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sábado, julho 11, 2009

Carta aberta ao governador Eduardo Braga


Por Armando de Paula (*)

Senhor Governador do Amazonas, Eduardo Braga:

Apelo à força política aglutinada democraticamente em suas mãos, como última instância na busca de ver estabelecer-se definitivamente em nosso Amazonas, pelo menos o nascimento oficial de sua própria cultura, uma vez que ela ainda não foi sequer reconhecida como existente, de modo a ser tratada como tal.

Faço isso na esperança de não precisar “queixar-me ao bispo” como tenho sido ironicamente aconselhado a fazer, como se o Amazonas fosse terra de ninguém, ou ainda estivéssemos no começo do século e a borracha, a ópera, os coronéis de barranco e as prostitutas parisienses ainda estivessem na moda.

Não é de hoje que observo o vai e vem das ambições mais diversas correndo célere em seu fazer daninho e, como vampiros, ano a ano, a sugar a vitalidade singular de nossa cultura legitimamente amazonense, nascida dos anseios culturais da população, através de seus artistas, sensíveis antenas e arautos que, captando o momento psicológico das multidões e se expressando livremente, contribuem grandemente para sua evolução e progresso, isso desde que a civilização existe.

Muito se tem esperado do Amazonas em termos culturais, no Brasil e no mundo. Quem somos nós pelo que expressamos? Qual é nossa verdadeira identidade? Quem poderá dizer?

Alguns anos atrás, certo governador, por ignorância ou indiferença, afirmou que no Amazonas não havia arte e cultura, que a única coisa que reconhecia era o Festival de Parintins como expressão cultural. Menos mal, considerando-se que os tambores desse movimento já encontravam eco no coração de nossa gente. Assim, ele, em sua “macro visão”, iria promover a grande revolução cultural.

Desse modo resolveu sem nenhuma consulta, nenhuma pesquisa, nenhuma investigação aos legítimos valores culturais da nossa terra, importar o que havia de mais imponente e pomposo na cultura européia, e implantá-lo verticalmente no juízo da população, como quem pretende a golpes de machado abrir caminho para novas idéias. É o velho método “goela abaixo”, bastante popular no Amazonas entre os que chegam ao poder. Será que ninguém ainda pensou no descabimento de um festival de samba na Chechênia?

Quero deixar claro que não sou contra nenhum tipo de manifestação cultural, pois, como artista, busco constantemente evoluir para uma compreensão mais elevada, que me conduza a uma superior apreciação da vida, o que inevitavelmente me leva a um profundo respeito ao papel que cada um desempenha em cada canto de nossa imensa aldeia global.

Serão sempre bem vindas, para nosso deleite e crescimento espiritual, toda e qualquer expressão cultural de qualquer parte do Mundo, que, como aves viajantes visitem sempre nosso quintal, em alegre algazarra por nossos pomares.

O que não deve acontecer por uma simples questão de coerência é permitir que tais aves numa forçosa migração predatória façam seus ninhos em todos os galhos de todas as árvores comendo todos os frutos de nosso viveiro, impedindo até que possam cantar nossos passarinhos.

Questiono, com isso, inclusive a falta de equilíbrio da balança do direito social, constitucionalmente estabelecido, sabedor que de que o Amazonas possui não apenas uma vasta biodiversidade, mas também uma enorme sociodiversidade.

Menciono o acontecimento, simplesmente porque desde então, a Expressão Amazonense sofreu um golpe ainda maior que a indiferença já praticada, que foi o prejuízo de uma comparação desleal aos olhos de nossa gente.

De um lado, a “pomposidade” dos elementos alienígenas importados, ancorados na aparência de grandes e cintilantes eventos, que não traduzem sentimentos de empatia e senso de identificação necessárias, própria da arte produzida e nascida dos anseios do próprio povo, sendo que tais manifestações ganharam o direito de ter milhões de reais à disposição para sua inteira realização.

Do outro a, aparência tímida e acanhada de nossos melhores esforços em nossas manifestações culturais, que não parecem atingir sequer o status de diversão casual, devido à falta do glamour que só o dinheiro pode patrocinar, o que justamente a Expressão Amazonense não tem, desde tempos que já se perdem.

O que é oferecido como forma de apaziguar os ânimos (uma espécie de “cala boca”), enquanto vai se empurrando a cultura com a barriga, se compara às migalhas atiradas de uma lauta mesa, que além de não saciar a fome e sede do pedinte, ainda o aprisiona na humilhante situação de mendigo.

Ora, que elemento vigoroso é esse que brota do seio povo e explode numa canção popular, levando todos a cantar pelas ruas da cidade sua alegria e orgulho de pertencer a uma determinada cultura, como faz por exemplo o povo baiano? Trata-se neste caso da “expressão baiana”! Com cara e jeito de baiano!

Como não poderia deixar de ser, é o artista baiano celebrando sua liberdade de expressão, plenamente identificado com os anseios culturais de sua gente, num transbordamento cultural tão intenso que subjuga fronteiras, a ponto da mesma ser exportada, estudada e até imitada em diversos lugares do mundo! E qual a diferença desta para a expressão amazonense? P R I O R I D A D E !!!

Senão por algumas iniciativas demagógicas ao longo desta insólita trajetória, o artista amazonense sempre encontrou grandes obstáculos ao seu fazer artístico. Além do desprezo do qual falamos, ele tem que remar muito para atravessar o rio volumoso da burocracia, colocado ali como uma ameaça perene a testar as últimas fibras de sua resistência.

Ele compete duramente para conseguir uma mísera pauta para exercitar seu labor artístico, mostrando seu trabalho em algum canto desprestigiado e sem a publicidade adequada, ou até em lugar mais sofisticado, porém sem poder realizar com um mínimo de condições a apresentação de sua arte por falta de recursos.

Essa situação produz uma constante e angustiosa frustração geral, tanto nele que produz, como em quem assiste, dando largas à visão de que o artista amazonense é preguiçoso e incompetente, e a expressão amazonense é uma quimera; o que significa ainda dizer que no Amazonas realmente não tem arte e cultura: “Necessário importar!”

Depois de realizar seu show, ele é obrigado a transitar em diversos departamentos para por em dia a papelada, para receber a ninharia imposta por uma tabela aviltante, que ele é obrigado a aceitar se quiser continuar vivo como gente e como artista, tendo ainda que esperar ansiosamente por meses até receber. Louvo o profundo heroísmo desses corações intrépidos, pura inspiração para mim!

Todo esse comportamento surpreendentemente rude dos setores no comando do Estado à nossa prata da casa, se choca escandalosamente com o tratamento dispensado à quem vem de fora patrocinado pelo governo, quando a coisa lhe interessa.

O artista já chega com um bom cachê garantido, imediatamente pago, sem burocracia ou qualquer embaraço, numa demonstração clara quanto ao senso de prioridades de quem hoje conduz o leme desse barco sem quilha, há muito navegando ao sabor das conveniências pessoais de uns e outros.

E para provar vou narrar aqui o mais recente episódio onde as máscaras caíram e não é possível mais ignorar a declarada posição do governo em relação à nossa cultura: há dois na SBPC de Belém, o senhor, como autoridade máxima em nosso Estado, convidou a SBPC para se reunir no Amazonas que aceitou e escolheu para esta reunião, o tema “Amazônia – Ciência e Cultura”, realçando a importância da atividade cultural como parte inalienável do evento deste ano.

Mas aí entrou a politicagem, a vaidade, as intrigas, a sabotagem e o desprezo pelos artistas locais e tudo foi “por água abaixo”, carregado pela enchente do descaso governamental, conforme já foi amplamente denunciado pelo pesquisador do INPA William Nazaré.

O Governo do Amazonas tem o dever moral de pelo menos dar uma explicação aos artistas e à sociedade amazonense do porque dessa discriminação absurda contra os nossos valores culturais legítimos colocando em xeque até o bom-senso, senão à própria sanidade de quem nos governa.

Incrível, mas tudo isso acontece justamente quando o governo se prepara no maior descaramento para gastar a rodo num descabido festival importado de Jazz, dizendo que não tem dinheiro para apoiar nossa cultura.

Aqui expresso meu desabafo, impelido pela mais pura necessidade, na esperança de um dia poder livre e consubstancialmente oferecer meu trabalho a apreciação geral e dele viver com dignidade, distante do perigo de descambar pelo caminho do alcoolismo e da auto-destruição como tenho visto nos meus 30 anos de fazer artístico na vida de muitos hoje à margem do caminho. Ou até quem sabe ser passível de coisa pior: transformar-me em funcionário público e esquecer de vez meu sagrado compromisso com a arte, ilhado geográfica e culturalmente nesse imenso rincão.

Assim, se para mais nada servir este manifesto, expressão legítima de uma dor, seja ele um marco histórico no desenvolvimento cultural de nossa tribo. Que todos saibam que um dia alguém disse não a esse estado de coisas, especialmente às futuras gerações que ávidas de desenvolvimento haverão de questionar o atraso.

Possa ele por outro lado sinalizar a luz da aurora de um novo tempo. Tempo de resgate e sedimentação de nossa legítima expressão amazonense, que nada mais é do que nossa voz alegre e consciente, potente e vibrante, partindo a plena confiança de nossos saudáveis corações, anunciando ao mundo que no Amazonas existe vida inteligente, criativa, responsável e competente, apta a administrar o imenso patrimônio natural do qual é dona, em benefício de suas gentes, as gentes de todo mundo, e assim poder dizer sem os artifícios da propaganda demagógica, sim, eu tenho orgulho de ser amazonense!

(*) Armando de Paula é compositor, cantor, músico, produtor fonográfico e agitador cultural – além de meu amigo de infância

quinta-feira, julho 09, 2009

Barrados no baile ou a vitória da estupidez, da mediocridade, da ignorância, da pequenez, da insensatez, da desfaçatez, whatever


Recebo este e-mail indignado do competente William Nazaré, atual presidente da Associação dos Pesquisadores do Inpa (ASPI), que desde já tem a minha solidariedade irrestrita. A esculhambação rouberiana, dessa vez, passou dos limites. Um nojo, simplesmente, um nojo!

