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quinta-feira, julho 09, 2009

Grande Mestre da AMOAL - Seccional Passo Fundo (RS): Tarso de Castro


Diferentemente da maioria de nós, que descendemos dos macacos, o gaúcho Tarso de Castro parecia um descendente dos cavalos: cavalgava sobre os amigos, os inimigos, as mulheres e sobre si próprio, sem se importar com os estragos provocados pela força dos cascos a galope. Era brutal e sedutor. E, por mais que tentem apagá-lo dos registros, ficará na história e na lenda como o criador do Pasquim.

É verdade que mais na lenda do que na história – porque ele não o criou sozinho. Jaguar e Sérgio Cabral foram seus sócios na origem do jornal, em 1969, sem falar no brilho individual dos primeiros colaboradores, como Millôr Fernandes, Ziraldo, Claudius, Fortuna, Henfil, Luiz Carlos Maciel, Paulo Francis e o diretor de arte Carlos Prospéri.

Mas, com sua audácia e criatividade, Tarso foi o amálgama inicial para a imagem debochada do Pasquim, numa época em que o AI-5 acabara de fechar os canais políticos sérios. O sucesso foi incrível: dos 12 mil exemplares iniciais, o jornal passou a 200 mil por semana em apenas cinco meses.


Ele tinha a vocação para criar jornais e o talento para fazê-los, mas sua irresponsabilidade os condenava à vida curta. Sob sua administração, o Pasquim passou a levar uma feroz vida social fora da redação: fechava bares, alugava aviões e se instalava em hotéis de luxo. Um cartão de crédito em seu bolso era um foguete para Júpiter.

Nas boates, quando uma garrafa de uísque caía da mesa e começava a derramar, a ordem de Tarso aos garçons era deixá-la esvaziar-se. Quando se descobriu que, com menos de dois anos de vida, os lucros do jornal também tinham escorrido para a Escócia e o prejuízo já parecia impagável, os sócios o afastaram para que o Pasquim pudesse sobreviver.

O Tarso que chegara ao Rio em 1962, vindo do Rio Grande do Sul para trabalhar com Samuel Wainer na Última Hora, era irreconhecivelmente simples e moderado. Na verdade, levou anos vivendo completamente anônimo no Rio. Mas o sucesso o transformou e o estrondo do Pasquim investiu-o de um poder que poucos podiam disputar.

Tornou-se um personagem: em qualquer lugar em que estivesse, era o que bebia mais, o que falava mais alto e o que saía com a mulher mais bonita. E não economizava suas opiniões: seus ódios ou admirações eram proclamados por escrito ou, ao vivo, nos botequins. Tinha multidões de afetos e desafetos, mas ninguém podia negar-lhe a coragem.

Pode-se dizer que Tarso foi para a cama com todas as mulheres que quis. Era um frenesi erótico que fazia pipocar úlceras até em seus amigos mais bem-sucedidos nesse terreno. Os inimigos, então, queriam comer vidro moído ao saber de algumas de suas conquistas.

O estoque das mulheres de Tarso incluía as que ele acabara de conhecer; as que conhecera pouco antes e estava guardando para um dia de chuva; e as que já conhecia havia muito tempo, inclusive as dos amigos. As mulheres o achavam alegre, bonito e irresistível.

Ele também se achava. Quando declarou no Antonio’s (onde nunca pagou um uísque) que precisava de dinheiro para ir à Bahia encontrar a estrela Candice Bergen (então filmando por lá), os amigos cotizaram-se e forneceram o dinheiro, torcendo para que Candice lhe desse um chute que o devolvesse voando ao Rio.


Tarso foi – e teve com ela um caso que se prolongou por Búzios, pelo Rio e por várias cidades onde houvesse uma cama. Em sua autobiografia, ela descreveu Tarso como “um ex-guerrilheiro que entrou em Havana com Che Guevara”. Ou seja, a pateta acreditou em tudo que ele lhe disse.

Daí a tempos, de volta aos Estados Unidos, Candice escreveu a Tarso para dizer que não se veriam mais porque iria casar-se com o cineasta francês Louis Malle (famoso por ser baixinho). Tarso apenas comentou, resignado: “Dos Malles, o menor”.

Seus amigos eram Chico Buarque, João Ubaldo Ribeiro, Luiz Carlos Maciel, Hugo Carvana, José Lewgoy, Leila Diniz, Regina Rozemburgo, Antonio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes, Ricardo Amaral, Julinho Rego, César Thedim, Leonel Brizola. Os inimigos eram todos os que falassem contra seus amigos, com ou sem motivo justo.

Para vingar-se de Jaguar, que o classificara como um “provinciano deslumbrado”, publicou o anúncio de “falecimento” do cartunista na Folha de S. Paulo. Quando ele próprio, Tarso, morreu, seus amigos escreveram obituários carinhosos, mas nem eles puderam esconder o quanto Tarso os incomodava. “Defeitos visíveis e qualidades nem sempre visíveis, sobretudo para quem o via de longe, ou o sofria por perto”, escreveu Otto Lara Resende na Folha.

Sua morte já estava anunciada desde pelo menos 1988, quando os quase trinta anos de álcool em quantidades industriais provocaram-lhe uma cirrose hepática. Otto escreveu também: “O riso apagava no rosto o vinco das noites boêmias. A vida jogada fora, num gesto de desdém e rebeldia. Mas onde está a vida dos que a depositaram na poupança?”.

O objeto da frase era Tarso, mas ela poderia igualmente aplicar-se a Zequinha Estelita, Roniquito de Chevalier, Hélio Oiticica, Cazuza e a outros personagens de Ipanema que nunca se pouparam para a vida – ou para a morte. Uma coisa é certa: Tarso nunca se arrependeu de nada.

Na verdade, Tarso de Castro (1941-1991) é um tempo que acabou. Não por culpa dele ou de alguém em particular, mas porque o tal curso da história parece ter fechado as portas para jornalistas combativos (no sentido de raivosos e parciais), polêmicos (de fato, não os caricatos), idiossincráticos (ele escrevia o que vinha na telha, normalmente umedecida pelo álcool) e apaixonados (atacava e ridicularizava os inimigos da hora, que podiam ser os amigos de ontem ou de amanhã).


Como tudo que o envolvia, a biografia “Tarso de Castro - 75 kg de Músculos e Fúria” é passional. Seu autor, o jornalista Tom Cardoso, considera esse adjetivo forte. Prefere dizer que procurou fazer justiça ao personagem, um dos homens de imprensa mais polêmicos do país entre os anos 60 e 80. “Apesar de ser um porra-louca, um homem de bar, Tarso era um profissional responsável, um fazedor de muitas coisas. Infelizmente, pouco se fala dele hoje”, diz Cardoso.

Gaúcho de Passo Fundo, filho de um dono de jornal e cacique trabalhista local, Tarso herdou do pai as paixões por jornalismo e Leonel Brizola - paixões que se fundiram mais de uma vez.

Adolescente, já incomodava com seu estilo sarcástico-abrasivo em O Nacional, jornal do pai. Passo Fundo ficou pequena, foi para Porto Alegre, para a Última Hora gaúcha. O Rio Grande ficou pequeno, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde conquistou uma coluna na Última Hora em que ironizava ou atacava mesmo os militares. Em 1969, ajudou a criar o mais importante dos jornais de esquerda surgidos durante a ditadura.

“Quis fazer justiça, especialmente, quanto à criação do Pasquim. Tarso é quem foi convidado para substituir Sérgio Porto (editor de A Carapuça, que se transformou em O Pasquim), ele foi o grande catalisador. Hoje, até gente que teve participação pequena é mais associada ao jornal do que ele”, diz Cardoso.

Dos dois mais notórios desafetos de Tarso dessa época, o autor conseguiu entrevistar Ziraldo, mas não Millôr Fernandes, que não respondeu a seus pedidos. Millôr acaba saindo do livro como uma espécie de vilão, em especial por ter sido o único prócer do Pasquim a não ser preso pelos militares.


A carreira de Tarso teve outros grandes momentos na Folha, por onde passou três vezes: entre 1975 e 77, quando foi editor da Ilustrada e criou o Folhetim, suplemento dominical lançado em 23 de janeiro de 1977 e que foi revolucionário na época, com grandes entrevistas, perfis, reportagens e colunistas de peso, tratando de política, cultura e comportamento; entre 1982 e 85, quando assinou uma muito lida coluna na Ilustrada; e na Folha da Tarde, entre 1988 e 91.

Conquistou a admiração do dono do jornal, Octavio Frias de Oliveira, e de Claudio Abramo, diretor de Redação, mas, durante sua segunda passagem, bateu de frente com as mudanças que vinham sendo implantadas. Perdeu sua coluna por “divergências com as concepções jornalísticas em prática na Folha”, conforme nota do jornal reproduzida no livro. Cardoso cita entreveros que culminaram com sua saída.

O autor veste, no livro, a camisa de seu (anti-)herói. Isso não significa que tenha omitido características fundamentais de Tarso. Estão lá o irascível, o incontrolável, o inconciliável, o intransigente, o inveterado alcoólatra que não admitia se tratar e morreu de cirrose hepática aos 49 anos (“Prefiro viver pela metade por uma garrafa de uísque inteira a viver a vida inteira bebendo pela metade.”).

Também estão o bem-sucedido sedutor, que conquistou muitas e até inalcançáveis mulheres, como a atriz norte-americana Candice Bergen, e o dono de amizades fidelíssimas com Chico Buarque, Caetano Veloso, Glauber Rocha e outros.

“Eu gostaria de ter sido jornalista naquela época, quando havia uma cumplicidade entre artistas e jornalistas. Tarso ia a campo, conseguia muitas pautas e entrevistas no bar”, diz Cardoso.

Sua admiração pelo personagem permite que as versões de Tarso sobre os fatos sobressaiam, mesmo que às vezes haja um tanto de folclore nessas versões. Mas também confere paixão ao relato sobre um homem que sempre foi passional.

Com uma lista de amigos de fazer inveja, Tarso de Castro podia ser visto - no mesmo dia - debatendo com Glauber Rocha no Veloso; cantando baixinho com os bossanovistas no apartamento de Nara Leão; curtindo o desbunde com os tropicalistas nas Dunas da Gal (apesar de detestar praia); discutindo política econômica com Roniquito de Chevalier (e poesia com Carlinhos Oliveira) no Antonio’s...

Ninguém se iluda: Tarso de Castro foi um dos mais polêmicos e debochados jornalistas brasileiros. Passional, brigão e sedutor, valia-se do charme não apenas para conquistar mulheres, mas também chefes austeros como Samuel Wainer, Cláudio Abramo e Octávio Frias.

