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terça-feira, setembro 22, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 87

 


87. Fevereiro de 1973. O comerciário Assis Bulcão resolveu promover uma “brincadeira” em sua casa, na Cohab-AM da Raiz, em pleno sábado gordo de carnaval.

Para quem não sabe, “brincadeira” era o nome das festinhas “mela-cueca” que rolavam nas residências à base de luz negra e música ambiente romântica. Até aí, tudo normal.

O problema foi a estratégia de recrutamento. Em vez de convidar a vizinhança inteira, Assis decidiu chamar um esquadrão de aproximadamente quinze comerciárias que, reunidas no mesmo ambiente, faziam qualquer concurso de Miss parecer reunião de condomínio.

O resultado foi imediato. Os marmanjos do bairro esqueceram completamente que existiam outras mulheres na face da Terra. As comerciárias não paravam sentadas um minuto. Dançavam uma música, emendavam outra e, quando voltavam à cadeira, já aparecia um novo candidato segurando a mão e perguntando: “Podemos dançar só mais essa?”

As moças da vizinhança assistiram ao espetáculo durante algum tempo. Depois concluíram que estavam participando de um baile na condição de figurantes. Uma saiu fazendo charme. Outra saiu fazendo cara feia. A terceira saiu prometendo nunca mais voltar.

Antes das dez da noite, a debandada feminina era tão grande que só restavam as quinze comerciárias e cerca de cinquenta sujeitos disputando cada uma delas como se fossem terrenos na Ponta Negra.

Foi quando surgiu Antídio Weil. Ou melhor: surgiu o Opala. O carro era zero-quilômetro e brilhava mais do que fantasia de destaque. Pneus tala larga, rodas de magnésio, bancos de couro de antílope, descarga Kadron e um toca-fitas Roadstar que fazia qualquer um acreditar que estava dirigindo um carro da Fórmula 1, embora o trânsito de Manaus insistisse em lembrar que não.

Na prática, Antídio deixou de ser um cidadão comum para virar acessório do automóvel. As meninas cercaram o Opala como arqueólogos diante da descoberta de Tutancâmon. Percebendo que São Longuinho finalmente resolvera trabalhar a seu favor, Antídio lançou a proposta:

– E se a gente fosse todo mundo pro Baile do Havaí, no Rio Negro?

Foi a pergunta mais desnecessária da história do carnaval. Em menos tempo do que leva um fiscal para pedir ingresso, as quinze comerciárias já estavam acomodadas no carro. “Acomodadas” talvez seja exagero. Algumas estavam sentadas. Outras, empilhadas. Havia moça no banco, no colo, no ombro e provavelmente uma ocupando espaço em outra dimensão.

Assis Bulcão viu sua monumental brincadeira terminar antes das onze da noite, vítima do maior êxodo feminino já registrado na Cohab-AM da Raiz. Dizem que até hoje ele desconfia de veículos de quatro portas.

No Atlético Rio Negro Clube, Antídio estacionou numa viela ao lado do clube, comprou mesas, ingressos, colares havaianos, bandanas coloridas, confete, escondeu o lança-perfume onde a fiscalização jamais imaginaria procurar e entrou aos gritos de:

– Aloha! Aloha!

Foi recebido como se tivesse desembarcado de um cruzeiro vindo do Taiti. Durante algumas horas, tornou-se o homem mais invejado de Manaus. Não apenas pela quantidade de belas companhias, mas pela impressionante capacidade logística de administrar um harém carnavalesco sem perder nenhuma integrante pelo caminho.

Quando o baile terminou e o sol já começava a cozinhar os foliões, Antídio saiu do clube mais feliz do que pinto na merda, abraçado com duas garotas, puxando em coro: “Bandeira branca, amor...”

Era um homem que acreditava sinceramente que Deus existia e gostava dele. Até virar a esquina. O lugar onde o Opala havia sido estacionado estava vazio. Tão vazio que parecia nunca ter existido um automóvel ali. Antídio olhou para um lado. Depois para o outro. Depois olhou para cima, talvez imaginando que o enredo do Baile do Havaí tivesse sido substituído por “A Ascensão do Opala ao Reino do Céu”. Nada. O carro tinha evaporado. Ele entrou em desespero.

– Puta que pariu! Cadê meu carro? Roubaram meu carro! Estou lascado!

Como todo brasileiro em estado de calamidade emocional, procurou imediatamente um culpado que não fosse o verdadeiro. Encontrou quinze.

Virou-se para as comerciárias e distribuiu impropérios numa velocidade que faria qualquer locutor de corrida de cavalos pedir arrego. Disse que a culpa era delas, chamou-as de tudo o que o Código Penal não proíbe e expulsou o próprio harém como quem dissolve um ministério.

As pobres fugiram em direção ao Terminal da Matriz sem entender como tinham passado da condição de musas havaianas para responsáveis pelo furto de um automóvel.

Antídio pegou um táxi e saiu convocando amigos para uma caçada ao Opala desaparecido. O carro foi encontrado apenas às cinco da tarde do domingo, abandonado perto do Igarapé do Japonês, na Colônia Japonesa.

Só que, nesse momento, o Opala já era praticamente um conceito filosófico. Tinham levado os quatro pneus com rodas de magnésio, os bancos de couro de antílope, a descarga Kadron, o toca-fitas Roadstar e tudo o que pudesse ser desaparafusado sem derrubar o volante. Restou apenas a lataria e a lição.

Até hoje não existe prova alguma sobre quem arquitetou tamanha desgraça. Mas confesso que sempre achei muito curiosa a coincidência. A “brincadeira” do Assis acabou por falta de mulher. O Opala do Antídio acabou por excesso de inveja.

E, conhecendo a capacidade de um anfitrião humilhado de planejar vinganças criativas, nunca consegui absolver completamente o Assis Bulcão dessa presepada.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 86

 


86. Fevereiro de 1994. O GRES Balaku-Blaku estava convencido de que aquele seria o ano da glória. Com o enredo “No Mundo das Nuvens: Venha Voar Comigo”, prometia decolar rumo ao primeiro título do Grupo Especial. E, como toda aeronave precisa de alguém para apertar os botões errados, entrou em cena Manuel Português.

Gago de pedra, chato de galochas e fiscal de tudo o que não era da sua conta, Manuel ganhou o pomposo cargo de diretor de Fogos de Artifício. Não porque entendesse de pólvora, mas porque a diretoria concluiu que era mais seguro deixá-lo brincando com rojão do que dando palpite no samba-enredo, nas fantasias e na vida alheia.

