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segunda-feira, agosto 10, 2009

ABZ da Guitarra Elétrica em 10 Lições – Take 6


The show must go on... Swinging London – Em meados de 1966 já despontavam no meio musical londrino os primeiros sinais de uma estética que seria inaugurada oficialmente com o lançamento de Sgt. Peppers (1967): longos solos, uso de distorção e instrumentos exóticos e arranjos insólitos.

Uma das vertentes na criação do psicodelismo está no Wilde Flowers, formado em Canterbury em 1963 pelo guitarrista/ baixista Kevin Ayers e o baterista Robert Wyatt, que saíram do grupo para se juntar ao guitarrista australiano Daevid Allen e ao tecladista Mike Ratledger no Soft Machine três anos depois.

Em pouco tempo, eles foram para Londres para tocar no clube underground UFO. Suas apresentações reuniam arranjos sofisticados e experimentações com o jazz contemporâneo, em longos climas instrumentais (nos quais eventualmente contavam com a participação do guitarrista Andy Summers, futuro Police), e eram divididas com um outro grupo chamado Pink Floyd, que desenvolvera o seu som psicodélico por outras vias.


Natural de Cambridge, Syd Barrett - guitarrista e principal compositor do Pink Floyd - era fascinado pelo som dos Beatles e dos Stones e começara tocando standards de R&B com seus companheiros de colégio: o baixista Roger Waters, o tecladista Richard Wright e o baterista Nick Mason.

Depois de se juntarem por pouco tempo ao guitarrista Bob Close, adotaram o nome de Pink Floyd (por sugestão de Syd, em homenagem a Pink Anderson e Floyd Council, os compositores de um de seus blues prediletos) e começaram a forjar uma nova concepção musical para o grupo: de um lado, as canções lisérgicas de Barrett e o uso sutil que fazia de seu instrumento e dos pedais; de outro, temas longos e difusos, entrecortados pelos seus solos de guitarra alucinados.

Porém, toda a criatividade de Barrett - expressa claramente no primeiro LP do Pink Floyd, The Piper at the Gates of Dawn (1967) e em músicas como “See Emily Play” e “Arnold Laine” - parecia estar envolta numa aura de loucura, em parte ocasionada por seu consumo massivo de LSD.


Em 1968, Syd começou a dar evidentes sinais de perturbação mental e seu velho amigo David Gilmour foi chamado para auxiliá-lo nas guitarras, terminando por substituí-lo. Syd ainda gravaria dois discos solo com a ajuda dos membros do Floyd, antes de se evanescer do meio musical, tornando lendário seu nome.

Enquanto o Soft Machine rumava numa direção mais jazzística, o Pink Floyd, com Gilmour na guitarra, ia lançando as bases do que viria a ser conhecido na década seguinte por rock progressivo: arranjos elaborados com influência da música clássica e farta utilização de pedais e efeitos.

Entre os precursores desta linha também estavam os guitarristas David O’List, do Nice, Roy Wood e Trevor Burton, do Move, Charlie Whitney, do Family, e Dave Mason, do Traffic, que optavam por uma sonoridade mais rebuscada em seus instrumentos.

A procura de novos efeitos para a guitarra era constante, o que fez surgir outros tipos de pedais. O phaser era usado pela primeira vez pelo guitarrista Steve Marriott, dos Small Faces, em 1967 (“Itchycoo Park”), e novos tipos de distorção eram criados, fazendo os limites do instrumento se expandirem cada vez mais.

Porém, junto a esta tendência experimental, também havia espaço para o autêntico blues britânico. E na vertente aberta pelo Jeff Beck Group, apareceram o Fleetwood Mac - com os guitarristas Peter Green (que tinha substituído a Eric Clapton nos Bluesbreakers de John Mayall) e Jeremy Spencer - e o velocíssimo Alvin Lee, com seu Ten Years After (que faria sensação no festival de Woodstock, em 1969).

Mas, sem dúvida, o grande astro da guitarra na Swinging London foi um guitarrista americano, que marcou de forma definitiva a história do instrumento e lançou as bases da maior parte das tendências musicais que seriam criadas nas décadas seguintes, pincelando novas paisagens musicais com sua Stratocaster. Seu nome era Jimi Hendrix.


Hendrix: Um Beijo no Céu – Além de repercutir na Inglaterra, dando origem a uma fantástica safra de guitarristas, a explosão do rhythm’n’blues durante a década de 50 nos EUA também gerou a figura solar de James Marshall Hendrix - nascido em 1942, na cidade de Seattle -, que revolucionou totalmente a concepção de execução do instrumento e, durante sua breve passagem pelo meio musical - interrompida bruscamente por sua morte em 1970 -, praticamente reinventou a guitarra, partindo do R&Be do rock para experiências cada vez mais ousadas, que já anteviam o jazz rock, o heavy metal e o som progressivo da década que se iniciava.

Músico autodidata, ainda na adolescência Jimi já dedilhava o violão e aos 15 anos ganhou sua primeira guitarra, uma Epiphone, que logo substituiu pela Fender Stratocaster, a predileta durante sua meteórica carreira.

Apesar de ser canhoto, Jimi usava o modelo comum, para destros, invertendo a posição das cordas e do capotraste - presilha (de plástico ou metal) que alinha as cordas na extremidade do braço da guitarra.

Assim, tocou em várias bandas locais, e em 1959 alistou-se na Força Aérea, servindo como pára-quedista. Com fraturas variadas, foi dispensado pouco mais de um ano e meio depois, retornando à sua velha paixão.

Se no início dos anos 60 o jazzista Wes Montgomery causava sensação com sua técnica de soar as notas da guitarra com o polegar - um método considerado “errado” pelos especialistas - e suas harmonias em oitavas, Hendrix ia bem mais além, começando a se destacar nas bandas por onde passava pela criatividade de seus solos e pela inacreditável maneira com que tocava a sua guitarra: com os dentes, com a língua, de costas, com o pedestal do microfone ou usando o feedback e modulando a microfonia através da alavanca da sua Stratocaster, extraindo assim melodias do puro ruído.

Já os primeiros sinais dessa sua performance à parte fez com que o enciumado Little Richard o expulsasse de sua banda, alegando que ele estava ofuscando seu brilho. Mas nessa época, quando foi para Nova York, Jimi também acompanhou vários nomes do blues e principalmente da soul music, como Sam Cooke, Wilson Pickett, B.B. King, Ike and Tina Turner, King Curtis e Isley Brothers, entre outros.


Em 1965, Hendrix tocava em clubes do Greenwich Village sob o pseudônimo de Jimmy James, quando Chas Chandler (ex-baixista dos Animais) o levou para Londres, onde formou o Experience, um power trio pioneiro, que aliava a guitarra de Hendrix ao baixo de Noel Redding e à bateria de Mitch Miller. Já com os primeiros singles – “Hey Joe” e “Purple Haze” -, logo seguidos do primeiro LP, Are You Experienced?, Jimi conquistou a Swinging London em 1967.

No meio do ano, o Experience estava nos EUA, quando tocou no festival de Monterey, com Hendrix incendiando sua guitarra no final da apresentação. Suas performances iam tornando-se cada vez mais selvagens, chegando a um ponto que Jimi começou a acreditar que o público acorria a seus concertos menos por seu som do que para ver as loucuras que praticava em cena.

Tanto que, na segunda vez que Hendrix retomou ao seu país natal - para promover o segundo LP do Experience, Axis: Bold as Love -, adquiriu uma postura muito mais sóbria, dedicando-se exclusivamente à parte musical. Foi nessa época que começou a construir seu próprio estúdio de gravação: o Electric Lady, em Nova York.

No fim de 1968 foi lançado o álbum duplo Electric Ladyland, e em seguida Redding saiu do grupo, sendo substituído por Billy Cos, um antigo amigo de Hendrix nos tempos de caserna.

No ano seguinte tocaram em Woodstock, onde Jimi destruiu literalmente o hino nacional americano, Star Spangled Banner, para depois emendar com um de seus solos mais antológicos (“Instrumental Solo”), momentos registrados no disco/filme Woodstock.

Pouco depois o Experience se dissolve, e Hendrix se afasta do cenário musical pelo resto de 1969, para retomar na noite de Ano-novo apresentando a Band of Gypsies - Cox no baixo e Buddy Miles (ex-Electric Flag) na bateria - em um show no Filmore East, em Nova York.


Essa formação só durou alguns meses, e Hendrix recrutou Mitchell para a bateria novamente. É com ele que o guitarrista grava o seu último disco oficial, Cry of Love, e se apresenta no festival da Ilha de Wright, pouco antes de morrer, em Londres.

Além da sua favorita - a Fender Stratocaster, na qual fazia um arranjo elétrico que permitia a ligação de dois dos três captadores da guitarra simultaneamente, o que não é possível preservando as ligações elétricas vindas de fábrica -, Hendrix também usava eventualmente as Gibsons Les Paul e Flying V (com o corpo no formato desta letra) e, raramente, uma Fender Telecaster.

Pedais e efeitos sonoros como o wah-wah, fuzz, flanger, oitavador e câmaras de eco devem grande parte de seu desenvolvimento técnico à forma pela qual Jimi os usava. O mesmo poderia ser dito a respeito dos sistemas de amplificação, a ponto de fábricas como a Marshall e a Sunn chegarem a fornecer amplificadores e manutenção de equipamentos para o Experience em troca das pesquisas e das sugestões técnicas de Hendrix.

Com a mesma preocupação de experimentar, Jimi também se utilizava de todos os recursos disponíveis em estúdio, o que tornou os seus álbuns verdadeiras aulas de gravação/mixagem, pelo uso inovador de efeitos como o pan (obtido no sistema estéreo, no qual um som passa de um canal para outro) e pelos timbres de guitarra conseguidos. Uma figura fundamental para toda a música moderna. Depois de Hendrix, a guitarra nunca mais seria a mesma.