Numa só tacada, por exemplo, conseguiu aumentar as vendas do jornal Zero Hora (RS) e arrumar casamento. Como? Estampando na capa do caderno de Cultura, que editava, Bárbara Oppenheimer, uma das mulheres mais bonitas da cidade e, de quebra, bisneta do fundador do Correio do Povo, principal concorrente do ZH. Pouco depois, em 1968, os dois se casaram e partiram de fusca para o Rio de Janeiro, onde Tarso iria começar uma aventura jornalística mais profícua.

Tarso, que nas palavras de Otto Lara Resende era o menos convencional dos homens e parecia ter um pacto com a felicidade, foi responsável pelo surgimento do único sopro criativo da imprensa brasileira na virada dos anos 60, O Pasquim.

Recrutados praticamente todos em mesas de bar, Jaguar, Sergio Cabral, Ziraldo, Fortuna, Luiz Carlos Maciel, Paulo Francis, Paulo Rangel e Millôr Fernandes fizeram o que seria “a piada do ano”, na previsão furada de Millôr: um jornal feito só por jornalistas, e de humor, em pleno AI-5, “que se fosse independente não duraria seis meses”. Durou mais de 20 anos.

“O Pasquim era a revolução dentro da revolução. Ali se deflagram todos os movimentos. A revolução do jornalismo, a libertação do coloquial, a viabilização do esquerdismo, a libertação do humor e do feminismo, a explosão da contracultura, o desatamento do movimento gay. Era a imagem e semelhança de seu criador, Tarso de Castro”, compara Tom Cardoso.

As presepadas desse autêntico espada matador eram hilárias. Em agosto de 1961,Tarso de Castro foi mandado pelo Jornal do Dia (da Igreja Católica) a Punta del Este cobrir a Conferência Econômica e Social da OEA (Organização dos Estados Americanos). Ele mandava carradas e mais carradas de matérias por telex para o jornal, que aparentemente custavam os olhos da cara pros padres de Porto Alegre.

Na Conferência estava o Ministro da Indústria e Economia de Cuba, Ernesto Che Guevara. O editor de política do Jornal do Dia - que segundo os maldosos pagava os funcionários 15 dias em dinheiro e 15 dias em indulgências plenárias - Carlos Fehlberg mandou dizer a Tarso que não se esmerasse tanto porque o material, evidentemente, não seria publicado (o que é a maior frustração para um repórter).


Restou para Tarso a compensação de mais tarde usar essa foto que fez ao lado do comandante Che para conquistar a atriz norte-americana Candice Bergen. Ele disse a Bergen que a foto fora feita assim que desceram de Sierra Maestra e que ele era um dos revolucionários que haviam combatido a ditadura de Fulgêncio Batista em Cuba. Prontamente conquistou a ingênua norte-americana.

Tarso de Castro morreu em 20 de maio de 1991 e foi enterrado em Passo Fundo. Quando chegou lá, o corpo foi recepcionado no aeroporto local por uma turma muito grande de pessoas. O delegado Romeo Tuma, então diretor da Polícia Federal, estava no aeroporto e perguntou de quem se tratava. Disseram que era do Tarso, filho do dono do jornal O Nacional:

- Ah, já sei, era aquele boca suja da muléstia! – disse Tuma

Numa das ocasiões em que se comemorava a Semana Nacional de Literatura, em Passo Fundo, os irmãos Chico e Paulo Caruso estavam na cidade e foram comemorar no túmulo de Tarso. Quase se desidrataram de tanto chorar, segundo relato de Ana Luiz, editora-chefe do jornal O Nacional. Parece que o cartunista Edgar Vasques também esteve nesta ocasião junto dos irmãos Caruso, que eram amigos íntimos de Tarso (o primeiro a publicar suas charges e cartuns). E dizem que os três visitantes passaram a noite tomando uísque em dose industrial e relembrando causos à beira do túmulo do falecido amigo.

Quando morava em Porto Alegre, segundo Cesar Tasca, que foi garçom da churrascaria Barranco, nos anos 70, Tarso de Castro freqüentou o local quase diariamente sempre na companhia de Paulo Odone, atual deputado estadual do PPS e presidente do Grêmio. Tarso também costumava aparecer no recinto com belas companhias femininas, como uma vez em que quase matou os homens de inveja ao entrar na churrascaria com a então exuberante cantora Fafá de Belém. O cara era um autêntico bode de caatinga: comia tudo que via pela frente e, ainda por cima – dizem –, tinha uma jeba descomunal.

Tarso de Castro teve um único filho (e seu relacionamento com ele foi dissecado no comovente “Pai solteiro e outras histórias”, único livro escrito pelo jornalista), que parece estar seguindo as pegadas do pai, conforme relato da jornalista Bárbara Gancia em seu blog, no último dia 18 de maio:

“Não tem nada de misterioso o publicitário João Vicente Castro, que foi fotografado com Daniela Cicarelli numa festa qualquer no sábado passado. Eu, por exemplo, o conheço desde o dia (ou perto disso, vá) em que ele deixou a maternidade. Talentoso, urbano e lindo, João Vicente puxou a inteligência do pai, o jornalista Tarso de Castro, morto em 1991, e a curiosidade da mãe, a designer cultesiméssima, Gilda Barbosa. Trata-se de um pedaço de rapaz, maduro, sério, viajado e que sabe de tudo um pouco e a Cicarelli deveria levantar as mãos aos céus apenas por respirar o mesmo ar que ele. E tenho dito.”

Corram atrás do livro do Tom Cardoso para recordar esse jornalista genial, homeboys! Eu recomendo.

Grande Mestre da AMOAL - Seccional Vitória (ES): José Carlos Oliveira


José Carlos Oliveira, entre Rubem Braga e Vinícius de Moraes. Atrás, Paulo Mendes Campos e Sérgio Porto. Ao Lado, Fernando Sabino.

Nos primeiros dias após o golpe militar de 31 de março de 1964, Ferreira Gullar se escondeu da repressão com os jornalistas Newton Carlos e Jânio de Freitas no sítio de outro jornalista, Reynaldo Jardim, perto de Nova Friburgo, estado do Rio. O jornalista Carlinhos Oliveira já estava lá desde 28 de março, mas escondendo-se do marido de sua amante.

Carlinhos estava com 30 anos e já era endeusado, na época, como o melhor cronista do Brasil. Ele também tinha o hábito, desde os 14 anos, de escrever uma espécie de diário íntimo em dezenas de cadernos e, dessa vez, sem nenhuma maldade, escreveu no seu diário que alguns amigos haviam chegado ao sítio e citou os nomes.

Um dia foi a Friburgo fazer compras e ao voltar viu no caderno que as cinco linhas sobre a chegada do grupo haviam sido cortadas com gilete. Carlinhos sentiu-se humilhado, esbravejou e foi embora. Nunca mais voltou a falar com Ferreira Gullar com quem, dez anos antes, havia dividido um quarto de pensão no Catete.

Em 1981, quando publicou seu romance à clef intitulado “Um novo animal na floresta”, que versava sobre a guerrilha urbana, Carlinhos deu o troco: ele usou os pseudônimos de João Ribas e Dolores para descrever e avacalhar o poeta Ferreira Gullar e sua esposa, a atriz Teresa Aragão.

No mesmo ano, inconformado com a crítica desfavorável ao livro publicada na revista IstoÉ pelo jornalista Geraldo Galvão Ferraz (ele acreditava que Ferreira Gullar é quem havia escrito o artigo), ele vociferou, por meio da crônica que escrevia diariamente no Jornal do Brasil: “Não serei assassinado por esses comunistas que mataram Glauber Rocha, João do Rio e Lima Barreto!”

Carlinhos imaginava injustamente que a resenha que espinafrava o livro era parte de um complô contra ele. Não era. Morreria em 1986, aos 51 anos, vitimado pela pancreatite e pela diabete. Desde então, mesmo sem complô, sua obra foi praticamente enterrada.

Tratamento inexplicável para um estilista da crônica que durante 23 anos escreveu cinco vezes por semana para o Jornal do Brasil, além de colaborar em outras publicações como a revista Homem, que depois virou a Playboy, com qualidade comparável à de Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Rubem Braga.


Esse lapso começou a ser reparado com o relançamento de seus livros pela editora Civilização Brasileira, por iniciativa do jornalista Jason Tércio, que em 1999 escreveu a sua biografia (“Órfão da Tempestade”).

Na semana passada, o livreiro e poeta Celestino Neto, o “Lé”, passou aqui em casa e me deixou de presente o livro “Diário Selvagem” (um catatau de 518 pp), editado postumamente, que li em menos de 48 horas e já vou emprestar para o poeta Aldisio Filgueiras porque tem tudo a ver com a gente.

A primeira vez que li alguma coisa do cronista foi por meio de uma entrevista que ele deu ao Pasquinzão de Natal, em 1976. Pelo que Carlinhos Oliveira disse na entrevista, ele já havia comido metade das socialites do Rio de Janeiro – e a outra metade seria questão de tempo. Feio que nem um cão chupando manga, ou o cronista tinha uma conversa de derrubar avião ou era um ficcionista do cacete.

Comprei seu segundo romance “Terror e Êxtase”, editado pela Codecri, e achei uma merda. Mas aí o poeta João Bosco Ladislau me emprestou dois livros dele, de crônicas (“O saltimbanco azul” e “A revolução das bonecas”), e tive de rever meus conceitos. O sacana escrevia bem pra burro.

Mais tarde, li seu terceiro romance (“Um novo animal da floresta”) e também gostei muito, apesar de continuar achando que suas crônicas – pelo retrato de época e pela boemia carioca, que ele soube retratar como poucos – eram infinitamente superiores aos romances. Mas esse seu livro póstumo foi um autêntico uppercut no fígado.

No “Diário Selvagem”, o charme e a tensão da época ficam em segundo plano. Aparece o drama pessoal do autor, que lutava contra a doença para tentar inscrever seu nome entre os maiores ficcionistas da literatura.

No relato dessa busca, revela a alma poética, solitária, egocêntrica e sacana. Um texto visceral como não se faz mais nesses tempos em que até as confissões íntimas são copidescadas ao gosto do mercado.

É essa uma das maiores qualidades do diário: a exposição do autor por inteiro, sem pudores morais ou físicos. Em vários trechos, o capixaba franzino, de óculos e cabelos ralos, lamenta ter que escrever por dinheiro. “O pior é não ter mais ânimo para escrever baboseiras de revista ‘masculina’. Que farei da minha vida? Vem aí uma crise econômica medonha.”

