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quarta-feira, outubro 21, 2026

O surgimento dos bumbás de Parintins, segundo Gláucio Gonçalves

 


O ex-prefeito Gláucio Bentes Gonçalves estava internado há algumas semanas no Hospital Regional Jofre Cohen, em Parintins, quando uma pneumonia provocou a falência múltipla dos órgãos e o levou a óbito, aos 83 anos, no dia 2 de dezembro de 2014.

Remanescente de uma geração de políticos que incluía Gilberto Mestrinho, José Raimundo Parente, José Lindoso, Plínio Coelho, Socorro Dutra Lindoso, Arlindo Porto, José Cardoso Dutra e José Furtado Belém, Gláucio Gonçalves iniciou sua vida pública em 1956, quando foi eleito vereador pelo PSD.

Foi duas vezes prefeito de Parintins e eleito quatro vezes deputado estadual. Atuou como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) de 1995 a 2000, por onde se aposentou. Em 2012, ele lançou o livro “Parintins nas minhas lembranças”. É dele o relato abaixo sobre o folclore da ilha:

Meu pai nos levava, eu e meus irmãos, para assistir os ensaios do Caprichoso no terreiro da casa do Antônio Bobozinho, hoje Travessa João Meirelles, com direito às bombinhas fabricadas pelo Xavier Fogueteiro. Em outros locais havia festas típicas, com muitas fogueiras, fogos e balões, danças de boi e de quadrilhas e muitas guloseimas: mungunzá, tapioca, banana assada, pé de moleque, bolo de macaxeira, sucos e refrescos de abacaxi, aluá, gengibirra etc.

Era a oportunidade para os encontros amorosos da juventude daquela época. Afinal de contas, naqueles tempos, a nossa cidade contava com poucos eventos festivos, razão porque se valorizava muito mais os poucos que existiam, sendo o mês de junho uma época das mais animadas.

Mais tarde o curral do Caprichoso passou para o terreno pertencente ao saudoso Luiz Gonzaga, na Travessa Rio Branco, nosso trajeto preferido, o que vale dizer, território do “azul e branco”, enquanto que o curral do Garantido era na tradicional “Baixa de São José”, no lado oposto da cidade.

Por essa razão, por ser bem próximo da minha casa, eu frequentava muito mais o curral do “diamante negro”, inclusive por ser local onde reuníamos com os amigos e amigas do bairro para aquelas festinhas inesquecíveis ao lado do curral do boi, sob a proteção de Zé Nossa Filho, velho guardião do boi Caprichoso, que vinha a cavalo lá do Paraná do Limão, sua antiga fazenda de gado, para não perder os ensaios de seu boi do coração.

Não posso deixar de mencionar que, nessa época, época do jaraqui, pontificava o cheiro inconfundível desse saboroso peixe assado, presença infalível no nosso cardápio, principalmente nos meses de maio a junho. Parece até que, naquele tempo, até o jaraqui assado era mais gostoso, principalmente quando temperado com pimenta, sal e limão, e vontade de saboreá-lo.

Lembro-me do fanatismo que já existia naquele tempo, em relação aos dois famosos bumbás. Os moradores do lado de baixo (lado leste) eram invariavelmente torcedores do Caprichoso, enquanto os do lado de cima (oeste) eram marcadamente Garantido.

Antes os bois se apresentavam em frente às residências, quando eram solicitados, e geralmente preparava-se uma fogueira para que os bois pudessem se apresentar em volta daquele clarão.

Os donos da casa tinham o direito de se posicionarem nos lugares mais privilegiados, para que as famílias, sempre com crianças, pudessem assistir melhor ao espetáculo. Só que antes a participação do povo era mais direta, isto é, a chamada elite não passava de mera espectadora, sem fazer parte diretamente da apresentação do boi bumbá.

Gláucio e o filho Enéas Gonçalves

Pode-se dizer que os brincantes eram todos de famílias humildes: pescadores, estivadores, operários, gente pobre da periferia, muito diferente dos dias atuais, quando sabemos da luta travada por muitos grã-finos ou grã-finas para conseguir uma vaga na “marujada de guerra” ou na “batucada vermelha e branca”. Enquanto as “cunhãs-porangas”, as “sinhazinhas”, as “rainhas do folclore”, as “porta-estandartes”, além de bonitas, geralmente eram filhas de pessoas distintas da sociedade.

Eu considero uma grande inverdade a história que não sei quem meteu no ouvido da mídia – gente que não conhecia nada dos bumbás de Parintins – que o Garantido é o boi do povão e o Caprichoso é o boi da elite. Posso garantir que isso está longe da verdade. Os dois bumbás são constituídos de grandes massas populares que dividem a cidade ao meio, inclusive as elites, se é que assim se pode chamar.

Naqueles anos de outrora me lembro de duas bravas mulheres que brincavam de boi. Não só brincavam como contribuíam com trabalho, arte e muita dedicação ao boi querido de Luiz Gonzaga: a Camé Rocha (“Camé do Bom Rapaz”, como era conhecida) e a Eurica Cid, todas duas figuras imortais do boi Caprichoso.

A primeira – a Camé – desempenhava a figura de madrinha do Touro Negro, com direito a um lugar especial na roda de brincantes, além de ser artista e estilista ao mesmo tempo, pois tanto cuidava da confecção da tradicional figura de “Dona Aurora”, quanto fazia também a indumentária da mesma, enquanto a segunda – a Eurica – tinha lugar efetivo como dançarina invisível dessa referida figura engraçada, isto é, fazia a “Dona Aurora” dançar para as multidões. Daí eu dizer que essas duas mulheres heroicas, pelo muito que contribuíram espontaneamente ao boi de Zé Nossa Filho, merecem um registro especial.

Hoje sabemos da grande disputa por um lugar de destaque em qualquer dos bumbás. Dizem até que as gatinhas, pela importância do papel que representam no boi, quase sempre conseguem bons casamentos, ou pelo menos namorados de alto nível. Mas ao tempo de Camé e Eurica não conheci outras mulheres participando diretamente das brincadeiras de boi. Elas duas, pelo que me lembro, foram as primeiras a entrar na roda do boi, cantando toadas e dançando o dois pra lá, dois pra cá.


Como o assunto ainda é boi-bumbá, vou aproveitar uma achega de meu pai, que gostava muito das festas juninas, principalmente de brincadeira de boi. Ele dizia que, naqueles tempos idos, nos encontros ocasionais de Caprichoso e Garantido pelas ruas da cidade, dava gosto assistir o espetáculo e ouvir os desafios em forma de versos.

De um lado o Feliz Cid e de outro o Lindolfo Monteverde, cada qual com maior talento, faziam o público delirar em noites memoráveis de Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal. Noites iluminadas não só pelo crepitar das fogueiras, mas também pelos versos desafiadores, sempre bem rimados, daqueles consagrados poetas-repentistas do folclore parintinense.

Se bem consigo fazer uma ilação, chego a dizer que há uma evidência bem-acentuada em torno dos dois poetas-repentistas que acabei de citar – Cid e Monteverde – o primeiro, o Feliz, era filho de cearense e o Lindolfo, pelo que tudo faz crer, era filho de maranhense, ambos, evidentemente, descendentes de nordestinos, o que vale dizer que todos dois carregavam nas veias o sangue forte do poeta repentista, o verso de desafio, animado e divertido, que alegrava as nossas noites e começava a criar na alma do povo essa grande paixão pelos dois festejados rivais, numa brincadeira bonita e sadia, cada um defendendo suas cores, sob o ritmo cadenciado das mais belas e inesquecíveis toadas.

Com relação ao boi Caprichoso eu devo contar um fato que me parece muito esclarecedor, em razão de certas dúvidas ainda existentes, no que concerne aos legítimos fundadores do famoso bumbá de Luiz Gonzaga. Senão, vejamos.

Há muitos anos, lembro-me ainda, alguns cearenses aqui residentes apresentavam o “cordão dos marujos”, apresentação folclórica trazida do sertão nordestino, em homenagem a São Benedito, evidentemente com fundamento religioso, tendo a participação de uma única mulher, a rainha do Congo, que conduzia a imagem da mãe de Jesus.

Esses “marujos”, quando se apresentavam, usavam roupas com as mesmas características das que são usadas pelos marinheiros, isto é, semelhantes também àquelas usadas antigamente pela “marujada de guerra” do boi Caprichoso. E, o mais curioso, sabem quem era o principal responsável pelo “cordão dos marujos”? Não era outro, era apenas o senhor Roque Cid, pai do amo do Caprichoso – Feliz Cid – o que vem a ser um forte argumento para se reconhecer na família Cid os verdadeiros fundadores do boi da “marujada de guerra”.

Mais tarde outro Cid veio a ser amo do Caprichoso – refiro-me ao Nascimento Cid, irmão de Feliz. Se há outros, eu não sei, mas uma coisa é certa, as evidências indicam os Cid como fundadores do Caprichoso, sendo seu primeiro amo o Feliz Cid, o qual deve ter seu nome colocado em relevo, nos anais do seu boi, assim como Lindolfo Monteverde é estrela de primeira grandeza na história e na vida do Touro Branco.


Para concluir esses registros em torno da festa dos bumbás de Parintins, devo dizer que durante o tempo em que exerci mandatos eletivos, sempre procurei me manter acima da condição de torcedor deste ou daquele boi. Aliás, esse comportamento foi adotado também pela Walkíria, minha mulher, porque quando assumi o segundo mandato de prefeito, havia um clima de profunda desconfiança, do lado do Caprichoso, com relação à prefeitura, em razão do que havia ocorrido no ano anterior.

Os torcedores do boi azul e branco acusavam o ex-prefeito, meu antecessor do segundo mandato de prefeito, de haver comprometido o resultado do julgamento. O caso se tornou tão grave que chegou ao ponto de um grupo de simpatizantes do Caprichoso tentar invadir a residência daquele ex-chefe comunal, o que não aconteceu por interferência policial.