Sua missão era simples: transformar a entrada da Balaku-Blaku num espetáculo digno da queima de fogos do Réveillon de Copacabana. Bastava esperar a escola entrar na avenida e apertar o “play” da explosão.

Como a Balaku-Blaku seria a quarta a desfilar, Manuel e sua equipe passaram o sábado inteiro instalando morteiros, rojões e foguetes no Centro de Convenções. Pareciam engenheiros da Nasa preparando o lançamento de um ônibus espacial. Havia um croqui detalhado, sequência cronometrada e uma organização tão meticulosa que dava até medo.

Quando a terceira escola deixava a dispersão e a bateria da Balaku-Blaku começava o esquenta, Manuel foi acometido por aquele tipo de pensamento que só aparece para quem está prestes a fazer uma besteira histórica:

– E se essa geringonça não funcionar?

Em vez de confiar no destino, resolveu confiar em si mesmo – o que, como se sabe, costuma dar muito mais prejuízo. Acendeu uma mecha “só para testar”. Funcionou. Funcionou maravilhosamente bem.

Os morteiros subiram, os rojões explodiram, os fogos coloridos desenharam o céu exatamente na ordem prevista. Foi um espetáculo tão bonito que muita gente achou que o Carnaval tinha começado mais cedo.

O único detalhe era que... a Balaku-Blaku ainda estava estacionada na concentração.

Dez minutos depois, quando o último foguete deu seu suspiro final e uma fumaceira digna da Guerra do Golfo tomou conta do céu, Manuel percebeu que havia promovido o show pirotécnico oficial... para absolutamente ninguém. Não havia mais um único traque para comemorar a entrada da escola.

Resultado: a Balaku-Blaku cruzou o portão da avenida ao som da bateria... e do mais absoluto silêncio celestial. Nem um estalinho de festa junina.

O enredo era sobre aviação. Quem decolou mesmo foi Manuel Português, e sem direito a voo de volta: foi expulso da escola antes que o último foguete esfriasse.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 85

 

Zé Roberto, Jair Mendes e Jairzinho no galpão dos Ciganos

85. Fevereiro de 1985. O GRES Andanças de Ciganos entra na Avenida Djalma Batista disposto a fazer história. O enredo, “Caprichoso e Garantido: Cultura Popular de Parintins”, assinado pelo carnavalesco Jair Mendes, era daqueles que faziam o sujeito esquecer até o preço da cerveja.

Os carros alegóricos pareciam saídos de um delírio amazônico, os destaques reluziam mais que vitrine de joalheria e as fantasias estavam tão caprichadas que, ainda na concentração, os jornalistas já decretavam o óbvio:

– Pode entregar o troféu. Acabou o campeonato.

O presidente Vilson Benayon não andava: flutuava. O coração batia no ritmo da bateria. Os diretores de harmonia só repetiam uma frase:

– Pelo amor de Deus, ninguém invente moda.

Era pedir demais. Vestidos de Amos do Boi Garanchoso – metade Garantido, metade Caprichoso, numa demonstração diplomática que faria a ONU pedir consultoria – Sadok Pirangy, Wilson Fernandes, Maurílio, Zé Alfaia, Ivan Chibata, Juarez Tavares, seu Almeida, Antídio Weil, Petroba, Nelito, Galúcio, Luluca e Ruizinho formavam a Comissão de Frente.

E que comissão. Pela primeira vez no carnaval amazonense, a Comissão de Frente desfilava como uma tropa de elite suíça. Um apito. Doze passos rigorosamente iguais. Outro apito. Todos tiravam o chapéu na mesma fração de segundo. Outro apito. Viravam para a arquibancada da direita e saudavam o público com a elegância de lordes ingleses. Mais um apito. Giravam para o lado esquerdo com uma sincronia que faria relógio suíço pedir aulas. Era tão perfeito que o público acompanhava hipnotizado.

Foi justamente nesse momento de absoluta perfeição que o destino resolveu atravessar a avenida. Lá do alto da arquibancada, um sujeito começou a berrar:

– Aí, seu Juarez! Tá mandando bem! Vai dar Ciganos na cabeça! A Comissão de Frente tá do caralho! Tá do caralho!

No roteiro original, seu Juarez deveria sorrir discretamente e seguir desfilando. Mas o roteiro perdeu para a vida real. Ao virar o rosto para agradecer os elogios, seu Juarez reconheceu o cidadão. Era Zé Raimundo. O mesmo Zé Raimundo que havia transformado cheque sem fundo em modalidade esportiva.

Sem interromper a coreografia – pelo menos nos dois primeiros segundos –, seu Juarez respondeu num tom que certamente também foi avaliado pelos jurados:

— ZÉ RAIMUNDO, FILHO DA PUTA! ME PAGA O QUE TU ME DEVE, DESGRAÇADO! JÁ PROTESTEI TRÊS VEZES AQUELE TEU CHEQUE SEM FUNDO, CORNO DUMA FIGA! ME PAGA, FILHO DUMA RAMPEIRA LEPROSA! SENÃO EU ENCHO TUA CARA DE CHUMBO, VIADO SAFADO, CORNO DA MOLÉSTIA!

A plateia, que até então assistia a um desfile de carnaval, passou a acompanhar um episódio inédito de Programa do Ratinho transmitido quinze anos antes de existir.

O mais impressionante foi que seu Juarez não ficou só na cobrança. Largou a Comissão de Frente no meio da apresentação e saiu em disparada atrás do devedor. Zé Raimundo fez o que qualquer cidadão sensato faria diante daquela coleção de impropérios: desapareceu na multidão.

Seu Juarez pulou o alambrado como se disputasse os 110 metros com barreiras nas Olimpíadas e iniciou uma perseguição digna de filme policial. Atrás dele foram metade dos integrantes da Comissão de Frente. Atrás deles, diretores de harmonia. Atrás dos diretores, um segurança. Atrás do segurança, ninguém sabe por quê, foi um vendedor de churrasquinho. Enquanto isso, a outra metade da Comissão permanecia na avenida tentando convencer os jurados de que aquele novo formato de Comissão de Frente – metade desfilando, metade participando de uma caçada humana – fazia parte da proposta estética do carnavalesco.

Não convenceu.

Depois de muito esforço, conseguiram trazer seu Juarez de volta, praticamente pelo colarinho, ainda distribuindo promessas de cobrança judicial, extrajudicial e corporal. Os jurados, homens de pouca imaginação e nenhum senso de humor, deram nota mínima para a Comissão de Frente. O Andanças de Ciganos, que tinha tudo para levantar o caneco, acabou ficando em segundo lugar.

