cujo carro-chefe era a música “O Surdo”, de Paulinho Resende e Totonho:

– Amigo, que ironia desta vida / Você chora na avenida / Pro meu povo se alegrar / Eu bato forte / E aqui dentro do peito uma dor / Me destrói / Mas você me entende / E diz que pancada de amor não dói / Meu surdo, parece absurdo / Mas você me escuta / Bem mais que os amigos lá do bar / Não deixa que a dor / mais lhe machuque / Pois pelo seu batuque / Eu dou fim ao meu pranto e começo a cantar / Meu surdo, bato forte no seu couro / Só escuto este teu choro / Que os aplausos vem pra consolar / Meu surdo velho amigo e companheiro / Da avenida e de terreiro /De rodas de samba e solidão / Não deixe que eu vencido de cansaço / Me descuide desse abraço / E desfaça o compasso do passo do meu coração.

Um dia, durante uma conversa com Venâncio, Chico da Silva tocou na ferida:

– Eu gosto muito desse samba da Marrom, compadre, mas esse papo de que o surdo chora numa roda de samba é uma tremenda cascata... O surdo é de marcação, só apanha de vez em quando! Quem se fode mesmo numa roda de samba é o pandeiro! Esse sim, apanha pra caralho! Você não acha, compadre?...

– Eu acho sim, parceiro, eu acho sim! Que tal se a gente fizesse uma música corrigindo essa injustiça e colocando na letra o ponto de vista do próprio pandeiro?...

– É por aí mesmo, compadre, é por aí mesmo!

Um mês depois, os dois compositores haviam feito “Pandeiro É Meu Nome”:

– Falaram que meu companheiro / Meu amigo surdo parece absurdo / Apanha por tudo / Ninguém canta samba / Sem ele apanhar / Não ouviram que seu companheiro / Amigo pandeiro / Também tira coco do mesmo coqueiro / Apanha sorrindo pro povo cantar / Pandeiro / Não é absurdo mas é o meu nome / Não me chamo surdo mas aguento fome / Pandeiro não come mas pode apanhar / Ao povo que vibra na força do som brasileiro / Não é só surdo nem só o pandeiro / Tem uma família tocando legal / Você cantando, tocando e batendo na gente / Passando por tudo tão indiferente / Não conhece a dor do instrumental / Batuqueiro ê, batuqueiro / Cantando samba pode bater no pandeiro.

A música foi mostrada pra Alcione, que adorou a composição e incluiu no seu terceiro disco “Pra Que Chorar”, de 1977. Puxado pelo hit instantâneo de Chico da Silva e Venâncio, o novo LP da Marrom vendeu 400 mil cópias, praticamente o dobro dos LPs anteriores.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 99

 

O advogado e ex-deputado estadual Félix Valois

99. Fevereiro de 1965. Festa de carnaval na sede da Associação Atlética Banco do Brasil, localizada nos altos de um prédio na Marechal Deodoro, a 200 metros da Chefatura de Polícia. 

De repente, começa uma grande briga no salão. A polícia intervém. Os estudantes universitários Gaia Nina, Felix Valois, Alfredo Santana e Edgard Messias, todos ligados ao “Partidão”, acabam sendo presos e levados para o “casarão” da Marechal Deodoro. 

Também ligado ao “Partidão”, o futuro médico Zé Maria Gomes Monteiro entra em ação. Enquanto o baile não era reiniciado, ele fez um discurso curto e grosso:

– Camaradas, negócio seguinte: os futuros advogados da nossa população mais carente e desassistida foram presos injustamente e só vão sair do xilindró depois que a gente molhar a mão dos gorilas que estão a serviço da ditadura militar. Hoje é sábado de carnaval e não é justo que eles passem a noite presos. Eu vou passar a sacolinha e quem quiser que ajude como puder...

Depois de meia hora, Zé Gomes já havia levantado cerca de R$ 5 mil (em valores de hoje), o salário mensal de um comissário de polícia. Com a grana na mão, ele foi até a Chefatura de Polícia. O delegado Belota era o plantonista.

Dirigindo-se a um dos policiais que estava na portaria, Zé Gomes foi peremptório:

– Avise ao delegado Belota que o doutor José Maria Gomes Monteiro está aqui na portaria e deseja falar com ele em regime de urgência urgentíssima...

Pensando tratar-se de algum figurão do governo por conta do nome imponente, o meganha apressou-se em dar o recado. Dali a cinco minutos, Zé Gomes entrou na sala do delegado.

Ele colocou a grana em cima da mesa e disparou:

– Meu queridíssimo, estimadíssimo e excelentíssimo doutor Belota. Eu trouxe um dinheirinho extra para pagar as despesas da carceragem de alguns amigos meus de comprovada boa índole, que estão detidos aqui nesta augusta delegacia há cerca de 50 minutos. Creio que esta grana é suficiente para cobrir as despesas deles por tal espaço de tempo. Agora, se não fosse abusar de sua permanente boa vontade, eu gostaria que o senhor liberasse os meninos que foram presos por causa de uma simples confusãozinha à toa na sede da AABB. E lhe prometo que eu vou me responsabilizar pessoalmente pelos futuros atos da meninada...

O delegado Belota conferiu a grana, colocou no bolso do paletó e avisou:

– Entre lá na carceragem, identifique seus amigos, leve eles embora e torça pra não ocorrerem novos tumultos ou a cobra vai fumar...

Zé Gomes foi até a carceragem, que ficava nos fundos da Chefatura, e, dirigindo-se ao carcereiro, também foi peremptório:

– Eu sou o doutor José Maria Gomes Monteiro e estou vindo do gabinete do excelentíssimo delegado doutor Belota. Ele me autorizou a liberar todo mundo...