ABZ da Guitarra Elétrica em 10 Lições – Take 7


Zappa, Psicodelismo & Country Rock – Outro nome a ser destacado nos EUA durante os anos 60 seria o do guitarrista/ compositor/ arranjador Francis Vincent Zappa Jr., nascido em Baltimore, Maryland, em 1940. De descendência greco-italiana, Frank Zappa logo mudou-se com a família para Lancaster, uma pequena cidade no deserto de Mojave, na Califórnia. Foi lá que começou a se dedicar à guitarra, entre outros instrumentos.

Suas influências musicais formavam um espectro extremamente amplo, que ia desde canções tradicionais até compositores clássicos modernos, como Edgard Varèse (o seu predileto) e Igor Stravinsky, passando pelo rock’n’roll e os grupos doo wop dos anos 50. Logo formou um grupo chamado The Blackouts, que contava também com os vocais, a gaita e o saxofone de Don Van Vliet, a quem Zappa apelidou de Captain Beefheart.

Aqui é necessário abrir um parêntese para localizar este músico, que com sua caótica fusão de blues, jazz de vanguarda e música clássica contemporânea teve grande repercussão no rock dos anos 70 e 80, influenciando o trabalho de grupos como o Pere Ubu, Contortions, PIL e World Domination Enterprises, entre outros.

Em 1959, Beefheart e Zappa (que abandonara um curso de teoria musical depois de freqüentá-lo por apenas seis meses) seguiram para a cidade de Cucamonga, na Califórnia, onde formaram uma banda chamada The Soots e fizeram um filme (que permaneceu inacabado), Captain Beefheart Meets the Grunt People, entre outras atividades durante os cinco anos que passaram por lá.

Depois Zappa seguiu para Los Angeles e Beefheart voltou para Lancaster, onde fez a sua Magic Band, que em sua formação original contava com os guitarristas Alex St. Claire Snuffy e Ry Cooder (que também se tornou um virtuose em sua técnica sincopada de tocar slide guitar, banjo e mandolim e que teria participação incisiva em trabalhos dos Stones e Little Feat, entre outros, além de se lançar em renomada carreira solo durante os anos 70).

Posteriormente, também fariam parte da Magic Band guitarristas como Jeff Cotton e Eliot Ingber (após sair do Mothers of Invention, de Zappa), sob os pseudônimos de Antennae Jimmy Semens e Winged Eel Fingerling, respectivamente. Beefheart voltaria a gravar com Zappa somente em 1975, no LP Bongo Fury.

De seu lado, em Los Angeles Frank Zappa se juntou aos Soul Giants, grupo formado por Ray Collins nos vocais, Roy Estrada no baixo, Jimmy Carl Black na bateria e Dave Coronada no sax, logo substituído pela segunda guitarra de Eliot Ingber. Logo o grupo seria rebatizado como Mothers, que foi se tornando conhecido no circuito underground por sua musicalidade anárquica e humor corrosivo.


O nome Mothers foi acrescido de of Invention quando assinaram contrato com o selo Verve, por remeter diretamente ao termo pornográfico motherfucker. No início de 1966, eles lançam Freak Out, o primeiro álbum duplo da história do rock. Um trabalho conceitual, repleto de colagens sonoras e diálogos entre as faixas, onde os Mothers demoliam não só as instituições tradicionais da vida americana como também o próprio desbunde hippie emergente.

Esta linha satírica acompanharia os Mothers - e em especial a personalidade de Zappa - durante toda a carreira de seu band leader, não só como instrumentista, mas também como arranjador, enveredando pelos mais diversos estilos, além de produtor (Trout Mask Replica, de Captain Beefheart and The Magic Band, Pretties for You e Easy Action, de Alice Cooper, e Good Singin’ Good Playn’, do Grand Funk Railroad, entre outros, além de ter produzi do em 1981 um concerto de seu mestre Edgard Varèse, em Nova York) e proprietário de selos (Straight, Bizarre e depois Barking Pumpkin).

Seus álbuns nunca seguiram um esquema predeterminado, transitando entre a música orquestral e a paródia deslavada (Lumpy Gravy e We’re Only in it For the Money, ambos de 1967), entre o rock dos anos 50 e os arranjos complexos (Cruisin’ with Ruben and the Jets, de 1968, e Weasels Ripped My Flesh e Burnt Weeny Sandwich, ambos de 1970), num ecletismo musical que se consolidaria durante a década seguinte - a partir de seu disco solo Hot Rats (1970), numa linha próxima ao jazz rock, mas que não abdicava da sátira em momento algum.

Mas foi em seu lado musical - a outra face do anárquico gozador - que Zappa sempre fez questão de estar em constante renovação, fazendo dos Mothers of Invention (do qual alterou o nome para Grandmothers durante os anos 80) um celeiro de grandes músicos e revelando o aperfeiçoamento de sua incrível perícia como instrumentista: rápido e preciso nos solos, de uma imensa criatividade no uso de efeitos e pedais, dono de um perfeito senso rítmico.

Apesar de todas essas qualidades enquanto guitarrista, o bom e velho Frank, num típico arroubo zappiano, abandonou a guitarra nos últimos tempos, passando a se dedicar à programação e ao desenvolvimento de orquestrações com samplers. O velho e bom Frank - contrariando o título de um de seus álbuns de 1981 - não calou a boca e não tocou sua guitarra.

Mas, nos desvarios da Califórnia psicodélica, novas perspectivas se abriam para a sonoridade da guitarra dentro dos grupos que se alinhavam ao flower power, a começar dos dois principais: o Grateful Dead e o Jefferson Airplane, ambos formados na alucinada San Francisco em 1965. No primeiro tínhamos os longos e lisérgicos solos de Jerry Garcia, embalando as viagens das crianças com flores no cabelo; no outro, o duo de guitarras formado por Jorma Kaukonen e Paul Kantner, que se servia abundantemente da distorção e outros efeitos para criar as mágicas atmosferas que faziam as delícias dos hippies da Frisco psicodélica.



Esses dois grupos também perseveraram durante a década seguinte, com o Dead seguindo por um rumo mais próximo ao country rock paralelamente à carreira solo de Garcia e o Airplane renascendo sob o nome de Jefferson Starship, com a permanência de Paul Kantner (pois Kaukonem saiu para integrar o Hot Tuna) e a revelação de outro grande guitarrista: o inglês (apesar do nome) Craig Chaquico.

Mas os ecos do tipo de tratamento dado às guitarras por esses grupos nos anos dourados do flower power não tardaram a se refletir no outro lado do Atlântico, gerando a cena underground da Swinging London, tão lisérgica e efervescente quanto a da Califórnia. Porém lá mesmo, na cidade de Los Angeles, logo surgiam também novos representantes do som psicodélico na guitarra, com Brian McLean e John Echols, do Love, e Randy California e Jay Ferguson, do Spirit.

O meio musical de Los Angeles também já tinha reunido dois grupos que tiveram um papel essencial no desenvolvimento do chamado country rock: o Byrds e o Bufallo Springfield.



O Byrds - formado em 1964 - apresentava as guitarras de Roger McGuinn (que tornou célebre a sua Rickenbacker de doze cordas) e David Crosby, em harmonias trabalhadas que fundiam a energia do rock com as melodias da música country. Já o Bufallo Springfield - criado dois anos depois - apresentava uma massa sonora ainda mais poderosa, conduzida por três guitarras: a de Richie Furay, a do canadense Neil Young e a do texano Stephen Stills.

Os dois últimos, junto a Crosby, dos Byrds, e o inglês Graham Nash fariam posteriormente o Crosby, Stills, Nash & Young, um dos maiores baluartes do country rock, que tinha como princípio um alto grau de elaboração musical tanto instrumental quanto vocal.

Nos anos 70, o quarteto partiu para as carreiras-solo, com freqüente colaboração mútua nesses trabalhos, que valorizaram o estilo plangente de Young e as linhas complexas de vocal/ instrumental dos discos de Crosby e Stills. Por outro lado, os riffs simples e diretos de John Fogerty fizeram do Creedence Clearwater Revival uma das bandas mais bem-sucedidas nessa vertente.

Em uma linha mais ligada ao blues despontaram em L.A. guitarristas como Robbie Krieger, dos Doors, e o duo formado por Henry Vestine e Alan Wilson (que morreu de overdose em 1970) no Canned Heat.


A guitarra de Krieger possui um approach mais sintético e delicado do blues (talvez por soar limpa, junto aos teclados de Ray Manzarek) e freqüentemente extrapolava este estilo musical para se aventurar em um campo mais experimental (um bom exemplo disso é seu trabalho climático na canção “The End”, que encerra o primeiro álbum do grupo).

Já Vestine e Wilson desenvolviam um tipo de música mais próximo das raízes do blues elétrico, com notória influência dos bluesmen das escolas de Chicago e Detroit (o grupo chegou até a gravar um álbum duplo junto a John Lee Hooker – Hooker’n’Heat –, em 1970, onde o legendário Boogie Man se apresentava solo e acompanhado do grupo de Alan Wilson, que logo depois viria a falecer).

Mas o blues também estava presente em San Francisco, com um tempero muito especial. Lá surgia a Santana Blues Band, nascida no distrito latino da cidade sob a batuta do guitarrista mexicano Carlos Santana. O grupo causou grande impacto já nas primeiras apresentações, com sua combinação de blues e rock com a música latina, embasada por uma potente cozinha percussiva.


Em 1968 se apresentavam pela primeira vez no Fillmore West, apenas como Santana, com um sucesso arrasador. A dose seria repetida no ano seguinte no festival de Woodstock, onde foram uma das atrações mais aclamadas com apoteótica “Soul Sacrifice”. Em seguida o grupo gravou seu LP de estréia, de estrondosa repercussão (foi por duas vezes disco de platina).

Mas seu estilo exuberante, aliado à excepcional seção rítmica, foi aos poucos se aproximando do jazz rock durante anos 70, época em que Santana mergulhou numa fase de profundo misticismo e adotou a filosofia do guru Sry Chinmoy, por influência de John “Mahavishnu” McLaughlin (chegando até a acrescentar o epíteto de “Devapid” ao seu nome).

