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sexta-feira, janeiro 17, 2020

A BICA e a hipocrisia que não ousa dizer seu nome



Por Simão Pessoa

Estamos em 2008. O tema da irreverente Banda Independente Confraria do Armando (BICA) é uma crítica bem-humorada à Zona Franca Verde e ao quiproquó causado pelo artigo “Arca de Noé”, do professor universitário Sérgio Freire, em que criticava alguns tipos de professores. Um dos versos da marchinha intitulada “Arca da Lambança” dizia “Caboco não é mais mané / Dudu paga 50 / Pra manter o pau em pé”. Ninguém descontextualizou o verso para fazer ilações de que o governador sofria de disfunção erétil ou pagava de garoto de programa. Sim, os tempos eram outros.

Estamos em 2020. Dessa vez, o tema da irreverente BICA é uma crítica bem-humorada à crescente devastação da floresta amazônica. Aí um imbecil descontextualiza um verso da marchinha “Pirralha faz pirraça” (“A Greta quer ver pau em pé / A BICA abunda, bate forte e bota fé”), posta nas redes sociais e banca o lacrador desmiolado: “Além de ser apenas uma criança, Greta tem síndrome de Asperger, um tipo de autismo diagnosticado quando ela tinha 11 anos. O verso é visto como uma agressão desnecessária à garota”.

O que mudou nesses 12 anos?!

Bem, em 2008, o iPhone do Steve Jobs tinha apenas um ano de vida e custava os olhos da cara enquanto as redes sociais estavam apenas engatinhando. A popularização do smarthphone nos anos seguintes contribuiu para a popularização das redes sociais, o que levou o filósofo e escritor italiano Umberto Eco, em 2015, a proferir uma tirada clássica: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.


Mas o caldo de cultura não estaria completo se não surgisse a praga do “politicamente correto” como se fosse uma infestação virulenta das redes sociais. Os imbecis agora tinham uma causa azul, mas levemente desbotada. Os defensores da mentalidade ”politicamente correta”, como se sabe, condenam todo e qualquer gesto que possa ser visto como remotamente ofensivo contra quem quer que seja, já dizia o saudoso Geneton Moraes Neto (leiam o texto dele aí no blog). Piadas sobre minorias? Nem pensar! Marchinha de carnaval com versos de duplo sentido? É caso de colocar os autores em uma fogueira da Santa Inquisição!

Essa percepção obtusa do humor elevou ao cubo a estupidez de um grupo de mulheres que viu no verso descontextualizado da marchinha já citada uma “erotização da adolescente e uma apologia aos crimes de assédio e estupro, além de desrespeito às mulheres”. Olha, manazinha, mas se você conseguiu ver isso tudo num simples verso de uma marchinha de carnaval, so sorry, mas você tem problemas! Freud explica.

E como se comporta essa legião de imbecis? Simplesmente assim: algum imbecil se prontifica a fazer o papel de “coelho”. É ele que vai iniciar o bundalelê politicamente correto. O “coelho” descontextualiza o verso e publica sua “analise antropológica” em uma rede social. O rebanho de ativistas de sofá começa a replicar o texto inicial nos seus timelines. Aí, um grupo da “tchiurma” resolve interpelar a banda na justiça com argumentos mais risíveis que o próprio verso satanizado. O “coelho” que deu início a tudo repercute a interpelação.

Sim, é a cobra engolindo o próprio rabo. Isso é “new jornalism?”

Não, porra, isso é jornalismo gonzo da pior extração. Em um país medianamente informado, a fabricação de notícias em causa própria seria crime hediondo. Seria cômico se não fosse trágico.

Bom, mas se não censuraram nenhuma letra da BICA até hoje não será agora que vai ser quebrada a tradição. Nossos advogados já estão a postos. Quem viver, verá! Taqui pra vocês, chupins desmemoriados!

PS: E é essa mesma turma politicamente correta que quer enfiar na goela dos biqueiros uma música apócrifa com agressões à honra e à dignidade do prefeito e de sua esposa. Assim caminha a humanidade. Giants.

O Manual Oficial do Politicamente Incorreto



Por Geneton Moraes Neto

Desde que a praga politicamente correta tomou de assalto as mentes simplistas, pega mal dizer que o feio é feio, a gorda é gorda, o negão é negão, o gay é gay, o branquelo é branquelo, o burro é burro, o bêbado é bêbado, o idiota é idiota.

Qual é o problema? “Pega mal” dizer que um cego não pode ser fotógrafo. Mas peço licença à patrulha para dizer: não pode! Vi outro dia um fotógrafo cego pontificando na TV sobre enquadramento. Falava francês, claro (não há língua que se preste tanto a imposturas intelectuais). Cego falando de fotografia é algo tão grave e despropositado quanto este locutor participando de desfile de moda. Não há qualquer desrespeito na constatação do absurdo.

Fiz ao meu demônio-da-guarda a pergunta que todos fazem na surdina: por que é que o fotógrafo ceguinho não arranja outra profissão? Por que não aprende música? Por quê? Por que precisa aparecer na televisão falando de enquadramento fotográfico? Por quê? Por quê? O demônio-da-guarda se quedou silente.

Diante da mudez do bicho, desisto de lançar perguntas ao vento sobre o fotógrafo ceguinho e a miríade de personagens absurdos que compõem, com ele, o elenco desta nossa grande comédia de erros. Quem sabe, o melhor é deixar que o circo planetário siga adiante, sem ser importunado.



Mas…vasculho meu Museu de Miudezas Efêmeras (era assim que Jorge Luís Borges definia os jornais) em busca de um relato sobre dois ingleses que, faz algum tempo, lançaram um livro para provocar a estupidez politicamente correta reinante.  Voilà:

Defensores dos bons costumes e das boas maneiras, fiquem alertas. Militantes da mentalidade ”politicamente correta”, saiam da frente. Mal-humorados que levam tudo a sério, preparem o estômago.

Porque desembarcou nas livrarias da Inglaterra um dos mais ”politicamente incorretos” textos já produzidos. Não por acaso, a obra se chama ”O Manual Oficial do Politicamente Incorreto” (“The Official Politically Incorrect Handbook”). Os autores: dois escritores “free-lancers” ingleses, chamados Mark Leigh e Mike Lepine. A editora: Virgin Books. A missão: demonstrar aos incrédulos que, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, a Inglaterra não parece disposta a tolerar os excessos da mentalidade politicamente correta.

Os defensores da mentalidade ”politicamente correta”, como se sabe, condenam todo e qualquer gesto que possa ser visto como remotamente ofensivo contra quem quer que seja. A intenção pode até ser louvável. O problema é que o temor de ferir susceptibilidades alheias terminou criando exageros. Piadas sobre minorias? Nem pensar! Resta uma pergunta: onde é que fica o senso de humor – uma instituição secularmente cultuada na Grã-Bretanha?

Com o lançamento do livro da dupla Leigh & Lepine, os ”politicamente incorretos” lançam um novo – e bem-humorado – golpe contra os militantes radicais da pretensa correção política. Sem medo das patrulhas politicamente corretas, os dois ingleses reúnem, em 271 páginas, opiniões, tiradas e comentários que farão corar de raiva os apóstolos do ”politicamente correto”.


Eis uma amostra das estocadas politicamente incorretas da dupla inglesa:

1.”Por que é hora de começar logo uma nova Guerra das Malvinas? Como a gente vai perder mesmo a próxima Copa do Mundo, então é melhor arranjar logo alguma coisa para comemorar”.

2.”Por que estudar matemática na escola é uma completa perda de tempo? Ninguém jamais ficou rico por saber calcular o mínimo denominador comum”.

3.”Por que é tão bom ser estúpido? Porque um estúpido sempre encontrará o que ver na televisão”.

4. ”Por que a guerra é melhor que a paz? Dê um pulo no vídeo-clube. Quantos filmes de paz existem lá ?”.

5. ”Por que o sexo feminino é inferior? Tente se lembrar do nome de uma batalha importante vencida por uma mulher….” 

6.”Por que a França pode continuar a fazer testes nucleares no Pacífico? Porque seria uma completa irresponsabilidade fazer os testes no centro de Paris”.

7.”Por que é bom frequentar prostitutas? Porque, na hora H, elas dizem coisas como ”oh, baby!”, “oh, sim, sim!”, em vez de ”você levou o gato pro quintal?”.

8.”Por que é indispensável ver o discurso de Rainha na televisão no Dia de Natal? É uma excelente oportunidade para toda a família ir ao banheiro, antes de começar a ver, pela quinta vez, os ”Caçadores da Arca Perdida”.

9.”Por que ninguém deve se preocupar com a poluição das águas? Porque não vivemos nos rios”. 

10.”Por que é perfeitamente aceitável usar casaco de pele? Todos os animais usam. Ninguém nunca reclamou”.

11.”Por que é bom ser um branco anglo-saxão? A polícia nunca dá em cima de você”.

12.”Por que precisamos dos políticos? Porque, quando nos comparamos com eles, nos sentimos honestos e virtuosos”.

13.”Por que que é bom ensinar religiões alternativas nas escolas? Porque assim saberemos que não estamos perdendo nada. Além de tudo, cânticos e rezas de outros povos são em geral hilariantes…”.

14.”Por que a Inglaterra deve gastar mais dinheiro recrutando soldados para o exército do que contratando médicos para os hospitais públicos? A Rainha ia achar um tédio passar em revista uma tropa de especialistas em ouvido, nariz e garganta…”.

15.”Por que a arte moderna é uma porcaria? Qualquer coisa que parece melhor quando estamos bêbados do que quando estamos sóbrios é suspeita. Além de tudo, um tijolo é um tijolo: qualquer criança de cinco anos sabe. E um carneiro morto é um prato: não é um objeto de arte”.

16.”Por que a Previdência Social deve financiar as operações para aumentar os seios, em vez de gastar dinheiro com transplantes? Porque, ao contrário do que acontece com os seios, os homens jamais poderão enfiar o rosto entre rins transplantados e dizer ”glub, glub, glub”.

17.”Por que o Império Britânico era bom? Se o império não tivesse existido, o Cinema Império, no centro de Londres, provavelmente se chamaria hoje Odeon, o que criaria confusão no público, porque já existe um outro Cinema Odeon na cidade”.

18.”Por que o Budismo jamais pegará na Inglaterra? Porque os ingleses acham que é melhor ir para o inferno do que viver aqui por não sei quantas encarnações”.