Ele queria se dedicar ao fazer literário, caminhar para onde seu ego apontava. Comparava-se a Hemingway, considerava elogios que o igualavam a Faulkner. Inflava-se assim, talvez, para seguir escrevendo em meio às brutais dores no pâncreas, e à hemorragia, que o obrigavam a um coquetel de remédios.

Maltratado pela doença e pela luta para curar-se, mesmo assim conseguia priorizar a criação. “Escuto o pensamento: está silente, no vestíbulo do murmúrio, antes do som e da sílaba. Me agradaria viver, dia e noite, nesta região.” Apesar de assíduo no burburinho dos bares, mal sabia lidar com os que o cercavam. “O mundo real me parece impenetrável. Ainda não sou meu contemporâneo.”

Era humanista, mas não marcou posição política nos anos de chumbo da ditadura. Temia, por isso, que os intelectuais de esquerda o boicotassem, como fizeram com Glauber Rocha, seu amigo.

Entre esses “comunas”, como dizia, incluiu o poeta Ferreira Gullar, com quem se indispôs. Cunhou então os verbos “glauberizar”, como sinônimo de perseguição, e “caetanizar”, como sinônimo de alienação.

A trajetória de um outsider

Em 1952, vindo do Espírito Santo, José Carlos Oliveira, com 18 anos, pisava nas pedras polidas da Guanabara. Duro, sem contatos em uma cidade de dois milhões e meio de habitantes e sem pouso certo, foi direto ao que interessava: o bar Vermelhinho, meca dos intelectuais, boêmios, artistas, jornalistas e políticos no coração da capital, na rua Araújo Porto Alegre. Em pouco tempo, era tão íntimo do bar quanto as mesas e cadeiras.

José Carlos Oliveira, rapidamente, passa a escrever na revista Manchete e no Jornal do Brasil (onde escreveria por 23 anos ininterruptos), além de Cigarra e do lendário Diário Carioca. Passa a escrever crônicas, estilo que, durante sua formação, não vislumbrava. Porque Carlinhos de Oliveira projetara sua maldita e bêbada trajetória para ser romancista – dos bons.

Mas sua vida facilitava a nova frente de trabalho: observador dos bares e das ruas, pensador franco atirador, olho-míssel nas cocotas e nos desvãos da vida urbana. Cronista da linhagem de Bastos Tigres, Emilio de Meneses, Lima Barreto (seu santo protetor), Marques de Rebelo e muitos outros.

Após morar com Ferreira Gullar em pensões no Catete, José Carlos Oliveira mergulha de cabeça no eixo Copacabana-Ipanema-Leblon e nunca mais volta. Os bares do Beco das Garrafas, os porres com cheiro de mar no Alcazar e no Castelinho, as bocas e bundas liberadas da nova Ipanema do Veloso, do Mau-cheiro, do Zeppelin e do Jangadeiros, abraços e ódios com os maiores heróis da cidade, tudo filtrado em suas crônicas.

Tornou-se um dos primeiros colaboradores fixos do antológico Suplemento Dominical do Jornal do Brasil – o SDJB. Tornou-se, para o mundo todo, Carlinhos Oliveira, porque era baixo (1,68 cm), franzino (52 kg) e possuía uma alma de passarinho.

A década de sessenta adentra o ventre do país e rasga as cabeças dos malucos de botecos e revolucionários artistas do Centro Popular de Cultura (CPC). Carlinhos Oliveira, na varanda do Antônio’s (Bartolomeu Mitre com Ataulfo), torna-se o cronista perplexo com a radicalização do homem brasileiro.

O pensamento boêmio não casa com a ditadura ou a guerrilha. As crônicas tornam-se contundentes, diretas, comportamentais, agonizantes, os temas e a linguagem ficam cada vez mais elaborados. O cronista passa, finalmente, a dar lugar ao romancista. Talvez, tarde demais.

O romancista José Carlos de Oliveira torna-se refém do cronista Carlinhos Oliveira. O cronista publica dois livros antes do romancista: Os olhos dourados do ódio (1962) e A revolução das bonecas (1967). Seu primeiro romance foi O Pavão desiludido (1972). Em 1978, seu grande – e único – best seller: Terror e Êxtase. O livro narra como saga urbana, ágil e alucinada, a relação entre o bandido assassino 1001 e Heleninha, filha de família rica de Ipanema. O livro vende mais de 15 mil cópias. O romancista José Carlos Oliveira, porém, continua sendo Carlinhos Oliveira.

A vida de José Carlos e Carlinhos é extensa demais para descrever aqui. O que não pode deixar de ser lido para se entender algumas das premissas do Brasil como frustração é o seu “Diário Selvagem”, publicado postumamente pelo seu biógrafo Jason Tércio.


O “Diário” é simplesmente uma das peças literárias mais fortes, diretas e fundamentais da literatura anos-70 em Pindorama. As entranhas de um escritor classe-média se contorcendo literalmente (Carlinhos sofria de pancreatite crônica e falência do fígado) em meio a uma ditadura militar que o envolvia e o enojava.

Muitos dos trabalhos sobre esse período não conseguem dar conta da vivência cotidiana de alguém que nem foi guerrilheiro, nem foi exilado. Carlinhos Oliveira / José Carlos Oliveira era um escritor torturado não só pela situação política como pelo seu embate com a Literatura, sua sina de ser um romancista “menor”, sem um grande livro, sem conseguir escrever o “romance brasileiro moderno”, algo que ele buscava em suas visões alcoolizadas.

Seus romances não ganharam a amplidão que ele buscava, seu grande sucesso fora um folhetim (“Terror e Êxtase” foi publicado em capítulos no JB). Falências, vergonhas, paranóias e sucessos que não o bastavam iam consumindo sua vida no início dos anos oitenta. Morre em Vitória, sua cidade natal, desiludido com o Rio de Janeiro, com o Brasil e com o Homem.

Em seu Diário, a frustração plena pelo estágio decrépito e carcomido que seu corpo, suas idéias, sua trajetória e o Brasil atingiam vem à tona sem filtros. A frustração de José Carlos Oliveira é a utopia realizada de Carlinhos. O romancista cerebral sucumbe frente ao cronista frívolo, o intelectual disciplinado é engolido pelo bêbado do Antonio’s. O cronista Carlinhos Oliveira afaga e afoga o romancista, dia-a-dia, até sua morte.


Trechos do diário:

29 de março de 1977

“Teoricamente bem. Melhor seria controlar o consumo de cigarros, mas me privo de tanta coisa no momento que seria uma injustiça. Ontem estive com Bruno, filho de Marcos de Vasconcellos, que com sua gatinha Kátia veio me procurar. Bom menino, escreve poemas ainda neuróticos, sem pé nem cabeça, mas se tiver um grão do talento do pai será algum dia um verdadeiro escritor. Está com 19 anos, Kátia é jovem, bela, e também escreve. Fiquei com inveja. Eu tão só e aquele boboca, feioso, meio debilóide, que conheço desde criancinha, namorando firme uma bela garota calma e carinhosa... Merda!”

21 de dezembro, 1977

“A propósito de Terror e êxtase: Mesmo com arma na mão, mesmo massacrando, torturando, humilhando o outro, o brasileiro encontra uma brecha pela qual manifesta sua alegria de viver. Assim, o homem cordial seria a besta feroz por definição, por ser o único animal que continua rindo enquanto esfola o seu semelhante. Ainda mais horrível e, ai de nós, maravilhoso: a vítima, sendo brasileira, também encontra jeito de soltar uma gargalhada enquanto a esfolam”.

6 de janeiro de 1978

“Um punhal pode passar gerações inteiras servindo para cortar páginas dos livros, numa atividade inofensiva e solitária. Só quando a mão de um assassino o empunha é que o punhal se torna sanguinário”

26 de agosto de 1978

“Agora vem Danusia Bárbara me entrevistar a mando de M.P. Esse aí não sossega: quer me derrubar de qualquer jeito; indivíduo perigoso por estar friamente cônscio de ser movido por forças irracionais / inconscientes. Não tenho dúvida que M.P. é psicopata. E eu tenho que conviver com essa gentalha, essa merdalhada humana. Os brasileiros me dão asco (Trêmulo de cólera, não posso continuar a escrever)”.

3 de dezembro de 1978

“Tenho que guardar os diários numa caixa, cuidando que traças e outros bichos não os destruam. Posteriormente serão datilografados. Se minha situação financeira estiver boa ano que vem, posso contratar uma secretária. O fato de ser escritor faz de meus cadernos fonte permanente de consulta. Por isso convém que sejam divididos Em assuntos (na medida do possível), tempo e lugar. Por necessidade de progresso espiritual, seriam inúteis se ao me debruçar neles eu não fosse a posteridade mesma”.

12 de janeiro de 1981

“O Otto escreveu sobre homicídios, ontem no Globo. Sustentou a tese de que o assassino, dentro de si (no foro íntimo) já está devida e severamente punido. O advogado Otto, o procurador do Estado Otto Lara Resende considera o julgamento de criminosos mera formalidade... E se diz escritor, e católico, e humanista, e liberal, e todo mundo acredita nisso. Compreendo minha solidão e meu estigma: outro dia vislumbrei um olhar de inveja mortal no rosto de Paulinho Mendes Campos. Eu posso falar de qualquer pessoa porque li o livro, porque sou escritor, porque não trapaceio. Mas o sucesso é do Otto, a seriedade existencial é do Paulinho, o estilo é do Fernando Sabino, o gênio é de Ferreira Gullar. Não há mais tempo para fugir à minha vocação e ao meu destino. É assim que quero este diário: tudo dito, nada retórico.”

12 de dezembro de 1984

“Vargas Llosa: Contra ventos e marés. Comovido, humilhado, ciente da injustiça que me esmaga, nessas páginas me encontro com um José Carlos Oliveira peruano. A semelhança é ofuscante. Mas nesse nível de grandeza ingênua não haveria justificativa social para um boicote inarticulado. A mediocridade brasileira, todavia, faz de mim um escritor maldito. Eles me malditizam por imitação.”

10 de novembro de 1985

“No Rio. Hoje de manhã, acordando de um sono tranqüilo, compreendi que o romance brasileiro não foi escrito nem houve avanço na arte narrativa. Admiti uma falha trágica: de tanto procurar um romance popular, cuja produção me asseguraria prosperidade, menosprezei o movimento popular transformador, mas me tornei um funcionário aplicado na profissão literária, preso aos formatos preexistentes, não ousando quebrar as estruturas petrificadas. Meu sonho de romancista era um sonho modesto, sem fundamento. Comigo morre um anseio. Há que viver agora modestamente, apegado aos salários que me venham, ao vil metal que me permita sobreviver – sem rancor, mas com espanto.”

terça-feira, julho 07, 2009

O declínio do rock e a ascensão do rap


Via e-mail, o arquiteto e roqueiro xiita Pedro Alexandre Xavier, o "Xandico Bad Boy", lá da nossa querida Belém do Pará, solta os cachorros:

“Poeta, meu brodão, já li o teu livro sobre o rock e achei ducarálio. Acho difícil que exista coisa melhor no gênero. Só que vou procurar nos sebos de Belém o livro do Jim Miller pra ver se é mesmo essa maravilha toda que você falou. Mas que merda é essa de dizer que o rap é o novo rock?...