O carcereiro, pensando tratar-se de um blefe, foi até a porta e berrou:

– Doutor Belota, é pra liberar todo mundo?

Pensando que o carcereiro estava se referindo aos comunistas detidos, o delegado gritou de volta:

– É, porra! É pra liberar todo mundo! E vê se não me enche mais o saco pelas próximas doze horas...

Zé Gomes deixou a Chefatura de Polícia em companhia de uns 80 presos, incluindo Gaia Nina, Felix Valois, Edgard Messias e Alfredo Santana.

Na Marechal Deodoro, ele falou aos ex-detidos:

– Moçada, quem liberou vocês não fui eu, mas sim o glorioso Partido Comunista Brasileiro. E agora vocês são nossos convidados para participar do baile de carnaval da AABB. Os ingressos e as bebidas são por nossa conta...

Foi uma festa.

Na segunda-feira, mais da metade dos ex-presos estava se filiando ao PCB. Deve ter sido o maior recrutamento de militantes comunistas da história do partido. 

Também, pudera. Quem não gostaria de participar de um partido pai-d’égua daquele que além de ter moral para soltar presos em pleno sábado gordo ainda bancava inesquecíveis bailes de carnaval?...

Telecoteco do Balacobaco - Canto 98

 


98. Novembro de 1968. A casa da Dona Alaíde, mãe do Luiz Pepéu, ficava em cima de um barranco de quase dois metros de altura e o terreiro da residência havia virado um campinho de futebol de dois contra dois. 

Um dia, na falta do que fazer, Pepéu pegou uma bola “casca de ovo” do tipo médio, abriu um furo minúsculo em uma das imitações de gomo e encheu a bola de pedra jacaré. 

A bola “casca de ovo”, que recebera esse apelido por ser extremamente leve, ficou pesando uns quinze quilos. 

Ele colocou a bola no meio da Rua Parintins e ficou esperando um incauto cidadão passar.

Lá pelas tantas, surge no começo da rua o peixeiro Bacaba, vindo de mais um extenuante dia de batalha. Assim que Bacaba se aproximou da bola, Pepéu deu um grito:

– Meu amigo, dá pra você chutar essa bola de volta pra cá, pra gente continuar a nossa pelada?...

Bacaba tirou o tabuleiro da cabeça e colocou no chão. Descalçou a velha sandália japonesa. Enrolou uma das pernas da calça até o meio da canela. Tomou uns seis metros de distância (ele sabia que a bola “casca de ovo” era extremamente leve), aí saiu correndo em direção à bola feito um alucinado e meteu o pé na bola com vontade, de bico. 

A bola rolou um palmo. A unha do dedão do pé do Bacaba virou farelo. O próprio dedão do pé quebrou na mesma hora.

Pulando feito um saci e urrando de dor, Bacaba não economizou nos impropérios e ameaças:

– Eu vou te matar, seu filho da puta! Eu vou fazer picadinho de ti, seu corno velho! Eu vou enfiar minha peixeira no teu bucho, seu viado filho da puta!

Pepéu e os outros moleques, claro, saíram correndo pro quintal da residência e passaram uns três meses sem colocar os pés na rua com medo da vingança do peixeiro.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 97

 

O saudoso sambista e empresário Zé Picanço

97. Abril de 1995. Enquanto matava o tempo antes de encarar o Morro da Liberdade para mais uma edição do antológico Pagode da Resistência, o empresário Zé Picanço estacionou no Bar da Carmona, em Educandos. 

Instalou-se numa mesa estratégica, pediu uma cerveja estupidamente gelada e começou a fazer o que sabia melhor: combater a desidratação.

Nem tinha chegado à segunda garrafa quando surgiu um fantasma da adolescência: Carlos Estevão. Ele abraçou o amigo, puxou uma cadeira sem pedir licença e já desembarcou na conversa com a cara de quem vinha carregar um piano.

– Porra, Zé Picanço, graças a Deus te encontrei! Tu és um sujeito vivido, passado na casca do alho, diplomado pela Universidade da Vida. Preciso de um conselho.

O empresário fez sinal para o garçom trazer outra cerveja. Sabia que conselho de graça costuma sair caro.

– Tu ainda te lembras da Ercília, aquela passista da Batucada do Rio Negro?

– Lembro. Se lembro...

– Pois é. Estou casado com ela faz três anos. Ano passado ela entrou na Semp-Toshiba e caiu nas graças de um supervisor que é uma mãe. Todo fim de mês o cidadão aparece com um mimo: já deu tênis da Nike, pulseira da Vivara, bolsa da Arezzo, calça Fuga de Lula... Enfim, o homem tem um carinho quase corporativo pela minha esposa.

Zé Picanço apenas arqueou uma sobrancelha. Carlos Estevão prosseguiu, completamente alheio ao tamanho da encrenca:

– O problema é que mês que vem é aniversário do supervisor. A Ercília quer que eu compre um presente pra ele. O que tu achas que eu devo dar?

Zé Picanço pousou lentamente o copo sobre a mesa, respirou como um monge tibetano prestes a revelar um grande ensinamento e respondeu com a serenidade de um filósofo de botequim:

– Dá uma chifrada nele.

Carlos Estevão arregalou os olhos.

– Como é?

– Uma chifrada. Porque presente, meu amigo, ele já vem ganhando há muito tempo. E a tua cara-metade sabe disso...

