O cantor e compositor José Carlos Portilho, o “Periquito”, começou a escrever poemas em 1965, quando tinha 12 anos. Aos 14 anos, começou a tocar violão e estudar canto orfeônico com as freiras italianas do Colégio N. S. do Carmo. Aos 16 anos, já disputava o 1º Festival da Canção de Parintins, em 1969, obtendo um honroso 2º lugar, com letra e música de sua autoria (“Quem Somos Nós?”).
Aos 17 anos, arrancava suspiros das adolescentes
parintinenses, fosse imitando seu ídolo musical, Gianni Morandi, fosse
mostrando suas próprias músicas, durante apresentações no Teatro da Paz ou em
arraiais, quermesses e programas radiofônicos da cidade.
Nos anos 80, se transformou em figura carimbada nos
festivais de música de Parintins, Óbidos, Santarém e Manaus, quase sempre
disputando o primeiro lugar com seus amigos e conterrâneos, os também cantores
e compositores Emerson Maia, Tony Medeiros e Paulinho Du Sagrado. Ao longo de
sua carreira, ele escreveu mais de 350 composições musicais, incluindo 107
toadas para o boi Caprichoso.
Formado em Letras pela UERJ, com especialização em
Administração Pública pela USP, J. Carlos Portilho era funcionário de carreira
do Banco do Brasil e não tinha qualquer afinidade com os bumbás de Parintins.
Sua praia era a MPB, de Chico Buarque, Milton Nascimento e Quinteto Violado, e
a poesia de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo
Neto.
Por isso, no início de 1983, ele recebeu com surpresa um
convite de seus colegas bancários – Geraldo Medeiros, Tico, Carlos Dorvan,
Acinelson e Norma Medeiros – para ser compositor do boi Caprichoso. A causa era
nobre: o principal compositor do touro negro, Raimundinho Dutra, estava de
mudança definitiva para Manaus. O repertório do touro negro estava muito
repetitivo porque se limitava às toadas feitas por Raimundinho Dutra e outros
compositores da velha guarda do Caprichoso. A torcida azul e branca queria
novidades. Make it new.
Aos 30 anos, J. Carlos Portilho resolveu encarar a missão
com afinco e denodo. Primeiro, ele quis testar até onde iria a sua (dele)
liberdade de criação. O Brasil estava convulsionado pela emenda Dante de
Oliveira pedindo eleições diretas para presidente e ele fez uma toada nesse
diapasão: “Alô meu povo quer votar pra presidente desta nação brasileira, /
diretas já minha gente, votando pra presidente, / hoje eu me sinto orgulhoso em
ser Caprichoso / quem viver verá que este é meu canto de guerra / desfraldando
o azul e branco do campeão desta terra”. Mesmo em plena ditadura militar, a
toada foi aprovada.
Até aquela data, as toadas dos dois bois eram exclusivamente
percussivas. O compositor J. Carlos Portilho introduziu o violão e o cavaquinho
no acompanhamento das novas toadas do Caprichoso para dar uma camada mais
melódica às composições.
Para muita gente, aquilo soou como um anátema, uma
desvirtuação das toadas feitas pelos antigos mestres (Ambrósio, Zazá, Horácio,
Pitombeira, Vavazinho, Nilo Gama, Raimundinho Dutra, Nelsinho Bulcão, etc). A
diretoria do Caprichoso aprovou a inovação. O “contrário” torceu o nariz.
Na sequência, J. Carlos Portilho criou um grupo musical,
“Sangue Azul”, para gravar as músicas em fitas K7 e colocar na Rádio Alvorada
para tocar, já que até então não eram feitos registros musicais das toadas. As
músicas eram gravadas na própria residência do compositor da forma mais amadora
possível. O equipamento era um aparelho 3 em 1 da Gradiente com apenas um
microfone de entrada. Os oito músicos se posicionavam em torno do microfone e
metiam a mão na massa.
Antes mesmo que a gravação fosse concluída, já havia na
frente da casa alguns torcedores do Caprichoso montados em motocicleta –
Afrânio Gonçalves, Henrique Medeiros, Márcia Baranda, Marta Medeiros – para
pegar a fita no sistema vapt-vupt e levar para a Rádio Alvorada. A diretoria do
Caprichoso aprovou a novidade. O “contrário” torceu o nariz.