A verdade é que o nosso festival folclórico experimentou até o estádio Tupy Cantanhede, como área de apresentação, mas o resultado foi absolutamente negativo porque causou alguns prejuízos ao futebol local: paralisação do campeonato, estrago no gramado, perfuração da área etc. Não posso deixar de registrar que nos dois mandatos de prefeito, nosso apoio foi total e efetivo ao Festival Folclórico de Parintins.

Para ser sincero, perdoem-me a falta de modéstia, mas o Festival Folclórico de Parintins ganhou dimensão maior a partir de 1983, no nosso segundo mandato de prefeito. Desde a primeira investidura no executivo municipal, sem nenhuma dúvida, não só ajudamos em termos logísticos e financeiros, como fomos incansáveis em oferecer todo tipo de estímulo e incentivo para que essa festa se tornasse cada vez mais empolgante e organizada, até chegar ao ponto em que chegou.

Primeiramente conseguimos levar o festival para a praça pública, exatamente no local onde está hoje o bumbódromo, uma vez que antes era apresentado nas quadras de esporte, de modo muito acanhado, tendo em conta o espaço reduzido para um festival que crescia a cada ano.

Muitos ainda se lembram que, como prefeito, começamos fazendo o bumbódromo todo em madeira de lei: arquibancadas, cadeiras numeradas, tablado e até camarotes com dois pisos, para autoridades e visitantes ilustres.

O crescimento desse festival, como todos sabem, foi também em função do poder de imaginação do povo parintinense, cuja vocação artística vem se manifestando aos borbotões, numa proporção extraordinária a se refletir positivamente na formação cultural de nossa gente.


Foi em 1987, naquele bumbódromo ainda de madeira, no camarote oficial, o governador Amazonino Mendes, sentado ao meu lado, sob a vibração das galeras, batendo no meu ombro, disse o seguinte (palavras que eu não esqueço): “Gláucio, eu quero te ajudar a fazer um gol de placa na tua administração. Vê qual a obra de grande vulto que possa agradar mais o povo de Parintins!”

Na mesma hora, sem deixar o compromisso esfriar, falei assim: “Governador, se o senhor me dá oportunidade de escolher essa grande obra que deseja construir em Parintins, peço-lhe que faça esse bumbódromo em concreto!”

O governador me olhou e perguntou novamente: “É isso mesmo?...” Respondi afirmativamente que sim. “Então, Gláucio, você pode anunciar à imprensa e ao povo de Parintins que vamos construir o bumbódromo definitivo e a inauguração será no festival do próximo ano de 1988!”

Foi assim que nasceu esse colossal bumbódromo, graças à grande visão do governador Amazonino Mendes, que deu a Parintins esse prêmio valioso, como maior incentivo ao nosso tradicional festival folclórico.

Depois disso é evidente que o Festival Folclórico se agigantou ganhando a dimensão dos dias atuais, e essa grandiosa obra começou a ser naturalmente divulgada pelo Brasil e pelo mundo, com destaque para a vocação artística e cultural deste povo.

É verdade que esse projeto governamental, pela sua relevância política e social, muito me envaideceu por ter tido o privilégio de ver essa obra imponente edificada na minha administração, que acabou de ser coroada de extraordinário êxito, tendo em vista o “gol de placa” que ficou na história. Desse modo ficou o governador com sua vontade política plenamente concretizada, e eu com meu sonho transformado em realidade.

O compromisso foi tão sério e inarredável que dentro do prazo previsto o novo bumbódromo foi festivamente inaugurado, sob o ritmo contagiante das toadas, exatamente no dia 28 de junho de 1988, cuja solenidade presidida evidentemente pelo governador Amazonino Mendes contou naturalmente com a presença de convidados ilustres, além da multidão que não se cansava de aplaudir o grande artífice dessa obra monumental. Parintins, com certeza, muito deve ao insigne governador Amazonino Mendes. Entre tantas obras importantes que aqui realizou, o bumbódromo pontifica entre as maiores.

Quando concluí meu último mandato de prefeito, quando se acabaram as desconfianças, isto é, depois que demonstramos total isenção e seriedade no trato com as agremiações folclóricas, a Walkíria voltou a torcer pelo Garantido, seu boi de preferência, e eu pelo Caprichoso, dos meus tempos de juventude, muito embora reconheça que no Garantido sempre tive excelentes amigos, a começar pelo saudoso Lindolfo Monteverde e sua família, com os quais eu sempre mantive o melhor relacionamento.

Os meus filhos também são divididos entre Caprichoso e Garantido, por isso torcem cada qual pelo seu boi de preferência, com total liberdade e o melhor espírito democrático, o que, graças a Deus, tem nos permitido a melhor harmonia familiar. Os vitoriosos respeitam os que perderam e tudo acaba em paz, felizmente.

Essa questão de preferência de boi-bumbá, nas famílias, aqui em Parintins, é um fato interessante e muito comum. Aliás, foi isso que deu motivo ao sempre inspirado compositor Chico da Silva a compor uma bela toada denominada “Meu boi faz pirraça”.

Eis a toada, que eu considero uma das obras-primas desse talentoso compositor parintinense: “Meu amor faz pirraça / da minha cachaça / e do meu boi-bumbá. / Meu amor é contrário / e no mês de junho / se manda pra lá. / Eu confesso que sinto / uma grande tristeza / na separação. / Só meu boi Caprichoso / derrama alegria / no meu coração. / Além do mais / meu amor vai voltar / e depois do folclore / talvez não demore / pra gente casar. / Meu grande amor / vai me perdoar / hoje o boi Caprichoso / bonito e formoso / tomou seu lugar. / É boi, é boi, é boi-bumbá / que me leva pra lá e pra cá / É boi, é boi, é boi-bumbá / que me leva pra lá e pra cá”.

Mas, ao falar nas coisas boas dos nossos bumbás, não posso deixar de registrar uma comovente surpresa que o boi Garantido me fez. Isso aconteceu no último ano do meu primeiro mandato de prefeito, em 1972.

O Lindolfo levou o Touro Branco para se apresentar em frente à minha casa, na Rua Furtado Belém. Sem que ninguém imaginasse, o velho Lindolfo, fundador e amo imortal do boi Garantido, em forma de homenagem, “levantou” a seguinte toada, denominada “Despedida”.

Aqui está a toada que emocionou a mim e minha família, e continua emocionando todas as vezes que a recordamos: “Último ano de governo / nosso prefeito vai embora / Ele trabalhou pelo progresso / desta terra / já deixou seu nome / gravado na História / Ele trabalhou pela cidade / Ele trabalhou pelo interior / grande trabalho / Prefeito Gláucio deixou”.

O que até hoje me comove é a forma espontânea e sincera dessa homenagem, o que me causou uma grata surpresa, além de tocar profundamente na minha vaidade de prefeito, que tudo fez pensando no melhor para este município. À nação vermelha e branca eu confesso minha gratidão, minhas saudades e minhas recordações imorredouras.


Falo agora do primeiro ano do meu segundo mandato de prefeito. O Edu Costa como vice-prefeito foi nomeado por mim para presidir a comissão encarregada do festival folclórico desse ano de 1983. Tive de viajar a Manaus para tratar assuntos do município.

No meu retorno encontro a confusão formada. O Caprichoso, pelo seu presidente Geraldo Medeiros, não quis aceitar o Edu na presidência dessa comissão. Alegava-se que o vice-prefeito era ou continuava simpático ao Garantido.

Acontece que eu e Edu havíamos acabado de sair de uma eleição vitoriosa. Não tinha como deixar de prestigiar o companheiro que se mostrava tão entusiasmado em presidir a comissão. Não tive como atender o apelo que me foi enviado. Paciência! Se ele, o Edu, não encontrou uma saída honrosa, muito menos eu, seu companheiro de campanha.

Hoje, com mais experiência, certamente teria adotado um “modus vivendi” e tudo teria sido resolvido sem desdobramentos. Mas o certo que o Caprichoso, nesse ano, não participou do festival oficial, o que foi, para muitos, profundamente lamentável.

E daí o que fazer?... Não podíamos realizar o festival só com o Garantido, apesar de seu grande valor e prestígio junto à comunidade, mas, na verdade, essa disputa é tradicional e sem um dos dois rivais o festival esfria.

E para amenizar o prejuízo com a ausência do Touro Negro, eu e minha equipe reunimos e tomamos a decisão de procurar imediatamente os responsáveis pelo boi Campineiro, que havia se apresentado no ano anterior. Como era de se esperar, esse pessoal se encontrava totalmente desmotivado, pelas dificuldades naturais, visto que não é fácil se organizar um boi para disputar com o Garantido, num tempo relativamente curto. Mas a nossa vontade foi tão forte que conseguimos superar aquele problema sem tanta dificuldade.

Conversamos com um dos donos do Campineiro, meu compadre Camoca, o qual se prontificou em nos ajudar na reorganização daquele bumbá. Foi feita a eleição para a presidência do boi. O eleito foi o Carlos Lima, à época funcionário da Fundação Sesp, que assumiu em seguida o comando do Boi do Palmares.

Com isso começou a crescer o entusiasmo pelo Campineiro, que iniciou seus ensaios com muita animação, e assim os demais preparativos, ao ponto de se apresentar à altura daquela disputa, durante as noites programadas no calendário do festival.

É justo e necessário que se registre a importância do boi Campineiro no Festival Folclórico de 1983, nesta cidade de Parintins. Valeu o grande esforço e sacrifício do meu amigo Carlos Lima, do meu compadre Camoca, de dona Dilce Cansanção e de tantos outros folcloristas e artistas do boi esmeraldino, que muito contribuíram para que aquele festival fosse realizado com sucesso.


O engraçado de tudo isso é que mandei contratar o cantor parintinense Chico da Silva, que nesse tempo morava no Rio de Janeiro, para vir alegrar ainda mais as nossas festas folclóricas. Não digo nada, o Chico chegou, me procurou na prefeitura e tudo ficou certo para que ele fosse a grande vedete da primeira noite.