Dizem que Carlos Estevão levantou da cadeira tão rápido que quase pediu impedimento ao garçom. Saiu cuspindo fogo, esbravejando contra a falta de sensibilidade do amigo e jurando nunca mais voltar àquele boteco. Meses depois, chegou a notícia inevitável: Ercília largou Carlos Estevão e foi morar justamente com o tal supervisor.

Naquele dia, ficou provado que Zé Picanço não era empresário. Era vidente. Só faltava cobrar consulta e atender de turbante.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 96

 

Nunes Pereira no alto Rio Negro

96. Agosto de 1976. O antropólogo e escritor Nunes Pereira estava de passagem por Manaus e a moçada do Clube da Madrugada o levou para uma cervejada no Bar Avenida, na Eduardo Ribeiro.

Era um começo de tarde. Estavam lá, entre outros, Arthur Engrácio, Jorge Tufic, Anísio Mello, Alencar e Silva, Guimarães de Paula, Farias de Carvalho, Antístenes Pinto, Luiz Bacellar e Ernesto Penafort, todos inebriados com a presença do grande pajé da literatura indigenista. Birita e tira-gosto dando no meio da canela. Conversas sem ter fim.

No meio da fuzarca, Nunes Pereira queixou-se pra Arthur Engrácio:

– Rapaz, estou sentindo umas cólicas da moléstia... Tenho até a impressão de que já sujei a cueca depois de soltar um “bufa”... Onde é que fica o banheiro?...

Engrácio apontou o local e o antropólogo partiu apressadamente em direção a ele.

Depois de quinze minutos, o antropólogo retornou do banheiro trazendo a cueca samba-canção na mão e, em vez de sentar-se novamente à mesa, seguiu direto para a porta do bar, por onde costumavam passar as normalistas do Instituto de Educação e as senhoras e senhoritas de nossa melhor sociedade. Os escritores ficaram intrigados.

Dali a alguns minutos, Arthur Engrácio foi ver o que estava acontecendo.

Na porta do bar, Nunes Pereira, com a cueca borrada aberta nas mãos, exibia ostensivamente o surrealista troféu às mulheres que passavam e vendia seu peixe:

– Olhem aqui, olhem aqui: vocês já viram a verônica do meu cu?...

As normalistas, as senhoras e as senhoritas, evidentemente, fugiam escandalizadas como se tivessem visto o demo em pessoa. Depois de algum tempo naquela brincadeira sacana, Nunes Pereira voltou para a mesa do bar dando gostosas gargalhadas. Quem viu a verônica garante que a mandala do antropólogo já andava meio puída. Ô raça!

quinta-feira, setembro 24, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 95

 

Os compositores Mestre Chocolate e Nonato Galúcio

95. Agosto de 1994. Atendendo a um convite do GRES Reino Unido da Liberdade, a cantora Jovelina Pérola Negra desembarcou em Manaus para um show num badalado boteco do Vieiralves, reduto da boemia fina, onde o chope era gelado e a conta sempre vinha quente.

Como toda turista que pisava na Zona Franca naquela época, Jovelina fez o ritual obrigatório: saiu às compras. Voltou carregada de sacolas, feliz da vida, exibindo uma coleção de sapatos italianos da Arezzo, todos de verniz vermelho e salto agulha, comprados na Clark's por um preço tão baixo que parecia erro de etiqueta. Levou doze pares. Afinal, quem resiste a uma pechincha internacional?

O problema é que ela resolveu estrear justamente um deles na noite do espetáculo.

Uma hora antes do show, comentou, sem muito alarde:

– Esse sapato está me beliscando.

Ninguém deu importância. Artista reclama de tudo: do som, da luz, do camarim, da temperatura da cerveja...

Meia hora depois, porém, o sapato já tinha transformado os pés da cantora numa espécie de mapa em relevo da Cordilheira dos Andes. Eram bolhas, calos, vergões e uma expressão de dor que faria qualquer ortopedista pedir reforço.

Ela descalçou o sapato e exigiu que a produção do show providenciasse uma sandália.

Começou então uma operação de guerra. Revistaram camarins, mesas, cozinhas e até o carro de um garçom. Apareciam sandálias de todas as cores, modelos e procedências. O único detalhe era que nenhuma passava da metade do pé de Jovelina. Parecia que Manaus inteira calçava 36. A cantora perdeu a paciência.

– Eu não sou o João do Vale pra cantar descalça! Ou aparece uma sandália ou não aparece cantora!

Foi o suficiente para instalar o estado de calamidade pública. Bosco Saraiva, presidente de honra da Reino Unido, assumiu pessoalmente o comando da missão. Parecia um general procurando um doador compatível de calçados. Vasculhou o boteco inteiro, interrogou clientes, mobilizou amigos, agregados e até gente que só tinha ido ali tomar uma cervejinha em paz.

Quando o relógio marcava cinco minutos para o início do show e o público já batucava nas mesas, surgiu a salvação. Uma sandália de couro, estilo franciscana, número 44, tão surrada que parecia ter acompanhado a construção da Ponte Rio-Niterói.

Jovelina calçou. Serviu perfeitamente. Olhou para a sandália, torceu o nariz e decretou:

– A cor é meio morta, mas vai essa mesma.

As luzes se acenderam. O samba começou. E Jovelina fez um show antológico.

Quem não teve a mesma sorte foi o verdadeiro dono da sandália: o compositor Nonato Galúcio. Passou o espetáculo inteiro descalço, caminhando pelo boteco com a delicadeza de quem atravessa um campo minado, desviando de cacos de gelo, tampinhas de garrafa e, principalmente, das bitucas de cigarro que os próprios parceiros da ala de compositores da Reino Unido faziam questão de atirar debaixo da sua mesa, numa demonstração de amizade que beirava a tentativa de homicídio.

