63. Fevereiro de 1976. Faixa-preta de
jiu-jítsu e vereador nas horas vagas, o advogado Carrel Benevides resolveu
testar, no baile Despedida da Kamélia, do Olímpico Clube, se os golpes
aprendidos no tatame também funcionavam ao som de marchinhas de carnaval.
Funcionavam. Em poucos minutos, meia dúzia de foliões já tinha conhecido o chão
de perto, e Carrel, por cortesia da Polícia Militar, conheceu a delegacia.
Quando a
notícia chegou aos ouvidos do empresário Zeca Guerra e do publicitário Edgard
Alecrim, também presentes no baile, os dois concluíram que aquilo era uma
afronta à amizade. Resolveram libertar o companheiro na base do argumento mais
usado pelos foliões depois da meia-noite: a confusão.
Entraram na
delegacia distribuindo desaforos em todas as direções. Discutiram com os
soldados, elevaram o tom de voz, baixaram o nível da conversa e, quando
apareceu o delegado para descobrir que terremoto era aquele, ele também recebeu
sua cota de carinho. O elogio mais delicado foi “gorila fascista a serviço da
ditadura militar”. O restante não convém reproduzir nem em livro de humor.
O delegado, que
não era adepto da liberdade de expressão naquele horário, mandou recolher os
dois heróis ao xadrez.
Enquanto eram
conduzidos para a cela, ainda protestando como se estivessem na tribuna da
Câmara Municipal, avistaram Carrel tranquilamente ao telefone. Ele cobriu o
bocal com a mão e sussurrou:
– Fiquem
calmos. Estou falando com o coronel Souza. Já expliquei tudo. Daqui a pouco ele
chega e tira a gente daqui.
Era a primeira
frase sensata da noite. Pena que os dois não acreditaram nela. Continuaram
reclamando até serem acomodados numa cela onde outros quarenta carnavalescos
involuntários já faziam o esquenta do bloco dos encarcerados.
Meia hora
depois, a porta da delegacia se abriu com pompa. Entrou o coronel Souza,
impecável em sua farda de gala, acompanhado de três oficiais. Conversou
reservadamente com o delegado, trocou alguns cumprimentos e, em seguida, saiu
dali levando... Carrel Benevides. Só Carrel Benevides.
Zeca Guerra e
Edgard Alecrim permaneceram hospedados pela Secretaria de Segurança até a
Quarta-feira de Cinzas, quando finalmente ganharam a liberdade – e, de quebra,
a carteirinha honorária do bloco “O Que Qui Eu Vou Dizer em Casa?”, formado
exclusivamente pelos foliões que passaram o carnaval atrás das grades. Aprenderam,
da maneira mais pedagógica possível, que amizade é uma virtude. Mas, antes de
tentar salvar um faixa-preta, convém verificar se ele já não providenciou o
próprio resgate.