Foi quando gravaram um disco juntos - Love, Devotion, Surrender (1973) -, com Santana tocando em um estilo que se aproximava bem mais do de McLaughlin do que de suas antigas raízes latinas. Gradativamente, ele foi retomando aos ritmos dançantes no fim dos anos 70, mas sem a energia vital de sua fase inicial. Entretanto, o alvorecer dos mesmos anos 70 nos reservariam mais um sem-número de surpresas.

ABZ da Guitarra Elétrica em 10 Lições – Take 8


Depois da ressaca do sonho acabado, a década de 70 começou com a guitarra sedimentando-se em estilos diversos e muito bem definidos, a partir das propostas inovadoras deflagradas nos anos 60. Mesmo assim, havia os que mantinham vivas as mais puras raízes do blues e do rock’n’roll e aqueles que corriam por fora das tendências que estavam se evidenciando.

O toque mais fiel ao rock básico permanecia firme no som de guitarristas como Ian Hunter, do Mott the Hoople, e Mick Ronson (foto) - dos Spiders from Mars, de David Bowie e depois também do Mott -, e depois seria diluído em pastiches como os arranjos pop do superestimado Peter Frampton (ex-Humble Pie) e nos coquetéis sinfônicos do Queen, regidos pela guitarra de Brian May.

Enquanto isso, nos EUA, se Alice Cooper tinha como vedetes do seu circo de horrores os guitarristas Glen Buxton e Bruce Smith e o Aerosmith dava o ar de sua graça com o duo formado por Joe Perry e Brad Whitford, outro ás da guitarra já havia surgido no mais puro estilo do Mississippi: o albino Johnny Winter (que posteriormente viria a produzir e a gravar com Muddy Waters).


Algum tempo depois, teríamos o trabalho de slide guitar desenvolvido por George Thorogood frente aos Destroyers, com influência marcante da escola de Chicago (em especial do bluesman Elmore James).

No campo do hard blues viriam à tona os solos e riffs do irlandês Rory Gallagher e do inglês Robin Trower (ex-Procol Harum), na época aclamado por muitos como o sucessor de Hendrix.

Numa tendência sonora mais sofisticada surgiram o guitarrista Phil Manzanera, do Roxy Music, e Chris Spedding - em carreira solo ou ao lado de John Cale, Brian Eno e do próprio Manzanera, entre outros -, além do perfeito entrosamento entre o trabalho de ritmo e solo apresentado pelos guitarristas Carlos Alomar e Ricky Gardiner (da banda que gravou o LP Low, de Bowie, e The Idiot e Lust for Life, de Iggy Pop) e do duo formado por Steve Hunter e Dick Wagner (Lou Reed, fase Berlin e depois). Mas, indubitavelmente, as três grandes tendências musicais da primeira metade dos anos 70 seriam o heavy metal, o jazz rock e o som progressivo.

Puro Metal Pesado – Som amplificado a incontáveis decibéis, cozinha de baixo e bateria pulsantes e intermitentes, mas principalmente riffs pesados contrapondo-se a resfolegantes solos de guitarra. Eis como surgiu o heavy metal.

A base de tudo, é claro, foi dada pelo Jimi Hendrix Experience e o Cream, mas mesmo durante os anos 60 já havia outros grupos que viriam antecipar o instrumental detonado pelo heavy metal - como os californianos Blue Cheer, Iron Butterfly e Steppenwolf e o nova-iorquino Vanilla Fudge.


Mas a pedra fundamental dessa muralha sonora foi posta pelo Led Zeppelin, com a inestimável colaboração de Jimmy Page. Sua guitarra foi a ponta de lança desse movimento musical, projetando seu alcance até mesmo através da década seguinte.

No início dos anos 70, vários grupos tomaram o metal como o rumo a ser seguido, produzindo uma leva de esmerados guitarristas como Ritchie Blackmore (Deep Purple), Gary Moore (Thin Lizzy), Tony Iommi (Black Sabbath), Mick Box (Uria Heep) e Mark Farner (Grand Funk Railroad).

Dentre eles, o que mais se destacou foi Blackmore, que tomou o comando musical do Deep Purple - na época, um dos muitos grupos centrados nos teclados de Jon Lord - depois de um malfadado e pomposo LP da banda junto à Royal Philarmonic Orchestra de Londres, gravado ao vivo no Royal Albert Hall.


A guitarra de Blackmore foi a grande responsável pela reabilitação do grupo no LP Deep Purple in Rock, também de 1970, a pedra de toque da virada musical que projetaria o Deep Purple como um dos expoentes do heavy.

Em 1975 ele abandonou a banda para formar o Ritchie Blackmore’s Rainbow, sendo substituído por Tommy Bolin (que tocara na James Gang e no LP Spectrum, do baterista Billy Cobham) por pouco tempo, pois este morreria de overdose no ano seguinte, um dos fatores que precipitaram o fim do Deep Purple.

Enquanto isso, Blackmore continuou fazendo sua fama no Rainbow (que aí já contava com Cozy Powell, ex-Jeff Beck Group, na bateria) através dos seus solos rápidos e riffs certeiros e das inovações que introduziu, como escavar o espaço entre os trastes de sua Fender Stratocaster, eliminando o atrito do dedo com o braço do instrumento e tornando as notas e acordes mais límpidos e precisos.

Este mesmo recurso foi usado posteriormente por John McLaughlin (em 1976), quando, ao dissolver a sua Mahavishnu Orchestra, montou o Shakti, um grupo acústico com um som baseado na raga indiana, no qual tocava um violão Gibson com escala escavada e um jogo de sete cordas colocado em diagonal com o tampo do instrumento, que vibravam em consonância com a nota definida no braço, à maneira da cítara. Mas esta era apenas uma das facetas do virtuoso instrumentista John McLaughlin.


Jazz + Rock = Jazz Rock – Nascido em 1942 na cidade inglesa de Yorkshire, John McLaughlin encontrava- se na ativa como guitarrista desde o início dos anos 60 no cenário do blues britânico, mas o seu reconhecimento mais amplo só chegou por volta de 1969, quando começou a participar de gravações que já anteviam a fusão de rock e jazz disseminada na década seguinte e da qual ele seria um dos principais representantes.

Dentre estas colaborações destacaram-se a com o Lifetime, do baterista Tony Williams, e especialmente aquela com o trompetista Miles Davis, registrada no álbum duplo Bitches Brew (1970), no qual Davis traçava as linhas mestras que pautariam o desenvolvimento do jazz rock.

Logo depois de gravar o seu terceiro disco solo, que contava com o baterista Billy Cobham e o violinista Jerry Goodman (ex-Flock), McLaughlin os recrutou para formar a Mahavishnu Orchestra junto ao baixista Rick Laird e o tecladista Jan Hammer.

Os conflitos internos que a banda atravessava, aliados à fase mística pela qual passava (influência de seu guru Sry Chinmoy, que o batizara de Mahavishnu), acabaram sendo motivos decisivos para o fim desta primeira formação, depois de seu terceiro disco, Between Nothingness and Eternity (1973).

Depois de um trabalho ao lado do também guitarrista Devadip Carlos Santana (outro discípulo de Chinmoy), McLaughlin reagrupra a Mahavishnu com músicos mais ou menos fixos em várias formações, das quais se destaca a que contava com a bateria de Narada Michael Walden e os teclados de Gayle Moran, com quem gravou Apocalypse (1974), com a participação da London Symphony Orchestra e a produção de George Martin.


A Mahavishnu Orchestra ainda duraria dois anos (e mais dois LPs), sempre seguindo a tendência da guitarra de McLaughlin de incorporar ritmos indianos à energia do rock e à improvisação do jazz, mas acabaria em 1976, quando McLaughlin renunciou ao seu nome de Mahavishnu e a seu guru.

O seu próximo passo foi uma aproximação ainda mais radical da raga indiana, através do grupo acústico Shakti, com o qual gravou três LPs. No final da década, McLaughlin voltaria ao som elétrico, formando um novo grupo - One Truth Band - e novamente voltando a excursionar.

Seu estilo técnico e racional, porém apaixonado, capaz de extrair fantásticos solos de sua Gibson Les Paul e de seu modelo de dois braços (de seis e doze cordas), além de instrumentos menos convencionais, consolidou o jazz rock enquanto vertente musical e influenciou guitarristas do porte de Larry Corryel, Al diMeola, Allan Holdsworth, Bill Connors, Steve Morse, o belga Philip Catherine e o norueguês Terje Rypdal entre outros. Assim, McLaughlin conseguiu provar que sua meta e muito mais além.


A Sinfonia do Rock Progressivo – Descendente direto de psicodelismo dos anos 60, o rock progressivo expandiu ainda mais os recursos técnicos à disposição dos guitarristas, o que se refletiu musicalmente por arranjos mais complexos, temas longos e solos elaborados, aliados à presença constante de resquícios de música clássica mesclados à eletrificação do rock.

Foi nessa época que se começou a aperfeiçoar os modelos de pedais já conhecidos, enquanto novos tipos de efeitos mais sofisticados (como o flanger, o chorus, o delay e o pedal de volume) eram difundidos entre os instrumentistas.

Dois dos grandes expoentes deste estilo foram David Gilmour e Steve Howe: o primeiro tomou o lugar de seu amigo Syd Barrett - guitarrista original e principal compositor da primeira fase do Pink Floyd - e gradativamente levou os arranjos do grupo para um modelo mais sinfônico, com destaque para os seus solos melodiosos e pródigos de efeitos; o outro entrou para o Yes substituindo o guitarrista Peter Banks e introduziu no grupo uma inédita complexidade instrumental, com firulas quase que barrocas na guitarra, pedais de efeito e intervenções acústicas.