No fim das contas, Jovelina saiu de Manaus levando doze pares de sapatos novos e uma surrada sandália franciscana. Não foi pouca porcaria.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 94

 


94. Fevereiro de 1976. Mais enfeitado que jumento de cigano, Alberto Sarará entra no Bar do Oswaldo, no final da Rua Maués, procurando pelo parceiro Nelson Barreto, com quem havia combinado de irem juntos ao baile de carnaval do Beasa.

– O Nelson tomou umas cachaças ontem à noite e passou o dia com desarranjo intestinal. Acho que não vai dar pra ele ir pro baile não! – avisou Miguelito.

Crioulo parrudo, de quase dois metros, Alberto Sarará ficou mordido:

– Porra, bicho, mas vocês aqui da Cachoeirinha só vivem doentes! Nunca vi uma coisa dessas! Adoecem com tudo! Olhem pra mim, que fui criado no Bariri, na ilharga da Matinha, e nunca senti nada! Nunca fiquei gripado, nunca tive diarreia, nunca tive sarampo, nunca peguei nem frieira...

E prosseguiu a ladainha, para justificar seu vigor físico:

– É que vocês foram criados comendo barro e peixe podre aí do Igarapé do Quarenta. Só pode! Eu, não. Quando eu era guri, minha mãe colocava um prego na boca do fogão até ficar incandescente, depois colocava o prego no suco de jenipapo e dava pra eu beber, antes de dormir. Devo ser forte desse jeito porque desde pequeninho sempre tomava aquela infusão de ferro puro...

Folgado que só rolamento de carroça, o biriteiro Macarrão resolve entrar na conversa:

– Rapaz, eu bem que sempre desconfiei que esse pessoal do Bariri metido a macho toma é muito ferro desde criança... Vaprapurra, carniça!

Quase que sai porrada dentro do bar.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 93

 


93. Dona de uma elegância que fazia os jurados esquecerem até de piscar, a eterna musa do carnaval amazonense Ednelza Sahdo desfilava como porta-estandarte da Mocidade de Aparecida quando protagonizou uma das maiores demonstrações de profissionalismo da história da Avenida. Ou de teimosia. Dependendo do ponto de vista.

Naquela noite, Ednelza rodopiava com a leveza de uma bailarina do Teatro Bolshoi. Cada giro parecia calculado por um engenheiro suíço, cada sorriso parecia ensaiado diante do espelho desde o nascimento. Foi então que entrou em cena a maior inimiga da alta-costura carnavalesca: uma miserável tira de ráfia.

Não era uma ráfia qualquer. Era uma sobrevivente. Restara no asfalto depois da passagem de alguma escola de samba tão furreca que nem o caminhão da limpeza teve coragem de assumir a autoria. A danada resolveu escolher sua vítima. Enroscou-se primeiro na sandalinha de lamê de Ednelza. Depois resolveu subir de categoria. Prendeu-se no dedão do pé da porta-estandarte com a determinação de um fiscal da Receita Federal.

Ednelza tentou livrar-se da invasora sem interromper a coreografia. Girava, sambava, sorria, fazia pose, mexia discretamente o pé...

Nada. A ráfia já tinha escritura registrada no dedão.

O mestre-sala percebeu o drama. Sem perder a elegância, deu uma volta completa, ajoelhou-se diante da parceira como um cavaleiro medieval salvando sua princesa e agarrou a maldita. Pensou: “É só dar uma puxadinha...”

Foi a maior subestimação desde o Titanic dizendo que era inafundável. O mestre-sala puxou. A ráfia veio. Só que resolveu trazer um souvenir. Veio agarrada com metade da unha do dedão de Ednelza.

O sorriso da porta-estandarte congelou por um milésimo de segundo. Seu rosto desenhou uma careta capaz de resumir todas as dores da humanidade, da extração de siso ao imposto de renda. Os olhos se encheram de lágrimas. Mas apenas por um instante.

No segundo seguinte, lá estava ela novamente. Sorrindo. Girando. Sambando. Saudando os jurados como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, o dedão provavelmente já telefonava para a Associação Brasileira das Unhas pedindo intervenção imediata.

O público não percebeu. Os jurados também não. Só quem estava perto viu que, a cada giro, Ednelza travava uma silenciosa negociação entre a elegância e uma dor capaz de fazer muito marmanjão pedir aposentadoria por invalidez.

A Mocidade de Aparecida conquistou mais um campeonato. E a verdadeira campeã da noite foi Ednelza Sahdo. Porque vencer desfile é difícil. Agora, desfilar sorrindo depois de perder metade da unha do dedão do pé em pleno Sambódromo... isso já entra na categoria das coisas que só acontecem com porta-estandarte de escola de samba. Ou com quem fez um pacto solene de jamais deixar uma mísera ráfia estragar um título.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 92

 


92. O ano era 1934. O cantor e compositor Carlos Alberto Ferreira Braga, mais conhecido como “Braguinha” ou “João de Barro”, propôs ao seu amigo Noel Rosa em uma mesa do Café Papagaio a composição de uma música que lembrasse o ritmo das pastorinhas que desfilavam na Vila Isabel, na noite de Santo Reis. Pegaram papel e lápis e começaram o rascunho de uma música chamada “Linda Pequena”.

Braguinha não ficou muito satisfeito com o resultado de “Linda Pequena” interpretada por João Petra de Barros, pois a canção não virou sucesso popular.

Em 1937, depois da morte de Noel Rosa, Braguinha resolveu mudar alguns detalhes na letra, em uma verdadeira reciclagem musical: “moreninhas” virou “pastorinhas”, “pequena” virou “pastora” e “pequena que tens a cor morena” por “morena da cor de Madalena”.