Sintam o drama:


A partir da próxima segunda-feira, Manaus será, por uma semana, a capital da Ciência e da Cultura do Brasil. Isto porque estará sendo realizada no campus da Ufam a 61ª. Reunião Anual da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC), evento que reunirá cerca de 15 mil pessoas diariamente e dezenas de sociedades científicas do Brasil e Exterior.

A SBPC é uma entidade sexagenária e conhecida por ser “uma sociedade com princípios” e dela podem participar cientistas, técnicos, profissionais, amigos da ciência, estudantes, pessoas dos mais diversos interesses, mas que acreditam na importância da ciência. A entidade publica a revista “Ciência e Cultura”, a mais antiga revista científica do Brasil. Durante a ditadura militar, as reuniões da SBPC foram palco privilegiado para classes, entidades e pessoas que não podiam se manifestar livremente.

Há dois anos, na SBPC de Belém, o Governador do Amazonas, Eduardo Braga, convidou a SBPC a se reunir em Manaus. A SBPC aceitou o convite e colocou como tema desta reunião “Amazônia – Ciência e Cultura”, refletindo a importância da atividade cultural que é o segmento da economia que mais cresce em todo o Mundo, bem como dado o fato de que a Amazônia e seus 25 milhões de habitantes sempre são vistos na mídia associados ao desmatamento, queimadas, garimpo, prostituição infantil e pobreza.

Dentro das reuniões anuais da SBPC existem diversos fóruns e atividades dentre as quais se destaca a SBPC Cultural que tem o objetivo de mostrar a cultura do Estado anfitrião. Pois bem, este ano, na reunião de Manaus, quando o tema é justamente “Amazônia – Ciência e Cultura”, a SBPC Cultural foi simplesmente cancelada.


Por que a SBPC Cultural foi cancelada?

Desde janeiro os dirigentes do Movimento Cultural Uakti (da Associação dos Pesquisadores do INPA - ASPI), tomaram conhecimento de que a reunião da SBPC este ano seria realizada em Manaus, com o tema “Amazônia – Ciência e Cultura”. Vislumbraram aí uma ótima oportunidade para que os artistas do Amazonas (e da Amazônia) pudessem apresentar seus trabalhos a um público altamente qualificado (formadores da opinião pública).

A ASPI não é leiga no assunto: há 20 anos mantém um movimento cultural denominado Projeto Cultural Uakti (que reúnem no mesmo palco diversas artes: música, poesia, artes plásticas, cênicas, dança, artesanato, expressões afro-brasileiras, entre outras) que tem o objetivo de unir Ciência e Cultura.

Desde 2006, a ASPI mantém o “Projeto Memória da Ciência e da Cultura na Amazônia”, que já produziu oito documentários em vídeo e reuniu um dos maiores acervos fotográficos de artistas e cientistas da Amazônia.

Assim, com a colaboração de professores da Ufam e de muitas cabeças e mãos de artistas, produtores e profissionais ligados à cultura, a ASPI, como contribuição ao enriquecimento do evento, elaborou uma grade de programação digna de receber os visitantes e a própria população do Amazonas.

Alguns dirigentes da SBPC se apaixonaram pela programação e inclusive ofereceram passagens aéreas para trazer um representante de cada Estado da Amazônia para interpretarem canções de suas terras (foram convidados e aceitaram participar do evento: Sebastião Tapajós, Nilson Chaves, Sérgio Souto, Zé Miguel, Eliakin Rufino. Só faltou convidar o Bado, de Rondônia). A direção geral seria do premiado diretor de teatro e cinema, Darci Figueiredo (SP).

O que norteou a programação proposta foi: 1) Mostrar a diversidade e a riqueza da produção cultural dos artistas amazonenses; 2) Propiciar uma reflexão sobre a situação dos artistas da Amazônia e de seus ofícios. Essa programação, que reúne mais de 500 artistas, chegou a constar na página da SBPC na Internet e 10 mil folderes estavam sendo impressos para constar nas pastas distribuídas aos participantes do evento.

Era a “Semana de Cultura da Amazônia” que pretendia reunir diariamente alguns dos melhores músicos instrumentistas (inclusive indígenas); dança contemporânea; música popular (shows “Encontro das Águas e dos Poetas” e “Os rios da minha Aldeia”); performances teatrais; teatro de bonecos; apresentação de corais; expressões afro-brasileiras (capoeira, Tambor de Crioula, côco, afoxé, samba-de-roda); resgates culturais (música de beiradão, carimbó); mostra de toadas dos bois de Parintins; sambas-de-enredo (o INPA e a UFAM já foram temas das escolas de samba. Homenagem à Banda da Bica); uma mostra dos melhores grupos do 43º. Festival Folclórico do Amazonas (quadrilha, cangaço, ciranda, boi-bumbá de Manaus, dança internacional palestina); coletiva de artes plásticas, exposição de fotografias (“Os trabalhadores da Amazônia”); mostra de filmes e documentários; homenagem e releitura da obra do compositor Chico da Silva (o pandeirista lá de cima, no traço inconfundivel do Elvis).

Além disso, 10 performances diárias seriam apresentadas nos intervalos do almoço nas cinco faculdades onde estão concentrados os eventos da SBPC, mostrando a arte e os instrumentos musicais indígenas, grupos instrumentais, performances de teatro e expressões afro-brasileiras.

Mas aí entrou a politicagem, a vaidade, as intrigas, a sabotagem e o desprezo pelos artistas locais e tudo foi por terra. Nem vale a pena relatar quem deixou de fazer o que, pois muitas das autoridades públicas envolvidas nem merecem ser citadas.

O certo é que o governo do Amazonas se omitiu, permitindo que a oportunidade fosse perdida, deixando a arte e a cultura local, mais uma vez, do lado de fora de uma das mais importantes reuniões da América Latina realizada aqui na nossa casa.

Nesse momento, os responsáveis pela exclusão dos artistas da programação da SBPC Cultural estão contatando os artistas de Manaus para que trabalhem de graça aviltando a profissão. Dizem que eles poderão ganhar seus “cachês” vendendo seus CDs.

Por que então não convidam grandes estrelas como Gilberto Gil para virem cantar de graça e ganharem apenas com a venda eventual de seus CDs? Os artistas precisam se valorizar. Artista também come, fica doente, paga conta de luz.


Lançamento do Fórum de Cultura da Amazônia

Diante dessas circunstâncias, a ASPI e o Movimento Cultural Uakti estão convidando todos os artistas, produtores e promotores da cultura e a mídia amazonense a comparecerem para o lançamento do Fórum Permanente de Debates da Cultura da Amazônia (Fórum Amazônia de Cultura) a se realizar amanhã, sexta-feira, a partir das 18h na sede da Associação dos Servidores do INPA – Assinpa (Rua da Lua, Conjunto Morada do Sol, aleixo).

Todas as entidades de classe, artistas, produtores e grupos ligados à cultura estão convidados. Os músicos Sérgio Souto (Acre), Nilson Chaves (o violonista aí de cima, do Pará), Zé Miguel (Amapá) e o poeta e músico Eliakin Rufino (Roraima) já estão confirmados.

Depois da criação do Fórum, haverá o show de lançamento do CD “Palco Brasil”, às 21h00, do radialista Sousa, um dos que mais prestigiam a música amazônica em Manaus.

No blog do Rogelio Casado você pode tecer considerações a respeito da cultura da Amazônia e do cancelamento da SBPC Cultural (http://rogeliocasado.blogspot.com/2009/07/amazonas-exclusao-cultural.hmtl)

Alguns dos artistas que ficaram do lado de fora da SBPC Cultural

É longa a lista dos artistas que vão deixar de mostrar seus ofícios na SBPC Cultural. Alguns ainda sequer tinham sido contactados devido à insegurança trazida pela falta de apoio do Governo Estadual, mas eles certamente iam fazer bonito.

Música Instrumental – Clélio Diniz, George Jucá, Cláudio Abrantes, Grupo B Quadro, Grupo Remanso; Grupo Instrumental indígena Dessana, Grupo Indígena Saterê; Maestro Adelson Santos; Maestro Élson Johnson.

Dança Contemporânea – Grupo de Dança do Amazonas (GEDAM), Cia de Dança Balé da Barra; Grupo Uaetê; Grupo Índios.com; Experimental Cia de Dança; Núcleo de Dança do IEA.


Show “Encontro das Águas e dos Poetas” – Show em três dias apresentando 27 canções com a temática água com letras de poetas da Amazônia. Poetas, compositores e intérpretes: Alcides Werk, Aníbal Beça, Élson Farias, Luiz Bacelar, Eliakin Rufino, Thiago de Melo, Liduína Moura, Celdo Braga, Chico da Silva, Natasha Andrade, Regina Melo, Arnaldo Garcez, Eliberto Barroncas, Armando de Paula, Torrinho, Antonio Pereira (o menestrel aí de cima), Célio Cruz, Gonzaga Blantez, Roberto Dibo, Mário Jackson, Candinho e Inês, Décio Marques, Lucilene Castro, Fátima Silva, Márcia Siqueira, Salomão Rossy, Cristina Oliveira, Lucinha Cabral, Maca, Jr. Rodrigues, Zezinho Cardoso, Ketlen Nascimento, Serginho Queiroz, Zezinho Correia, Lúcio Bahia, Jorge Edu, Vitor França, Shirley Sol, Jeol, China, Ítalo Gimenez, Stanley, Dino, Gilson, La Bamba, Jadão, Gaúcho, Valdez, Léo Pimentel, Mariozinho, Jr. Do Sax.

Show “Os rios da Minha Aldeia” – Nilson Chaves, Sebastião Tapajós, Sérgio Souto, Bado, Zé Miguel, Eliakin Rufino, Neuber Uchoa, Aroma, Zeca Preto.

Boi de Parintins – David Assayag, Arlindo Jr. (mais banda e dançarinos)

Samba de Enredo – Bateria Jovem da Vitória Régia (mais puxadores e abre-alas)

Teatro/Bonecos – TESC, Nonato Tavares, Coia, Adrine Feitosa, Delson Mota, Denis Sales, Paulo Mamulengo

Expresões Afro-Brasileiras/Reggae e Rock – Mestre Castro (Mestre Nacional de Cultura - Tambor de Crioula); Grupo Pela Margem, Grupo do Caroço, Grupo Cileno e Banda, Grupo Escada sem Degrau, Grupo Casulo, Movimento Muiraquitã, Jonh Jack Mesclado, Essence, Banda Basic.