Consciente de que seria incapaz de montar sozinho um novo
repertório para o diamante negro, J. Carlos Portilho começou a frequentar os
programas radiofônicos da cidade para exortar os compositores a mostrarem suas
músicas no curral do Caprichoso, que era uma oportunidade única de vê-las sendo
cantadas pela galera azul e branca durante o festival.
Entre os compositores que atenderam ao chamamento estavam
Geraldo Brasil, Carlos Magno (mais conhecido como “Carlos Pato”), Neil
Armstrong, Franco Costa, Carlos Paulain, Heliomar Conceição, Sales Santos, Hugo
Levy, Lélio Lauria, Ariosto Braga e Jovelino Silva, entre outros.
Em 1984, J. Carlos Portilho soube que o boi Caprichoso havia
feito uma apresentação em Maués que tinha sido um verdadeiro vexame – 80% da
população da cidade torcia pelo Garantido.
Para tentar reverter a situação, o compositor fez a toada
“Maués, Terra Encantada”, em que a temática indígena foi incluída pela primeira
vez em uma composição: “Maués / mostra a cultura de um povo / que tens e que és
/ Pedaço de chão brasileiro / Terra de índios guerreiros / Sateré-Mawé /
Cerêçaporanga que um dia / dos olhos negros nascia / a lenda do guaraná”. A
música fez um sucesso estrondoso no festival de Parintins e em Maués,
reequilibrando a divisão entre torcedores de Garantido e Caprichoso na terra do
guaraná.
Em 1985, também perplexo com o falecimento prematuro do
presidente Tancredo Neves, J. Carlos Portilho fez uma pungente toada sobre o
infausto acontecimento intitulada “Liberdade: um canto azul e branco”: “Partiu
/ na certeza de quem cumpriu / Liberdade pro meu Brasil / Tancredo foste herói
nacional / deixaste / um legado de paz e amor / que a todos conciliou /
morreste / e ficou um sentimento civil / lutaste por causa tão nobre / no
norte, no leste e no sul / recebe a homenagem do povo de azul / e hoje brilhas
no infinito / reluz o Cruzeiro do Sul / recebe os aplausos do povo de azul”.
A emoção tomou conta da arena, com milhares de torcedores
indo às lágrimas. A toada rendeu uma comenda de Honra ao Mérito dada ao
compositor no Congresso Nacional, por D. Risoleta Neves, viúva de Tancredo.
No mesmo ano, o jornalista e músico Fred Góes retornou a
Parintins depois de uma bem-sucedida carreira musical no sul do país e assumiu
a direção musical do boi Garantido. Na mesma época, Paulinho Du Sagrado e Tony
Medeiros haviam criado o grupo Ajuri, nos moldes do grupo Sangue Azul, mas para
acompanha-los como banda de apoio nos festivais de música.
Por sugestão de Fred Goés, Paulinho Faria recrutou alguns
músicos talentosos e criou o Regional Vermelho e Branco, para dar suporte
melódico às toadas do Garantido e também para gravarem as toadas em fita K7,
tal como o Caprichoso já vinha fazendo há dois anos.
Em 1986, J. Carlos Portilho comprou uma chácara à beira do
Lago Macurany, que passou a ser o estúdio improvisado para a gravação das agora
já famosas fitas K7. O grupo Sangue Azul nunca teve uma formação fixa, mas
sempre contou com algumas peças chaves: Portilho, Rey Azevedo e Franco Costa
nos vocais principais, Geraldo Brasil e Neil Armstrong no violão, Mauro Mendes
no cavaquinho e alguns batuqueiros escolhidos a dedo na Marujada de Guerra para
fazer a cozinha rítmica.
Nesse ano, Portilho e Carlos Pato compuseram “Vaquejada”,
considerada um dos hinos do festival: “Este ano eu vou / erguer minha bandeira
/ este ano eu vou / erguer minha bandeira / Eu vou tu vais / Eu vou eu vou / Eu
vou tu vais / Eu vou eu vou / Reunir meus vaqueiros / pra tocar a boiada /
convidei a morena / pra ver de pertinho a minha vaqueirada / Vem ouvir urro
forte / que vem lá norte / pode preparar / é meu boi Caprichoso / alegria do
povo que esta pra chegar”. De quebra, durante a apresentação da toada na arena,
introduziram a primeira “paradinha” na história do festival, executada com
maestria pela Marujada de Guerra.