O título também foi trocado por “As Pastorinhas”. A nova marchinha foi gravada no final de 1937 por Silvio Caldas e alcançou grande sucesso, sendo a campeã do concurso de músicas de carnaval do Rio de Janeiro, em 1938.

Braguinha era estudante de arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes e adotou o pseudônimo “João de Barro”, um pássaro arquiteto, para esconder o ofício de compositor de seu rígido pai, que não gostava de ver o nome da família circulando no ambiente da música popular, ainda muito mal visto na época.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 91

 


91. Oriundo de uma família de nove irmãos, todos batizados com nomes iniciados pela letra “C” – provavelmente para o pai economizar na encomenda dos monogramas –, Cyro Monteiro nasceu no subúrbio carioca do Rocha.

Seu pai, dentista e funcionário público, era conhecido como “Capitão Monteiro”, título que talvez viesse da antiga Guarda Nacional ou, quem sabe, da habilidade de comandar nove filhos sem pedir reforço ao Exército.

A vocação artística corria no sangue da família. Cyro era sobrinho do lendário pianista Nonô (Romualdo Peixoto), o célebre “Chopin do samba”, um dos músicos mais requisitados do Rio de Janeiro, que ensaiava na casa dos Monteiros ao lado de Sílvio Caldas.

Como se não bastasse, os primos atendiam pelos nomes de Cauby, Araken, Andyara, Aracy e Moacyr Peixoto. Era praticamente um festival de talentos com buffet liberado.

Como cantor, Cyro revolucionou o samba com seu jeito sincopado de brincar com as sílabas, sempre acompanhado da inseparável caixinha de fósforos, que transformava em instrumento de percussão.

Também foi um pioneiro na arte de colecionar amigos. Se existisse rede social naquela época, teria mais seguidores do que o Flamengo em dia de título.

Vinícius de Moraes resumiu bem o fenômeno na contracapa do LP Senhor Samba, lançado em 1961: “Cyro é um grande abraço em toda a humanidade.” E não era exagero. Havia gente que queria cantar como Cyro, viver como Cyro e, principalmente, ser convidada para almoçar com Cyro.

Sua voz ajudou a eternizar sambas de Geraldo Pereira e influenciou intérpretes como Roberto Silva. Já o apelido “Formigão”, dado pelo parceiro Eratóstenes Frazão, permanece envolto em mistério.

Uns diziam que era pela paixão incontrolável por doces. Outros juravam que era por causa de uma verruga escura na testa. Há ainda uma terceira hipótese, nunca confirmada: ele farejava açúcar a três quarteirões de distância.

Outra marca registrada era o fanatismo pelo Flamengo. Sempre que um amigo tinha um filho, Cyro aparecia com uma camisa rubro-negra para o recém-nascido. O bebê nem sabia abrir os olhos e já era inscrito no campeonato carioca.

A ousadia inspirou Chico Buarque, tricolor convicto, a escrever o divertido “Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita para virar casaca de neném”, dedicado à pequena Sílvia, sua filha com Marieta Severo, numa tentativa desesperada de salvar a criança da “influência flamenguista”.

Vinícius também eternizou a amizade entre Nonô e Cyro no célebre Samba da Bênção: “Você, sobrinho de Nonô.”

Mas, se existia um assunto no qual Cyro era unanimidade absoluta, era a gastronomia. O homem não fazia refeição, promovia uma intervenção militar no prato.

Todo sábado, chovesse canivete, granizo ou piano de cauda, dona Zica preparava sua lendária feijoada em regime de boca livre. A casa de Cartola virava uma espécie de ONU do samba: compositores, cantores, boêmios e amigos apareciam para tomar batida de maracujá, cantar até perder a voz e atacar uma feijoada capaz de reconciliar famílias brigadas há gerações.

Cyro, naturalmente, era o primeiro a chegar. Não por ansiedade. Era estratégia militar. Enquanto o resto da turma ainda discutia política, futebol e a última malandragem do bairro, ele já fazia o aquecimento gastronômico: um torresminho aqui, uma costelinha ali, um pedacinho de lombo acolá, uma cerveja para abrir o apetite, outra para confirmar a abertura e uma batidinha de maracujá para garantir que ainda existia espaço.

Quando a feijoada finalmente foi servida, por volta das quatro da tarde, o Formigão atacou três pratos monumentais. Não pratos comuns. Eram porções que fariam um estivador pedir intervalo.

Meia hora depois, resolveu ir ao banheiro aliviar o excesso de cerveja. No corredor, porém, começou a suar frio. Empalideceu. Encostou na parede. Fechou os olhos. A cena era digna de filme de suspense. Um dos convidados passou por ali, viu o estado do sambista e entrou em pânico.

– Corre! O Formigão tá passando mal!

Em segundos, instalou-se o tradicional “barata-voa”. Gente correndo para um lado, gente pedindo água, gente sugerindo médico, benzedeira, padre e, dependendo do grau do desespero, até técnico do Flamengo.

Dona Zica gelou. Imagine a manchete do dia seguinte: “Cyro Monteiro morre depois de comer feijoada de dona Zica.” Aquilo seria o fim da reputação culinária da anfitriã.

Sem perder tempo, correu ao quintal, colheu um punhado de ervas que só ela sabia identificar, preparou um chá tão forte que provavelmente ressuscitava até sambista desafinado e voltou às pressas.

– Toma, Formigão... bebe isso aqui. Vai levantar novinho em folha.