Danças Folclóricas – Cinco grupos ficaram de fora.

Homenagem a Chico da Silva – Cinco intérpretes e uma banda base deixarão de trabalhar na SBPC Cultural.

Resgates Culturais – Cinco músicos trabalhavam no resgate da música de beiradão que faria uma releitura das obras de Teixeira de Manaus, Cheiro-Verde, Chico Caju e Pinduca.

Mostra de Corais – Três corais trabalhavam obras do Maestro Waldemar Henrique.

Artes Plásticas – 20 artistas plásticos novos e consagrados iriam expor suas telas.

Exposição de Fotografias – Duas exposições “Os trabalhadores da Amazônia” e “Biodiversidade dos arredores de Manaus”.


Agora, respondam sinceramente: é ou não é de dar nojo?

Grande Mestre da AMOAL - Seccional Passo Fundo (RS): Tarso de Castro


Diferentemente da maioria de nós, que descendemos dos macacos, o gaúcho Tarso de Castro parecia um descendente dos cavalos: cavalgava sobre os amigos, os inimigos, as mulheres e sobre si próprio, sem se importar com os estragos provocados pela força dos cascos a galope. Era brutal e sedutor. E, por mais que tentem apagá-lo dos registros, ficará na história e na lenda como o criador do Pasquim.

É verdade que mais na lenda do que na história – porque ele não o criou sozinho. Jaguar e Sérgio Cabral foram seus sócios na origem do jornal, em 1969, sem falar no brilho individual dos primeiros colaboradores, como Millôr Fernandes, Ziraldo, Claudius, Fortuna, Henfil, Luiz Carlos Maciel, Paulo Francis e o diretor de arte Carlos Prospéri.

Mas, com sua audácia e criatividade, Tarso foi o amálgama inicial para a imagem debochada do Pasquim, numa época em que o AI-5 acabara de fechar os canais políticos sérios. O sucesso foi incrível: dos 12 mil exemplares iniciais, o jornal passou a 200 mil por semana em apenas cinco meses.


Ele tinha a vocação para criar jornais e o talento para fazê-los, mas sua irresponsabilidade os condenava à vida curta. Sob sua administração, o Pasquim passou a levar uma feroz vida social fora da redação: fechava bares, alugava aviões e se instalava em hotéis de luxo. Um cartão de crédito em seu bolso era um foguete para Júpiter.

Nas boates, quando uma garrafa de uísque caía da mesa e começava a derramar, a ordem de Tarso aos garçons era deixá-la esvaziar-se. Quando se descobriu que, com menos de dois anos de vida, os lucros do jornal também tinham escorrido para a Escócia e o prejuízo já parecia impagável, os sócios o afastaram para que o Pasquim pudesse sobreviver.

O Tarso que chegara ao Rio em 1962, vindo do Rio Grande do Sul para trabalhar com Samuel Wainer na Última Hora, era irreconhecivelmente simples e moderado. Na verdade, levou anos vivendo completamente anônimo no Rio. Mas o sucesso o transformou e o estrondo do Pasquim investiu-o de um poder que poucos podiam disputar.

Tornou-se um personagem: em qualquer lugar em que estivesse, era o que bebia mais, o que falava mais alto e o que saía com a mulher mais bonita. E não economizava suas opiniões: seus ódios ou admirações eram proclamados por escrito ou, ao vivo, nos botequins. Tinha multidões de afetos e desafetos, mas ninguém podia negar-lhe a coragem.

Pode-se dizer que Tarso foi para a cama com todas as mulheres que quis. Era um frenesi erótico que fazia pipocar úlceras até em seus amigos mais bem-sucedidos nesse terreno. Os inimigos, então, queriam comer vidro moído ao saber de algumas de suas conquistas.

O estoque das mulheres de Tarso incluía as que ele acabara de conhecer; as que conhecera pouco antes e estava guardando para um dia de chuva; e as que já conhecia havia muito tempo, inclusive as dos amigos. As mulheres o achavam alegre, bonito e irresistível.

Ele também se achava. Quando declarou no Antonio’s (onde nunca pagou um uísque) que precisava de dinheiro para ir à Bahia encontrar a estrela Candice Bergen (então filmando por lá), os amigos cotizaram-se e forneceram o dinheiro, torcendo para que Candice lhe desse um chute que o devolvesse voando ao Rio.


Tarso foi – e teve com ela um caso que se prolongou por Búzios, pelo Rio e por várias cidades onde houvesse uma cama. Em sua autobiografia, ela descreveu Tarso como “um ex-guerrilheiro que entrou em Havana com Che Guevara”. Ou seja, a pateta acreditou em tudo que ele lhe disse.

Daí a tempos, de volta aos Estados Unidos, Candice escreveu a Tarso para dizer que não se veriam mais porque iria casar-se com o cineasta francês Louis Malle (famoso por ser baixinho). Tarso apenas comentou, resignado: “Dos Malles, o menor”.

Seus amigos eram Chico Buarque, João Ubaldo Ribeiro, Luiz Carlos Maciel, Hugo Carvana, José Lewgoy, Leila Diniz, Regina Rozemburgo, Antonio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes, Ricardo Amaral, Julinho Rego, César Thedim, Leonel Brizola. Os inimigos eram todos os que falassem contra seus amigos, com ou sem motivo justo.

Para vingar-se de Jaguar, que o classificara como um “provinciano deslumbrado”, publicou o anúncio de “falecimento” do cartunista na Folha de S. Paulo. Quando ele próprio, Tarso, morreu, seus amigos escreveram obituários carinhosos, mas nem eles puderam esconder o quanto Tarso os incomodava. “Defeitos visíveis e qualidades nem sempre visíveis, sobretudo para quem o via de longe, ou o sofria por perto”, escreveu Otto Lara Resende na Folha.

Sua morte já estava anunciada desde pelo menos 1988, quando os quase trinta anos de álcool em quantidades industriais provocaram-lhe uma cirrose hepática. Otto escreveu também: “O riso apagava no rosto o vinco das noites boêmias. A vida jogada fora, num gesto de desdém e rebeldia. Mas onde está a vida dos que a depositaram na poupança?”.

O objeto da frase era Tarso, mas ela poderia igualmente aplicar-se a Zequinha Estelita, Roniquito de Chevalier, Hélio Oiticica, Cazuza e a outros personagens de Ipanema que nunca se pouparam para a vida – ou para a morte. Uma coisa é certa: Tarso nunca se arrependeu de nada.

Na verdade, Tarso de Castro (1941-1991) é um tempo que acabou. Não por culpa dele ou de alguém em particular, mas porque o tal curso da história parece ter fechado as portas para jornalistas combativos (no sentido de raivosos e parciais), polêmicos (de fato, não os caricatos), idiossincráticos (ele escrevia o que vinha na telha, normalmente umedecida pelo álcool) e apaixonados (atacava e ridicularizava os inimigos da hora, que podiam ser os amigos de ontem ou de amanhã).


Como tudo que o envolvia, a biografia “Tarso de Castro - 75 kg de Músculos e Fúria” é passional. Seu autor, o jornalista Tom Cardoso, considera esse adjetivo forte. Prefere dizer que procurou fazer justiça ao personagem, um dos homens de imprensa mais polêmicos do país entre os anos 60 e 80. “Apesar de ser um porra-louca, um homem de bar, Tarso era um profissional responsável, um fazedor de muitas coisas. Infelizmente, pouco se fala dele hoje”, diz Cardoso.

Gaúcho de Passo Fundo, filho de um dono de jornal e cacique trabalhista local, Tarso herdou do pai as paixões por jornalismo e Leonel Brizola - paixões que se fundiram mais de uma vez.

Adolescente, já incomodava com seu estilo sarcástico-abrasivo em O Nacional, jornal do pai. Passo Fundo ficou pequena, foi para Porto Alegre, para a Última Hora gaúcha. O Rio Grande ficou pequeno, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde conquistou uma coluna na Última Hora em que ironizava ou atacava mesmo os militares. Em 1969, ajudou a criar o mais importante dos jornais de esquerda surgidos durante a ditadura.

“Quis fazer justiça, especialmente, quanto à criação do Pasquim. Tarso é quem foi convidado para substituir Sérgio Porto (editor de A Carapuça, que se transformou em O Pasquim), ele foi o grande catalisador. Hoje, até gente que teve participação pequena é mais associada ao jornal do que ele”, diz Cardoso.

Dos dois mais notórios desafetos de Tarso dessa época, o autor conseguiu entrevistar Ziraldo, mas não Millôr Fernandes, que não respondeu a seus pedidos. Millôr acaba saindo do livro como uma espécie de vilão, em especial por ter sido o único prócer do Pasquim a não ser preso pelos militares.


A carreira de Tarso teve outros grandes momentos na Folha, por onde passou três vezes: entre 1975 e 77, quando foi editor da Ilustrada e criou o Folhetim, suplemento dominical lançado em 23 de janeiro de 1977 e que foi revolucionário na época, com grandes entrevistas, perfis, reportagens e colunistas de peso, tratando de política, cultura e comportamento; entre 1982 e 85, quando assinou uma muito lida coluna na Ilustrada; e na Folha da Tarde, entre 1988 e 91.

Conquistou a admiração do dono do jornal, Octavio Frias de Oliveira, e de Claudio Abramo, diretor de Redação, mas, durante sua segunda passagem, bateu de frente com as mudanças que vinham sendo implantadas. Perdeu sua coluna por “divergências com as concepções jornalísticas em prática na Folha”, conforme nota do jornal reproduzida no livro. Cardoso cita entreveros que culminaram com sua saída.

O autor veste, no livro, a camisa de seu (anti-)herói. Isso não significa que tenha omitido características fundamentais de Tarso. Estão lá o irascível, o incontrolável, o inconciliável, o intransigente, o inveterado alcoólatra que não admitia se tratar e morreu de cirrose hepática aos 49 anos (“Prefiro viver pela metade por uma garrafa de uísque inteira a viver a vida inteira bebendo pela metade.”).

Também estão o bem-sucedido sedutor, que conquistou muitas e até inalcançáveis mulheres, como a atriz norte-americana Candice Bergen, e o dono de amizades fidelíssimas com Chico Buarque, Caetano Veloso, Glauber Rocha e outros.