Você pode não ter acompanhado o rock nos anos 80, mas nessa época despontaram muitas bandas legais: U2, R.E.M., Smiths, Stray Cats, Cramps, Cult, Siouxsie and the Banshees, Sonic Youth, Dinosaur Jr., Band of Susans, Violent Femmes, Plasticland, Fuzztones, Vipers, pra gente ficar nas mais conhecidas.

Isso, sem falar na facção mais metaleira e esporrenta: Scorpions, Judas Priest, Whitesnake, Ozzy Osbourne, AC/DC, Iron Maiden, Venom, Van Halen, Metallica, Pantera, Slayer, Motley Crue, Def Leppard, Poison, Guns N’Roses, Dead Kennedys, Bad Religion, Megadeth, Anthrax, Sepultura, Quiet Riot e Ratt.

O rap é o novo rock meu ovo! Abração.”

Pô, Xandico, devagar com o andor que o santo é de barro! Quem falou isso pela primeira vez foi o jornalista Christopher John Farley, em um artigo publicado na revista Time, em fevereiro de 1999, esgrimindo números significativos: em 1998, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, o rap ultrapassara as vendas da música country, até então líder absoluta das paradas gringas. Foram mais de 74 milhões de CDs, cassetes e álbuns do gênero contra 65 milhões da música country.

Entrevistado para o referido artigo, o empresário Russel Simons, diretor do selo Def Jam (faturamento de US$ 200 milhões em 1998), foi taxativo. “O rock já era. As pessoas criativas que falam atualmente sobre a cultura jovem são os rappers. O hip hop é a voz rebelde dos jovens. É o que o público quer ouvir”, garantiu.

Eu comecei a acreditar nisso alguns anos antes, assim que o baterista Jonh Bonhan morreu, no dia 25 de setembro de 1980, e levou para o buraco, junto com ele, o Led Zeppelin, a melhor banda de rock de todos os tempos. Pra quem ainda não era nascido na época, recordo a presepada.

O baterista havia deixado Worcestershire, região centro-oeste da Inglaterra, no dia anterior para se encontrar com o resto da banda nos Bray Studios, com objetivo de planejar uma nova turnê pelos Estados Unidos, que começaria em outubro. No trajeto, ele consumiu doses industriais de vodka com suco de laranja (o famoso “Hi-Fi”).

Depois da reunião, a banda seguiu para a casa de Jimmy Page, em Windsor, onde John Bonham continuou bebendo “Hi-Fi” pelo resto da noite. Por volta de 1h45 da tarde do dia 25 de setembro, o técnico de som Benji Le Fevre foi procurar por Bonham e verificou que ele havia apagado e que também estava sem pulso. Um médico foi chamado e confirmou a morte do baterista.

A autópsia revelou que a causa da morte foi um acidente: Bonham morreu sufocado pelo próprio vômito após beber o equivalente a 40 doses de vodka em 12 horas. Em 4 de dezembro de 1980, o Led Zeppelin confirmou oficialmente o fim da banda, visto ser impossível prosseguir sem o baterista. Pra mim, o rock comme il fault também morreu naquele dia.

O Xandico pode ficar puto, mas não vou polemizar com ele. Limito-me a relembrar os fatos. Estamos em 1982. Qual foi o sujeito que não ficou mesmerizado quando ouviu pela primeira vez os hits “Beat It”, “Thriller” e “Billie Jean”, do Maiko Jacko? Agora tente se lembrar de um rock de sucesso nessa mesma época...


Estava claro que aquele novo tipo de música jovem capitaneado pelo dançarino esquisitão – guitarras de rock, metais de funk e grooves da house music – iria dar as cartas no hit parade do planeta nos próximos anos e não havia nada que pudesse ser feito a respeito. Comecei a ouvir discos de rap por conta dessa constatação.

De repente, uma coisa extraordinária aconteceu com o gênero: contrariando todas as expectativas (inclusive as suas próprias), o rap virou um sucesso. Sucesso assim: execução em todas as rádios, discos passando da casa de um milhão de cópias, presença obrigatória nas pistas de dança e nas festinhas da periferia.

Sucesso de massa, do tipo que leva artistas à TV, que obriga a MTV a abrir um horário só para o gênero, que coloca fotografias em revistas de fofocas, que vira matéria de capa de revistas especializadas como a Rolling Stone e a Billboard, que transforma o até então subestimado Maiko Jacko em “rei do pop”. Não foi pouca porcaria.

Cronologicamente, menos de dez anos depois do lançamento daquele que todos - rappers e não rappers - reconhecem como o disco pioneiro do estilo (“Rapper’s Delight”, da Sugarhill Gang, de 1979), a música canto-falada que era propriedade exclusiva dos bairros negros e mais pobres das grandes cidades americanas tornou-se aquilo que os especialistas em marketing mais prezam - um crossover, uma forma musical capaz de ser bem sucedida em qualquer praça, independente de cor ou renda pessoal.

O sucesso do rap a partir dos anos 80 (e daí até hoje) foi ainda mais extraordinário se compreendido à luz das peculiaridades - suas e da sociedade americana. É fato consumado, por exemplo, que, mesmo com todas as vitórias civis dos anos 60 e 70, os EUA sempre repeliram instintivamente a integração racial, preferindo ver seu tecido social mais como uma prateleira de supermercado - coisas diferentes, lado a lado – do que como um cadinho de fusões.

Para que o rock, intrinsecamente negro (é só ouvir os primeiros discos de Bo Diddley Chuck Berry e Little Richards), se tornasse o que é hoje foi preciso o endosso e o batismo por radialistas e gravadoras brancas, a reboque de figuras como Alan Freed, Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Buddy Holly - artistas brancos “aceitáveis” para o mercado de massa.

O rap, contudo, à exceção dos Beastie Boys e Eminem - que foram vistos e tratados mais como uma curiosidade passageira que qualquer outra coisa - permanece como área exclusiva de artistas negros. E mais: como o reggae (que até hoje ainda não conseguiu atravessar de fato para o veio principal dos EUA), o rap surgiu para ser, basicamente, uma forma de expressão e comunicação dentro de uma comunidade.

Musicalmente, o estilo sempre foi carnívoro, canibalesco e inclemente, triturando sem a menor cerimônia qualquer coisa que lhe parecesse útil, inclusive e principalmente o rock branco dos anos 60 e 70 - que, naquele exato momento, tornava-se “clássico” e ganhava um duvidoso posto no sacrário das relíquias históricas - e não cedendo um milímetro às necessidades harmônicas e melódicas do senso comum white.

No discurso poético, o rap sempre falou criticamente para iniciados, para a sua tribo, para seus homeboys: seus assuntos são coisas remotas para os meninos brancos da “grande” suburbiolândia americana que gosta de comprar discos: drogas, discriminação, batidas policiais, tiroteios, escuros horizontes profissionais. Sua fala era puro lingo, código, jive, incompreensível, propositalmente, para os periféricos.

E mais: com o crescimento, em tamanho, poder e violência, das gangues negras - que, nos anos 80, se profissionalizaram na esteira da disseminação do crack -, o rap celebrou mais uma duvidosa aliança: passou a ser não apenas “música de negro”, mas “música de gangues”, de bandidos dispostos a exigir seu quinhão em uma sociedade superabundante e consumista.

Apontar como explicação apenas a imensa maré de tédio musical que se abatia sobre o mercado musical do “primeiro mundo”, não satisfazia nem os anões de jardim que estavam curtindo a new wave. A própria insolência antimelódica do rap já seria causa suficiente para o seu sucesso numa praça enfadada com o passado e disposta a detonações pós-modernas.

A grande explicação só podia estar no próprio rap. Velocíssimo camaleão e voraz triturador, o estilo conseguiu se multiplicar em subcamadas suficientes para atender todas as expectativas - e, ainda, manter-se uno, original, diferenciado.

Assim, nos anos 80, a gente tinha o que se poderia chamar de “rap de raiz”, que vinha, em linha direta do histórico “The Message”, de Grandmaster Flash, e se encarnava em crônicas cada vez mais pesadas (em termos de som) e violentas (no discurso poético) da vida no gueto.


Public Enemy, em Nova York, e Ice T, em Los Angeles, eram as grandes vozes, mas a cada dia novos nomes engrossavam as fileiras - como o combo de Los Angeles que atendia pelo nome de N.W.A. (ou seja, “Niggers With Attitude”, algo como “Crioulos Malcriados” e que, sem a menor cerimônia, fez polaróides sem retoques da vida das gangues em seu álbum de estréia, Straight Outta Compton (Compton é um dos bairros negros mais pobres e violentos de Los Angeles) - e que vendeu 500 mil cópias em menos de um mês, com distribuição totalmente independente.

Para a cada vez maior e mais influente classe média negra, que queria distância física, emocional e cultural do gueto, existiam alternativas: o rap engraçadinho de DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince, da Filadélfia, que falava dos mesmos dramas juvenis que deram a imortalidade a Chuck Berry - carros, garotas, escola - ou as bravatas sexuais do angeleno Tone Loc, que vinha dos subúrbios classe média do vale de San Fernando, e foi o primeiro rapper a ocupar o primeiro posto nas paradas de sucesso, com sua versão risquê para o hit sixties “Wild Thing” (Mais tarde, Fresh Prince se transformaria no mega-astro Will Smith...).

Finalmente, havia o público informado das universidades que, de Bob Dylan a R.E.M. sempre foi motor de mudanças no pop americano. Para as rádios college que achavam Public Enemy muito extremo, existia o rap melodioso de um Shinehead, por exemplo, que, ao mixar o estilo com o reggae de sua Jamaica natal, retomou uma das matrizes formadoras do rap, o toast jamaicano.

Ou, de repente, a trinca De La Soul, que vinha do ultra-classe média subúrbio de Amityville, em Long Island, tinha nomes psico-crípticos como Trugoy (Yogurt ao contrário), Pase Master Mase e Posdnuos, idade média de dezoito anos e fazia a mais ousada e incandescente mistura de rap e psicodelismo já ouvida do lado de lá, de Sly Stone a George Clinton.