Qual minha surpresa, chegou a hora da apresentação do Chico e cadê você? Ninguém sabia dar notícia do cantor. Mais tarde, entretanto, fomos saber que o Chico da Silva, fantasiado de tuxaua, estava infiltrado numa tribo do Caprichoso, no Parque das Castanholeiras, onde o “diamante negro” fazia sua apresentação. Já imaginaram?...

Exatamente, nesse ano, o consagrado boi de Feliz Cid, por alguma incompreensão, não quis participar do festival oficial.

No dia seguinte me aparece o Chico, com cara de ressaca, para me pedir desculpas: “Mano velho, você vai me desculpar, mas eu não resisti à vontade de sair no meu boi de coração. Há vários anos que eu não via o bailado do meu boi”.

O que eu podia fazer diante do desabafo de um conterrâneo saudoso de sua terra e de seu boi? Tive de desculpar o Chico. E só não fiquei mais aborrecido porque o boi Campineiro, nessa noite, se apresentou impecável, razão dos muitos aplausos da multidão que se fez presente naquela praça de apresentação folclórica.

Para ser bem justo, já que falo no Campineiro, tenho por dever de justiça e gratidão dizer que o pessoal do Garantido, quando soube da decisão do Caprichoso de não participar da disputa, para me tranquilizar, foi ao meu encontro dizendo que tudo seria feito para a beleza da festa não ser sacrificada.

E foi exatamente o que aconteceu. A festa foi linda, o Garantido foi belo, o Campineiro foi surpreendente, mas sabe-se, por experiência própria, ser muito difícil a ausência de um dos bois de nossa tradição folclórica. Que isso nunca mais aconteça!

terça-feira, outubro 20, 2026

O surgimento dos bumbás de Parintins, segundo Tonzinho Saunier

 

O escritor e folclorista Tonzinho Saunier

Nascido na localidade de Santa Marta, no município de Barreirinha, no dia 8 de julho de 1932, Antônio Pacífico Siqueira Saunier, o saudoso Tonzinho Saunier, faleceu em Parintins, em 1999, aos 67 anos, alguns anos depois de ter recebido o título de “Cidadão Honorário de Parintins”.

Poeta, historiador, folclorista e antropólogo autodidata, ele dedicou grande parte de sua vida à cultura amazônica, divulgando suas descobertas em mais de 300 crônicas e contos, abordando lendas e mitos. Publicou vários livros e hoje empresta seu nome à Biblioteca Municipal de Parintins.

Considerado o maior historiador do município, Tonzinho Saunier era um profundo conhecedor da vida do caboclo ribeirinho com quem viveu e conviveu durante suas inúmeras andanças pela floresta. Em um de seus livros, o já citado “Parintins: Memória dos Acontecimentos Históricos”, ele dá a sua versão sobre o surgimento dos bumbás:

O folclore de Parintins iniciou, certamente, com os primeiros habitantes de nossa ilha: maués, sapopés, mundurucus, parintins, parintintins, pataruanas, paraueris, paravianas, tupinambás, tupinambaranas e uapixanas. As principais festas eram as danças da tucandeira ou tocandira, dos maués e mundurucus. Os maués celebravam como festa nupcial e os mundurucus como sinal de emancipação e robustecimento de provas. Os mundurucus também tinham a festa da vitória, onde exibiam a cabeça do inimigo enfeitada de plumas.

É sabido que o folclore indígena decantava a natureza com tudo nela existente: os pássaros, os animais, as árvores, as plantas medicinais e ervas aromáticas, e a imaginação criou os monstros das florestas e das águas: jurupari, juma, mapinguari, curupira, yara, acâuera-de-fogo, cobra-grande, tapirayauara e tantos outros seres misteriosos e encantados, como o neguinho do campo-grande e o bicho folharal.

Em 1859, o médico alemão Robert Cristian Avé-Lallemant, em viagem científica pelo rio Amazonas, chegou a Parintins (à época Vila Bela) e andou por seus vários recantos. Era o dia de São João e uma “preguiça” especialmente bela e genuinamente patriarcal era oferecida à gente de Vila Bela. O boi-bumbá (herança nordestina de nossos antepassados) adveio com os nordestinos em fins do século XIX e começo do século XX.

Entre 1910 e 1912, surgiu o boi Diamantino, do piauiense Ramalhete. Em 1913, surge o boi Caprichoso, trazido de Manaus pelo Sr. Emídio Vieira e em 1915, o boi Fita Verde do Aninga, do Sr. Izídio Passarinho, e em 1920, o boi Garantido, criado pelo poeta popular e folclorista Lindolfo Monteverde.

Nas décadas de 30 a 60, os bumbás, cordões de pássaros e de peixes, as pastorinhas, dançavam nas residências ou à frente delas e andavam pelas ruas deleitando o povo, que os acompanhava. Ficaram famosos à época, os cordões de pássaros: o rouxinol do Florival Telegrafista, o bem-te-vi e a gaivota do Venâncio, e o guará do Sr. Justiniano Seixas. O tangará marcou época na década de 50. Os cordões de peixes: do Uaicurapá, veio o tambaqui (peixe de carne saborosa da Amazônia), que era conduzido espetado por uma menina que vestia roupas coloridas. Houve, ainda, os bumbás mirins: Tira Teima, do Gêco, e o Dois de Ouro do Nego, do Alcides Seixas.

No período carnavalesco, apareceram a Barca Misteriosa, do Sr. Raimundo Almada, e o Cordão do Bode, do barbeiro João Lobo. Outra brincadeira que animou o povão foi o Vaso de Guerra e o Navio Fortaleza, que alegravam as noites com seus encontros e “batalhas navais”, com fogos de artifício e ronqueiras (artefatos pirotécnicos formados por um cano de ferro, preso a um cepo e cheio de pólvora, o qual produz grande detonação quando se lhe inflama a escova). Depois das “batalhas”, todos se confraternizavam na festa do fogueteiro.

A Grande Enciclopédia da Amazônia, de Carlos Roque, editada nos anos 60 registra: Garantido: boi-bumbá da cidade de Parintins, Estado do Amazonas. Dos mais tradicionais, tendo-se inclusive exibido em Manaus no festival do folclore; Caprichoso: boi-bumbá dos mais tradicionais de Parintins, Estado do Amazonas; Tira-Fama: boi-bumbá da cidade de Parintins, Estado do Amazonas; Mina-de-Ouro: boi-bumbá do distrito de Parananema, município de Parintins, Estado do Amazonas.


As pastorinhas, mesmo em declínio, ainda aparecem vindas principalmente do interior, e as quadrilhas, por serem festas populares, exibem-se no Bumbódromo, na abertura do Festival Folclórico.

O Folclore do Boi-Bumbá – O Festival Folclórico de Parintins tem seu ponto culminante nas apresentações dos bumbás Garantido e Caprichoso, todos os anos nos dias 28, 29 e 30 de junho. É conhecido internacionalmente e, durante o mês de junho, chegam a Parintins visitantes de todo o mundo, atraídos pela beleza e magnificência do nosso festival. Chegam ministros de Estado, políticos de todo o Brasil, artistas famosos, escritores, poetas e a imprensa escrita, falada e televisionada de todo o mundo, que transmitem imagens, publicam matérias jornalísticas com fotos e anunciam fatos e novidades do folclore da Ilha Tupinambarana.

O Festival Folclórico iniciou em 1966, na quadra da JAC (Juventude Alegre Católica), até 1975. Do 1º Festival ao 9º, na JAC da Praça da Catedral de Nossa Senhora do Carmo. O 10º Festival, na JAC da Rua Jonathas Pedrosa. O 11º e 12º, na quadra da CCE (Comissão Central de Esportes), no Parque das Castanholeiras. O 13º na JAC da Avenida Amazonas. O 14º no CCE-Castanholeiras. O 15º, 16º e 17º no Estádio de Futebol Tupy Cantanhede. 0 18º no Tabladão do Povo (antigo aeroporto). Do 19º ao 22º, no Tabladão do Povo, cujo nome foi mudado para Anfiteatro Messias Augusto. Do 23º Festival (ano de 1988) em diante, o Festival de Parintins passou para o Bumbódromo.

Obra monumental do governador Amazonino Mendes, o Bumbódromo foi construído na gestão do ex-prefeito Gláucio Bentes Gonçalves. Sua área é de 10 mil m², com capacidade para 50 mil pessoas. Estrutura em forma de uma cabeça de boi estilizada, mista de ferro e concreto pré-moldado. Foi inaugurado em 1988, no 23º Festival. O complexo tem ainda pronto-socorro, 18 salas de aula, biblioteca, lanchonete e outros compartimentos. Concorrem ao Festival, os bumbás Garantido e Caprichoso, com quatro mil brincantes cada um, apresentando figuras típicas regionais, alegorias com danças amazônicas, danças e tribos indígenas.

Os preparativos para o Festival Folclórico iniciam-se no mês de abril. Concorrem 22 itens para o julgamento do campeão anual. São eles: apresentador, levantador de todas, batucada, ritual, porta-estandarte, amo do boi, sinhazinha da fazenda, rainha do folclore, cunhã-poranga (do tupi: mulher bonita), boi-bumbá (evolução), toada (letra e música), pajé, tribos indígenas masculinas, tribos indígenas femininas, tuxaua luxo, tuxaua originalidade, figuras típicas regionais, alegorias, lenda amazônica, vaqueirada, galera (torcida) e coreografia, organização, animação e conjunto folclórico.

Para o julgamento são convidados seis jurados, de preferência folcloristas e artistas plásticos de três estados do Brasil, sendo dois jurados de cada estado, que chegam a Parintins até o dia 27 de junho e ficam sob vigilância dos fiscais dos bumbás até o dia 30 de junho. Em cada dia de julgamento são sorteados três jurados. 