“Eu gostaria de ter sido jornalista naquela época, quando havia uma cumplicidade entre artistas e jornalistas. Tarso ia a campo, conseguia muitas pautas e entrevistas no bar”, diz Cardoso.

Sua admiração pelo personagem permite que as versões de Tarso sobre os fatos sobressaiam, mesmo que às vezes haja um tanto de folclore nessas versões. Mas também confere paixão ao relato sobre um homem que sempre foi passional.

Com uma lista de amigos de fazer inveja, Tarso de Castro podia ser visto - no mesmo dia - debatendo com Glauber Rocha no Veloso; cantando baixinho com os bossanovistas no apartamento de Nara Leão; curtindo o desbunde com os tropicalistas nas Dunas da Gal (apesar de detestar praia); discutindo política econômica com Roniquito de Chevalier (e poesia com Carlinhos Oliveira) no Antonio’s...

Ninguém se iluda: Tarso de Castro foi um dos mais polêmicos e debochados jornalistas brasileiros. Passional, brigão e sedutor, valia-se do charme não apenas para conquistar mulheres, mas também chefes austeros como Samuel Wainer, Cláudio Abramo e Octávio Frias.

Numa só tacada, por exemplo, conseguiu aumentar as vendas do jornal Zero Hora (RS) e arrumar casamento. Como? Estampando na capa do caderno de Cultura, que editava, Bárbara Oppenheimer, uma das mulheres mais bonitas da cidade e, de quebra, bisneta do fundador do Correio do Povo, principal concorrente do ZH. Pouco depois, em 1968, os dois se casaram e partiram de fusca para o Rio de Janeiro, onde Tarso iria começar uma aventura jornalística mais profícua.

Tarso, que nas palavras de Otto Lara Resende era o menos convencional dos homens e parecia ter um pacto com a felicidade, foi responsável pelo surgimento do único sopro criativo da imprensa brasileira na virada dos anos 60, O Pasquim.

Recrutados praticamente todos em mesas de bar, Jaguar, Sergio Cabral, Ziraldo, Fortuna, Luiz Carlos Maciel, Paulo Francis, Paulo Rangel e Millôr Fernandes fizeram o que seria “a piada do ano”, na previsão furada de Millôr: um jornal feito só por jornalistas, e de humor, em pleno AI-5, “que se fosse independente não duraria seis meses”. Durou mais de 20 anos.

“O Pasquim era a revolução dentro da revolução. Ali se deflagram todos os movimentos. A revolução do jornalismo, a libertação do coloquial, a viabilização do esquerdismo, a libertação do humor e do feminismo, a explosão da contracultura, o desatamento do movimento gay. Era a imagem e semelhança de seu criador, Tarso de Castro”, compara Tom Cardoso.

As presepadas desse autêntico espada matador eram hilárias. Em agosto de 1961,Tarso de Castro foi mandado pelo Jornal do Dia (da Igreja Católica) a Punta del Este cobrir a Conferência Econômica e Social da OEA (Organização dos Estados Americanos). Ele mandava carradas e mais carradas de matérias por telex para o jornal, que aparentemente custavam os olhos da cara pros padres de Porto Alegre.

Na Conferência estava o Ministro da Indústria e Economia de Cuba, Ernesto Che Guevara. O editor de política do Jornal do Dia - que segundo os maldosos pagava os funcionários 15 dias em dinheiro e 15 dias em indulgências plenárias - Carlos Fehlberg mandou dizer a Tarso que não se esmerasse tanto porque o material, evidentemente, não seria publicado (o que é a maior frustração para um repórter).


Restou para Tarso a compensação de mais tarde usar essa foto que fez ao lado do comandante Che para conquistar a atriz norte-americana Candice Bergen. Ele disse a Bergen que a foto fora feita assim que desceram de Sierra Maestra e que ele era um dos revolucionários que haviam combatido a ditadura de Fulgêncio Batista em Cuba. Prontamente conquistou a ingênua norte-americana.

Tarso de Castro morreu em 20 de maio de 1991 e foi enterrado em Passo Fundo. Quando chegou lá, o corpo foi recepcionado no aeroporto local por uma turma muito grande de pessoas. O delegado Romeo Tuma, então diretor da Polícia Federal, estava no aeroporto e perguntou de quem se tratava. Disseram que era do Tarso, filho do dono do jornal O Nacional:

- Ah, já sei, era aquele boca suja da muléstia! – disse Tuma

Numa das ocasiões em que se comemorava a Semana Nacional de Literatura, em Passo Fundo, os irmãos Chico e Paulo Caruso estavam na cidade e foram comemorar no túmulo de Tarso. Quase se desidrataram de tanto chorar, segundo relato de Ana Luiz, editora-chefe do jornal O Nacional. Parece que o cartunista Edgar Vasques também esteve nesta ocasião junto dos irmãos Caruso, que eram amigos íntimos de Tarso (o primeiro a publicar suas charges e cartuns). E dizem que os três visitantes passaram a noite tomando uísque em dose industrial e relembrando causos à beira do túmulo do falecido amigo.

Quando morava em Porto Alegre, segundo Cesar Tasca, que foi garçom da churrascaria Barranco, nos anos 70, Tarso de Castro freqüentou o local quase diariamente sempre na companhia de Paulo Odone, atual deputado estadual do PPS e presidente do Grêmio. Tarso também costumava aparecer no recinto com belas companhias femininas, como uma vez em que quase matou os homens de inveja ao entrar na churrascaria com a então exuberante cantora Fafá de Belém. O cara era um autêntico bode de caatinga: comia tudo que via pela frente e, ainda por cima – dizem –, tinha uma jeba descomunal.

Tarso de Castro teve um único filho (e seu relacionamento com ele foi dissecado no comovente “Pai solteiro e outras histórias”, único livro escrito pelo jornalista), que parece estar seguindo as pegadas do pai, conforme relato da jornalista Bárbara Gancia em seu blog, no último dia 18 de maio:

“Não tem nada de misterioso o publicitário João Vicente Castro, que foi fotografado com Daniela Cicarelli numa festa qualquer no sábado passado. Eu, por exemplo, o conheço desde o dia (ou perto disso, vá) em que ele deixou a maternidade. Talentoso, urbano e lindo, João Vicente puxou a inteligência do pai, o jornalista Tarso de Castro, morto em 1991, e a curiosidade da mãe, a designer cultesiméssima, Gilda Barbosa. Trata-se de um pedaço de rapaz, maduro, sério, viajado e que sabe de tudo um pouco e a Cicarelli deveria levantar as mãos aos céus apenas por respirar o mesmo ar que ele. E tenho dito.”

Corram atrás do livro do Tom Cardoso para recordar esse jornalista genial, homeboys! Eu recomendo.

Grande Mestre da AMOAL - Seccional Vitória (ES): José Carlos Oliveira


José Carlos Oliveira, entre Rubem Braga e Vinícius de Moraes. Atrás, Paulo Mendes Campos e Sérgio Porto. Ao Lado, Fernando Sabino.

Nos primeiros dias após o golpe militar de 31 de março de 1964, Ferreira Gullar se escondeu da repressão com os jornalistas Newton Carlos e Jânio de Freitas no sítio de outro jornalista, Reynaldo Jardim, perto de Nova Friburgo, estado do Rio. O jornalista Carlinhos Oliveira já estava lá desde 28 de março, mas escondendo-se do marido de sua amante.

Carlinhos estava com 30 anos e já era endeusado, na época, como o melhor cronista do Brasil. Ele também tinha o hábito, desde os 14 anos, de escrever uma espécie de diário íntimo em dezenas de cadernos e, dessa vez, sem nenhuma maldade, escreveu no seu diário que alguns amigos haviam chegado ao sítio e citou os nomes.

Um dia foi a Friburgo fazer compras e ao voltar viu no caderno que as cinco linhas sobre a chegada do grupo haviam sido cortadas com gilete. Carlinhos sentiu-se humilhado, esbravejou e foi embora. Nunca mais voltou a falar com Ferreira Gullar com quem, dez anos antes, havia dividido um quarto de pensão no Catete.

Em 1981, quando publicou seu romance à clef intitulado “Um novo animal na floresta”, que versava sobre a guerrilha urbana, Carlinhos deu o troco: ele usou os pseudônimos de João Ribas e Dolores para descrever e avacalhar o poeta Ferreira Gullar e sua esposa, a atriz Teresa Aragão.

No mesmo ano, inconformado com a crítica desfavorável ao livro publicada na revista IstoÉ pelo jornalista Geraldo Galvão Ferraz (ele acreditava que Ferreira Gullar é quem havia escrito o artigo), ele vociferou, por meio da crônica que escrevia diariamente no Jornal do Brasil: “Não serei assassinado por esses comunistas que mataram Glauber Rocha, João do Rio e Lima Barreto!”

Carlinhos imaginava injustamente que a resenha que espinafrava o livro era parte de um complô contra ele. Não era. Morreria em 1986, aos 51 anos, vitimado pela pancreatite e pela diabete. Desde então, mesmo sem complô, sua obra foi praticamente enterrada.

Tratamento inexplicável para um estilista da crônica que durante 23 anos escreveu cinco vezes por semana para o Jornal do Brasil, além de colaborar em outras publicações como a revista Homem, que depois virou a Playboy, com qualidade comparável à de Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Rubem Braga.


Esse lapso começou a ser reparado com o relançamento de seus livros pela editora Civilização Brasileira, por iniciativa do jornalista Jason Tércio, que em 1999 escreveu a sua biografia (“Órfão da Tempestade”).

Na semana passada, o livreiro e poeta Celestino Neto, o “Lé”, passou aqui em casa e me deixou de presente o livro “Diário Selvagem” (um catatau de 518 pp), editado postumamente, que li em menos de 48 horas e já vou emprestar para o poeta Aldisio Filgueiras porque tem tudo a ver com a gente.

A primeira vez que li alguma coisa do cronista foi por meio de uma entrevista que ele deu ao Pasquinzão de Natal, em 1976. Pelo que Carlinhos Oliveira disse na entrevista, ele já havia comido metade das socialites do Rio de Janeiro – e a outra metade seria questão de tempo. Feio que nem um cão chupando manga, ou o cronista tinha uma conversa de derrubar avião ou era um ficcionista do cacete.