Assim, ao se permitir estas discretas, mas substanciais diversões de curso, o rap garantiu para si mesmo uma longevidade e um alcance que nem seus defensores mais otimistas poderiam imaginar.

Insolente, desrespeitoso com a sagrada institucionalização do pop, versátil, mutável, imediato, prático, portátil, acessível a qualquer um com um microfone, um toca-discos e um mínimo de criatividade, o rap, ironicamente, veio colher, por outras vias e quase uma década depois, as promessas do punk - faça você mesmo a sua trilha sonora.

O resto, conforme se diz, é história.

Microdicionário – É claro que a maioria das pessoas não entende metade do que os rappers dizem / cantam: essa é parte da idéia. Como toda subcultura, o rap tem seu código verbal próprio, desenvolvido pelos próprios DJs e rappers ou tomado emprestado das ruas e guetos, com o mesmo objetivo de toda subcultura: tornar-se impermeável aos forasteiros e selar alianças internas.

Estas palavras e expressões já são clássicas, e algumas, na esteira do próprio rap, já vazaram para o inglês moderno de uso corrente.

Chill – Também usado nas expressões “Chill in” e “Chill Out”, significa dar um tempo, ficar frio, ficar na sua.

Cuz – O mesmo que “like” para o garotão branco - interjeição que não quer dizer nada, apenas serve para pontuar a frase, dar um certo ritmo à fala.

Posse – Turma, pessoal. No universo das gangues, uma “posse” ou “set” era uma subdivisão das duas grandes facções, Crips e Bloods, de Los Angeles, e representa alianças de bairro ou de quarteirão.

Homeboy / Homegirl – Amigo, companheiro, colega de bairro. A rigor, a palavra define o membro de uma gangue, mas já passou a ser usada de um modo mais amplo. Sinônimo: Dude.

Dope – Ótimo, excelente, genial.

McGyver – Coisa dificílima de fazer, missão impossível.

Crib – Literalmente “berço”. Casa, cantinho.

Crew – O mesmo que “posse”, mas no sentido de turma para fazer alguma coisa juntos.

Sucker – Pessoa por fora, otário, careta, idiotas em geral.

Rope – Literalmente “corda”. Colar grosso de ouro que os rappers e seus fãs adoram usar.

Diss – Prejudicar, atrapalhar.

Jam – O próprio rap, ou melhor, a fusão de palavras + mixagem sonora.

segunda-feira, julho 06, 2009

Um dia com Peter Sunde, da Pirate Bay



por Pedro Doria

Peter Sunde não pertence ao Partido Pirata. “Eles são de direita, eu não sou”, explica. “Não votei neles, mas acho bom que existam.” Passei o dia de ontem com Peter, aqui em Porto Alegre.

Grande sujeito, um bom humor de enfrentar com sorrisos a maratona de fotos, entrevistas, apertos de mão, mesmo após mais de um dia viajando da Suécia para o Brasil. E, no Fórum Internacional de Software Livre, ele é pop star. A garotada o reconhece, quer tocá-lo, trocar dois dedos de prosa.

Pudera: com Fredrik Nei e Gottfrid Svartholm, Peter fundou em 2003 o Piratbyrån (Birô da Pirataria) para fazer piada da organização criada pela indústria fonográfica para combater a cópia de material com copyright online, o Antipiratbyrån.

Em 2004, a organização deu origem à Pirate Bay, o maior site de bit-torrent do mundo. Eles oferecem links que levam a arquivos de músicas, software ou filmes. Desde que a Pirate Bay foi condenada pela Justiça sueca – o julgamento provavelmente será cancelado – o Partido Pirata aumentou. Terá dois deputados no Parlamento Europeu, a partir do segundo semestre.

O argumento legal da PirateBay é que eles são como o Google. Só dão links, não se responsabilizam por quem guarda o que não deve em seu computador. Mas Peter sabe que isso é só formalidade: “meu problema é que Hollywood é daninha à cultura.”

Peter é filiado ao Partido Verde. Na Suécia, é um dos responsáveis pelo grupo que estipula a plataforma tecnológica do partido. Tudo leva a crer que a coalizão de centro-esquerda que inclui os verdes chegue ao governo, nas próximas eleições.

Seu argumento é o seguinte: Hollywood e as quatro grandes gravadoras representam muito dinheiro, mas não são os maiores produtores de cultura do mundo. “Eles produzem quanto? 0,0001% de toda cultura?” Em última análise, leis de direitos autorais beneficiam estes grandes conglomerados, não a maioria dos artistas.

Se ficasse nisso, tudo bem. Mas, por conta do poder econômico – e este é sempre o raciocínio de Peter –, estes conglomerados entopem o mercado, aumentam a barreira de entrada para quem é novo. O copyright, em sua visão, ao invés de contribuir para o sustento de artistas, produz um ambiente em que a maior parte da produção cultural tem pouco espaço para circular.

Eles não mantém estatísticas de o que é mais baixado no Pirate Bay. Alguns estudos sugerem que é cinemão e grandes hits. Para Peter e seus sócios, não importa. Se vai prejudicar os grandes, tanto melhor.

Ele não é radical. Não vê problema em quem queira cobrar pelo serviço de oferecer algum tipo de informação. Se alguém conseguir, ótimo. A informação, a música, o filme – estes devem ser livres. Esta é sua opinião. É bom ouvi-la e compreender, mesmo que seja para discordar depois. Na Europa, representa uma linha de pensamento crescente, que captura gente tanto à esquerda quanto à direita.


Fonte: Blog do Pedro Doria

quinta-feira, julho 02, 2009

It's only rock & roll, but I like it


Silene e Antonio Diniz durante um pit stop básico na Praia do Futuro, em Fortaleza

Bastou o livreiro e ex-vereador Antonio Diniz, dono do Sebão de Manaus, ler aqui nesta banca de tacacá os elogios rasgados que fiz a respeito de um presente recebido do médico Arnaldo Russo para também me fazer uma surpresinha agradável. Dessa vez, quase enfio a mão em uma panela de água fervendo para saber se não estava sonhando. Explico melhor.

Na semana passada, Diniz adentrou abruptamente aqui em casa em companhia de sua patroa (minha irmã Silene) e me deu de presente um embrulho pardo. Conversamos animadamente sobre isso e aquilo outro, sendo isso e aquilo outro os novos livros que ele acabara de comprar em sua mais recente viagem ao Rio de Janeiro. Fiquei de passar no sebo, para conferir as novidades.

Dez minutos depois, os dois se despediram e meteram o pé na estrada, perigas ver. Quando desembrulhei o presente, quase cai pra trás: era o livro “The Rolling Stone Illustrated History of Rock & Roll”, de Jim Miller. Detalhe: a edição revista e atualizada publicada em 1980, que é muito mais abrangente do que a primeira versão original publicada em 1976. Puta que pariu!


O livro do Jim Miller tem o formato do meu “Alô, Doçura!” (28 x 22 cm) e está dividido em 83 capítulos, todos ricamente ilustrados. Na realidade, trata-se de uma coletânea de textos seminais publicados na revista Rolling Stone pelos melhores jornalistas da publicação (John Morthland, Ken Emerson, Ed Ward, Dave Marsh, Ken Tucker, Greg Shaw, Robert Palmer e o próprio Jim Miller, entre outros). Coisa finíssima, homeboys, acreditem!


O primeiro capítulo começa em 1934, quando o folclorista branco John Lomax e seu filho Alan estavam fazendo uma série de gravações de canções religiosas afro-americanas no sul do país, e o último capítulo termina em 1979, relatando o rebuceteio causado por Elvis Costello no programa “Saturday Night Live”, quando chamou Ray Charles de “um crioulo cego e ignorante” e detonou a “alienada música negra feita nos EUA”. O músico inglês estava nos States promovendo o disco “Armed Forces”, intitulado originalmente de “Emotional Fascism”.

Perto do livro de Jim Miller, o meu “Rock: a música que toca” não passa de um panfleto vagabundo, distribuído por meninas desleixadas embaixo dos semáforos em dias de chuva. Estou me preparando espiritualmente para traduzir essa bíblia definitiva do rock & roll por dois motivos. Primeiro, porque nenhum editor brasileiro, pelo visto, se interessou até hoje pelo assunto. Segundo, porque ela abrange as três décadas (50, 60 e 70) do rock que sempre me interessaram. O New York Times informará.


Bom, mas o espanto inicial não parou por aí. Dentro do embrulho, junto com o livro, também estava uma caixa com cinco DVDs intitulada “A História do Rock & Roll”, um documentário da muléstia montado a partir de 10 mil horas de imagens de arquivos e shows, com mais de 250 músicas e 1800 clipes. Puta que pariu três vezes!


O documentário foi produzido por David Axelrod, Quincy Jones, Bob Meyrowitz e David Salzman, com a supervisão técnica do já citado Jim Miller, que também assina os textos introdutórios do encarte. São dez episódios (dois em cada DVD) divididos por etapas cronológicas, mas obedecendo um encadeamento lógico mostrando a evolução do rock, com homenagens, observações curiosas e depoimentos de quem esteve no olho do furacão. Ouro puro. Prestem atenção na seqüência dos episódios:


O Rock & Roll Explode – É um caleidoscópio de memórias musicais. Em entrevistas com algumas das mais brilhantes estrelas do rock, de Little Richards a Mick Jagger, de Bruce Springsteen a Bono Vox, são lembradas as canções e sons que mudaram suas vidas. E uma coletânea de clipes revela as primeiras estrelas do rock: Muddy Waters, Chuck Berry e Little Richards. A sexy thing Tina Tuner recorda os dias de trabalho duro nos campos de algodão e nas noites embaladas pelo sonho de sua carreira musical.

Rock da Pesada Esta Noite – Reconta os dias de glória da era de ouro do rockabilly: Elvis Presley, Buddy Holly, Little Richards e Jerry Lee Lewis. Vale lembrar que, na época, o rock era dominado pelos ídolos adolescentes com estilos agitados de dança como o twist, que tinha como profeta-mor Chubby Checker. Mas, como revelam os clipes de Ben E. King e dos Ronettes, de Phil Spector, havia ainda muito mais reservado para o rock do que apenas um bando de garotos tentando ser o próximo Elvis The Pelvis.


Os Britânicos Invadem, Os Americanos Resistem – O renascimento do rock entre os anos de 1962 a 1966. Imagens inéditas mostram os Beatles, em 1963, os Rolling Stones, em 1965, os Kinks, em sua primeira apresentação, e o The Who ovacionado por seu público “mod”, brilhando com “I Can’t Explain”. A galera dos Beach Boys explica como as bandas britânicas estimulavam a criatividade deles. As gatinhas do Supremes e os moleques do Lovin’ Spoonful recriam uma nova era quando o rock & roll ainda era jovem e cheio de alegria.