Fez-se silêncio. Todos prenderam a respiração. Cyro pegou a xícara fumegante, olhou para dona Zica, olhou para os amigos aflitos e perguntou, com a maior serenidade do mundo:

– Mas não tem nem uma bolachinha recheada para acompanhar?!

quarta-feira, setembro 23, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 90

 

O bar ficava na Eduardo Ribeiro canto com a Saldanha Marinho

90. Maio de 1960. Reunido com vários amigos no Bar Avenida, o poeta Américo Antony começou a recitar o seu famoso poema “Igapó” e um garçom parou perto da mesa para ouvir o bardo.

Quando o famoso guru da Amazônia iniciou a segunda estrofe (“Lá o rio oculta amplas fadigas / E as sombras abrem em flor de suavidade / E espera e dorme e sonha a eternidade / De insetos de ouro e prónubas formigas...”), o garçom começou a rir, provavelmente porque nunca tinha ouvido falar antes em “prónubas formigas”, as tais formigas “noivas”.

O poeta parou de recitar e encarou o ouvinte impertinente:

– O senhor é poeta?

– Não sou não, senhor! – respondeu timidamente o garçom.

– Pois então, chispa-se daqui. Quem te manda a ti, ó sapateiro, tocar rabecão? – inquiriu Antony.

E antes que o garçom pudesse falar qualquer coisa, fulminou:

– Porque comigo ou é muita poesia ou é muita porrada!

O garçom quase saiu correndo do bar.

O Bar Avenida fechou suas portas em 10 de novembro de 1968. No seu lugar se instalou uma agência do Banco Mineiro do Oeste.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 89

 


89. Janeiro de 1986. Vice-campeã em 1985 com o enredo “Caprichoso e Garantido: Cultura Popular de Parintins”, a escola de samba Andanças de Ciganos dessa vez queria colocar a mão no título. O enredo daquele ano era “O Amazonas, Sua História e Suas Lendas”, de Duda e Alvadir Assunção.

Responsável pela confecção dos carros alegóricos, o engenheiro Chico Costa chamou um ajudante de ordem no barracão da escola e foi peremptório:

– Zé Bernaldo, pega essa trena e vai lá na Djalma Batista medir a largura da avenida, que o nosso último carro alegórico vai revolucionar o carnaval de Manaus...

O sujeito foi, tirou a trena do bolso, realizou a medição solicitada e retornou uma hora depois:

– Medi de ponta a ponta duas vezes. Tem 16 metros!

Chico Costa fez os cálculos:

– Deixando uma folga de dois metros para cada lado, dá para fazer um carro alegórico com 12 metros de largura e 20 metros de extensão. Mãos à obra, moçada!

Em um mês, o carro alegórico estava pronto. Era um colosso inimaginável. Todo o lendário amazônico (curupira, mapinguari, iara, boto tucuxi, juma, cobra grande, lagarta de fogo, onça pé-de-bola, etc.) estava presente no carro alegórico, em seu máximo esplendor, por meio de alegorias gigantescas executadas pessoalmente pelo mago Jair Mendes.

Foi preciso alugar duas carretas de três eixos para transportar o carro alegórico do barracão para o início da Av. Djalma Batista, numa operação de guerra que envolveu o Corpo de Bombeiros, Detran, Polícia Militar, Defesa Civil, Médicos Sem Fronteiras, Greenpeace e o Exército da Salvação Nacional.

Na entrada da avenida, uma surpresa: a colocação de arquibancadas dos dois lados da pista havia “encolhido” a passarela do samba em seis metros.

É que o ajudante de ordens do Chico Costa, o famoso Zé Bernaldo, havia medido a avenida de ponta a ponta, isto é, de uma sarjeta a outra, sem se dar conta desse pequeno detalhe das arquibancadas.

Para o gigantesco carro alegórico entrar na avenida seria necessário serrar dois metros de cada lado de sua base fixa.

Chico Costa refez os cálculos e explicou timidamente aos dirigentes da escola, que já queriam comer seu fígado:

– A base do carro foi feita de pau de ferro. Mesmo que a gente arrume uma serra elétrica de última geração, nós vamos levar duas horas para serrar esses 40 m² de cada lado do carro e até lá a escola já desfilou. Melhor deixar essa porra aqui mesmo...

E assim foi feito. O gigantesco carro foi abandonado na área de concentração, deixando o mago Jair Mendes à beira de um ataque de nervos. A escola amargou um decepcionante 4º lugar.

Demitido sumariamente, à base de pescoções, Zé Bernaldo nunca mais colocou os pés no barracão da escola.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 88

 

Os jornalistas Sérgio Bártholo e Margareth Queiroz

88. Quando o jornalista Hiel Levy foi contratado pelo GRES Reino Unido da Liberdade para cuidar da assessoria de imprensa da escola, no final dos anos 90, decidiu mostrar serviço logo de cara.

Na primeira oportunidade que surgiu, levou para a quadra da escola o colega Sérgio Bártholo, jornalista conhecido, pagodeiro de carteirinha e potencial multiplicador de boas notícias. Se a noite rendesse, quem sabe a escola ainda ganhava algumas linhas generosas no jornal do dia seguinte.

Tudo começou no lendário Bar do Lateral, esse lugar onde cerveja gelada costuma transformar qualquer desconhecido em filósofo.

Hiel Levy e Serginho sentaram, pediram a primeira, depois a segunda, depois as demais, e passaram a resolver os grandes problemas da humanidade.

Em meia hora, já tinham encontrado solução para a inflação, para o Oriente Médio e para a escalação da Seleção Brasileira.

Foi então que chegaram dois ex-presidentes da Reino Unido, Jairo Beira-mar e Nicéias Magalhães. Sentaram-se à mesa por pura cordialidade. Afinal, em quadra de escola de samba, ninguém deixa cerveja desacompanhada.