Comprei seu segundo romance “Terror e Êxtase”, editado pela Codecri, e achei uma merda. Mas aí o poeta João Bosco Ladislau me emprestou dois livros dele, de crônicas (“O saltimbanco azul” e “A revolução das bonecas”), e tive de rever meus conceitos. O sacana escrevia bem pra burro.

Mais tarde, li seu terceiro romance (“Um novo animal da floresta”) e também gostei muito, apesar de continuar achando que suas crônicas – pelo retrato de época e pela boemia carioca, que ele soube retratar como poucos – eram infinitamente superiores aos romances. Mas esse seu livro póstumo foi um autêntico uppercut no fígado.

No “Diário Selvagem”, o charme e a tensão da época ficam em segundo plano. Aparece o drama pessoal do autor, que lutava contra a doença para tentar inscrever seu nome entre os maiores ficcionistas da literatura.

No relato dessa busca, revela a alma poética, solitária, egocêntrica e sacana. Um texto visceral como não se faz mais nesses tempos em que até as confissões íntimas são copidescadas ao gosto do mercado.

É essa uma das maiores qualidades do diário: a exposição do autor por inteiro, sem pudores morais ou físicos. Em vários trechos, o capixaba franzino, de óculos e cabelos ralos, lamenta ter que escrever por dinheiro. “O pior é não ter mais ânimo para escrever baboseiras de revista ‘masculina’. Que farei da minha vida? Vem aí uma crise econômica medonha.”

Ele queria se dedicar ao fazer literário, caminhar para onde seu ego apontava. Comparava-se a Hemingway, considerava elogios que o igualavam a Faulkner. Inflava-se assim, talvez, para seguir escrevendo em meio às brutais dores no pâncreas, e à hemorragia, que o obrigavam a um coquetel de remédios.

Maltratado pela doença e pela luta para curar-se, mesmo assim conseguia priorizar a criação. “Escuto o pensamento: está silente, no vestíbulo do murmúrio, antes do som e da sílaba. Me agradaria viver, dia e noite, nesta região.” Apesar de assíduo no burburinho dos bares, mal sabia lidar com os que o cercavam. “O mundo real me parece impenetrável. Ainda não sou meu contemporâneo.”

Era humanista, mas não marcou posição política nos anos de chumbo da ditadura. Temia, por isso, que os intelectuais de esquerda o boicotassem, como fizeram com Glauber Rocha, seu amigo.

Entre esses “comunas”, como dizia, incluiu o poeta Ferreira Gullar, com quem se indispôs. Cunhou então os verbos “glauberizar”, como sinônimo de perseguição, e “caetanizar”, como sinônimo de alienação.

A trajetória de um outsider

Em 1952, vindo do Espírito Santo, José Carlos Oliveira, com 18 anos, pisava nas pedras polidas da Guanabara. Duro, sem contatos em uma cidade de dois milhões e meio de habitantes e sem pouso certo, foi direto ao que interessava: o bar Vermelhinho, meca dos intelectuais, boêmios, artistas, jornalistas e políticos no coração da capital, na rua Araújo Porto Alegre. Em pouco tempo, era tão íntimo do bar quanto as mesas e cadeiras.

José Carlos Oliveira, rapidamente, passa a escrever na revista Manchete e no Jornal do Brasil (onde escreveria por 23 anos ininterruptos), além de Cigarra e do lendário Diário Carioca. Passa a escrever crônicas, estilo que, durante sua formação, não vislumbrava. Porque Carlinhos de Oliveira projetara sua maldita e bêbada trajetória para ser romancista – dos bons.

Mas sua vida facilitava a nova frente de trabalho: observador dos bares e das ruas, pensador franco atirador, olho-míssel nas cocotas e nos desvãos da vida urbana. Cronista da linhagem de Bastos Tigres, Emilio de Meneses, Lima Barreto (seu santo protetor), Marques de Rebelo e muitos outros.

Após morar com Ferreira Gullar em pensões no Catete, José Carlos Oliveira mergulha de cabeça no eixo Copacabana-Ipanema-Leblon e nunca mais volta. Os bares do Beco das Garrafas, os porres com cheiro de mar no Alcazar e no Castelinho, as bocas e bundas liberadas da nova Ipanema do Veloso, do Mau-cheiro, do Zeppelin e do Jangadeiros, abraços e ódios com os maiores heróis da cidade, tudo filtrado em suas crônicas.

Tornou-se um dos primeiros colaboradores fixos do antológico Suplemento Dominical do Jornal do Brasil – o SDJB. Tornou-se, para o mundo todo, Carlinhos Oliveira, porque era baixo (1,68 cm), franzino (52 kg) e possuía uma alma de passarinho.

A década de sessenta adentra o ventre do país e rasga as cabeças dos malucos de botecos e revolucionários artistas do Centro Popular de Cultura (CPC). Carlinhos Oliveira, na varanda do Antônio’s (Bartolomeu Mitre com Ataulfo), torna-se o cronista perplexo com a radicalização do homem brasileiro.

O pensamento boêmio não casa com a ditadura ou a guerrilha. As crônicas tornam-se contundentes, diretas, comportamentais, agonizantes, os temas e a linguagem ficam cada vez mais elaborados. O cronista passa, finalmente, a dar lugar ao romancista. Talvez, tarde demais.

O romancista José Carlos de Oliveira torna-se refém do cronista Carlinhos Oliveira. O cronista publica dois livros antes do romancista: Os olhos dourados do ódio (1962) e A revolução das bonecas (1967). Seu primeiro romance foi O Pavão desiludido (1972). Em 1978, seu grande – e único – best seller: Terror e Êxtase. O livro narra como saga urbana, ágil e alucinada, a relação entre o bandido assassino 1001 e Heleninha, filha de família rica de Ipanema. O livro vende mais de 15 mil cópias. O romancista José Carlos Oliveira, porém, continua sendo Carlinhos Oliveira.

A vida de José Carlos e Carlinhos é extensa demais para descrever aqui. O que não pode deixar de ser lido para se entender algumas das premissas do Brasil como frustração é o seu “Diário Selvagem”, publicado postumamente pelo seu biógrafo Jason Tércio.


O “Diário” é simplesmente uma das peças literárias mais fortes, diretas e fundamentais da literatura anos-70 em Pindorama. As entranhas de um escritor classe-média se contorcendo literalmente (Carlinhos sofria de pancreatite crônica e falência do fígado) em meio a uma ditadura militar que o envolvia e o enojava.

Muitos dos trabalhos sobre esse período não conseguem dar conta da vivência cotidiana de alguém que nem foi guerrilheiro, nem foi exilado. Carlinhos Oliveira / José Carlos Oliveira era um escritor torturado não só pela situação política como pelo seu embate com a Literatura, sua sina de ser um romancista “menor”, sem um grande livro, sem conseguir escrever o “romance brasileiro moderno”, algo que ele buscava em suas visões alcoolizadas.

Seus romances não ganharam a amplidão que ele buscava, seu grande sucesso fora um folhetim (“Terror e Êxtase” foi publicado em capítulos no JB). Falências, vergonhas, paranóias e sucessos que não o bastavam iam consumindo sua vida no início dos anos oitenta. Morre em Vitória, sua cidade natal, desiludido com o Rio de Janeiro, com o Brasil e com o Homem.

Em seu Diário, a frustração plena pelo estágio decrépito e carcomido que seu corpo, suas idéias, sua trajetória e o Brasil atingiam vem à tona sem filtros. A frustração de José Carlos Oliveira é a utopia realizada de Carlinhos. O romancista cerebral sucumbe frente ao cronista frívolo, o intelectual disciplinado é engolido pelo bêbado do Antonio’s. O cronista Carlinhos Oliveira afaga e afoga o romancista, dia-a-dia, até sua morte.


Trechos do diário:

29 de março de 1977

“Teoricamente bem. Melhor seria controlar o consumo de cigarros, mas me privo de tanta coisa no momento que seria uma injustiça. Ontem estive com Bruno, filho de Marcos de Vasconcellos, que com sua gatinha Kátia veio me procurar. Bom menino, escreve poemas ainda neuróticos, sem pé nem cabeça, mas se tiver um grão do talento do pai será algum dia um verdadeiro escritor. Está com 19 anos, Kátia é jovem, bela, e também escreve. Fiquei com inveja. Eu tão só e aquele boboca, feioso, meio debilóide, que conheço desde criancinha, namorando firme uma bela garota calma e carinhosa... Merda!”

21 de dezembro, 1977

“A propósito de Terror e êxtase: Mesmo com arma na mão, mesmo massacrando, torturando, humilhando o outro, o brasileiro encontra uma brecha pela qual manifesta sua alegria de viver. Assim, o homem cordial seria a besta feroz por definição, por ser o único animal que continua rindo enquanto esfola o seu semelhante. Ainda mais horrível e, ai de nós, maravilhoso: a vítima, sendo brasileira, também encontra jeito de soltar uma gargalhada enquanto a esfolam”.

6 de janeiro de 1978

“Um punhal pode passar gerações inteiras servindo para cortar páginas dos livros, numa atividade inofensiva e solitária. Só quando a mão de um assassino o empunha é que o punhal se torna sanguinário”

26 de agosto de 1978

“Agora vem Danusia Bárbara me entrevistar a mando de M.P. Esse aí não sossega: quer me derrubar de qualquer jeito; indivíduo perigoso por estar friamente cônscio de ser movido por forças irracionais / inconscientes. Não tenho dúvida que M.P. é psicopata. E eu tenho que conviver com essa gentalha, essa merdalhada humana. Os brasileiros me dão asco (Trêmulo de cólera, não posso continuar a escrever)”.

3 de dezembro de 1978

“Tenho que guardar os diários numa caixa, cuidando que traças e outros bichos não os destruam. Posteriormente serão datilografados. Se minha situação financeira estiver boa ano que vem, posso contratar uma secretária. O fato de ser escritor faz de meus cadernos fonte permanente de consulta. Por isso convém que sejam divididos Em assuntos (na medida do possível), tempo e lugar. Por necessidade de progresso espiritual, seriam inúteis se ao me debruçar neles eu não fosse a posteridade mesma”.