O Som do Soul – Enraizado no gospel, desenvolvido sob a influência da música popular tradicional, com uma forte dose de sentimentalismo oriundo do rhythm & blues, os primeiros frutos do soul só floriram no final dos anos 50. Seus pioneiros incluem Sam Cooke, Ray Charles, Jackie Wilson e “o mais esforçado operário do show business”, o inesquecível James Brown. De quebra, ainda curtimos três gerações de cantores de soul reunidos no Teatro Apollo, no Harlem, para discutir o significado do gênero.


Ligando-se na Tomada – Quando Bob Dylan trocou seu violão acústico pela guitarra elétrica e começou a tocar rock & roll no Festival Folk de Newport, em 1965, quase causou um alvoroço. O rock se reinventou de novo na metade dos anos 60. Imagens históricas de The Byrds e The Mamas and The Papas criando um novo som com “California Dreamin’”. Brian Wilson, membro do The Beach Boys, fala da pressão que sentiu ao competir com os Beatles. The Who e Jimi Hendrix agitam no Festival Pop de Monterey.

Minha Geração – Relembra o renascer vertiginoso e a angustiante queda da contracultura dos anos 60. Em raríssimas imagens, vemos algumas das bandas responsáveis pelo decantado “Verão do Amor”, em San Francisco, que impulsionou o psicodelismo e o movimento hippie em escala planetária. The Grateful Dead, Santana e Jefferson Airplane tocam juntos, enquanto Janes Joplin aparece ao lado de Big Brother e The Holding Company em uma versão inflamada de “Ball and Chain”. Para os saudosistas, algumas performances clássicas do Festival de Woodstock.


Heróis da Guitarra – O episódio está focado nos tempos pioneiros dos “guitar heros”, de Chuck Berry a Jimmy Page, e também em alguns heróis pouco conhecidos como o virtuoso James Burton. Pete Townshend descreve como seus movimentos (que lembravam um moinho de vento), sem que soubesse, o aproximava de Keith Richards. Mark Knoffler, Eddie Van Halen, Slash e Jimi Hendrix mostram como desvendar aquilo que Pete Townshend chama de “poesia física” da guitarra elétrica.

Os Anos 70 – Recaptura os pontos altos e a debochada decadência dos anos de glamour de rock. Jimmy Page e Robert Plant mostram as origens do Led Zeppelin. David Gilmour lembra como foi feito o álbum “Dark Side of the Moon”. Lindsey Buckingham, do Fleetwood Mac, executa uma versão improvisada de “Go Your Own Way” e explica o significado pessoal da música. David Bowie mostra porque virou um ícone do glitter rock a bordo de seu desbundado traje de Ziggy Stardust.


Punk – O episódio documenta como esse gênero musical usou canções curtas e simples para “reiventar” o rock & roll pela enésima vez. As raízes do punk nas ruas e na boemia do Velvet Underground, na feiúra deliberada de Iggy Pop e no amadorismo camp (pouco casual) do New York Dolls. Acompanhamos a cena punk surgindo em New York, no clube CBGB, lar dos Ramones, Richard Hell, Talking Heads, Blondie, Television e Patti Smith. Conhecemos a rápida ascensão e meteórica queda do gênero na Inglaterra, através de uma das primeiras apresentações do Clash.

Do Underground à Fama – Esse último episódio mostra como o rock se transformou na new wave nos anos 80, com a chegada da MTV. Membros do Devo e do Eurythmics explicam como eles produziram seus próprios vídeos musicais. Antigos clipes mostram apresentações de rappers pioneiros como Kurtis Blow e Grandmaster Flash. Conferimos a ira santa dos rappers hardcores, como Public Enemy e N.W.A. O combo Run D.M.C., que fundiu rock e rap, aparece improvisando novas músicas. O rei do pop Michael Jackson brilha no vídeo “Billie Jean”, que quebrou as barreiras raciais. Curtimos a versão integral do clipe “Justify My Love”, de Madonna, que foi banido da MTV. E a constatação: o rap se transformou no novo rock.

Pois bem, homeboys! Se nos próximos dois meses vocês não me encontrarem mais pelos botecos decadentes, casas de tolerância e baladas undergrounds não pensem que morri. É que vou estar me refestelando com esses dois novos presentes ofertados pelo Antonio Diniz. E ainda tem gente que diz que cunhado não é parente. Valeu, parente!

quarta-feira, julho 01, 2009

O baixo nível de nossos crackers


A inclusão digital – um dos sonhos de consumo do presidente Lula – está possibilitando milhares de pessoas a investirem tempo e dinheiro no próspero mundo da criminalidade cibernética. Para nossa sorte, os criminosos digitais do Bananão ainda não concluíram, sequer, o projeto Minerva, daí ser muito fácil desmascará-los. Analisem comigo esse worm, supostamente enviado pelo Bradesco.

Cliente Bradesco,
Aconteceu uma Falha e Informações em nosso banco de dados onde as chaves de segurança foram devidamente perdidas. Ocorrendo problemas ao seu acesso pelo Internet Banking e outros canais de conveniência Bradesco.

(como o e-mail foi endereçado a você, mas sem referência ao seu nome, está na cara que foi fruto de um programa de envio automático. A tortuosa construção das frases é um sintoma típico de quem abandonou o banco escolar no segundo ano primário...)

Estamos lançando uma atualização do Módulo de Segurança para nossa Falha.

(eles não vão corrigir a falha, eles vão tornar a falha mais segura, ora, pois, pois...)

Ao tentar o acesso via Caixas Eletrônicos e Internet Banking, suas chaves de segurança constarão como inexistentes, impossibilitando acessos e movimentações.

(apagão de dados impressos em um cartão de plástico? Só se a bandidagem contratou os serviços do Criss Angel...)

A Chave, gerada pelo dispositivo abaixo, será agregada ao processo já existente, sem substituição dos seus codigos de acesso atuais.

(ora bolas, se os códigos atuais não serão substituídos, pra que a gente vai querer uma chave de segurança nova? Pra pagar meia entrada no cinema?...)

Para corrigir este problema basta seguir os precedimentos. Acessando o Internet Banking, e atualizando seus dados dentro do seu acesso privado seguindo o processo normal atráves do nosso endereço abaixo:

(os erros gramaticais continuam de doer – incluindo a nova grafia de “procedimentos” e a vanguardista acentuação de “através”...)

Atualizar chaves de segurança

(depois de tudo isso, só sendo um completo analfabeto funcional para clicar nesse trojan e autorizar a execução do programa no seu micro)

Você esta em um ambiente seguro verificação de Segurança

(o que o iluminado quis dizer com esta frase sem pé nem cabeça?...)

Em caso de dúvida, contatar nossa Central de segunda a sexta-feira das 07:00 ás 20:00 horas.

(cadê o número da central? E porque a acentuação diferenciada no “às”? Será coisa do novo acordo ortográfico?)

© 2009 Bradesco SA. Todos os direitos reservados.

(como o digitador do texto estava com muita pressa, ele esqueceu de colocar o segundo ponto depois do “S”, de Sociedade Anônima. Qualquer marqueteiro do Bradesco que cometesse esse mínimo deslize teria os colhões cortados pessoalmente pelo ectoplasma do Amador Aguiar)

Meu conselho?

Aê, vagabundagem, vamos melhorar o nível desses worms, pô! Assim, não dá, assim, não dá...

terça-feira, junho 30, 2009

Quarta Literária: Monstros na ficção amazonense


A Quarta Literária do mês de julho acontecerá no próximo dia 1º, quarta-feira, tendo como tema Monstros na ficção amazonense. A palestra será ministrada pelo professor Allison Leão. O tema é fruto dos resultados iniciais de pesquisa que o palestrante tem desenvolvido na UEA, com o apoio da Universidade e da Fapeam.

Partindo de figuras monstruosas presentes em nosso imaginário, de origens antigas e/ou modernas – como a Medusa, o Centauro, o lobisomem, a criatura de Frankenstein –, Leão procurará mostrar algumas das características dessas figuras que, de certa forma, estejam presentes em toda a tradição teratológica.

O foco da palestra, no entanto, estará em personagens da ficção de autores amazonenses (ou que tenham a obra ambientada na região) que tanto podem corroborar características mais universais dos monstros, como podem questionar e recriar o conceito de monstruosidade.

Em textos de autores como Benjamin Sanches, Erasmo Linhares e Alberto Rangel, o pesquisador mostrará, por exemplo, como a questão do corpo do monstro – afinal um dos aspectos sempiternos do imaginário teratológico – não deixou de ser observada e aproveitada pelos autores em questão.

Mas discutirá, também, como o medo que o monstro pode provocar nas sociedades ganha um reverso nas representações que esses ficcionistas elaboraram, qual seja, a monstruosidade do gesto, do ato, do crime e da violência supera a monstruosidade física, ameaçando, inclusive, a existência do monstro corpóreo.

Allison Leão é doutor em Letras pela UFMG e professor de Literatura Brasileira na UEA. É autor de Jardim de silêncios e O amor está noir, livros de contos.

Lançamento:
Após a palestra Monstros na ficção amazonense será lançado o livro Carta de Deus: Ao Homem do Planeta Terra, de José Herculano da Nóbrega.

segunda-feira, junho 29, 2009

Um ano sem Alberto Simonetti Filho


Alberto Simonetti, Rogelio Casado, Durango Duarte, Edu do Banjo, Afonso Toscano, eu e Engels Medeiros, durante o relançamento do Candiru no Bar do Armando

Na última quinta-feira, 25, fez um ano de falecimento do meu querido mano Alberto Simonetti Filho. Vítima de câncer no intestino, o advogado, que tinha apenas 62 anos, deixou além da mulher, Maria do Carmo Ribeiro Simonetti, três filhos: Alberto Simonetti Neto, Luiz Alberto Simonetti e Maria Luíza Simonetti. Todos advogados, tutti buona gente.

Presidente por quatro vezes da OAB-AM, Simona, como era mais conhecido, foi exemplo de administrador e empreendedor, tendo, em suas sucessivas gestões, deixado pelo menos quatro obras de grande envergadura: a sede social e o clube de campo da OAB, o prédio da Escola de Advocacia e o estacionamento para os advogados, nas proximidades do fórum.

Um dos fundadores da Banda Independente Confraria do Armando (BICA), o Simona não era festejado apenas entre os advogados. Era uma personalidade de grande popularidade na capital e no interior do Amazonas, sempre engajado no bom combate em prol da sociedade civil.