Dizem que, durante várias semanas, o presidente Vilson Benayon olhava para seu Juarez com a mesma expressão de quem consulta uma receita de fígado acebolado imaginando pequenas adaptações na lista de ingredientes.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 84

 

O time do Areal, de Santa Luzia, em 1974

84. Outubro de 1974. Estudante de Direito na FUA, Francisco Sobrinho, hoje delegado civil aposentado, assumiu o cargo de treinador do Areal, de Santa Luzia, que fez uma campanha admirável no 2º Peladão.

Empolgado com aquele fraseado típico dos cursos de ciências jurídicas, Sobrinho começou a utilizar aquele linguajar rebuscado para passar as instruções táticas para o seu plantel.

Quem mais sofria com aquilo era o habilidoso ponta direita Jaime Chapoca, ainda um simples estudante do curso supletivo do 1º grau.

Depois de escalar a equipe e conversar particularmente com cada atleta, ele reunia os atacantes do time (Chapoca, Mário Gordinho, Tom e Ironilson) para as instruções finais:

– Jaime, meu filho, você é peça fundamental no nosso time! – explicava o treinador. – Na hora em que o Mário Gordinho fizer o overlapping com o Tom, o Ironilson vai ser o nosso ponto futuro. Então, você corre pela lateral do campo, mas evita entrar em diagonal ou fazer a triangulação. No máximo, você vai cair pela perpendicular e cruzar na área. Porque na hora que o Tom entrar na diagonal, quem passa a ser o ponto futuro é o Mário Gordinho e aí você faz o overlapping com o Ironilson, entendeu?...

– Perfeitamente, doutor Sobrinho! – respondia Chapoca, sem muita convicção.

Na hora em que o time entrava em campo, Chapoca se aproximava timidamente de Mário Gordinho e abria o coração:

– Porra, Mário, eu não entendi porra nenhuma do que o nosso técnico falou...

– Ele pediu pra você driblar o lateral esquerdo, ir na linha de fundo e cruzar pra dentro da área! – explicava Mário Gordinho.

– Ah, é só isso? – devolvia Chapoca, meio incrédulo.

Quando a partida começava, o ponta direita se encarregava de acabar com o jogo.

Transformava qualquer lateral esquerdo em “joão”, metia quinze, vinte, trinta bolas dentro da área, e Ironilson, Tom e Mário Gordinho se encarregavam do resto.

Rindo com as paredes, o técnico Francisco Sobrinho se rasgava em elogios sobre a aplicação tática de Chapoca e incentivava os jogadores reservas a fazerem o mesmo.

No jogo seguinte, o ritual se repetia de novo.

segunda-feira, setembro 21, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 83

 

O cantor e compositor Américo Madrugada sendo entrevistado

83. Considerado por muito músico que entende do riscado como o maior sambista brasileiro de todos os tempos, Cartola nasceu nas Laranjeiras, mas foi na Mangueira que encontrou seu verdadeiro CEP afetivo.

Ali fez amizade com Carlos Cachaça e outros bambas, aprendeu que samba e malandragem eram disciplinas complementares e arranjou emprego de servente de pedreiro.

Como vivia levando cimento na cabeça, passou a usar um chapéu-coco. O acessório lhe rendeu um apelido curioso: Cartola. O morro nunca foi muito preocupado com a fidelidade aos detalhes.

Em 1928, ajudou a fundar a Estação Primeira de Mangueira, escolheu as cores verde e rosa, compôs o primeiro samba da escola e, dali em diante, escreveu uma coleção de obras-primas que fariam qualquer compositor pedir aposentadoria por falta de concorrência.

Depois desapareceu do mapa durante mais de uma década, reaparecendo apenas em 1956, graças ao jornalista Sérgio Porto, que o encontrou lavando carros.

Cartola voltou ao samba, abriu o lendário Zicartola, gravou discos históricos e deixou clássicos como “As Rosas Não Falam”, “O Mundo é um Moinho” e “Acontece”, provando que talento, às vezes, tira férias, mas nunca pede demissão.

Em Manaus, quem fez da obra de Cartola quase uma religião foi o cantor e compositor Américo Madrugada, um dos fundadores da BICA (Banda Independente da Confraria do Armando).

Dono de uma voz que parecia ter sido fabricada para acordar o bairro inteiro, Américo cultivava outro hábito que o aproximava do mestre da Mangueira: jamais recusava uma serenata... nem um copo de água que passarinho evita por motivos éticos.

Seu parceiro de boemia era o advogado Sérgio Litaiff, outro devoto de Cartola e também um dos fundadores da célebre BICA. Na real, foi ele que criou o nome da banda.

Os dois eram figuras obrigatórias nos Bailes de Gala do Rio Negro Clube, onde se misturavam à fina flor da sociedade com a mesma naturalidade de um pinguim numa sauna.

Foi num desses bailes que encontraram Antônio Titia, diretor de bateria da Batucada do Rio Negro e apaixonado pela própria noiva. Apaixonado até perceber que ela passara boa parte da noite conversando com Américo Madrugada. Na cabeça de Titia, aquilo só podia significar uma coisa. Na cabeça de Américo, também.

Só que eram coisas completamente diferentes. Enquanto Titia enxergava uma irresistível troca de olhares, Américo estava intrigado com uma enorme mancha de ketchup instalada bem no meio do bustiê da moça, um decote tão generoso que praticamente exigia atenção científica. Era um mal-entendido esperando apenas a hora de explodir.

Explodiu. Antes mesmo de a orquestra tocar “Cidade Maravilhosa”, anunciando o encerramento do baile, Titia já havia chamado a noiva de tudo quanto era nome feio, tentado acertar Américo, distribuído sopapos em garçons inocentes, chutado baldes de gelo, quebrado um vidro de lança-perfume na cabeça de um segurança e transformado o salão num ensaio geral para o fim do mundo. Acabou expulso do clube prometendo vingança em vários idiomas, todos compostos exclusivamente por palavrões.

Na manhã seguinte, Sérgio Litaiff ainda tentava convencer o próprio organismo de que ressaca não era uma doença incurável quando sua mãe entrou no quarto em estado de calamidade pública.

– Sérgio... tem um amigo teu lá embaixo dizendo que a vida acabou...

O advogado levantou na velocidade permitida por meia dúzia de cibalenas com sonrisal, lavou o rosto, escovou os dentes e desceu. Encontrou uma cena que nem o realismo mágico latino-americano teria coragem de escrever: sua mãe, dona Maria da Paz, evangélica fervorosa, tocava hinos num imponente piano de cauda para espantar o demônio. Ao lado, Antônio Titia, armado apenas com uma modesta faca de pão, fazia um drama shakespeariano. Um pescoção providencial de Sérgio resolveu a situação antes que a faca resolvesse qualquer outra coisa.

