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sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Assim nascem as lendas


Por Laurent Chalumeau, da Rock & Folk

“Se deus não se resolver a destruir o mercado do rock, ele deve desculpas escritas a Sodoma e Gomorra” – Tomy Parsons (Platinum Logic)

HOLLYWOOD, CALIFÓRNIA – INÍCIO DOS ANOS 80

A Califórnia é uma região enganadora: típica periferia americana, isto é, um campo de trabalhos forçados disfarçado em colônia de férias pelo seu clima agradável e os maquiadores, estilistas e decoradores de Hollywood. Vince trabalha como eletricista, ou qualquer coisa do gênero, enquanto os outros estão curtindo. Quando não trabalha, dá um giro pelos lados de Hollywood.

Ele gostaria de encontrar um estilista ou uma maquiadora que o transformasse em mais um curtidor da vida. Manequim, ator, talvez uma estrela do rock, porque, afinal, ele gosta bastante de rock. Rockstar como aqueles que aparecem nos anúncios e nos clips: carros chiques, roupas transadas, garotas sexies.

Por enquanto, a experiência de Vince se limita a um ou dois Air Guitar Contest, esses concursos de solos epiléticos tocados sobre guitarras invisíveis, tal como praticado pela garotada durante os concertos: um tipo de diversão em moda nos salões hard do centro-oeste americano e da Califórnia. Vince nunca faturou um prêmio, apesar do “consolo” que ele deixa aparecer acima das calças para distrair o júri. “Por que não, afinal?”, pensa Vince.

“Fisicamente não tenho muita pinta. Também não sou o cara mais inteligente que eu conheço, mas, puxa, não é porque somos feios e burros que não temos direito a um pouco de diversão. Pelo contrário, a gente deveria ter direito a uma dupla dose de bebidas, dinheiro e garotas. Para compensar.”

KERRANG KERRANG

Não se preocupe, porque você não está sozinho nesta jogada. Por exemplo, tem o seu amigo Nikki, que não é como você, é uma espécie de cabeça feita, lê os livros até o fim. Durante o dia ele vende telefones e à noite ele recopia as cartas dos leitores de Penthouse, tentando encontrar rimas. Nikki escreve letras de música. Pelo menos tenta.

Ele toca também um pouco de baixo, alguns riffs que encontrou na lixeira do estúdio Record Plant. Mas isso não tem tanta importância. O rock não é só música. Nikki quer aproveitar sua juventude, esvaziar todas as garrafas, traçar o que pintar e não se chatear com um trampo mixuruca. Nikki também quer ser rockstar. Mas, como ele é mais inteligente, quer “viver o rock até os seus limites”.

Tommy é metido a gostosão. Nem precisa dizer que toca num grupo só para faturar as gatas. Ele gosta de bater nos tambores e será o baterista.

Quanto a Mick Mars... Bem, ele é muito mais velho que os demais. É casado. Já tem três filhos. Nasceu em Indiana, de pai pastor. Começou a tocar com nove anos, depois que sua família mudou para Hollywood. Quando encontra os três outros, ele sobrevive tocando num grupo disco. Mas a discothèque está decaindo e o heavy parece estar acordando em L. A.: Quiet Riot, Hanoi Rocks etc... Por que não o metal? Nikki já tem um nome ótimo: “Motley Crüe” (germanização de motley crew, que em português significa “gangue de maltrapilhos”).

Uma noite eles estão bebendo no Rainbow, o bar hard da rua Sunset, quando decidem começar a trabalhar juntos. Alguns ensaios mais tarde, já gravam o primeiro álbum, de qualquer jeito. Eles mesmos se produzem e lançam o disco pela Leathur Records (o seu próprio selo). Mas, mesmo quando se trata de “te enfiar minha lâmina quente até o fundo, até que o sangue escorregue nas suas coxas, yeah!”, palavras bem escolhidas, nada acontece. Parece mesmo uma gangue de maltrapilhos que fica gritando obscenidades.

Entretanto, eles são um pouco mais ousados que os outros grupos de metal. Quem sabe, com um empresário que os dirigisse com bastante dinamismo?

Quando se juntaram à escuderia do empresário Doug Thaler, os quatro integrantes do Crüe deram um belo pulo pra frente, em termos de carreira. Muito tempo atrás Doug tocara no grupo de Ronnie James Dio e, durante os anos 70, organizara para a agência ATI as turnês de Blue Oyster Cult, Aerosmith e muitos outros.

Pouco a pouco Thaler aprendeu todos os detalhes infalíveis que, a sorte ajudando, enchem os ginásios norte-americanos e vendem discos para os garotos da periferia. Thaler conhece a música, ele já entendeu tudo.