Eu o conheci em 1978, por conta de uma quizumba envolvendo o engenheiro Carlos Almeida e um bate-pau da repressão, e ficamos amigos pelo resto da vida. Dotado de uma memória privilegiada e de um bom humor permanente, Simona foi a minha principal fonte de informação sobre a maioria dos hilariantes “causos políticos” protagonizados pelo saudoso senador Fábio Lucena, de quem ele foi advogado por quase duas décadas.

Nos anos 90, a gente se encontrava praticamente quase todo santo dia, de segunda a sexta, no Bar do Armando, para colocar as fofocas em dia. O Simona era um boêmio diferente: não encarava nenhum tipo de bebida alcoólica nem demais aditivos químicos para estados alterados de consciência (limitava-se a beber coca cola diet e detonar sanduíches de x-porco em escala industrial), mas era sempre o mais divertido e bem falante da turma. Seu único vício era o cigarro, que fumava sem qualquer sentimento de culpa. Que nem eu e Felix Valois.

Nos finais de semana, como num passe de mágica, Simonetti simplesmente desaparecia de Manaus. A única exceção era no sábado magro de carnaval, dia de desfile da BICA, em que ele nunca deixou de comparecer. É que ele havia construído uma Passárgada particular, em Autazes, onde se refugiava sempre que havia uma oportunidade.

O “condado de Autazes”, como ele se referia à sua bela residência no município, era ponto de peregrinação permanente de empresários, políticos, membros do judiciário e da população humilde, em geral, a quem o advogado assistia com a maior abnegação do mundo. Se quisesse, Simona teria sido prefeito do município. Ele nunca quis.

Em 2001, aproveitando o feriado da Semana Santa, aceitei seu convite para conhecer o condado de Autazes. Era um motivo mais do que nobre: além de acompanhar pela primeira vez a encenação da Paixão de Cristo pelas ruas de Autazes, eu poderia fazer uma reportagem a respeito para a revista Amazônia 21 e, assim, ajudar a divulgar a cultura popular do município.


Jô, eu, Dinari e a barriga do Davi Almeida, no barco "a jato" do Simona

Como o esquema era boca livre total, sugeri ao advogado levar mais dois convidados (Jô e Davi Almeida) e ele concordou. No dia combinado, eu, Dinari, Jô e Davi embarcamos no barco “a jato” do Simona, no Porto da Ceasa. Batizado de “Comandante Lucas”, em homenagem ao seu primeiro neto, o barco era um colosso em termos de estabilidade, velocidade e conforto. Basta dizer que, entre outros requintes, era dotado de poltronas de avião.

Além do Simona, que estava pilotando o barco, a “tripulação” era formada por dona Maria, Neto, Beto e Sandra. O serviço de bordo também estava impecável: dezenas de sanduíches e pacotes de salgadinhos de todos os tipos (castanha de caju, amendoim, doritos, baconzitos, etc), refrigerantes, cervejas em lata, uísque, vinho tinto, vinho branco e champanhe. Em termos de tratar bem seus convidados, Simona era marrento.

Devia ser uma 8h da manhã. Simona consultou o GPS, a carta náutica, fez uma série de cálculos mentais e cantou a pedra: por volta de meio-dia a gente estava em Autazes. Aí, deu uma reduzida, e saiu “cantando pneu” em direção ao encontro das águas.

Fiquei meio cabreiro: a distância fluvial de Manaus a Autazes é de 324 km. Para cumprir aquele horário pré-estabelecido, o barco teria que desenvolver uma velocidade média de 80 km/h, o que é uma temeridade em se tratando de navegar pelo traiçoeiro Rio Amazonas, cheio de troncos de árvores boiando.

Parece que adivinhando meus pensamentos mais sombrios, o “comissário” Neto colocou logo uma cerveja em lata estupidamente gelada em minhas mãos. Seria a primeira das vinte latinhas que eu iria detonar ao longo da viagem.

Nesse dia, o Simona estava viajando sem a presença do Piloto, seu secretário informal, responsável pela manutenção das embarcações (nessa época, o Simona devia ter uma meia dúzia de barcos) e verdadeiro senhor das águas, conhecedor dos furos, igapós e paranás da região com a intimidade de um tucunaré borboleta.

Mais: pela primeira vez, Simona ia fazer um atalho, ou seja, em vez de seguir pelo rio Amazonas e subir o rio Autaz-Açu, ele ia entrar pelo furo do Cuia até o rio Autaz-mirim, de lá embicar pro lago do Cuia, e só então atingir o rio Autaz-Açu, um pouco abaixo da cidade. Desse jeito, o tempo de viagem seria encurtado em três horas.

Tudo estava correndo de acordo com o planejado. Além de pilotar o “a jato” com a perícia de um experimentado lobo do mar, Simona ia me apontando e dando o nome de cada acidente geográfico. Não tenho certeza, mas a impressão que tenho é que ele possuía um mapa cartográfico dentro da cabeça.

De repente, a gente entrou no rio Autaz-mirim, que tem uma cor cinzenta, quase cor de chumbo, lembrando muito o rio Andirá, em Barreirinha, e, dali a meia hora, adentramos no lago do Cuia, que causa espanto pela grandiosidade. Por trás da copa de árvores, visualizamos ao longe a cidade de Autazes.

Simona voltou a consultar o GPS, a carta náutica, fez uma série de cálculos mentais e voltou a cantar a pedra: dali a vinte minutos a gente estava em Autazes. Devia ser umas 11h30. Ele pediu ao Neto para ir até a proa e localizar o furo do “Quem diria!”, nossa passagem para o rio Autaz-Açu.

E aqui cabe uma explicação: o lago do Cuia possui uma centena de “furos”, cada um com no máximo três metros de largura. Somente o furo do “Quem diria!” dá acesso ao rio Autaz-Açu. Todos os outros começam e desembocam no lago. Trata-se de uma espécie de labirinto aquático do Minotauro e se você não tiver nenhum fio de Ariadne escondido na manga é melhor não se aventurar na brincadeira.

Neto olhou, olhou, olhou e disse que não estava encontrando nenhum ponto de referência. Simona reduziu a velocidade do barco e saiu margeando o lago, olhando atentamente para os “furos”. Não havia uma mísera placa de sinalização. Na verdade, ele já havia feito aquele percurso dezenas de vezes, mas sempre com o Piloto no comando do barco.

Não sei se foi uma samaumeira ou uma castanheira que lhe despertou a atenção, o certo é que Simona falou “pode deixar, Neto, o furo é aquele ali” e avançou destemidamente em direção à pequena abertura entre as árvores, quase invisível a olho nu. Depois de meia hora navegando, saímos, ou melhor, entramos de novo em alguma parte do lago.

Pela primeira vez na viagem, percebi que o Simona ficou nervoso, já que havia perdido qualquer ponto de referência. A gente agora não sabia se havia boiado acima ou abaixo do furo – o lago do Cuia tem vários quilômetros de extensão com uma vegetação absolutamente uniforme. Simona olhava para um lado, para o outro, mas parecia estar perdido. Já levemente bêbado, eu estava achando aquilo tudo muito divertido.

Começamos a navegar em busca de alguma alma viva naquele mundão perdido. Depois de meia hora, encontramos uma fazenda. Neto deu a segunda má-notícia do dia: o combustível estava no fim. Simona o instruiu a ir até a fazenda pedir informações e conseguir um galão de gasolina.

Neto desceu do barco, com a água no meio da canela, foi até a fazenda e conversou com um peão. Voltou com a informação, mas sem o combustível – o dono da fazenda tinha ido de barco pra cidade, não havia gasolina nem pra fazer remédio. Pelo que disse o peão, a gente estava do outro lado do lago. Teríamos que cortá-lo em linha reta e entrar em um “furo” perto de uma samaumeira. O diabo é que toda samaumeira tinha um “furo” ao lado.

Chegamos ao outro lado do lago por volta das 12h30. Mesmo com toda economia (o Simona dava uma boa arrancada e colocava na “banguela”), a gente só teria combustível para mais meia hora de navegação. Se pegássemos um outro “furo” errado, corríamos o risco de nunca mais sair do lago do Cuia pelo resto da vida. Por mim, tudo bem, o chato era as cervejas acabarem primeiro do que o combustível...

Simona reduziu a velocidade do barco e saiu de novo margeando o lago, olhando para os “furos” com a acuidade de um cirurgião fazendo operação de catarata a laser. Nada. Os “furos” eram absolutamente iguais. As samaumeiras eram absolutamente iguais. As margens do lago eram absolutamente iguais.

Pra nossa sorte, Neto localizou naquele mundão de água e floresta, a uns 800 metros de distância (ele tem uma visão de águia), uma família ribeirinha em um motor de rabeta devagar-quase-parando que, provavelmente, estava se dirigindo para a cidade. Simona levou o barco até eles, que nos ensinaram a localização exata do “furo”.

O “furo” do “Quem diria!” ficava a menos de 20 metros de distância do primeiro “furo” que entramos. Quer dizer, o Simona errou por pouco – mas, em termos de armadilhas sinuosas dos rios amazônicos, esse pouco significou mais de uma hora de navegação quase à deriva. Navegação por estas bandas não é coisa de amadores.

O certo é que em menos de 20 minutos entramos no rio Autazes-Açu e dali a cinco minutos já estávamos no pontão de combustível em frente ao cais do porto, para reabastecer o valoroso “a jato”. A maravilhosa estada em Autazes, claro, compensou com juros e correção monetária pelo sufoco inicial. Falo disso outro dia.

Pô, Simona, mas por que você se foi, bicho? Muitas mortes tenho morrido antes que a sua acontecesse para deixar-me mais só vivendo a minha. Tantos já se foram atraídos pela Grande Noite... Arthur Virgilio Filho, Fábio Lucena, Nestor Nascimento, Antonio Paulo Graça, Teodoro Botinelly, Rosendo Lima, Silvério Tundis, Alberto Aleixo, Jefferson Peres...

E, de repente, você resolveu encontrá-los, sem nos pedir licença. Pois é, grande Simona, que bruxaria foi essa tua, tão repentina, de inventar de ser eterno? Que sonho, no avesso do sonho, de virar pura memória – fino cristal que se dissolve no pródigo ar manauense, quando a gente ainda tinha tanta coisa pra fazer?

Que bom te ver na casa dos sessenta, cada vez mais brodão, companheiro, esperneando, reluzindo, trabalhando, acontecendo, perturbando a cena morta deste país de opereta – as mãos, a tua mão, incidental e múltipla, traduzida na defesa inconteste dos direitos humanos dos menos favorecidos –, em incêndios de sofrida beleza, gestos, gritos, berros, uivos, as mãos, as tuas mãos que eram capazes da maior ternura.