12 de janeiro de 1981

“O Otto escreveu sobre homicídios, ontem no Globo. Sustentou a tese de que o assassino, dentro de si (no foro íntimo) já está devida e severamente punido. O advogado Otto, o procurador do Estado Otto Lara Resende considera o julgamento de criminosos mera formalidade... E se diz escritor, e católico, e humanista, e liberal, e todo mundo acredita nisso. Compreendo minha solidão e meu estigma: outro dia vislumbrei um olhar de inveja mortal no rosto de Paulinho Mendes Campos. Eu posso falar de qualquer pessoa porque li o livro, porque sou escritor, porque não trapaceio. Mas o sucesso é do Otto, a seriedade existencial é do Paulinho, o estilo é do Fernando Sabino, o gênio é de Ferreira Gullar. Não há mais tempo para fugir à minha vocação e ao meu destino. É assim que quero este diário: tudo dito, nada retórico.”

12 de dezembro de 1984

“Vargas Llosa: Contra ventos e marés. Comovido, humilhado, ciente da injustiça que me esmaga, nessas páginas me encontro com um José Carlos Oliveira peruano. A semelhança é ofuscante. Mas nesse nível de grandeza ingênua não haveria justificativa social para um boicote inarticulado. A mediocridade brasileira, todavia, faz de mim um escritor maldito. Eles me malditizam por imitação.”

10 de novembro de 1985

“No Rio. Hoje de manhã, acordando de um sono tranqüilo, compreendi que o romance brasileiro não foi escrito nem houve avanço na arte narrativa. Admiti uma falha trágica: de tanto procurar um romance popular, cuja produção me asseguraria prosperidade, menosprezei o movimento popular transformador, mas me tornei um funcionário aplicado na profissão literária, preso aos formatos preexistentes, não ousando quebrar as estruturas petrificadas. Meu sonho de romancista era um sonho modesto, sem fundamento. Comigo morre um anseio. Há que viver agora modestamente, apegado aos salários que me venham, ao vil metal que me permita sobreviver – sem rancor, mas com espanto.”

terça-feira, julho 07, 2009

O declínio do rock e a ascensão do rap


Via e-mail, o arquiteto e roqueiro xiita Pedro Alexandre Xavier, o "Xandico Bad Boy", lá da nossa querida Belém do Pará, solta os cachorros:

“Poeta, meu brodão, já li o teu livro sobre o rock e achei ducarálio. Acho difícil que exista coisa melhor no gênero. Só que vou procurar nos sebos de Belém o livro do Jim Miller pra ver se é mesmo essa maravilha toda que você falou. Mas que merda é essa de dizer que o rap é o novo rock?...

Você pode não ter acompanhado o rock nos anos 80, mas nessa época despontaram muitas bandas legais: U2, R.E.M., Smiths, Stray Cats, Cramps, Cult, Siouxsie and the Banshees, Sonic Youth, Dinosaur Jr., Band of Susans, Violent Femmes, Plasticland, Fuzztones, Vipers, pra gente ficar nas mais conhecidas.

Isso, sem falar na facção mais metaleira e esporrenta: Scorpions, Judas Priest, Whitesnake, Ozzy Osbourne, AC/DC, Iron Maiden, Venom, Van Halen, Metallica, Pantera, Slayer, Motley Crue, Def Leppard, Poison, Guns N’Roses, Dead Kennedys, Bad Religion, Megadeth, Anthrax, Sepultura, Quiet Riot e Ratt.

O rap é o novo rock meu ovo! Abração.”

Pô, Xandico, devagar com o andor que o santo é de barro! Quem falou isso pela primeira vez foi o jornalista Christopher John Farley, em um artigo publicado na revista Time, em fevereiro de 1999, esgrimindo números significativos: em 1998, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, o rap ultrapassara as vendas da música country, até então líder absoluta das paradas gringas. Foram mais de 74 milhões de CDs, cassetes e álbuns do gênero contra 65 milhões da música country.

Entrevistado para o referido artigo, o empresário Russel Simons, diretor do selo Def Jam (faturamento de US$ 200 milhões em 1998), foi taxativo. “O rock já era. As pessoas criativas que falam atualmente sobre a cultura jovem são os rappers. O hip hop é a voz rebelde dos jovens. É o que o público quer ouvir”, garantiu.

Eu comecei a acreditar nisso alguns anos antes, assim que o baterista Jonh Bonhan morreu, no dia 25 de setembro de 1980, e levou para o buraco, junto com ele, o Led Zeppelin, a melhor banda de rock de todos os tempos. Pra quem ainda não era nascido na época, recordo a presepada.

O baterista havia deixado Worcestershire, região centro-oeste da Inglaterra, no dia anterior para se encontrar com o resto da banda nos Bray Studios, com objetivo de planejar uma nova turnê pelos Estados Unidos, que começaria em outubro. No trajeto, ele consumiu doses industriais de vodka com suco de laranja (o famoso “Hi-Fi”).

Depois da reunião, a banda seguiu para a casa de Jimmy Page, em Windsor, onde John Bonham continuou bebendo “Hi-Fi” pelo resto da noite. Por volta de 1h45 da tarde do dia 25 de setembro, o técnico de som Benji Le Fevre foi procurar por Bonham e verificou que ele havia apagado e que também estava sem pulso. Um médico foi chamado e confirmou a morte do baterista.

A autópsia revelou que a causa da morte foi um acidente: Bonham morreu sufocado pelo próprio vômito após beber o equivalente a 40 doses de vodka em 12 horas. Em 4 de dezembro de 1980, o Led Zeppelin confirmou oficialmente o fim da banda, visto ser impossível prosseguir sem o baterista. Pra mim, o rock comme il fault também morreu naquele dia.

O Xandico pode ficar puto, mas não vou polemizar com ele. Limito-me a relembrar os fatos. Estamos em 1982. Qual foi o sujeito que não ficou mesmerizado quando ouviu pela primeira vez os hits “Beat It”, “Thriller” e “Billie Jean”, do Maiko Jacko? Agora tente se lembrar de um rock de sucesso nessa mesma época...


Estava claro que aquele novo tipo de música jovem capitaneado pelo dançarino esquisitão – guitarras de rock, metais de funk e grooves da house music – iria dar as cartas no hit parade do planeta nos próximos anos e não havia nada que pudesse ser feito a respeito. Comecei a ouvir discos de rap por conta dessa constatação.

De repente, uma coisa extraordinária aconteceu com o gênero: contrariando todas as expectativas (inclusive as suas próprias), o rap virou um sucesso. Sucesso assim: execução em todas as rádios, discos passando da casa de um milhão de cópias, presença obrigatória nas pistas de dança e nas festinhas da periferia.

Sucesso de massa, do tipo que leva artistas à TV, que obriga a MTV a abrir um horário só para o gênero, que coloca fotografias em revistas de fofocas, que vira matéria de capa de revistas especializadas como a Rolling Stone e a Billboard, que transforma o até então subestimado Maiko Jacko em “rei do pop”. Não foi pouca porcaria.

Cronologicamente, menos de dez anos depois do lançamento daquele que todos - rappers e não rappers - reconhecem como o disco pioneiro do estilo (“Rapper’s Delight”, da Sugarhill Gang, de 1979), a música canto-falada que era propriedade exclusiva dos bairros negros e mais pobres das grandes cidades americanas tornou-se aquilo que os especialistas em marketing mais prezam - um crossover, uma forma musical capaz de ser bem sucedida em qualquer praça, independente de cor ou renda pessoal.

O sucesso do rap a partir dos anos 80 (e daí até hoje) foi ainda mais extraordinário se compreendido à luz das peculiaridades - suas e da sociedade americana. É fato consumado, por exemplo, que, mesmo com todas as vitórias civis dos anos 60 e 70, os EUA sempre repeliram instintivamente a integração racial, preferindo ver seu tecido social mais como uma prateleira de supermercado - coisas diferentes, lado a lado – do que como um cadinho de fusões.

Para que o rock, intrinsecamente negro (é só ouvir os primeiros discos de Bo Diddley Chuck Berry e Little Richards), se tornasse o que é hoje foi preciso o endosso e o batismo por radialistas e gravadoras brancas, a reboque de figuras como Alan Freed, Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Buddy Holly - artistas brancos “aceitáveis” para o mercado de massa.

O rap, contudo, à exceção dos Beastie Boys e Eminem - que foram vistos e tratados mais como uma curiosidade passageira que qualquer outra coisa - permanece como área exclusiva de artistas negros. E mais: como o reggae (que até hoje ainda não conseguiu atravessar de fato para o veio principal dos EUA), o rap surgiu para ser, basicamente, uma forma de expressão e comunicação dentro de uma comunidade.

Musicalmente, o estilo sempre foi carnívoro, canibalesco e inclemente, triturando sem a menor cerimônia qualquer coisa que lhe parecesse útil, inclusive e principalmente o rock branco dos anos 60 e 70 - que, naquele exato momento, tornava-se “clássico” e ganhava um duvidoso posto no sacrário das relíquias históricas - e não cedendo um milímetro às necessidades harmônicas e melódicas do senso comum white.

No discurso poético, o rap sempre falou criticamente para iniciados, para a sua tribo, para seus homeboys: seus assuntos são coisas remotas para os meninos brancos da “grande” suburbiolândia americana que gosta de comprar discos: drogas, discriminação, batidas policiais, tiroteios, escuros horizontes profissionais. Sua fala era puro lingo, código, jive, incompreensível, propositalmente, para os periféricos.

E mais: com o crescimento, em tamanho, poder e violência, das gangues negras - que, nos anos 80, se profissionalizaram na esteira da disseminação do crack -, o rap celebrou mais uma duvidosa aliança: passou a ser não apenas “música de negro”, mas “música de gangues”, de bandidos dispostos a exigir seu quinhão em uma sociedade superabundante e consumista.

Apontar como explicação apenas a imensa maré de tédio musical que se abatia sobre o mercado musical do “primeiro mundo”, não satisfazia nem os anões de jardim que estavam curtindo a new wave. A própria insolência antimelódica do rap já seria causa suficiente para o seu sucesso numa praça enfadada com o passado e disposta a detonações pós-modernas.