Em 1987, J. Carlos Portilho ficou abespinhado quando viu um
moleque de 18 anos, deficiente visual, cantando verdadeira pérolas da MPB com
uma voz firme, melodiosa e afinada, em um dos bares de Parintins. Ele não
sossegou o facho enquanto não convenceu o rapaz, chamado David Assayag Neto, a
ser a voz principal do grupo Sangue Azul e a tomar parte na família azul e
branca.
Por essa época, o vocalista Franco Costa já estava pensando
em deixar o grupo e também abandonar de vez a função de levantador oficial do
boi Caprichoso. No papel de diretor musical do touro negro e selecionador
oficial das toadas que seriam cantadas na arena, Portilho não pretendia deixar
a peteca cair. A bela voz de David Assayag começou a ser ouvida na Rádio
Alvorada pela primeira vez a partir das fitas K7 daquele ano.
Em 1988, os músicos do Sangue Azul estavam reunidos na
chácara de J. Carlos Portilho para gravar as músicas daquele ano quando surgiu
no local o violonista Sílvio Fernando (apelidado por Portilho de “Sílvio
Camaleão”) tocando “Guantanamera” em um instrumento parecido com um cavaquinho.
Impactado pela sonoridade estranha do instrumento, Portilho quis saber do que
se tratava.
– É um charango boliviano do Fred Góes. Estou tomando lições
dele para aprender a tocar o bicho! – explicou Camaleão.
– Pois então aprende logo, mas não fala nada pra ninguém,
que nós vamos substituir o cavaquinho pelo charango nas toadas do Caprichoso! –
avisou Portilho. – A sonoridade dele permite uma modulação sonora quase
impossível de ser alcançada pelo cavaquinho…
Dito e feito. Naquele mesmo ano, o charango de Sílvio
Camaleão era ouvido pela primeira vez na inauguração do Bumbódromo. A saraivada
de críticas que o diretor musical do Caprichoso recebeu não estava no gibi.
Muitos puristas atribuíram a derrota do Caprichoso naquele ano à introdução do
instrumento alienígena na estrutura musical do dois-pra-lá-dois-pra-cá. A mídia
só faltou crucificar o compositor. Não adiantou muita coisa. Dois anos depois,
o “contrário” também introduzia o charango na brincadeira, que hoje é
praticamente obrigatório.
Em 1989, J. Carlos Portilho estava saboreando um “galeto de
arraial”, durante uma quermesse na Praça da Igreja Sagrado Coração de Jesus,
quando ouviu um moleque de 21 anos cantando “Morena Tropicana”, de Alceu
Valença.
O levantador de toadas Franco Costa já havia avisado que não
entraria na arena naquele ano. O vocalista David Assayag queria continuar sendo
a voz do grupo Sangue Azul, mas não queria participar do evento na arena.
Portilho não sossegou o facho enquanto não convenceu o
rapaz, chamado Arlindo Júnior, a fazer um teste para ser o novo levantador de
toadas do Caprichoso e tomar parte na família azul e branca. O rapaz disse que
ia conversar com seu pai a respeito.
Naquele ano, J. Carlos Portilho havia decidido gravar um LP
em vinil do touro negro e começou a correr atrás de patrocínio. O grupo Sangue
Azul estava começando as gravações na chácara do compositor quando surgiu
Arlindo Júnior. Ele cantou uma ou duas toadas, mas não quis participar do
disco, que acabou tendo Davi Assayag como voz principal.
Incentivado pelos músicos do Sangue Azul, Arlindo Júnior
começou a frequentar os ensaios no curral do Caprichoso e, naquele mesmo ano,
foi anunciado como novo levantador de toadas do bumbá. Conquistou a nação azul
e branca na hora em que entrou na arena. Passou 15 anos na função. O disco
“Caprichoso Alegria do Povo – Boi-bumbá de Parintins” foi lançado durante o
festival. O “contrário” lançaria seu primeiro LP em vinil no ano seguinte.