19.”Por que os castigos corporais devem ser adotados novamente na Grã-Bretanha? Poderemos gravar os castigos e vender as fitas todas para a Alemanha”.

20.”Por que as companhias não devem dar emprego a ninguém com mais de sessenta anos? Porque os aparelhos de surdez podem causar interferências nos sistemas de alarme contra incêndio”.


Antes de começar a entrevista, Mike Lepine pediu licença para cometer o que chama de ”um ato politicamente incorreto”: acender um cigarro. O ”Manual Oficial do Politicamente Incorreto” pretende fazer o público rir, mas há um traço sério na obra:

– A propagação da mentalidade politicamente correta me faz lembrar o livro ”l984”, em que George Orwell fala da manipulação das palavras através da criação de um novo idioma – a ”novilíngua”. É o que os politicamente corretos estão fazendo, na prática: querem mudar nossa maneira de pensar mudando as palavras. Mas não queremos ser manipulados por eles!

Uma constatação: a mentalidade politicamente correta é nociva porque não permite que se façam julgamentos sobre o que é bom e o que é ruim. Mas os “padrões de julgamento” são necessários.

O politicamente incorreto Lepine admite que a mentalidade politicamente correta “pode até ter bons aspectos. Ninguém obviamente quer viver num mundo em que uns odeiem os outros. Ninguém – diz Lepine – quer racismo ou sexismo. O problema é como os politicamente corretos atuam: terminam se tornando, eles próprios, ofensivos! A correção política é uma camisa de força. Os adeptos desta mentalidade ficam brigando com as palavras, em vez de se ocuparem dos reais problemas. A mentalidade politicamente correta não permite que você faça julgamentos sobre o que é bom e o que é ruim. Não há padrões, portanto. Isto é nocivo! Quem luta contra a mentalidade politicamente correta tenta, na verdade, estabelecer padrões de julgamento – que são necessários!

Lepine se defende de eventuais críticos:

– Tudo o que fizemos, no Manual, foi escrever coisas que as pessoas normalmente dizem nos pubs, numa roda de amigos. Ali, a verdadeira opinião de cada um aparece. As pessoas são todas, por natureza, politicamente incorretas. Mas eu simplesmente não consigo ver que danos ou prejuízos o senso de humor pode causar.

Ninguém escapa da pena afiada dos dois autores politicamente incorretos – nem Tarzan e muito menos a classe operária. Aqui, eles explicam por que Tarzan é o “modelo ideal para um operário” – um exemplo típico do humor politicamente incorretíssimo:

”1.Só se comunica através de grunhidos; 2.Gosta de andar sem camisa; 3.Não tem a menor idéia sobre a identidade do pai; 4.Aprendeu suas maneiras com um chimpanzé; 5.Carrega uma faca; 6.E vive aterrorizando a população negra da vizinhança”.

(publicado no site “Dossiê Geral”, em setembro de 2009)

A praga do politicamente correto e as tradições que somem



Por Cláudio Levada

Vendo a noite bonita de São João, o equivalente cristão às festas pagãs do solstício de verão (no hemisfério norte), que celebravam o sol e a fertilidade, noto que faltam no céu não só os balões que se tornaram delitos – com argumentos corretos, por sinal –, mas também os fogos de artifício, cada vez mais estigmatizados pela crueldade com os animais e pelo sossego da vizinhança.

Sem querer polemizar, e já polemizando, o que mais se vê é o monopólio cultural do politicamente correto. Os fogos não podem, a comida das festas juninas não é saudável, as fogueiras poluem, piada sobre caipira não pode porque discrimina o homem simples do campo etc, etc. O politicamente correto virou uma praga.

Viver está cada vez mais sem graça. Piadas sobre homossexuais para uma parcela da sociedade são crimes; sobre portugueses e sua burrice, idem (burrice que nunca existiu, claro, mas que sempre gerou situações de humor). Falar de loiras é diminuir a mulher, de cabelo duro é racismo, de torcer pela polícia contra o marginal é contra os direitos humanos (se falar que “ainda bem” que um assaltante morreu em um confronto, então, haverá um verdadeiro linchamento moral em prol das vítimas da sociedade capitalista).

E por aí vamos, sempre em proteção às chamadas minorias, que são tantas que esse caráter de minoria tem desaparecido gradativamente: quem não tenha mais do que 60 anos, seja heterossexual, ache que bandido é bandido por opção e deve ser reprimido, não seja da esquerda caviar etc. tem preferido ficar quieto, no seu canto, porque na voz das legiões será ou fascista, ou um nefasto neo liberal opressor, machista, sexista ou sei lá mais que tipo de ser desprezível.

Confesso-me cada vez mais perplexo. Evito piadas, opiniões heterossexuais, brincadeiras com loiras ou com qualquer etnia, soltar estalinho perto de cachorros ou gatos, falar de política, religião ou da saia da vizinha etc etc. Vou me limitar ao futebol, mas sem zoar quem perde, que poderá pedir indenização por danos morais contra mim pela horrível humilhação a que foi exposto; e sem soltar fogos quando for campeão ou ganhar do maior rival, para não ser processado por alguma sociedade protetora dos animais. E se tomar quentão não dirija!!

(*) Cláudio Antonio Soares Levada é Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. Mestre/USP e Doutor/PUCSP em Direito Civil. Professor e Coordenador do Núcleo de Prática Jurídica do Unianchieta. Professor da Pós-Graduação da PUCSP em Direito Civil. Diretor Jurídico da Associação Paulista dos Magistrados.

Esse é o “Verão da Inguinorança”


Por Edson Aran

Em épocas mais civilizadas, todo verão tinha um tema, tipo o “Verão da Lata”, o “Verão da Asa Delta”, “O Verão do Nosso Descontentamento” etc. Está na hora dessa moda voltar e já tenho um tema para a estação mais calorenta do ano: o “Verão da Inguinorança”. Tem que escrever “Inguinorança” em vez de “ignorância” para homenagear Abraham Weintraub, ministro da educação (hahaha) do governo Bolsonaro (hahahahahahahahaha). Weintraub abriu o ano escrevendo “imprecionante” numa mensagem para o chefe que, felizmente, é ainda mais analfabeto do que ele. Ainda bem. Assim o ministro não corre o risco de perder o emprego.

Seria injusto, no entanto, atribuir a “inguinorança” atual ao governo Bolsonaro. A política apenas expressa movimentos socioculturais mais profundos e esse conluio de fundamentalistas e loucos fugidos do hospício que ocupa temporariamente o poder é a consequência, não a causa.

Veja o caso do Porta dos Fundos e do Ricky Gervais, por exemplo. Os mesmos caras que criticaram a censura ao Porta, saíram por aí dizendo que Gervais foi “tóxico” no Globo de Ouro. Antigamente, só a direita dizia que o “pobrema do mundo é os tóchico”, agora não. A esquerda também acha. Para defender o Porta, teve até gente que atacou o Painho do Chico Anysio e o Renato Aragão. Mesmo Gregório Duvivier, que pertence a uma longa linhagem de gente bem-criada e bem-educada, caiu na armadilha. Primeiro: fazer resenha-retrô de produtos culturais do passado é ridículo. Segundo: Painho é um pai de santo gay, mas as crenças dele não são o objeto da piada. Veja bem: dei boas risadas com o especial do Porta, considero que ele é um avanço na sátira nacional, e penso que nada, absolutamente nada, deve ser sagrado no humor. Ponto. Mas comparar o Painho com o Porta, só aprofunda a “inguinorança” que envolve a questão. O que está implícito na jogada é uma espécie de “censura reversa” ao trabalho de Chico Anysio, um gênio do humor que devia ser mais valorizado.

A intolerância contra o humor — seja piada com bicha, piada com Jesus ou piada com Jesus bicha — faz parte do mesmo “momentum” cultural que produz Bolsonaro, Trump e Putin. E que antes deu em Mussolini, Hitler e Stálin. E não adianta colocar a mão na cintura feito um bule e gritar “Isso é falta de simetria porque bullying é diferente de sátira!”

Ah, é? Os católicos e evangélicos acham que o especial do Porta é bullying e não sátira. E a Woke Culture pensa que Ricky Gervais não fez sátira, mas sim bullying. E aí, como é que fica? É claro que quem joga molotov ou invade redação atirando, como aconteceu no Charlie Hebdo, é muito mais desclassificado do que quem promove “cancelamento” em rede social. As ações não são mesmo simétricas, mas o caldo cultural que produz as duas coisas é o mesmo, percebe?

Outro exemplo do “Verão da Inguinorança”. A defensoria pública do Ceará soltou comunicado avisando que “religião não é fantasia” e que não pode sair pra brincar carnaval vestido de padre, judeu, orixá, muçulmano etc porque isso “ofende tradição e crenças de outros povos”. No meme divulgado no Twitter tem um cara vestido de “árabe”, o que já evidencia a confusão mental entre etnia e religião, mas esse é o “Verão da Inguinorança”, então tudo bem. Ano passado, em São Paulo, teve bloco de carnaval proibindo marchinhas tipo “Cabeleira do Zezé” e “Maria Sapatão”. E veja que “sapatão” é uma palavra “resinificada” pelas próprias lésbicas, mas cantar a música não pode. Ah, tenham dó. Você reclama do Bolsonaro, mas tem um “Bolsonarinho” vivendo dentro de você como se fosse uma lombriga. Vai tomar um vermífugo, porra.

Gente que se leva a sério é que faz do mundo a porcaria que ele é, daí a importância da irreverência. Na vida, eu penso que só precisamos ser sérios numa coisa: na hora de enfrentar a “inguinorança” nas suas muitas e variadas formas. O verão já é uma época insuportavelmente calorenta. Tudo o que a gente não precisa é da “inguinorança” pra deixar estação ainda pior.

terça-feira, janeiro 14, 2020

Como fazer humor com lado



Por Edson Aran

A primeira coisa é descobrir de que lado você está. Para resolver isso, imite o Tião Macalé: “Ô crioula difícil… tchan!” Se você for amordaçado e cancelado, você está à esquerda. Se você for endeusado e celebrado, você está à direita. Se sua plateia conhece o Tião Macalé, você está em 1982. Se você estiver no lado esquerdo tem permissão pra fazer piada com pastor, terraplanista e Pinochet. Se você estiver no lado direito tem permissão para fazer piada com pai de santo, sebastianista e Fidel.

Piadas com Adolf Hitler estão liberadas nos dois lados. O cara é considerado de esquerda por quem está à direita e de direita por quem está à esquerda. Hitler, na real, sempre foi de direita, mas nós vivemos em tempos onde tudo que é sólido se desmancha no ar, feito avião da Avianca.