A grande explicação só podia estar no próprio rap. Velocíssimo camaleão e voraz triturador, o estilo conseguiu se multiplicar em subcamadas suficientes para atender todas as expectativas - e, ainda, manter-se uno, original, diferenciado.

Assim, nos anos 80, a gente tinha o que se poderia chamar de “rap de raiz”, que vinha, em linha direta do histórico “The Message”, de Grandmaster Flash, e se encarnava em crônicas cada vez mais pesadas (em termos de som) e violentas (no discurso poético) da vida no gueto.


Public Enemy, em Nova York, e Ice T, em Los Angeles, eram as grandes vozes, mas a cada dia novos nomes engrossavam as fileiras - como o combo de Los Angeles que atendia pelo nome de N.W.A. (ou seja, “Niggers With Attitude”, algo como “Crioulos Malcriados” e que, sem a menor cerimônia, fez polaróides sem retoques da vida das gangues em seu álbum de estréia, Straight Outta Compton (Compton é um dos bairros negros mais pobres e violentos de Los Angeles) - e que vendeu 500 mil cópias em menos de um mês, com distribuição totalmente independente.

Para a cada vez maior e mais influente classe média negra, que queria distância física, emocional e cultural do gueto, existiam alternativas: o rap engraçadinho de DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince, da Filadélfia, que falava dos mesmos dramas juvenis que deram a imortalidade a Chuck Berry - carros, garotas, escola - ou as bravatas sexuais do angeleno Tone Loc, que vinha dos subúrbios classe média do vale de San Fernando, e foi o primeiro rapper a ocupar o primeiro posto nas paradas de sucesso, com sua versão risquê para o hit sixties “Wild Thing” (Mais tarde, Fresh Prince se transformaria no mega-astro Will Smith...).

Finalmente, havia o público informado das universidades que, de Bob Dylan a R.E.M. sempre foi motor de mudanças no pop americano. Para as rádios college que achavam Public Enemy muito extremo, existia o rap melodioso de um Shinehead, por exemplo, que, ao mixar o estilo com o reggae de sua Jamaica natal, retomou uma das matrizes formadoras do rap, o toast jamaicano.

Ou, de repente, a trinca De La Soul, que vinha do ultra-classe média subúrbio de Amityville, em Long Island, tinha nomes psico-crípticos como Trugoy (Yogurt ao contrário), Pase Master Mase e Posdnuos, idade média de dezoito anos e fazia a mais ousada e incandescente mistura de rap e psicodelismo já ouvida do lado de lá, de Sly Stone a George Clinton.

Assim, ao se permitir estas discretas, mas substanciais diversões de curso, o rap garantiu para si mesmo uma longevidade e um alcance que nem seus defensores mais otimistas poderiam imaginar.

Insolente, desrespeitoso com a sagrada institucionalização do pop, versátil, mutável, imediato, prático, portátil, acessível a qualquer um com um microfone, um toca-discos e um mínimo de criatividade, o rap, ironicamente, veio colher, por outras vias e quase uma década depois, as promessas do punk - faça você mesmo a sua trilha sonora.

O resto, conforme se diz, é história.

Microdicionário – É claro que a maioria das pessoas não entende metade do que os rappers dizem / cantam: essa é parte da idéia. Como toda subcultura, o rap tem seu código verbal próprio, desenvolvido pelos próprios DJs e rappers ou tomado emprestado das ruas e guetos, com o mesmo objetivo de toda subcultura: tornar-se impermeável aos forasteiros e selar alianças internas.

Estas palavras e expressões já são clássicas, e algumas, na esteira do próprio rap, já vazaram para o inglês moderno de uso corrente.

Chill – Também usado nas expressões “Chill in” e “Chill Out”, significa dar um tempo, ficar frio, ficar na sua.

Cuz – O mesmo que “like” para o garotão branco - interjeição que não quer dizer nada, apenas serve para pontuar a frase, dar um certo ritmo à fala.

Posse – Turma, pessoal. No universo das gangues, uma “posse” ou “set” era uma subdivisão das duas grandes facções, Crips e Bloods, de Los Angeles, e representa alianças de bairro ou de quarteirão.

Homeboy / Homegirl – Amigo, companheiro, colega de bairro. A rigor, a palavra define o membro de uma gangue, mas já passou a ser usada de um modo mais amplo. Sinônimo: Dude.

Dope – Ótimo, excelente, genial.

McGyver – Coisa dificílima de fazer, missão impossível.

Crib – Literalmente “berço”. Casa, cantinho.

Crew – O mesmo que “posse”, mas no sentido de turma para fazer alguma coisa juntos.

Sucker – Pessoa por fora, otário, careta, idiotas em geral.

Rope – Literalmente “corda”. Colar grosso de ouro que os rappers e seus fãs adoram usar.

Diss – Prejudicar, atrapalhar.

Jam – O próprio rap, ou melhor, a fusão de palavras + mixagem sonora.

segunda-feira, julho 06, 2009

Um dia com Peter Sunde, da Pirate Bay



por Pedro Doria

Peter Sunde não pertence ao Partido Pirata. “Eles são de direita, eu não sou”, explica. “Não votei neles, mas acho bom que existam.” Passei o dia de ontem com Peter, aqui em Porto Alegre.

Grande sujeito, um bom humor de enfrentar com sorrisos a maratona de fotos, entrevistas, apertos de mão, mesmo após mais de um dia viajando da Suécia para o Brasil. E, no Fórum Internacional de Software Livre, ele é pop star. A garotada o reconhece, quer tocá-lo, trocar dois dedos de prosa.

Pudera: com Fredrik Nei e Gottfrid Svartholm, Peter fundou em 2003 o Piratbyrån (Birô da Pirataria) para fazer piada da organização criada pela indústria fonográfica para combater a cópia de material com copyright online, o Antipiratbyrån.

Em 2004, a organização deu origem à Pirate Bay, o maior site de bit-torrent do mundo. Eles oferecem links que levam a arquivos de músicas, software ou filmes. Desde que a Pirate Bay foi condenada pela Justiça sueca – o julgamento provavelmente será cancelado – o Partido Pirata aumentou. Terá dois deputados no Parlamento Europeu, a partir do segundo semestre.

O argumento legal da PirateBay é que eles são como o Google. Só dão links, não se responsabilizam por quem guarda o que não deve em seu computador. Mas Peter sabe que isso é só formalidade: “meu problema é que Hollywood é daninha à cultura.”

Peter é filiado ao Partido Verde. Na Suécia, é um dos responsáveis pelo grupo que estipula a plataforma tecnológica do partido. Tudo leva a crer que a coalizão de centro-esquerda que inclui os verdes chegue ao governo, nas próximas eleições.

Seu argumento é o seguinte: Hollywood e as quatro grandes gravadoras representam muito dinheiro, mas não são os maiores produtores de cultura do mundo. “Eles produzem quanto? 0,0001% de toda cultura?” Em última análise, leis de direitos autorais beneficiam estes grandes conglomerados, não a maioria dos artistas.

Se ficasse nisso, tudo bem. Mas, por conta do poder econômico – e este é sempre o raciocínio de Peter –, estes conglomerados entopem o mercado, aumentam a barreira de entrada para quem é novo. O copyright, em sua visão, ao invés de contribuir para o sustento de artistas, produz um ambiente em que a maior parte da produção cultural tem pouco espaço para circular.

Eles não mantém estatísticas de o que é mais baixado no Pirate Bay. Alguns estudos sugerem que é cinemão e grandes hits. Para Peter e seus sócios, não importa. Se vai prejudicar os grandes, tanto melhor.

Ele não é radical. Não vê problema em quem queira cobrar pelo serviço de oferecer algum tipo de informação. Se alguém conseguir, ótimo. A informação, a música, o filme – estes devem ser livres. Esta é sua opinião. É bom ouvi-la e compreender, mesmo que seja para discordar depois. Na Europa, representa uma linha de pensamento crescente, que captura gente tanto à esquerda quanto à direita.


Fonte: Blog do Pedro Doria

quinta-feira, julho 02, 2009

It's only rock & roll, but I like it


Silene e Antonio Diniz durante um pit stop básico na Praia do Futuro, em Fortaleza

Bastou o livreiro e ex-vereador Antonio Diniz, dono do Sebão de Manaus, ler aqui nesta banca de tacacá os elogios rasgados que fiz a respeito de um presente recebido do médico Arnaldo Russo para também me fazer uma surpresinha agradável. Dessa vez, quase enfio a mão em uma panela de água fervendo para saber se não estava sonhando. Explico melhor.

Na semana passada, Diniz adentrou abruptamente aqui em casa em companhia de sua patroa (minha irmã Silene) e me deu de presente um embrulho pardo. Conversamos animadamente sobre isso e aquilo outro, sendo isso e aquilo outro os novos livros que ele acabara de comprar em sua mais recente viagem ao Rio de Janeiro. Fiquei de passar no sebo, para conferir as novidades.

Dez minutos depois, os dois se despediram e meteram o pé na estrada, perigas ver. Quando desembrulhei o presente, quase cai pra trás: era o livro “The Rolling Stone Illustrated History of Rock & Roll”, de Jim Miller. Detalhe: a edição revista e atualizada publicada em 1980, que é muito mais abrangente do que a primeira versão original publicada em 1976. Puta que pariu!


O livro do Jim Miller tem o formato do meu “Alô, Doçura!” (28 x 22 cm) e está dividido em 83 capítulos, todos ricamente ilustrados. Na realidade, trata-se de uma coletânea de textos seminais publicados na revista Rolling Stone pelos melhores jornalistas da publicação (John Morthland, Ken Emerson, Ed Ward, Dave Marsh, Ken Tucker, Greg Shaw, Robert Palmer e o próprio Jim Miller, entre outros). Coisa finíssima, homeboys, acreditem!


O primeiro capítulo começa em 1934, quando o folclorista branco John Lomax e seu filho Alan estavam fazendo uma série de gravações de canções religiosas afro-americanas no sul do país, e o último capítulo termina em 1979, relatando o rebuceteio causado por Elvis Costello no programa “Saturday Night Live”, quando chamou Ray Charles de “um crioulo cego e ignorante” e detonou a “alienada música negra feita nos EUA”. O músico inglês estava nos States promovendo o disco “Armed Forces”, intitulado originalmente de “Emotional Fascism”.