Vários outros guitarristas destacaram-se neste estilo, sempre seguindo este mesmo preceito básico. Dentre eles, músicos como Steve Hackett (Genesis), Gary Green (Gentle Giant), Martin Barre (Jethro Tull), David Aellen e Steve Hillage (Gong) e, principalmente, o único que conseguiu transcender este estilo, mantendo-se na linha de frente da renovação musical até os dias de hoje: Robert Fripp.

ABZ da Guitarra Elétrica em 10 Lições – Take 9


Fripp, O Mutante Escarlate – Desde que era garoto (em Dorset, Inglaterra, onde nasceu, em 1942), Fripp tinha na música - e especialmente na guitarra - a sua grande obsessão. Todavia, o seu senso de ritmo e afinação era pouco (ou nada) apurado.

Mesmo assim, o obstinado Fripp persistiu na sua paixão, dividindo seu tempo entre aulas de teoria musical e violão clássico e audições de discos de seus guitarristas prediletos - Hank B. Marvin, dos Shadows, e Scotty Moore, da banda de Elvis -, de quem tentava repetir os solos e riffs.

Aos 15 anos já tocava em seu primeiro conjunto, The Ravens, pouco depois tornando- se músico de bailes, atividade que abandonou para enfrentar um curso de Economia, em Bournemouth.

Em 1967, Fripp chegou a Londres, onde começou a trabalhar como corretor imobiliário. O alucinado espírito psicodélico que dominava o meio musical da cidade logo se apoderou de Fripp, que resolveu retornar à música.

Ainda no mesmo ano ele começa a ensaiar com os irmãos Michael e Peter Giles, na bateria e no baixo, respectivamente. O resultado desses meses de esforço viria em 1968, com um LP chamado The Cheerful Insanity of Giles, Giles and Fripp, seguido pela dissolução do grupo.

Porém, pouco depois Fripp e o baterista Michael decidem formar uma nova banda, convocando para isto o baixista Greg Lake - antigo colega de conservatório de Fripp - e o tecladista /saxofonista Ian McDonald, que trouxe para o grupo o letrista Pete Sinfield.

A banda ainda não tinha sido batizada pouco antes de sua estréia e, de última hora, foi escolhido o nome, retirado de uma composição do grupo (que depois daria o título ao seu primeiro álbum): “In the Court of the Crimson King”.

Menos de dois meses depois, o som cerebral do King Crimson estava abrindo um concerto dos intempestivos Stones (o primeiro depois da morte de Brian Jones) para 650 mil pessoas, no Hyde Park. Poderia se dizer que uma nova era estava começando: a era do rei escarlate.

De 1969 a 1971 vários músicos passaram pelo King Crimson, sempre sob a irredutível direção musical imposta por Fripp, que forjou um estilo único através do fraseado dissonante e surpreendente de sua Gibson Les Paul, a qual tocava sentado tal qual um violonista clássico.

Em 1972, pouco depois de anunciar o fim do King Crimson, Fripp retoma com uma nova formação, que levaria ao apogeu o estilo do grupo nesta sua primeira fase: John Wetton (ex-Family) no baixo e vocais, Bill Bruford (ex-Yes) na bateria, Jamie Muir na “percussão criativa” e as letras a cargo de David Palmer-Jones. Assim gravam o LP Larks’ Tongues in Aspic (1973), uma das obras-primas do King Crimson, perfeita expressão da inventividade de Fripp.

No ano seguinte foram lançados dois LPs: Starless and Bible Black (já sem Muir, que se tornara monge em um monastério budista) e Red (também sem a presença de Cross) e, no fim de 1974, Fripp anuncia mais uma vez o fim da banda. Desta vez “em definitivo”.


Foi então que ele começou a se dedicar a outras atividades, como dar aulas sobre a “mecânica da guitarra” e a continuar a desenvolver um outro tipo de trabalho musical com o “não-músico” Brian Eno (uma colaboração que se iniciara em 1972 com o LP No Pussyfooting, com climas criados a partir da guitarra de Fripp e da superposição de sons de fita gravada).

A partir deste trabalho, Fripp criaria no fim dos anos 70 um sistema de repetição e sobreposição de notas e acordes através de dois gravadores Revox controlados por pedais, o que segundo ele permitia que uma guitarra “soasse como um quarteto de cordas”.

O sistema foi denominado de frippertronics (ou discotronics, quando aplicado sobre uma batida dançante) e foi experimentado de maneira conjunta no LP God Save the Queen/Under Heavy Manners (1980) e em separado em dois discos lançados em 1981: Let the Power Fall (frippertronics) e The League of Gentlemen (discotronics), título homônimo ao da banda com que Fripp gravou este LP e excursionou durante o resto do ano pelos EUA e Europa.

Seria em 1981 que Fripp surgiria também com uma nova formação do King Crimson, então com duas guitarras e uma nova concepção sonora: aliada a sua Gibson Les Paul, Fripp tinha a presença energética da Fender Stratocaster de Adrian Belew (ex-Zappa, ex-Bowie entre outros), também responsável pelos vocais. Era um perfeito contraponto para a técnica disciplinada e o modo impassível de tocar de Fripp.

Completando o time tínhamos a volta de Bruford à bateria e a entrada de Tony Levin no stick (instrumento que une os recursos da guitarra e do baixo e é tocado percutindo-se os dedos sobre o seu braço). Com esta formação, o King Crimson gravaria três LPs: Discipline, Beat e Three of a Perfect Pair.

Em paralelo, Fripp desenvolveria um trabalho climático com o guitarrista Andy Summers (ex-Police, que resultou em dois discos: I Advanced Masked e Bewitched. Nos últimos tempos, Fripp tem voltado a se concentrar nas aulas de guitarra, criando a League of Crafty Guitarrists, seguindo a sua perene obsessão didática.

Esta sua trajetória inconstante, porém coerente ao extremo, fez de Fripp um dos guitarristas que mais revolucionaram o conceito do instrumento dentro do rock (ou mesmo fora dele). Não com a fúria de Hendrix, mas com muita, muita disciplina.


Os Precursores – Vamos tentar localizar onde tudo começou. Quem sabe nos primórdios de grupos como os Beatles, os Stones e o Who, quando a inocência ainda estava intacta. Ou talvez por volta de 1966, quando o guitarrista Chris Britton, dos Troggs, atacava os riffs iniciais de “Wild Thing” (que mereceria depois uma versão do próprio Hendrix). Ou mesmo através das guitarras espasmódicas de Lou Reed e Sterling Morrison, do Velvet Underground e dos delírios distorcidos de Wayne Kramer e Fred “Sonic” Smith do MC 5, sem falar dos Stooges - a princípio com Ron Ashton e posteriormente com James Williamson na guitarra, sempre a postos com um riff esmagador engatilhado.

Enquanto alguns - como Johnny Thunders e Sylvain Sylvain, do New York Dolls e Johnny Ramone, dos Ramones - mergulhavam de cabeça no rock mais primário, outros, como Jonathan Richman e seus Modern Lovers, David Byrne e seus Talking Heads e, principalmente, o Television - com seus elaborados mosaicos musicais, a cargo das guitarras de Tom Verlaine e Richard Lloyd -, já conseguiam revestir de idéias sofisticadas a sua aparente simplicidade instrumental.

Na Europa, o pioneirismo dessa tendência talvez deveu-se aos experimentos sonoros do grupo alemão Can - no caso, da parte do guitarrista Michael Karoli -, a partir do início da década de 70, mas também vale destacar Wilko Johnson, guitarrista do Dr. Feelgood, que, com sua técnica de tocar com os dedos (sem palheta) seus riffs e solos, acrescentou um colorido todo especial ao repertório revival dos anos 50 tocado pelo grupo (chegando mesmo a ser cogitado, ao lado de Jeff Beck e Rory Gallagher, para preencher a vaga de Mick Taylor nos Stones).

Chegamos então aos primeiros indícios definitivos do que viria a ser da guitarra, com o advento do punk britânico, através de três nomes: Peter Laughner - co-fundador do Pere Ubu, ao lado do vocalista David Thomas -, que transformou seu instrumento em parte essencial da miscelânea sonora do grupo, morto em 1977, sob circunstâncias não totalmente esclarecidas; Hugh Cornwell, que através de seus riffs cortantes integrou os inseparáveis Stranglers ao longo de mais de uma década, incorporando gradativamente ao seu estilo guitarras mais melodiosas e sutilezas acústicas; e, por fim, Brian James, o pioneiro do Damned, um ex-integrante do London SS (grupo que era completado por Mick Jones, o baixista Paul Simonon e o baterista Terry Chimes, todos futuros integrantes do Clash).


A Estética dos Três Acordes – Abracadabra! Como que por mágica, então qualquer um podia ser músico. Bastava saber uns três acordes e alguns riffs básicos. Eram tempos idos aqueles em que o herói da guitarra colocava- se em um Olimpo inalcançável para os pobres mortais. Estava instituído o império dos três acordes.

E lá estavam Steve Jones, dos Pistols, Joe Strummer e Mick Jones, do Clash, e Paul Weller, do Jam, e mesmo o californiano East Bay Ray, do Dead Kennedys, para prová-lo. Mas tudo o que é bom dura pouco, e, enquanto o movimento punk entrava em um beco sem saída, alguns de seus baluartes (como Strummer, Jones e Weller) já agregavam outros elementos a seu som, tentando transcender a grande trapaça do rock’n’roll. O caminho rumo à libertação da guitarra de seus batidos clichês estava aberto - ou melhor, escancarado - pelo niilismo punk. Então, só restava trilhá-lo.

Outro mérito do movimento foi ter aberto as portas do universo eminentemente masculino dos guitarristas para as mulheres. Foi quando despontaram instrumentistas como Viv Albertine (The Slits), Joan Jett e Lita Ford (The Runaways), Charlotte Caffey e Jane Wiedlin (The Go-Go´s), e mais destacadamente os poderosos riffs da Telecaster de Chrissie Hynde, o estilo atonal de slide guitar de Pat Place (The Contortions), Bush Tetras e as linhas simples e eficientes de Brix Smith (The Fall).