Dia 1º de julho é feriado e são abertas as urnas e contados os pontos, na presença das autoridades do município e dos fiscais dos bumbás. O vencedor sai em passeata, mas somente dentro de seu território. O domínio do Caprichoso é da Praça Eduardo Ribeiro a leste, até o fim da ilha. O domínio do Garantido é da mesma praça a oeste, até o fim da ilha. Durante as apresentações no Bumbódromo, a galera do Caprichoso fica em silêncio absoluto quando o Garantido se apresenta, acontecendo o mesmo na exibição do Caprichoso.


O Caprichoso “nasceu” em Manaus, em 1912 e foi trazido a Parintins, em 1913, pelo Sr. Emídio Rodrigues Vieira. Foram seus iniciadores Boboí, Luiz Gonzaga, José Leocádio, Emílio Silva, os irmãos Cid (Raimundo, Pedro e Félix, cearenses, naturais de Crato) e tantos outros. Uma versão aponta que quem trouxe o Caprichoso foi o coronel José Furtado Belém, quando visitou a Praça 14, onde o boi se apresentava, em 1913. 

Já outra versão diz que o Caprichoso foi fundado em março de 1925. É um boi preto e suas cores são azul e branco. Possui uma estrela na testa, que foi introduzida no ano de 1996. Seus currais situaram-se em diversos lugares: primeiramente na Travessa Rio Branco, depois foi para o Aninga e, posteriormente, se mudou para a Travessa Cordovil, permanecendo ali por muitos anos. Hoje, seu curral definitivo situa-se na Rua Gomes de Castro, nas proximidades do bairro de Palmares.

Garantido – No dia 21 de junho de 1970, estive com Betinho Mendes na casa de Lindolfo Monteverde, o cantador maior do folclore do boi-bumbá da ilha. Era o 5º Festival Folclórico de Parintins, havendo festa no curral do Garantido. Fazíamos uma pesquisa que publicamos no jornal A Tribuna em 28 de junho. Mestre Lindolfo sentou-se entre mim e Betinho, juntamente com dona Antônia, sua esposa, e passou a nos contar a história do Garantido. 

Estas foram as palavras de Mestre Lindolfo: “Eu tinha dezoito anos em 1920, quando botei, pela primeira vez, o novilho que completa este ano 50 anos de existência e por isso estou alegre. O Garantido sucedeu ao boi Fita Verde, do meu compadre Izídio Passarinho, do Aninga.”

O Garantido exibiu-se pela primeira vez com 40 figuras: cantadores, caboclos, vaqueiros, pajé, Bicho Folharal, Pai Francisco, Mãe Catirina, Dona Maria e o Padre. Fundado em junho de 1920 (o dia não foi registrado). É branco e suas cores são o vermelho e o branco. Possui um coração na testa, que foi introduzido desde a sua fundação. Seu curral situava-se na Rua Lindolfo Monteverde, na baixa de São José. Atualmente, situa-se na Estrada Odovaldo Novo, nas antigas dependências da extinta Fabril Junta, carinhosamente denominada Cidade Garantido.

Campineiro – Surgiu em 1977, no bairro de Palmares. No ano seguinte, disputou com o Garantido o título do 13º Festival, conseguindo o 2º lugar. Em 1983, disputou também com o Garantido, conseguindo a mesma colocação. Depois dessa competição, desapareceu. Suas cores eram verde-esmeralda e branco, e teve toadas que marcaram sua ligeira passagem pela ilha.

Garranchoso – Boi-mirim do Colégio Nossa Senhora do Carmo. Tem as cores vermelho, azul e branco, sendo que um lado do boi é branco e o outro é preto. Um fato curioso foi ter sido cedido para servir de Caprichoso para os índios maués do rio Andirá.

segunda-feira, outubro 19, 2026

O surgimento dos bumbás de Parintins, segundo Jonas Santos

 

Marcinaldo Santos, Zémaria Gonçalves e Jonas Santos

Hoje é ponto pacífico e indiscutível saber que a carnavalização antropofágica dos bois de Parintins foi realizada por Jair Mendes, mas descobrir como os bumbás surgiram na Ilha da Fantasia são outros quinhentos.

Existem diversas histórias desencontradas sobre a origem de Garantido e Caprichoso sem que até hoje se possa aferir qual delas é realmente a verdadeira.

No livro “Boi Campineiro – A História do Festival de Parintins que não foi contada”, lançado em 2013, o jornalista Jonas Santos elenca algumas delas:

O boi-bumbá de Parintins é herança dos nordestinos e chegou ao Amazonas, provavelmente, no final do século 19. Os migrantes teriam se mudado para cá motivados pelo apogeu no primeiro Ciclo da Borracha, entre 1870 a 1910.

Oficialmente, Caprichoso e Garantido completarão seus centenários em 2013. Entretanto, são vários os autores que divergem sobre as datas de fundação dos bois e também diversos agentes sociais contam versões díspares relacionadas à introdução e evolução da brincadeira folclórica em Parintins.

No livro “Parintins: Memória dos Acontecimentos Históricos”, publicado em 2003, pela editora Valer, o historiador-maior de Parintins, o saudoso Tonzinho Saunier, discorda do ano de fundação do Garantido, 1913, e diz que o boi do povão completará, neste ano, 92 anos e não 100, conforme afirmam dirigentes do boi da Baixa do São José.

Para a família de Lindolfo essa narrativa do historiador estaria equivocada. “Nós estamos emocionados em resgatar a história do meu avô, que quando ainda menino criara o boi Garantido”, disse Cleomara Monteverde, neta do criador e presidente da associação que leva o nome do avô.

A principal contestação de apoiadores da tese de Tonzinho estaria na data de nascimento do mestre Monteverde, uma vez que Lindolfo, nesse caso, criara o Garantido aos 11 anos, conforme relato assegurado pela própria família do fundador. A discussão também se debruça sobre uma toada de Tadeu Garcia e Chico da Silva, que fala sobre um sonho do mestre.

Antes da versão oficial, os relatos de contemporâneos na Baixa era de que a gênese do boi de Lindolfo tem iniciação nos seus 18 anos de idade. Isso teria ocorrido após o retorno dele do Exército e em decorrência de uma grave doença que, outrora, foi acometido. Saunier morreu em 1999.

 

Sobre o Caprichoso, Tonzinho Saunier também questiona não somente a data de criação do boi, mas quem teria sido o seu criador. O mais afamado poeta, historiador e antropólogo de Parintins não ousa afirmar quem seria “o pai da criança”. Para debater o tema, Saunier levanta vários questionamentos. A primeira hipótese é de que o Caprichoso nasceu na Praça 14 de Janeiro, em Manaus, em 1912, e que no ano seguinte Emídio Rodrigues Vieira levou o folguedo para desenvolver a brincadeira na Ilha. Portanto, Emídio seria o fundador.

Na segunda versão, o criador do Caprichoso seria José Furtado Belém, que no ano de 1913 assistiu a uma apresentação do touro negro, na Praça 14 de Janeiro, em Manaus. Ele gostou da brincadeira e foi quem teria levado o boi para Parintins. José Furtado Belém era parintinense, de grande articulação política e chegou a ocupar o cargo de vice-governador do Amazonas, em 1911, segundo relatos de Tonzinho em sua obra.

Por fim, o historiador diz que a data de criação do boi azul e branco aconteceu em 1925, data confirmada também pelos familiares de Luiz Gonzaga Azêdo, que ainda hoje discordam e protestam que o fundador oficial do Caprichoso seja Roque Cid. Para a família, o criador foi Luiz Gonzaga. Os Gonzaga asseguram ainda que em 2013 o bumbá completaria 88 anos.

Para Simão Assayag, de acordo com publicação em 1995, o Caprichoso chegou a Parintins conduzido pelas mãos de José Furtado Belém, em 1913, e que ao chegar à Ilha o seu Emídio Rodrigues Vieira tornou-se o primeiro dono. Simão relata ainda que o boi Galante, criado também em 1913, é que foi o primeiro adversário do Garantido.

Por conta de uma contenda entre os organizadores, Emídio se afasta da brincadeira e Roque e Tomaz Cid criam um novo boi, ainda nesse mesmo ano, o qual batizam com o nome de Caprichoso. Outra variante, contada por Assayag, é que os bois Garantido e Caprichoso teriam nascido de dissidências. Não se sabe ao certo se foi do primeiro ou do segundo, respectivamente.

Tonzinho dedicou sua vida à pesquisa, a colher documentos, registros históricos, peças arqueológicas e a estudar o folclore parintinense. Apesar de seus anos afins de investigação, porém, não há um desfecho com embasamento científico a respeito desse tema.

Para fechar a conta, em mais uma suposição, Tonzinho atesta que os iniciadores do Caprichoso, em Parintins, no ano de 1913, foram Boboí, Luiz Gonzaga, José Leocádio, Emílio Silva e os irmãos Cid: Raimundo, Pedro e Félix, que vieram do Crato, cidade do interior do Ceará. O historiador não cita Roque Cid.

No livro “Boi Garantido de Lindolfo”, de Dé Monteverde, neto de Lindolfo Monteverde, fundador do Garantido, em coautoria com João Batista Monteverde, filho do criador do boi, o autor também refuta a tese de Saunier e defende que o primeiro boi é o Garantido, criado em 1913, com curuatá, uma espécie de flor de palmeira inajá e seus chifres confeccionados com uma forquilha de madeira revestidos de folhas e flores vermelhas.

De acordo com o que descreve Dé, nesse mesmo ano, Alexandrina Silva, a “dona Xanda”, mãe do menino Lindolfo, ajudou o filho a construir o Garantido utilizando a cabeça de um boi de carne, talas de inajá e como enchimento do corpo se serviu de folha de bananeira e samambaia. “Dona Xanda construiu o boi Garantido mais real. Lindolfo Monteverde criou o boi Garantido em 13 de junho de 1913 com a idade de 11 anos”, diz um trecho do livro.