Alguns grupos radicais são proibidos nos dois lados. Feminismo e Islamismo, por exemplo. Vai dar ruim, tô avisando. Religião é tema sutil. Um pregador anti-aborto é mais tolerável se for católico e mais execrável se for crente. Não me pergunte por quê. É o mesmo lance do pai de santo e do pastor. Aparentemente, alguns amigos invisíveis são mais bacanas que os outros. Na dúvida, risque “religião” da sua lista de temas. E “aborto”, é claro. Nem devia ter entrado.

Corrupção é outra coisa delicada. Se você está à direita só pode criticar corruptos da esquerda. Se você está à esquerda só pode criticar corruptos da direita. Se você não se incomoda com a corrupção, está fora do Brasil. A regra é clara: se a sua agenda política vem antes da sua piada, você está à esquerda. Se a sua direita vem antes da sua piada, você é uma agenda política. Se o humor é sua única política, você terá sempre a agenda livre. Aproveite para ir ao cinema.

Humor é ao mesmo tempo um estilo e um gênero. Você pode usar o humor para construir ensaios eruditos como, digamos, Umberto Eco. Isso é estilo. E você pode ter o humor como o centro da sua produção tipo, sei lá, o P. G. Wodehouse. Isso é gênero.

E o humor também é uma escola literária. Ao longo da história, sempre existiram pessoas que olham pra toda essa desgraceira e dá risada em vez de chorar. Aristófanes, Miguel de Cervantes, Millôr Fernandes, Karel Capek, Vladimir Nabokov, Woody Allen. Ainda bem. Sem humor, a vida é chata como um dramalhão mexicano, só que sem vilãs de tapa-olho pra gente se divertir.

Vamos a um exercício prático. Imagine o seguinte esquete. Brasília, reunião de ministros. O titular da Economia faz a seguinte proposta: para aumentar o PIB e diminuir a fome, os favelados do Brasil estão liberados para comer os próprios filhos. O ministério, inclusive, vai lançar um fabuloso livro de receitas para ser distribuído gratuitamente à população.

Você escreveria essa piada?

1 — Não! É cruel demais e os meus amigos do Leblon nunca mais vão me convidar para tomar suco de melancia e comer sushi.

2 — É claro que não! Essa é uma proposta econômica das mais sensatas e tem o meu total apoio. Eu não brinco com coisa séria.

O esquete acima é baseado no texto “Uma modesta proposta”, escrito por Jonathan Swift em 1729, e considerado um dos pilares do humor sarcástico na literatura. Swift só trocou os favelados (perdão, moradores de comunidades) por irlandeses que, no século 18, eram os favelados do Velho Mundo (perdão, moradores da comunidade europeia).

A melhor maneira de fazer humor com lado é evitar o humor. Um humorista deve criticar o que conhece. E isso pressupõe rir, antes de tudo, do que está ao seu lado. Afinal, se o cara não consegue tirar sarro do que está perto dele, como vai tirar sarro do que está longe?

Para fazer humor com lado, deixe o humor de lado.

sábado, janeiro 11, 2020

BICA 2020: De volta para o futuro!



No início da terceira década do Terceiro Milênio, a civilização se vê às voltas com uma série de questões que muitos julgavam já terem sido superadas: o descaso pelo aquecimento global, a escalada do genocídio indígena, o aumento da intolerância religiosa e a negação da própria ciência (o crescimento dos defensores da conspiratória teoria da Terra Plana está no cerne de todas as muvucas anteriores).

Com o tema “Pirralha faz pirraça e a BICA entra na graça”, sugerido pela biqueira Neidinha, esposa do Manuel Batera, a banda carnavalesca mais escrachada de Manaus resolveu cutucar a onça com vara curta e mostrar que o aquecimento global é uma ameaça real que precisa ser combatida, nem que seja com doses cavalares de ironia e bom humor.

A exemplo dos anos anteriores, o tema foi escolhido na segunda quinzena de dezembro do ano passado durante uma reunião da velha guarda dos biqueiros no Bar do Armando, regado a cerveja e xis-porco.

– Não deixar a Amazônia se transformar em uma nova Austrália me parece uma questão fundamental, como já denunciava o maestro Adelson Santos nos anos 80 – resumiu o artista plástico João Rodrigues, um dos biqueiros presentes na reunião.

Mas os biqueiros não estão sozinhos nessa tarefa. Basta lembrar que, recentemente, a “pirralha” Greta Thunberg foi eleita a personalidade do ano pela revista Time, por inspirar movimentos estudantis de todo o ocidente na luta contra o aquecimento global e em defesa da natureza. Aos 16 anos, ela é a mais jovem personalidade contemplada com esse título.

Também não é a primeira vez que a BICA investe na questão ecológica. No carnaval de 1992, com o tema “No Reino do Jacaré”, os biqueiros denunciaram a tentativa de se introduzir no Amazonas a caça seletiva de jacarés a partir de uma notícia nunca confirmada de que havia uma superpopulação de répteis assassinos no município de Nhamundá.

A marchinha da banda ia direto na ferida: “Assim não dá pé / Assim não dá pé / Pegar pra pato / O pobre do jacaré / Tão me culpando de tudo / Por todas as mazelas da população / Escola e Saúde falidas / Falta d’água, esculhambação / Querem tirar o meu couro / Sou o culpado pela devastação / A Lourdes disse e o Armando confirmou / Jacaré não é boto nem vilão / É ou não é?... / Coitado do jacaré!”

Os biqueiros também recuperaram uma tradição quase esquecida de homenagear como letristas os foliões da banda que atravessaram o espelho. A letra da marchinha deste ano é atribuída ao cantor e compositor Afonso Toscano (um dos fundadores da banda), ao radialista Joaquim Marinho, ao poeta Almir Graça e ao pagodeiro Agnaldo do Samba, todos falecidos no ano passado.

– É uma maneira de perpetuarmos a memória dos verdadeiros baluartes da brincadeira! – explica Ana Cláudia Soeiro, atual responsável por colocar a banda na rua desde o falecimento de seu pai, o comerciante Armando Soares, em abril de 2012.

Segue abaixo a letra oficial, que será gravada pelo rei Davi Assayag, com arranjos do maestro Reina e também homenageia o cantor e compositor Adelson Santos:

Não mate a mata por favor

Tem toco cru pegando fogo pelo chão

Não mate a mata, não mate a mata não

A verde virgem bem que merece consideração


Não tem culpa eu, não tem culpa tu

Não tem culpa ninguém

Mas culpa todo mundo tem

Salve a selva hoje

Pra vida salvar também


A pirralha faz pirraça

E a BICA entra na graça

A Greta quer ver pau em pé

A BICA abunda, bate forte e bota fé

Pois pau pegando fogo

Só quem quer ver é mané!


A hora é essa pra salvar o planeta

Chega de papo, não vem com mutreta

Não entra nessa de quebrar o galho

Se não, ora pois, vá pra casa do c'aralio


Entra na BICA pra não se queimar

A BICA é grande, você vai gostar

Só dá prazer e não faz mal

Levanta sua bandeira nesse carnaval

domingo, janeiro 05, 2020

Lúcio Preto e o desafio da pedra de gelo



Dezembro de 1989. A cachorrada reunida no Top Bar está dividida em torno de um desafio lançado pelo abusado Lúcio Preto: de que ele é capaz de ficar sentado nu em uma pedra de gelo durante meia hora.

O empresário Frank Cavalcante comanda a turma de 15 pessoas que acham que ele não aguenta.

O boêmio Nei Parada Dura comanda a turma (eu, ele e Lúcio Preto) que acha que ele aguenta.

Começam as apostas, em dinheiro, do tipo “the winner takes it all” (“o vencedor leva tudo”).

Não lembra da canção do ABBA, não?! Ah, tudo bem...

Rubens Bentes e Jones Cunha vão até a Frigelo, ali na final da Rua Carvalho Leal, compram uma pedra de gelo de respeito e retornam ao bar, para tirar a prova dos nove.

A pedra de gelo mede um metro por 50cm.

Calculo que aguenta três pessoas sobre ela, sapateando músicas escandinavas.

Lúcio Preto faz uma única exigência: quer ficar sentado de costas para a Rua Borba, em virtude de existir uma parada de ônibus na frente do boteco.

A exigência é aceita. A pedra é colocada quase no meio-fio da Rua Borba, mas ainda dentro dos limites do bar.

Por volta das 16h de um sábado, Lúcio Preto fica completamente pelado, senta na pedra de gelo, cobre as partes pudendas com a cueca e o resto dos cachorros começa a contar o tempo.

Os transeuntes que passavam em direção à feira livre da Cachoeirinha ficavam intrigados com aquela presepada.

Quando o primeiro ônibus para em frente ao bar, os passageiros fazem um tremendo alvoroço para apreciar aquela inusitada situação.

Lúcio Preto nem aí.

Com 10 minutos, as apostas começam a dobrar.

Meia hora depois do início da prova, o quarto-zagueiro se levanta.

Na pedra de gelo, lindamente esculpida, suas duas nádegas.

Nei Parada Dura começa a receber a grana das apostas.

O dinheiro apurado é suficiente para levar Lúcio Preto para uma consulta na Drogaria Menescal, porque ele não estava mais sentindo a própria bunda.

O farmacêutico Francisco Menescal ficou louco:

– Caralho! Faltou muito pouco para essa tua bunda não começar a entrar em processo de gangrena terminal! Que merda foi que vocês andaram aprontando?...

Nei Parada Dura explica o acontecido.

O farmacêutico receita antibióticos de última geração.

Lúcio Preto passou quase dois meses sem poder beber e sem poder se sentar sobre a própria bunda.

Mas manteve a dignidade de cumprir seus desafios, apesar de tudo.

Sem contar que, com a grana das apostas, ele comprou um fusquinha azul do empresário Louro Sarará, amigo do Frank Cavalcante.

Assim nascem as lendas.

sábado, janeiro 04, 2020

Feliz ano... o quê mesmo?



Por Ivan Lessa, de Londres

Lá se foi mais um ano, lá se foram mais 200 mil neurônios. Parece que é isso que queimamos no decorrer de 365 dias. Ou um dia. Mês, talvez. O neurônio é uma célula. Dizem. Importantíssimo para nossas faculdades mentais. Por que celebramos a passagem do ano? Em memória das células que se foram, que descansem em paz.