Pós-Punk – Uma imensa gama de possibilidades foi aberta com a assimilação do punk e a necessidade de se chegar além dos três acordes. Keith Levine, egresso diretamente do movimento (era membro do Clash), aproveitou os ensinamentos que teve de violão e pia-no clássico para criar um som de guitarra baseado em notas esparsas e riffs repetitivos, mesclados a influências de música árabe, para compor suas linhas no Public Image Ltd., de John Lyndon.

O dedilhado cristalino e a utilização massiva dos harmônicos da guitarra de The Edge tornaram-se marcas indeléveis do som do U2, assim como os contrapontos executados por James Honeyman-Scott ao lado de Chrissie Hynde nos Pretenders.

Mas um dos estilos mais marcantes do pós-punk foi o desenvolvido pelo guitarrista do Gang of Four, Andy Gill: seu toque dissonante e sincopado - utilizando-se de notas em vez de acordes, em um rock sintético com pitadas de funk - se adequava como uma luva aos vocais de Jon King e a cozinha formada por Dave Allen e Hugo Burnham, baixo e bateria respectivamente. Gill também se servia de outros recursos, como marcações secas de acordes, scratch e repetição de harmônicos em suas “bases” inusitadas.

Também havia quem preferisse revisitar o passado em grande estilo, como o guitarrista Brian Setzer (Stray Cats), via rockabilly dos anos 50, ou Ricky Wilson (do B-52’s, que usava s uma guitarra sem as duas cordas do meio), pelo timbre instrumental inspirado no dos Ventures.

Mas o inverso também era real, com guitarristas veteranos se destacando na nova onda de grupos. Era o caso de Andy Summers, na ativa desde o início dos anos 70, mas que só foi ser reconhecido comercialmente a partir dos acordes delicados que sua Telecaster emprestou às composições de Sting no Police.

Já Bill Nelson havia começado a gravar com o Bep-Bop de Luxe em 1974, num estilo entre o hard rock e o progressivo, mas cinco anos depois inovaria radicalmente sua concepção sonora como Bill Nelson’s Red Noise, no LP Sound-on-Sound, que foi o ponto de partida para uma profícua carreira solo durante os anos 80, que além da guitarra começou a incluir também o uso intensivo de tapes e sintetizadores.

Outro guitarrista a despontar extemporaneamente foi Mark Knopfler, que, apesar de seu estilo refinado de dedilhado da mão direita e dos perfeitos diálogos travados entre sua voz e a guitarra, só começou a gravar com os Dire Straits em 1977.

ABZ da Guitarra Elétrica em 10 Lições – Take 10


Novos Velhos Caminhos – A alvorada dos anos 80 fez a guitarra se deslocar em duas direções diametralmente opostas. Se por um lado existiam aqueles que queriam romper a tradição harmônica e os limites do instrumento a qualquer custo, por outro havia uma tendência em se valorizar o som limpo e calcado em melodias instrumentais envolventes.

A principal característica desta linha foi seu enfoque atualizado das guitarras do psicodelismo e do country rock dos anos 60, tendo surgido alguns instrumentistas que, a partir dessa retomada, desenvolveram um estilo extremamente pessoal.

É o caso de Johnny Marr (foto), o ex-Smiths que ao abandonar o conjunto foi prontamente requisitado por Bryan Ferry, Keith Richards, Pretenders e Talking Heads, entre outros. Esse prestígio todo foi o resultado de um trabalho delicado de cordas e timbres de guitarra, que praticamente definiu o som dos Smiths como um dos paradigmas musicais dos anos 80.

Outros destaques deste estilo foram o enciclopédico guitarrista Peter Buck (ele sabe de cor a cifragem de um sem-número de standards de rock), que ao lado do cantor Michael Stipe foi uma das molas mestras na ascendente carreira do REM, além de Chris Staney e Peter Holsapple, dos DB’s.

Numa linha ligada mais diretamente ao psicodelismo, Will Sargeant (Echo & the Bunnymen), Bill Duffy (Cult), Lawrence e Maurice Deebank (Felt) e os irmãos Jim e William Reid (Jesus and Mary Chain).

Nem o próprio Prince, o multiinstrumentista aclamado como gênio, conseguiu se livrar inteiramente dos grilhões do passado, posando de Hendrix em plena década de 80, no filme/ disco Purple Rain. Mesmo assim, o garoto prodígio de Minneapolis mostrou que, ao lado de Nile Rodgers (Chic) foi um dos expoentes da guitarra funk dos últimos anos.

E, curiosamente, foi no terreno do blues - onde a tradição importa bem mais do que a busca de novidades - que os anos 80 revelaram seus guitarristas menos inspirados: os apenas medianos Robert Cray e Steve Ray Vaughan.

Mas, se tomarmos o blues enquanto estado de espírito, poderemos constatar uma profundidade inaudita no som dos Bad Seeds de Nick Cave, através dos arranjos descosturados das guitarras de Blixa Bargeld (também do grupo industrial alemão Einstürzende Neubaten) e de Mick Harvey. O mesmo Harvey que - ao lado de Rowland Howard e também de Nick Cave - fez do grupo australiano Birthday Party uma verdadeira usina de ruídos e distorção, a partir de 1980.


O Metal Contra-Ataca – E eis que, quando todos já o julgavam morto e enterrado, o heavy metal ressurgiu das cinzas na década de 80 para levantar o moral dos headbangers. Entre os precursores deste “renascimento” estavam os guitarristas Angus Young (AC/DC), Steve Vai (Zappa, e depois na banda de David Lee Roth) e principalmente Eddie Van Halen (foto), que entre suas inúmeras peripécias no instrumento incluía a técnica do hammer on, solar percutindo as notas com os dedos no braço do instrumento.

Mas o guitarrista mais consagrado desse novo metal ficou sendo o sueco Ingwie Malmsteen. Fanático por música clássica, jazz, rock e, claro, por Hendrix, Beck e outros poucos guitarristas, aos 17 anos Malmsteen montou um grupo chamado Rising Force. Ele enviou uma demo para a revista americana Guitar Player e foi convidado para ir aos EUA por Mike Varney (dono da Schrapnel, gravadora independente especializada em metal), chegando a Los Angeles em 1982.

Em apenas dois anos sua reputação cresceu um bocado e ele já havia participado do Steeler e do Alcatraz quando decidiu remontar sua banda sueca, com os irmãos Jens e Anders Johansson, teclados e bateria, respectivamente. Daí nasceu o Ingwie Malmsteen’s Rising Force, que com quatro LPs gravados deixou patente a incrível perícia e velocidade dos solos desse guitarrista, que, aos 22 anos, já influenciara até mesmo uma “novíssima” geração de metaleiros: guitarristas como Kirk Hammett e James Hetfield (Metallica), Paul Gilbert (Racer X), David T. Chastain (CJSS) e Tony Macalpine.


Outros Sons – No começo dos anos 80 houve diversas tentativas de retirar a guitarra de seu contexto usual. Adrian Belew conseguiu um efeito similar ao de uma alavanca, entortando o braço de sua Stratocaster, além de fazê-la falar como um elefante. O jazzista Stanley Jordan (foto) definiu um estilo peculiar, tocando a guitarra com as duas mãos percutindo as cordas, como se ela fosse um piano. Já Vini Reilly tornou-se um mestre em elaborar tramas musicais de fina tessitura com sua Gibson Les Paul, as quais executava fazendo as partes do baixo simultaneamente com os solos na guitarra.

Porém, foi no estilo No Wave - surgido em Nova York no fim da década de 60 - que a guitarra libertou-se de qualquer preceito harmônico, seguindo uma linha atonal, de puro ruído. Instrumentistas como o pernambucano/ nova-iorquino Arto Lindsay e Fred Firth desenvolveram um estilo de tocar guitarra como se ela fosse um instrumento percussivo, quase sem espaço para as harmonias.

Já Gleen Branca tentou dar um novo enfoque ao som sinfônico, escrevendo peças para uma orquestra de guitarras. Essas experimentações afinal propiciaram o aparecimento de guitarristas adeptos fervorosos do ruído e da dissonância, como Lee Ranaldo, do Sonic Youth, e Keith Dobson, do World Domination Enterprises, entre outros.

E ao nos depararmos com a alta tecnologia, que através da guitarra sintetizada, do inigualável MIDI, dos novos softwares disponíveis no mercado e do ubíquo sampler de terceira geração que passou a reinventar a “frigideira” de Rickenbacker, só nos resta constatar que essa estrada de seis cordas não tem fim. Forever young. Forever rock. Oh, yeaaahhh!

Alguns termos técnicos

Chorus – Pedal que produz um ligeiro vibrato, com o alongamento da nota ou acorde soado.

Delay – Pedal que duplica o sinal, provocando uma defasagem de milésimos de segundo entre os dois sinais obtidos, criando um efeito de eco muito sutil.

Distorcedor – Pedal composto por um gerador que transforma o sinal emitido pelo instrumento, saturando-o antes que seja amplificado. Também é encontrado em modelos mais sofisticados, como booster, driver etc., mas seguindo o mesmo princípio.

Doubler – Pedal que duplica o sinal do instrumento, transmitindo o sinal original por um dos canais e o outro alterado por um segundo. Cria a impressão de dois instrumentos diferentes tocando simultaneamente.

Echo Chamber – Caixa acústica que produz eco por um sistema de alto-falantes rotativos. O mesmo efeito pode ser obtido por meio de dispositivos eletrônicos.

Equalizador – Equipamento utilizado para regular a tonalidade do instrumento, trabalhando nas três faixas de freqüência (altas, médias e baixas), o que torna possível uma mudança total no timbre do instrumento.

Feedback – Efeito pelo qual o próprio sinal amplificado pelo alto-falante faz vibrar as cordas do instrumento, que por sua vez realimentam o sinal amplificado, e assim por diante.

Flanger – Pedal que produz um efeito de eco com um retardamento de milésimos de segundo, criando um efeito semelhante ao do phaser, porém com timbres mais sofisticados.