O Garantido é todo branco e traz um coração na testa. As cores de sua bandeira são o vermelho e branco. Seu primeiro curral ainda está situado na Avenida Vicente Reis (hoje Avenida Lindolfo Monteverde). Em 1995, o boi mudou-se para a Cidade Garantido, localizada na rodovia Odovaldo Novo, bairro São José, onde funciona atualmente seu escritório e acontecem os ensaios e eventos do boi.

Em 1999, a folclorista e historiadora Odineia Andrade, diretora do Departamento Cultural do Caprichoso, em entrevista concedida à TV Amazonas, engrossou o debate ao dizer que o Caprichoso também era de 1920 e que, portanto, em 2013 completaria 92 anos. Mais adiante, porém, as pesquisas da historiadora desembocaram para o registro de que os irmãos Cid foram os fundadores do Diamante Negro, como é chamado o Caprichoso, e que, assim, em 2013 completaria seu centenário. O seu nascimento aconteceu no Esconde.

No centenário do Caprichoso, a versão oficial, fundamentada em pesquisa do Instituto Memorial de Parintins, e que a atual diretoria da agremiação tem embasamento, é de que o cearense Roque Cid foi o primeiro fundador do boi, em 1913, caindo por terra todas as demais aspirações para esse feito. A pesquisa vai mais além e diz que Félix Cid era filho de Roque e ocupava o cargo de amo do Caprichoso.

Ao ressignificar a história do bumbá, o resultado da investigação rememora a mesma designação de Odineia: a de que o nascedouro do touro negro é o bairro do Esconde. Atualmente, o curral do boi está localizado na Rua Gomes de Castro, Centro. O boi é preto, com barra branca e possui uma estrela na testa. As cores do seu pavilhão são o azul e branco.

O apagamento da identidade visual e sociocultural do Campineiro fragmentou no decurso de décadas a memória, a oralidade e a história do boi-bumbá. No âmbito do processo cultural, personagens que protagonizaram a brincadeira também divergem sobre a data de fundação do Campineiro e quem foi o seu criador.


O atual presidente da agremiação, Eduardo Paixão de Souza, 62, afirma que o seu boi-bumbá é o mais velho de Parintins e que seu ano de criação é datado de 1890, na comunidade do Aninga.

Ele diz ainda que seu pai, Emídio Souza, com 18 anos à época, iniciou o folguedo. “Foi a família Andrade, aqui da comunidade, que colocou a brincadeira (em 1890) e o meu pai fundou o boi em 1913”, diz. Na conta de Eduardo, o Campineiro completa em 2013 seus 123 anos.

Saunier não afere a data como verdadeira. Para o historiador, o boi Campineiro “surgiu em 1977, no bairro de Palmares”. Paulinho Faria, ex-apresentador do boi Garantido, discorda. Sem mencionar uma data exata, ele diz que o Campineiro é praticamente da mesma época do vermelho e do azul. “Eu era bem pequeno, mas eu lembro que o Campineiro já brincava boi. Tinha o Garantido e o contrário, mas ele já brincava. O Campineiro é um boi antigo, apesar de não ter vivido tanto tempo”, afirma Paulinho.

O próprio Paulinho, que guarda memórias e peças das histórias dos festivais de muitos tempos, não imaginava que o boi Campineiro ainda sobrevivesse, apesar da exclusão a qual foi relegado, e se mostrou surpreso quando interrogado acerca da situação de resiliência sociocultural a qual o verde e amarelo do Aninga passa há inúmeros anos.

O “dono do Campineiro”, Carlos Leocádio da Silva, o “Camoca”, 63 anos, conta outra versão para o surgimento do folguedo. Ele não sabe precisar a data, mas credita que a fundação do Campineiro tem alternância entre os anos 1913 a 1915. “O Campineiro só é um pouquinho mais novo que o Caprichoso. Tem quase a mesma idade”, afirmou.

Camoca foi quem comandou o Campineiro a partir do ano de 1980 e ficou por cerca de dez anos à frente da agremiação. Ele também difere da argumentação de que o pai de Eduardo Paixão é o criador do boi do Aninga.

Leocádio diz o que verdadeiro fundador do Campineiro é o pai dele, Leovino Leocádio da Costa. “Foi meu pai o fundador, mas antes de passar para a minha responsabilidade o boi ficou com o seu Emídio Calota, lá mesmo na comunidade do Aninga”, assegura.

A decisão de retirar o Campineiro do Festival de Parintins partiu das diretorias do Garantido e do Caprichoso. “Eles não queriam que outro boi estragasse a festa deles, principalmente, com a ajuda oferecida pelo Governo para a produção do festival”, afirmou.

Outro fator que levou o Campineiro a deixar o Festival foi a própria torcida. “O detalhe é que o Campineiro disputava o Festival, mas não tinha torcida. As pessoas que organizavam o Campineiro eram um misto de torcedores do Garantido e Caprichoso”, contou Jonas Santos.

sexta-feira, outubro 16, 2026

Um gênio chamado Jair Mendes

 


A carnavalização antropofágica ocorrida nos bumbás de Parintins tem uma data precisa e um gênio que não saiu da lâmpada de Aladdin, mas da Baixa de São José, como primeiro e único responsável por esta guinada radical: o artista plástico Jair Belém Mendes. Ele nasceu em Parintins, em 12 de junho de 1942, e desde criança já integrava o grupo de brincantes do boi Garantido no papel de índio das tribos do bumbá.

– Sempre fui fanático pelo touro branco. Aqui cada pessoa torce por um boi desde menino e como eu morava na parte de cima da cidade torcia pelo Garantido – diz ele. – Quando eu tinha uns 15 anos, seu Lindolfo Monteverde, que era muito amigo do meu pai, sabendo que eu gostava muito de desenhar e de pintar, me convidou para que eu fosse ajudar a pintar as alegorias do boi Garantido. Naquele tempo, o boi era feito de pau e de cipó, sendo que a cabeça era uma caveira de boi de verdade. A armação era forrada de capim, com um pano por cima imitando o couro. Pesava uma tonelada. Para ser tripa do boi a pessoa precisava ter muita força, tinha que ser um verdadeiro Sansão, Maciste ou Hércules.

No início de 1978, Jair Mendes, que desde o ano anterior era responsável pelas alegorias do bumbá exibidas na arena, falou para Lindolfo Monteverde que seria capaz de criar um boi mais leve, com armação em espuma, o que facilitaria o bailado do “tripa” durante a brincadeira, além de dotar a armação de movimentos semelhantes aos de um boi de verdade. Apesar de meio cismado com a conversa, Lindolfo deu sinal verde para Jair Mendes colocar em prática aquela sua ideia mirabolante.

A tarefa foi executada em absoluto sigilo. Além de Jair e Lindolfo, somente o apresentador do Garantido, Paulinho Faria, sabia o que estava acontecendo. De madrugada, Paulinho Faria colocava Jair Mendes em uma picape e os dois iam visitar os pastos de gado na zona rural do município. Paulinho iluminava a boiada com os faróis do carro e Jair Mendes começava a desenhar, buscando encontrar o maior realismo possível entre aqueles bois de carne e osso e o bumbá de pano que surgira na sua imaginação, se esmerando em reproduzir com precisão as proporções anatômicas dos animais.

Em uma dessas incursões – sempre feitas de madrugada, para ninguém ficar sabendo! –, Jair Mendes se deparou com um boi nelore, de pelagem cinza-clara e vassoura da cauda preta, que tinha na testa uma marca de nascença parecendo um coração, exatamente igual à marca tradicional do bumbá Garantido. O boi ficou olhando fixamente para o artista plástico por alguns minutos, aí mexeu a cabeça para um lado, depois para o outro e, na sequência, baixou a cabeça e disparou para o meio da boiada, até se perder de vista. Jair Mendes conta que os movimentos de cabeça daquele nelore foram como uma epifania.

Do ponto de vista filosófico, a epifania significa uma sensação profunda de realização, no sentido de compreender a essência das coisas. Ou seja, a sensação de considerar algo como solucionado, esclarecido ou completo. Jair Mendes agora já sabia como o seu boi de pano iria movimentar a cabeça. O resto era o de menos.

Ele e Paulinho Faria, com um gravadorzinho na mão, ainda passaram mais dois dias de campana nos pastos da zona rural, esperando que um boi urrasse, até que conseguiram gravar o urro de um zebu. Nem mesmo Paulinho Faria sabia o que Jair Mendes estava tramando. Só sabia que para evitar qualquer imprevisto, o próprio Jair Mendes já havia combinado com Lindolfo Monteverde que ele, Jair, seria o “tripa” do novo boi.

 

João Batista Monteverde, Jair Mendes, Edu Costa e Paulinho Faria

Até hoje, o ex-apresentador Paulinho Faria se lembra daquela noite mágica do dia 28 de junho de 1978, quando o boi Garantido surpreendeu o festival de Parintins e fez a brincadeira tradicional atingir um novo patamar de qualidade, dando início a uma evolução permanente que dura até os dias de hoje:

– Eu chamei a atenção da galera e dos jurados para a entrada do boi, que entrou bonito como nunca. Aí eu dizia: Atenção, galera, para esse momento… Olhe para o olho do Garantido. Aí o olho piscava. Agora, galera, olhe para rabo… Aí o rabo balançava, como se estivesse espantando as moscas… Depois ele começou a mexer a boca, a orelha… Parecia mesmo um boi de verdade… A partir daí, meu amigo, a galera foi ao delírio… Era menino, mulher, velho, todo mundo emocionado, a gente chorava e ria ao mesmo tempo. Era muita emoção. Neste ano, o Caprichoso não voltou mais na segunda noite. Nós disputamos o resto do festival com o bumbá Campineiro. De repente, quando o Garantido encerrou sua apresentação e já ia saindo, eu disse: Acho que está faltando alguma coisa, galera! Atenção, galera vermelha e branca! Aí o boi urrou, que foi aquela nossa gravação, e começou a mexer a cabeça, a dançar com a Sinhazinha da Fazenda e se movimentar todo, de um jeito que ninguém nunca tinha visto antes… A galera foi à loucura! Não tinha mais jeito, ninguém ia superar aquele nosso bumbá…. Foi por isso que o contrário não voltou mais na noite seguinte. Aquilo tinha sido uma idéia fantástica desenvolvida pelo Jair, porque o Garantido fez de tudo nessa noite, só faltou voar. O Jair Mendes saiu consagrado do tablado!