Perto do livro de Jim Miller, o meu “Rock: a música que toca” não passa de um panfleto vagabundo, distribuído por meninas desleixadas embaixo dos semáforos em dias de chuva. Estou me preparando espiritualmente para traduzir essa bíblia definitiva do rock & roll por dois motivos. Primeiro, porque nenhum editor brasileiro, pelo visto, se interessou até hoje pelo assunto. Segundo, porque ela abrange as três décadas (50, 60 e 70) do rock que sempre me interessaram. O New York Times informará.


Bom, mas o espanto inicial não parou por aí. Dentro do embrulho, junto com o livro, também estava uma caixa com cinco DVDs intitulada “A História do Rock & Roll”, um documentário da muléstia montado a partir de 10 mil horas de imagens de arquivos e shows, com mais de 250 músicas e 1800 clipes. Puta que pariu três vezes!


O documentário foi produzido por David Axelrod, Quincy Jones, Bob Meyrowitz e David Salzman, com a supervisão técnica do já citado Jim Miller, que também assina os textos introdutórios do encarte. São dez episódios (dois em cada DVD) divididos por etapas cronológicas, mas obedecendo um encadeamento lógico mostrando a evolução do rock, com homenagens, observações curiosas e depoimentos de quem esteve no olho do furacão. Ouro puro. Prestem atenção na seqüência dos episódios:


O Rock & Roll Explode – É um caleidoscópio de memórias musicais. Em entrevistas com algumas das mais brilhantes estrelas do rock, de Little Richards a Mick Jagger, de Bruce Springsteen a Bono Vox, são lembradas as canções e sons que mudaram suas vidas. E uma coletânea de clipes revela as primeiras estrelas do rock: Muddy Waters, Chuck Berry e Little Richards. A sexy thing Tina Tuner recorda os dias de trabalho duro nos campos de algodão e nas noites embaladas pelo sonho de sua carreira musical.

Rock da Pesada Esta Noite – Reconta os dias de glória da era de ouro do rockabilly: Elvis Presley, Buddy Holly, Little Richards e Jerry Lee Lewis. Vale lembrar que, na época, o rock era dominado pelos ídolos adolescentes com estilos agitados de dança como o twist, que tinha como profeta-mor Chubby Checker. Mas, como revelam os clipes de Ben E. King e dos Ronettes, de Phil Spector, havia ainda muito mais reservado para o rock do que apenas um bando de garotos tentando ser o próximo Elvis The Pelvis.


Os Britânicos Invadem, Os Americanos Resistem – O renascimento do rock entre os anos de 1962 a 1966. Imagens inéditas mostram os Beatles, em 1963, os Rolling Stones, em 1965, os Kinks, em sua primeira apresentação, e o The Who ovacionado por seu público “mod”, brilhando com “I Can’t Explain”. A galera dos Beach Boys explica como as bandas britânicas estimulavam a criatividade deles. As gatinhas do Supremes e os moleques do Lovin’ Spoonful recriam uma nova era quando o rock & roll ainda era jovem e cheio de alegria.

O Som do Soul – Enraizado no gospel, desenvolvido sob a influência da música popular tradicional, com uma forte dose de sentimentalismo oriundo do rhythm & blues, os primeiros frutos do soul só floriram no final dos anos 50. Seus pioneiros incluem Sam Cooke, Ray Charles, Jackie Wilson e “o mais esforçado operário do show business”, o inesquecível James Brown. De quebra, ainda curtimos três gerações de cantores de soul reunidos no Teatro Apollo, no Harlem, para discutir o significado do gênero.


Ligando-se na Tomada – Quando Bob Dylan trocou seu violão acústico pela guitarra elétrica e começou a tocar rock & roll no Festival Folk de Newport, em 1965, quase causou um alvoroço. O rock se reinventou de novo na metade dos anos 60. Imagens históricas de The Byrds e The Mamas and The Papas criando um novo som com “California Dreamin’”. Brian Wilson, membro do The Beach Boys, fala da pressão que sentiu ao competir com os Beatles. The Who e Jimi Hendrix agitam no Festival Pop de Monterey.

Minha Geração – Relembra o renascer vertiginoso e a angustiante queda da contracultura dos anos 60. Em raríssimas imagens, vemos algumas das bandas responsáveis pelo decantado “Verão do Amor”, em San Francisco, que impulsionou o psicodelismo e o movimento hippie em escala planetária. The Grateful Dead, Santana e Jefferson Airplane tocam juntos, enquanto Janes Joplin aparece ao lado de Big Brother e The Holding Company em uma versão inflamada de “Ball and Chain”. Para os saudosistas, algumas performances clássicas do Festival de Woodstock.


Heróis da Guitarra – O episódio está focado nos tempos pioneiros dos “guitar heros”, de Chuck Berry a Jimmy Page, e também em alguns heróis pouco conhecidos como o virtuoso James Burton. Pete Townshend descreve como seus movimentos (que lembravam um moinho de vento), sem que soubesse, o aproximava de Keith Richards. Mark Knoffler, Eddie Van Halen, Slash e Jimi Hendrix mostram como desvendar aquilo que Pete Townshend chama de “poesia física” da guitarra elétrica.

Os Anos 70 – Recaptura os pontos altos e a debochada decadência dos anos de glamour de rock. Jimmy Page e Robert Plant mostram as origens do Led Zeppelin. David Gilmour lembra como foi feito o álbum “Dark Side of the Moon”. Lindsey Buckingham, do Fleetwood Mac, executa uma versão improvisada de “Go Your Own Way” e explica o significado pessoal da música. David Bowie mostra porque virou um ícone do glitter rock a bordo de seu desbundado traje de Ziggy Stardust.


Punk – O episódio documenta como esse gênero musical usou canções curtas e simples para “reiventar” o rock & roll pela enésima vez. As raízes do punk nas ruas e na boemia do Velvet Underground, na feiúra deliberada de Iggy Pop e no amadorismo camp (pouco casual) do New York Dolls. Acompanhamos a cena punk surgindo em New York, no clube CBGB, lar dos Ramones, Richard Hell, Talking Heads, Blondie, Television e Patti Smith. Conhecemos a rápida ascensão e meteórica queda do gênero na Inglaterra, através de uma das primeiras apresentações do Clash.

Do Underground à Fama – Esse último episódio mostra como o rock se transformou na new wave nos anos 80, com a chegada da MTV. Membros do Devo e do Eurythmics explicam como eles produziram seus próprios vídeos musicais. Antigos clipes mostram apresentações de rappers pioneiros como Kurtis Blow e Grandmaster Flash. Conferimos a ira santa dos rappers hardcores, como Public Enemy e N.W.A. O combo Run D.M.C., que fundiu rock e rap, aparece improvisando novas músicas. O rei do pop Michael Jackson brilha no vídeo “Billie Jean”, que quebrou as barreiras raciais. Curtimos a versão integral do clipe “Justify My Love”, de Madonna, que foi banido da MTV. E a constatação: o rap se transformou no novo rock.

Pois bem, homeboys! Se nos próximos dois meses vocês não me encontrarem mais pelos botecos decadentes, casas de tolerância e baladas undergrounds não pensem que morri. É que vou estar me refestelando com esses dois novos presentes ofertados pelo Antonio Diniz. E ainda tem gente que diz que cunhado não é parente. Valeu, parente!

quarta-feira, julho 01, 2009

O baixo nível de nossos crackers


A inclusão digital – um dos sonhos de consumo do presidente Lula – está possibilitando milhares de pessoas a investirem tempo e dinheiro no próspero mundo da criminalidade cibernética. Para nossa sorte, os criminosos digitais do Bananão ainda não concluíram, sequer, o projeto Minerva, daí ser muito fácil desmascará-los. Analisem comigo esse worm, supostamente enviado pelo Bradesco.

Cliente Bradesco,
Aconteceu uma Falha e Informações em nosso banco de dados onde as chaves de segurança foram devidamente perdidas. Ocorrendo problemas ao seu acesso pelo Internet Banking e outros canais de conveniência Bradesco.

(como o e-mail foi endereçado a você, mas sem referência ao seu nome, está na cara que foi fruto de um programa de envio automático. A tortuosa construção das frases é um sintoma típico de quem abandonou o banco escolar no segundo ano primário...)

Estamos lançando uma atualização do Módulo de Segurança para nossa Falha.

(eles não vão corrigir a falha, eles vão tornar a falha mais segura, ora, pois, pois...)

Ao tentar o acesso via Caixas Eletrônicos e Internet Banking, suas chaves de segurança constarão como inexistentes, impossibilitando acessos e movimentações.

(apagão de dados impressos em um cartão de plástico? Só se a bandidagem contratou os serviços do Criss Angel...)

A Chave, gerada pelo dispositivo abaixo, será agregada ao processo já existente, sem substituição dos seus codigos de acesso atuais.

(ora bolas, se os códigos atuais não serão substituídos, pra que a gente vai querer uma chave de segurança nova? Pra pagar meia entrada no cinema?...)

Para corrigir este problema basta seguir os precedimentos. Acessando o Internet Banking, e atualizando seus dados dentro do seu acesso privado seguindo o processo normal atráves do nosso endereço abaixo:

(os erros gramaticais continuam de doer – incluindo a nova grafia de “procedimentos” e a vanguardista acentuação de “através”...)

Atualizar chaves de segurança

(depois de tudo isso, só sendo um completo analfabeto funcional para clicar nesse trojan e autorizar a execução do programa no seu micro)

Você esta em um ambiente seguro verificação de Segurança

(o que o iluminado quis dizer com esta frase sem pé nem cabeça?...)

Em caso de dúvida, contatar nossa Central de segunda a sexta-feira das 07:00 ás 20:00 horas.

(cadê o número da central? E porque a acentuação diferenciada no “às”? Será coisa do novo acordo ortográfico?)

© 2009 Bradesco SA. Todos os direitos reservados.

(como o digitador do texto estava com muita pressa, ele esqueceu de colocar o segundo ponto depois do “S”, de Sociedade Anônima. Qualquer marqueteiro do Bradesco que cometesse esse mínimo deslize teria os colhões cortados pessoalmente pelo ectoplasma do Amador Aguiar)

Meu conselho?

Aê, vagabundagem, vamos melhorar o nível desses worms, pô! Assim, não dá, assim, não dá...