Fuzz – Tipo específico de distorção caracterizado pelo timbre difuso e ataque potente.

Guitarra Sintetizada – Instrumento equipado com três captadores: dois comuns para alimentar o amplificador e um ligado ao sintetizador, cujo uso é controlado através de chave seletiva. Possui outros acessórios como uma alavanca para a transposição de escalas.

MIDI – Sistema composto por um captador que emite feixes de luz infravermelha através das cordas do instrumento, captando as vibrações e convertendo-as em sinais que viajam a velocidade da luz até um outro aparelho, que pode controlar computadores, sintetizadores e outros instrumentos eletrônicos.

Pedal de Volume – Pedal utilizado para criar efeitos de sustain de notas ou acordes e acentuar o sinal para outros pedais.

Phaser – Pedal que produz um efeito de eco rotativo pela mudança de fase.

Pré-Amplificador – Equipamento ligado entre a saída do instrumento e a entrada do amplificador, reforçando o sinal para o uso eventual de pedais.

Reverber – Equipamento constante em grande parte dos amplificadores. Produz a reverberação da nota ou acorde soado.

Sustain – Efeito pelo qual a nota ou o acorde soa por um tempo prolongado.

Vibrato – O mesmo que tremolo. Equipamento que produz uma pequena vibração no som do instrumento, acentuando a percepção da nota ou acorde soado. Pode ser obtido através da alavanca da guitarra, de dispositivo acoplado ao amplificador ou mesmo pela variação da pressão do dedo sobre a corda.

Wah-Wah – Pedal que acentua as freqüências médias do instrumento, permitindo controlar com os pés a mudança de tonalidade ao pressioná-lo (do grave para o agudo e vice-versa).

sexta-feira, agosto 07, 2009

Woodstock, 40 anos depois


Por Steve James

NOVA YORK (Reuters) - Woodstock está vivo - nos palcos, em filmes, em livros e clipes na TV, e para sempre na memória de quem foi jovem nos anos 60.

Quarenta anos depois do festival de três dias de duração que celebrou paz e amor em uma época de irritação e protestos pela Guerra do Vietnã, a nostalgia por Woodstock está num bom momento comercial.

É uma pequena ironia, considerando que o famoso festival se tornou “um concerto livre” depois de atrair centenas de milhares de pessoas a mais do que as 200.000 que os organizadores esperavam, com o ingresso a 18 dólares.

Sobreviventes de alguns dos atos promovidos entre 15 e 17 de agosto de 1969 vão novamente ocupar o palco no que era a Fazenda Yasgur, mas hoje é o Bethel Woods Center for the Arts, no norte do Estado de Nova York.

O show “Heróis de Woodstock”, no dia 15 de agosto, terá Levon Helm Band, Jefferson Starship, Ten Years After, Canned Heat, Big Brother e a Holding Company e Country Joe McDonald.

O filme “Woodstock” foi relançado no 40º aniversário de sua finalização pelo diretor, bem como a trilha sonora, em dois CDs, enquanto a Rhino Records colocou à venda uma caixa de 6 discos com todas as apresentações em Woodstock.

E no fim deste mês o cineasta Ang Lee vai lançar “Taking Woodstock”, um filme sobre um homem que trabalha no motel dos pais, que inadvertidamente dá a largada para o concerto.

Mas, para muitos, a história definitiva daquele verão de amor é “The Road to Woodstock” (A estrada para Woodstock), livro de Michael Lang, um dos organizadores do festival.


REALIZAÇÃO DE UM SONHO


“Havia essa impressão de que era um lindo campo e uma porção de gente apareceu e algumas bandas estavam na área e eles ergueram um palco e tocaram”, disse Lang à Reuters. “Na verdade, levou 10 meses para planejar.”

Ele e seus parceiros haviam planejado receber 200.000 pessoas no evento, e de fato buscaram a ajuda da Corporação de Engenheiros do Exército para parte da logística.

“Mas eles devem ter percebido o que estava acontecendo. Eles cancelaram uma reunião no Pentágono um dia antes, por isso fomos deixados por nossa conta”, disse Lang.

No momento em que a Guerra do Vietnã estava no auge e o movimento contra o conflito dividia os Estados Unidos, principalmente separando as gerações, é talvez pouco surpreendente que os militares não quisessem se envolver com o que estava sendo visto como um festival hippie.

Por isso Lang e seus parceiros foram deixados à vontade para realizar um show que apresentava 32 dos maiores sucessos musicais da época.

“Woodstock foi a realização de um sonho”, disse Lang sobre um evento conhecido tanto pelo lamaçal, drogas e longos quilômetros de congestionamentos como pela música.

“Mas não foi frustrante. Gostei de resolver problemas. Na época era excitante, não havia um plano e nós íamos resolvendo conforme as coisas aconteciam”, afirmou.

“Havia uma porção de semelhanças com o que está acontecendo agora no mundo. Foi a época do primeiro movimento no planeta, o movimento ecológico, que foi muito importante para nossa geração”, acrescentou.

Aquele verão 40 anos atrás também foi notável porque o homem caminhou na Lua pela primeira vez e os EUA ficaram horrorizados com Chappaquiddick, o acidente envolvendo o carro dirigido pelo senador Edward Kennedy, que resultou na morte de uma jovem que estava com ele, e os assassinatos de Charles Manson.

Havia também a questão da guerra -, na época, era o Vietnã, hoje o Iraque. “Depois de oito anos de governo Bush, pude ver que estávamos novamente em um momento muito obscuro”, disse Lang.

“E depois a posse de Obama foi apresentada no New York Times e outros jornais como um momento Woodstock.”

Lang, produtor musical e promotor de eventos, também organizou concertos no 25º e 30º aniversários de Woodstock, com a presença de artistas mais contemporâneos. Mas de Richie Havens, que abriu o Woodstock original, a Jimi Hendrix, que o encerrou, é dos músicos que ele mais se recorda.

“Houve três surpresas - Joe Cocker, desconhecido na época; Carlos Santana - você sabia que um superstar estava nascendo. E Sly Stone. Fiquei num canto do palco e vi todos eles”, disse Lang.


Barbara Kopple, Michael Lang, Rosie Perez durante a cerimônia de premiação do 2006 Woodstock Film Festival

Polêmica cerca HDs com novas músicas de Michael Jackson


LOS ANGELES (Reuters) - Surge mais um mistério na complexa pós-vida de Michael Jackson. Sua irmã LaToya se apossou dos discos rígidos de computador que contêm diversas canções inéditas que o cantor gravou antes de morrer com grandes nomes da música pop, como Ne-Yo, Akon e will.i.am, segundo a revista Rolling Stone.

Os HDs estava na casa em que o cantor morava, na Califórnia. Horas depois da sua morte repentina, em junho, familiares apareceram na casa para retirar todos os seus pertences, e LaToya pegou os HDs, segundo relato de Frank DiLeo, agente do cantor, à Rolling Stone.

“Eles encheram caminhões, retirando tudo”, disse DiLeo, em entrevista que chega às bancas nessa sexta-feira. “Eles achavam que Michael era o dono de tudo, então tiraram até a mobília alugada. São eles que vão administrar seu espólio?”

O testamento de Jackson garante 40 por cento do seu espólio para sua mãe, Katherine, de 79 anos, que quer mais controle e já levantou dúvidas sobre a dupla de administradores do espólio.

Em entrevista à Reuters, DiLeo disse ter “bastante certeza” de que os HDs estão no sítio Hayvenhrust, que pertence à família, na localidade de Encino, na Califórnia.

“Os advogados do espólio irão enviar cartas (para recuperar e inventariar o conteúdo dos HDs)”, acrescentou DiLeo.

Não foi possível ouvir representantes da família Jackson, inclusive LaToya.

Uma assessora de will.i.am disse que o cantor não ficou com cópias do seu trabalho com Jackson. Representantes de Akon e Ne-Yo não foram localizados ou não souberam dar nenhuma informação.

DiLeo disse à Rolling Stone que havia pelo menos cem músicas inéditas - muitas delas gravadas durante o auge da carreira de Jackson, na década de 1980, inclusive algumas faixas “sensacionais” que acabaram fora do álbum Bad, de 1987.

(Reportagem de Dean Goodman)

quarta-feira, agosto 05, 2009

A boa do próximo sábado!

E aí, truta, você é macho mesmo ou senta em cadeira ocupada?


Tabela de graduação do gênero masculino a partir da quantidade de testosterona secretada diariamente pelo saco escrotal de cada um:

1. Calça esportiva
a) Jeans comprado na rua 25 de Março = MACHO
b) Jeans de marca = METROSSEXUAL
c) Jeans de marca customizado = FRESCO
d) Jeans de marca customizado por dona de brechó = BICHA LOUCA
e) Não sabe o que é jeans = DRAG-QUEEN

2 . Camisa social
a) Camisa branca de meia com marcas de sujeira = CHUCK NORRIS
b) Camisa pólo de cor neutra = SUJEITO HOMEM
c) Camisa pólo com listas horizontais = GAY
d) Camisa pólo com bordados de cavalinhos e jacarés = BICHONA TOTAL
e) Camisa multicolorida ou camisa regata sem manga = PAJÉ DE BOI-BUMBÁ

3. Sapato
a) Kichute preto detonado = CABRA DO LAMPIÃO
b) Tênis de cano alto remendado com fita isolante = MACHO
c) Tênis bege estilo Dockside = VIADINHO
d) Mocassim, sapato de camurça = BAITOLA CONVICTO
e) Sapato de verniz = BICHONA DE QUATRO COSTADOS

4. Carro esporte
a) Jipe Hummer H3 Alpha = RAMBO
b) Ferrari 612 Scaglietti = SUJEITO HOMEM
c) Mitsubishi Pajero Full = BAITOLA
d) Citroen Xsara Picasso = QUALIRA DE CARTEIRINHA
e) Fusca, Baja, New Beetle = BICHA VELHA APOSENTADA