Chamado até hoje de “Hans Donner do Boi”, Jair Mendes, a partir dessa noite histórica, conferiu vida às alegorias gigantescas e se transformou em avatar dessa nova arte parintinense, que fez do festival dos bumbás um dos mais bonitos espetáculos visuais do planeta.

Um artigo de jornal do arquivo particular de Paulinho Farias, de 1984, de autor desconhecido, fala de Jair Mendes como “um homem introvertido, cuja humildade chega às vezes até a irritar seus próprios amigos. Mas ele é mais do que isso: os efeitos especiais que ele faz para as alegorias são indescritíveis. Este ano apresentou a lenda do boto, representou o por do sol com chuvas e trovoadas, além do pescador tarrafeando, numa sequência de movimentos de arte fantástica que só o Festival de Parintins oferece.”

O mestre Jair Mendes sabe bem de sua importância para o crescimento exponencial do festival e tem boas lembranças daqueles tempos pioneiros:

– Naquela época tinha um seriado na TV que se chamava “O Homem de Seis Milhões de Dólares”. A série era sobre o ciborgue Steve Austin, interpretado pelo ator Lee Majors, que era chamado de “homem biônico”. Como um boi articulado também era uma novidade jamais vista em Parintins, o povo começou a chamar o Garantido de “boi biônico”, porque ele mexia as orelhas, balançava a cabeça e o rabo, comia capim, pintava e bordava. A partir daí eu comecei a introduzir coisas novas nas apresentações do boi. A primeira alegoria com movimentos foi feita em 1979 e representava a Iara, a Mãe-D’água, com a participação da minha filha. Cada vez mais eu ia encaixando estas coisas, figuras engraçadas, lendas indígenas, cobra grande, bicho folharal, negrinho do campo grande, que hoje não tem mais, então cada ano era uma inovação e eu era o único artista que fazia estas coisas em Parintins, de dar movimentos quases reais às alegorias. O boi Caprichoso só começou a se mexer em 1986 porque, aproveitando um desentendimento com a diretoria do Garantido, eu fui para o Caprichoso. Foi aí que o boi passou a se mexer também. Quando saí do Garantido, deixei lá o Vandir, que era meu ajudante, que ficou tomando conta do Garantido. No boi Caprichoso, quem me ajudava era o Juarez Lima. Hoje, nos dois bois, quem não foi meu discípulo foi discípulo do meu discípulo. Você vê que naquela época não tinha artista, só era eu, e hoje Parintins está empestada de artistas. Hoje nós somos referência no Brasil, fazemos o carnaval do Rio de Janeiro, São Paulo, Manaus, as cirandas de Manacapuru, os peixes ornamentais de Barcelos, os botos de Alter do Chão, conquistamos nosso espaço e tudo graças a este festival de Parintins.


N. R.: O mestre Jair Mendes faleceu no dia 15 de março de 2025, no Hospital Delphina Aziz, em Manaus, onde estava internado há alguns dias. Ele tinha 82 anos e era diabético.

Em reconhecimento ao seu legado, o Boi Garantido inaugurou, em abril de 2023, o “Espaço Mestre Jair Mendes” no curral Lindolfo Monteverde, homenageando sua trajetória e influência na cultura parintinense.

Jair também dá seu nome à Medalha do Mérito Cultural na cidade de Parintins.

Em 2023 foi homenageado pelo bumbá vermelho e branco durante a apresentação do tema “Garantido por toda vida”.

O atual prefeito de Parintins, Mateus Assayag, prestou homenagem ao artista em sua rede social.

“Seu legado permanecerá vivo na história e no coração de todos que celebram e valorizam a cultura amazônica, especialmente entre nossos artistas parintinenses”, afirmou Assayag.

quinta-feira, outubro 15, 2026

A carnavalização antropofágica dos bumbás de Parintins

 


O escritor e poeta paraense João de Jesus Paes Loureiro, no ensaio “Tradição, Tradução, Transparência” (Revista de Estudos Amazônicos, Ano II, Nº 2, Manaus, 2002), diz que o boi de Parintins incorporou os elementos da estética do carnaval:

É um boi que chamo de carnavalizado e que, ao mesmo tempo, assumiu o processo que, na literatura, depois de Oswald de Andrade, passou a se chamar de antropofagia. Trata-se, portanto, de uma manifestação de arte pública antropofágica carnavalizada.

Antropofágica na medida em que se alimentou e se alimenta das influências do carnaval e da mídia. Carnavalizada, porque se exibe portando aspectos semiológicos, simbólicos e plásticos que são próprios do carnaval.

Mário de Andrade, que viajou até nossa região no começo do século, disse, passando pela frente de Parintins, que era extraordinário ver como tudo se enchia de entes, de deuses, de seres indescritíveis por detrás. Sobretudo se, no longe em frente, havia uma volta de rio.

Ele soube captar muito bem essa qualidade de infinitude, de sobrenaturalidade que a paisagem dos rios amazônicos contém. E é claro que isso está incorporado na paisagem cultural de cada habitante da região.

Não são apenas as pessoas das metrópoles que têm uma paisagem cultural incorporada em sua alma, mas o caboclo da beira do rio, o trabalhador do campo e o homem da floresta também.

Evidentemente, as pessoas de Parintins incorporaram na paisagem de sua alma esse desejo de infinitude. Daí o boi ter assumido grandiosidade, como se fosse uma prosopopéia, isto é, algo imenso, maior aparentemente do que a própria cidade. Algo que é desmesuradamente maior do que si mesmo.

O enredo tradicional do boi-bumbá pode ser enunciado da seguinte forma: o fazendeiro tem um boi e a Catirina deseja esse boi; o marido de Catirina, o Pai Francisco, resolve buscar o boi ou então matá-lo para que ela possa comê-lo, mas apenas fere o boi; ele é descoberto, o patrão tenta puni-lo; a partir daí o Pai Francisco é obrigado a tomar todas as providências para fazer o boi ressuscitar; vai buscar o médico, que nunca o ressuscita e é sempre o pajé que, no final, o consegue.

Esse enredo possui a circularidade que o aproxima da narrativa mítica: o boi tradicional se exibe na arena, gira em torno da plasticidade de seus elementos cênicos; não apresenta uma continuidade horizontal, mas uma circularidade que aprofunda a história através das toadas cantadas de improviso pelo dono do boi, o patrão.

O Boi-de-Parintins, por sua vez, transformou a circularidade mítica numa continuidade discursiva e narrativa moderna dos grandes espetáculos, especificamente do grande espetáculo que é o carnaval e, por isso, desfila ao longo de uma platéia fascinada por ele.

Todo mundo sabe o que vai acontecer, de modo que a estrutura dramática do boi não é o interesse pelo que vai acontecer, mas como vai acontecer aquilo que se sabe que vai acontecer.

O genial é que, à semelhança dos entreatos da comédia dell’arte, do teatro tradicional ou dos carros alegóricos nos desfiles de carnaval, foram criados personagens, originais carros alegóricos, grupos de alegorias, que vão se interpolando às cenas que narram essa pequena história do boi.

Como cada desfile de boi dura três horas, é claro que, para manter o interesse de uma platéia de mais de 35 mil pessoas, é necessário recheá-lo de novidades, de atrações, de brilho, de surpresas, para que a platéia possa manter-se acompanhando a apresentação.

Temos, portanto, que o Boi-de-Parintins é um boi antropofágico, que se alimenta da influência de outras expressões culturais, incorporando-as à sua substância, e a o mesmo tempo carnavalizado, porque juntou a tradição do boi-bumbá à forma de exibição destinada ao grande público para o qual se propõe.

Muitas expressões da arte popular repetem uma mesma forma de apresentação porque não têm acesso a novos materiais ou técnicas, por motivos de ordem econômico-social ou de informação.

Mas o Boi-de-Parintins, quando teve acesso a novas técnicas, a modernos equipamentos de som, a um espaço enorme para se exibir, à grandiosidade do espaço cênico, evidentemente transformou-se para s e ajustar a essa nova possibilidade de expressão.

Um dos antigos organizadores desse boi me disse: “Olha, quando começamos esse boi, iluminávamos a cena com lamparina, que é esse pequeno farolzinho que você acende e fica ali tocado pelo vento. Era uma plataforma pequena, pouca gente. À medida que o espaço foi crescendo, a iluminação melhorou e surgiram novas possibilidades, fomos criando e estabelecendo novas formas de expressão de acordo com tudo isso”.

As palavras não foram bem essas e nessa ordem, mas traduzem o que ele pretendia dizer-me. Isso significa que, na verdade, temos uma arte pública extraordinária, agora se expandindo em comunicação com outras culturas, e que, através de materiais e técnicas, a população ribeirinha teve a possibilidade de ampliar largamente a sua criatividade.

quarta-feira, outubro 14, 2026

Aura de guerreiro, alma de artista

 


No livro “Boi-Bumbá: Festas, Andanças, Luz e Pajelanças”, o engenheiro civil parintinense Simão Assayag, escritor, compositor, ex-diretor de arte do bumbá Caprichoso e pesquisador apaixonado dos costumes de sua gente, mostra que a festa dos bumbás é um dabacuri de nativos locais e visitantes, que nivelam-se, social e espiritualmente, numa harmonia abençoada por Tupãs de todos os credos.