Entre lágrimas, Titia declarou que sua vida perdera o sentido porque Américo Madrugada havia roubado sua noiva. Sérgio telefonou imediatamente para o acusado. Eram oito da manhã. Américo atendeu com a voz de quem ainda estava no expediente iniciado na noite anterior. Ao ouvir o convite, imaginou que fossem esticar a farra em algum boteco. Chegou sorrindo.

Encontrou Titia chorando, Maria da Paz executando um repertório completo de cânticos religiosos e Sérgio com a expressão de um juiz tentando conciliar duas torcidas organizadas.

– O Titia diz que perdeu a noiva por tua culpa e está querendo se matar...

Américo ouviu tudo em silêncio. Coçou o queixo. E anunciou a solução com a serenidade de quem acaba de descobrir a cura da gripe:

– Então bota esse homem no carro que eu resolvo.

Os três seguiram até a Praça da Polícia. No cruzamento da Sete de Setembro com a Getúlio Vargas, Américo explicou sua curiosíssima terapia de choque.

– Tá vendo os ônibus da Ana Cássia? Eles fazem essa curva voando. Quando vier um, a gente dá um susto nesse cabra. Ou ele cria vontade de viver... ou nunca mais reclama de nada.

A teoria foi colocada em prática. Quando o ônibus apareceu, Américo deu um empurrão daqueles. O motorista freou. Antônio Titia, tomado por um súbito e até então desconhecido amor pela própria existência, disparou numa arrancada digna de final olímpica dos cem metros rasos. Atravessou a rua mais rápido que o... Bolte. Correu tanto que, segundo alguns, só parou quando alcançou o quintal de casa. Naquele instante ficou comprovado que o sujeito não queria morrer coisa nenhuma. Queria apenas chamar atenção. Missão cumprida.

Enquanto Antônio Titia redescobria as vantagens de continuar respirando, Américo Madrugada e Sérgio Litaiff concluíram que um episódio tão emocionante merecia uma comemoração. Foram imediatamente ao Café do Pina. Porque, entre os boêmios daquela geração, havia um remédio infalível para qualquer problema. Chamava-se “mais uma rodada”. Evoé, Momo!

Telecoteco do Balacobaco - Canto 82

 


82. Em meados da década de 40, mal saído da adolescência, Jaime Rebelo surgiu jogando na zaga central do time titular do Eldorado, que disputava o campeonato amador da primeira divisão. O clube pertencia ao seu pai, professor Francisco Rebelo de Souza, e outros irmãos de Jaime também jogavam no mesmo time, como Raimundinho Rebelo e Jessé, todos titulares, além de João e Jairo que atuavam no time de aspirantes.

O Eldorado disputou os campeonatos de 1946 a 1952 e em 1950, Jaime Rebelo foi convocado para atuar como titular da Seleção Amazonense que jogou duas vezes contra o Pará, pelo Campeonato Brasileiro. Ele atuou ao lado do quarto-zagueiro Gatinho e do goleiro Vicente. Com a extinção do time do Eldorado, Jaime deu um tempo para se dedicar a outro ramo de atividade.

Fez concurso para locutor comercial da Rádio Baré e foi aprovado juntamente com Dantas de Mesquita. Trabalhou na veterana emissora até como ator de novelas, apresentador dos programas na Maloca dos Barés e narrador esportivo, jogando seu futebol apenas nas promoções entre jornalistas e radialistas que sempre eram realizados no estádio General Osório.

Mas o São Raimundo, clube que também foi fundado pelo seu pai, entrou para o campeonato da primeira divisão em 1956 e Jaime foi chamado para vestir a sua camisa. Titular do time da Colina, formando zaga com Zezé, uma dupla que garantia, também, o bom desempenho do goleiro Carlos Genésio.

No São Raimundo, Jaime ficou apenas duas temporadas até que decidiu, com a idade chegando e a multiplicação de afazeres, cuidar apenas da emissora, mas ainda encontrava algum tempo para treinar equipes inferiores do Nacional, onde jogavam dois de seus filhos. Formou-se em direito, trabalhou como jornalista profissional e passou a diretor artístico da Rádio Baré, cargo que ocupou até morrer.

Narrava e comentava os jogos de futebol do Parque Amazonense ou do Estádio da Colina. A cabine de rádio do estádio “Ismael Benigno”, construída no início da década de 60 com auxílio financeiro da FAF e da ACLEA, tinha o seu nome, numa homenagem do clube ao seu antigo zagueiro, um pedido das duas entidades, acordo desrespeitado na década de 90.

Jaime Rebelo morreu repentinamente, em 3 de julho de 1977, vítima de um problema cardíaco, numa época em que apresentava noticiários da TV Baré.

Seus filhos mais velhos, Zé Eduardo e João Lúcio, o “Careca” (este já falecido), foram ídolos da torcida nacionalina. Ambos nasceram no bairro da Vila Municipal e moravam em frente ao campo do Nacional. Desde os infantis começaram a mostrar qualidades. Foram titulares do Nacional durante a década de 70 e duas vezes campeões da cidade.

No início dos anos 80, Mestre Maranhão, presidente do GRES Barelândia, imbuído dos mais relevantes propósitos, resolveu homenagear o saudoso radialista Jaime Rebelo. O samba-enredo era quase uma marchinha de tão animado, mas derrapava feio em uma das estrofes, que marcava a virada da bateria.

O puxador de samba cantava: “Jaime Rebelo morreu...”, aí entrava um coro em contraponto dizendo “oba!”, enquanto o puxador continuava: “...e de luto a rádio emudeceu!”.

Apesar de servir para pontear a virada, aquele “oba!” encaixado no meio da homenagem deixou os familiares e amigos do morto meio constrangidos.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 81

 

Gero da Portela e Gilsinho Poeta

81. Fevereiro de 1990. A Reino Unido atravessava uma fase financeira tão complicada que, se aparecesse um ladrão para assaltar a escola, era capaz de sair de lá deixando uma contribuição. Mesmo assim, alguém teve a brilhante ideia de caprichar no figurino dos puxadores de samba para impressionar Gera da Portela, contratado para defender o samba-enredo na avenida. A missão caiu nas mãos da mãe do poeta Gilsinho Nogueira.