Associado ao herdeiro de uma pequena fortuna texana, Doug decide arriscar com Nikki e sua gangue. E começa gastando dois mil dólares em roupas. Na seqüência, confia a produção do álbum a Roy Baker, produtor de talento, encarregando-o de dar uma polida geral. O álbum interessa à Elektra e o LP Too Fast for Love é relançado, dessa vez “de verdade”.

Então, para o seguinte – Shout at the Devil –, Thaler faz uma nova extravagância: contrata Tom Werman produtor de Ted Nugent, Cheap Trick e Twisted Sister. Thaler e Werman concordam, pelo menos, num ponto: os quatro não são geniais, mas também não são preguiçosos. Transformá-los em estrelas não será difícil. Werman os força a estudar música e Thaler marca show em cima de show.

As letras de Nikki fazem o resto do serviço: “De joelhos, bote-o pra fora, bem devagar”. Acaba chamando a atenção. O segundo disco do Motley vende que nem banana. Tudo funciona a mil quando, de repente, uma entrevista de rotina, uma simples operação de promoção, ameaça virar uma catástrofe.

No final de 83, Thaler não reclamaria nada se conseguisse um pouco de publicidade. Quando uma certa Debra Frost anuncia que a revista People gostaria de dar seis páginas de Motley Crüe e que ela precisaria passar uns tempos com as figuras, Thaler fica muito contente. Os jornalistas da People são profissionais, sabem o que devem imprimir e o que deve ser deixado de lado. Debra passa vários dias em companhia do Crüe, e cada um do grupo, a começar por Thaler, abre o coração para a jornalista.

No dia em que descobre que, além do People, Frost pensava aproveitar as entrevistas para publicar um tipo de “Hard Rock Babylon” no Village Voice (com toda a verdade que o pessoal ligado deseja saber), Thaler entra em pânico.

Ele se toca de que a desgraçada vai publicar não somente todas as histórias de bebidas, sexo (até aqui, tudo bem; Thaler sabe que um bom escândalo vale o mesmo que cinco a dez mil execuções no rádio), mas também de que ela vai “revelar os segredos” (a expressão é dele), a idade real dos caras (sem maquilagem, Mick Mars parece muito além dos trinta), a situação familiar de cada um (Vince é casado, Mick está para divorciar, tem três crianças), os passados (Nikki contou umas boas sobre sua infância e sua mãe) ou mesmo as estadias em clínicas para se limpar de todos os micróbios que o “bráulio” catou durante as turnês (daria para esfriar até a mais disposta das groupies).

Para melhorar as coisas, mais ou menos na mesma época, Vince, bêbado, pega uma auto-estrada na contra-mão, amassa um carro, machuca duas garotas e aproveita para mandar pro além o baterista do Hanoi Rocks. Vince pode pegar até cinco anos de cadeia. E durante o processo tem o juiz que fica lendo Star Hits para citar os trechos onde Vince se vangloria de beber sozinho em uma noite o que a Polônia e a Irlanda demorariam seis meses para esvaziar.

O grupo decide não posar para a People, que não publica o artigo. Vince é condenado a trinta dias e a uma multa indenizatória de US$ 2,5 milhões, pagos às vítimas. Thaler respira aliviado. Mesmo assim o Village Voice publica o artigo de Frost.

As mulheres dos senadores norte-americanos declaram guerra ao rock, em geral, e ao hard, em particular. E Thaler constata feliz que, afinal, todo esse barulho ajudou as vendas de Theatre of Pain.

Entretanto, ele escapa de uma fria, conforme confidenciou a 5pm: “Ter deixado essa mulher se aproximar deles foi talvez o maior erro da minha carreira. Primeiro, ela parecia um professor de ginástica. Por outro lado, os quatro são falocratas até a morte; para eles uma garota só serve para uma coisa: foder. Ela perguntava coisas do gênero ‘como vocês se chamavam antes de começar o grupo?’ Pô, o cara passa seu tempo tentando esquecer os primeiros vinte cinco anos de sua vida, e acabam perguntando logo isso? Isso não vai vender discos nem revistas, só vai machucar o carinha”.

No mês seguinte a 5pm publica uma carta de Debra Frost: “Primeiro, não pareço um professor de ginástica. E não estranho o fato de Thaler pensar que os jornalistas só servem para vender discos. Ele também se parece muito com seus potrinhos, que acham que mulher só serve para sacanagem”. Enquanto isso o Mõtley Crüe vende milhões de discos e é consagrado o grupo mais ultrajante dos anos 80.

Well... Entrevistei Nikki Sixx, entrevistei Mick Mars, discuti com Debra Frost. Doug Thaler foi muito simpático comigo.

Encantados por encontrar alguém que ainda se escandalize com esse tipo de imbecilidade, os quatro aproveitaram para acrescentar e chocar Debra Frost. Eles pediam para ela ficar na sala onde eles traziam suas jovens fãs. E pediam que ela olhasse as “brincadeiras”.