Vale a pena ler de novo o que ele escreveu no capítulo “Aura de guerreiro, alma de artista”:

– Capacete de tuxaua? Por que capacete? Capacete é coisa de soldado, cocar sim, é enfeite de índio – diz o incauto visitante.

– Olha aqui, meu amigo. O boi-bumbá de Parintins tem suas peculiaridades, sua própria história, sua ginga. Não é carnaval, “axé”, nem tampouco maracatu. Não é reunião de tribos autênticas nem de grupos folclóricos estáticos. Não é artificial nem encomendado. Tem raízes profundas na cultura do seu povo, mas tem, também, o verde da copa das lombringueiras que não param de crescer. Copas que de repente já não são mais verdes, nem amarelas, nem ocres, mas trazem o efêmero lilás da flor perfumando o campo. Lilás que se formou dos pigmentos azul, branco e vermelho, na mistura das nações Caprichoso e Garantido.

O nosso folclore tem os pés fincados na tradição, mas tem também as mãos livres para criar e inventar. Respeita os mitos, mas sai em busca de novas aventuras. Pesquisa lendas, mas encontra técnicas e estilos diferentes. É um navegador em busca de outras dimensões. Não é um toco morto, fincado até o meio, como querem alguns puristas.

É algo como a matéria em sua ínfima constituição. É o átomo com seu núcleo segurando a estrutura da linhagem, enquanto partículas soltas vão em busca de formas e combinações diferentes. É como o ser humano que traz em si o próprio código genético, mas sai pelo mundo, moldando sua personalidade na forja da vida.

Quem quiser documentar uma verdadeira dança de índio, não venha a Parintins em fins de junho. Arrume um “motorzinho”, um bom estoque de repelente, “engrene” com a Funai ou com alguma missão religiosa e boa viagem. Vá até o alto Andirá assistir à festa da tucandeira dos Saterê, no mês de maio. Pode, também, chegar ao vale do rio Javari, na aldeia dos Mati (ou Matiçã), e até descobrir o mistério dos dentes de macaco perfurados com broto de bananeira, por onde atravessa o fio de tucum, no fabrico de extravagantes colares. Pode, ainda, conhecer in loco o artesanato colorido e criativo dos Way-Way, na região situada entre as Guianas e os estados do Pará, Amazonas e Roraima. Até mesmo, quem sabe, ir à aldeia dos Wanana (ou Koytiria), conhecer as duas enchentes anuais do rio Uaupés, local onde mais chove na Amazônia. Tudo isso é belo, mas infelizmente nada disso acontece em Parintins, muito menos durante a quadra junina.

Se alguém quiser assistir à congada, tudo bem! Tem em quase todo o Brasil. A festa do reisado, em janeiro, acontece nas Alagoas. Vá ao Paraná, e a Bragança, no Pará, ver o auto da marujada ou os caboclinhos, no Recife, em pleno carnaval. Assista às cheganças e dance ciranda no Nordeste. Se optar pelo bumba-meu-boi, muito original, vá ao Maranhão. E boa sorte! Mas se quiser emoção, paixão, tesão, se quiser sentir-se criança, tornar-se igual aos seus iguais e ser gente novamente, então, venha até nós, nesta ilha paradisíaca de Parintins. Venha assistir à festa do boi-bumbá e sentir a energia que emana do Bumbódromo superlotado. Mas segure-se, você pode levitar…

Tem mais, você que tem conhecimento de pecuarista/extensionista, não procure raça na figura do nosso boi, por favor! Nem o agrupe em espécies e gêneros animais. Veja lá: ele tem chifres de Guzerá, orelhas do Indubrasil, mochila de Nelore, mas nem por isso é algum Frankenstein da engenharia genética. Ele tem a graça do Holandês e, com a valentia do Miúra, faz a arena tremer e a multidão delirar. Não tem olé, olé, olé, mas canta auê, auê, auê. Tudo é fantasia, gente!

Nosso boi-bumbá é colorido, é alegre e “pro alto”, é puro e tem muita luz. Aliás, é como a própria luz que, na essência, ora promana em partículas, ora em ondas eletromagnéticas, que se transformam de maneira contínua e aleatória a cada instante. Nossa festa é viva, porque surgiu da vida de nosso ancestral indígena. É atual, porque é dinâmica. É vibrante, porque é dual. É equilibrada, porque resiste. E existe, porque é equilibrada.

– Mas, e o capacete? Por que capacete, se este é algo frio, sombrio, que lembra guerra e porrada, enquanto os índios do Bumbódromo são bonitos, pacíficos e alegres? Por que capacete, se suas vestes de penas e figuras coloridas são gigantescas e mágicas?

– Bolas, esta foi a forma como o artista viu algo de arredondado em torno da cabeça nua do índio equatorial da planície; foi aquela luz brilhante, aquela superposição de cores que envolvia sua silhueta; foi aquele halo, que as imagens dos santos católicos trazem flutuando sobre si, e que as revistinhas infantis chamam de auréola. Foi na falta de palavra mais apropriada que o artista, rústico, porém iluminado, ao perceber tal miragem iridescente, despretensiosamente chamou de capacete, pô!

Capacete de boi-bumbá é mais que cocar de chefe da tribo. É a aura do índio guerreiro, é competição. É a expressão viva da alma do tuxaua, é transpiração. É o gênio criativo do artista, é inspiração.

sábado, outubro 10, 2026

A exuberância ancestral dos Tuxauas

 


Um dos itens mais aguardados pelas duas galeras são as apresentações dos Tuxauas (mais conhecidos como “capacetes”) em momentos diferentes do espetáculo, de acordo com o enredo.

Os Tuxauas são verdadeiras esculturas humanas, “vestidos” em fantasias extremamente criativas de até três metros de altura por dois metros de largura, com cada “cangalha” pesando em torno de 40 quilos.

Por conta disso, eles pouco se movimentam na arena, mas cada um deles é quase um espetáculo psicodélico visual de tanta policromia existente nas fantasias.

Na primeira vez que viu os “capacetes” na arena, ao vivo e a cores, o carnavalesco Joãosinho Trinta foi à loucura. “Comparado com esses tuxauas, as fantasias de luxo do Clóvis Bornay eram roupas de normalista do Colégio Sagrado Coração de Maria”, alfinetou o carnavalesco.


A entrada dos Tuxauas na arena é vista com muito respeito e emoção, já que supostamente trazem consigo o espírito ancestral dos primeiros habitantes da região e expressam a força e a valentia dos morubixabas, os grandes chefes das diversas tribos indígenas, muitas das quais já foram extintas. Os Tuxauas são chefes político-administrativos, diferentes dos Pajés, que são chefes espirituais.

No auto original, a presença dos índios é quase irrelevante. Eles são chamados pelo Diretor dos Índios (uma crítica velada ao “Diretório dos Índios”, a lei implantada pelo Marquês de Pombal, na Amazônia, em 1758, cujo principal objetivo era levar as populações indígenas a realizar a transição para a vida civil, de preferência produzindo gêneros voltados ao comércio) para ajudarem os vaqueiros a prender Pai Francisco, que se achava entrincheirado em um outeiro.

O dono da fazenda chama um padre para batizar os índios e transformá-los em “cabocos cristãos”. O padre, completamente de porre, começa a cantar: “Batizo os caboco / ao som do tambor / se forem à guerra / com Nosso Senhor / batizo os caboco / ao som da viola / se forem à guerra / com Nossa Senhora / batizo os caboco / ao som da rabeca / se forem à guerra / por lá levem a breca / Sou Padre, sou Padre / mas não coroado / levanta caboco / já está batizado / Sou Padre, sou Padre / de Jerusalém / levanta caboco / pra sempre amém”.

Os índios “batizados” se juntam aos vaqueiros, prendem Pai Francisco, o entregam ao dono da fazenda e saem de cena.

Em Parintins, quem começou a se destacar visualmente como Tuxaua do boi Caprichoso foi José Monteiro de Souza, conhecido popularmente como “Zeca Xibelão”, primo dos radialistas Rubem e Marcos Santos.

Até então, os Tuxauas parintinenses se fantasiavam como os índios dos filmes de faroeste: calça e coletes com franjas de tecido, mocassim e cocar típico, com caimento ao longo das costas.

As tribos indígenas eram conhecidas como “tribos de Tontos”, em alusão ao índio comanche chamado Tonto, companheiro de aventuras do mascarado Zorro (“Lone Ranger”, no original), presentes nas HQs publicadas pela Ebal e nos filmes exibidos na cidade.


O tuxaua Zeca Xibelão, que hoje nomei o curral do bumbá Caprichoso

Ainda nos anos 50 e já um artesão de mão cheia, Zeca Xibelão substituiu as franjas de tecido por penas de pássaros e aumentou exponencialmente o tamanho do cocar, o transformando em uma escultura gigantesca presa à cabeça.

Para a população começar a chamar aquilo de “capacete” foi conta de multiplicar. Os Tuxauas do “contrário” logo aderiram à invenção.

Trabalhando praticamente sozinho na confecção de sua fantasia, Zeca Xibelão enfrentava galhardamente os Tuxauas do Garantido desde o início do festival, em 1965, não tendo sido derrotado uma única vez.

Entre outras bossas, ele inventou um jeito novo de bailar em que o pé baixava no contra-ritmo do surdo de marcação, levando a galera à loucura.

Em meados de 1980, o mestre Jair Mendes começou a fazer grandes capacetes no Garantido para equilibrar a disputa entre os Tuxauas, mas nem assim conseguiu quebrar a hegemonia de Zeca Xibelão.

No máximo, os Tuxauas do touro branco empatavam com ele, nenhum conseguiu derrota-lo.

O tuxaua Zeca Xibelão na quadra do Urubuzal, na década de 1970

O “capacete” de Zeca Xibelão era uma obra de arte, mas apenas para quem estava observando a 20 metros de distância.

No Bumbódromo, entretanto, ele fatalmente desapareceria.