Ela aceitou confeccionar, de graça, seis ternos completos: blazer e calça de seda branca, camisa verde, tudo elegante, digno de um artista da Portela. Nem cobrou o tecido. Era puro amor à escola. Os seis privilegiados seriam Gera da Portela, os vocais Almeron, Roque, Erasmo e Renato, além do mestre de bateria Arnoldo. O restante da diretoria continuaria desfilando com o uniforme oficial das escolas falidas: camisa de meia fio 24 e calça de brim coreana comprada no Sukatão. A elegância tinha limite. O orçamento também.

A costureira terminou o serviço quase sete da noite, poucas horas antes do desfile. Gilsinho colocou os ternos em duas sacolas plásticas, pendurou-as num poste ao lado da tradicional mesa de dominó do Bar Kipapo's, administrado por um de seus irmãos, e deixou o recado:

– Se alguém for lá pro Morro, entrega essas sacolas pro Nicéias. Ele sabe o que fazer.

Missão dada, foi jantar na casa da mãe, que ficava ali atrás. Duas horas depois voltou. As sacolas tinham evaporado. Os jogadores de dominó continuavam imóveis, discutindo a eterna tese de que parceiro ruim estraga qualquer dupla. Os frequentadores do bar permaneciam igualmente fiéis às suas cervejas. Ninguém havia ido ao Morro. Então quem tinha levado as roupas?

Depois de muito interrogatório, um dos pinguços deu a única informação útil da noite:

– Só passou o caminhão do lixo...

Silêncio. Gilsinho empalideceu. As peças finalmente se encaixaram. Os garis tinham visto duas sacolas penduradas num poste em pleno sábado de carnaval e concluído, corretamente do ponto de vista deles, que aquilo só podia ser lixo. E fizeram exatamente aquilo que se espera de um caminhão de lixo. Levaram.

Começou então uma perseguição que faria inveja aos filmes policiais de Hollywood – com uma pequena diferença: em vez de Ferraris, os heróis estavam num Fusca. Gilsinho e seu irmão Gilberto saíram rasgando a Praça 14, o Centro e tudo quanto era rua atrás do caminhão coletor. Já passava da meia-noite quando avistaram o fugitivo na Sete de Setembro, em frente ao Palácio Rio Negro. Gilberto atravessou o Fusca na frente do caminhão. Desceu. Sacou um revólver calibre 38. E anunciou que a coleta seletiva seria interrompida naquele instante.

– Descarrega tudo!

O motorista percebeu que discutir com um sujeito armado no meio da madrugada não fazia parte do treinamento da prefeitura. Obedeceu. Em poucos minutos, uma montanha de lixo tomou conta da rua. O cheiro era tão violento que parecia capaz de enferrujar o nariz.

Enquanto isso, Gilsinho mergulhava naquele Everest de cascas de frutas, restos de peixe, papéis engordurados e sabe Deus mais o quê. Milagrosamente encontrou as duas sacolas. Estavam ensopadas de chorume, mas ainda não haviam passado pelo triturador. Era praticamente uma vitória da ciência.

Com as sacolas penduradas para fora da janela do Fusca – para preservar o pouco de dignidade respirável existente no veículo –, os irmãos voltaram correndo para a casa da mãe. Atrás deles ficou o motorista do caminhão, acompanhado pelos colegas, distribuindo um repertório de palavrões tão criativo que merecia um desfile próprio.

A mãe de Gilsinho recebeu as roupas como uma cirurgiã diante de um paciente em estado gravíssimo. Lavou tudo com sal grosso, detergente, amoníaco e, provavelmente, a ajuda de todos os santos do calendário. Depois secou peça por peça no ferro elétrico. As roupas ficaram limpas. O problema era convencer o nariz. O chorume continuava vencendo de goleada.

Foi quando entrou em cena Maria, irmã de Gilsinho. Ela olhou para sua pequena coleção de perfumes franceses Versace V/S Versus, adquiridos ao longo de anos de economia, respirou fundo, fez o sinal da cruz e tomou uma decisão que exigia coragem quase militar. Despejou perfume em todos os ternos. Um vidro. Dois. Três. Oito.

Naquele momento, travava-se uma batalha histórica. De um lado, a perfumaria italiana. Do outro, o chorume da Prefeitura de Manaus. Até hoje ninguém sabe quem venceu.

Por volta da uma e meia da madrugada, os ternos chegaram finalmente ao Sambódromo. Os donos vestiram as roupas sem desconfiar de absolutamente nada. Também ajudava o fato de que boa parte deles já estava calibrada por algumas generosas doses de uísque, cerveja e sabe-se lá mais o quê.

No dia seguinte, apenas Gera da Portela apareceu reclamando de um misterioso “caminho de cobra” nas costas. Ninguém teve coragem de explicar que talvez aquilo fosse o menor dos problemas enfrentados por aquele terno. Naquele ano, a Reino Unido desfilou o enredo “Vem a Mais de Mil”. Curiosamente, era exatamente esse o preço de cada frasco de perfume sacrificado por Maria naquela operação de guerra química.

Apesar de tudo – ou talvez por causa de tudo – a escola conquistou o bicampeonato do carnaval amazonense. Ficou provado que santo ajuda. Mas, em certos carnavais, quem faz milagre mesmo é uma mãe, um Fusca e oito vidros de Versace enfrentando um caminhão de chorume.

sexta-feira, setembro 18, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 80

O invocado quarto-zagueiro Lúcio Preto

80. Abril de 1984. O Nacional havia contratado vários craques veteranos do futebol brasileiro (o ponta-esquerda Edu, ex-Santos, e o centroavante Dadá Maravilha, ex-Atlético Mineiro, entre outros) e estava se apresentando com todas suas estrelas no estádio Floro de Mendonça, em Itacoatiara, enfrentando o Peñarol. 

O time nacionalino entrou em campo com sua força máxima: China, Marinho Macapá, Murica, Marcão e Reginaldo; Antônio Carlos, Bendelak e Carlos Alberto Garcia; Hidalgo, Dadá Maravilha e Edu

Com dez minutos de jogo, Edu leva uma bola pra perto da bandeirinha de escanteio. O quarto-zagueiro do Peñarol Lúcio Preto avisa pro lateral-direito Tobias:

– Não vai de primeira, que ele vai te driblar! Não vai de primeira, que ele vai te driblar!

O estabanado Tobias faz que não escuta e avança em direção ao ponta-esquerda como se fosse uma vaca braba. Leva um “elástico” do Edu e passa direto pelo atacante, indo parar no alambrado. Edu está com a bola dominada, mas não tem tempo de cruzar: 

Lúcio Preto lhe acerta uma “voadora” um pouco abaixo dos joelhos e o ponta esquerda vai parar no alambrado, com bola, bandeirinha de escanteio e tudo.