Como não fazia ideia de quem eram os recém-chegados, Serginho continuou sua conferência internacional sobre os males do Brasil.

– O problema deste país é a polícia! Se não fosse tão corrupta, tão mesquinha, tão bandida, tão safada e tão covarde, esse país era outro! Conheço um monte de policiais. Todos ladrões! Na polícia só tem filho da puta!

Fez a denúncia completa, tomou um gole de cerveja, limpou o bigode de espuma e, educadamente, estendeu a mão ao primeiro visitante.

– Prazer, Sérgio Bártholo. Jornalista.

O homem sorriu com uma serenidade franciscana.

– Muito prazer. Nicéias Magalhães. Policial civil.

Dizem que, naquele instante, a cerveja de Serginho perdeu até o gás. Ainda tentando acreditar que aquilo era coincidência, virou-se para o outro cavalheiro.

– Prazer, Sérgio Bártholo. Jornalista.

– Jairo Beira-mar. Também sou policial civil.

Pronto. Se existisse campeonato mundial de arrependimento instantâneo, Serginho acabara de estabelecer um novo recorde. Faltou apenas perguntar se havia algum delegado escondido debaixo da mesa esperando a sobremesa.

Hiel Levy tentou salvar o amigo, explicando que ambos eram ex-presidentes da Reino Unido e figuras respeitadíssimas da escola. O esclarecimento ajudou tanto quanto guarda-chuva embaixo d'água.

Seguiu-se um silêncio tão constrangedor que dava para ouvir a espuma da cerveja pedindo baixa. Foi Jairo quem resolveu praticar caridade cristã.

– O senhor tem razão, mas só em parte.

E, sem elevar a voz nem sacar algema, sem colocar o revólver em cima da mesa, fez uma defesa elegante do trabalho da Polícia Civil, contando casos da rotina de investigação e lembrando que ainda existia gente séria na corporação.

Serginho, que cinco minutos antes pretendia refundar a segurança pública, agora só queria refundar a própria biografia. Como todo jornalista experiente sabe que nunca existe uma segunda chance para causar uma primeira boa impressão – mas sempre existe uma primeira chance para consertar uma péssima –, ele iniciou uma das mais extraordinárias defesas da Polícia Civil já pronunciadas em mesa de bar.

Foi um discurso tão convincente, tão apaixonado e tão cheio de elogios que Jairo e Nicéias foram embora convencidos de que pertenciam à melhor polícia do planeta. E Serginho também saiu satisfeito. Afinal, naquela noite, ele conseguiu escapar sem ser preso... e ainda descobriu que jornalista muda de opinião mais rápido do que garçom troca o barril de chope.

terça-feira, setembro 22, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 87

 


87. Fevereiro de 1973. O comerciário Assis Bulcão resolveu promover uma “brincadeira” em sua casa, na Cohab-AM da Raiz, em pleno sábado gordo de carnaval.

Para quem não sabe, “brincadeira” era o nome das festinhas “mela-cueca” que rolavam nas residências à base de luz negra e música ambiente romântica. Até aí, tudo normal.

O problema foi a estratégia de recrutamento. Em vez de convidar a vizinhança inteira, Assis decidiu chamar um esquadrão de aproximadamente quinze comerciárias que, reunidas no mesmo ambiente, faziam qualquer concurso de Miss parecer reunião de condomínio.

O resultado foi imediato. Os marmanjos do bairro esqueceram completamente que existiam outras mulheres na face da Terra. As comerciárias não paravam sentadas um minuto. Dançavam uma música, emendavam outra e, quando voltavam à cadeira, já aparecia um novo candidato segurando a mão e perguntando: “Podemos dançar só mais essa?”

As moças da vizinhança assistiram ao espetáculo durante algum tempo. Depois concluíram que estavam participando de um baile na condição de figurantes. Uma saiu fazendo charme. Outra saiu fazendo cara feia. A terceira saiu prometendo nunca mais voltar.

Antes das dez da noite, a debandada feminina era tão grande que só restavam as quinze comerciárias e cerca de cinquenta sujeitos disputando cada uma delas como se fossem terrenos na Ponta Negra.

Foi quando surgiu Antídio Weil. Ou melhor: surgiu o Opala. O carro era zero-quilômetro e brilhava mais do que fantasia de destaque. Pneus tala larga, rodas de magnésio, bancos de couro de antílope, descarga Kadron e um toca-fitas Roadstar que fazia qualquer um acreditar que estava dirigindo um carro da Fórmula 1, embora o trânsito de Manaus insistisse em lembrar que não.

Na prática, Antídio deixou de ser um cidadão comum para virar acessório do automóvel. As meninas cercaram o Opala como arqueólogos diante da descoberta de Tutancâmon. Percebendo que São Longuinho finalmente resolvera trabalhar a seu favor, Antídio lançou a proposta:

– E se a gente fosse todo mundo pro Baile do Havaí, no Rio Negro?

Foi a pergunta mais desnecessária da história do carnaval. Em menos tempo do que leva um fiscal para pedir ingresso, as quinze comerciárias já estavam acomodadas no carro. “Acomodadas” talvez seja exagero. Algumas estavam sentadas. Outras, empilhadas. Havia moça no banco, no colo, no ombro e provavelmente uma ocupando espaço em outra dimensão.

Assis Bulcão viu sua monumental brincadeira terminar antes das onze da noite, vítima do maior êxodo feminino já registrado na Cohab-AM da Raiz. Dizem que até hoje ele desconfia de veículos de quatro portas.