Em 1986, Jair Mendes bandeou-se para o Caprichoso. O novo alegorista do Garantido ficou sendo Vandir Santos, ex-assistente de Jair Mendes.

Também considerado um artista plástico excepcional, Vandir Santos passou dois anos tentando descobrir uma maneira de derrotar Zeca Xibelão até que um dia teve o seu “estalo de Vieira”: construir imensas alegorias, que “vestiriam” os Tuxauas do Garantido de uma forma nunca antes vista em Parintins.

Não deu tempo para ver se essa nova estratégia iria dar certo.

O campeoníssimo Zeca Xibelão faleceu em 1988, no ano de inauguração do Bumbódromo, e foi homenageado no ano seguinte com uma toada de J. Carlos Portilho: “O primeiro tuxaua partiu / num capacete alado subiu / foi para o céu todo azul / juntar-se aos seus ancestrais / fumar cachimbo da paz / com nosso Deus criador / Minha galera chorou / mas vai enxugar o seu pranto / na camisa azul e branca / no capacete espelhado / no passo cadenciado / que Xibelão ensinou”.

O artista plástico Ito Teixeira

Também em 1988, as “tribos de Tontos” ainda remanescentes começaram a dar lugar de vez às tribos amazônicas tradicionais por iniciativa de um artista do Garantido, Ito Teixeira, que depois migraria para o Caprichoso.

Foi Ito Teixeira o primeiro a apresentar o esboço de um ritual indígena, que dos anos 90 em diante se tornaria o ponto alto do festival.

Ele disse que se inspirou nos “sacrifícios” comandados por índios selvagens e exibidos nos filmes de Tarzan, Bonanza e Jim das Selvas. É ele que conta:

– A primeira apresentação do ritual foi em 1983. Ela começou com uma encenação que incluía apenas uma moça a ser sacrificada e a minha tribo, a tribo dos Carajás, que já era inspirada nos índios do Xingu. Nós colocamos a menina em meio de um círculo de fogo e dançamos em volta com umas tochas acesas.

Esse círculo no centro da arena combinado com a fumaça negra que saía das tochas e com os índios gritando em volta, deu um efeito bastante interessante, que repercutiu positivamente entre os torcedores do Garantido.

Daí por diante eu comecei a fazer apresentações muito parecidas com essa, mas já envolvendo várias tribos e sempre utilizando fogo e fumaça para criar novos efeitos na arena.

Em 1988, eu tive a ideia de colocar umas rampas na arena do bumbódromo em que os índios iriam subir e descer, subir e descer, criando um efeito visual muito bonito.

Depois, quando eu fui para o Caprichoso, eu criei um cenário para as apresentações de rituais, colocando um tablado em que foi colocado o pajé, que nessa primeira vez foi o Waldir Santana.

Eu convenci o Waldir a dançar como pajé, pois os pajés dos bois eram muito estáticos, pareciam os tuxauas, e eu entendia que o pajé tinha que ser dançarino, fazer movimentos acrobáticos. E depois que eu defini essa movimentação alegórica, criei os tablados, os índios lá no meio e o fogo em volta, com o pajé dançando no centro, isso foi praticamente o marco dessa apresentação coletiva que configurou o ritual dos dias de hoje.

O ritual começou em função disso com a apresentação da tribo dos Carajás e depois unindo várias tribos e a cada ano fazendo as apresentações diferentes, no solo, no tablado de madeira e posteriormente com as alegorias que começamos a fazer, aí virou um fato novo. Foi o ritual que começou a dar dimensão gigante às alegorias e à quantidade de módulos na arena.

 O Garantido deu início ao ritual, era uma apresentação que só o Garantido fazia. Como não era item de julgamento, mas fortalecia a apresentação, o Caprichoso percebeu que estava levando desvantagem e então aderiu ao ritual.

Depois que o Caprichoso começou a fazer o ritual, durante uma das reuniões que ocorreram na antiga tribuna, que era discussão do novo regulamento, eu chamei o Simão Assayag e o Karu Carvalho e sugeri que, como já estava consolidado, o ritual passasse a ser item de competição e assim foi feito.

Eu também tive a ideia de usar velas na arquibancada e apagar as luzes, esse foi um outro marco na história do festival, uma maneira diferente de apresentar o boi, as alegorias começaram a vir com luzes, a galera com luzes nas mãos, até se transformar nessa ópera a céu aberto com efeitos de luz cênica cada vez mais profissional.

sexta-feira, outubro 09, 2026

Uma ópera popular a céu aberto

 


O espetáculo se abre com a entrada em cena do Apresentador, seguido pelo Levantador de Toadas e pelo agrupamento de percussão (Marujada de Guerra ou Batucada), e se encerra após a encenação do ritual. Fora isso, não há ordem fixa de encadeamento para o aparecimento dos diversos personagens e suas diferentes encenações.

Os personagens individuais, como Cunhã-Poranga, Sinhazinha da Fazenda, Boi-Bumbá, Rainha do Folclore, Pajé e Tuxauas são geralmente trazidos encarapitados em alegorias. Seu aparecimento é saudado com fogos de artifício e efeitos especiais, acompanhados por toadas específicas.

Alguns elementos, como os maravilhosos Tuxauas (chefes indígenas cujas fantasias são pequenas alegorias), adentram a cena, exibem-se e logo saem. A maior parte, contudo, permanece no local, em especial as Tribos masculinas e femininas que, com seu bailado coreografado, enchem gradualmente a arena até a plenitude.

Acontece então o ritual, principal momento da aparição do Pajé, e culminância de cada apresentação. Depois disso, o boi começa a sair da arena numa movimentação sempre circular.


Na performance, há um núcleo de sentido definido, associado ao tema da morte e da ressurreição do boi. Esse núcleo agrega-se em torno dos personagens cuja atuação acompanha a aparição do boi na arena.

O boi-bumbá, animado pelo “tripa” (quem entra dentro da carcaça do boi e desenvolve o bailado cheio de gingas e efeitos especiais), traz sempre consigo o Amo do Boi, a Sinhazinha da Fazenda, a Vaqueirada, Cazumbá, Pai Francisco e Mãe Catirina.

No entanto, os personagens indígenas relacionados ao auto original foram, aos poucos, dele se destacando e ganhando crescente importância no Festival de Parintins. É o caso da Cunhã-Poranga, dos Tuxauas, do Pajé, das Tribos femininas e masculinas, e de um novo quadro cênico, o ritual. A temática das toadas acompanhou esse processo.

Uma toada de 1992 falava do índio como “o humilde parceiro do boi”. Essa formulação não teria lugar nos dias de hoje, quando se destacam as toadas com motivos indígenas.

Ao longo da década de 1990, a ênfase gradual, porém decidida e consciente, nos elementos indígenas da trama, configurou um novo universo simbólico. Emergiu, desse modo, um novo nativismo no Boi-Bumbá de Parintins.


Ligado ao espetáculo por fortes laços, esse novo universo corresponde a um deslocamento importante. Pois o tema da morte e ressurreição, desenfatizado no conjunto do boi, como que para aí migrou.

O aspecto burlesco do folguedo é preservado em Parintins sobretudo no seio do conjunto do boi, especialmente pelos bufões Pai Francisco, Mãe Catirina e Cazumbá. O nativismo dos bumbás sobrepôs-se, entretanto, a essa abordagem cômica, como um canto trágico em louvor dos “que foram outrora os donos das terras”.

O bumbá de Parintins é, sob esse aspecto, um espetáculo ímpar. Mistura a alegria da festa à celebração emocionada da consciência da destruição de muitos povos indígenas amazônicos, afirmando, ao mesmo tempo, o valor positivo de uma identidade cabocla.

Ora, essa ênfase nativista trouxe no seu bojo uma nova abordagem do tema anual que é atualmente um grande diferenciador de estilo dos bois.

Aqui um ponto importante. É verdade que, com relação ao tratamento do tema, o Garantido faz a defesa da “tradição” e o Caprichoso assume o discurso da “inovação”. Seria, contudo, enganador alinhar a história de um boi numa direção e a do outro, na outra.

Estamos diante de uma fase particular da história dos bumbás. Em outras épocas, essas posições já estiveram invertidas. No contexto da festa, moderno e tradicional são, sobretudo, sinais de diferenciação. Designam aspectos de um processo em que a estabilização de novos padrões estéticos requer também a construção de diferenças de estilo.


O boi Garantido vem afirmando assim a sua liberdade com relação ao tratamento do tema. Em sua visão, “as pessoas têm que entender que não é uma falha, é uma característica dos bois não seguir enredos como escolas de samba”. Ou ainda: “queremos brincar de boi, não existe compromisso com tema, mas com as toadas e as figuras folclóricas. O boi-bumbá não tem preocupação com a sequência. Nossa apresentação é uma ideia livre, sem a sequência de três atos, mas que tem uma justificativa dentro do contexto do boi”, explicou Emília Faria, diretora de Arte do Garantido, ao jornal A Crítica, em julho de 1997.

O boi Caprichoso, por sua vez, vem inovando justamente na direção de uma concepção mais unitária das três apresentações. O diretor de arte Simão Assayag redigiu elaborado libreto para a apresentação de 1996, marcando a tendência com a proposta da “ópera popular cabocla”.

Entre os dois estilos, há um nítido ponto em comum: a ênfase ritual nos componentes indígenas da apresentação. O caráter amalgamado e maleável do bumbá, marcante desde suas primeiras descrições, revela-se nessa nova eleição em sua plenitude.

O boi-bumbá de Parintins é um novo e fascinante capítulo da longa história do folguedo no país. Emerge como um moderno movimento nativista que elegeu imagens indígenas como metáforas para a afirmação de uma identidade regional cabocla. Um poderoso processo ritual, através do qual a pequena cidade, e com ela toda a região Norte, como que aspira – e tem conseguido com razoável sucesso – comunicar-se com o país e com o mundo.