Polir o vitral do outono foi o teu maior ímpeto de viver. O condado de Autazes sabe disso. Atingidos de todos os lados em que a morte põe ovos, quase não há palavra agora que ouse contar ao mundo o luxo de tua lenda. Até breve, querido amigo. Porque enquanto eu resistir, não deixarei que esqueçam as tuas histórias. Qualquer dia a gente se vê por aí.

sexta-feira, junho 26, 2009

Conversa pra boi dormir


Na última terça-feira, a convite da jornalista Andréia Mayumi, eu participei do relançamento do livro “Conversa pra boi dormir”, do jornalista Mário Adolfo, na belíssima livraria Saraiva Megastore, ali no Shopping Manauense.

Meu papel no evento era funcionar como “escada” do Mário Adolfo, relembrando causos, sugerindo temas, esclarecendo fatos (minha memória é melhor do que a dele), essas coisas.

Foi um bate papo bem descontraído com a presença de dezenas de amigos, onde o Mário Adolfo relembrou rapidamente seus 20 anos de cobertura do Festival Folclórico de Parintins, a partir de 1986, quando ainda era “foca” do jornal A Crítica, até 2007, quando já era Diretor de Redação do Amazonas Em Tempo.

Alguns causos hilários que ele presenciou pessoalmente (devidamente relatados no referido livro) foram contados de viva voz. A platéia participou do debate, que incluiu discussões sobre a suposta “carnavalização do festival” e velhas recordações dos bumbás Corre Campo, Tira Prosa e Mina de Ouro.

Mário Adolfo e Maria Mestrinho já estão na ilha desde quarta-feira, ciceroneando o querido advogado Tagore Arruda, que veio de Goiânia exclusivamente para assistir ao espetáculo pela primeira vez. O ex-presidente da CUT Jaques Castro também já está lá, em companhia dos médicos Menandro e Eliana Feijó.

Eu ia viajar na quarta, junto com a galera do Reino Unido, no barco Maresia IV. Ocorre que o barco estava irregular e foi proibido pela Capitania dos Portos de sair de Manaus. Resultado: o radialista Ivan Oliveira, que organizava a excursão, teve de devolver o dinheiro das passagens e a viagem micou.

Mas não fiquei no prejuízo. Ontem e anteontem, curti o Tributo ao Joy Division, organizado com competência pelo poeta Jorge Bandeira, no Espaço Cultural Valer (falo disso outro dia), hoje participo do aniversário da filha caçula do poeta e livreiro Celestino Neto, o “Lé”, que vai ganhar um presente especial (o reencontro do grupo Cio da Terra, quase trinta anos depois) e amanhã vou conferir a festa do Difusão Cultural, capitaneada pelo brother Marcos Tubarão.

Do hepteto original do Cio da Terra (Pondes, Dorinha, Val, Berg, Cezinha, Iran e Lé), o vocalista Val será o único ausente na noite de hoje porque se encontra trabalhando na base petrolífera de Urucum, em Coari, e só retorna pra Manaus daqui a dez dias. Mas o resto da cachorrada já confirmou presença no fuzuê. Será uma sessão nostalgia do tipo “e éramos todos jovens!”. Ou seja, absolutamente imperdível!

Bom, mas não era sobre isso que eu ia falar. É que quando o Mário Adolfo começou a relembrar de suas primeiras andanças por Parintins, na companhia do fotógrafo Isaac Amorim, eu acabei recordando de uma presepada federal em que envolvi indiretamente o meu brother Marcos Santos.


Negócio seguinte. Em junho de 1990, o jornalista Marcos Santos era apresentador oficial do bumbá Caprichoso e editor de Cultura do jornal Amazonas em Tempo, onde eu era um dos colaboradores mais assíduos, publicando meus artigos na edição de domingo.

Na época, eu era Gerente da Engenharia de Qualidade da Philco da Amazônia e não tinha tempo – nem vontade – de redescobrir a “oitava maravilha do mundo”, que já havia conhecido em 1979. Também não entendia a importância que o jornal dava ao evento, cobrindo aquela festa interiorana com seus melhores profissionais.

Duas semanas antes do festival, o Marcos Santos viajou para Parintins, para participar dos ensaios do bumbá Caprichoso, e eu, sem maldade nenhuma, resolvi fazer uma brincadeira meio calhorda (confesso que não fazia a menor idéia da rivalidade entre os bumbás): inventei uma suposta carta enviada pelo jornalista pra redação do jornal, sendo que eu próprio me encarreguei de responder.

Era um texto de humor, of course, intitulado “Notícias de Parintins”, que abria com a seguinte pérola: “Caríssimo Simão Pessoa. Fale com a nossa querida Hermengarda Junqueira pra ela providenciar um novo depósito bancário na minha conta, que estou matando cachorro a grito. Quando me disseram que as cunhans de Parintins eram umas pessoas muito dadas, eu estava pensando em outra coisa. Resultado: a grana acabou mais cedo do que eu esperava porque, além de elas serem muito dadas, também bebem pra caramba. Um forte abraço do amigo Marcos Santos.”

Não lembro direito, mas na resposta da carta eu dava alguns conselhos bem humorados pro Marcos Santos e, no final, pedia encarecidamente que, no seu retorno a Manaus, ele trouxesse uma camisinha do boi Caprichoso para eu presentear um afilhado de dois anos. Pra mim, era apenas um texto irônico, cheio de frases de duplo sentido, mas sem nenhuma maldade ulterior. Pro pessoal do boi Garantido, aquilo era uma declaração de guerra.

O artigo saiu no domingo. Assim que o primeiro jornal chegou à ilha, eles recortaram a carta, colaram em uma folha de papel ofício e acrescentaram o seguinte título: “Apresentador do Boi Caprichoso diz que em Parintins só tem putas!”. Aí, tiraram 10 mil cópias xerox e saíram distribuindo de casa em casa. A merda começou a feder.

O jornalista Marcos Santos, que até então não sabia de nada, quase enfartou quando uns 50 sujeitos tentaram invadir o hotel onde ele estava hospedado para lhe darem uma surra com galho de cuieira. No meio da confusão, ele conseguiu acionar a polícia. Uma tropa de choque da PM ficou de prontidão na porta do hotel para evitar a tragédia.

Na seqüência, Marcos Santos foi excomungado em todas as missas pelos padres da ilha e detonado em todas as rádios pelos radialistas locais. No começo da tarde, ele conseguiu telefonar pra Menga, relatando o que estava acontecendo, que imediatamente entrou em contato com o governador, o secretário de Segurança e o prefeito de Parintins para garantirem a integridade física do jornalista. Uma zorra surrealista!

Na segunda-feira, por meio do Mário Adolfo, soube do que estava acontecendo em Parintins – e, evidentemente, fui devidamente chamado no saco. Argumentei que faria um novo artigo, pedindo desculpas dos parintinenses e inocentando o Marcos Santos, mas ele estava tão enfurecido, furibundo e transtornado, que bateu o telefone na minha cara, tão logo terminou de me xingar (desconfio que sua cabeça estava a prêmio já que havia sido ele quem me levara pra escrever no jornal).

No mesmo dia, a Menga conseguiu entrar ao vivo no programa de maior audiência da rádio Alvorada, de Parintins, para pedir desculpas à população e explicar que o Marcos Santos não tinha nada a ver com aquilo, que a carta tinha sido inventada por um irresponsável que sequer pertencia aos quadros dos jornais, que providências jurídicas estavam sendo tomadas para me processar, aquelas coisas todas, mas nem assim a poeira baixou.

Como a equipe oficail de cobertura do jornal (Menga, Mário Adolfo, Eduardo Gomes, Carlos Dias, Elaine Ramos, Carlos Aguiar, etc) iria desembarcar na ilha na quarta-feira, algum radialista gaiato convocou a população para “dar as boas-vindas ao jornalista Simão Pessoa, do jornal Amazonas em Tempo, que estava chegando com o resto da equipe a bordo do navio Dona Carlota”.

Umas 500 pessoas, armadas de paus, pedras, tacos de beisebol e correntes com cadeado na ponta atenderam a convocação do radialista e foram aguardar a chegada da delegação do jornal no Cais do Porto. O pior é que ninguém me conhecia nem de fotografia. Quer dizer, qualquer profissional do sexo masculino estava sujeito a levar uns catiripapos em meu nome, pela honra das mulheres ultrajadas do município.

Assim que desembarcou do navio, a delegação do Amazonas em Tempo foi escoltada pela polícia de choque da PM até o hotel, onde Marcos Santos se encontrava em prisão domiciliar. Impedido de participar dos ensaios do Caprichoso (se colocasse os pés fora do hotel seria linchado), Marcos Santos estava praticamente na marca do pênalti para ser detonado da função de apresentador oficial.

De quarta-feira a domingo, último dia do festival dos bumbás, a conversa nos quatro cantos da ilha era uma só: “cadê aquele filho da puta do Simão Pessoa, que desrespeitou as nossas mulheres?”. Sim, minha cabeça estava a prêmio, com os “headhunters” cada vez mais indignados e enfurecidos. Em parte porque os radialistas locais, na falta de outro assunto, requentavam a história 24 horas por dia.

O jornalista Beto Azedo, que também estava na cidade, me encontrou alguns meses depois no Bar Calígula, ali na Aparecida, e não se conteve:

– Caralho, bicho, o que qui tu andou aprontando em Parintins?... Eu estava com uns amigos no Bar Chapão, quando um sujeito, espumando de ódio, falou pra outro: se eu encontrar aquele tal de Simão Pessoa aqui na cidade, ele vai ser devolvido pra Manaus aos pedaços... Vou esquartejar aquele filho da puta!... Aí, tirou da cintura uma faca de sete polegadas e colocou em cima da mesa... Porra, bicho, eu fiquei tão nervoso com aquilo, que saí do bar...

Tive que repetir a história do mal entendido pela milionésima vez.

Por conta do escarcéu, passei uns seis meses sem escrever no jornal e com um puta sentimento de culpa de ter contribuído involuntariamente para o afastamento do Marcos Santos da função de apresentador oficial do touro negro, ocorrida no ano seguinte (até hoje, ele jura que saiu voluntariamente e que o fuzuê não teve nada a ver com a sua decisão).

De qualquer maneira, fiquei tão irritado com o golpe baixo do boi Garantido que me converti automaticamente em fervoroso torcedor do boi Caprichoso que, aliás, ganhou o festival daquele ano. E, de quebra, ainda tendo o Marcos Santos como apresentador. Só voltei a colocar os pés na ilha em 1995. Mas isso é outra história.