Em 1991, o compositor Chico da Silva anunciou que estava
deixando o boi Caprichoso para ser compositor do boi Garantido. Era a primeira
vez que uma estrela de primeira grandeza mudava de time. Logo depois, o
compositor Ronaldo Barbosa abandonou o boi Garantido e foi ser compositor do
boi Caprichoso. Chico da Silva passou 10 anos no Garantido e depois voltou para
o Caprichoso. Ronaldo Barbosa permanece no Caprichoso até hoje.
Em 1994, na véspera da gravação da fita K7 do Caprichoso, J.
Carlos Portilho soube que o grupo Sangue Azul estava fazendo uma série de
apresentações em Belém (PA) e que não conseguiria chegar a tempo para
participar da gravação. Ele convocou novos músicos, rebatizou o grupo de “Canto
da Mata” (sugestão do compositor Ronaldo Barbosa) e conduziu as sessões
musicais na sua chácara.
Foi a última vez que Arlindo Júnior e David Assayag
dividiram os vocais em uma série de toadas do touro negro. No ano seguinte,
Davi Assayag se tornaria levantador de toadas oficial do boi Garantido.
Aquela também foi a última fita K7 do Caprichoso gravada na
chácara de J. Carlos Portilho. Com a eleição do governador Amazonino Mendes
naquele ano, os bumbás de Parintins passariam a receber aportes financeiros do
governo estadual e de empresas multinacionais para profissionalizar o festival
e transformá-lo em um megaevento turístico de categoria mundial. A fase
amadorística dos bumbás havia chegado ao fim.
Também em 1995, com a entrada de Mailzon Mendes, Alex Pontes
e Aluízio Brasil no grupo, o Canto da Mata seria repaginado, adquiriria
personalidade própria e chegaria a gravar seis CDs com composições autorais nos
20 anos seguintes. Antes de entrarem para a banda, Mailzon e os demais
integrantes fizeram parte de grupos de pagode em Parintins e cantaram em
igrejas de Manaus.
Um dos diferenciais do Canto da Mata é a mistura de ritmos
que foram incorporados às toadas. “Fizemos uma linha melódica mais comercial.
Falamos o que acontece no nosso dia a dia, queremos deixar uma mensagem de
positividade nas nossas letras. Essa fórmula deu certo”, afirma Mailzon.
Dançante e com coreografia fácil, o hit “Ritmo Quente” fez o
maior sucesso nas rádios da região Norte em 1997 e é conhecido até hoje.
Mailzon conta que a composição nasceu durante uma viagem de ônibus para o
município de Presidente Figueiredo. “Na época, ainda era Arlindo Jr & Canto
da Mata. O Alex sempre andou com um gravador no bolso e eu também. Do nada,
pintou uma melodia. Na hora, todo mundo começou a cantar uma letra que não
tinha nada a ver com o Ritmo Quente conhecido hoje em dia. Mais tarde, fizemos
a letra definitiva, levamos ao J. Carlos Portilho e ele aprovou. A música
entrou no CD do Caprichoso daquele ano”. O antigo grupo Sangue Azul foi
rebatizado de Regional Azul e Branco e continuou sendo a banda de apoio do
Caprichoso na arena. E nada mais seria como antes.
O compositor J. Carlos Portilho continuou sendo o diretor
musical do touro negro até 2001, quando se aposentou pelo Banco do Brasil e
passou a residir em Manaus. Nesse meio tempo, ele ajudou a introduzir na
brincadeira o baixo elétrico (1993), teclados (1994), violinos (1996), metais
(1997) e continuou sendo um dos compositores de ponta do touro branco. Não é
pouca porcaria.
Infelizmente, o querido J. Carlos Portilho faleceu numa
sexta-feira, dia 16 de abril de 2021, aos 69 anos, em São Paulo. Ele lutava
contra a Covid-19 e as sequelas do vírus desde o dia 24 de fevereiro, quando
foi diagnosticado com a doença. No dia seguinte, viajou para São Paulo e se
internou no hospital São Camilo, onde foi intubado no dia 4 de março. Chegou a
ser extubado no dia 8, mas submeteu-se ao mesmo procedimento três dias depois,
com o agravamento do quadro, vindo a óbito. Continua presente em nossa memória
e nos nossos corações.



