– Você tá ficando doido, porra? Você tá ficando doido? – grita Edu pra Lúcio Preto, enquanto massageia a própria tíbia. – Quase que você quebrou a minha perna, seu merda!...

Lúcio Preto faz que não ouve.

Dez minutos depois, Hidalgo enfia uma bola na diagonal para Dadá Maravilha, nas costas do zagueiro Paulão. Lúcio Preto sai na cobertura e divide a bola com o centroavante. Os dois jogadores se chocam com violência e ambos caem no chão. A bola sai pela lateral do campo.

Ainda ajoelhado no gramado e massageando o tornozelo atingido pela patada de Lúcio Preto, Dario resolve provocar o zagueiro:

– Porra, compadre, pra que essa violência toda? Até parece que você não conhece o Dadá Maravilha...

Também de joelhos no gramado e sério que só cu de touro, Lúcio Preto não deixa por menos:

– Não conheço e nem quero conhecer. Eu vim do mato e vou voltar pro mato porque já respondo a dois processos por homicídio. E, se você der bobeira, eu vou quebrar as tuas duas pernas...

Antes que Dadá Maravilha abrisse a boca para fazer a tréplica, Lúcio Preto gritou para o lateral-direito Tobias, que ia passando perto dos dois.

– Ô, Tobias! Vamos jogar sério que tem mais maconha pra gente no intervalo...

Assustadíssimo, Dadá se levantou de campo ainda mancando e pediu pra ser substituído. Estava na cara que ele não tinha mais saúde (nem coragem) para enfrentar um índio homicida com a cabeça cheia de “dirijo”. O Peñarol ganhou o jogo de 2 a 0.

No final do jogo, Edu e Dadá Maravilha fizeram questão de tirar uma fotografia abraçando o zagueiro, com Lúcio Preto no meio dos dois. O centroavante cantou a pedra:

– Isso aqui não é lugar pra ti não, maluco! Vai pro sul!

Edu também incentivou o quarto-zagueiro:

– Você é um zagueiro raçudo, da escola de Moisés, Brito e Fontana, que usam a força física, mas sem deslealdade, e isso está em falta no país. Em qualquer time do sul, você ganha a posição de titular no primeiro treino!

Lúcio Preto preferiu continuar morando em Itacoatiara e defendendo o Peñarol até suspender as chuteiras em 1992.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 79

 


79. Jessé Gomes da Silva Filho, conhecido no planeta Terra como Zeca Pagodinho, nasceu em Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, onde aprendeu samba do jeito certo: em roda de botequim, cercado de mestres que sabiam mais de partido alto do que muito professor sabe de gramática.

Ainda garoto, já improvisava versos com uma facilidade que fazia parecer que rimar era uma função biológica, como respirar ou pedir mais uma cerveja. Em pouco tempo, virou um fenômeno nas rodas de partido alto, disparando estrofes na velocidade de uma metralhadora desregulada.

Em 1981, Beth Carvalho apareceu numa roda do Cacique de Ramos, ouviu aquele rapaz magricela cuspindo versos sem respirar e concluiu que ali havia ouro puro. Levou-o para gravar “Camarão que Dorme a Onda Leva”, parceria dele com Arlindo Cruz. Foi o equivalente sambístico a um jogador ser convocado direto da pelada para a Seleção.

Logo depois, a gravadora RGE reuniu quatro novatos num disco chamado “Raça Brasileira”: Jovelina Pérola Negra, Mauro Diniz, Pedrinho da Flor e Zeca Pagodinho. A ideia era apresentar quatro promessas. O disco vendeu mais de cem mil cópias e tratou de avisar que eles já tinham deixado de ser promessas.

Em 1988, Zeca iria desembarcar pela primeira vez em Manaus para um show exclusivo no Clube do Samba, na Cachoeirinha, numa noite de sábado. Exclusivo. Essa palavra durou pouco.

Quando soube da novidade, Almerinho Botelho, presidente do Olímpico Clube, resolveu que exclusividade era um conceito bastante flexível. Procurou Carlos Moutinho, empresário e um dos sócios do Clube do Samba, e perguntou se havia alguma brecha na agenda. Havia. A sexta-feira.

Carlos Moutinho explicou que bastava pagar o cachê do artista: 600 mil cruzados, divididos em duas parcelas. Almerinho entregou 300 mil na hora e saiu da reunião acreditando que tinha fechado um excelente negócio. Também acreditava em Papai Noel.

A partir daí, entrou em modo campanha eleitoral. Espalhou dez mil cartazes, colocou Kombis com alto-falantes para rodar a cidade, deu entrevistas, distribuiu releases e fez tanta propaganda que, quinze dias depois, metade de Manaus jurava que o verdadeiro show de Zeca Pagodinho seria no Olímpico. A outra metade também.

Os outros sócios do Clube do Samba (Vilson Benayon e Aluísio Brasil) perceberam que a criatura criada pela publicidade estava escapando do laboratório e resolveram melar o contrato. A discussão foi parar nas mãos do advogado Alberto Simonetti Filho, contratado por Almerinho.

Depois de muita conversa, muito bico, muita cara feia e muita matemática criativa, firmou-se um acordo: toda a divulgação passaria a ser responsabilidade do Clube do Samba.

Foi um desastre. Os empresários fizeram tanta economia na propaganda que o público quase concluiu que Zeca Pagodinho tinha desistido da carreira artística para abrir uma peixaria.

No dia do show, Almerinho e Edu do Banjo foram visitar Zeca no hotel. O pagodeiro recebeu os dois já distribuindo sinceridade:

– Porra, Edu... por que vocês não falaram direto comigo? Esse Carlos Moutinho é o maior embaço...

Almerinho explicou:

– Disseram que tinham exclusividade contigo. Só cobraram teu cachê. Seiscentos paus.

Zeca quase caiu da cadeira.

– Seiscentos?! Meu show custa duzentos! Se embolsaram o resto, vão devolver.

A comissão seguiu imediatamente para o escritório de Carlos Moutinho. O clima ficou tão amistoso quanto um clássico Flamengo e Vasco aos 48 minutos do segundo tempo. Depois de muita discussão e de Zeca ameaçar cancelar os dois shows, o empresário devolveu cem mil cruzados da entrada e rasgou, ali mesmo, a duplicata da segunda parcela. Paz selada. Ou quase.

Na noite de sexta-feira, São Pedro resolveu testar a resistência da população de Manaus. Caiu um temporal daqueles que faria Noé pedir abrigo. Quem estava em casa permaneceu em casa. O Olímpico parecia mais um retiro espiritual do que um show de Zeca Pagodinho.