5. Comidas
a) Capivara, tartaruga, javali = CONAN
b) Churrasco, massas, frituras = MACHO
c) Peixe e salada crua = FRESCO
d) Sanduíches integrais = GAY
e) Aves acompanhadas de vegetais cozidos no vapor = BICHA ASSUMIDA

6. Bebidas
a) Cachaça, tequila, whisky = MACHO CONVICTO
b) Cerveja, gim, vodka = SUJEITO HOMEM
c) Vinho, Campari, caipifruta = MEIO GAY
d) Suco de frutas, isotônicos e licores doces > MUITO GAY
e) Suco de frutas com adoçante > PERDIDAMENTE GAY

7. Cerveja
a) Gelada e em grande quantidade = MACHO
b) Só cervejas extra, premium e importadas = HOMEM VACILÃO
c) Só uma, de vez em quando, pra matar a sede = BICHICE SOB CONTROLE
d) Com limão e guardanapo em volta do copo = BICHONA
e) Sem álcool = GAZELA SALTITANTE

8. Esportes
a) Futebol, Automobilismo, Basquete = MACHO
b) Squash, Tênis, Boliche = TENDÊNCIAS GAYS
c) Aeróbica, Spinning, Pilates = GAY
d) Patinação no Gelo, Ginástica Olímpica = BOIOLA
e) Os três itens anteriores, usando short de lycra = BICHA LOUCA

9. Esportes radicais
a) Canoagem em corredeiras, asa delta, alpinismo = JAMES BOND
b) Surf, rúgbi, motocross = SUJEITO HOMEM
c) Mountain bike, bung jumpee, wake-board = VIADO
d) Balonismo, vela, skate = BICHONA TEMPORÃ
e) Aeromodelismo, futebol de mesa, dominó = BAITOLA RENITENTE

10. Presentes que gosta de ganhar
a) Ferramentas = OGRO
b) Garrafa de whisky = MACHO
c) Gadgets eletrônicos, bagulhos de informática = HOMEM MODERNO
d) Roupas, meias e gravatas = VIADO FULEIRO
e) Flores, velas aromáticas, perfumes, bombons = BAMBI SEM VERGONHA

11. Higiene
a) Toma banho rápido, usa sabão em barra = LEGIONÁRIO ROMANO
b) Toma banho rápido, usa sabão em pó = MACHO
c) Toma banho rápido e usa xampu neutro = SUJEITO HOMEM
d) Demora mais de meia hora e usa sabonete líquido = SÉRIAS TENDÊNCIAS GAYS
e) Toma banho com sais aromáticos e espuma na banheira = VIADAÇO ASSUMIDO

12. Cremes
a) Só pasta de dentes = MACHO
b) Protetor solar exclusivamente na praia e na piscina = HOMEM DISCRETO
c) Usa máscara facial no verão = BICHA DEPRAVADA
d) Usa creme esfoliante o ano todo = BICHONA TOTAL
e) Não vive sem hidratante = FILA DE ESPERA DE OPERAÇÃO PRA TROCA DE SEXO

13. Limpeza da casa
a) Varre quando é pressionado pela Vigilância Sanitária = TROGLODITA
b) Varre quando a sujeira cobre o chão = MACHO
c) Varre uma vez por semana = FRESCO
d) Limpa com água, detergente e aromatizante = GAYZAÇO
e) Usa espanador de pó e tem um avental = GAZELA TOTALMENTE DEMAIS

14. Animais de estimação
a) Animal de quê? = MACHO
b) Tem um vira-lata que come restos de comida = SUJEITO HOMEM
c) Tem cão de raça que vive dentro de casa e come ração especial = BICHA
d) O cão de raça dorme na sua própria cama = BICHONA ASSUMIDA
e) Prefere gatos = BONECA TOTALMENTE PASSIVA

15. Plantas
a) Nem pra comer depois de dar porrada = CHUCK NORRIS
b) Come algumas, de vez em quando = MACHO
c) Tem umas no quintal, que nunca são regadas = SUJEITO HOMEM
d) Tem plantinhas na varanda do apartamento = VIADO
e) Rega, poda e conversa com as flores do jardim = BICHONA DESVAIRADA

16. Espelho
a) Não usa = VIKING
b) Usa para fazer barba = MACHO
c) Usa pra checar a pele e observa os músculos = GAY
d) Idem item c, e ainda verifica a bunda = BICHA LOUCA
e) Se admira com diferentes camisas e penteados = TRAVECO

17. Penteado
a) Não se penteia ou é careca = MACHO
b) Só se penteia pra sair à noite = SUJEITO HOMEM
c) Se penteia várias vezes ao dia = PEDERASTA CONFESSO
d) Pinta o cabelo = BOIOLA COM PEDIGREE
e) Dá conselhos sobre penteados = BICHONA DEPRAVADA

18. Balada
a) Freqüenta quadra de escolas de samba = MACHO
b) Freqüenta casas de forró = SUJEITO HOMEM
c) Freqüenta ensaios de boi bumbá = MEIO GAY
d) Freqüenta discotecas de shopping center = TOTALMENTE GAY
e) Freqüenta raves ou festas temáticas = GAZELA SALTITANTE

19. Onde pega mulher
a) Na bunda = JECE VALADÃO
b) Nas casas de massagem e puteiros = MACHO
c) Nas baladas, ruas e mafuás = SUJEITO HOMEM
d) Nos sites de relacionamento = VIADO
e) Nos classificados de jornais = BOIOLA CONFESSO

20. No primeiro encontro
a) Faz barba, cabelo e bigode = MACHO
b) Come só a bundinha = HOMEM FINO
c) Paga apenas um peitinho = BICHICE FORA DE CONTROLE
d) Rola só beijo de língua = BICHINHA NOJENTA
e) Divide as despesas = BICHONA SOVINA

21. Posição sexual favorita
a) Canguru perneta = RAMBO
b) Vaca atolada = MACHO
c) Frango assado = SUJEITO HOMEM
d) Sessenta e nove = VIADO
e) Papai e mamãe = VIADAÇO

22. Upgrade sexual
a) Viagra, cialis e uprima = GARANHÃO
b) Bebidas em dose industrial = HOMEM SINCERO
c) Manual do Kama Sutra = METROSSEXUAL
d) Fitas de vídeo pornô = GAY
e) Vibradores e anel peniano = BAMBI REGISTRADO EM CARTÓRIO

23. Saúde
a) Já enfartou, mas não larga o cigarro = OGRO
b) Faz exame de fezes de dez em dez anos = MACHO
c) Pretende começar uma dieta = SUJEITO HOMEM
d) Faz caminhadas diárias = BICHA
e) Se submete a toque retal a cada seis meses = QUALIRA CONVICTO

24. DSTs
a) Já pegou chuveirinho, mula e cancro mole = MAD MAX
b) Já pegou sífilis e cavalo de crista = MACHO
c) Já pegou gonorréia de gancho = SUJEITO HOMEM
d) Já pegou herpes genital = GAY
e) Já pegou aids = VIADO NOJENTO

25. Bandas de Rock
a) Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath = CHUCK NORRIS
b) Ramones, Nirvana, Slayer = MACHO
c) Beatles, Rolling Stones, Oasis = SUJEITO HOMEM
d) Blur, REM, White Stripes = BICHONA
e) Radiohead, Arctic Monkeys, System of a Dawn = BICHONA SEM VERGONHA

26. Estilo musical
a) Rock, reggae e hip hop = ESPADA MATADOR
b) MPB, samba de raiz e rock nacional = HOMEM MODERNO
c) Techno, trance e dance music = BICHICE AGUDA
d) Sertanejo, axé music e calipso = BAITOLAGEM CRÔNICA
e) Brega paraense e samba mauriçola = BOIOLICE TERMINAL

27. Restaurante
a) A quilo na periferia = MACHO
b) Regional estilo sujinho = SUJEITO HOMEM
c) Espanhol rústico sem afetação = MEIO GAY
d) Japonês com garçons vestidos de gueixas = MUITO GAY
e) Francês de qualquer tipo = ESTUPIDAMENTE GAY

28. Teatro
a) Vá ao teatro, mas não me chame = MACHO
b) Comédias sacanas com mulheres nuas = SUJEITO HOMEM
c) Peças clássicas no estilo shakesperiano = VIADINHO
d) Óperas, balés e peças de vanguarda = PEDERASTA ASSUMIDO
e) Teatro do oprimido = BAITOLA DE PAI, MÃE E PARTEIRA CURIOSA

29. Escritores
a) Pedro Juan Gutierrez, Charles Bukowski, John Fante = GARANHÃO
b) Gabriel Garcia Márquez, Luiz Fernando Veríssimo, Rubem Fonseca = MACHO
c) Rubem Braga, Julio Cortazar, Mario Vargas Llosa = SUJEITO HOMEM
d) Richard Bach, Roberto Shinyashiki, Brian Weiss = RAINHA DE BAILE GAY
e) Paulo Coelho, Trigueirinho, Lair Ribeiro = TRAVECO ENRUSTIDO

30. Filmes
a) Sexta-feira 13, Brinquedo Assassino, Laranja Mecânica = MAD MAX
b) Filmes de Charles Bronson, Chuck Norris e Bruce Lee = MACHO
c) Os Trapalhões, Loucademia de Polícia, Um Tira da Pesada = FRESCO
d) Forrest Gump, A Lagoa Azul, Titanic = BICHONA
e) Super Xuxa contra o Baixo-Astral, Eliana e o Segredo dos Golfinhos = GAZELAÇA
f) O Segredo de Brokeback Mountain = NO COMENTS

terça-feira, agosto 04, 2009

Paco Cac, o pulso insubmisso da cidade


Parceiro do saudoso e querido Samaral na seminal revista poética Urbana, meu brother Paco Cac foi curto e grosso a respeito de um toque dado aqui neste mocó: “Salve, Simão! Estou vivo e atuando. Veja no Google.”