Como a humanidade não prima pela inteligência – olhem ao redor, humanos irmãos –, acha que o fato de se aproximar mais um pouquinho de bater com as dez, vestir o paletó de madeira, pedir o boné, ou o eufemismo gracioso que quiserem para o velhusco “bater com as botas”, é fato a ser comemorado com flores a iemanjá aí, cervejadas na rua aqui.

Talvez, pessimista e cético que sou, vai ver o que estão comemorando mesmo é o fato de terem todos, ou termos todos, ultrapassado mais um ano razoavelmente de pé, sem partir na horizontal para parte alguma. De qualquer forma, maiuscular Feliz Ano Novo. Passar bem, neurônios. Estamos todos mais velhos e tão burros quanto sempre. Mas sobrevivemos.

Mal chega ao fim um ano, quando as listagens vestem seu black tie na mídia, e a ciência e a medicina, essas mesmas que descobriram o raio do neurônio, começam a dar palpite, na tentativa óbvia de nos animar em meio aos horrores de sempre que nos cercam pelos quatro cantos da Terra e os sete de nosso corpo.

Cientistas, muitos com diploma provando, insistem em desfazer mitos. Papai Noel, a maior parte de nós já sabe que não existe. Deus? Bem, Deus teve um grande ano em 2007. Sua existência foi discutida em dois ou três livros de sucesso nas duas ou três línguas que contam, à exceção, é óbvio, do latim falado no Vaticano e arredores.

Existência ou não de uma entidade superior é assunto que já não consta de minha pauta de preocupadas indagações há muito tempo. Claro que existe. Tem uma voz possante em câmara de eco e é maior que Godzilla e King Kong brincando de cavalinho. Deus apareceu várias vezes em alguns dos meus episódios favoritos de Os Simpsons.

Assim como Joana Do Arco ouviu vozes, eu vi, guerreiros, eu vi. Eu vi Deus participando da série, assim como aqueles macaquinhos que a família "trapíssima" veio a encontrar no Rio. Eu vi Deus nos Simpsons e acreditei. Acreditei em Deus assim como em todos os outros astros convidados e não dublados em português do Brasil: de Michael Jackson a Alec Baldwin e Kim Basinger.

Impossível qualquer tentativa de descrença. Deus existe e frequenta a série criada pelo esplêndido Matt Groening. Estabelecido isso, o que mais pode nos oferecer a ciência? Bem, desfazer alguns mitos é uma boa para se atravessar o ano. Mais lógico do que se vestir de branco e ir jogar flores brancas nas águas da orla marítima carioca para agradar uma entidade de origem nigeriana, a popular orixá iemanjá.

Por essa magnífica empreitada, vale a pena, na noite do 31, enfrentar os macaquinhos que infernizaram a vida de Homer, Marge e Bart. Os tambores e os fogos de artifício também ajudam nessa curiosa experiência religiosa místico-carnavalesca-candomblesiana-ortodoxa. Sim, sim, mas e os outros mitos?

Bom, a ciência deixou de lado Deus e iemanjá e proclamou, além das virtudes de um alcacelça no primeiro dia do ano, que ler no escuro não faz mal nenhum aos olhos. Provar? Isso fica para o ano. Acrescentou a ciência que essa mania de beber água o tempo todo, como se fosse coisa salubérrima, é pura embromação daqueles que querem – aqui estão minhas flores brancas, Sá Dona Iemanjá – pegar alguns trocados de nosso rico dinheirinho.

Todos os bancos de dados de todos os redutos científicos proclamam essas verdades como absolutas. Nenhuma pesquisa médica, a sério ou de sacanagem, provou coisíssima alguma. Quem o diz é o British Medical Journal em artigo da autoria de Aaron Carroll e Rachel Freeman, minha dupla dinâmica para 2008. Que aliás, pensando bem, também não provam nada. São bons de afirmações vagas como as cartomantes da rua do Catete.

Vão além os dois e desfazem – do verbo "desfazer", conforme conjugado por eles – outras lendas. Nem os cabelos nem as unhas crescem depois que a gente morre. Portanto, a vaidade, juntamente com tudo mais, inclusive os olhos azuis e o nariz arrebitado, se vão para sempre deste mundo descontentes.

Nossos cérebros? De pouca valia, conforme o atestam alguns milhões de anos de nossa história. Não exageremos pois afirmando que só usamos 10% dos 100% de suas possibilidades. Não, não. Somos burregos mesmo. Einstein e a mais recente senhorita nua em pelo (cada vez menos pelo) da revista masculina usam o máximo que podem de sua matéria cinzenta. Ponto.

Inclusive, cientista e miss podem ler à vontade no escuro. Não faz mal nenhum. É apenas mais difícil. Se Einstein raspava o cabelo das pernas, não sei. Nem de qualquer outra parte de seu corpito. Sei que as misses raspam, das pernas, e mais, muito mais, estou cansado de saber, tendo constatado mediante folhear desinteressado das tais revistas.

Não é verdade que mesmo a depilação, o brazilian, aquela aparação praieira, faça os cabelos crescerem mais rápido e mais ásperos. As misses que não se preocupem, como Einstein, que não se preocupou com seus 100% do uso de seu cérebro genial e não rapado.

E esse celular que você ganhou no Natal? Esse que lhe recomendaram que não fosse usado nos hospitais e suas imediações? Tolice. Fale besteira nele a seu bel-prazer. Tudo onda, inócua onda, nenhuma perigosa. Chata sim, perigosa não.

Quanto ao peru deglutido no Natal, aquele que você jura que lhe deu um bruta sono? Tudo na sua doentia cabeça, companheiro. Peru não dá sono. Dormem o sono eterno cercado de iguarias e muito vinho fraquinho, mas não dão sono. Mesmo. Juro pelo meu exemplar do British Medical Journal fazendo uso dos mesmos 100% de minhas faculdades mentais, exatamente como fazia o querido Einstein.

Feliz ano novo. Cuidado ao jogar as flores brancas nas ondas do verde-mar. Parece que se no meio for uma rosa vermelha, ou mesmo amarela, é azar para o ano inteiro. Isso é um fato científico.

(Publicado na BBC Brasil em 31 de dezembro de 2007) 

A incrível história do Carlão da Iaco



Janeiro de 1969. Filho da merendeira escolar Ilnah e do guarda territorial Zé Costa, o hoje empresário Antônio Carlos Costa (o “Carlão”, proprietário das Lojas Iaco) tinha 14 anos quando deixou sua Sena Madureira natal, nos confins do Acre, para estudar em Manaus.

Trazia como bagagem apenas uma pequena maleta de papelão com meia dúzia de roupas e muita vontade de vencer na vida.

Foi ser um bigorilho na casa de um tio paterno, Chico das Almas, e matriculado no Instituto de Educação do Amazonas.

Três meses depois, no início das aulas, Chico das Almas se separou da esposa e foi morar na casa de um irmão, Elzir Farias (pai do radialista Meike Farias), na Rua J. Carlos Antony, nas proximidades do Grupo Escolar Carvalho Leal. O bigorrilho foi junto.

Um mês depois, Elzir concluiu que não tinha condições financeiras de sustentar aquelas duas novas bocas e resolveu se livrar do bigorrilho.

Com a anuência de Chico das Almas, Elzir colocou Carlão e sua inseparável maleta de papelão em um táxi, e deixou o moleque no Aeroporto de Ponta Pelada com a recomendação expressa de pegar carona no primeiro Búfalo da FAB que estivesse indo para o Acre.

Sem conhecer ninguém da FAB e sem um centavo no bolso, Carlão passou três dias dormindo nos bancos do saguão do aeroporto.

Em troca de cafezinhos para enganar a fome, ele lavava os pratos e talheres da única lanchonete existente no aeroporto.

Vencido pela fome tirana, Carlão resolveu voltar a pé para o único endereço que conhecia na cidade: a casa do seu tio Elzir.

Às 6 horas da manhã do quarto dia, ele iniciou seu novo calvário: dar uma pernada federal do Aeroporto de Ponta Pelada até o bairro da Cachoeirinha.

Com a maleta de papelão na cabeça, Carlão já estava começando a encarar a subida da ladeira da Rua Urucará, no canto da Rua Tefé, em frente à Subusina da CEM, quando uma Rural Willys parou do outro lado da rua e o motorista do veículo deu um grito:

Você está indo pra onde, zé cueca?

Carlão olhou para um lado, para o outro. Não havia ninguém na rua deserta.

O sujeito da Rural insistiu:

– Estou falando contigo mesmo, zé cueca! Você está indo pra onde?...

Carlão não conhecia o sujeito, mas ainda assim respondeu:

– Vou pra casa do tio Elzir!

– Porra, tu és mesmo um zé cueca! Ninguém te quer lá naquela casa, carálio! Já te largaram até no aeroporto... Deixa de ser besta, porra, e toma tenência... Se manque!

Carlão sentiu um aperto no peito e uma vontade imensa de chorar.

O sujeito voltou a falar:

– Acho que você não se lembra de mim não! Eu sou filho do Gastão, porra! Foi teu avô Jonas que me criou... Embarca aqui nessa merda!

Enquanto entrava na Rural Willy, Carlão fez uma viagem no tempo em busca de sua própria infância e a ficha caiu.

Três gerações: Valdeir, Junior Costa e Neto

Aquele sujeito era seu primo Valdeir Costa, filho de seu tio Gastão.

O velho Gastão havia contraído hanseníase e morava sozinho em uma casa no quintal da residência de seu avô Jonas Costa, já que a profilaxia de tratamento dos infectados era o isolamento total.

Os filhos de Gastão e Dona Délia (entre os quais o boêmio Zé da Voz) foram criados por seu avô Jonas.

Valdeir estava casado com minha prima Rosinete, irmã do Cazuza, e era dono da Serralheria Santo Antônio, ali nas imediações do Conjunto Jardim Brasil.

Sua residência era ao lado da metalúrgica. Foi pra lá que ele levou o bigorrilho.

Vendo o estado de penúria do primo infante, mal entrou na residência Valdeir já deu uma voz de comando para a esposa!

– Ô Rosa! Põe comida pra esse moleque que ele está urrando de fome!

Rosinete, educadíssima, o que fazia um perfeito contraponto ao esposo grosso que só papel de embrulhar prego, fez a pergunta trivial:

– Ele quer comer o que?

– Põe comida, carálio! Põe comida! – devolveu o amabilíssimo marido.