Pontualmente às onze da noite, o cantor subiu ao palco como se estivesse diante de um Maracanã lotado. Cantou “Manera Mané”, “Feira de Acari”, “Pisa Como Eu Pisei” e todos os sucessos do recém-lançado “Jeito Moleque”.

Na plateia, exatas 79 pessoas pagantes e 13 mesas ocupadas. Era praticamente um show personalizado.

Às duas da manhã, enquanto Almerinho fazia contas para descobrir quantos carnavais precisaria organizar para pagar aquele prejuízo, apareceu um emissário do Ecad trazendo a conta dos direitos autorais. Valor da facada: 150 mil cruzados.

Almerinho ficou tão furioso que cogitou resolver a questão com uma navalha – solução pouco recomendada, mas muito popular nas fantasias produzidas pelo desespero. Depois de longa negociação, surgiu um acordo digno de roteiro de comédia. Se Zeca aceitasse fazer uma roda de pagode só para aquela turma, a cobrança desapareceria como dinheiro em bolso de político desonesto.

Zeca topou. Mas estabeleceu suas condições, dignas de um astro internacional:

– Quero uma pizza de muçarela com catupiry... e Brahma bem gelada. Gelada mesmo. Na temperatura véu de noiva.

Pedido atendido. Com a pizza numa mão, a cerveja na outra e o cavaquinho correndo solto, Zeca comandou uma roda de samba até cinco da manhã. O representante do Ecad saiu dali mais feliz do que auditor em promoção de supermercado. E nunca mais apareceu para importunar Almerinho.

No dia seguinte, o show do Clube do Samba lotou. E Manaus adotou Zeca Pagodinho como patrimônio afetivo da cidade. Depois dessa estreia atribulada, ele virou arroz de festa nas rodas de pagode amazonenses – daqueles que ninguém reclama quando aparece de novo no prato.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 78

 


78. O rabugento Jamelão veio fazer um show em Manaus e seus empresários tiveram a brilhante ideia de levá-lo para conhecer o Carrossel da Saudade, da TV Cultura. Brilhante para eles. Para o apresentador, nem tanto.

O programa, um patrimônio afetivo da televisão amazonense, estava há quase trinta anos no ar e funcionava como um botequim de verdade: mesas espalhadas pelo estúdio, plateia tomando uma gelada, banda fixa, convidados habituais e, de vez em quando, um cantor da velha guarda que aparecia sem avisar e acabava puxando um samba. Também havia espaço para aquele cidadão que, depois do terceiro copo, jurava tocar cavaquinho melhor que o Canhoto.

Quando Jurandir Vieira bateu os olhos em Jamelão sentado discretamente numa mesa, sentiu que Deus finalmente havia resolvido turbinar sua audiência. Afinal, existia uma tradição não escrita: artista famoso que aparecesse no “boteco” tinha obrigação moral de dar uma palhinha.

O único detalhe é que ninguém havia comunicado isso ao principal interessado.

Jurandir caminhou até a mesa em estado de êxtase e começou a apresentá-lo como se estivesse anunciando a chegada do Papa ao sambódromo:

– Senhores e senhoras, temos aqui uma verdadeira enciclopédia ambulante do samba! O maior intérprete de samba-enredo da história do carnaval! Sua majestade... Jaaaaameeeelããããooooo!

Jamelão ouviu tudo com a mesma expressão de quem espera a conta do restaurante.

Jurandir esticou o microfone, sorrindo de orelha a orelha:

– Vai lá, mestre! Dá um refresco pra rapaziada!

Foi quando Jamelão, usando aquela voz que parecia ter sido temperada com lixa e uísque, respondeu:

– Refresco eu não dou, não, compadre. Vocês não me pagaram cachê. Vim assistir ao programa, não trabalhar. Quem quiser ouvir minha voz, paga primeiro. Eu vivo dela. Se não tem cachê... o papo morreu.

Foi como jogar um freezer ligado dentro do estúdio.

Jurandir ficou alguns segundos procurando alguma frase espirituosa, alguma saída elegante, qualquer coisa. Não encontrou. Restou anunciar, com um sorriso que pedia socorro:

– E... vamos para os nossos comerciais...

O intervalo salvou o apresentador, mas não o clima. Jamelão permaneceu no programa até o último minuto. Não cantou um verso, não sorriu uma vez, não moveu um músculo do rosto. Fez a única coisa que havia combinado consigo mesmo desde o início da noite: assistir ao show. De graça.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 77

 


77. De todas as brincadeiras de antigamente (bolinha, pião, cangapé, patinete, cemitério, barra-bandeira, camone boy, garrafão, perna de pau, bicicleta, celotex, etc.), a que me dá mais saudade eram as animadas partidas de futebol de caroço de tucumã nas calçadas, que comecei a disputar com 12 anos. 

Lembro que para sair em busca de tucumãs nas áreas de ocorrência natural, a gente montava verdadeiras expedições de guerra, com 15, 16 moleques dispostos a matar ou morrer. Os deslocamentos eram feitos a pé. 

Às vezes, essas expedições duravam um dia inteiro, o que deixava nossas mães à beira de um ataque de nervos. Havia perigos de todos os tipos nos rondando, de picadas de cobras a afogamentos acidentais nos inúmeros igarapés que tínhamos de atravessar (e eu nunca aprendi a nadar).

Para se ter uma ideia, basta lembrar que no final dos anos 60 a zona urbana da cidade terminava na Cohab-Am da Raiz, tendo como marco final o Igarapé do Crespo. Dali em diante, na direção do Japiim e Distrito Industrial, era terra de ninguém – leia-se floresta fechada. 

Pra complicar, os grandes tucumanzais nativos estavam no Morro da Liberdade, mas a mão de obra que dava para atravessar o Igarapé da Cachoeirinha por meio de catraias, ali no final da Rua Maués, desestimulava qualquer Jim das Selvas. Sem contar que os moleques de Santa Luzia costumavam receber os forasteiros na base da baladeira e tinham uma pontaria infernal.

Na minha época, o tucumã-arara era, mais ou menos, do tamanho de uma mexerica. Hoje, não passa do tamanho de um limão. Eles eram selecionados para serem atacantes. O tucumã-açu tinha o diâmetro de um pequeno ouriço de castanha. Eram selecionados para serem zagueiros (os famosos “beques”). O tucumã-piririca era pequeno, mas dava os melhores pontas e armadores. O tucumã-purupuru era a escolha certa para a linha de médios, principalmente para o volante, vulgo “cabeça de área”. O tucumã-do-mato ou tucumã-babão era escolhido apenas pela sua beleza física – fornecia bons jogadores albinos.