Ela se aproximou desses garotos mais do que qualquer outro jornalista, antes ou depois dela. E trouxe duas ou três observações: “Vince é comovente. Sempre falando do seu bar: ‘Você precisa ver todas as garrafas que tenho’”; “Ele prefere as garrafas a todos seus discos de ouro”; “Eles odeiam as mulheres, em geral, e as groupies, em particular. Você precisa ver como eles falam das mães!”; “Eles desprezam a docilidade de seus fãs”.

Naturalmente, em sociedade eles não são nem David Niven nem John Gilgoud. As lições de boas maneiras foram tomadas na zona. Mas, sem ser simpático, Nikki, por exemplo, é interessante em entrevista. E até intrigante como usa sua coleção de sofismas.

P: Vocês vêm de onde, geograficamente, socialmente e musicalmente?
N: Geograficamente, de Hollywood. Socialmente, da sarjeta. Musicalmente, dos grupos glitter e hard dos anos 70.

P: Vocês deram uma entrevista apimentada a Spin? (amostras: “No próximo álbum e durante a próxima tour, vamos ser mais nojentos”) Afinal, não é cansativo ser nojento todos os dias?
N: Não me forço a ser nojento. Vivo assim, às gargalhadas.

P: Se você achasse a mulher da sua vida...
N: Isso não existe para mim.

P: ...isso não o deixaria mais calmo?
N: Nada pode me acalmar! Tenho o rock’n’roll no sangue. Para mim tudo isso é normal. Se os outros grupos fossem menos chatos ninguém repararia na gente. Eu aproveito para agradecer a todos os Dire Straits e Simple Minds do mundo por terem feito de mim um rebelde, o Inimigo Público n.º 1. Nós somos o show total, nas ruas ou no palco. Nós damos tudo. Como num filme pornográfico. Exato, é com isso que temos de ser comparados.

P: Já que você é um rebelde, tem alguma causa a propor a seu público?
N: Não é a minha. Estou aqui só para tocar rock.

P: O acidente do Vince vai mudar alguma coisa?
N: Nunca. Agora só falamos de não beber antes de dirigir.

P: O que é essa estrela que serve de logotipo da banda e essa história de “Teatro da Dor” – é verdade que vocês são adoradores de Satanás?
N: Porra, quantas vezes vou precisar explicar isso? A estrela é um pentagrama. A Bíblia o define como um símbolo de sorte. Theatre of Pain vem de um livro que eu li sobre o teatro italiano da Idade Média, sabe, a comedia de l’arte. Eu fiquei impressionado pela semelhança com o nosso show. Na época, se os saltimbancos não divertiam o rei, eles eram degolados. Para nós é a mesma coisa. Se não damos o máximo de nossas possibilidades, o público nos condena à morte. Nosso lema é “diversão ou morte”. E os nossos fãs sabem disso perfeitamente. São os pais e as mal-amadas do PMRC (o grupo de mulheres dos senadores de Washington) que divulgam todas essas besteiras sobre a gente, mas a garotada entende. Nós somos um grupo de rock (a essa altura ele começa a declamar o que parece ser o seu credo, já que o recitou várias vezes frente a outros microfones)... A gente adora os excessos do rock. Porque é maravilhoso. Aqueles que dizem que não desejam essa vida estão falando abobrinhas. Não precisa fazer a cama de manhã. É melhor do que o Natal: não é preciso crescer, amadurecer e todas essas palhaçadas. Tudo o que você precisa fazer é pegar o telefone e pedir champanhe, depois descer do quarto, pegar a limusine que está à sua espera para levá-lo aonde você quiser, tocar, na seqüência comer, encher a cara e, depois, festas backstage com garotas geniais e os fãs, e cataplum! – no dia seguinte você recomeça tudo numa outra cidade, com outras pessoas. É genial.

VIVER O ROCK (5.º GERAÇÃO)

Nikki entendeu tudo. Quando você ouve suas explicações, o que o rock deveria ou não ser, pensa que ele deveria ser crítico. Nikki decorou os relatórios das turnês históricas do Who, Rolling Stones, Aerosmith. E realizou seu sonho: vive como seus ídolos. Nikki leva uma vida de rockstar, mas não é um roqueiro. Os pequenos textos pornográficos que ele rabisca rapidamente não são ruins, mas até hoje não escreveu uma boa canção. Mas ele não está nem aí. Afinal, o rock não é só música. Na comédia do rock, é verdade, todo mundo tem um papel já definido por trinta anos de tradição: Arlequin, as estrelas, os fãs, as groupies, os empresários etc... e um dia – Nikki já sacou – ele será degolado.

Um comentário:

Chrys Braga disse...

Comentário nada a ver com o texto, mas assisti sua entrevista no Jogo de Cintura e passei a admirar mais ainda. Sou sua fã, agora declarada. Quero saber onde encontro seus livros. :D Ah, publica aqui os signos das mulheres, quero saber o meu, sagitário. Beijo