Carlão detonou três pratos de carne assada, com feijão, arroz e farinha, que até hoje considera o melhor prato da culinária mundial.

Ficou um ano morando na casa do Valdeir e estudando.

Depois, passou mais um ano morando na casa da Dona Délia, mãe do Valdeir, ali na Rua Codajás, nas proximidades do Bar do seu Pastik (“Casa 25 de Janeiro”), enquanto trabalhava na Fróes Esquadrias, localizada na Av. Castelo Branco.

Ao completar 16 anos, Carlão soube pela sua prima Helena, irmã do Valdeir, que seu marido Eduardo, piloto de táxi aéreo, iria levar uma encomenda até Boca do Acre.

Carlão já andava meio cismado. Estava há dois anos em Manaus e continuava com a mesma meia dúzia de roupas que trouxera de Sena Madureira.

Metade já nem lhe servia mais porque o sacana estava crescendo...

Ele resolveu voltar para a cidade natal. Pegou uma carona com Eduardo no táxi-aéreo até Boca do Acre, de lá pegou carona em um barco de linha e desembarcou em Sena Madureira.

Sua mãe, Dona Ilnah, levou um susto.

O filho contou o motivo do retorno.

Dona Ilnah não quis saber de conversa:

– Volte imediatamente pra Manaus, para trabalhar e estudar! Se ficar aqui em Sena Madureira o máximo que você vai ser é jogador de sinuca, porque aqui não tem emprego pra ninguém... O povo sobrevive de teimoso. E eu não coloquei um filho no mundo para ser vagabundo...

Carlão voltou pra Manaus, foi trabalhar como vendedor das Lojas Cearense, depois passou oito anos como gerente da Top Lojas, do Jorge Mojica, e quatro como diretor comercial, até abrir seu próprio negócio lá se vão mais de 20 anos.

As lojas foram batizadas com o nome do rio que banha sua aldeia: Iaco, um dos afluentes do rio Purus.

Esse meu brother é um guerreiro!

A boca livre do advogado Vilson Benayion



O Vilson Benayion nunca meteu prego sem estopa...

Dezembro de 1986. Acho que era uma antevéspera de Natal, quando todo mundo começa a fazer planos para o Ano Novo que se aproxima. Eu estava tomando uma cerveja no Bar do Aristides, quando o Sici Pirangy entrou no bar e foi direto pra minha mesa:

– Poeta, eu tive uma ideia que acho que pode dar samba. O dia 1º de janeiro é o Dia Universal da Confraternização entre os Homens de Boa Vontade, correto? O que você acha de a gente fazer uma rua de lazer nesse dia, ali na Parintins, em frente ao Barraka’s, e confraternizar numa boa? A gente se cotiza, compra umas cervejas, assa umas carnes, coloca umas músicas pra tocar e vamos passar o dia lá, jogando conversa fora e relembrando o passado...

Achei a ideia excelente. Em menos de meia hora, nós dois já havíamos convencido cerca de 30 pessoas a embarcarem na viagem. Estabelecemos o valor da cota, algo próximo a R$ 100. Começamos a distribuir as tarefas.

O Arlindo Jorge ficou de receber o dinheiro das cotas.

O Paulo César Dó ficou de conseguir a autorização da Prefeitura para fazer a rua de lazer.

Sici Pirangy se responsabilizou pela compra da birita.

Jones Cunha se responsabilizou pela compra da carne para o churrasco.

O Wilson Fernandes, dono do Barraka’s Drink, se prontificou a fornecer uma feijoada para 100 pessoas.

O Chico Costa se escalou para comprar algumas medalhas de honra ao mérito para a gente homenagear alguns moradores do bairro.

O Antídio Weil ficou encarregado de conseguir a aparelhagem de som.

Todas as tarefas foram cumpridas dentro do prazo.

No dia 1º de janeiro de 1987, o fuzuê estava armado. A Rua Parintins, no trecho entre as ruas Borba e Carvalho Leal, se transformou em um formigueiro humano.

Havia competições de futebol, vôlei, cemitério, barra bandeira, ping pong, xadrez e dominó.

Além da suculenta feijoada carioca, foram assados 100 quilos de picanha, 50 quilos de frango, 30 quilos de bisteca de porco e 20 quilos de calabresa.

De birita, foram consumidos seis tambores de 50 litros de chope da Brahma, 20 litros de batidas diversas fornecidas pelo Selmo Caxuxa, 10 garrafões de vinho tinto de cinco litros e várias garrafas de uísque, vodca, gim e cachaça.

A festa começou às oito da manhã e terminou às oito da noite, sem que tivesse ocorrido uma única altercação.

Resolvemos repetir a dose no ano seguinte.

Em dezembro daquele mesmo ano, começamos a fazer a cobrança do dinheiro das cotas.

O total de colaboradores subiu de 30 para 100 pessoas, o que era prenúncio de um verdadeiro banquete dos deuses.

As tarefas também foram divididas e cumpridas direitinho.

Houve um certo exagero, claro. Em vez de uma simples aparelhagem de som, como no ano anterior, Antídio Weil alugou um gigantesco trio elétrico.

Em vez de algumas mesinhas do Barraka’s Drinks, o Olíbio Xiri alugou um jogo de 50 mesas com cadeiras, equipadas com guarda-sol.

Também foram alugadas algumas máquinas eletrônicas de fliperama para a garotada se divertir, cortesia do Ivan Chibata.

Os ciganos eram marrentos, apesar de o presidente da escola na época, o advogado Vilson Benayon, fazer de tudo para boicotar o encontro.

Ele queria que a festa fosse realizada na quadra coberta do GRES Andanças de Ciganos.

No dia 1º de janeiro de 1988, o fuzuê estava armado pela segunda vez.

Por volta do meio-dia, no auge da confraternização, Sici Pirangy percebeu uma multidão estimada em 800 pessoas subindo a ladeira da Rua Parintins em direção ao nosso convescote particular. Todos eles traziam uma panela na mão.

Disciplinadamente, os “intrusos” entraram na fila onde estava sendo servida a feijoada e começaram a encher seus teréns.

Depois, entraram na fila onde estavam sendo servidos os churrascos e repetiram a operação.

Depois, avançaram sobre as caixas de isopor espalhadas pelas calçadas, se abasteceram com latas de cerveja e garrafas pet de refrigerantes, e começaram a fazer o caminho de volta.

Sici Pirangy resolveu intervir.

Ele segurou no braço de um sujeito que estava carregando na cabeça uma panela de cinco litros cheia de feijoada e ponderou:

– Meu amigo, não me leve a mal, mas vocês são de onde?...

– Nós somos lá do Bodozal da Maués... – devolveu o sujeito.

– E como foi que vocês vieram parar aqui? – insistiu Sici.

– O Dr. Vilson Benayon foi de casa em casa, convidando a gente para participar do aniversário dele, que seria comemorado aqui na rua. Ele também avisou que a gente podia trazer quantas panelas quisesse para levar comida pra casa porque o negócio ia ser farto... – explicou timidamente o sujeito.

Até então, ninguém sabia que o advogado realmente fazia aniversário no dia 1º de janeiro.

Sici Pirangy liberou o sujeito e foi conversar comigo, puto da vida:

– Esse Benayon é muito safado, poeta! Ele não contribuiu com um centavo pra festa e ainda foi espalhar lá no Bodozal que estava bancando tudo... Dá pra acreditar numa merda dessas? Negócio seguinte: se ele aparecer aqui, eu vou fazer aquele escroto passar vergonha! Ele que vá fazer ficela lá pras negas dele! Aqui, não! Aqui, não!

O Benayon, evidentemente, não colocou os pés no pedaço.

Apesar da invasão dos hunos, a festa transcorreu numa boa, mas, por causa da presepada do advogado, a confraternização universal entre os homens de boa vontade foi rifada sumariamente de nosso calendário existencial e não teve uma 3ª edição.

O Benayon, entretanto, se deu bem: naquele mesmo ano, ele foi eleito vereador pelo PMDB, tendo recebido 1.500 votos dos moradores do Bodozal da Maués. Choses.

Luiz Lobão e o teste funcional na Sharp do Brasil



Mariazinha e Dona Francisca participando da Ala das Baianas 
do GRES Andanças de Ciganos

Março de 1974. Numa manhã de sábado, Lúcio Preto, Áureo Petita, Paulinho Preto e Gilberto param o carro em frente da casa da dona Francisca e começam a fazer o maior escarcéu. Dona Francisca vai até o terreiro saber o que está acontecendo:

– Dona Francisca, por favor, chame o Luiz Lobão, que ele está escalado para fazer um teste de montador de linha na fábrica de calculadoras da Sharp do Brasil! – explica Lúcio Preto.

– Mas logo hoje, em pleno sábado?... – questiona dona Francisca, visivelmente surpresa.

– Pois é. Parece que o Luiz já fez o teste escrito e hoje ele vai só fazer a avaliação física, que é feita fora da fábrica. O Paulinho e o Áureo também estão indo fazer o teste! – explicou Lúcio Preto.

Na maior boa-fé e acreditando piamente que o filho caçula tivesse tomado juízo, dona Francisca vai chamá-lo.

Ele havia chegado bêbado na madrugada anterior e vomitara a casa inteira. Um horror!

Ainda meio sonolento, Luiz Lobão se despede da mãe, entra no fusca e eles vão embora pro Bar Riachuelo, lá pelas bandas da Cidade Nova.

Retornam pra Cachoeirinha por volta da meia-noite, depois de terem detonado cinco garrafas de “pirata holandês” (Ron Montilla com leite condensado Greenland).

Luiz Lobão está capotado, quase em coma alcoólico.

Lúcio Preto e Gilberto carregam Luiz Lobão até a entrada da casa, deixam o bebum no chão, dão duas batidas rápidas na porta, entram rapidamente no fusca e saem de lá cantando pneus.

Quando dona Francisca abre a porta, toma um susto: tá lá o corpo estendido no chão.

Irritadíssima, ela começou a reclamar, enquanto tentava levantar o indigesto bebum:

– É esse que é o teste da Sharp, sem-vergonha?! É esse que é o teste da Sharp?!

Reunindo as últimas forças que ainda possuía, Luiz Lobão abriu um dos olhos, que nem o pirata do rótulo do Ron Montilla, balançou a cabeça em desaprovação e ganiu:

– Mas a senhora ainda acredita no Lúcio Preto, mamãe?...

Aí, fechou de novo o olho e voltou a dormir.

Dona Francisca era uma santa!