A fabricação dos jogadores era feita em série. Normalmente, a molecada possuía alguém que fosse bom no manejo do terçado (na nossa turma, os irmãos Popó, Zezinho e Vico, todos eles halterofilistas militantes). A gente entregava o caroço de tucumã e avisava: atacante! O sujeito posicionava o caroço em um cepo de madeira e dava uma terçadada acima da metade do coquinho. Ou então: linha média! O sujeito dava uma terçada abaixo da metade do coquinho. Ou ainda: beque! A terçadada era dada a um dedo da extremidade do coquinho.

Partíamos então pra fase de ralação. A escolha recaía nas ruas de asfalto mais recente, onde o atrito era maior. Pra retificar a base dos jogadores era mais simples: bastava calçar uma sandália japonesa, pisar em cima do botão, e sair arrastando por uns duzentos metros. Pra raspar as fibras da superfície dos caroços, não tinha jeito: era na base da ralação manual, também no asfalto.

Nessa fase, era comum alguém se entreter na tarefa e acabar ralando o dedo, que, dependendo da força aplicada nos caroços, podia expor o osso das juntas. Presenciei vários acidentes desse tipo. Somente nessa fase é que a gente descobria as imperfeições do jogador, traduzida em buracos abertos por brocas e outros inimigos naturais. 

Dependendo do grau de imperfeição (até três buracos eram admitidos), a gente ia em frente – os buracos seriam corrigidos, posteriormente, com a adição de cera proveniente de velas derretidas. Caso contrário, eles seriam sumariamente descartados.

Após a ralação, começava a fase do polimento. No início, com lixa grossa. Depois, com lixa d’água. Finalmente, com lixa fina. Quando os jogadores estivessem perfeitamente lisos, eram pintados com tinta de sapateiro e ficavam alguns dias ao sol. Mais tarde, ficavam submersos n’água – para liberar a amêndoa e absorver umidade. Só então eram engraxados, com graxa de sapateiro, e depois recebiam uma camada de carnaúba. Estavam prontos pros embates.

Com os beques, o buraco era mais embaixo. Depois que o miolo do coquinho era retirado, eles eram enterrados na terra. Em uma lata, derretíamos chumbo e depois derramávamos o chumbo quente no interior dos beques, jogando em seguida água fria para que o choque térmico solidificasse o chumbo. Algumas vezes, o beque não aguentava a parada e se quebrava. O jeito era começar tudo de novo.

Pra fabricar os goleiros, havia uma espécie de molde escavado no barro, semelhante a uma caixa de fósforos. Era só derramar o chumbo derretido ali dentro e jogar água fria. Depois de retirar o molde de chumbo do buraco, era só retificá-lo para caber dentro de uma caixa de fósforos, e depois enfeitá-lo com as cores do clube. 



As traves eram de madeira com redes de pano (normalmente voal transparente ou rendinha), tendo, nas suas dimensões, o dobro do goleiro de altura e cinco vezes o tamanho dele de largura. A bola, redonda e com desenhos imitando os gomos das bolas de verdade, era feita de cortiça ou de lã. Os jogadores eram acionados por pentes (o pente Flamengo era o favorito, mas havia pentes artesanais feitos de osso que tiravam qualquer um do sério, em termos de potência, funcionalidade e direção).

Os times eram dispostos em campo quase sempre do mesmo jeito. Os dois beques chumbados embaixo da trave, ao lado do goleiro, um volante grandão na cabeça da área, dois médios se passando por laterais, e cinco atacantes. A regra adotada era a baiana (um toque). O resto, igual ao celotex. Por exemplo, rebatida do goleiro pertence ao time que está atacando.

Aí, um dos inventores de ocasião (Heraldo Cacau ou Airton Caju, não lembro) conseguiu introduzir vários alfinetes no peito do goleiro com o chumbo ainda derretido. O goleiro ficou parecido um porco-espinho, mas encaixava qualquer bola – e quanto mais forte o chute, melhor. Tivemos de proibir a presepada. Brincadeira tem hora.

quinta-feira, setembro 17, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 76

 

O carnavalesco Shangai e Jairo de Paula Beira-mar

76. Fevereiro de 1985. Apesar de ser apenas um bloco de empolgação, o Reino Unido da Liberdade promovia animadas rodas de pagode na sua quadra improvisada nas tardes de sábado. 

Em um desses pagodes, um sujeito de bermudas, sandálias havaianas e camisa de meia sobre um dos ombros, tentou entrar na quadra da escola, mas foi barrado pelo porteiro.

O sujeito se afastou silenciosamente e ficou parado no canto da rua observando a agitação, mais perdido do que cachorro quando cai do carro de mudança. Jairo Beira-mar, que estava acompanhando a cena de dentro da quadra da escola, foi falar com o porteiro.

– Porra, Buião, eu estava só vendo o teu jeito! Por que foi que você não deixou aquele cidadão entrar? Eu não já falei que todo mundo é bem-vindo aqui na nossa escola?... – detonou Jairo Beira-mar.

– Ah, bicho, ele chegou aqui procurando por uma pessoa que nunca ouvi falar, um cara de nome invocado! – explicou o porteiro. – Eu não dei nem confiança, falei apenas que não conhecia o sujeito. Agora vê se eu tenho cara de mané pra adular macho pra entrar na quadra. Fiquei na minha. Ele não entrou porque não quis...

Jairo Beira-mar atravessou a rua e foi conversar com o cidadão.

– Meu amigo, eu sou diretor do bloco Reino Unido e queria pedir desculpas pelo ocorrido, mas se você quiser entrar na quadra pra participar do nosso pagode, fique à vontade!

– Tudo bem, bicho, tudo bem! É que eu sou do Rio de Janeiro e não conheço ninguém aqui. Quem me convidou pra esse pagode foi um amigo aqui de Manaus, o compositor Paulo Onça, mas parece que ele ainda não chegou...

– O Paulo Onça é meu amigo. Se você quiser, a gente pode esperar por ele lá dentro da quadra. Meu nome é Jairo de Paula Beira-mar!

– Tudo bem, bicho, tudo bem! Meu nome é Zeca Pagodinho!

Os dois entraram juntos na quadra e ficaram conversando até a chegada do compositor Paulo Onça, que fez uma festa quando encontrou o amigo. 

No ano seguinte, o sambista “barrado” pelo Buião estreava em disco solo, “Zeca Pagodinho”, onde emplacou os sucessos “SPC”, “Coração em Desalinho”, “Quando Eu Contar (Iaiá)”, “Judia de Mim” e “Brincadeira tem Hora”, atingindo a marca de um milhão de cópias vendidas.