É verdade. Nos últimos anos, Paco Cac tem percorrido o Brasil de cabo a rabo exibindo a mostra “Revistas de Poesia”, de seu arquivo pessoal, que refletem a diversidade dos projetos poéticos surgidos nos últimos 50 anos.

Ele também anda encenando com sucesso o mini-show “O Menor Espetáculo da Terra”, uma audição realizada em sete minutos para sete pessoas, com poemas de Torquato Neto, Samaral, Sousândrade, Ferreira Gullar, Nelson Cavaquinho, kzé e Paulo Leminski.

O poeta Paulo Cezar Alves Custódio (aka Paco Cac) nasceu no Rio de Janeiro, em 1952. Formado em Letras pela UFRJ, é professor de Literatura Brasileira e Portuguesa do CESB (Centro de Ensino Superior do Brasil), em Vaparaíso de Goiás (GO). Foi diretor da revista literária Gandaia (RJ, 1976-80) e co-editor da Urbana (1985-91).

Autor dos livros de poesia Ajustes de contas (RJ, 1977), O Pacífico é sempre Atlântico (Belo Horizonte, 1984), Coleção Primavera Verão de Poesia (RJ, Tapete Verde Edições, 1988), Pacto de palavras (Santos, 120 exemplares numerados, ilustração Sonia Cruz, 1993) e Pulso (Brasília, 2004), ele continua mais estradeiro do que nunca.

“Paco viveu tudo. Paco morreu tudo. Trinta anos, ou mais, de estrada. Todas as andanças, todas as paragens. Sofregamente. Paixões, náuseas, esperanças, vertigens. As suas e as nossas. Do corpo e do tempo. Mas, depois de tudo, o que fica não é a saciedade, a consciência aplacada, não é a pretensa sabedoria do vivido. Não é a maturidade. Em Paco, não. Depois de tudo, o que brota é a inocência. É uma outra inocência. (...) “Áspera e macia, / fenda de sol e frescor / Sobre o pilar.” / É a inocência (não ingênua: lúcida) que percorre, ainda e sempre, a bela Guanabara, sua e nossa, com um olhar inaugural, capaz de surpreender, por entre “mangues e palácios”, em meio às “vozes do fim”, o pulso insubmisso da cidade, “os sons de toda paz que se faz” – o perene “hino das manhãs”. Só um eterno suburbano como Paco poderia subir, como ele sobe, o outeiro da Glória e de lá do alto fazer a “deus dos céus”, como ele faz, uma belíssima prece pagã” (Luiz Dulci)

PS: Quem também deu sinal de vida foram as divas Marise Pacheco e Clotilde Tavares. Falo delas outro dia.


Alguns poemas do Paco Cac


passado são sílabas
versos múltipla unidade
passadas palavras
passando essas páginas viradas.

passeio com a saliva
passo com a língua molhada

linha-folha-pele
gestos marcam a lembrança
dessa hora e mais nada.

***

rogo a deus dos céus
que tudo caia sobre mim
raios, fragmentos de meteoros e fonemas
trovoadas, maremotos e outros troços

rogo a deus dos céus
que tudo venha contra mim
novenas, cavalhadas e poemas
nuvens de gafanhotos e às centenas
estrondo de tambores carnavais

***

Xico Chaves e Aimbarê

e lá foi o amigo
cavalgar nuvens
gargalhar raios
falar trovões
trepar estrelas.

nos deixando a ver navios
com o coração na boca
cara de besta, numa tarde cinza
esquina da Rua Real Grandeza.

se foi a beber e bebe e beer e doa.

***

garça sem asas
pluma nenhuma
ruínas a 100 quilômetros por hora
o bonde Alegria trilhando a Rua Bela
trem metropolitano rumo à Estação Estácio
o tiro passa, vírus que se alastra
farelos de Marte

***

palavra (a)bru(p)ta.
palavra em riste
passarinho que chora
letras são seu alpiste.

***

levo na bagagem
a camisa volta ao mundo
já puída que me deste nos anos 60
e o destino que escolhi:
detalhe que ninguém olha
caçador de coisas utópicas
mas guarde esses demorados beijos
junto da sua vitrola
vinho e tubo de cola
porque daqui a pouco
os sonhos podem se descolar da razão

***

escrevo porque é preciso
como um tiro
balido de cabrito
atrito
contrito
ruínas e ruídos
antigo mal dito repetido
todo silêncio neste grito

***

essa dor
é um desejo
febre, tiro certeiro

dia sem ritmo
noite perdida
estrela sem rumo

esta dor não tem defeito
meio Morse
dessegredo

***

que venha o sono
que venha a treva
essa coisa súbita, essa coisa eterna.

que venha o hino das manhãs
cega luz

apocalipse no quarto

***

silêncio,
sabiá nada aqui deixou
como se fosse à falta de um abraço
imagens fluidas, vozes no calcanhar
miudezas na cômoda
pernas na sala bebendo um chá
soletro momentos
a palavra assassina


***

voz
solta aos borbotões
ligeira e fraca
voz que nos eleva
voz que nos esmaga

voz
tateia o silêncio
escurece a parede
embaça o espelho
pede paz


voz
mil vezes algoz
que ora, chora
despede-se de nós


***

abarrotado de sol e cansaço
desço a Rua do Catete
este século minúsculo me acompanha
um homem é levado à sua sepultura
outro caminha com sua textura

tráfego de olhos o acompanha
retrato de olhos na memória
moedas, maço de cigarros.
um bigode de São Jorge

tarde que se desdobra
a rua coleciona suas histórias.

***


vem de lá o rastro,
flâmulas, velas
e das caravelas eis a sobra:

vem de lá, além-mar e aqui a terra
de lá minh'alma, resíduo Árabe-Lusitano

mas esta terra não tem mar
só tem mangue
eterna rota de ratos

esta terra não tem mar
sempre foi banhada pelo sangue.


***

janela para Montes Claros
porta para Paracatu
estrada para Brasília
e muitas terras para Unaí

outros tornos para João Monlevade
zonas da mata para Juiz de Fora
outra pastelaria para Santos Dummont
canaviais sob Ponte Nova

cheias do Rio Grande para Barra
São Francisco para Xique-Xique
Ibotirama, Oliveira dos Brejinhos
Lamarca e suas balsas

grileiros, pistoleiros e fazendeiros
sindicatos, sem terras e pastorais
com Elói Ferreira da Silva na memória


***

algo que lateja
bela menina que flora
cabelos de outras eras
forma que fecunda
vestido de amarelas imagens
como a fera que ruge
áspera e macia
fenda de sol e frescor
sobre o pilar

Revista de Revistas


Por Alex Cojorian

Revista de revistas: como pode ser isso? Pergunte ao poeta paco cac que ele ensina. Atualmente candango, egresso do Rio de Janeiro, onde esteve atuando como poeta longamente, até se mudar pra Brasília, pra onde trouxe, felizmente, o seu infinitamente itinerante Curto-Circuito de Poesia, que sempre acontece em algum lugar, às vezes com tema, outras vezes com muita gente misturada, agregando, fazendo, marcando presença e demarcando o espaço poético.

paco cac – originalmente Paulo Cezar Alves Custódio –, além do fazer poético – desde 77 tem um bocado de livros na bagagem, os últimos Pulso (2003) e Cadê vc palavra? (2005), já na safra brasiliense – esteve sempre atento aos meios de propagação da literatura. Não se assuste se você resolver fazer uma visitinha ao poeta: ele tem aquele quartinho dos fundos abarrotado de preciosidades. Enquanto a gente estava brincando com a palavra, o cara esteve atento à memória da palavra!

O resultado disso é o Volume 1 da Revistas literárias brasileiras 1970-2005. Publicado em 2006 (Brasília, ed. do autor, 500 ex.) com apoio da Secretaria de Cultura do DF, a RLB chega com 120 títulos registrados, a escolha de época partindo do critério da ratificação da censura prévia a periódicos até a ultra atualidade. Tem tudo! Navilouca, Código, O Feto, Gandaia, Anima, Bric-a-Brac, Garatuja, CEP 20.000, Et Cetera, Azougue, A Cigarra, Inimigo Rumor, Gárgula, Calibã, Nanico, Poesia Sempre, até as encontráveis em bancas, como a Cult, a Vozes, a Tempo Brasileiro, e outras tantas, pouco conhecidas, mas com o mesmo espírito contagiante.

Estão catalogadas ao máximo possível: sempre presente a fotinha da capa, em P&B, nem sempre periodicidade certa, número de páginas, tiragem, impressão regular, mas elas existem! E são a melhor prova de que a vida e a palavra passam e continuam fluindo por ali. Tem até bibliografia, e, para mim, a surpresa gratíssima: ali achei o Catálogo de Imprensa Alternativa publicado pela Casa do Incesto Produções – que ajudei a fundar e a afundar –, quando da exposição na Funarte, em 89, aqui no DF, em que a gente quase ficou doido tentando classificar os fanzines, revistas e outras publicações fragmentárias, apocalípticas e demolidoras. O CIA deve ter mesmo seu valor, porque, anos atrás, no Recife, Paulo Bruscki também me mostrou o seu exemplar, guardado com grande apego, sem saber que eu próprio o tinha cometido, junto com Gustavo e Carol e Daniel...

Mas o grande memorialista das revistas é o paco cac, que garimpou até o comentário certeiro do Leminski: “Consolem-se os candidatos. Os maiores poetas (escritos) dos anos 70 não são gente. São revistas. [...] onde a melhor poesia dos anos 70 se acotovelou em apinhados ônibus com direção ao Parnaso, à Vida, ao Sucesso ou ao Nada.” (Folha de SP, 16/05/82, folhetim 278, p.3)

Importante também reproduzir a chamada do autor: “As revistas que constam neste livro fazem parte do arquivo do autor. Os interessado em conhecer o arquivo poderão escrever para SQN 316 bloco B ap. 305 Brasília/Df CEP 70.775-020 pacocac@terra.com.br e paulo.custodio@terra.com.br.”

Que venha o Volume 2!