Chegada da Kamélia: 80 anos de tradição!



Por Iomar Japonês

Era dezembro de 1938 quando Cândido Jeremias Cumaru, o Kandú, comprou uma boneca negra, vestida de baiana, de 75 cm de altura, por quatro mil réis, na loja 4 e 400 (onde hoje funciona a loja Marisa, na esquina das avenidas Eduardo Ribeiro com Sete de Setembro).

Não se sabe se ao comprar a boneca, Kandú já pensava em utilizá-la no Carnaval do ano seguinte, o certo é que, 1939, com ela amarrada no galho de ingazeira, à frente de um grupo de amigos, Kandú comandou o Bloco da Kamélia, descendo a Eduardo Ribeiro.

No Bar Avenida (onde hoje está localizada uma agência do Bradesco), a boneca “mandou” servir aos seus brincantes uma ceia que custou 80 mil réis ao Kandú.

Fundado em 17 de outubro de 1938, tendo Kandú como um de seus fundadores, o Olimpico Clube passou a ser a casa da Kamélia.

Desde então, não houve um único ano em que a Kamélia deixasse de chegar da Bahia para animar o Carnaval de Manaus. A partir daí começou o baile da Chegada da Kamélia.

Em 1955, foi criada uma nova estratégica a fim de chamar a atenção para a chegada da boneca com o prefeito Walter Rayol (1955) mandando que fosse entregue a ela as chaves da cidade, o que representava a abertura oficial do Carnaval Manauense.

Aproveitando a estratégia que dera certo, em 1958 o prefeito Gilberto Mestrinho (1956/1958), iniciando sua carreira política, passou a entregar pessoalmente as chaves da cidade para a Kamélia, tornando, naquele ato simbólico, a abertura oficial do carnaval de Manaus, vindo a ser seguido pelos demais mandatários da cidade até os dias de hoje.

De olho na nova maneira de brincar Carnaval, em 1993 o Olímpico lançou a Banda da Kamélia. Dois anos depois, sob as mãos do artista plástico Juarez Lima, a boneca baiana passou por uma repaginação em seu visual e surgiu mais enxuta do que nunca, feita de isopor e com maior mobilidade para sambar.

Em 7 de dezembro de 2003, nova reviravolta na trajetória carnavalesca da Kamélia com a criação da Escola de Samba Império da Kamélia e fez seu 1º desfile no sambódromo em 2006 com o enredo “Kamélia, assim nasceu a minha escola”.

Pelo reconhecimento e importância da boneca Kamélia, o vereador Arlindo Júnior apresentou um projeto de Lei tornando a solenidade da “Chegada da Kamélia” como abertura oficial de carnaval de Manaus.

A propositura, transformada na Lei nº 1.722/2013, foi sancionada pelo prefeito Arthur Virgílio Neto no dia 15 de abril de 2013.

Em 2015, a boneca tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial do Amazonas, por meio de um Projeto de Lei de autoria do então deputado estadual Bosco Saraiva, na época presidente da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas.

Hoje, dia 4 de janeiro, com a Chegada da Kamélia, será aberto oficialmente o Reinado do Momo na capital amazonense.

E com essa trajetória, podemos assim definir a boneca Kamélia: “Kandú criou-a, o Olímpico projetou-a e o povo consagrou-a”.


sábado, dezembro 28, 2019

A tiranaboia de Bob Nelson e Bazam



O inesquecível Bazam (ao lado do filho Antônio), 
que resolveu virar encantado na manhã de ontem

O cantor e compositor Nelson Roberto Perez (aka “Bob Nelson”) se tornou conhecido por misturar música caipira com o ritmo country e ficou famoso pela interpretação da canção “Oh, Susana!”.

Nascido em Campinas (SP), em 12 de outubro de 1918, Bob Nelson era o sexto dos oito filhos de José Pérez, espanhol, ferroviário da Mogiana e dono do Hotel Dalva, e de D. Floresmina.

Ele morreu no Rio de Janeiro, em agosto de 2009, aos 90 anos, após sofrer uma parada cardíaca.

O nosso Bob Nelson baré (batizado Roberto Borges Cardoso) nasceu em Santarém (PA), em 15 de setembro de 1946, e faleceu em Manaus, em maio de 2006, aos 60 anos, vítima de diabetes.

Ele era irmão do Alberto Gordo, supervisor de Produção na Philco da Amazônia e ex-diretor do Sindicato dos Metalúrgicos, no período 1984-1987. O sangue bom Alberto Gordo também faleceu há alguns anos, vítima de diabetes.

Dotado de uma voz talhada para o canto yodell (aquele canto com vibrato do tipo “tiroleeiiiite”), o Bob Nelson baré começou se apresentando em shows de calouros pelos quatro cantos da cidade, com um repertório inteiramente calcado no Bob Nelson original.

No final dos anos 60, ele já era figurinha carimbada no Bar do Aristides, onde, invariavelmente, começava a detonar uma garrafa de Praianinha cantando “Vaqueiro do Arizona, desordeiro e beberrão / Corria em seu cavalo pela noite no sertão / No céu, porém, a noite ficou rubra num clarão / E viu passar num fogaréu um rebanho no céu / Y-pi-a-ê, y-pi-a-ô”.

A gurizada viciada em faroeste, eu incluso, ia ao delírio.

Na sequência, Bob Nelson emendava a sua canção favorita, que eu também não consigo ouvir até hoje sem me arrepiar: “Quando fui ao Alabama e toquei meu violão / Encontrei uma menina num cavalo alazão / Ela me pediu sorrindo pra tocar uma canção / Que falasse do Alabama de um banjo e um violão / Oh! Suzana não chores por mim / Pois eu volto pro Alabama pra tocar meu banjo assim...”.

E aí ele mandava o “tiroleeiiite” por quase cinco minutos, incendiando o cabaré.

Na verdade, Bob Nelson colocava o vibrato yodell em qualquer música que lhe desse na telha – e seus acompanhantes no violão que se virassem.

Por exemplo, ele começava a cantar, batucando numa caixinha de fósforo: “Na minha fazenda tem um boi / Esse boi se chama Barnabé / Sabe moço ele anda se babando / Pela minha linda vaca Salomé”.

Aí, quando todo mundo esperava o segundo verso, ele enfiava as variações inimagináveis a partir do “tiroleeiiite”. Uma zorra.

Depois que descobriu sua alma gêmea (João Carlos Weil, aka “Bazam”, irmão do Antídio Weil), Bob Nelson não parou mais de agitar.

Como se fosse a dupla Pelé-Coutinho, Bazam e Bob Nelson, numa tabelinha perfeita, realizaram milhares de aprontos na Cachoeirinha e adjacências para levantar o leite das crianças.

Mas tudo na base do lero-lero, sem violência, porque malandro é malandro e mané é mané.

Um dos mais brilhantes golpes da dupla era realizado exatamente na entrada da Vila Mamão, próximo da casa de bilhares São Francisco de Assis, sempre nos dias de sábado, no início da noite, quando a banda de Fuzileiros Navais se apresentava em frente do Palácio Rodoviário.

Na época, havia um único caminho entre a Vila Mamão e o muro do Sanatório Adriano Jorge, uma espécie de beco mal iluminado que terminava numa imensa jaqueira.

De lá em diante, dezenas de becos mal iluminados desnorteavam qualquer um que se aventurasse por aquelas plagas sem uma bússola decente.

Os meganhas só entravam ali com proteção policial.

O golpe, simples e funcional, consistia em alardear que Bazam havia aprisionado uma temida taturana também conhecida como tiranaboia.

A taturana estava presa embaixo de um chapéu, sobre um jornal, que os dois haviam acabado de estender no meio na rua.

Claro que não havia nada sob o chapéu de palha estilo Panamá, só que ninguém sabia.

As pessoas que se dirigiam para assistir ao concerto dos fuzileiros navais olhavam para a presepada sem esconder a curiosidade.

Alguns ficavam no meio do caminho para conferir a perigosíssima tiranaboia.

Também chamada de jequitirana, jitirana, taturana, cobra-de-asa, cobra-do-ar, cobra-voadora, cobra-cigarra, gafanhoto-cobra, jaciara e serpente-voadora, o verdadeiro nome da taturana é jaquinaraboia (do tupi iakyrána, “cigarra”, mboia, “cobra”).

Trata-se de um nome comum de vários insetos grandes (alguns chegam a medir 10 cm) e semelhantes a cigarras, que possuem um enorme ferrão no abdome utilizado para perfurar as plantas de onde retiram a seiva com a qual se alimentam.

A crendice popular afirma serem venenosos (“se bate numa árvore, esta seca, se bate numa pessoa, esta morre”), mas, na verdade, são insetos absolutamente inofensivos, que se alimentam do néctar das frutas e da seiva dos vegetais.

Nos anos 60, ninguém sabia disso.

Com sua voz de menestrel, Bob Nelson entrava macio como colher de alumínio em mamão maduro:

– Este bichinho chamado tiranaboia ou taturana, que está preso debaixo desse chapéu, é um dos mais temidos dentro da floresta amazônica. Segundo os mateiros, a tiranaboia só pode pousar sobre uma espécie de árvore. Caso pouse em alguma outra, ela automaticamente mata a árvore. Eu vi uma seringueira que morreu. Ela quebrou exatamente aonde a tiranaboia pousou, no meio do caule. Para a raça humana, a taturana também é muito perigosa. Caso ela trisque na pessoa, diz que a morte é certa.

Começava a juntar gente para ver a presepada.

Bazam fingia uma certa impaciência:

– Eu vou já soltar essa taturana, que ela está com muita fome! – dizia, enquanto se agachava em direção ao chapéu.

Bob Nelson o segurava pelo braço e o repreendia, fingindo nervosismo:

– Não faça isso, meu irmão. Tem muita criança no pedaço. Tu te lembras da merda que deu ontem lá na Matinha? Teve gente que saiu machucada durante a correria... Essa tua taturana é o cão chupando manga, ainda mais quando está desse jeito, morta de fome...

A curiosidade aumentava. O zum zum zum e o diz-que-diz-que iam atraindo mais gente.

Daqui a pouco, os dois já estavam cercados por dezenas de pessoas, implorando para ver a taturana.

Bob Nelson fingia uma exasperação calculada:

– Ô, meu irmão, isso aqui não é circo não! Essa tiranaboia é um terror! A gente vai precisar de uma graninha para cuidar dos mortos e feridos porque depois que ela sair de baixo do chapéu isso aqui vai se transformar no maior pandemônio... Ontem à noite, lá em Educandos, umas quinze pessoas foram parar no Samdu... Essa tiranaboia é perigosa! É muito perigosa!