No Atlético Rio Negro Clube, Antídio estacionou numa viela ao lado do clube, comprou mesas, ingressos, colares havaianos, bandanas coloridas, confete, escondeu o lança-perfume onde a fiscalização jamais imaginaria procurar e entrou aos gritos de:

– Aloha! Aloha!

Foi recebido como se tivesse desembarcado de um cruzeiro vindo do Taiti. Durante algumas horas, tornou-se o homem mais invejado de Manaus. Não apenas pela quantidade de belas companhias, mas pela impressionante capacidade logística de administrar um harém carnavalesco sem perder nenhuma integrante pelo caminho.

Quando o baile terminou e o sol já começava a cozinhar os foliões, Antídio saiu do clube mais feliz do que pinto na merda, abraçado com duas garotas, puxando em coro: “Bandeira branca, amor...”

Era um homem que acreditava sinceramente que Deus existia e gostava dele. Até virar a esquina. O lugar onde o Opala havia sido estacionado estava vazio. Tão vazio que parecia nunca ter existido um automóvel ali. Antídio olhou para um lado. Depois para o outro. Depois olhou para cima, talvez imaginando que o enredo do Baile do Havaí tivesse sido substituído por “A Ascensão do Opala ao Reino do Céu”. Nada. O carro tinha evaporado. Ele entrou em desespero.

– Puta que pariu! Cadê meu carro? Roubaram meu carro! Estou lascado!

Como todo brasileiro em estado de calamidade emocional, procurou imediatamente um culpado que não fosse o verdadeiro. Encontrou quinze.

Virou-se para as comerciárias e distribuiu impropérios numa velocidade que faria qualquer locutor de corrida de cavalos pedir arrego. Disse que a culpa era delas, chamou-as de tudo o que o Código Penal não proíbe e expulsou o próprio harém como quem dissolve um ministério.

As pobres fugiram em direção ao Terminal da Matriz sem entender como tinham passado da condição de musas havaianas para responsáveis pelo furto de um automóvel.

Antídio pegou um táxi e saiu convocando amigos para uma caçada ao Opala desaparecido. O carro foi encontrado apenas às cinco da tarde do domingo, abandonado perto do Igarapé do Japonês, na Colônia Japonesa.

Só que, nesse momento, o Opala já era praticamente um conceito filosófico. Tinham levado os quatro pneus com rodas de magnésio, os bancos de couro de antílope, a descarga Kadron, o toca-fitas Roadstar e tudo o que pudesse ser desaparafusado sem derrubar o volante. Restou apenas a lataria e a lição.

Até hoje não existe prova alguma sobre quem arquitetou tamanha desgraça. Mas confesso que sempre achei muito curiosa a coincidência. A “brincadeira” do Assis acabou por falta de mulher. O Opala do Antídio acabou por excesso de inveja.

E, conhecendo a capacidade de um anfitrião humilhado de planejar vinganças criativas, nunca consegui absolver completamente o Assis Bulcão dessa presepada.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 86

 


86. Fevereiro de 1994. O GRES Balaku-Blaku estava convencido de que aquele seria o ano da glória. Com o enredo “No Mundo das Nuvens: Venha Voar Comigo”, prometia decolar rumo ao primeiro título do Grupo Especial. E, como toda aeronave precisa de alguém para apertar os botões errados, entrou em cena Manuel Português.

Gago de pedra, chato de galochas e fiscal de tudo o que não era da sua conta, Manuel ganhou o pomposo cargo de diretor de Fogos de Artifício. Não porque entendesse de pólvora, mas porque a diretoria concluiu que era mais seguro deixá-lo brincando com rojão do que dando palpite no samba-enredo, nas fantasias e na vida alheia.

Sua missão era simples: transformar a entrada da Balaku-Blaku num espetáculo digno da queima de fogos do Réveillon de Copacabana. Bastava esperar a escola entrar na avenida e apertar o “play” da explosão.

Como a Balaku-Blaku seria a quarta a desfilar, Manuel e sua equipe passaram o sábado inteiro instalando morteiros, rojões e foguetes no Centro de Convenções. Pareciam engenheiros da Nasa preparando o lançamento de um ônibus espacial. Havia um croqui detalhado, sequência cronometrada e uma organização tão meticulosa que dava até medo.

Quando a terceira escola deixava a dispersão e a bateria da Balaku-Blaku começava o esquenta, Manuel foi acometido por aquele tipo de pensamento que só aparece para quem está prestes a fazer uma besteira histórica:

– E se essa geringonça não funcionar?

Em vez de confiar no destino, resolveu confiar em si mesmo – o que, como se sabe, costuma dar muito mais prejuízo. Acendeu uma mecha “só para testar”. Funcionou. Funcionou maravilhosamente bem.

Os morteiros subiram, os rojões explodiram, os fogos coloridos desenharam o céu exatamente na ordem prevista. Foi um espetáculo tão bonito que muita gente achou que o Carnaval tinha começado mais cedo.

O único detalhe era que... a Balaku-Blaku ainda estava estacionada na concentração.

Dez minutos depois, quando o último foguete deu seu suspiro final e uma fumaceira digna da Guerra do Golfo tomou conta do céu, Manuel percebeu que havia promovido o show pirotécnico oficial... para absolutamente ninguém. Não havia mais um único traque para comemorar a entrada da escola.

Resultado: a Balaku-Blaku cruzou o portão da avenida ao som da bateria... e do mais absoluto silêncio celestial. Nem um estalinho de festa junina.

O enredo era sobre aviação. Quem decolou mesmo foi Manuel Português, e sem direito a voo de volta: foi expulso da escola antes que o último foguete esfriasse.