Algumas pessoas contratadas previamente por eles começavam a colocar notas de um Cabral ao lado do chapéu.

Os incautos curiosos pegavam corda e começavam a depositar suas cédulas de Princesa Isabel, Dom Pedro II, Tiradentes e, em dia de fartura, até de Santos Dumont.

Todos querendo ver, ao vivo e em cores, uma autêntica tiranaboia.

Bob Nelson continuava a pregação, deixando a plateia cada vez mais nervosa e curiosa.

Quando o monte de grana atingia um valor considerado, Bob Nelson anunciava o grand finale:

– É agora que a jiripoca vai piar! – avisava, enquanto recolhia a grana depositada na folha de jornal. – Solta a taturana, meu irmão, que eu quero ver o circo pegar fogo!

Automaticamente, Bazam se ajoelhava, colocava rapidamente o chapéu na cabeça, levantava como se fosse impulsionado por molas, chutava a folha de jornal na direção da galera (a sincronia era perfeita, nem Charles Chaplin ousaria imitar) e berrava:

– Pega eles, taturana maldita! Mata a tua fome tirana, taturana miserável!

Por causa do susto, as pessoas querendo fugir da direção do chute do Bazam se chocavam uma com as outras, se machucavam e já achavam que aquilo era fruto da taturana em ação.

Em questão de segundos havia gente berrando, gente chorando, gente caindo no chão, gente sendo pisoteada, gente falando palavrões, cachorros latindo e mordendo gente, um inferno.

Enquanto o pandemônio se instalava, os dois aproveitavam para fugir correndo pelo beco da Vila Mamão até desaparecer no sem-número de becos existentes depois da jaqueira.

Na semana seguinte, repetiriam a façanha. Lá ou em outro lugar.

terça-feira, dezembro 24, 2019

A saga do Mestre Caramuru (Final)



Careca Selvagem, Caramuru Souza e Juarezinho Tavares

Em 1966, durante uma visita a Santarém, Caramuru encontrou novamente o jogador Leopoldo, que o convidou para jogar em um novo time da cidade, o Conser Clube, criado exclusivamente para desbancar os grandes clubes de Santarém no campeonato da 1ª divisão.

Os cartolas do novo clube contrataram uma verdadeira seleção: Aldo, Leopoldo, Cojoba, Pedro Olaia, Tarubá, Leopoldino, Joseli, Abdala e Caramuru, entre outros.

No primeiro turno do campeonato, o time foi a grande sensação, aplicando sonoras goleadas em todos os adversários.

Esbanjando talento e categoria, Caramuru e Abdala davam as ordens no meio de campo.

O Conser era um time invejável, com uma defesa segura, um meio de campo impecável e um ataque arrasador.

No segundo turno, entretanto, o time novato começou a ser boicotado pelos juízes nas partidas contra os chamados “clubes de tradição” (São Raimundo, São Francisco, América, etc.), sendo “tungado” desavergonhadamente na maior cara dura.

Irritados com a escandalosa roubalheira, denunciada diariamente pela imprensa falada e escrita, os cartolas do Conser Clube resolveram radicalizar e abandonaram a competição na metade do 2º turno.

De repente, da noite para o dia, vários craques ficaram desempregados.

Caramuru era um deles.

Desgostoso com aquela série de acontecimentos, ele resolveu abandonar o futebol e se mandou de Santarém.

O cartola Everaldo Martins foi buscar o craque na comunidade da Prainha e o levou para o São Raimundo.

Começava assim a sua nova trajetória.

O time alvinegro estava fazendo uma série de amistosos e Caramuru foi sendo testado nesses jogos.

O volante rapidamente se entrosou com seus novos companheiros.

Sua estreia foi contra o Sport Clube Bahia, de Sapatão, Baiaco, Romero e companhia.

O São Raimundo fez uma boa apresentação e começou a nascer o grande destaque no meio de campo, que ficaria marcado para sempre na memória de sua torcida: Caramuru e Amiraldo.

A equipe que enfrentou o clube baiano era formada por Genésio, Pedro Nazaré, Inacinho, Ricardo e Javali; Caramuru e Amiraldo; Manoel Maria, Mazinho, Nazareno e Espadim.

O volante e o meia armador deixaram o campo aplaudidos de pé pela torcida.

Na partida seguinte, foi a vez do São Raimundo enfrentar o São Cristóvão, do Rio de Janeiro.

Outro espetáculo de Caramuru no meio de campo alvinegro.

Os jogadores cariocas ficaram de boca aberta ao ver a beleza do grande futebol interiorano, com tanto atleta bom de bola (o ponta direita Manuel Maria chegaria ao Santos e depois à seleção brasileira).

Para o craque Caramuru, aquele foi um período de ouro, já que ele pode mostrar todo o seu grande talento enfrentando vários clubes do Sul do país e jogadores de alta categoria.

Para completar a satisfação do craque, apareceu outro adversário do Rio de Janeiro, o América, de Edu e Antunes, ambos irmãos de Zico.

Foi outra oportunidade de jogar com muita garra e mostrar novamente o seu talento.

Finalmente, o São Raimundo enfrentou o Flamengo, que trouxe em sua bagagem vários craques de renome como Ditão, Carlinhos, Nelsinho, Almir Pernambuquinho e Fio Maravilha.

– Foi uma partida inesquecível! – recorda Caramuru. – Perdemos, mas saímos de campo de cabeça erguida porque demostramos que em Santarém também se jogava bola.

Como aquele foi um jogo especial para Caramuru, ele relembra as duas equipes que se confrontaram no estádio Elinaldo Barbosa, superlotado de torcedores.

O São Raimundo formou com Genésio, Pedro Nazaré, Inacinho, Ricardo e Javali; Caramuru e Amiraldo; Manoel Maria, Mazinho, Nazareno e Pedro Olaia.

O time do Flamengo formou com Marco Aurélio, Luiz Luz, Ditão, Clair e Dione; Carlinhos e Nelsinho; Carlinhos II, Fio Maravilha, Almir Pernambuquinho e Antunes.



No mesmo ano de 1966, Caramuru ganhou o seu primeiro título pelo São Raimundo.

Depois de o América ter dado um show de bola em cima dos dois grandes, Leão Azul (São Francisco) e Pantera Negra (São Raimundo), e ter conquistado o campeonato de 1965, o São Raimundo voltou a ser campeão em cima de seu maior adversário, o São Francisco, com o futebol espetacular de Caramuru e de toda a sua equipe.

O Leão Azul tinha um bom time, mas não resistiu ao domínio dos alvinegros.

Uma das grandes armas do Leão já tinha ido embora, o centroavante Afonso, monte alegrense da gema (ele foi jogar no Clube do Remo, em Belém, e depois foi bicampeão do futebol amazonense pelo Fast Club, fazendo dupla com Edson Piola).

Mesmo assim não era fácil ganhar uma decisão contra o Leão Azul. Mas o Pantera Negra levou a melhor e foi campeão em 1966.

O São Raimundo tinha um excelente plantel: Genésio e Surdão (goleiros), Pedro Nazaré, Piraca, Inacinho, Ricardo Santos, Javali, Chico Cutite, Caramuru, Abdala, Amiraldo, Arinos, Manoel Maria, Caveirinha, Escapulário, Nazareno, Mazinho, Pedro Olaia e Espadim, entre outros.

Como perder com um timaço desse?

O São Francisco formava com Carlito, Guajará, Pedrinho Araújo, Jô e Acari; Pão Doce e Chico Imbiriba; Cabinha, Edvar, Bimba e Navarrinho.

Esta decisão aconteceu quando o futebol santareno era de fato respeitado pelo nível de qualidade de seus talentosos jogadores.

Caramuru ainda ficou jogando no São Raimundo até 1968. Depois retornou para Fordlândia.

Em virtude de metade de sua família já estar morando em Manaus, o craque retornou para a capital amazonense, onde foi trabalhar na Universidade Federal do Amazonas.

Nas horas vagas, a sua pelada era sagrada.

Caramuru fixou residência em Manaus, no bairro de São Francisco, mas, sempre que pode, viaja de férias para Fordlândia, sua terra natal, e para Santarém, cidade que o recebeu de braços abertos e que até hoje lhe devota um grande carinho.

Ele continua torcendo de longe pelo São Raimundo e tem lembranças inesquecíveis do saudoso Everaldo Martins, o cartola alvinegro responsável pela sua carreira no clube.

Casado com dona Terezinha, Caramuru vive em grande harmonia com seus filhos, todos casados e “peladeiros” contumazes: Marcos, Paulo, Zanata e Elton.

O gente-fina Marcos é presidente vitalício do Santos, um dos grandes times amadores de São Francisco.

Paulo Caramuru, engenheiro mecânico da Eletronorte, além de peladeiro é um partideiro de responsa.

Elton, o mais tranquilo dos quatro, é dono de uma distribuidora de bebidas e também se defende bem em um partido alto.

Vascaíno sadio, Zanata é a ovelha negra em uma família de flamenguistas doentes.

Ele foi batizado com o nome do craque flamenguista, mas quando começou a se interessar por futebol o ex-craque flamenguista já jogava no Vasco.

Zanata, claro, trocou de camisa.

Acontece.

A saga do Mestre Caramuru (Parte 1)



Pai Simão e Caramuru Souza

Ele tinha um toque de bola extremamente refinado e, por isso mesmo, detestava jogador que dava “bicuda” ou “isolava” a bola nas arquibancadas.

Era um volante moderno, nos anos 60, que atacava e defendia com igual desenvoltura.

Nasceu na terra que exportou vários craques para Santarém: Fordlândia, a cidade industrial que o magnata Henry Ford construiu no coração da Amazônia.

Em Santarém, ele jogou no Coser Clube, São Francisco e São Raimundo, onde foi campeão, e fez, juntamente com Amiraldo, um dos melhores meios-de-campo do futebol do Baixo-Amazonas.

Seu nome: Caramuru Borges de Souza.

Filho do comerciante Miguel Guimarães, um dos mais ilustres membros da colônia santarena residente em Manaus, Caramuru veio morar na capital amazonense quando ainda era criança.

Nos finais de semana, Pai Simão costumava apanhar o comerciante Miguel Guimarães em sua casa para passearem de carro pela cidade.

Meu pai, que possuía um táxi Aero Willys, conhecia o velho Miguel desde Santarém e mantiveram a mesma amizade em Manaus.

O jovem Caramuru começou a estudar no Colégio Dom Bosco e a disputar alegres peladas no Estádio General Osório do 27º BC (“Batalhão de Caçadores”).

Sua grande habilidade no trato da bola começou a despertar o interesse de muitos “olheiros”.

A primeira oportunidade aconteceu quando o São Lourenço, time que participava do campeonato amador da 2ª divisão, o convidou para defender as suas cores.

Caramuru tinha apenas 16 anos.

Depois de mostrar seu fino trato com a bola, sua fama estendeu-se aos clubes da 1ª divisão e o treinador do Auto Esporte assediou a família do garoto para que ele pudesse jogar no campeonato amazonense.

Dirigente e treinador do time, Cláudio Coelho foi o responsável pela ida do craque para o Auto Esporte, depois de convencê-lo a fazer o famoso “teste de campo” entre os reservas do time.

Bastou o primeiro treino para Caramuru ser aprovado logo de primeira, graças ao seu vistoso futebol.

Depois de alguns treinamentos, ele ganhou a posição de titular no time principal para fazer sua estreia contra um fortíssimo adversário, o tradicional Clube do Remo (PA), que trazia na sua bagagem jogadores como Smith, Socó, Mangaba, Casemiro, Zé Ferreira, Kiba, Sessenta e Dudinha, este oriundo do time São Francisco, de Santarém.

O adolescente Caramuru estreou no Auto Esporte com uma sensacional vitória de 3 a 0 contra o Leão Azul do Baenão.

Os heróis desta conquista do time baré, que ainda jogavam no esquema 2-3-5, foram Vicente, Guarda e Gatinho; Juarez, Gilberto e Joia; Silvio, Osmar, Mario Gordinho, Caramuru e Manoel.

Caramuru sagrou-se bicampeão do futebol amazonense nos anos de 1956 e 1959, e ficou jogando em Manaus até 1962.

Durante uma viagem de férias para Fordlândia, Caramuru encontrou a bordo do barco regional em que viajava o craque Leopoldo, que o convidou para tentar a sorte em um dos times da Princesinha do Tapajós.

A fama do craque bom de bola se espalhou em Santarém e a repercussão chegou até aos ouvidos de Antonio Turco, um dos dirigentes do São Francisco, que acreditou em Leopoldo e pediu o aval do então presidente do clube, Francisco Coimbra, para contratar o craque para o lugar de Mindó, que já estava pendurando as chuteiras.

Tudo isso ocorreu no ano de 1963. Caramuru foi recebido com festa pelo grande elenco do São Francisco: Gato, Tarol, Jô, Pedrinho Araújo, Edvar, Tovica, Afonso, Aluísio, Beleza Preta, Mindó, Coruja, Joseli e Leopoldo.

O time era treinado pelo famoso Raik e no comando fora do campo estavam Chico Coimbra, Dídimo Souza, Osmar Simões, Machadinho e Otaviano Matos.

Caramuru jogou algumas partidas amistosas pelo São Francisco.

Contra o Rio Negro, de Manaus, o time venceu por 4 a 0. Foi derrotado pelo Clube do Remo, de Belém, por 4 a 3. Empatou em 1 a 1 com o Moto Clube e perdeu para o Maranhão Atlético Clube por 4 a 2, ambos de São Luís.

O jogador, entretanto, não se ambientou no time azulino e se mandou para Fordlândia, onde foi por conta de um chamado da família para trabalhar na Petrobrás.

Acabou ficando três anos na empresa.

Maristóteles e os “perus” de dominó



Chico Costa e Simão Pessoa no Bar do Jacó

Abril de 1982. Um dos mais hábeis jogadores de dominó da Cachoeirinha, o comerciante Maristóteles, pai do Neto e do Totinha, tinha um prazer quase sádico em azucrinar os “perus” que ficavam palpitando durante as dramáticas partidas de dominó disputadas no Top Bar.

O engenheiro Chico Costa era um dos que mais sofriam em suas mãos.

De repente, com a partida quase no fim, Maristóteles perguntava o placar.

Quase sempre, sua dupla estava vencendo por uma diferença de mais de 50 pontos.

Ele, então, consultava as três pedras que tinha na mão, observava o jogo formado na mesa, fazia uma série de cálculos mentais e começava a falar para si mesmo, bem baixinho, mas audível o suficiente para o “peru” escutar, enquanto se preparava para sentar uma pedra:

– É... Não tem outro jeito!... Só dá pra fazer isso mesmo!... Vamos lá!... Seja o que Deus quiser!...

Postado em suas costas, vendo suas pedras e fazendo a mesma série de cálculos mentais, o “peru” começava a ficar nervoso.

E o nervosismo se transformava em dor, raiva, exasperação, desespero, quando Maristóteles, de pura sacanagem, sentava uma pedra que não tinha nada a ver com o desenrolar clássico da partida até mesmo na visão estreita de um leigo.

Numa espécie de uivo dolorido saindo do mais recôndito de suas entranhas, o “peru” lhe tomava as pedras da mão e gritava:

– Cavalo! Não era pra jogar essa aí não! Era pra jogar aqui nessa ponta, com essa pedra aqui, dando 50, mais 50 e dominó de 20! Cavalo! Invertebrado! Desgraçado! Filho da puta! Burro!

Maristóteles só faltava perder o fôlego de tanto rir da fúria, do desespero e das imprecações do sujeito.

O inigualável Pagode do Chibata



Março de 1986. Cada vez mais disposto a emular os bicheiros cariocas, Ivan Chibata resolveu montar um grupo de pagode.

Ele contratou o violonista Chiquinho da Baiana, um veterano frequentador do Bar Academia do Galo, no Boulevard Amazonas, conhecido reduto de chorões, pagodeiros e sambistas da cidade, para ser seu acompanhante em tempo integral.

Exímio instrumentista, Chiquinho da Baiana tinha quase 70 anos e estava na cara que não teria pique para acompanhar um bicheiro movido a glucoenergan na veia.

Mas ele topou, talvez porque estivesse precisando de um “agrado”.

Ivan Chibata comprou os demais instrumentos – atabaque, tantã, pandeiro, cavaquinho, banjo, agogô, frigideira, cuíca, tamborim – e, em companhia de Chiquinho da Baiana, começou a circular pelos botecos.

No início eram apenas eles dois (Ivan tocava um atabaque razoável e era metido a cantor), mas se algum presente quisesse participar da roda de pagode bastava pegar um dos instrumentos no porta-malas do carro e começar a brincar.

O Pagode do Chibata começava, invariavelmente, com uma música do João Nogueira: “Clara, / Abre o pano do passado, / Tira a preta do cerrado / Põe rei congo no congá / Anda / Canta um samba verdadeiro, / Faz o que mandou o mineiro / Ô mineira / Samba que samba no bole que bole / Ôi morena do balaio mole / Se embala do som dos tantãs / Quebra no balacochê do cavaco / E rebola no balacobaco / Se embola dos balagandãs / Mexe no meio que eu sambo do lado / Vem naquele bamboleado / Que eu também sou bam, bam, bam / Vai cai no samba cai / E o samba vai até de manhã / Vai cai no samba cai / E o samba vai até de manhã / Ô saravá mineira guerreira / Que é filha de Ogum com Iansã”.

Além de João Nogueira, o repertório tinha Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila, Almir Guineto, Candeia, Monarco, Dona Ivone Lara, Walter Alfaiate, Martinho da Vila, Fundo de Quintal e por aí afora.

O circuito dos bares era bem conhecido.

Ivan começava no Bar do Aristides, por volta das 16h de sábado.

Depois de três horas de agito, ele recolhia os instrumentos e o violonista e ia pro Bar da Alzira, depois pro Bar da Dolores, depois pro Bar da Loura, depois pro Bar do Russo, depois pro Bar do Camaleão, e só parava a cantoria quando o dia estivesse amanhecendo.

O dia de segunda-feira, bem entendido.

O bicheiro também tinha outras bossas.

Era comum, no meio da roda de pagode, Ivan Chibata pedir um tempo e anunciar:

– Agora o meu atabaque vai soar igual caixinha de guerra!

Aí, retirava do pescoço um cordão de ouro de dois dedos de grossura, colocava em cima do couro do atabaque, e começava a bater nas laterais do instrumento.

O som do pesado cordão sobre o couro do atabaque imitava realmente o som de uma caixinha de guerra.

O mulherio que assistia essa presepada só faltava ter orgasmo.

Para entrar no carro do Ivan Chibata e acompanhar o bicheiro exibicionista e podre de rico pelo resto da noite era conta de multiplicar.

Uma madrugada, quando já estava no Bar do Camaleão, Ivan Chibata percebeu que o diamante de 25 quilates de seu imponente anel de ouro havia caído. Só restava o buraco da pedra no anel.

Ele recolheu os instrumentos e, junto com os acompanhantes, empreendeu uma verdadeira via sacra pelos bares aonde já havia tocado antes.

Era hilariante ver aquele monte de gente agachado entre as mesas procurando pelo diamante fujão. A pedra foi recuperada no Bar do Aristides.

O sujeito que encontrou o diamante foi agraciado na mesma hora com R$ 5 mil em espécie.

Segundo Ivan Chibata, a recompensa equivalia a 1% do valor real do brinquedo. Era um exagerado.

No sexto mês de existência do inigualável Pagode do Chibata, o violonista Chiquinho da Baiana já havia se transformado em um verdadeiro zumbi.

Ele aproveitava cada intervalo musical para tirar um cochilo, o que deixava o bicheiro puto da vida.

– Vamos trabalhar, meu compadre, vamos trabalhar! – berrava Ivan Chibata, vibrando o atabaque com violência. – A gente ainda tem mais três apresentações pra fazer. Se o senhor continuar dormindo desse jeito não vai receber um tostão...

Chiquinho da Baiana despertava assustado, se recompunha e recomeçava a dedilhar o violão de sete cordas.

Três meses depois, o violonista pediu arrego:

– Olhe, seu Ivan, eu gosto muito do senhor e preciso muito desse emprego, mas não tenho mais saúde para ficar tocando 36 horas seguidas, só se alimentando de cerveja Brahma, cigarro Carlton e isca de queijo coalho2...

A revelação foi um choque. Até então Ivan Chibata não sabia que as pessoas precisavam ingerir carboidratos, gorduras e proteínas para não morrer de fome.

O Pagode do Chibata acabou na mesma hora.